Ernesto diz que o PT precisa restabelecer o diálogo com os movimentos sociais (foto Pimenta)

Ernesto diz que o PT precisa restabelecer o diálogo com os movimentos sociais (foto Pimenta)

O jornalista Ernesto Marques, vice-presidente da Associação Baiana de Imprensa, tem consciência de que trava uma luta desigual, mas diz que representa a voz da “planície” na disputa pela presidência do PT na Bahia. Segundo ele, o partido se burocratizou, seus dirigentes se encastelaram nas instituições e perderam as linhas de comunicação com os movimentos sociais.

Ernesto prega que é preciso “acordar um certo tipo de dirigente petista que, como diz o presidente Lula, se acostumou a ficar com a bunda na cadeira e se esqueceu de que a obrigação de todo petista é estar o tempo inteiro com um pé na institucionalidade, mas o outro na vida real, na rua”.

O petista, que enfrentará no Processo de Eleição Direita (PED) a poderosa chapa encabeçada por Everaldo Anunciação, secretário estadual de Organização do PT, discorda dos “companheiros” que classificaram as manifestações de junho como orquestrações da direita e afirma que os brasileiros finalmente aprenderam que a democracia funciona.

Em tempo: as eleições dos novos diretórios petistas em todo o País serão realizadas no dia 10 de novembro.

 

PIMENTA – Para começar, como o senhor avalia essa situação ma disputa pelo diretório de Salvador, onde o secretário Rui Costa teria incentivado a formação uma chapa para combater Marta Rodrigues, liderança ligada a Walter Pinheiro. Já temos aí uma prévia da disputa de 2014?

Ernesto Marques – O que está em vias de se configurar em Salvador é mais ou menos o que a gente observava no começo do ano, como aglutinação de campos divergentes dentro do partido. Nós criamos um campo chamado “PT Mais Forte”, que deu origem à nossa chapa e tinha basicamente as mesmas forças que hoje estão se aglutinando em torno de Marta (Rodrigues). É claro que para nós já estava evidente, desde aquele primeiro momento, onde se encontram as contradições. Não era à toa que nós constituíamos esse campo, exatamente na expectativa de ter um espaço para debate sobre 2014, mas também sobre 2013.

PIMENTA – Onde estão as contradições?

EM – Primeiro você estrutura um partido, prepara esse partido do ponto de vista organizativo, para que então você tenha melhor condição de enfrentar a batalha eleitoral. Os argumentos do agrupamento majoritário foram suficientes para quebrar a unidade do campo, mas não para nos submeter a ponto de aderir à ideia do “chapão”.  Decidimos manter a postulação que já apresentávamos antes, de que esse agrupamento tinha consistência e força política para disputar e vencer as eleições internas do partido. Como houve algumas defecções, inclusive da própria EDP (Esquerda Democrática Popular), liderada pelo deputado (Nelson) Pelegrino, nós mantivemos a nossa “levada” e estamos cada vez mais convencidos do acerto da nossa posição.

 

PIMENTA – Mas há um tensionamento no PT na capital…

EM –  O tensionamento em Salvador recoloca exatamente o confronto, no bom sentido, como nós estamos acostumados no PT, entre dois campos que têm visões não exatamente opostas, mas em alguns pontos divergentes em relação à condução que deve dar ao partido aqui na Bahia, assim como com relação às questões nacionais. Há uma tentativa de antecipar as coisas em relação a 2016, o que talvez seja um pretexto para se aglutinar um bloco com a intenção –  segundo se diz na imprensa, mas não ouvi isso de nenhuma liderança – de isolar o deputado Nelson Pelegrino dentro da sua principal base, que é Salvador e a Região Metropolitana. É difícil fazer isso porque qualquer pessoa pode contestar a trajetória do companheiro Pelegrino, mas ninguém pode negar a liderança que ele é e o papel que exerceu na construção do partido em Salvador. A capital hoje é o berço do que antes a gente chamava de carlismo e nós não temos nenhuma dúvida de que precisamos fazer uma oposição muito séria, consistente e contundente à Prefeitura, e isso não se confunde com fazer oposição à cidade, são coisas muito diferentes. Temos visões muito diferentes sobre como tratar os problemas de Salvador.

