Peru enfrenta o Brasil longo mais, às 17 horas|| Foto Guilherme Hahn/AGI

A final da Copa América marcará o fim de um longe jejum para o Peru. Após um período de 44 anos, os alvirrubros voltaram à decisão do torneio sul-americano, do qual só foram campeões uma única vez, em 1975. A decisão neste domingo, às 17h, no Maracanã, coroa uma das melhores gerações da história da seleção peruana.

Uma série de fatores ajuda a explicar a ascensão de La Blanquirroja no cenário sul-americano. Do goleador Paolo Guerrero ao técnico Ricardo Gareca, passando pelo apoio incondicional da torcida peruana, tudo contribuiu um pouco para que o Peru fosse o finalista. A chance de título anima os peruanos e satisfaz uma geração carente de grandes momentos no futebol.

Quem tem até 40 anos não era nem nascido na última vez que o Peru foi à final da Copa América. Em 1975, o time comandado pelo ídolo Teófilo Cubillas conquistou o único título sul-americano da seleção. Na trajetória para o campeonato, o Peru derrotou o Brasil em dois jogos.

No Mineirão, a Seleção Brasileira foi surpreendida e perdeu por 3 a 1. A vitória do Brasil por 2 a 0 no jogo de volta, em Lima, levou a decisão para o cara ou coroa. E a sorte esteve ao lado dos peruanos. Na final, o Peru precisou de um terceiro jogo para despachar a Colômbia.

ÚLTIMO GRANDE TIME

Aquela geração, liderada por Cubillas, era o último grande time da seleção peruana. Boa parte daquele time, aliás, esteve em campo nos dois confrontos entre Brasil e Peru nas Copas do Mundo de 1970 e 1978. Nas duas ocasiões, a Seleção Brasileira se deu melhor: vitórias por 4 a 2 e 3 a 0, respectivamente.

Também foi parte daquele time que disputou a Copa do Mundo de 1982. Após a participação no Mundial da Espanha, o Peru ficou 36 anos sem voltar à competição; jejum este que só foi encerrado pelo atual time, na Copa do Mundo da Rússia, em 2018.

Jornalista esportivo, o peruano Michael Succar não conseguiu acompanhar aquela geração, e destacou o quanto essa final significa para os peruanos mais novos. “Para minha geração, com menos de quarenta anos, é o mais bonito que já se viveu. O Peru não chegava à Copa havia 36 anos. Por isso, a classificação ao Mundial foi considerada a maior conquista da história do futebol do Peru, pelo contexto e pelos adversários”.

“EL TIGRE”

Contratado em março de 2015, o argentino Ricardo Gareca teve em mãos o maior desafio de sua carreira: levar uma desacreditada seleção peruana à Copa do Mundo. Com muito trabalho, transformou o time em uma força dentro da América do Sul. Aos poucos, o Peru foi ganhando posição nas Eliminatórias, e o sonho da Copa foi se tornando cada vez mais real. Na reta final, o Peru desbancou o Chile, atual bicampeão da Copa América, na disputa por uma vaga no Mundial.

Após a participação na Copa da Rússia, Gareca foi fortemente assediado por outras seleções. Mas não arredou pé. Optou pela sequência de seu trabalho com o Peru e foi recompensado. Ao longo de toda a Copa América de 2019, a Seleção mostrou muita solidez tática, entrosamento entre os jogadores e competitividade. A exceção foi justamente o jogo contra o Brasil, na rodada final da fase de grupos, que quase pôs tudo a perder.

Com dois gols rápidos, a Seleção Brasileira desmontou a estratégia peruana para a partida e venceu por 5 x 0. Mas quando tudo poderia ir por água abaixo, o Peru ficou ainda mais unido. Os jogadores se fecharam e prometeram apagar a mancha daquela goleada. É justamente esse coração que tanto encanta o torcedor peruano e alimenta o sonho do título neste domingo.

– Não temos um Firmino, um Coutinho, um Messi ou um Di Maria. Nem mesmo um jogador da Juventus, como Cuadrado (da Colômbia). Um Cavani, um Suárez. Temos Guerrero, que é um craque, mas não joga em Barcelona, no Real Madrid. São jogadores bons que se conectam coletivamente, foram uma equipe muito competitiva. Respeitam a essência do futebol peruano, que é formar um time. O destaque do Peru não é Paolo, nem Cueva. É o time – destacou Succar.

Maior artilheiro da história da seleção peruana, Paolo Guerrero reúne todas as qualidades que um torcedor pode esperar. Se entrega pelo time, dá o sangue pelo país, tem rara habilidade e técnica e um impressionante espírito de liderança. Não é à toa que o atacante do Internacional é tão querido pelo povo peruano. Em qualquer jogo da Blanquirroja, o estádio é tomado por camisas de número nove, com o nome de Guerrero nas costas.

Principal ídolo do Peru desde Cubillas, Guerrero tem um retrospecto de respeito na Copa América. Com 13 gols marcados, é o maior artilheiro em atividade da competição. O “Depredador”, como é conhecido por lá, é familiar ao torcedor brasileiro. Desde 2012, defendeu Corinthians, Flamengo e Internacional e já chegou à marca de 100 gols atuando no Brasil.

A jornalista brasileira Raisa Simplício passou um tempo no Peru e conseguiu perceber a idolatria que Guerrero despertou entre os torcedores. Na comparação com outro grande nome dessa geração, o atacante Cláudio Pizarro, Paolo se destaca por algo intangível: a identificação.

– A presença do Paolo Guerrero é muito importante. No Peru, há uma comparação entre ele e o Pizarro, que tem uma carreira internacional mais forte. Mas o Paolo sempre se entregou muito mais à Seleção. Ele não se poupa lá – lembrou a jornalista.

NÃO ERA FAVORITO

Apesar de chegar às últimas duas semifinais da Copa América, o Peru não foi apontado como um dos grandes favoritos para a competição este ano. Mas como o jogo é jogado e o lambari é pescado, a Blanquirroja surpreendeu muita gente. Deixou para trás algumas das camisas mais pesadas do continente. Nas quartas de final, superou o Uruguai, maior campeão da Copa América. Na semi, bateu o Chile categoricamente: um 3 a 0 sem nem dar chance ao rival.

Nos últimos anos, La Roja havia sido uma espécie de algoz para os peruanos. Em seus dois títulos, o Chile eliminou o Peru e a partida deste ano foi encarada como uma grande revanche. Por dar a essa geração uma final de Copa América, por se vingar das últimas eliminações e por mostrar que, mesmo após uma goleada por 5 a 0, o peruano não desiste, essa seleção despertou tanto sentimento no torcedor.

A gratidão do peruano aos jogadores e à comissão técnica é tão grande que a sensação é que o resultado deste domingo não importa tanto. É claro que ser campeão interessa, e muito, mas de qualquer forma, o povo do Peru estará orgulhoso do que foi construído por este grupo no Brasil.

“O sentimento geral do peruano é de muita alegria. Somos muito apaixonados por futebol e temos muita gratidão por estarmos onde estamos e pelos rivais que enfrentamos. Há muito reconhecimento ao Gareca e aos jogadores. Estamos vivendo, talvez, o melhor momento em nossa história”, disse o jornalista Michael Succar.

Michael Succar acrescenta que “em 70, tínhamos jogadores muito próximos de um nível internacional. Hoje, se sente que a diferença individual é maior. E graças ao Gareca, com muito trabalho coletivo e mental, de fazê-los acreditar e mostrar que são bons, conseguimos equilibrar isso. Aconteça o que acontecer contra o Brasil, o país já está agradecido pela Seleção”.