WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia


alba










outubro 2011
D S T Q Q S S
« set   nov »
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
3031  

editorias





itao




UNIVERSO PARALELO

UMA IRRESISTÍVEL ATRAÇÃO PELO INUSITADO

Ousarme Citoaian

A “inteligência” brasileira, é incrível, ainda discute se o termo “certo” é presidente ou presidenta, quando se trata de mulher. E se retomamos o tema é porque esta coluna sofre de irresistível atração pelo inusitado. Há dias, espantou-me uma declaração do escritor Antônio Risério, em artigo n´A Tarde.  “Ninguém vai me obrigar a escrever ´presidenta´. É forma dicionarizada e correta, sei. Mas dói nos meus ouvidos. E não coloco norma ideológica alguma acima da estética da língua. Nem resisto em repetir a brincadeira do nosso querido João Ubaldo: daqui a pouco, vamos acabar falando do ´motoristo´ do táxi ou das ´adolescentas´ que adoram baladas”, disse o autor de Adorável comunista (biografia de Fernando Sant´Anna).

RISÉRIO: PROSADOR, POETA E “SANGUE BOM”

A estranheza é que esse equívoco sobre “norma ideológica” parta de quem partiu. Antônio Risério, sangue bom, além de prosador e poeta, é doutor em Sociologia e dono de respeitável trabalho de pesquisa que incorpora ao português elementos de linguagem africana. E pena ainda é que ele embarque nesse sem-gracismo de João Ubaldo, grande escritor, que tem apresentado ultimamente estranha semelhança com Diogo Mainardi (a lista de baboseiras dos que se opõem a presidenta inclui ainda representanta, dirigenta, eleganta, sorridenta e outras – uma forçação de barra com gêneros femininos que, simplesmente, nunca existiram na língua. Risério, ao menos, manteve a velha decência, ao afirmar que presidenta “é forma dicionarizada e correta”.

POLÍTICOS NÃO DECIDEM SOBRE A LINGUAGEM

A tal “norma ideológica” não está em chamar mulher de presidenta, mas em não fazê-lo.  A forma “a presidente” (comparável a “o salsicha”) é discriminatória da mulher – que quando assume um cargo “de homem” é obrigada pelo machismo vigente a assumir também a forma masculina – segundo o filólogo Marcos de Castro. Dizer, como o fazem certos setores mais reacionários da sociedade, que “isto é coisa do PT” – a dita norma ideológica a que se referiu, equivocadamente, o escritor – é rematada tolice: políticos não decidem sobre a linguagem. E presidenta tem abono dos clássicos (Risério sabe mais do que eu): está, por exemplo, no luso Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875) e no contemporâneo brasileiro Ariano Suassuna (1927-…).

EVITEMOS O PERIGO DOS SONS SIBILANTES

O ”s” é inimigo da comunicação oral, pois sua presença torna a pronúncia mais difícil. Importante semanário de Itabuna tascou: “Carnes ainda são vendidas a ´céu aberto´”; enquanto outro importante diário de Itabuna criava uma coluna chamada Músicas. Há um truque de que se valem os redatores mais competentes: empregar a forma singular, sempre que a plural não seja indispensável.  É preferível “a chuva que caiu esta semana…” – a “as chuvas que caíram esta semana…”. Ao ler em voz alta as duas frases, percebemos que dizer “a chuva” é algo bem mais simples do que “as chuvas”, uma armadilha de sons sibilantes. E mesmo que tenha chovido por vários dias, não há erro em generalizar tudo como “chuva”.

A FORMA SINGULAR É SEMPRE MAIS SIMPLES

Já ouvi coisas piores. Em rede nacional, uma emissora de tevê informa que a polícia, em ação num morro do Rio, apreendeu “mais de mil munições”. Isto é bobagem da grossa, pois “munição” está entre as palavras que raramente são empregadas no plural (ao contrário de juro/juros). Na verdade, a polícia apreendeu balas. Parêntesis para dizer que acho ótima a frase “munição de boca”, gíria da caserna para comida (“rancho”). Aliás, “comida” está na nossa lista de plurais “evitáveis”: alguém que conhece o básico da língua portuguesa jamais dirá “as comidas daquele restaurante são muito boas” – mas “a comida daquele restaurante…”. No singular é bem mais simples.

