Ciclofaixa-em-Ilhéus-foto-mario-shneiderNa semana passada, jovens ligados ao movimento Reúne Ilhéus decidiram não mais esperar o Poder Público e – munidos de tintas e acessórios – criaram a primeira ciclofaixa do município sul-baiano.

Poder ocupado por políticos cansados, mas visivelmente agéis em vinditas, o Executivo Municipal informou ter acionado o movimento para que seus membros removam a pintura. Mais que isso, um dos secretários informou que quem não teve participação no negócio, mas é referência do movimento (Mário Schneider), será multado em dez salários mínimos.

A reação do governo Jabes Ribeiro era esperada. A ação inovadora dos meninos e meninas do Reúne Ilhéus – desde o acampamento em frente ao Palácio Paranaguá – vem tirando o sono do prefeito e dos seus secretários.

O secretário Isaac Albagli, por exemplo, aparece em um portal, o G1, anunciando que a ciclofaixa é imprópria para o local onde está instalada, a Avenida Lomanto Júnior, no Pontal, por ter ali várias transversais e ser uma via de grande movimento.

Mário Schneider, alvo preferencial do governo, recorreu à lei para demonstrar que o secretário está enganado e faz confusão sobre o que são ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas.

Apontou, por exemplo, que a ciclofaixa foi criada apenas no sentido Centro-Pontal. E rebate o secretário respaldado em leis, regulamentações, regras de mobilidade urbana. Seus argumentos podem ser lidos no “leia mais”.

Triste a cidade onde seus gestores não acolhem a força, a inventividade e a energia dos seus jovens. Preferem a vindita, a panelinha de sempre, as “ideias” de sempre.

Eles não vão de bike.

Resposta de Mario Schneider ao secretário

Ele disse que a Av. Lomanto é uma das mais movimentadas da cidade e é justamente por isso Secretário, que se faz necessário criar-se (pelo Poder público) ciclovias ou ciclofaixas na avenida, pois não há sentido criar em vias que não sejam movimentadas, onde o convívio de carros bicicletas e pedestres é mais harmonioso.

Na zona sul de São Paulo, em Dezembro eles começaram a confecção de uma ciclovia, lá o subprefeito, Luiz Felippe, falou: “A gente só consegue executar se a gente tem dinheiro. E a gente só consegue dinheiro se a gente tem o projeto. Se a gente tem o projeto, já faz de um ano pro outro a previsão do que vai ser feito, aí consegue verba para fazer as obras (…)”.

É preciso também diferenciar para toda a população, o que é ciclovia, ciclofaixas e ciclorrotas. A ciclovia é um espaço segregado exclusivo para ciclistas, existe uma separação física que isola as bicicletas dos outros veículos. A Ciclofaixa, contrário da ciclovia, as ciclofaixas não possuem uma separação física e fixa. Normalmente a separação ocorre por faixas pintadas no chão e a utilização de “olhos de gato”. A ciclorrota não possui nenhum tipo de separação. É um caminho recomendado para os ciclistas, que pode ser sinalizado ou não. O carro e a bicicleta dividem a rua e a sinalização, quando existe, aponta preferência dos ciclistas, indicando aos motoristas que a velocidade deve ser reduzida e a atenção redobrada.

No lado direito, sentido pontal-centro, foi criada uma faixa exclusiva de ônibus (Táxi e transporte escolar), ótima iniciativa, claro se fiscalizada para que esta seja obedecida, o que há um bom tempo não é. O outro lado, porém, não existe faixa alguma que indique que ali, é “mão dupla”, possibilitando assim espaço de sobra para existência de uma ciclofaixa, da mesma forma que em cima do passeio, na orla, pode ser feita – esta com mais recursos – uma ciclovia. É importante dizer que, para Ilhéus, na impossibilidade da criação de ciclofaixas ou ciclovia, é importante que se crie ambientes de circulação compartilhada, com informativo sobre a preferência por ciclistas.

Sobre o ato ser um desrespeito a autoridade pública… Com muito respeito, eu creio que deva ser revisto de forma mais ampla e com postura um pouco mais sensível pelo poder público, haja visto que a medida além de contemplar milhares de ciclistas, ela vem como alerta para que o poder público se sensibilize pois já é realidade a existência de milhares de pessoas que se deslocam com bicicleta na cidade. Há também já, os registros de acidentes na cidade, como em junho de 2012 no Banco da Vitória Ilhéus, outro em outubro na BR 415 veio a óbito e um mais recente, no Vilela em outubro do ano passado… Enfim, desrespeito, em meu entendimento (independente de quem seja o responsável), é alguns estudantes só começarem as aulas em outubro e algumas crianças se alimentarem, entre uma jornada de 8 horas de aula, com rosquinhas e refrigerante de soda. É arrecadar milhões com multas de trânsito e não demonstrar, transparentemente, o uso destes recursos para a população. É depender de atendimento médico e termos que esperar horas, depois de já um burocrático demorado atendimento, para o SAMU chegar (Quando chega, como foi o caso acontecido no Caminho 31, que sequer chegaram) e levar para um hospital que ainda sofre para fornecer um serviço de qualidade. ISSO É DESRESPEITO.

O secretário disse que as pessoas podem estar em risco utilizando a ciclofaixa como se fosse verdadeira. É melhor que elas utilizem essa ciclofaixa como se fosse verdadeira do que andar soltas pelas ruas como sempre tem andado em Ilhéus, especialmente naquele trecho. Ele diz que a ponte cria um afunilamento da pista. Isso torna ainda mais seguro a ciclofaixa estar posicionada onde está, pois no sentido centro-pontal (ou seja, depois da ponte), não tem afunilamento nenhum e a ciclovia é capaz de ocupar a faixa não utilizada mantendo a faixa unica da ponte. A melhor orientação que ele pode dar é, quando chegar na ponte, o ciclista descer da bicicleta e atravessá-la andando, no máximo, e não dizer para a população NÃO USAR BICICLETA.

Pela Lei 12.587, que institui as diretrizes da Política Nacional de Mobilidade Urbana, todos os municípios com mais de 20 mil habitantes poderão elaborar Planos de Mobilidade Urbana, até 2015. Como a bicicleta é uma forma sustentável de transporte, o Ministério das Cidades indica ainda que, além de buscar os recursos federais, os governos municipais façam uma sondagem junto a órgãos paraestatais e empresas privadas, no intuito de firmar parcerias.

Por fim lembro da legislação que rege o tema, que em seu artigo 29, é bastante claro:

“Art. 29. O trânsito de veículos nas vias terrestres abertas à circulação obedecerá às seguintes normas:
(…)
§ 2º Respeitadas as normas de circulação e conduta estabelecidas neste artigo, em ordem decrescente, os veículos de maior porte serão sempre responsáveis pela segurança dos menores, os motorizados pelos não motorizados e, juntos, pela incolumidade dos pedestres.”

E ainda no artigo 38 é bem nítida a citação aos ciclistas.

“Art. 38. Antes de entrar à direita ou à esquerda, em outra via ou em lotes lindeiros, o condutor deverá:
(…)
Parágrafo único. Durante a manobra de mudança de direção, o condutor deverá ceder passagem aos pedestres e ciclistas, aos veículos que transitem em sentido contrário pela pista da via da qual vai sair, respeitadas as normas de preferência de passagem.”

Para finalizar, para conscientizar a população de Ilhéus, o Art 58, que diz como deve ser o fluxo nas ruas onde não tiver estrutura para bicicleta, como é o caso da ponte:

“Art. 58. Nas vias urbanas e nas rurais de pista dupla, a circulação de bicicletas deverá ocorrer, quando não houver ciclovia, ciclofaixa, ou acostamento, ou quando não for possível a utilização destes, nos bordos da pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via, com preferência sobre os veículos automotores.”

Enfim, quero dizer ao Secretário que, se sensibilize com a causa e que busque na oportunidade, reavivar o debate e a inclusão da sociedade civil no debate sobre mobilidade urbana, aproveitando o ensejo, em vez de ter postura excludente e opressiva, pois creio que tanto os que fizeram a ciclofaixa, quando os demais que apoiam, como eu, a iniciativa, estamos querendo ver nossa cidade enfim sair dessa situação calamitosa ao qual se encontra. Somente a reconciliação com os setores da sociedade que, a confiança de que isso pode ser realizado, irá acontecer. Parabenizo a iniciativa de anunciar que em breve teremos ciclovias, ciclofaixas pela cidade e ofereço toda ajuda, no que for possível, para que enfim, esses estudos saiam pedalando do nosso imaginário e se torne a mais sonhada realidade nas vias da cidade.

Mario Schneider.
Shi.