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CABRUCA E CACAU CABRUCA, MELHOR SAÍDA PARA O RURAL SUL-BAIANO

Wallace Setenta || [email protected]

 

O “novo preconizado” [repetindo a forma original de plantio] tinha agora como método predominante para sua expansão a “derruba total da mata nativa” para o plantio dos novos cacauais, mas numa perspectiva monocultural, produtivista e hierarquizada voltada unicamente para produção em escala [grandes volumes] visando apenas a exportação de bagas.  

 

Construímos o mundo em que vivemos durante as nossas vidas. Por sua vez, ele também nos constrói ao longo dessa viagem comum. Assim, se vivemos e nos comportamos de um modo que trona insatisfatória a nossa qualidade de vida, a responsabilidade cabe a nós. (Maturana, H. R.). 

A história das chamadas relações entre sociedade e natureza é, em todos os lugares habitados, a da substituição de um meio natural, dado a uma determinada sociedade, por um meio cada vez mais artificializado, isto é, sucessivamente instrumentalizado por essa mesma sociedade (Santos, M.). As modalidades dessas relações estabelecidas no sul da Bahia deram origem à CABRUCA, designação como é conhecido o Sistema Agrícola Tradicional Cabruca [SAT Cabruca], principiado e constituído há mais de 250 anos num ambiente natural de Mata Atlântica.

“Não foram os efeitos de braços estranhos, não o ouro de abastadas bolsas, não foi o amparo de governos fortes, mas a constância de modestos homens, a intrepidez do trabalhador patrício, cujo o único capital constituía nos seus braços, quem a fez triunfante”. (Bondar, G.)

Muitas outras denominações da Cabruca são habitualmente empregadas em função das especificidades locais onde se assentam: cabroca; cacau no brocado; brocado; cacau tradicional; cacau do jupará; cacau na mata; mata produtiva; agrossistema tradicional; cacau sob mata raleada, e mais recente como cacau cabruca ou como sistema agroflorestal tipo cabruca.

A evolução dinâmica desse processo de trabalho [cabruca] inovador, em permanente construção, continua sendo reinventado progressivamente frente às constantes mudanças nos contextos sociais e econômicos, técnicos e ambientais possibilitado pelo entrelaçamento harmônico em meio a cabruca [como processo trabalho]; o Bioma Mata Atlântica [meio natural]; e a sociedade local [como indutora e de forte conotação de conteúdo coletivo]. O conceito cabruca [conservação produtiva] concilia e viabiliza portanto as relações de produção, da “roça ao chocolate”, tendo como protagonista principal o produtor de cacau [como agente social] – sobre os ombros do qual a crise se avoluma.

Clique no “leia mais”, a seguir, para conferir o artigo na íntegra:

Os constituidores da cabruca de forma interativa, circunscritos a uma realidade constituída, efetivamente perseguiram como objetivo a longevidade, a resiliência e a produção econômica do sistema tendo como premissa, a fragilidade social em que se encontravam [inicio do século XIX], no entanto baseados no envolvimento comunitário participativo e através de “ações e práticas comuns” decorrentes das intencionalidades coletiva fundamentaram as  dimensões inovadoras dessa experiência, só agora percebida no atual estágio de evolução do  pensamento cientifico contemporâneo: i) o equilíbrio entre conservação, uso e manejo da sociobiodiversidade e desenvolvimento socioeconômico sustentável; ii) a viabilidade e sustentabilidade das práticas culturais tradicionais [e técnicas atuais] associadas à manutenção da agrobiodiversidade e bens ambientais no SAT cabruca; iii) e ainda, consolidar estratégias [tanto no passado como no presente] para ações públicas voltadas à inclusão social para os pequenos produtores, agricultores familiares e as comunidades tradicionais. 

Marcadamente numa conjuntura socioeconômico desfavorável e de isolamento geográfico, em meados do século XVII; sem acesso a recursos financeiros, técnicas de cultivo, insumos ou incrementos tecnológicos, os “solitários do cacau”, mesmo que tardiamente [1750/1800], principiaram a consolidação de um sistema de produção inusitado e eficiente que se revelou sustentável e produtivo ao longo do tempo. Se não, como justificar que ainda hoje [250 anos depois] possuirmos 330 mil hectares de cabruca dos 440 mil hectares de cacau plantados na Bahia?  

Neste sentido constituíram e perpetraram obstinadamente um método de cultivo apropriado à suportar as crises cíclicas da cacauicultura – de preços, climáticas, das pragas e doenças, através do equilíbrio dinâmico encontrado na conservação e uso da água, na biodiversidade, e na inclusão socioprodutiva; dessemelhantes das práticas agrícolas perpetradas pelos atuais modelos produtivistas, ditos modernos, de elevado requerimento de capitais e agroquímicos com intensa degradação dos recursos naturais.  

Evidenciou-se de tal modo, mesmo em conjuntura adversa, não só resistir ao tempo, mais também a sedução e as imposições da “modernidade agrícola” [revolução verde], onde o tradicional e as experiências locais eram sinônimos de decadência, de improdutivo, de declínio. O “novo preconizado” [repetindo a forma original de plantio] tinha agora como método predominante para sua expansão a “derruba total da mata nativa” para o plantio dos novos cacauais, mas numa perspectiva monocultural, produtivista e hierarquizada voltada unicamente para produção em escala [grandes volumes] visando apenas a exportação de bagas.  

Porém, em contestação, a cabruca prosseguiu e firmou-se ainda mais forte pelo vigor dos propósitos conservacionista e econômico [visão holística], perpetrados a princípio por conceber e apropriar ao sistema,  modelo estrutural semelhante a floresta [estratificação vertical] permitindo a conjunção em rede interligadas [corredores ecológicos – pela alta diversidade de espécies presentes] entre os agroecossistemas e remanescentes florestais numa relação vital e simbiótica dos elementos naturais, que para um observador desavisado torna-se difícil distinguir na composição da paisagem regional os elementos que a integram – floresta/cabruca, pela sua configuração de aparência continua e harmoniosa, formando um mosaico único de exuberância e rara beleza cênica. 

Assim confirma-se no tempo como um “sistema sociotécnico”, dinâmico e por isso estável – protótipo à “agricultura sustentável” desde século XIX, requerido como modelo em função dos eminentes riscos sociais e ambientais locais e que afligem o planeta Terra – pelo exercício permanente de atitudes e intencionalidades, individuais e coletivas, em estabelecer relações duradouras de convivência através da realidade vivida à fundamentar distinções ao sistema em consequência da necessidade obsessiva de perseguir e incluir novas dimensões a cada dia percebidas, e circunstancialmente constituídas no tempo,  como  perspectiva à uma solução duradoura e consequente.  

Wallace Setenta é agrônomo e mestre em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente pela Uesc.

1 resposta para “CABRUCA E CACAU CABRUCA, MELHOR SAÍDA PARA O RURAL SUL-BAIANO”

  • Ponto G says:

    Infelizmente esse tema, cacau, vai ficar para a história! Uma nova praga, um fungo, já se aproxima do Acre e de Rondônia, a Monilíase. Sem tratamento, sem cura e muito mais devastadora para os cacauais e o cupuaçu do que a vassoura-de-bruxa. A cultura do cacau tende a ficar no passado, na cultura de uma região sul-baiana, cujo fim será melancólico!

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