SEM “GEOMETRIA” NÃO SE VAI AO ESPAÇO

Chuva e munição. Lembro ainda orientação e coreografia. Com irritante freqüência ouço repórteres falarem das “orientações” dadas pelo técnico à equipe e das “coreografias” de tal peça de teatro. Façamos uma campanha para economizar os “esses”: basta “orientação” (pouco importa se repetida) e “coreografia (nem que a peça tenha 300 atos!). No mais, é filosofar: só terão acesso ao paraíso os redatores que sabem ser a reta o caminho mais curto entre dois pontos. Dia desses, na sujíssima Central de Abastecimento de Ilhéus, ouvi um senhor dizer que era de “Itabunas”. Ele pode, pois é feirante, não jornalista, “formador de opinião”.

COMENTE! » |

SARAH VAUGHAN: A GRAVAÇÃO “DEFINITIVA”

Por fim, o terceiro vídeo mais visitado da coluna: Someone to watch over me, a bela canção de Gershwin, teve 1.882 visualizações. A estatística do Youtube, para mim incompreensivelmente, não inclui a audiência no Brasil, mas a do exterior. O vídeo foi acessado (por ordem de quantidade) nos Estados Unidos, Japão, Israel, Filipinas, Espanha, Itália, Reino Unido, Alemanha, Argentina e Grécia. Someone… já teve todo tipo de gravação, de Ella Fitzgerald a Emílio Santiago, Frank Sinatra e Amy Winehouse (com entonações de Billie Holiday), de Hilary Duff  e Barbra Streisand à surpreendente Susan Boyle.  Mas, como tudo que Sarah Vaughan faz, esta é definitiva.

NÃO MAIS QUE UM “CORDEIRINHO OFERECIDO”

 A letra é feminina (Ira Gershwin não era da tribo!), com coisas do tipo “Eu vou procurar/um certo rapaz/que eu tenho em mente” (I’m going to seek/a certain lad/I’ve had in mind), ou “Ele é o grande caso/que eu não consigo esquecer/o único homem em que penso/com arrependimento” (He’s the big affair/I cannot forget,/only man I ever think/of with regret). Isto não impediu a gravação de Frank Sinatra, mas a versão (Zé Rodrix-Miguel Paiva) para Emílio Santiago “masculinizou” o texto:  man foi traduzido por “mulher” e, mais chocante, I’m a little lamb/who’s lost in the wood transformou-se em “Não sou mais que um cordeirinho/perdido, arrependido e oferecido”. Estranho.

 O GRAVE PRIVILEGIADO DE SARAH VAUGHAN

As três grandes divas negras do jazz, por ordem de nascimento, são Billie Holiday (1915-1959), Ella Fitzgerald (1917-1996) e Sarah Vaughan (1924-1990). Eu levaria pilhas de CDs de todas elas para a tal ilha deserta.  Mas minha preferida é Sarah Vaughan, pela versatilidade, a presença cênica e o grave privilegiado. Sei que Billie (foto) é a tristeza do blues associada à história de sofrimento pessoal (algo próximo a Edith Piaf). É pioneira – como se toda cantora negra do mundo buscasse um pouco do seu “patos”.  E sei que Ella, segundo os críticos, bateu as duas. Ella é “a dama do jazz”. Eu, que não tenho técnica, tenho só emoção, elegi Sarah.

(O.C.)

9 respostas para “UNIVERSO PARALELO”

  • Meu querido professor
    Pode não ter sido dirigido a mim o esclarecimento sobre os sons sibilantes, mas humildemente ponho a carapuça..Acho que exagerei na dose, no comentário anterior. Contudo já fiz coisa pior (mas aí, em plena consciência, só para incomodar o ouvido do leitor).
    Se tens o livro “A longa viagem…” encontrarás o desabafo “Destilando feito sssserpente”.
    Estou sempre ao teu dispor, nenhum constrangimento. Continuo fiel leitora e aluna dedicada.
    Um abraço.

