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:: ‘Artigos’

AINDA NÃO ESTAMOS PRONTOS PARA A FORÇA DA MULHER?

Manuela Berbert || manuelaberbert@yahoo.com.br

Na contramão disso tudo, vale ressaltar, o índice de violência doméstica só cresce. Basta uma olhadinha nos veículos de comunicação para encontrarmos manchetes sobre crimes passionais, por exemplo.

Tenho visto e acompanhado, cada vez mais, o excelente desempenho de diversas mulheres pelo mundo. Observo algumas se encontrando, profissionalmente falando, e muitas se reencontrando. Quase todas tomando as rédeas do próprio destino pelas mãos, independente da idade, classe social e financeira.

Só ontem li que a autobiografia de Michelle Obama, Becoming – a Minha História não para de bater recordes em vendas. Recorde esse que, invariavelmente, já era de uma mulher, E.L.James, autora da trilogia Cinquenta Sombras de Grey. As revelações da antiga primeira-dama norte-americana trazem de problemas comuns na gravidez à terapia de um casal em crise, diminuindo cada vez mais a suposta distância entre as damas das altas sociedades e as mulheres de vida simples.

Enquanto isso, também foi divulgado na última segunda-feira, e voltado para o universo mais jovem, a seguinte manchete: dentre os candidatos que tiraram nota mil na redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem 2018), as mulheres foram a grande maioria. Os dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) trazem mais uma realidade: o alto poder de entendimento delas sobre a vida em si, já que as questões das provas têm trazido as relações humanas e seus problemas cotidianos à tona, sempre.

Na contramão disso tudo, vale ressaltar, o índice de violência doméstica só cresce. Basta uma olhadinha nos veículos de comunicação para encontrarmos manchetes sobre crimes passionais, por exemplo. É inegável, também, que portas para as grandes oportunidades de emprego foram, enfim, abertas para as mesmas. No entanto, ainda constata-se que muitas chegam a cargos importantes de liderança, correspondem às suas qualificações, mas são mal remuneradas. Diante de um cenário diário tão dúbio e conflitante, me questiono: ainda não estamos prontos para a força da mulher?

Manuela Berbert é publicitária e escreve no blog www.manuelaberbert.com.br

ARTIGO || OS MUROS DE BOLSONARO

Sócrates Santana

 

 

A falta de cordialidade do presidente empossado Jair Bolsonaro e o seu empenho de realizar uma cruzada ideológica contra os vermelhos incluiu no seu alvo o maior destino da exportação brasileira, a China. O resultado: o presidente da Câmara de Indústria e Comércio Brasil-China, Charles Tang, confirmou que seu país colocou o Brasil em stand by.

 

A mais enraizada e consensual tradição da família brasileira está sendo violentada pelo novo governo: a cordialidade. Ao menos, desta maneira conceituou um dos mais importantes pensadores da formação do povo brasileiro, o sociólogo Sérgio Buarque de Holanda. Segundo o autor da célebre obra Raízes do Brasil, a cordialidade revela a vontade da família brasileira aproximar o que é distante do nível do afeto. O “homem cordial” é, portanto, um artifício, encrustado em nossa formação enquanto povo. É por isso que Sérgio Buarque disse, também, que: “a contribuição brasileira para a civilização será o homem cordial”. Uma promessa conjugada verbalmente no tempo do futuro do presente do indicativo.

A emissão de um telegrama à ONU do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, pôs em risco o prelúdio do pensador brasileiro com o fim da participação brasileira no Pacto Global para a Migração. Uma decisão, ideologicamente contaminada, tomada pelo presidente recém empossado, Jair Bolsonaro, que colocou 3.083.255 brasileiros que vivem no exterior a mercê de um benefício internacional, não sendo o país mais “signatário do pacto global para migração segura, ordenada e regular”.

O fato é que o Brasil não tem um problema sério de migração. Ou seja: estrangeiros que moram no Brasil são poucos proporcionalmente aos brasileiros que vivem no exterior. Temos uma parcela muito pequena da nossa população composta por migrantes, são cerca de 0,4% de migrantes chegando no Brasil, e temos muito mais brasileiros vivendo no exterior do que estrangeiros vivendo no nosso país. Então, a saída do pacto prejudica mais os brasileiros do que a permanência no pacto.

Obviamente, a decisão não é uma atrapalhada do presidente Jair Bolsonaro. É um risco mal calculado por quem não governa para todos, mas apenas para os 57.796.986 de brasileiros que votaram nele. Eu vou explicar o meu argumento e mostrar como o cálculo do Palácio do Planalto é baseado no resultado das urnas. O presidente Jair Bolsonaro sabe que o número de brasileiros no exterior não representa necessariamente a totalidade dos brasileiros residentes nos 120 países dos 193 membros da ONU que assinaram o Pacto Global para Migração, mas, simplesmente, menos da metade.

Coincidência ou não, o maior número de brasileiros no exterior reside nos EUA. Um total de 48%. Os brasileiros de Miami garantiram uma vitória esmagadora de Bolsonaro no exterior. Esses dados mostram como as decisões do presidente Jair Bolsonaro são tendenciosas e ideologicamente contaminadas pelo mapa eleitoral. A decisão, portanto, não é fruto de uma atrapalhada e uma decisão sem fundamento. É uma decisão de quem resolveu apostar todas as fichas no segundo maior importador do Brasil. Este, talvez, seja outro risco mal calculado pelo presidente Jari Bolsonaro.

Hoje, os EUA correspondem a apenas 16% das exportações brasileiras, enquanto os chineses, por exemplo, correspondem a mais de 30%. Todos os indícios da política internacional do governo empossado apontam para uma busca desenfreada e de alinhamento com o Tio Sam. Mas, todos os números da economia brasileira mostram como o governo americano busca ocupar espaços e concorrer com os produtos de exportação do Brasil, que sofrem ainda mais com a redução do dólar.

Enquanto isso, o presidente norte-americano, Donald Trump, celebra o crescimento das exportações de carne dos EUA para o Brasil que, desde 2003, não vendia para o país sulamericano. Aliás, o Brasil pode se preparar para uma concorrência maior dos Estados Unidos no setor de carnes em 2019. A produção e exportação deverão ser recordes em alguns dos setores de proteína deste país, concorrente direto do Brasil. Uma das apostas dos americanos é exatamente a China, com quem selou recentemente uma trégua na guerra comercial. Mas, só que não…

A falta de cordialidade do presidente empossado Jair Bolsonaro e o seu empenho de realizar uma cruzada ideológica contra os vermelhos incluiu no seu alvo o maior destino da exportação brasileira, a China. O resultado: o presidente da Câmara de Indústria e Comércio Brasil-China, Charles Tang, confirmou que seu país colocou o Brasil em stand by. Tradução: bye, bye US$ 19 bilhões em soja vendidas para a China. Ou pior: zài jiàn 80% de toda a soja produzida por fazendeiros brasileiros comprada pelos chineses.

“A verdadeira força moral da Casa de Rio Branco” está em pânico com tamanhos disparates e mostrou em manifestação pública a sua preocupação sobre o futuro sem cordialidade do Itamaraty brasileiro. O presidente Jair Bolsonaro e o chanceler Ernesto Araújo precisam da razão esclarecedora do homem cordial, segundo Sérgio Buarque, inspirado em caminhos sem muros, mas, cheios de fronteiras para aproximar quem precisa “viver nos outros” e não suporta o peso da individualidade.

