Ernesto marques2 www.pimenta.blog.brErnesto Marques

Gente como Edgard ajuda muito a dar sentido à luta. Porque lutamos pelo direito a uma vida plena.

Ok, pronto, já! Gritávamos essas palavras quando todos estavam posicionados na porta do avião para sincronizarmos a saída e evitar perda de tempo de queda livre, após a saída. Perdi as contas de quantas vezes eu e meu amigo-compadre-irmão Edgard Octacílio da Silva Oliveira fizemos isso em saltos a baixa altura, só para completar a lotação do Cesna 182 e assim viabilizar a formação de alunos quando estávamos fundando o paraquedismo na Bahia. O Brasileiro – como o chamávamos e como ele chamava os amigos -, fez o seu último salto ontem (sexta, 16). Partiu para o andar de cima depois de mais de três anos de belíssima luta pela vida.

Perdemos as contas de quantas vezes Edgard morreu desde março de 2011, quando chegou ao Hospital Regional do Recôncavo, em Santo Antônio de Jesus, com falência múltipla dos órgãos. Saí de Salvador desesperado com a possibilidade não mais ver um irmão que a vida com me presenteou.  Eu o vi entubado, inerte, na UTI, e aceitei o prognóstico dos médicos: dificilmente sairia do coma. Conversei com ele assim mesmo. Lembrei das coisas que fizemos juntos, jurei cuidar de Aplo, meu afilhado, e me despedi. Pois ele saiu do coma e ali começou uma luta para permanecer vivo e ativo.

Piadista e exímio contador de casos, brincava com a sua situação e floreava o diálogo com o dono da funerária onde teria sido encomendado o seu enterro: “quero meu dinheiro de volta!”. Dependesse apenas da medicina tradicional, já teríamos chorado as lágrimas de hoje há muito tempo. Mas o Brasileiro nunca desistiu e, com sua determinação, continuou a zombar da medicina. Como alguém pode perder 5 litros de sangue numa hemorragia interna, tendo fígado e rins detonados, e voltar pra contar a história?

Dias antes de partir, acordei às 4 da madrugada com o telefone tocando. Vi o número dele e gelei: como ele já estava internado, precisei tomar coragem antes atender, esperando a má notícia. Era ele mesmo, preocupado com um idoso com quem dividia uma enfermaria do Hospital Sagrada Família. Dias atrás, em outro telefonema, me cobrou uma ficha de filiação ao PT: “você precisa de apoio, e eu e Apolo vamos nos filiar pra lhe ajudar”. Gente como Edgard ajuda muito a dar sentido à luta. Porque lutamos pelo direito a uma vida plena.

Quero contar como o Brasileiro viveu tanto tempo além do primeiro prognóstico médico sobre sua morte. Quero contar como ele conseguiu, depois de tantas visitas ao outro lado, recuperar parcialmente suas funções renais e hepáticas, a ponto de livrar-se do sofrimento nas sessões de hemodiálise por mais de um ano.

Dizem que só se sai da hemodiálise para uma mesa de cirurgia (transplante) ou para um cemitério. Nesse período, Edgard recuperou sua vitalidade e capacidade intelectual, escreveu livros, disputou e venceu um edital público para lançar uma coleção de livros de autores da sua querida Valença e engrenou uma pesquisa que poderá nos levar aos navios torpedeados pelos U-Boats alemães na Segunda Guerra. Mais do que isso: teve chance de conhecer David, seu neto que nasceu no Estados Unidos, e reencontrou o amor numa paixão da adolescência. O cara ainda voltou a fazer amor! Sim, porque transar naquelas circunstâncias era muito mais do que sexo. Nada disso teria acontecido se ele, a família e os amigos, aceitássemos a resignação oferecida pela medicina tradicional diante da morte. Mas ele lutou e venceu.

Quero muito contar como um sujeito genial e algo excêntrico conseguiu ajudar o meu compadre a viver plenamente nesses últimos anos. Não é só um médico, é um autêntico discípulo de Esculápio – talvez por isso seja visto com desconfiança por alguns e odiado por outros. E por isso devo preservá-lo até conversar sobre como poderemos contar essa história, sobretudo porque Edgar É (a morte não lhe tira este mérito, por isso o verbo no presente) uma figura rara, mas felizmente não é única.

Ontem reencontrei o Brasileiro numa UTI, poucas horas antes do seu último salto. Novamente me despedi, jurei honrar a minha obrigação de padrinho e jurei também que quando tiver netos como o seu David, eles saberão quem foi Edgar, o Brasileiro. Ainda com alguma esperança de vê-lo repetir mais uma vez a proeza de voltar, aceitei os fatos. O Brasileiro nunca foi de negar a porta – jargão do paraquedismo para definir quando alguém desiste de saltar na hora da saída. Não o faria desta vez. Ok, pronto, já! Edgard partiu, apenas. Quem viveu com tanta dignidade nunca morre.

Ernesto Marques é jornalista.

Postado, originalmente, no Facebook.