PIMENTA – O senhor faz uma crítica à forma como o PT fez oposição a João Henrique e propõe uma atuação diferenciada agora com ACM Neto. Em que pontos devem se estabelecer as diferenças?

EM – Há uma coisa muito estranha quando o prefeito propõe o aumento do IPTU e cinco dos sete vereadores do PT aprovam esse aumento. É um sinal muito preocupante de que o partido não está conseguindo tratar as matérias adequadamente e esgotar o debate interno antes de ir para as votações na Câmara. Segundo o tributarista e também vereador Edvaldo Brito (PTB), é um aumento que pode chegar a 35% e ainda restabelecer a tributação em cascata, que é uma coisa que o Brasil já tinha abolido há muito tempo. O vereador Waldir Pires (PT) também já apontava sérios vícios de inconstitucionalidade na reforma tributária. Essas questões estão sendo tratadas como se cada vereador fosse dono do seu mandato, mas na verdade os mandatos pertencem ao partido, e este faz oposição ao prefeito ACM Neto. No fundo, o que está em jogo é qual a qualidade da oposição que vamos fazer. Será uma oposição low profile, de baixa intensidade, ou faremos uma oposição sistemática, que, repito, não se confunde com oposição à cidade, mas deixa muito claro qual é o entendimento nosso sobre política urbana, habitação popular, transporte público, movimentos sociais e mais uma série de questões que nos diferenciam bastante. E não dá para misturar água com óleo.

PIMENTA – O senhor discorda da política de “boa vizinhança” entre o PT e ACM Neto?

EM – Essa tentativa de isolar Pelegrino talvez seja exatamente pelo desejo de fazer uma oposição de baixo perfil, o que, no caso do prefeito João Henrique, gerou para nós uma conta muito grande a pagar. Inclusive porque uma parte da população de Salvador não identificava os investimentos do Estado, vendo-os como obras do ex-prefeito João Henrique, a exemplo da Via Expressa. O fato de termos apoiado João Henrique no segundo turno de 2004 e termos participado de seu primeiro governo deixou essa coisa mal resolvida, porque o PT não apresentou claramente para a cidade se era oposição ou se era situação no governo João Henrique. Neste atual governo, não pode haver qualquer margem de dúvida, até porque o prefeito ACM Neto, com toda justiça, personifica o outro campo da política baiana, contra o qual nós sempre nos opusemos. Não há porque mudar de posição, tendo em vista que o prefeito ACM Neto continua fiel ao seu berço político e nós também não mudamos. Pelo menos uma parte do PT.

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Não há porque mudar de posição, tendo em vista que o prefeito ACM Neto continua fiel ao seu berço político e nós também não mudamos. Pelo menos uma parte do PT.

 

PIMENTA – Esses conflitos do PT não decorrem da opção que o partido fez pela política de alianças para alcançar resultados eleitorais? Ou seja, não é uma consequência do pragmatismo do partido?

EM – O PT vive problemas que são naturais em um partido que tem 33 anos de idade, embora não seja um dos partidos mais velhos do país. Nesse tempo, nós deixamos de ser um partido pequeno, de gueto, para progressivamente conquistar cadeiras nos parlamentos em todos os níveis: prefeituras, governos estaduais, até o governo federal. A gente vive as dores de um partido que já tem um bom tempo no governo e este exercício naturalmente expõe as nossas contradições, o que inclusive é muito salutar, principalmente se a gente entende a contradição como uma coisa natural da democracia, a ser enfrentada sem muito receio.

PIMENTA – Seria o lado positivo da crise?

EM – Essa é a parte da crise que eu acho natural e a gente tem que conviver com ela, discuti-la exaustiva e permanentemente, para encontrar as saídas sem perda de consistência política. Em relação a alianças, a história mostra que ninguém ganhou sozinho. Nem nas revoluções armadas, nem nos processos democráticos. Sempre é necessário se fazer alianças e na democracia ganha mais quem agrega mais. O governador Jaques Wagner ensina isso e reafirma a todo tempo. Fazer alianças não é problema e isso o PT já tem resolvido há muito tempo. Você pode questionar a qualidade das alianças e a gestão dessas alianças após as eleições. Nós podemos observar que é difícil constituir e manter uma aliança que seja muito ampla no espectro ideológico e no aspecto numérico.

