José Nazal Pacheco Soub

 

Tio João, calculando o tempo da corrida, sabendo que já devia estar terminando, chamou um grupo de amigos e soltou a notícia: “João da Verdura foi o campeão da São Silvestre”!

 

Todos os anos, em 31 de dezembro, lembro-me de tio João Diogo, com sua verve, seu espírito gozador, que muitas vezes parecia ferino para alguns.

Contou-me ele um fato dos anos 50, no auge da riqueza do cacau, ocorrido no então aristocrático Clube Social de Ilhéus, durante uma festa de Réveillon. Naquele tempo, todos com traje a rigor, embalados pelas melhores orquestras existentes.

Vivia em Ilhéus um pequeno empreendedor ambulante, que comercializava verduras e temperos, levando a mercadoria de porta em porta nos bairros da cidade. Seu apelido, em função da sua atividade, era “João da Verdura”. João, além de bom comerciante e com vasta freguesia na cidade, tinha um ‘hobby’ que hoje está muito em moda: gostava de praticar corrida de rua. Nas suas folgas, passava pelo menos uma hora por dia correndo.

João tinha um sonho antigo, que nunca poderia realizar devido a sua condição financeira: inscrever-se, viajar e correr a São Silvestre, tradicional corrida paulista, que se realizava na virada do ano, fato hoje que não mais ocorre devido a exigências técnicas.

Um dia, depois de muito pensar, expôs seu sonho a um amigo confidente. Na verdade, era um amigo inconfidente, que rapidamente se mobilizou e, fazendo uma “vaquinha” entre os fregueses do corredor, levantou os recursos necessários para a inscrição, viagem e hospedagem. Quando João recebeu a notícia de que seu sonho seria realizado, desdobrou-se em treinamento, passando a correr pelo menos duas horas por dia.

Chegada a hora, João partiu para São Paulo, levando a esperança dos ilheuenses, que aqui ficaram na torcida, esperando as notícias do resultado, pois naquele tempo demorava mais do que hoje.

Enquanto João corria a São Silvestre, o Réveillon corria solto no Clube Social, todos dançando, comendo, garçons se desdobrando para atender os pedidos da nata social de Ilhéus.

Tio João, calculando o tempo da corrida, sabendo que já devia estar terminando, chamou um grupo de amigos e soltou a notícia: “João da Verdura foi o campeão da São Silvestre”! Rapidamente os amigos levaram a notícia, que corria rapidamente de mesa em mesa.

Alguns minutos depois, o presidente do aristocrático subiu ao palco e, no intervalo de uma música, pediu a palavra. Saudou a todos desejando um Feliz Ano e confirmou a notícia bomba. Disse em tom alto e alegre: “Queridos associados e visitantes, temos a alegria de anunciar que o nosso querido João da Verdura, conterrâneo ilheuense, foi o campeão da São Silvestre! Para comemorar, vamos servir agora, por conta do Clube, uma garrafa de “Champagne” (naquele tempo não era chamado apenas por Espumante) para comemorarmos essa vitória”.

Os garçons correram para servir a todos e foi feito um brinde ao vencedor. A farra foi grande!

No outro dia, após a ressaca da festa, a notícia veio pela rádio e jornais: João da Verdura ficou em “cagagésimo” lugar, isto é, uns doze depois do último.

A conta ficou para o presidente do Clube, que morreu procurando saber quem deu a notícia.

José Nazal é memorialista, fotógrafo e vice-prefeito de Ilhéus.