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UNIVERSO PARALELO

UM ENTRAVE DE NOME ESQUISITO: ANACOLUTO

Ousarme Citoaian
Falamos aqui de termos que aparecem nas frases sem que nada de bom a elas acrescentem – aos quais os gramáticos chamam de anacolutos, ou nome parecido. No caminho de quem persegue a “linguagem econômica” (apanágio de poucos redatores) emergem os tais anacolutos como um dos mais sérios obstáculos a transpor. Observo, na leitura das mídias regionais escritas, que entre nós abunda (além da preposição “de”, penduricalho que muito me irrita) uma profusão de artigos, indefinidos, sobretudo. É tamanho o festival de “um” e “uma” que até parece epidemia, caso de saúde pública.Vejamos alguns exemplos, colhidos aleatoriamente.

EMPREGAR MUITO ARTIGO LEVA AO DESASTRE

“Não é por um acaso que Itabuna ficou sendo a cidade mas (sic!) violenta do país”, diz um blog; “Quero deixar claro que se por um acaso inaceitável…”,  escreve colunista de Ilhéus, comentando a ideia gaiata de  anexar o  Salobrinho a Itabuna. Outro articulista, de Itabuna, titula seu arrazoado como “O direito de se ter uma opinião”. Mais curioso é que “O direito de se ter uma opinião” poderia, com lucro para o estilo, ser reduzido a “Direito de opinião”. Sobre os artigos definidos, falaremos num dia desses – mas adiantemos que tal categoria tem um quê de bebida alcoólica: se usar muito, o desastre é certo.

HÉLIO PÓLVORA E A LINGUAGEM ECONÔMICA

O texto econômico, de um mestre, da linha direta de Graciliano Ramos: “O coronel sacou o relógio da algibeira, em gesto maquinal. Sol a pino, de meio-dia. Ao longe, além das pastagens, os cacaueiros tinham um jeito tristonho de árvores murchas. O coronel cumprimentou o Surdo com um aceno de cabeça, depois de franzir a testa na tentativa de reconhecer-lhe a fisionomia e o nome. Inútil, eles se viam pela primeira vez. O Surdo desejou-lhe boas-tardes – e o coronel, devolvido o relógio chapeado de ouro à algibeira do colete de casimira inglesa, caminhou para o armazém, seguido por um pequeno séquito de curiosos” (Hélio Pólvora – Inúteis luas obscenas/2010).

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A LITERATURA ESTÁ PRESENTE NO DIA A DIA

A literatura, muitas vezes desdenhada, está presente na vida brasileira, bem mais do que admite nossa vã filosofia. Há frases que integram o imaginário nacional, muitas vezes citadas sem referência a origem e autoria. Exemplos que me vêm à mente: “Vai-se a primeira pomba despertada”, verso que já utilizei, emprestado de As pombas, de Raimundo Correa (foto) – que, contam, detestava este soneto, de tanto que o ouviu recitado; volta e meia alguém, falando de nossa língua a chama de “Última flor do Lácio” – sem pagar direitos autorais a Bilac; “A mão que afaga é a mesma que apedreja” é lembrança de Augusto dos Anjos, empregada à larga.

MÁRQUEZ, QUEM DIRIA, VIROU LUGAR COMUM

O repetido “mudaria o Carnaval ou mudei eu?” é Machado de Assis, que também popularizou o círculo vicioso; Gabriel García Márquez teve seu título Crônica de uma morte anunciada /1981 transformado em lugar-comum pela mídia pouco pensante, a ponto de não aguentarmos mais a expressão “tragédia anunciada”, apresentada como novidade.  O então ministro da Saúde (até tu, Tinhorão?), escolheu aproximar-se mais do título, ao comentar uma epidemia de dengue em Itabuna. “O que houve ali foi uma crônica da morte anunciada”, disse o lusitano. Em alguns veículos encontramos, em tempo de dengue exacerbada, verdadeiras pérolas do gênero.

NUNCA SE VIU TANTA “TRAGÉDIA ANUNCIADA”

“De acordo com os representantes do Ministério Público, o problema que atinge na região (sic!) foi uma tragédia anunciada”, diz um blog; “O que está acontecendo em Ilhéus é uma tragédia anunciada, proclama outro; de bem antes (2008), n´O Globo: “Essa tragédia porque passa o Rio foi muito anunciada”; a Veja (outrora modelo de linguagem jornalística),  na mesma data e trilha: “A situação do Rio é, nada menos, do que uma tragédia anunciada” e, adiante,  empolada: “quando a tragédia anunciada enfim se impõe como realidade…”. O governador, para não ficar atrás, também definiu a enchente no Rio como uma tragédia anunciada.

VINÍCIUS, SHAKESPEARE, ROMEU E JULIETA

Como se vê, nossa mídia tem mais tragédia do que o antigo teatro grego – e eu, sem pensar, me vali de uma expressão também clássica, numa paródia de  “Até tu, Brutus!”, atribuída a Júlio César (ano de  44 a. C.) e popularizada no teatro de Shakespeare. Aliás, o bardo inglês é responsável pela apelido de sujeito apaixonado:  Romeu (referência ao protagonista de Romeu e Julieta). “Depois de um longo e tenebroso inverno” é verso de Luis Guimarães Jr. que já nos incomoda, de tão recidivante; e “De repente, não mais que de repente” é da lavra de Vinícius, muito lembrado, mas que perde feio para “que seja infinito enquanto dure”.

JOIA RARA: ELLA CANTANDO EM PORTUGUÊS

O LP duplo (alguém ainda sabe do que estou falando?)  Ella abraça Jobim foi a grande surpresa fonográfica de 1981. Não é o melhor Ella Fitzgerald que já se ouviu, mas é um buquê de 19 canções de Tom, selecionadas por Norman Granz  (que o chamou de The Antônio Carlos Jobim songbook), na voz de uma das maiores cantoras de jazz de qualquer tempo, segundo a melhor crítica. Apesar de as letras vertidas para o inglês, chama a atenção o esforço que a grande diva faz para cantar alguns trechos em língua portuguesa, o que torna ainda mais singular a homenagem a Tom Jobim.

COM RISOS INOCENTES, SONOROS PALAVRÕES

E é Tom quem explica ter ouvido da cantora que ela teve um padrasto português, homem desinibido, que, como bom lusitano, “costumava desabafar em baixo calão”. Como prova de “conhecimento”, a cantora recitou, na maior inocência, e para a vermelhidão do maestro brasileiro (ou Brasileiro!), todos os palavrões de que ainda se lembrava (que não eram poucos!), enquanto “ria, com seus olhinhos inocentes”. É ainda o pai da Bossa Nova quem depõe: ”Percebi que Ella não sabia o significado daqueles tão sonoros palavrões, mas, de qualquer forma, eles devem tê-la ajudado para cantar em Português”.

HERANÇA: CAMARÁ, CAMARADA, CAMARADINHO

Camará é termo largamente empregado nas rodas de capoeira, sem o sentido registrado nos dicionários. Creio que seja uma apócope (“perda de sílaba final”) de “camarada”, mas o termo tem assento em documentos de cultura afro que não a capoeira. Os Tincoãs, extraordinário grupo vocal do Recôncavo, lembra uma estranha forma do falar afro-baiano, em A força da jurema: “Meus camarada, meus camaradinho,/ meus camarada, meus camaradinho,/ se quer que eu dance/ toque um pouquinho!” – enfim, são os surpreendentes caminhos da indomável língua brasileira. Clique e veja como Ella se sai nesse meio: Água de beber (Tom-Vinícius).

(O.C.)

3 respostas para “UNIVERSO PARALELO”

  • ILHEENSE says:

    Sol a pino, de meio dia.
    Não teriamos aí um anacoluto?

  • Regina says:

    Caramba, camará Ousarme, na tarde de sábado e na manhã de domingo ouvi Tincoãs e Cantores de Èbano. E pensei: Como um grupo cantando de forma afinadíssima, parecendo um grupo gospel, entoando canções sobre o candomblé, fazia tanto sucesso ? Os cantores de Èbano também cantavam a religiosidade africana entre outras coisas. Na certa furavam um cerco de preconceito racial contra as religiões de matriz africana. Pois eu conheci Tincoãs lá na minha terra, quando nem sonhava em pisar na Bahia. O Tincoãs apontava a existência do universo paralelo ao “Establishment Paulistano”.

    “Volta e meia alguém, falando de nossa língua a chama de “Última flor do Lácio” – sem pagar direitos autorais a Bilac;”

    Perdão camará Bilac.
    Sêo Tinhorão… vai devagar.

  • leidikeiti says:

    Ella é presente, mas…
    Tincoãs, meu Deus!
    O supra sumo da africanidade.

    Da próxima manda Tincoãs, Ousarme!

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