Para alguns, estabelecer fronteiras significa apenas divisão e construção de muros para separar pais e filhos, a exemplo de Donald Trump em relação aos imigrantes mexicanos. Para outros, erguer fronteiras significa garantir a unidade de pontos diversos, a exemplo da Grande Muralha da China, que gerou emprego e, principalmente, uniu sete reinos em um país. Para os brasileiros, as fronteiras são possibilidades de amarrarmos a nossa soberania com os laços do coração, aproximando a civilidade do diálogo permanente com o outro, dando uma chance para todos recomeçarem, imigrantes ou não, brasileiros ou não, eleitores de Bolsonaro ou não.

Sócrates Santana é jornalista e brasileiro. Atualmente, atua como mentor de startups e gestor de inovação para o Governo da Bahia.

MINHA CIDADE É UMA PIADA PRONTA!

Manuela Berbert || manuelaberbert@yahoo.com.br

 

 

 

E eu fico daqui, passando o olho e – vez ou outra – até torcendo que algo realmente bom saia daquilo tudo, mas confesso que aprendi a sorrir mais e a levar tudo menos a sério.

 

Só cresce o número de grupos no Whatsapp com pessoas bem intencionadas em resolver os problemas da minha cidade, Itabuna. De todas as áreas possíveis, incluindo políticos em exercício, as discussões são intermináveis: “vamos construir uma agenda”, “precisamos nos unir” etc… E eu fico daqui, passando o olho e – vez ou outra – até torcendo que algo realmente bom saia daquilo tudo, mas confesso que aprendi a sorrir mais e a levar tudo menos a sério.

Acompanhei uma discussão interessante sobre a reconstrução de praças, após a publicação da imagem de um empresário local fazendo uma doação de sacos de cimento. “E pode?”, alguém questionou, abrindo precedente para os ânimos mais exaltados fuçarem matérias sobre cidades onde as praças são adotadas por empresas particulares – e aquele blá-blá-blá todo que a velocidade da internet permite. Não opinei, mas lembrei de uma situação que aconteceu recentemente, envolvendo uma cidadã comum, moradora do Banco Raso, bairro localizado no fundo da Prefeitura Municipal de Tabocas Ville, a terra onde tudo pode acontecer a qualquer momento.

Segundo informações, a senhora de meia-idade utiliza, diariamente, a área física da prefeitura como passagem para a Avenida Princesa Isabel. Ela sai da sua residência, trafega pelos corredores do prédio administrativo e chega ao seu destino, evitando a volta pelo prédio. Acontece que, observando que a porta que proporcionava sua comodidade estava trancada por dias, a mesma teria procurado um representante da Guarda Municipal. Ele, por sua vez, teria explicado que a fechadura estava com defeito, coisa que a senhora se prontificou a resolver.

Segundo um familiar, ela teria chamado um chaveiro, trocado o entrave e entregado a cópia das chaves. Nessas, claro, fora repreendida pelo responsável da manutenção. Alguns xingamentos depois, eis que a mesma teria ido parar na Delegacia Especializada de Apoio à Mulher. “Mas a senhora não pode fazer isso!”, teria dito a delegada. “Pegue a Constituição Federal e me mostre onde isso está escrito! Porque até onde eu sei, nela consta que eu não posso depredar um bem público. Zelar por ele, eu posso sim!”

O tempo urge, a sapucaí é grande e Itabuna, minha terrinha natal, se alguém inventar de cobrir, vira circo!

Manuela Berbert é publicitária e escritora.

O QUE ESPERAR DE 2019

Jaciara Santos

 

 

Reitero a expressão: “A melhor maneira de prever o futuro é criá-lo.”

 

 

A esperança mais uma vez toma conta de nossas mentes e corações. As pessoas se cumprimentam com votos de um ano de grandes realizações. Mas afinal, o que são realizações? O que é sucesso?

Definições de alguns estudiosos sobre sucesso:

– Êxito, triunfo, vitória, sensação de glória; de sorte; felicidade;
– Significa ter êxito em alguma coisa;
– Ter um resultado feliz em algo;
– Conseguir chegar ao fim de uma empreitada.

Se avaliarmos friamente algumas pessoas de “sucesso”, percebemos que apesar de tantas realizações materiais, êxito, triunfo, são pessoas sedentas de amor e esperança.

O sucesso está nas pequenas coisas da vida. Num abraço sincero e num sorriso verdadeiro.

Sucesso é viver cada dia com a intensidade de maneira que façamos, falemos e perdoemos a quem nos ofendeu ou a quem ofendemos.

Por vezes, ficamos magoados por coisas tão pífias, que não fazem nenhum sentido à proporção que damos a elas.

Não tenha vergonha de perdoar ou de pedir perdão, de reconhecer que errou.

A vida é muito curta para que a vivamos com intrigas e desamor.

Relatarei três características relevantes para nos tornarmos pessoas de sucesso:

– As pessoas de sucesso são apaixonadas pelo que fazem independente do que a sociedade julga como profissão de sucesso;

– As pessoas de sucesso possuem foco e determinação e não tem vergonha de recomeçar;

– As pessoas de sucesso são pessoas alegres (por dentro e por fora), além de serem empáticas.

Que tenhamos neste novo ano a oportunidade de recomeçar e tentar acertar. Avaliar o que deu certo e em quais pontos precisamos melhorar.

Será fácil? Com certeza, não! Mas a evolução consiste no simples fato de se propor fazer a diferença.

Findo com a sugestão de buscar sermos pessoas melhores, mais humildes e humanas. Olhar o outro, fazer algo pelo outro, enxergar os que estão à nossa volta.

Reitero a expressão: “A melhor maneira de prever o futuro é criá-lo.”

Que 2019 seja um ano de oportunidades novas.

Jaciara Santos é Master Coach

UM NOVO TEMPO

Rosivaldo Pinheiro

Precisamos mentalizar que o relógio do tempo não para, que a nova contagem dos dias do próxima ano é apenas simbólica, resultado da capacidade humana de criar cenários e caminhos para tornar menos estafante a caminhada na oxigenação da nossa existência.

Estamos encerrando mais um ano. 2018 foi um ano em que vimos escancarada a face do ódio, do conservadorismo, das liberdades avassaladoras e do impacto das redes sociais. Percebemos o impacto do mundo virtual sobre o mundo real. 2018 será um ano de ensinamentos, um ano régua, para aferição do processo de organização sociopolítica do nosso país.

Esperamos que tenha sido um ano de rupturas com as falsas verdades, de desconstrução das falsas moralidades. Foi um ano difícil, mas de necessária razão de existir para o fortalecimento da nossa ainda jovem democracia. Que tenhamos capacidade de tirar desses acontecimentos lições para superação das diferenças e nos fortalecer na formação de um projeto de nação. Que possamos olhar a história, nossos fossos pessoais, respeitar as diferenças e avançar na construção dos saberes, dando vasão a um ambiente forjado no bom debate, superando a ignorância conveniente e entendendo que uma sociedade democrática nascerá a partir da educação do seu povo, na convivência sadia entre os diferentes, em todos os níveis da livre manifestação.

2019 bate à porta. É logo ali, na esquina do tempo. Uma nova oportunidade para nos melhorarmos e que exige de nós uma autoavaliação, assumindo responsabilidades e direitos, sem avançar no terreno alheio. Precisamos romper com as nossas convicções e, de certa forma, superar as nossas hipocrisias – aquelas que conhecemos ao conversar com o espelho -, aprendendo que ninguém muda o outro, sem, antes, mudar a si.

