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PELAS RUAS DE CACHOEIRA

jaqe2Jaqueline Cerqueira | Revista do Núcleo de Antropologia Urbana da USP

 

O que vemos nada mais é do que o pensamento de um povo sobre o mundo, suas impressões, seus sistemas de valores e relacionamentos complexos.

 

A cidade baiana de Cachoeira, situada a 100 km de da capital Salvador, foi ao longo dos séculos XVIII e XIX, região produtora de açúcar, com uso de mão-de-obra escrava e também produtora de tabaco, utilizado na compra de escravos na costa africana. Situada às margens do Rio Paraguaçu, a cidade teve momentos de grande parte da produção agrícola da Bahia, principalmente açúcar e fumo. Além disso, Cachoeira foi historicamente, devido a sua privilegiada localização, cruzamento de rotas de escravos, negros fugidos e quilombolas. Este fato agregou na região comunidades que se instalaram nos antigos engenhos desativados. Hoje, essas comunidades se reconhecem como remanescentes de quilombos e mantêm vivas tradições culturais e cultivam basicamente mandioca e dendê.

Para a Antropologia, a observação das relações humanas se dá, a partir da perspectiva da cultura, das diferenças, da geografia, ou seja, através das relações do homem com o espaço. Cachoeira continua sendo uma cidade emblemática carregada de significados. Neste ensaio, busca-se destacar a importância do centro da cidade, tombado em 1971 e que concentra a maior parte da arquitetura tradicional, hoje bastante arruinada. Centro de trocas sociais apropriado pela população em seu cotidiano como mercado, sobrados de uso habitacional ou serviços, palco de grandes festas.

Podemos identificar o patrimônio cultural de Cachoeira a partir da história de ocupação do seu território. Desta forma, temos embutidas duas vertentes: patrimônio material e patrimônio imaterial. A relação entre essas duas vertentes se dá através das manifestações culturais e o território no qual historicamente elas ocorrem. Estamos diante de um território de fortes referências culturais. Em toda a cidade há cerca de 28 processos de tombamentos pelo IPHAN que buscam preservar cerca de 60 bens. Um desses processos elevou a cidade à condição de Monumento Nacional. As fotos retratam construções que fazem parte desse processo. Pelas ruas da cidade, é possível perceber forte presença da arquitetura religiosa (capelas, convento, igrejas matrizes), arquitetura civil (casarões, sobrados), edificações em praças e a tão importante ponte D.Pedro II.

Estação de Cachoeira, no recôncavo baiano (Foto Jaqueline Cerqueira).

Estação de Cachoeira, no recôncavo baiano (Foto Jaqueline Cerqueira).

A elevação de Cachoeira a Cidade Monumento se fez em referência às tradições cívicas da cidade, remetendo às lutas pela independência em 1822. A arquitetura e a paisagem são marcos desse momento.

A heterogeneidade e as intensas manifestações culturais despertam interesse de turistas, intelectuais e visitantes. Dentre as referências culturais pode-se destacar: Festa da Boa Morte, Festa da Ajuda, Festa de São João, Festa de 25 de junho; além das mais variadas formas de expressão popular: Banda Filarmônica, Samba de Roda, Esmola catada.

O Rio Paraguaçu foi decisivo na forma de ocupação da cidade. O rio sofreu duas diferentes alterações: em sua forma ( para atender a diferentes objetivos das práticas sociais, como construção de armazéns e aterros nas margens e porto de canoeiros) e seu significado no caráter religioso, tido como sagrado para grupos específicos.

Dentre os pontos abordados podemos concluir que o espaço é fundamental para a significação das ações do homem. Todo o patrimônio material faz parte de uma paisagem cultural que possui sua grandeza além do visível e é fruto das atividades e interações humanas sobre o solo. O que vemos nada mais é do que o pensamento de um povo sobre o mundo, suas impressões, seus sistemas de valores e relacionamentos complexos.

A intencionalidade de “registrar fotograficamente”, a cidade é realizar uma contribuição de propagar aquilo que se deu apenas uma vez em sua existência material, já que tudo, a qualquer instante, pode se transformado, substituído, trocado, vendido ou mesmo demolido. Para Bresson, “de todos os meios de expressão, a fotografia é o único que fixa para sempre o instante preciso e transitório(…). O escritor dispõe de tempo para refletir. Pode aceitar e rejeitar, tornar a aceitar; (…). Existe também um período em que seu cérebro se esquece‟ e o subconsciente trabalha na classificação de seus pensamentos. Mas, para os fotógrafos, o que passou, passou para sempre. É deste fato que nascem as ansiedades e a força de nossa profissão (Cartier-Bresson, 1971:21).

Jaqueline Cerqueira é jornalista com graduação em Comunicação Social pela Uesc.

2 respostas para “PELAS RUAS DE CACHOEIRA”

  • ilheensedagema says:

    Oi Jaqueline,

    Que pena, o nosso povo valoriza muito pouco a memória nacional.

    Parabéns pela matéria.

  • Fátima Cerqueira says:

    Muito pertinente essa matéria,pois trazer à memória fatos históricos que fez e fará parte da história de vida desses remanescentes só elevam a auto estima.

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