davidson - pimentaO comunista Davidson Magalhães não conseguiu se eleger deputado federal, mas avalia que os mais de 65 mil votos obtidos no dia 5 de outubro o credenciam a atuar como liderança no campo da esquerda no Sul da Bahia.

Nesta entrevista concedida ao PIMENTA, o ex-presidente da Bahiagás demonstra otimismo com a possibilidade de assumir uma cadeira na Câmara Federal, após a composição do governo Rui. Por enquanto, afirma que a prioridade é eleger Dilma Rousseff no segundo turno.

Sobre as sinalizações das urnas para Itabuna, onde Rui Costa perdeu, Davidson defende a reorganização das forças de esquerda em nome do “projeto maior”. Numa referência ao deputado federal petista Geraldo Simões, que não se reelegeu, o comunista diz que alguns líderes regionais precisam “calçar as sandálias da humildade”.

Leia abaixo os principais trechos:

PIMENTA – Como você analisa seu desempenho nas eleições?
Davidson Magalhães – Eu considero uma vitória, principalmente no contexto em que ocorreu esse processo eleitoral. Foi uma eleição bastante disputada, na qual houve uma queda de votos muito grande, e mais uma vez a região confirmou uma característica de pulverização de votos. Nós tivemos aqui muitos candidatos de fora sendo votados e isso reduziu muito a possibilidade de uma eleição concentrada. Terminou saindo do sul da Bahia, de novo, um único deputado federal eleito, o que é mais um prejuízo político para a região. Foi reduzido o número de deputados estaduais e não se ampliou o número de federais.

PIMENTA – Chegou-se a se ensaiar na cidade um movimento em defesa do voto regional…
DM – É um prejuízo porque ficam vários segmentos aqui fazendo o discurso do voto para fortalecer a região e na “hora H” esses mesmos segmentos, por interesses menos nobres, terminam contribuindo com a pulverização dos votos. Seguimos como uma região que tem uma pulverização de votos muito acentuada, o que termina por debilitar nossa representatividade política.

PIMENTA – Essa debilidade pode chegar ao ponto de comprometer projetos estruturantes sinalizados para o Sul da Bahia?
DM – Nossas duas principais cidades (Ilhéus e Itabuna) poderiam ter contribuído mais para o fortalecimento desse projeto regional, mas acabaram ficando extremamente prejudicadas. Nós poderíamos ter um desempenho melhor, o que teria como resultante uma maior consistência política, mas isso é algo que precisará ser superado. Como ganhamos o Governo do Estado, ele, que é o responsável por esses grandes investimentos, juntamente com o Governo Federal, deverá tratar desse problema. Inclusive, o sul da Bahia foi uma das regiões onde o governador eleito Rui Costa teve o menor desempenho, e isso exigirá uma atenção especial para permitir a retomada política da região.

PIMENTA – Como você vê essa vitória de Rui Costa no primeiro turno?
DM – Foi um demonstração definitiva do esgotamento do carlismo, que apostava suas penúltimas fichas no Paulo Souto e num desgaste do governo. Fizeram uma avaliação equivocada e mais uma vez perderam a eleição. Já são três eleições seguidas perdidas pelo carlismo e dessa vez o ACM Neto expôs sua condição de líder político e perdeu inclusive em Salvador. Ou seja, nós derrotamos a principal liderança da oposição e fizemos o senador, o que também demonstra um esgotamento do Geddel (Vieira Lima). A lição que nós tiramos é de que há uma avaliação positiva do governo Wagner e de um projeto em curso que está mudando a Bahia.

PIMENTA – Wagner sempre demonstrou acreditar na vitória de Rui…
DM – O governador sempre insistiu nisso nas reuniões com os partidos: vamos ganhar no primeiro turno. E a argumentação dele era muito sólida: “se comparar o que eles fizeram em 30 anos e o que fizemos em oito, nós damos um banho”. O povo soube ver e entender isso quando tivemos a oportunidade de expor os dados na campanha eleitoral. A diferença entre os dois governos de Paulo Souto e os dois de Wagner é abissal.

PIMENTA – Mas o Sul da Bahia e particularmente Itabuna indicaram não pensar da mesma forma.
DM – Em nossa região, é preciso “cair a ficha” para o que está acontecendo. Experimentaremos um desenvolvimento que tende a ser ampliado com a continuidade desse projeto político com Rui Costa. Isso vai permitir à região dar uma virada substancial a partir da implantação do Complexo Multimodal do Porto Sul.

PIMENTA – Já é possível apresentar um panorama de como ficará o tamanho das bases do governo e da oposição na Assembleia?

