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UNIVERSO PARALELO

ENTERRAMOS O SÍMBOLO DE UMA GERAÇÃO

Ousarme Citoaian
A última edição do UP estava sendo blogada quando Nelito Carvalho era enterrado (e eu, vítima do mecanismo da repetição, quase escrevi “o corpo de Nelito Carvalho”) no cemitério da Santa Casa de Itabuna. “Foi-se uma era, o marco de uma geração” –  recitei para o jornalista Marival Guedes, nós dois ao lado do caixão aberto. Minutos depois, admiti que se Nelito pudesse pular dali, viria, de dedo em riste, me chamar de piegas ou, pior ainda, esgrimir seu adjetivo preferido: imbecil (que ele estenderia aos circunstantes, pelo pecado de me ouvirem). Nelito era assim: pão, pão; queijo, queijo – e mesmo com os amigos seu nível de hipocrisia era zero.

UM HOMEM QUE ERA BOM E NÃO SABIA

Nelito era bom e não sabia, talvez porque seu credo de comunista nunca teve como ponto focal a bondade, mas a justiça. No entanto, que homem bom ele foi! O seu SB – Informações e Negócios (antes, fez o Jornal de Notícias, com Manuel Leal) foi laboratório que projetou muita gente no jornalismo regional. Por ali passaram Paulo Afonso, Jorge Araujo, Kleber Torres, Cyro de Mattos, Mário de Queiroz, Alberto Nunes, Plínio Aguiar, Raimundo Galvão, Marival Guedes, Eduardo Anunciação, Chiquinho Briglia, Pedro Ivo, Antônio Lopes, Helena Mendes, Roberto Junquilho, Manuel Lins e vários e outros. Mesmo que dela retiremos os ingratos, os que chutaram o prato em que comeram, ainda assim a relação está longe de ficar completa.

RICO, TEVE A GENEROSIDADE EXPLORADA

Se alguém afirmar que Nelito foi um mecenas ele não resistirá à ofensa: ressurgirá dos mortos para protestar contra a infâmia (de dedo na cara do difamador “imbecil”, é claro). Mas, me dói dizer, ele estaria sendo injusto: quando rico (teve lá sua fase de pobreza intensa, criada pelo romantismo), custeou todo tipo de maluquice que lhe foi apresentada, na exploração de sua generosidade, a todos deu a mão. Este registro é feito na suposição de que muitos “alunos” de Nelito gostariam de fazê-lo, mas não encontram espaço. E com a certeza de que, em vida dele, este texto jamais poderia ser publicado. Ele me chamaria de piegas, no mínimo.

A LÓGICA EM OPOSIÇÃO AO ROMANTISMO

Restou dizer que chamá-lo de “romântico” seria outro motivo para uma fulminante resposta desaforada: comunista confesso, perseguido, mas nunca renunciante da doutrina que abraçou desde cedo, Nelito Carvalho – como é próprio dos marxista – cultivava a lógica, em detrimento do romantismo, e o materialismo em oposição ao idealismo. Creio ser mais justo retirar o termo anterior e afirmar que se ele não foi mais longe como empresário foi devido à sua absoluta falta de habilidade para sobreviver como homem de negócios no mundo capitalista hostil que ele tanto combatia. E, claro, à sua imensa generosidade que muitos exploraram sem nem lhe dizer “obrigado”.

OS GOLEIROS E O CAVALO DE ÁTILA

Talvez a literatura sobre futebol, para me deixar mal, não seja assim tão árida quanto eu disse aqui – e mais árida terá sido minha ignorância. No site do jornalista Flávio Araújo encontro dois livros que eu não conhecia e que falam, especificamente, de… goleiros. São trabalhos que, por certo, merecem ser lidos por quem se interessa pelo famoso esporte bretão. No primeiro, Goleiros – heróis e anti-heróis da camisa 1, do jornalista Paulo Guilherme, descobre-se que aquela posição digna do cavalo de Átila (“Onde goleiro pisa, não nasce grama”, diz o folclore) já foi ocupada por ilustres personagens (ao menos ilustres fora do campo).