PIMENTA – Não é esse o caso da aliança “super ampla” em torno do governo Wagner?

EM – Gerir uma base com cerca de 50 parlamentares em 63 é de fato uma engenharia política extremamente complexa. Aquela lógica que a gente aprende em casa, de ceder sempre o  lugar para a visita, é mais ou menos assim que acontece na política. Para acomodar os aliados, é natural que o partido que é o centro da aliança seja mais generoso na abertura de espaços para acomodar os aliados. O problema é exatamente a gestão desses espaços e nos parece que houve equívocos graves na direção partidária, na hora de gerir as alianças, seja na distribuição dos espaços no governo, seja no posicionamento na hora das coligações. Ter ex-carlistas no governo também não representa nenhuma dificuldade porque comunistas trabalharam nos governos carlistas o tempo inteiro, ou sendo servidores de carreira, e portanto cumprindo sua obrigação como servidor público, ou em alguns casos porque atenderam convites profissionais e tiveram também que de alguma maneira cumprir uma tarefa política. E eu não me lembro de um governo carlista ter virado comunista por causa disso.

PIMENTA – E o inverso?

EM – O problema é quando um governo nosso termina adotando práticas carlistas, ou o partido o faz, por conta da convivência com quem estava do lado de lá. Agora, trazer alguém do lado de lá é parte do nosso trabalho, é ganhar as pessoas pela sedução do argumento, pelo convencimento. O que não dá é trazer a pessoa e, junto, a história, a cultura e os maus hábitos da política, que aí se somam aos problemas do ponto de vista ético que também temos. É preciso fazer acordos programáticos. As alianças devem servir para construir o nosso projeto e não só para ganhar eleição. Tem que ser para ganhar e depois para governar segundo um programa que, no caso do PT, tem mandamentos muito claros.

PIMENTA – Quais são esses mandamentos?

EM – Eu não consigo conceber, por exemplo, uma administração petista que não ouse fazer um orçamento participativo, que é marca do PT. Não dá para se imaginar uma administração petista que não dialogue com a sociedade, que não crie e não faça dos conselhos espaços efetivos de participação da sociedade. O povo foi para a rua dizer que quer participar, QUE não quer ser ouvido apenas em audiência pública. A população quer participar do dia a dia e isso é muito bom. Quem vê isso como ameaça está com algum problema. O trato com essas questões é que define as coisas.

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Eu não me acho mais petista do que ninguém, mas acho que os companheiros que estão na direção hoje se acostumaram com a burocracia.

 

PIMENTA – Quais são os problemas mais graves a serem enfrentados no partido?

EM – O partido, quando deixa de fazer formação com as suas bases, de cuidar dos seus diretórios municipais, quando deixa de pautar esses debates em todas as suas instâncias e se burocratiza, a ponto de virar muito mais um cartório do que uma organização política, e começa a receber aliados de matrizes ideológicas muito diferentes, aí está criada a condição para que as contradições aflorem cada vez com maior intensidade e gerem vários problemas, como já está acontecendo.

PIMENTA – O que o senhor quer dizer quando afirma que o PT está virando um “cartório”?

EM – Eu vou te dar alguns números sobre o PT hoje para você ter ideia do problema que nós temos para resolver e que estou muito a fim de resolver e me dedicar nos próximos quatro anos. O PT chegou a estar presente em 416 dos 417 municípios baianos, ou com comissões provisórias ou com diretórios municipais. A comissão provisória, como o próprio nome já diz, não é para ser definitiva. Como ela é uma etapa da estruturação do partido em determinado município, o corpo dirigente que compõe essa comissão provisória pode ser trocado pela direção estadual a qualquer momento. No caso de um diretório eleito, não, ele vai cumprir um mandato, então há legitimidade. Nós chegamos a ter 30 comissões provisórias, o que é um número aceitável, mas hoje são 78 comissões provisórias. Após o PED, é provável que a gente chegue ou até passe de 100. Significa então que entre 20 e 25% dos diretórios do PT na Bahia são comissões provisórias, que estão submetidas ao jugo da direção estadual. Isso é muito ruim.

PIMENTA – Por que?

