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“ACREDITO QUE SÓ VOU PARAR QUANDO DEIXAR DE EXISTIR”

Campeão da vida, Enault Freitas será um dos condutores da tocha olímpica em Itabuna (foto Pimenta)

Campeão da vida, Enault Freitas será um dos condutores da tocha olímpica em Itabuna (Na foto do Pimenta, ele posa com a réplica que faz parte do acervo do museu itinerante organizado pelo Bradesco)

Em sua trajetória pelo Brasil, o fogo olímpico certamente irá iluminar belos exemplos de vida. Não será diferente em Itabuna, onde a chama estará no dia 21 deste mês, sendo conduzida por verdadeiros campeões. Um deles é Enault Freitas, funcionário aposentado do Banco de Sangue de Itabuna, cuja história comoveu a cidade há dois anos e agora será projetada para fronteiras distantes.

Desde que começou a trabalhar na área da saúde, em 1974, Enault luta para conscientizar as pessoas sobre a importância de doar. Em 2014, por ironia do destino, ele viu seu filho perder uma batalha contra a leucemia justamente por falta de um doador. Durante dois anos, Enault lutou em busca de alguém compatível e promoveu uma campanha que conseguiu realizar mais de 2,3 mil cadastros de doadores de medula óssea em Itabuna.

Infelizmente, o filho de Enault morreu no dia 14 de julho de 2014, em Aracaju, enquanto aguardava liberação do plano de saúde para um tipo de transplante ainda considerado experimental no Brasil. O pai, que fundou uma ONG e continua lutando para salvar vidas, participará com todo mérito da cerimônia que simboliza a presença do espírito olímpico no país. Enault Freitas não é apenas um pai que lutou por amor ao filho, mas um guerreiro que considera toda vida preciosa, por isso continua a lutar.

Abaixo, os principais trechos da entrevista concedida por ele ao PIMENTA:

 

PIMENTA – A maioria das pessoas provavelmente entregaria os pontos depois de perder um filho. Por que você decidiu continuar lutando para aumentar o cadastro de doadores de medula?

Enault Freitas – Quando você está em uma causa social, o que se pensa é que a luta é por alguém seu. Está aqui a foto do meu filho (aponta para a imagem do filho estampada na camisa, ao lado da frase “Eu faria tudo pra não te perder, mas o dia vem e deixo você ir”). Essa frase diz tudo, não é?… Eu poderia me acomodar porque não consegui, mas essa minha luta vem desde 1974. Trabalhei como técnico de laboratório do banco de sangue e já me mobilizava para ajudar as pessoas acometidas de doenças do sangue. Só não imaginava nunca que um dia eu iria me deparar com essa situação na minha pele.

PIMENTA – Como foi diagnosticada a leucemia de seu filho?  

Enault Freitas – Meu filho sempre foi saudável, atleta, a gente jogava bola junto. Tinha 34 anos quando a leucemia foi diagnosticada. Primeiro, descobrimos que ele tinha um pigarro e a gente imaginava que fosse ar condicionado demais. Todos os exames deram negativo, os médicos diziam que estava tudo bem. Mas, como o problema não desaparecia, decidimos fazer uma punção na medula porque tinha muita coisa estranha. Por exemplo, a taxa de hemoglobina, que deveria ser entre 14 e 16, a dele estava em nove. Os médicos começaram a descartar uma série de doenças e fizeram a punção medular, que detectou leucemia linfoide aguda.

PIMENTA – O que aconteceu a partir deste diagnóstico?          

Enault Freitas – Saímos do hospital, já com a medicação e a solicitação do internamento. Ele ficou nesse primeiro momento 23 dias internado. A quimioterapia inicialmente fez efeito e ele teve alta. Depois de 30 dias, os exames deram negativo. Ele até chegou a voltar a trabalhar, mas, depois de alguns meses, apareceu um pequeno caroço no rosto. Voltou ao médico, fez nova punção e a doença estava lá. Aí a médica disse que o único jeito era realizar o transplante.

PIMENTA – Aí surge a dificuldade de encontrar um doador compatível…

Enault Freitas – Começamos a fazer exame na minha filha, mas ela era incompatível. Em fevereiro de 2013, a gente começou a correr o Brasil em busca de um doador porque na família não havia. Começamos a distribuir os pedidos para que as pessoas se cadastrassem no banco de dados para doação de medula óssea em todo o Brasil e em outros países da América do Sul. E pedimos autorização ao Hemoba para fazer campanha aqui em Itabuna.