O FRANGO AO ALCANCE DE TODOS

Para exemplificar, anotem que a meta foi defendida por figuras como o papa João Paulo II, o escritor francês Albert Camus (autor de A peste), o inglês “sir” Arthur Conan Doyle (criador de Sherlock Holmes), o cantor espanhol Julio Iglesias e o revolucionário argentino Ernesto Che Guevara. Como se vê, o lugar, antes chamado de “debaixo dos três paus”, é um espaço democrático, tendo sido habitado (com os frangos que a inabilidade chama), por tipos faceiros e de filosofias muito diferenciadas. Já o outro livro, de Roberto Muylaert, tira de campo os amadores e fala de um goleiro de verdade, numa história real e muito pouco engraçada.

DÍVIDA QUE ZAGALLO NUNCA PAGARÁ

Em Barbosa – um gol faz cinqüenta anos Muylaert narra o drama do grande goleiro Moacyr Barbosa, sempre estigmatizado por ter levado aquela bola de Gighia na Copa do Mundo de 1950, que deu a vitória aos uruguaios. O evento, já citado nesta coluna, passou à história com o nome de Maracanazo, o dia em que o Brasil estava prontinho para comemorar o primeiro título de campeão mundial e, subitamente, calou-se e caiu no choro convulsivo. Em tempos recentes, o técnico Zagallo proibiu a entrada de Barbosa na concentração do Brasil, alegando que o goleiro era pé-frio. A atitude inqualificável do ex-técnico gerou uma dívida que ele morrerá devendo.

O SILÊNCIO DO POETA SOB A CHUVA

Certa vez, num restaurante,
Dentro do espaço e do tempo,
Eu vi Padilha, o poeta,
Que vinha de estar infeliz
Pois trazia, contraídas,
Palavras, não de beijo, mas de fúria,
Esmagada no silêncio dos seus lábios.

Não quis sentar à mesa nem provar
Uma gota sequer do Johannesberg:
Foi-se embora em silêncio
Sem dizer a que veio, sob a chuva,
Como Pessoa,
Que nada encontrou, jamais,
Vindo de Beja  para o meio de Lisboa..

QUARTETO CHEIRA A FERNANDO PESSOA

Carlos Roberto Santos Araujo, autor de “Telmo Padilha II”, nasceu em Ibirapitanga (1952), mas “estourou” em São Paulo: ganhou lá o Concurso Governador do Estado, com a coletânea de poemas. Foi juiz de Direito em Itabuna e hoje é desembargador do Tribunal de Justiça da Bahia. Publicou os seguintes livros de poesia:  Nave submersa (1986), Lira destemperada (2003), Sonetos da luz matinal (2004) e Viola ferida (2008). Cultor de variadas forma de expressão poética (em particular, o soneto)  CRSA, em Soneto da noite escura, lembra outro grande nome da poesia em língua portuguesa: “A chuva toca piano/ Nos tímpanos da tarde nua,/ Dedilha com dedos lânguidos/ O teclado das lentas ruas”. Fernando Pessoa bem que poderia assinar este quarteto.

O DUPLO ALFABETO DOS BRASILEIROS

A coluna não emite regras de português (apenas sugestões e preferências) e não é o que o professor Odilon Pinto chamaria “Pronto-Socorro gramatical” (aliás, muita gente ficaria espantada com meu desconhecimento de gramática). Mesmo assim, volta e meia nos vêm consultas sobre determinadas questões. Exemplo: recentemente nos sugeriram “explicar”  o porquê de as pessoas  pronunciarem o nome de famoso político baiano (isola: toc! toc! toc!) como a-cê-eme e não a-cê-mê (do jeito nordestino). E antes que alguém ache isso natural, vamos lembrar que quem fala a-cê-eme fala também  a-fê-i (para Ação Fraternal de Itabuna) e não a-efe-i. Haveria contradição nesse comportamento?

O “FÊ-GUÊ-LÊ-MÊ” SUMIU DOS DICIONÁRIOS

Salvo melhor juízo, não existe aqui nenhuma incoerência. A pronúncia do “fê-guê-lê-mê”  é legitimada  pelo Aurélio,  o Michaelis a identifica como  regional (Nordeste), enquanto o Priberam (Portugal) sequer a menciona. No caso da AFI (a-fê-i) trata-se de consagração pelo uso, e dizer-se a-efe-i soaria absolutamente pernóstico, além de quase ofensivo às gerações de alunas que passaram pela escola de Dona Amélia Amado. Em Ilhéus, o Instituto Municipal de Educação (I. M. E.) é tratado como i-mê-é, igualmente por tradição de uso: por certo, chamar de i-eme-é o venerando “Ginásio Eusínio Lavigne”, de tanta história, não o identificaria perante os seus mestres e ex-alunos.