EM – O PT tem como característica e se orgulha de dizer que é o único partido que elege todas as suas instâncias diretivas pelo voto direto. Uma comissão provisória não participa do PED. Se você tem 20 a 25% dos diretórios municipais reduzidos à condição de comissões provisórias, significa que todos os filiados desses municípios estão fora do processo eleitoral. Aí a gente começa a descaracterizar isso. Outro numero bastante eloquente: nós temos hoje perto de 100 mil filiados no Estado, mas se habilitaram a votar menos de 40 mil. Considerando uma média histórica de abstenção em torno de 15%, é possível que nesse PED tenhamos menos votos válidos que no PED anterior, quando o número de filiados era menor. Isso ocorre em função desse aumento do número de comissões provisórias.

PIMENTA – O que provocou esse crescimento do número de comissões provisórias?

EM – Circulando pelo Estado, eu noto que a queixa é sempre a mesma. Há registro de diretórios que foram atropelados em vários momentos pelo diretório estadual, diretório que virou comissão provisória numa canetada. São vários registros de hábitos da direção estadual que desorganizam o partido, em vez de organizá-lo.  É por isso que estamos aqui oferecendo a candidatura e uma alternativa para os petistas terem de volta uma maneira de gerir o partido. Eu não me acho mais petista do que ninguém, mas acho que os companheiros que estão na direção hoje se acostumaram com a burocracia, acomodaram-se nesse colchão  que é o chamado legado dos dez anos de governo petista. Como se a sociedade brasileira tivesse a obrigação de, primeiro, relevar qualquer erro que um petista cometa e, segundo, dar e renovar reiteradamente um crédito para que a gente continue governando o País, apenas pelo que fizemos nos dez anos. Nós fizemos coisas muito importantes nesses dez anos, mas é muito pouco diante do que precisa ser feito. Porque você não corrige quinhentos anos em dez.

PIMENTA – Nós gostaríamos que você fizesse uma avaliação desse Processo de Eleição Direta do PT, considerando exatamente esse momento de balanço de uma década no poder. Que reflexão precisa ser feita pelo partido?

EM – Independentemente do método da eleição, que antes era congressual e agora é com o voto direto na urna,  o fundamental é que nos momentos de renovação da direção a pauta nacional seja discutida, mas hoje o Brasil é um país que joga um papel decisivo no cenário global. Então, há determinadas questões também sobre política internacional que os petistas sempre debateram, desde o princípio do partido. Faz parte da nossa cultura. As eleições do PT sempre foram momento de confrontação de ideias, até porque as candidaturas sempre estiveram vinculadas à chapa e esta não é apenas uma nominata. A chapa é representada por uma tese, que expressa a opinião política daquele agrupamento sobre as questões do partido em todos os planos, desde as questões internas organizativas até as questões de política internacional.

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Quando a gente deixa de ouvir o que está na rua, a rua chega e dá um grito no pé do ouvido, como deu em junho.

 

PIMENTA – O momento não seria de maior ênfase ao debate das questões internas?

EM – Nós sempre entendemos, principalmente nos momentos de crise, que esse debate interno é imprescindível. Por exemplo, em 2005, no auge da denúncia que gerou a Ação Penal 470, quando se comentava nos bastidores inclusive o desejo da oposição – do PSDB e do DEM – de propor o impeachment do presidente Lula, foi fundamental que o PT se mobilizasse por conta de sua eleição. E nós fizemos um debate muito duro, muito intenso naquele ano. Elegemos uma direção e o partido não rachou, apesar de algumas defecções, que acabaram gerando o surgimento do Psol, com a saída de um contingente expressivo de militantes. Agora, mais uma vez nós estamos sob um ataque muito duro, que veio temperado com uma reação explosiva da população nas ruas.

PIMENTA – Uma reação que muitos petistas criticam.

EM – Alguns petistas tentam diminuir a importância desses movimentos ou tirar sua qualidade política, pelo fato de não ter sido um movimento verticalizado, como é mais a nossa cultura fazer. Eu digo que, pelo contrário, as manifestações foram extremamente importantes, até para acordar um certo tipo de dirigente petista que, como diz o presidente Lula, se acostumou a ficar com a bunda na cadeira e se esqueceu de que a obrigação de todo petista é estar o tempo inteiro com um pé na institucionalidade, mas o outro na vida real, na rua.