PIMENTA – Enquanto isso, seu filho seguia com o tratamento…

Enault Freitas – Como nós não conseguimos essa medula, enquanto ele estava internado em São Paulo, um médico disse que poderia realizar o transplante haploidêntico, que utiliza doador 50% compatível. No caso, o doador seria eu ou a mãe, porque esta seria talvez a última alternativa que a gente tinha.

Perda do filho não fez Enault desistir de lutar (foto Pimenta)

PIMENTA – Mas esse transplante chegou a ser feito?

Enault Freitas – O transplante poderia ser feito em 15 dias após essa decisão do médico, mas o nosso plano de saúde nos negou. Nós entramos na justiça com um pedido de liminar e a administradora do plano esperou até o último dia do prazo para contestar. Entramos com um segundo pedido e tornaram a esperar até o último dia. Nessa espera, meu filho faleceu.

PIMENTA – O que o plano de saúde alegou?

Enault Freitas – Eles alegavam que era um tratamento experimental e com alto custo, mas quando você faz um plano de saúde, você não sabe a doença que vai ter no futuro. Amanhã a gente não sabe o que vai acontecer com ninguém. Estou processando o plano de saúde. Não vou trazer meu filho de volta, mas tantos outros casos têm acontecido e já há situações em que os planos acabaram autorizando o transplante, por pressão de nossa ONG.  Já houve três casos desse tipo de transplante com 50% de compatibilidade que tiveram cobertura dos planos, depois de campanhas que fizemos.

PIMENTA – No caso da leucemia, não há outra possibilidade além do transplante?

Enault Freitas – Em alguns casos, a quimioterapia é eficiente, mas em grande parte não, como foi o caso do meu filho. A quimioterapia não resolveu. Houve uma melhora, depois a doença voltou e o único recurso passou a ser o transplante. Nesse caso, a possibilidade de se achar um doador compatível é de um para cem mil, podendo chegar a um para um milhão, quando a pessoa tem um cromossomo diferente. Na família, você tem 25% de chance de encontrar um doador, mas a minha filha não foi compatível. Então a gente saiu para o banco de doadores, o Redome (Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea). No Brasil, nós temos hoje 3,8 milhões de pessoas nesse cadastro, em grande parte graças às nossas ações e campanhas a partir de 2014.

PIMENTA – Como está o cadastro de doadores na Bahia?

Enault Freitas – A Bahia tem uma meta de 20 mil cadastros por ano, mas até 2014 nunca havia atingido. Naquele ano, com nossa mobilização, chegou a 20.833. Em 2015, foi para 27.140. Eu tenho uma carta do governo do estado me agradecendo pela ação de, em três dias, fazer 2.333 cadastros, algo que o próprio governo nunca conseguiu. Fizemos campanhas em Vitória da Conquista, Santo Antônio de Jesus, Jequié, Itapetinga, Canavieiras, Una…

PIMENTA – Por que é tão complicado fazer o cadastro no banco de doadores?

Enault Freitas – Porque existe uma burocracia muito grande. A gente começou a correr em 2013 e só conseguiu fechar a campanha em Itabuna em 2014. Enquanto isso, a gente fazia em todo o país, onde tinha um amigo ou conhecido. Nós chegamos a conseguir colocar 46 pessoas em um ônibus para ir a Itapetinga, onde tem uma base que faz os cadastros. Mas aqui em Itabuna, quando a gente conseguiu deflagrar a campanha, tivemos várias parcerias. Muitas pessoas ajudaram. Nós tivemos mais de 150 voluntários, que se disponibilizaram a ficar com a gente durante três dias fazendo esse trabalho.

 

Temos 26 postos de cadastro na Bahia e eu não consigo entender, por exemplo, porque uma cidade com 24 mil habitantes tem e Itabuna, com 220 mil, não tem.

 

PIMENTA – Como é a situação hoje de quem está na fila do transplante?

Enault Freitas – Hoje o grande problema são os hospitais. A gente não tem um número de hospitais livres para fazer o transplante. Então, há mais de cem pacientes com doador e não tem hospital para realizar o procedimento. Se você tentar pelo SUS, vai sofrer com aquela carência que há em todo o país. No caso de convênio, alguns deles não autorizam porque envolve uma equipe médica muito grande e o custo é alto. Na Bahia, só o hospital São Rafael realiza esse transplante.