A IDENTIDADE NORDESTINA ESTÁ EM PERIGO

Acima da escolha de eme ou , está a questão da cultura nordestina, que vem sendo minada pela “globalização da linguagem” (fenômeno que chamo assim por falta de nome mais adequado), num  processo em que a mídia eletrônica é fundamental.  A antena parabólica liga o brasileiro do interior a um mundo que não é o dele, integrando-o, via novelas e telejornalismo, a uma “realidade de ficção” (se é que posso assim me expressar). Parece que já nos falta coragem para defender os valores regionais, enquanto sobra vergonha do nosso sotaque – e assim se esvai nossa identidade de povo nordestino. A propósito do citado dirigente, chamá-lo a-cê-eme ou a-ce-mê daria no mesmo mané luiz.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

DO NORDESTE PARA O MERCADO NACIONAL

Zé Dantas, médico, poeta e folclorista pernambucano (Carnaíba, 1921 – Rio, 1962) ajudou muito a “nacionalizar” a música popular nordestina em geral. Fez mais de 50 composições (a grande maioria com Luiz Gonzaga), sendo que pelo menos uma dúzia delas é de clássicos que todo mundo conhece: Vozes da seca, Cintura fina, A volta da asa branca, Xote das meninasRiacho do navio, Sabiá, A dança da moda, Farinhada, Imbalança, Vem morena, Forró de Mané Vito, Letra I. Dantas (na foto, com Luiz Gonzaga), que não quis seu nome nas primeiras letras que foram gravadas – para que o pai não lhe cortasse a mesada de estudante, fez também a letra de ABC do sertão, ilustrativa do que queríamos dizer. Clique, veja e ouça.
(O.C.)

7 respostas para “UNIVERSO PARALELO”

  • Ronaldo says:

    Seu Ousarme,

    Eu sempre falei AFI, e não AFC, já que é Ação Fraternal de Itabuna (Aff!..Como diria minha filha, que lá estudou).

    Um abraço,

  • O Grapiúna says:

    Até os bons morrem.

    O C, eu gostei dessa denominação “globalização da linguagem”. Na realidade, gosto não só da tal globalition; gosto de ser NORDESTINO.

  • Souza Neto says:

    Sempre que “navego” (será que já posso escrever sem aspas?) no Pimenta leio suas ótimas opiniões.

    No que se refere à “identidade nordestina”, ou bahiana, pergunto-lhe sobre o fato de os nordestinos torcerem para clubes de futebol do Rio de Janeiro, em detrimento aos de seus próprios Estados. Como fica a “identidade nordestina nesse caso?

    Eu escrevi “identidade… bahiana”. Nunca escrevi nem escreverei bahiano sem “h”. Para mim, baiano deriva de baía, acidente geográfico, ou de baia, local onde equinos e muares dormem, repousam e se alimentam. O nome do nosso Estado é Bahia, portanto, quem nele nasce é bahiano. Além disso, bahiano tem uma pronúncia diferente de baiano.

    São, portanto, duas situações apresentadas para suas considerações:

    1ª) Como fica a identidade regional do bahiano que torce para clubes do Rio?
    2ª) Bahiano ou baiano, qual a grafia mais adequada?

  • O Grapiúna says:

    eu torço p/ Vitória da Bahia 🙂
    gostei do comentário do S N

  • O. C. says:

    Caro Souza Neto,
    Sua saudável provocação motiva uma palestra, uma conferência, coisa para muito além de minhas aspirações de velho jornalista que nem chega a comunicólogo. Mas como adoro dar palpites, lá vai a minha interpretação, absolutamente pessoal:
    Nossa identidade foi formada pelo Rio de Janeiro, capital, ex-capital, centro pensante e irradiante de cultura. O futebol é só uma das vertentes: jornais (ai que saudades do JB, do Correio da Manhã e da Última Hora), rádio, teatro, literatura, música – tudo nos vinha do Rio. A coisa se consolidou a tal ponto que, dói confessar, até hoje é assim. Não há nordestino que haja vencido aqui. Para ficar apenas na literatura de baianos, todos os autores com nome nacional de que tenho notícia foram projetados a partir do Rio: Hélio Pólvora, Marcos Santarrita, Cyro de Mattos, João Ubaldo, Telmo Padilha, Jorge Amado, Adonias Filho… Na MPB, idem: Caymmi, João Gilberto, Caetano, Gil, Betânia, Gal, Assis Valente… A única manifestação baiana que venceu sem sair daqui foi a tal de “axé music”, em que eu, até agora, não vi maior significado, a não ser este. Enfim, acho que fomos “colonizados” pelo Rio, faltando à região Nordeste, eternamente condenada ao atraso, capacidade de “assumir” os seus filhos. E hoje a população continua vítima desse fenômeno – haja vista a influência da Globo.
    Quanto à preferência pela grafia bahiano, seu argumento é ponderável, mas tropeça na regra: a única exceção para o H medial é na palavra Bahia. Quando foi instituída a regra um gramático mal humorado disse que a Bahia tinha mais prestígio do que Jesus Cristo (então, grafava-se Christo – que perdeu o H, enquanto Bahia o conservou). Alguns autores (João Guimarães Rosa, José Saramago, Monteiro Lobato, Pedro Nava) se rebelaram contra algumas formas gramaticais. Grafar com H os derivados de Bahia é uma rebeldia que certas pessoas adotam, principalmente quanto a entidades (Faculdade Bahiana de Medicina, p.ex.). Você não está só.
    Muito obrigado.

  • Souza Neto says:

    Quem agradece sou eu. Especialmente pela gentileza da resposta.

    Estou entre os que “venceram” no Rio. Afinal, foram mais de trinta anos por lá. Mas, será que não teria também “vencido” aqui. Isto eu nunca vou saber!

    Hoje sou um velho marinheiro de sessenta anos. Quando, aos 17, cheguei ao Rio, achava que era torcedor do Botafogo. Antes, aqui, “assistia” aos jogos do Botafogo na Nacional e na Globo. No Rio, passei a frequentar todos os estádios onde o Botafogo jogava: do Maracanã ao Ítalo del Cima, no longínquo subúrbio de Campo Grande.

    Entretanto, algo muito estranho começou a acontecer. Botafogo x Bahia: lá estava eu torcendo pelo Bahia. Até aí tudo bem, sempre fui tricolor bahiano. Botafogo x Vitória: olha eu torcendo pelo Vitória.

    Em pouco tempo havia descoberto que não era botafoguense, mas torcedor de qualquer clube da Bahia que jogasse com os clubes de outras paragens. Em muito pouco tempo havia também descoberto o modo de ser carioca. Carioca não gosta nem valoriza nada que não seja de sua cidade. Pensei: “Ora bolas, por que vou ficar aqui colocando azeitona na empada deles?” Isto não quer dizer que os caras não são “gente fina”! São, até demais! Tenho duas filhas nascidas no Rio e adoro a cidade que me acolheu ainda muito jovem.

    A partir desses acontecimentos, despertei para a importância de se valorizar o lugar onde se nasce. No meu caso particular a Bahia. A minha estima pela cidade do Rio e sua gente é muito grande, contudo, tão logo fui atendido na solicitação de transferência para a reserva, retornei.

    Como nunca fui de fugir de uma boa crítica ou debate, sempre que oportuno, questiono meus conterrâneos sobre seus fanatismos por clubes cariocas e pela grafia e pronúncia da palavra “baiano”. Alinho-me entre os “rebeldes” e sempre escrevo “bahiano” e pronuncio “bahíano”, entonando o “hi” como em Bahia.

    Obrigado pela gentileza.

    Nota: reli o texto apenas uma vez. Perdoe-me os erros.

  • Caros:

    A matéria sobre Nelito Carvalho me remete ao passado, inesquecível, gravado lá dentro. Amigo para todas as horas (com lugar comum mesmo), Nelito introduziu-me no jornalismo e a ele devo coisas preciosas que até hoje carrego: a apuração da notícia com rigor ético e profissionalismo, e o inquestionável sentimento de justiça.
    As ideologias políticas ficaram para trás, cederam lugar a uma justiça maior, a de Jesus Cristo. Mas a gratidão ao velho amigo permanecem para sempre.
    Obrigado a vocês por me trazerem lembranças tão agradáveis.
    Abraço.

    Roberto Junquilho

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