DM – As assembleias legislativas têm jogado um papel político muito pequeno na história brasileira, por isso eu acho que Rui não terá problema no relacionamento com o legislativo. Ficamos com a maioria da composição da Câmara Federal e acho que ganharemos a eleição presidencial, o que não põe em risco o projeto.

PIMENTA – Qual o tamanho do PCdoB após essas eleições?
DM – Nosso partido ampliou bastante o espaço político que ocupa na região. Em 2010, quando Wenceslau Júnior disputou o mandato de deputado estadual, teve 31.800 votos, e nós saímos agora com mais de 65 mil votos. É um saldo significativo, que indica uma acumulação de força política nesse período. A possibilidade inclusive de assumir o mandato é importante, já que essa lacuna que ficou na representação do sul Precisará ser preenchida. Nos governos estaduais, tradicionalmente, vários deputados são chamados para assumir cargos, tanto no governo federal quanto no estadual, e isso pode abrir um espaço de atuação política nossa na região.

PIMENTA – Como você vê o cenário em Itabuna?
DM – No quadro municipal, as forças de oposição ao governo não saíram fortalecidas. O (José Nilton) Azevedo foi derrotado, com uma votação muito abaixo do que ele imaginava; o Augusto (Castro) foi reeleito, mas não ganhou a dimensão que ele esperava; os candidatos de Fernando Gomes não mostraram força. O candidato no campo do PT (Geraldo Simões) também sai derrotado, com uma votação bem menor que a obtida em 2010, indicando uma “desidratação”. Em Itabuna, ele ficou em uma situação de quase empate técnico comigo, que estava há 12 anos sem disputar uma eleição, sempre participando mais das articulações. Acho que nós, do grupo que apoia o prefeito Claudevane Leite, nos saímos bem. O desempenho poderia ter sido melhor, mas os limites não permitiram que a gente ampliasse essa vitória.

PIMENTA – Você diz acreditar na chance de assumir o mandato na Câmara. Já houve alguma sinalização nesse sentido?
DM – Não. Todo esforço agora é para eleger Dilma. Agora não há discussão de cargos, pois estamos dedicados a uma luta política, na qual a militância deve continuar na rua e mobilizada para garantir a eleição para presidente. Nós sempre colocamos o projeto nacional à frente dos interesses menores, então toda a nossa preocupação agora é assegurar a vitória de Dilma. Com isso, será possível consolidar o projeto nacional, que garante o aprofundamento das mudanças que têm levado o Brasil a uma situação nova.

PIMENTA – De que forma será essa mobilização?
DM – Estamos tomando um fôlego porque viemos de um processo eleitoral pesado, tenso, cansativo. Então, paramos três dias para recarregar as baterias e depois voltar a campo. Não vamos nem desmontar nossas estruturas , para que elas possam servir à campanha de Dilma. O comitê vai continuar funcionando como centro de apoio, colocamos nossos carros de som à disposição da campanha majoritária para que se dê continuidade à mobilização, no mesmo nível que vínhamos fazendo.

PIMENTA – Como você vê o desenho para 2016?
DM – Está muito longe e muita água vai rolar. Nós precisamos ajudar a consolidar esse projeto de Dilma e o momento é de buscar o que nos une e não o que nos separa. A ideia do PCdoB é unir. Os distanciamentos e as desavenças em Itabuna não têm muito da nossa responsabilidade. Achamos inclusive que as derrotas sucessivas precisam fazer as pessoas refletirem. Nós da esquerda do Sul da Bahia saímos enfraquecidos. A melhor posição de um candidato do Sul da Bahia nessas eleições foi uma segunda suplência. O PT perde votação em Ilhéus, em Itabuna, e isso não é bom para a esquerda. Precisamos rever as relações políticas dessas forças fundamentais e mais estratégicas para o projeto de Dilma na região, senão abriremos um espaço muito grande para o crescimento das forças de centro, que vão dificultar o aprofundamento das mudanças.

PIMENTA – Quando você menciona derrotas, está se referindo ao deputado Geraldo Simões?
DM – Não temos nenhuma pretensão de ser donos da verdade, mas os fatos demonstram que certos caminhos que estão sendo tomados não são bem aceitos pelo povo. Isso não me parece condizente com quem quer construir um projeto mais de longo prazo para a região. Nesse momento, é hora de refletir e rearticular a esquerda no Sul da Bahia. Pretendo buscar a unidade da esquerda. Se isto não ocorrer, colocaremos em risco o futuro estratégico. As pessoas têm que pensar, refletir, calçar as sandálias da humildade, para que todos nós possamos sentar numa mesa e repactuar nossa atuação política na região.