Precisamos mentalizar que o relógio do tempo não para, que a nova contagem dos dias do próxima ano é apenas simbólica, resultado da capacidade humana de criar cenários e caminhos para tornar menos estafante a caminhada na oxigenação da nossa existência. Um novo ano só acontecerá se no interior de cada um de nós brotar um ano novo. Precisaremos, então, fixar metas, cumprir palavra, policiar-nos nas certezas e separar as “massas das maçãs”. Assumir novas atitudes. Precisamos ser indivíduos melhores em cada amanhecer, gerando, diuturnamente, um planeta melhor a partir das nossas casas. Feliz 2019!

Rosivaldo Pinheiro é economista com especialização em Planejamento de Cidades.

ACM NETO E O DESAFIO DE 2022

Marco Wense

Não acredito no surgimento de outro nome como protagonista de uma terceira via, capaz de atrapalhar essa disputa entre ACM Neto versus Otto Alencar, um ex-seguidor do carlismo.

Salvo algum acidente de percurso, a candidatura de ACM Neto, presidente nacional do Partido do Democratas (DEM), ao comando do Palácio de Ondina, na sucessão de 2022, é irreversível.

Não tem como o alcaide soteropolitano fugir da disputa, como fez na eleição de 2018, deixando o oposicionismo a ver navios, desorientado e macambúzio.

O candidato da oposição foi José Ronaldo, ex-prefeito de Feira de Santana, o que terminou levando o governador Rui Costa a conquistar o segundo mandato com uma vitória acachapante.

Seria imperdoável um recuo de Neto na disputa pelo governo da Bahia daqui a quatro anos. Politicamente, um suicídio. Uma tomada de posição que significaria o fim da carreira política.

Nenhuma dúvida: o demista ACM Neto é candidatíssimo. Passa a ser a única opção com viabilidade eleitoral para evitar que o PT faça o sucessor de Rui Costa.

Para os netistas, dois pontos são favoráveis ao líder da oposição: 1) a fadiga do eleitorado com o PT, completando 16 anos de governo com o segundo mandato de Rui Costa. 2) o apoio, dado como favas contadas, do presidente eleito Jair Bolsonaro.

Sobre o natural cansaço do eleitor, é bom dizer que o próprio governador, em conversas reservadas, já admite que o candidato da situação não pode ser do PT. Opinião compartilhada pelo senador eleito Jaques Wagner.

Vale lembrar que tanto Rui como Wagner, já demonstraram, na sucessão presidencial, que o PT precisa apoiar nomes de outras legendas, amenizando o unânime comentário de que o Partido dos Trabalhadores adora ser apoiado e detesta apoiar.

Rui Costa e Jaques Wagner fizeram de tudo para que Ciro Gomes, do PDT do saudoso Leonel Brizola, fosse o candidato da frente de esquerda em uma aliança com o PSB e o PCdoB. Deu no que deu: Fernando Haddad, o “poste” de Lula, foi derrotado por Bolsonaro.

Em relação ao ponto 2, ACM Neto, ao nomear Alberto Pimentel para a secretaria do Trabalho e Esportes, marido de Dayane Pimentel, eleita deputada federal pela Bahia, procura um canal de comunicação com o governo Bolsonaro.

Dayane, que obteve 136 mil votos, usando a bandeira do combate à corrupção, é presidente estadual do PSL, representante-mor de Bolsonaro na boa terra e do mesmo partido do militar que virou a maior autoridade do Poder Executivo.

Como o PT tende a não ter candidatura própria, ACM Neto terá o senador Otto Alencar, do PSD de Gilberto Kassab, como provável adversário mais difícil de ser encarado.

Não acredito no surgimento de outro nome como protagonista de uma terceira via, capaz de atrapalhar essa disputa entre ACM Neto versus Otto Alencar, um ex-seguidor do carlismo.

Marco Wense é articulista político.

NOVOS GOVERNOS E AS MEDIDAS IMPOPULARES

Marco Wense

 

 

Reformas, sim. Elas são importantes, quer no campo da economia, administrativo e político. Mas não fazendo com que os menos privilegiados paguem a conta pela irresponsabilidade de irresponsáveis governantes.

 

 

Medidas impopulares, nunca anunciadas durante uma campanha presidencial, deverão ser tomadas pelo governo Bolsonaro.

Qualquer reforma que se faça, principalmente a que mexe no bolso do cidadão-eleitor-contribuinte, é sempre contestada e serve de “alimento” para os políticos de oposição.

Se outro presidente fosse eleito, a análise seria a mesma, sem nenhuma alteração de conteúdo, trocando apenas os personagens. O protagonismo da oposição ficaria com os políticos bolsonarianos.

O que não pode, independente de fulano, sicrano ou beltrano como presidente da República, são as necessárias reformas assentadas no colo do povão de Deus. E aí me refiro também aos que estão enquadrados na classe média.

Ora, não se pode admitir qualquer medida que venha apertar ainda mais a corda no pescoço de quem já está em situação de desespero e totalmente desesperançoso, na base do “só Deus salva”, “só Ele na causa”.

Essa advertência não é só para o chefe do Poder Executivo, diz respeito também ao Legislativo, nas suas duas Casas – Câmara dos Deputados e Senado – e ao Judiciário.

Os ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ), por exemplo, no ano de 2018, votaram mais a favor das empresas de plano de saúde do que dos usuários, deixando muita gente sem saber o que fazer.

O STJ é quem julga as ações contra planos de saúde. Segundo o Anuário da Justiça da Saúde Suplementar, o tribunal, até setembro deste ano, prestes a findar, teria julgado 9.292 processos. Em 2017, foram 10.012.

Reformas, sim. Elas são importantes, quer no campo da economia, administrativo e político. Mas não fazendo com que os menos privilegiados paguem a conta pela irresponsabilidade de irresponsáveis governantes.

Ora, ora, até as freiras do Convento das Carmelitas sabem quais os segmentos da sociedade que devem fazer “sacrifícios”. Um deles, sem dúvida o mais endinheirado, é representado pelos senhores banqueiros, que dão pouco e recebem muito.

Que as reformas sejam bem vindas, principalmente a Previdenciária e a Política. Na minha modesta opinião, as mais imprescindíveis e urgentes.

Marco Wense é articulista político.

GERALDO SIMÕES E A REFORMA DE RUI

Marco Wense

 

Nos bastidores, o que se comenta é que o ex-governador e senador eleito Jaques Wagner pode levar Geraldo para Brasília, se o companheiro ficar de fora do Governo Rui Costa neste segundo mandato.

Toda vez que a reforma administrativa do governador Rui Costa emerge nas conversas entre petistas, o nome de Geraldo Simões é logo lembrado.

Prefeito de Itabuna por duas vezes, 1993-1996 e 2001-2004, também conhecido como “Minha Pedinha”, Geraldo divide a cúpula estadual do Partido dos Trabalhadores.

Tem os que defendem sua indicação para um cargo de primeiro escalão e os que torcem para Simões continuar a ver navios. Os mais religiosos fazem até promessas ao Senhor do Bonfim e colocam fitinhas no pulso.

Geraldo se mostra tranquilo.

Compreende que o chefe do Executivo não tem muita simpatia por ele. Até as freiras do convento das Carmelitas sabem da frieza de Rui com o ex-alcaide. Deve ter seus motivos, nunca revelados de público, mas sempre comentados em conversas reservadas.