PIMENTA – O que você acha desse ruído que existe hoje no diálogo entre o PT e os movimentos sociais?

EM – Não tem ruído porque na verdade deixou de ter diálogo. O partido terminou se distanciando, não ele como um todo, mas majoritariamente as opções do partido têm sido pela vida institucional burocrática e é isso que a gente questiona. Veja: não é por acaso que nessa eleição, entre os cinco candidatos – dois que polarizam mais, nós e o candidato da situação (Everaldo Anunciação) –  se você analisa o outro candidato, percebe que é a burocracia em pessoa. Ele se orgulha de ter todos os deputados federais, 13 deputados estaduais. Isso é a expressão exatamente desse processo que a gente critica de burocratização, que coloca os mandatos acima do partido. Infelizmente, os nossos deputados, sem fazer juízo de valor sobre sua atuação parlamentar, deixaram de ter a construção partidária como prioridade. De modo que não me assusta o fato de ter tantos parlamentares apoiando o outro candidato, porque cá embaixo, na base, na vida real, na planície, a companheirada que sofre e rala nos municípios, sobretudo nas cidades pequenas, a história é outra.

PIMENTA – O partido esqueceu as pequenas cidades no debate político?

EM – A prioridade para essa turma são as 35 maiores cidades. Eles têm razão de focar os maiores colégios eleitorais, mas não podem esquecer as cidades pequenass. Não se pode lembrar de um diretório municipal apenas na hora de passar o trator por cima e inviabilizar uma candidatura petista construída a duras penas, para não desagradar ou para agradar um aliado ali naquele determinado município, que tem um ou dois deputados na Assembleia, que são de algum partido da base e não podem ser incomodados. É a expressão mais genuína do pensamento burocrático e burocratizante sobre o PT.

PIMENTA – Mas é aconselhável desagradar quem exerce mandatos?

EM – O partido não se faz apenas com mandatos parlamentares, até porque a gente já existia antes de conquistar a primeira cadeira parlamentar. Quando a gente deixa de ouvir o que está na rua, a rua chega e dá um grito no pé do ouvido, como deu em junho, e aí qual é a postura da nossa companheirada que está dirigindo o partido? Bota a cabeça num buraco, tal qual um avestruz, como se o que está acontecendo não lhes dissesse respeito.

PIMENTA – E acusam uma orquestração de direita por trás das manifestações…

EM – Pois bem, a última vez que eu tenho notícia de que a direita se organizou para ir pra rua foi na década de 60, no auge daquela agitação política que descambou no golpe militar de 64. Décadas depois, as ruas brasileiras se enchem novamente, pela primeira vez sem a nossa liderança – não apenas do PT, mas das organizações de esquerda que conseguiam a mobilizar as pessoas para ir pra rua. Mas não foi somente sem a nossa liderança, foi sem a nossa presença. E isso é um divisor de águas, sim, porque a partir de agora, e isso é louvável, as pessoas descobriram que a democracia funciona de verdade, que ir pra rua funciona, que organizar a luta dá resultado, baixa tarifa, impede aumento de tarifa, traz mais médicos. Ou seja, exercer a cidadania dá resultado. E teve muito petista e muito esquerdista que tombou no meio do caminho para que a gente tivesse esse ambiente de liberdade absoluta. Ora, nós brigamos por isso e agora temos que enfrentar um dos melhores resultados dessa nossa luta, que é a liberdade de organização.

PIMENTA – Mas a direita não pegou carona?

EM – Outros segmentos que pensam diferente de nós estarão nas ruas a partir de agora. A direita no Brasil pegou gosto e ela pode voltar, e a gente tem que estar preparado para enfrentar quem pensa diferente de nós, usando e ocupando o mesmo espaço que sempre ocupamos, que é a rua. Se nós continuarmos sem uma relação muito próxima e muito estreita com os movimentos sociais, o vácuo que for deixado por nós será ocupado por outros segmentos       e outros pensamentos. O PT precisa redescobrir sua matriz original,  e não é preciso ser saudosista, xiita, nada disso, mas sim fazer política como a gente sempre fez. Tem dinheiro, bacana, a gente faz política com dinheiro; não tem dinheiro, a gente faz política como a gente sempre soube fazer, com suor, lágrimas e, se for preciso, sangue também.