  • leidikeiti says:

    Caro Ousarme!
    Tenho a ousadia de dizer o quanto fico constrangida quando ouço ou leio pessoas que tem trânsito com escrita e leitura, falar ou grafar: as poesias de Fulano de tal. Não seria correto falar a poesia de fulano de tal, por exemplo, a poesia de Iolanda Costa tem qualidade? Ah, para mim, a Poesia é singular, tanto que é absoluta, espiritual…

  • Ribeiro says:

    Ousame, é maravilhoso, sempre, lê-lo. São observações (correções) que deliciam os que amam escrever bem em português. Aliás,tentam escrevê-lo bem, como este humilde admirador.Parabéns!

  • O.C. says:

    Respondo aos comentários desta edição, pela ordem em que foram postados:
    Ribeiro
    Esta coluna tem recebido comentários tão generosos que me deixam em risco de ficar excessivamente “metido”. Se isto acontecer, você terá grande parcela de culpa… Falando sério: esconder que fico feliz com tal reação seria alimentar a hipocrisia, o que não pretendo.

    leidikeiti
    Concordo inteiramente. Entendo que o melhor é “a poesia de Dinah Hoisel” (guardando plural para “os poemas…”); “a obra de Jorge Amado” (no plural, “os livros…”). Poesia no singular, como você defende. É bonito também “poética”, no sentido de fazer poesia: “a poética de Iolanda Costa” – e por aí vai. Suas intervenções nesta minha coluninha têm sido por demais pertinentes.

    Jardineira (quase) frustrada
    “Não fique triste/ Que este mundo é todo teu…”
    Eu não seria grosseiro a ponto de fazer uma nota como crítica ao seu comentário (eu não o havia lido ainda). E escrever “as chuvas” quando eu acho que deve ser “a chuva” não significa, rigorosamente, erro – mas preferência. Apenas sugiro que os leitores comparem as duas formas (se é que não fizeram isto antes) e escolham, agora com inteira segurança, qual a melhor para si.
    E quando você me chama de “professor” não sabe o tamanho da homenagem que me presta. Não sou professor, mas gostaria de sê-lo, pois tenho por essa atividade uma admiração que não pode ser traduzida em palavras, só em emoção. Professor é o máximo. Quem me dera!
    Obrigado a todos, mais uma vez.

  • leidikeiti says:

    Oosarme!
    Você é oásis nesse quase árido deserto. Que bom que acertei no entendimento da singularidade poética. Então, poema é a forma do poeta arrumar o que sente e nós recepcionamos. Há poemas que está mais por fora de poesia do que “roda de galeota” – como diz o adágio popular – enquanto há prosa carregada de poesia. Que belo! Evoca-me agora Octavio Paz.

    Durma com os anjos Ousarme, estou lisonjeada com suas palavras às minhas humildes intervenções. Obrigada!

  • Luiz Edmundo de Carvalho Alves Júnior says:

    A forma é dicionarizada a partir do uso político, e derivado do espanhol a partir de Isabelita Peron, primeira presidente e que exigia ser chamada de presidente; então se é político, claro, que é ideológico; o português e o espanhol têm suas regras e palavras como “ente” não possuem feminino nem masculino são “comuns de dois gêneros”, logo todas as derivadas do mesmo não devem possuí-lo; por isto a brincadeira de João Ubaldo e de tantos outros como, eu; ideologizada também é esta obrigação de “todos e todas”, uma vez que não existe gênero masculino exclusivo, isto é, palavras apenas masculinas; todas as palavras ditas masculinas são na verdade “comum de dois gêneros”; existe sim no português palavras exclusivamente femininas…

  • Luiz Edmundo de Carvalho Alves Júnior says:

    Desculpe: Isabelita exigia ser chamada de presidenta.

  • Luiz Edmundo de Carvalho Alves Júnior says:

    Desculpe mais uma vez; não sabia que um clássico do século XIX usava presidenta; mas os clássicos muitas vezes não são seguidos e são até esquecidos. Bom lembrar também que vale mais o uso popular, que no caso, pode até modificar regras e criar novos usos para palavras antigas ou até oficializar erros e ditar novas regras como na substituição de “tu” e “vós” por “você” e “vocês” que sendo “segunda pessoa” têm a sua concordância verbal como “ele” e “eles”, que são “terceira pessoa”.

  • Matheus says:

    Frank Sinatra em matéria de emoção nas músicas é rivalizado por poucos; Mas acho que não se deve comparar certas versões de standards, elas podem ser interpretadas de várias formas.

Deixe seu comentário








WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia