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EU, RAMON E PAPAI NOEL

IMG-20170115-WA0051Maurício Maron | [email protected]
Vá em paz, amigo. Leve consigo a minha gratidão. E a imagem inesquecível do abraço que trocamos, às 5 e meia da tarde, em Ferradas, no dia 24 de dezembro de 1989.

 

Recebo com imensa tristeza a morte de Ramon Vane. Todas as vezes que nos encontrávamos, relembrávamos um episódio especial que compartilhamos secretamente, por muitos anos, em nossas vidas.

Era Natal. Enquanto minha primeira filha, ainda muito pequena, aguardava pelo Papai Noel em nossa casa, eu tocava meu plantão na TV Santa Cruz.

A primeira pauta do dia me designava para cobrir uma triste realidade da nossa gente.

Ir até a periferia da cidade e ouvir as crianças que (sobre)viveriam naquele entorno, sobre o que representava aquela data e o que esperava daquela noite.

Conheci Jorge, sugestivamente morador de Ferradas.

Ao entrevistá-lo, eu cheio de dedos para não aumentar ainda mais a ferida que a vida lhe proporcionara, ouvi de uma criança de não mais de seis anos, uma frase que jamais consegui esquecer.

“Nunca vi Papai Noel, acho que ele não sabe o endereço daqui de casa. Queria muito uma bicicleta. Até tenho a sensação de que esse ano ele vem”.

Voltei para a redação com a sensação de culpa por ter reavivado um sentimento tão profundo numa criança, sabendo que, à noite, a realidade certamente não chegaria. Ouvia a todo instante a frase repetida na minha alma. E tomei uma decisão.

Na retomada das pautas, no turno da tarde, decidi me dirigir à residência do empresário Helenilson Chaves, então dono da emissora, e tentar uma conversa para ele.

(Aqui um parêntese: tenho uma admiração profunda por esta pessoa e ele sempre me tratou com um carinho especial enquanto estive na empresa dele.)

Mesmo estando recebendo, naquele momento, uma importante autoridade federal, ele não me negou a audiência.

Expliquei o que tinha se passado pela manhã.

Ele olhou nos meus olhos e me perguntou: você tem ideia de quantas crianças tem lá?

Respondi: umas cem. Rs

Ele pegou um pedaço de papel, fez uma anotação e me entregou. Era uma autorização para ir até uma loja de brinquedos e pegar bonecas e bolas e, claro, a bicicleta de Jorge, e fazer a entrega àquelas crianças sedentas por um gesto de carinho e de respeito. Todas seriam presenteadas.

Me pediu apenas uma coisa: que não revelasse quem assumiu financeiramente a iniciativa.

(Neste momento, peço a ele para quebrar um silêncio de mais de 25 anos, para justificar esta homenagem que faço a Ramon Vane.)

De posse dos brinquedos, um dilema. Quem seria Papai Noel que tivesse o endereço daquela comunidade tão esquecida?

Não pensei duas vezes. Um telefonema foi suficiente para convencer Ramon. Em menos de 15 minutos ele já estava na emissora, com uma roupa de bom velhinho “tamanho duplo” onde caberiam dois dele, com a determinação que o que mais importava naquele momento não era o estético, era ver um sorriso nos rostos sofridos dos esquecidos pelo sistema.

E assim terminamos o nosso dia. Entregando bonecas, bolas e bicicleta.

Oferecendo o bem-querer, alimentando almas de novos sonhos.

Obrigado, Ramon Vane, por me proporcionar um dos momentos mais inesquecíveis da minha vida.

Obrigado pelo abraço que trocamos silenciosamente naquele dia de natal.

Obrigado por me permitir chegar feliz em casa e, mesmo encontrando minha pequena dormindo ainda sem a chegada de Papai Noel, sorrir e acreditar que, ao encontro com pessoas como você, a gente pode acreditar num mundo melhor.

Vá em paz, amigo. Leve consigo a minha gratidão. E a imagem inesquecível do abraço que trocamos, às 5 e meia da tarde, em Ferradas, no dia 24 de dezembro de 1989.

Maurício Maron é jornalista e editor do Jornal Bahia Online.

11 respostas para “EU, RAMON E PAPAI NOEL”

  • Ariadne says:

    Realmente Ramon era só doçura,fomos colegas na faculdade e cada vez q ele chegava era a certeza da alegria. O céu está hoje mais alegre

  • amigo says:

    bela historia! precisamos de mais Ramon,Helenilsons e Mauricios. Parabens pela iniciativa, final que não serve ao próximo, não entendeu nada da importância que é !!!

  • “Eu, Ramon e o Papai Noel” brilhante história e narrativa,a mesma se imortalizou- se neste momento suas personagens.
    Ao autor da narrativa,brilhante narração e os taboquenses parabeniza te,parabéns!

  • Antônio Lopes says:

    Grande Maurício!
    Emocionado, saio do meu silêncio, para saudá-lo, por nos proporcionar este momento, de tristeza, gratidão e justiça.
    Sofri a morte do pai, Ivo Fontes, hoje sofro a morte do filho, Ramon Vane – ao tempo em que me conforto com seu texto, pleno de generosidade, saudade e reconhecimento.
    Minha Buerarema está mais triste, com a morte de (mais) um de seus poetas.
    Beijos pra você e Renata.

  • LOMANTO says:

    Tive o privilégio de conviver com essa figura inteligente. Lembro com muita alegria as Feiras de Arte de Macuco, onde Ramon junto com Delmo eram grandes entusiastas. Quando ainda concluindo o ensino médio procurei Ramon para ajudar em um trabalho sobre MPB e ele fez uma explanação de mais de uma hora contando de Chiquinha Gonzaga aos atuais da época. O trabalho ficou perfeito graças a consultoria de Ramon. A professora deu 10 e ficou com o trabalho. A alguns anos atrás encontrei com ele no Cinderela, estava de terno com sua barba loira, parecendo um personagem retirado de um filme antigo, fumando um cigarro enquanto passava a chuva. Reclamei do cigarro que ele fumava. Ele deu um sorriso e falou depois de uma baforada que se destacava naquele dia chuvoso: “Quero morreu como Clarice Lispector”. Clarice morreu aos 57 anos, esse grande artista baiano morreu aos 57 anos. Parabéns aos anjos estão com dois grandes artistas lá no céu, com seus defeitos, mas quem é perfeito?

  • wilson says:

    linda homenagem e uma linda história de amor ao próximo

  • cidadão consciente says:

    Linda! igual a pessoa de Ramon. Parabéns. Ficamos confortados.

  • Rosivaldo Pinheiro says:

    Esse texto é um brinde à vida. O amor se materializa nesses atos e a vida se perpetua no amor pleno. Vá em paz, Ramon. Parabéns, Maurício.

  • carlos correia ( autor do hino oficial de itabuna says:

    Bonita historia Mauricio: esses fatos nos faz voltar nossa a infância pobre quando o bom velhinho nos fazia sonhar um presente na janela ou debaixo da cama … mas crescemos deixando para traz os sonhos de criança da adolescência quando estudamos no CEAMEV E VC NO IME…. dias lindo que não voltam jamais.. assim são as surpresa que o destino da vida nos prega! que esquecera o nosso eterno poeta Ramom Vane espirito altruísta, sonhador, filosofo, homem sábio que trazia em suas simples palavras a sabedoria. A região cacaueira perde um ilustre filho que respirava 24 horas a cultura do cacau. Como camarada, na universidade participou ativamente no processo da estadualização da UESC; quando nos momentos de greve, no desalento, no meio da multidão Ramom saltava com sua poesia reanimando o movimento! Ou mesmo no Inferninho, nos bares grapiúnas ou nos palcos teatrais nos agraciava com sua eloquência poética. Vai amigo, vai em paz! Vai em paz com esse coração grande que era capaz de abraçava o mundo e a todos com seu sorriso sincero, sempre estampado na cara; e sempre nos ensinava a amar a vida na sua simplicidade. Nossas condolencias

  • EDMILTON CARNEIRO says:

    E esta foi, sem dúvida, a maior virtude de RAMON VANE: a de tornar os dias das pessoas, inesquecíveis.
    Parabéns, Maurício pela bela Homenagem tanto a Ramon, quanto a HELENILSON CHAVES, pelo homem que é, saberá entender essa quebra do silêncio, tão bem guardado por anos.
    Todos nós estamos muito tristes pela partida de nosso colega Ramon.
    Bela Homenagem !

    EDMILTON CARNEIRO

  • VITORIA REGIA says:

    RAMO VANE,o que dizer?sem palavras,não existe palavras,saudades eterna,obrigado pela sua companhia alegre quando nos nos encontravamos,a última vez foi no forum em Porto Seguro,

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