PIMENTA – Por que há tão poucos doadores?

Enault Freitas – Infelizmente, ainda há uma ignorância sobre o que é medula óssea, que nada mais é do que a “fábrica” do nosso sangue. No Brasil, com 220 milhões de habitantes, a gente não tem 10% da população cadastrada. E, na hora de definir o receptor, não existe predileção, não existe compra. Não existe filho do rico, filho do pobre. Não tem sexo, nem cor, nem condição social. É compatibilidade.

PIMENTA – Mas essas situação não está mudando?

Enault Freitas – Sim, hoje o Brasil já é o terceiro país em cadastro de doadores de medula óssea. Antes de 2003, ainda não tínhamos 200 mil cadastrados. Já naquele ano alcançamos 3,2 milhões e agora em 2016 temos quase 4 milhões, graças a essa intervenção popular.

PIMENTA – Como sua ONG atua?

Enault Freitas – A gente trabalha na conscientização e na captação de pessoas para fazer o cadastro. Aqui em Itabuna, não existe o órgão [para cadastrar doadores], então aqui a gente dá palestras, faz apresentações, convocações, panfletagem. A gente aproveita qualquer movimento para conscientizar.

Enault Freitas 3PIMENTA – Como funciona o cadastro?

Enault Freitas – A pessoa colhe 5 ml de sangue, preenche uma ficha e fica até os 60 anos de idade aguardando se é compatível com alguém, pois esta é a idade limite para se fazer a doação. Para fazer o cadastro é até os 55 incompletos.

PIMENTA – Mas em Itabuna esse cadastramento só acontece durante as campanhas…

Enault Freitas – Isso. Inclusive a gente está trabalhando, junto com várias entidades, pra fazer outra campanha em Itabuna. Temos 26 postos de cadastro na Bahia e eu não consigo entender, por exemplo, porque uma cidade com 24 mil habitantes tem e Itabuna, com 220 mil, não tem. Itabuna e Ilhéus são cidades polo, as duas com mais de 400 mil habitantes, por onde circula cerca de 1,5 milhão de pessoas, e não temos um posto desse. Uma das lutas de nossa ONG, que leva o nome de meu filho, é para termos um posto de cadastro em Itabuna.

PIMENTA – Como foi esse contato para que você fosse um dos condutores da tocha olímpica?

Enault Freitas – Tem uma amiga nossa em Santo Antônio de Jesus, também voluntária da nossa ONG. Foi ela que escreveu minha história, sem me dizer nada. Passados dois, três meses, ela disse que havia me inscrito. Eu nem tinha visto nada a respeito. Em fevereiro, fui confirmado como um dos condutores da tocha aqui em Itabuna. Será um marco na minha vida, talvez um dos dias mais importantes. Eu acredito que nós não teremos outra oportunidade como essa. É por uma causa justa. Tomara que isso seja exemplo para que a gente acorde. Porque se você e eu não fizermos, nada acontece.

PIMENTA – O que você diria para quem se recusa a doar?

Enault Freitas – Eu digo que a leucemia não tem cor, não tem sexo, não tem idade, não tem condição social nem tem momento. O amanhã não nos pertence. A gente nunca sabe onde e com quem ela vai acontecer e eu sou prova viva disso. Depois de tantos anos me dedicando a essa causa, acabei não podendo fazer nada para salvar a vida de meu próprio filho.

PIMENTA – Você já pensou em desistir?

Enault Freitas – Acredito que só vou parar quando eu deixar de existir.

Atualizado às 23h20

3 respostas para ““ACREDITO QUE SÓ VOU PARAR QUANDO DEIXAR DE EXISTIR””

  • O site está em construção.

    Olá, na entrevista algumas coisas saíram de outra forma; meu filho falecem em Aracajú.
    Brasil já é o terceiro país em cadastro de doadores de medula óssea. Antes de 2003, ainda não tínhamos 200 mil cadastrados. Em 2013 alcançamos 3,2 milhões e agora em 2016 temos quase 4 milhões, graças a essa intervenção popular.
    Obrigado.

  • Maurina says:

    Exemplo a ser seguido. Enault é um guerreiro. Vamos conscientizar a população da necessidade de ser um doador.

  • Ricardo says:

    Olá Enault, faremos as retificações. Obrigado!

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