A situação de Geraldo, quando comparada com a de priscas eras, como diria o saudoso, inquieto e polêmico jornalista Eduardo Anunciação, hoje em um lugar chamado Eternidade, é infinitamente melhor.

Teve um período em que Geraldo era uma espécie de “patinho feio” para Everaldo Anunciação, presidente estadual do PT, e Josias Gomes, então secretário de Relações Institucionais de Rui Costa. O apoio de Geraldo à reeleição de Josias para o Parlamento federal amenizou o pega-pega do passado.

Nos bastidores, o que se comenta é que o ex-governador e senador eleito Jaques Wagner pode levar Geraldo para Brasília, se o companheiro ficar de fora do Governo Rui Costa neste segundo mandato.

Geraldo Simões, que tem o controle do diretório do PT de Itabuna há muito tempo, é adorado por muitos e também odiado na mesma proporção.

O maior obstáculo no caminho de GS é sua performance nas últimas eleições que disputou, com resultados muito abaixo do esperado, provocando uma derrota atrás da outra.

Uma pergunta, no entanto, é oportuna e pertinente: Geraldo Simões estaria mesmo interessado em ocupar um cargo no Governo do Estado?

No mais, esperar o que vai acontecer com a reforma de Rui Costa, que terminou oxigenando o discurso oposicionista de que o morador mais ilustre do Palácio de Ondina cometeu “estelionato eleitoral” ao passar para o eleitor que a situação financeira do governo estava sob controle, que tudo corria conforme o figurino da boa e exemplar administração da coisa pública.

PS – Geraldo Simões, um dos fundadores do PT de Itabuna, é portador de uma invejável coerência na sua vida pública. O exemplo bem tupiniquim desse seu nexo político, se deu com a inusitada aliança entre Rui Costa e Fernando Gomes, atual gestor de Itabuna e considerado, por muito tempo, o maior inimigo do PT no sul da Bahia, daqueles que não perdiam a oportunidade de esculhambar com o partido e os petistas. Geraldo, quando questionado sobre o enlace político entre Rui e Fernando, foi hilariante: “casamento de cobra com jacaré”. A dúvida, até hoje não esclarecida, ficou por conta de quem seria a cobra e o jacaré.

ALEJANDRO E O OUTDOOR

Cláudio Rodrigues

 

Mas o que Alejandro e os 18 milhões de meninos e meninas desse Brasil desejam é não serem privados de direitos básicos como moradia digna, educação, informação, água, saneamento e proteção contra o trabalho infantil.

 

“O futuro de seu filho começa aqui!”. O outdoor com a chamada de uma escola para o início de matrículas para o próximo ano letivo é uma ironia para Alejandro, de 6 anos, e outras 13 crianças que há duas semanas montaram abrigo na Avenida Contorno, em Feira de Santana, tendo como base para a instalação de suas tendas, a placa de publicidade que vende a educação como futuro.

Alejandro e a placa de outdoor em Feira || Foto Reginaldo Tracajá Pereira

Futuro esse que Alejandro e as demais crianças que ali “habitam” sabem que é incerto. O espaço é dividido por oito famílias que saíram do interior da Paraíba, fugindo da fome e falta de emprego. As famílias ali instaladas ilustram os gráficos da pesquisa Síntese de Indicadores Sociais (SIS) 2017, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), segundo a qual 50 milhões de brasileiros – 25 por cento da população – vivem abaixo da linha de pobreza, com renda familiar de US$ 5,5 por dia, sendo que 43 por cento desse contingente está na região Nordeste.

No País em que seis em cada dez crianças vivem na pobreza, conforme estudo inédito do Fundo das nações Unidas para a Infância (Unicef), divulgado no último dia de novembro 14, a futura ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, pastora Damares Alves, em mais uma declaração ideológica sobre gênero, afirmou que vai tratar meninas como princesas e meninos como príncipes. Mas o que Alejandro e os 18 milhões de meninos e meninas desse Brasil desejam é não serem privados de direitos básicos como moradia digna, educação, informação, água, saneamento e proteção contra o trabalho infantil.

Na semana em que se comemora os 70 anos da proclamação da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), o que a família de Alejandro e tantas outras na mesma situação desejam é que o Brasil faça valer seu o Artigo 25:

I) Todo homem tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si mesmo e a sua família saúde e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez ou casos de perda de meios de subsistência em circunstâncias fora de seu controle.

II) A maternidade e a infância tem direito a cuidados e assistência especiais. Todas as crianças, nascidas dentro ou fora do matrimônio, gozarão da mesma proteção social.

A pastora e futura ministra – que durante uma pregação em um culto evangélico disse ter visto Jesus Cristo quando estava em cima de uma goiabeira e impediu que o mesmo subisse na árvore para não se machucar – talvez consiga, num milagre ou passe de mágica, tratar meninos como príncipes e meninas como princesas. Porém, se ela fizer valer o Artigo 25 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, os milhões de Alejandros desse país já se darão por satisfeitos.

Cláudio Rodrigues é consultor de empresas.

VOTAÇÃO PARA A PRESIDÊNCIA DA CÂMARA DE ILHÉUS CONTRARIA BASTIDORES

Marcolino Reis

Momento histórico na politica ilheense. Na tarde dessa quarta feira (12), aconteceu o inesperado na eleição para a presidência da Câmara de Vereadores de Ilhéus.

A vitória do vereador Paulo Carqueija (PSD), dada como certa, não ocorreu como esperado.

Carqueija, Marão e o novo presidente a partir de 2 de janeiro, César Porto

No apagar das luzes, numa articulação do ex-presidente da Câmara Jailson Nascimento, em conjunto com outros vereadores e com uma grande articulação política, os mesmos compuseram uma nova chapa, encabeçada pelo vereador César Porto (PDT) conseguindo uma vitória com placar de 11 contra oito.

Desta forma, a reviravolta ocorrida poderá mudar o cenário politico municipal.

Parabéns à nova mesa diretora eleita para o biênio 2019-2020 composta por Cesar Porto (PDT), Luis Carlos Escuta (PP), Fabricio Nascimento (PSB) e Juarez Barbosa(MDB)!

Marcolino Reis é comunicador.

ARTIGO || DESAFIOS DO CHOCOLATE

Alcides Kruschewsky

 

Há anos, quando fui àquele encontro de sonhadores, de gente que falava em conto de fadas, Floresta de Chocolate, em vencer a crise econômica, tirar a região e os produtores da estagnação, levantar a autoestima, senti algo positivo, diferente no ar.

 

Grandes desafios podem ser vencidos pela união de talentos e esforços. Com cada um fazendo a sua parte, chega-se aos objetivos. No nosso caso, poderíamos falar só dos problemas e dificuldades do nosso dia a dia. Isso é necessário, mas é também o mais fácil. Estamos estimulados com as perspectivas do turismo rural e com os passos largos do chocolate de origem do sul da Bahia. Esses serão pilares do turismo em Ilhéus, sem dúvida. Hoje já dão grande contribuição para o grau de satisfação dos nossos visitantes.

Quem viu essas propostas embrionárias, pouco acreditava que pudesse acontecer. E já é uma realidade. A “Floresta de Chocolate” parecia apenas um conto de fadas para quem assistia à difusão da ideia na fase de “gestação”. Hoje a sensação de apenas um sonho vai se afastando, ao passo que 70 marcas de chocolate de origem carimbam a nossa identidade, número que continua crescendo.

O Festival do Chocolate é um bom parâmetro dessa evolução em número e qualidade. Produtores oferecem ao mercado uma diversidade de derivados de cacau, cada vez maior e mais inusitada. Por isso, convido-os a imaginar essa mesma iniciativa semeada apenas entre os incrédulos e opacos, que se ocupam mais com as teses dos porquês do não daria certo, realçando sempre o que falta, os óbices e as deficiências.

Certamente Ilhéus e a região não teriam essa quantidade de produtores de chocolate, não teria os prêmios e destaque internacional para o cacau fino e chocolate de origem, nem os empregos e renda que em parte já foram resgatados. Com certeza ainda teríamos somente o Chocolate Caseiro Ilhéus, e isto graças a um visionário que não dava “bolas” para as “vozesinhas” que jogam tudo pra baixo. Se essas vozes prevalecessem não teríamos Mendoá, Sagarana, Yrerê, Haras Ilha Bela, Maltez, Policarpo, Tavares, Badaró, Capela Velha e a nova fábrica ICB, de chocolates finos, aqui no Iguape, alem de estrada e rotas do cacau e do chocolate em implantação, entre outros.

O mundo dos desafios não é para os fracos, para os pessimistas, para os que reclamam muito e trabalham pouco. Nem é para os que se ocupam apenas de se queixar e reclamar. O mundo dos grandes desafios é para aqueles que creem na capacidade de superação, no esforço comum e na criatividade. O mundo dos desafios exige mais foco no “o que cada um pode fazer” para somar, para juntar forças, conhecimento e espírito de nação, patriotismo. Os desafios e os sonhos caminham juntos. Só os que sonham realizam e vencem as dificuldades.

Há anos, quando fui àquele encontro de sonhadores, de gente que falava em conto de fadas, Floresta de Chocolate, em vencer a crise econômica, tirar a região e os produtores da estagnação, levantar a autoestima, senti algo positivo, diferente no ar. Era a energia contagiante dos que não se dão por vencidos, dos que não se entregam perante as adversidades. Quando perguntei a um deles o porquê, se vai ser tão difícil, ouvi a resposta: “Porque se fosse fácil, qualquer um faria”.

Portanto, ser vitorioso, vencer desafios, superar obstáculos, não é para qualquer um. Cada um tem a capacidade de sonhar e transformar sonhos em realidade. Mas há uma escolha a ser feita entre o lugar comum e a “floresta de chocolate”. Eu prefiro me deixar guiar pelo aroma que me inebria e inspira desde sempre, e ele é de chocolate. Sigo em busca de realizar os meus sonhos, que onde eu for, irão comigo.

Alcides Kruschewsky é secretário de Turismo de Ilhéus.

WILSON CHAGAS: HÁ 50 ANOS, A MORTE TRÁGICA DE UM RESISTENTE DEMOCRÁTICO

Ederivaldo Benedito || ederivaldo.benedito@gmail.com

 

 

Cinco décadas depois – tardiamente, quem sabe – eu registro a morte trágica de um cidadão, um homem que luta em defesa da liberdade. Cinquenta anos, pois, para lembrar a memória de um resistente democrático.

 

Neste quatro de dezembro de 2018 – coincidentemente, quando o Brasil volta-se para o passado e uma significativa parcela da sociedade assume claramente um posicionamento político que prega a união da família para fortalecer o Estado e este, por sua vez, integrar o país – me vem a lembrança dos cinquenta anos da trágica morte de Wilson Chagas. Um homem simples, do povo, uma célula, um cidadão que, com suas convicções e sua luta em Itabuna, no sul da Bahia, contribuiu para a construção de uma sociedade mais justa, humana, fraterna e igualitária.

Baiano de Belmonte, “Seu Wilson” era filiado ao Partido Comunista Brasileiro e servidor da Prefeitura de Itabuna quando, aos 47 anos, por volta do meio-dia do quatro de dezembro de 1968, foi atropelado na Avenida Juracy Magalhães, próximo a sua residência. Eu era seu vizinho, parede meia de seu Wilson e estava á época com nove anos. Cinco décadas depois, a cena não saiu de minha mente: uma camionete Chevrolet azul-claro e branca, no asfalto novo – como era chamada a avenida – em frente a barraca de caldo de cana do negro Cazuza e o Mercado Changai, de Valdomiro Moraes.

Wilson Chagas, um homem doce e amável, de bigode, gravata e guarda-chuva, marido de Dona Alzira Spinelli, aquariano, fazia aniversário na mesma semana que eu. O casal era amigo de minha mãe. Nós morávamos à esquerda dele. Sua trágica morte causou uma grande comoção na então Rua 25 de Agosto, Alto Maron, no dia de Santa Bárbara. Dona Bazinha, filha-de-santo, devota de Iansã, preparava um caruru com dois mil quiabos. Esse fato marcou para a sempre a minha vida.

Wilson Chagas era um comunista convicto, um militante nas terras grapiúnas. Trabalhou nos Correios, na Companhia de Luz e Força, e na Prefeitura de Itabuna. Deu uma grande contribuição à democracia sulbaiana, onde a Ação Integralista Brasileira, de Plínio Salgado, tinha uma atuação marcante: em Ilhéus com o fazendeiro e médico Raimundo do Amaral Pacheco; em Itabuna, com o comerciante e fazendeiro José Nunes de Aquino. Assim como hoje, o forte argumento do Integralismo era o anticomunismo. Filiado ao PCB, Seu Wilson enfrentava o discurso do Estado Novo de que os partidos eram uma ameaça à unidade nacional, justamente quando os comunistas uniam os trabalhadores em sindicatos e construíam agremiações partidárias com caráter nacional, consistência programática e identidade própria.

Com Dona Alzira teve dois filhos: Vladimir Spinelli Chagas, “Chaguinha” – em homenagem a Lênin, líder da Revolução Russa – e Judite, professora, mãe do militante petista e líder estudantil Wilson Chagas Neto.

De poucas palavras, Seu Wilson era um homem letrado. Era alcoólatra e tinha Tejo, um cão de estimação. Olhava-me com fraternidade, dizia que eu era inteligente. Tratou-me como gente, me deu brinquedos e histórias infantis. Cidadão honrado e decente que combateu a opressão e o arbítrio, que me fez enxergar o Mundo de uma forma diferente, mais humana.

Cinco décadas depois – tardiamente, quem sabe – eu registro a morte trágica de um cidadão, um homem que luta em defesa da liberdade. Cinquenta anos, pois, para lembrar a memória de um resistente democrático.

Seu Wilson era um libertário, e dentro do meu coração – com certeza – está guardado um pedaço dele.

Ederivaldo Benedito é radialista, jornalista, bacharel em Direito e ativista social.

O BRASIL E A COP 25

Gerson Marques | gersonlgmarques@gmail.com

A desistência do Brasil em realizar a 25ª Conferência Internacional do Clima, a COP 25, demonstra bem o alinhamento ideológico de Jair Bolsonaro a Donald Trump e provoca uma mudança radical no papel internacional do Brasil, sempre marcado por uma política de independência ideológica na geopolítica global.

Os defensores do novo governo dizem que a questão é o custo elevado do evento, orçado em quinhentos milhões de reais. Segundo o Itamaraty, cem milhões de dólares. Os recursos, porém já estavam garantidos no orçamento de 2019, alocados no próprio Fundo do Clima, uma reserva do Brasil para este tema.

A negativa, na verdade, nada tem a ver com dinheiro. Trata-se de uma posição política, altamente influenciada pelo alinhamento ideológico com a extrema-direita americana, para quem a questão climática é ativismo esquerdista e não
representa de fato uma ameaça, apesar de todas as evidencias e estudos, como o produzido recentemente por treze departamentos e agências federais americanas, inclusive a Nasa, onde prevê que os EUA vão perder até 10% do PIB com as mudanças climáticas. Na mesma linha, o futuro chanceler brasileiro indicado por Bolsonaro, Ernesto Henrique Fraga Araújo, publicou recentemente um artigo em que afirma que a questão climática é uma agenda marxista, numa preocupante demonstração de profundo desconhecimento sobre o tema.

A linha de trabalho da COP visa comprometer os governos a enfrentar o desafio de manter o aquecimento global dentro dos 1,5 graus, a meta estabelecida para este século. Estudos coordenados pela ONU, no entanto preveem que este aquecimento pode chegar a até 5 graus, caso não sejam implantada as resoluções dos acordos de Kyoto e de Paris.

Um aquecimento deste tamanho faria da terra um mundo impossível. Áreas costeiras seriam redesenhada e milhões de pessoas perderiam suas moradias e grandes cidades litorâneas seriam ocupadas pelo mar. O impacto na agricultura levaria à inviabilidade de muitas atividades e a perdas de até 80% da capacidade agrícola do planeta. A fome dizimaria bilhões de pessoas e animais.

O Brasil é o sétimo maior produtor de CO2 do planeta. A maior parte destes gazes vem da destruição das nossas florestas, que cresceu 8,5% em 2017 e 16% em 2018. Batemos em dois anos todos os recordes de destruição da
Amazônia. Pelo previsto e dito até aqui, esta será uma tendência que vai se acelerar nos próximos anos, visto que a política de Bolsonaro para a Amazônia é de apoio ao avanço do agronegócio, relaxamento das políticas de combate
ao desmatamento e facilidades na liberação de licenças ambientais. Um desastre.

O debate sobre as mudanças climáticas globais não podem ser encaradas pela ótica ideológica. Trata-se de desafios e oportunidades. Esta questão tem consequências sobre a humanidade, mas também oferece oportunidades, até porque somos um dos países com maiores chances de oferecer soluções, inovações e experiências, a exemplo da geração de energia a partir de biomassas ou do rápido crescimento das fontes limpas na matriz energética.

No acordo de Paris, assinado na COP 21, as nações desenvolvidas se obrigaram a investir cem bilhões de dólares por ano em políticas de compensação e mitigação. O Brasil é um dos maiores beneficiados com esta cláusula. Por este acordo, podemos captar bilhões de dólares para preservação de nossas florestas e ampliar as políticas de mudança energética em nossa matriz, abandonando a construção de hidroelétricas, por exemplo.

É por isso que, se fôssemos considerar o valor a ser gasto pelo Brasil, como argumentado pelos apoiadores do futuro governo, cem milhões de dólares não é nada. Falta a esta turma a noção real do papel e do tamanho do Brasil no
mundo. Falta, também, entender o que significa receber uma conferência deste porte. Na edição de 2018, na Polônia, dezesseis mil estrangeiros foram ao evento, com impacto significativo no turismo, mas o maior ganho está na
exposição do país na mídia internacional. Milhões de dólares em mídia espontânea positiva, a relação ganho e benefício para o Brasil seria infinitamente maior, sem falar em nossa capacidade de influenciar a agenda e
manter o papel de protagonista.

A negativa da COP 25 no Brasil expõe o primarismo enviesado e ideológico do novo governo na questão do clima e abre mão do papel que o Brasil sempre teve de protagonista e liderança mundial nesta área. Sairemos da condição de
liderança respeitada para nos submeter a um alinhamento subserviente ao atual governo americano, isso sem nenhum debate interno, jogando fora um capital político internacional acumulado por anos.

Os custos ambientais, sociais e econômicos desta guinada serão sentidos pelas atuais e próximas gerações. Infelizmente, é só uma parte dos grandes problemas que enfrentaremos por eleger um governo sem debates, sem conhecer suas propostas, sem construção de compromissos, motivados por ódio e fake news.

Gerson Marques é consultor e administrador de empresas

AS NULIDADES CONTINUAM PROSPERANDO, INFELIZMENTE

Walmir Rosário

 

A notícia, como era de se esperar, causou indignação no meio rural, notadamente em Buerarema, município que vem sofrendo com as atrocidades praticadas por esse bandido travestido de indígena.

 

Conforme prevista pelo sábio jurista baiano Ruy Barbosa, no seu discurso no Senado Federal, ao reclamar das mazelas e injustiça cometidas pelo governo aos brasileiros, as nulidades continuam prosperando, no Brasil e, particularmente, na Bahia. Nesta nossa Bahia, como já dizia o ex-governador Otávio Mangabeira, “pense num absurdo, na Bahia tem precedente”.

E tem aos montes. Hoje, 30 de novembro de 2018, um desses absurdos está marcando para acontecer, justamente na Assembleia Legislativa da Bahia, que comete a leviandade de conceder uma honraria ao nefasto e falso índio conhecido como cacique Babau. E será exatamente a Comenda 2 de Julho, honraria maior da Bahia, que os deputados estaduais concederão ao promotor de badernas invasões, roubos e assassinatos de pequenos produtores da Bahia.

E, como era de se esperar, a comenda foi proposta por um deputado petista (sempre eles), o Marcelino Galo, que apoia todas as excrescências praticadas contra quem trabalha no campo para produzir alimentos e riquezas. A notícia, como era de se esperar, causou indignação no meio rural, notadamente em Buerarema, município que vem sofrendo com as atrocidades praticadas por esse bandido travestido de indígena.

E Buerarema foi uma das pouquíssimas cidades baianas a derrotar o petismo nas urnas, na eleição de 2018, numa demonstração clara e límpida de que não admite e nem esquece do sofrimento resultante da monstruosidade cometida por Babau e seus asseclas contra uma população honrada e trabalhadora. E absurdo maior é que contou com o apoio do governo petista da Bahia, do Brasil e até com representantes do Ministério Público Federal.

Como não poderia deixar de ser, a entrega dessa comenda – a 2 de Julho – é mais um escárnio na cara do povo baiano, instituída para homenagear pessoas que contribuíram para o desenvolvimento de nosso estado e do seu povo. A Comenda é destinada a pessoas de reputação ilibada e que possuam uma ficha limpa, responsáveis por atos de altruísmo e que vivam com dignidade.

Babau e o deputado Marcelino Gallo

Inversamente, como sempre faz e é da prática do Partido dos Trabalhadores (PT), foi destinada à pessoa mais imprópria para receber tamanha homenagem, haja vista o seu histórico nas instituições policiais e judiciais. Na verdade, o ato nefando perpetrado pelos deputados estaduais baianos é uma apologia ao crime, numa clara demonstração que no Brasil – notadamente na Bahia – o crime compensa.

O sentimento de sofrimento e a apreensão por que passa a população dos municípios de Ilhéus, Una, Buerarema e São José da Vitória não tem chegado aos conterrâneos vizinhos, que assistem, de camarote, a maior ação de banditismo já praticada no Sul da Bahia. Essas invasões e agressões praticadas por pseudos índios aos produtores rurais fariam corar os coronéis do cacau e seus jagunços, transformando-os em anjos de candura e bondade.

A crescente desmoralização do Estado nos traz a necessidade iminente de uma reflexão sobre tão importante tema na vida da sociedade moderna. Gerido por pessoas, o Estado, como uma instituição, deve estar acima do interesse de grupos ou partidos políticos, sob pena de ingressamos no poço sem fundo da anarquia. Mas, infelizmente, esse cuidado não tem sido objeto de preocupação do governo atual, ao contrário, é instado a servir como ferramenta para a consecução dos seus interesses.

Como disse na abertura desse escrito, a conhecida oratória de Ruy Barbosa no Senado Federal, como parte do requerimento de informações sobre o caso do navio Satélite: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto… Essa foi a obra da república nos últimos anos. No outro regime [Monarquia] o homem que tinha certa nódoa em sua vida era um homem perdido para sempre. As carreiras políticas lhe estavam fechadas. Havia uma sentinela vigilante, de cuja severidade todos temiam a que, acesa no alto, guardava a redondeza como um farol que não se apaga… Em proveito da honra… da justiça… E da moralidade gerais.”

Nem passava pela cabeça do bravo povo de Buerarema, Una, Ilhéus e São José da Vitória perder tudo o que fizeram ao longo dos anos para bandidos travestidos de índios, com o beneplácito governamental, que ainda concede honrarias indevidas a quem nunca mereceu. Num país civilizado e cumpridor das leis, a homenagem correta ao Babau seria a cadeia. Mas essa é a vida! A guerra civil está perto de nós que nem notamos. Ou fazemos questão de não notar.

Walmir Rosário é advogado, radialista e jornalista, além de editor do Cia da Notícia.

1968: O ANO QUE INSISTE EM NÃO TERMINAR

Cláudio Rodrigues

 

 

Durante a campanha eleitoral, o presidente eleito afirmou desejar um Brasil “semelhante ao que tínhamos há 40, 50 anos atrás”. Se voltarmos 50 anos, cairemos em 1968. Precisamos ter a esperança de que o futuro ministro da Justiça não faça como o colega e também ex-ministro Gama e Silva

 

 

1968 foi um ano conturbado, marcado por fatos que viraram de ponta cabeça o Brasil e o mundo. O jornalista e escritor Zuenir Ventura é um estudioso do referido ano. Em seu livro 1968: O Ano que não Terminou (Nova Fronteira – 1989), Zuenir cita importantes personagens, obras e músicas que fizeram parte do período.

Figuras emblemáticas como a atriz italiana e esquerdista Claudia Cardinale, o militante do MR-8 César Benjamin, “Cesinha”, que participou da luta armada, e Carlos Lamarca, “O Capitão da Guerrilha”, que militava na VPR e do MR-8 são personagens da obra de Zuenir. O livro faz referência a artistas que tiveram papel de suma importância nos anos que se passaram, a exemplo de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque e Geraldo Vandré, que agitavam os festivais com suas músicas. Já o teatro era a representação do momento peças como Roda Viva. Atraíam uma geração com muita fome e sede de cultura.

Na política, o Brasil vivia uma grande tensão, passados quatro anos do Golpe Militar. A censura, punições, cassações, tortura, exílio e repressão eram a marca do governo dos generais. Diante do Regime, os estudantes inspirados no movimento Maio de 68, que acontecia em Paris, sentiram a necessidade de criar um movimento estudantil articulado politicamente e crítico em relação à Ditadura Militar.

Ao movimento estudantil os militares responderam com mais e mais repressão, e em 13 de dezembro de 1968, no governo do general Artur da Costa e Silva, o seu ministro da Justiça Luís Antônio da Gama e Silva, foi o redator e locutor do Ato Institucional nº 5. O AI-5 foi o golpe dentro do golpe: fechava o Congresso Nacional, autorizava o presidente da República a cassar mandatos e a suspender direitos políticos, o habeas corpus deixava de existir, a censura estava oficializada e outras medidas repressivas foram adotadas.

Gama e Silva foi jurista, juiz do Tribunal de Contas, professor catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo e reitor da mesma USP. Enquanto reitor da USP, elaborou a lista com nomes de professores universitários, colegas seus, que viriam a ser processados no Inquérito Policial Militar da USP, entre os quais Florestan Fernandes e Fernando Henrique Cardoso. Pelo papel de dedo-duro de Gama e Silva foi agraciado com o cargo de Ministro da Justiça.

Outubro de 2018! O deputado e capitão reformado do Exercito Brasileiro Jair Messias Bolsonaro é eleito presidente do Brasil, na oitava eleição direta pós-Ditadura Militar. O presidente eleito escolhe para chefiar a futura super pasta da Justiça o juiz de direito Sérgio Fernando Moro. Moro tornou-se uma espécie de “herói nacional” depois de ser o juiz da Operação Lava-Jato, que desvendou um esquema de corrupção que envolvia políticos e seus partidos, empreiteiros e grandes empresários.

Juiz de primeira instância, Sérgio Moro usou e abusou da prisão preventiva, sem previsão, para obter delações premiadas. As delações tinham aceitação e valia rápida quando envolvia pessoas ligadas ao Partido dos Trabalhadores. Dessa forma o “juiz herói”, mandou para a cadeia figuras de proa do PT, incluindo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O petista era líder nas pesquisas de intenções de voto e maior nome da esquerda na América Latina, em uma ação muito questionada por juristas do Brasil e do exterior, inclusive o Comitê de Direitos Humanos da ONU.

Mesmo preso e impedido pela justiça brasileira de disputar o pleito de outubro último, o ex-presidente Lula e o Partido dos Trabalhadores lançaram seu candidato e a apenas a seis dias da disputa do primeiro turno das eleições o “juiz herói”, liberou parte da delação do ex-ministro dos governos petistas Antônio Palocci, delação rejeitada pelo Ministério Público Federal e aceita pela Policia Federal e o juiz Sérgio Moro. A divulgação da delação de Palocci fez a festa dos opositores do PT e por pouco o capitão reformado não levou a disputa já no primeiro turno.

Passado a eleição, o “juiz herói” é agraciado com o convite para assumir o Superministério da Justiça. Mais: o capitão reformado e presidente eleito diz, em entrevista à imprensa, que o trabalho do “juiz herói” o ajudou a crescer politicamente. Já o vice-presidente eleito, o general Hamilton Mourão, que não tem papas na língua, soltou que o convite ao juiz foi feito ainda durante a campanha, o que deixa uma imensa suspeita no ar em relação ao papel do “juiz herói” no processo eleitoral.

Durante a campanha eleitoral, o presidente eleito afirmou desejar um Brasil “semelhante ao que tínhamos há 40, 50 anos atrás”. Se voltarmos 50 anos, cairemos em 1968. Precisamos ter a esperança de que o futuro ministro da Justiça não faça como o colega e também ex-ministro Gama e Silva, uma vez que existem algumas semelhanças nos “méritos” que os levaram a chefiar a pasta. Zuenir Ventura acertou: 1968 é o ano que insiste em não terminar.

Cláudio Rodrigues é consultor e colaborador de Pimenta.

DESAFIOS DE UMA DEMOCRACIA

Rosivaldo Pinheiro | rpmvida@yahoo.com.br

 

O Brasil e o mundo não aceitam a obscuridade como regra no exercício da governança, nem decisões que firam o estado democrático de direito e os tratados internacionais. A democracia exige a aceitação do contraditório e a tolerância às diferenças.

 

É perfeitamente compreensível a decisão democrática do voto. Sabemos que essa decisão ocorre, na maioria das vezes, por avaliações subjetivas do que por variáveis mensuráveis, embora o que os eleitores declamem seja que as escolhas estejam em sintonia com as propostas dos candidatos aos problemas que atingem a nossa vida individual e em comunidade. Fosse essa a verdadeira medida para a escolha, dificilmente teríamos na liderança das disputas e no pós-eleição tanta gente frustrando as expectativas dos eleitores Brasil afora.

No cenário atual, essa frustração leva a posicionamentos radicais. E parte significativa das pessoas parece, ultimamente, ter liberado os seus monstros interiores, o lado obscuro da personalidade – um espírito primitivo com um misto de irracionalidade, pondo em risco a nossa própria liberdade, face às tensões criadas por esses posicionamentos no ambiente social que nos cerca.

A discussão em curso exige um olhar mais aprofundado, uma superação do viés partidário quase sempre raso e fruto do maniqueísmo existente: o bem versus o mal. É preciso percebermos que o resultado das urnas por si só não garantirá ao eleito superar as divisões atualmente existentes.

Essa superação só se dará se o eleito conseguir se posicionar como líder representante de todos, condição necessária para que assuma o poder e seja revestido da autoridade que o cargo exige, adotando as prerrogativas necessárias e estabelecendo o conjunto de ações para a gestão do país num ambiente de normalidade, de paz social e com o devido respeito à independência e harmonia entre os poderes.

O Brasil e o mundo não aceitam a obscuridade como regra no exercício da governança, nem decisões que firam o estado democrático de direito e os tratados internacionais. A democracia exige a aceitação do contraditório e a tolerância às diferenças.

Rosivaldo Pinheiro é economista e especialista em Planejamento de Cidades pela Uesc.

BENDITO “KIT GAY”!

Ederivaldo Benedito | ederivaldo.benedito@gmail.com

 

O ambiente está claro e isso é salutar. Mostra que o Brasil – construindo verdades baseado em mensagens postadas nos aplicativos, informações manipuladas e distorcidas, em mentiras, falsas notícias, boatos – está fora do armário mostrando outra face. Tirou a máscara e não é apenas um inimigo oculto, à espreita, atrás da tela do celular.

 

A onda moralista pós-vitoriana que vem abalando o país em torno do chamado ‘kit gay’ bem que poderia alcançar todos os espaços da sociedade brasileira. Não se discute, aqui, ou questiona-se ou não a origem do ‘kit gay’ e a sua utilidade nas escolas infantis, mas os rumores que, nos últimos meses, o transformaram em debate nacional. Não se observa que a questão é a preocupação com o presente e o futuro das nossas crianças, mas que é a hipocrisia e o conservadorismo que estão se rebelando. Estão saindo do armário e se manifestando contra essa inusitada prática educacional.

Mas seria a discussão em torno do ‘kit gay’ uma excelente oportunidade para a nobre família de tradição judaico-cristã, defensora da moral e dos bons costumes, ampliar o debate além da questão de gênero e sexualidade que afeta os nossos pequenos tão ameaçados por influência de ideologias malsãs? Um momento apropriado para a discussão de temas tão ou mais graves como esse, a exemplo da violência no ambiente escolar, dos baixos salários recebidos pelos professores, da qualificação dos nossos docentes, da ausência cotidiana dos pais e responsáveis, e além, é obvio, da ocupação dos estabelecimentos de ensino por parte dos traficantes?

Seria pertinente uma discussão em torno desses temas, considerando que afeta o futuro do país, sendo nossas crianças, os futuros cidadãos, independente da orientação sexual delas? Afinal, sendo macho ou fêmea, os anjos não perdem sua essência angelical.

Ocorre que o problema é muito sério e a questão mais profunda do que se imagina, porque o ser humano é preconceituoso e, historicamente, o brasileiro sempre foi contra gay, preto, pobre, candomblezeiro, maconheiro, sindicalista, comunista, mulher, capenga, cego, favelado, prostituta, analfabeto, banguela, nordestino, anão, gordo, careca, cigano, mas estava no armário. E dentro desse armário tinha mais preconceito do que próprios gays, com ou sem kits. Mas esse preconceituoso, por variados motivos, não tinha coragem de dizer que é preconceituoso. Ocorre que, de repente, não mais que de repente, alguém despertou e empoderou esse discurso, fortalecendo o preconceito.

Ora, se o preconceituoso, com seu preconceito guardado a sete chaves, passa a ver e ouvir figuras públicas – aparentemente poderosas, acima da lei – falando que se pode fazer o que sempre quis fazer, ele entra nessa frequência vibratória. Vai até o armário e pega seu revólver, porrete ou soqueira, carregado de intolerância, ódio, rancor e sai por aí destilando tudo que estava guardado em todos que encontrar pela frente e que, teoricamente, seja diferente dele. Para a tristeza de Jesus Cristo e alegria de Adolf Hitler.

Ao fazer esses estragos, não sabe esse preconceituoso que, num país miscigenado como o Brasil, poderá ser ele também alvo dessa sua ação violenta, preconceituosa, perpetrada sob o pretexto de proteger a criança do desvirtuamento dos valores da família tradicional brasileira. Isto porque esse preconceituoso – apesar de ser parente, colega de trabalho, vizinho de um gay ou deficiente físico; de alguém com Síndrome de Down, autismo, dificuldades motoras ou anencefálicas – não gostaria de ter um filho com essas condições. Essa possibilidade lhe causa repulsa, grande mal-estar, assim como os portadores de HIV, os mendigos, os alcóolatras, os leprosos, as crianças dos orfanatos e os velhinhos dos abrigos. O preconceituoso sonha, imagina em viver numa suposta sociedade perfeita, produtiva, bonita, composta apenas por pai, mãe e filhinhos. Se eles são hipócritas, se agridem, se traem, se destroem, se matam, aí são outros quinhentos…

O fato é que a polêmica em torno do ‘kit gay’ não é totalmente inócua, muito pelo contrário. É rica, engrandece, enriquece o debate. Está nas ruas, nas escolas, nos locais de trabalho, nas Redes Sociais e as pessoas estão se manifestando. O ambiente está claro e isso é salutar. Mostra que o Brasil – construindo verdades baseado em mensagens postadas nos aplicativos, informações manipuladas e distorcidas, em mentiras, falsas notícias, boatos – está fora do armário mostrando outra face. Tirou a máscara e não é apenas um inimigo oculto, à espreita, atrás da tela do celular.

Mas o ideal seria que essa discussão – madura e coerente – fosse ampliada para outros temas, uma contribuição para a construção da nova Escola brasileira, o desenvolvimento de ações com base na Doutrina da Proteção Integral preconizada pelo ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). O fortalecimento dos laços familiares, a luta contra a paternidade irresponsável e o acolhimento às abandonadas; o combate à pedofilia no ambiente familiar e a blindagem das nossas crianças às drogas. E mais: num país laico, heterogêneo, miscigenado, plural como o nosso – dá às nossas crianças uma formação humanista, respeitosa, cidadã para que no futuro elas possam colher bons frutos, olhar para trás e considerar que foi uma polêmica proveitosa e o ‘kit gay’, realmente, uma proposta abençoada.

Ederivaldo Benedito é jornalista, bacharel em Direito, licenciado em História e mestrando em Educação.

BUERAREMA: LIVRO VINGADOR OU LIVRO CIDADÃO?

Antônio Lopes || abcdlopes@gmail.com

 

Quatro séculos depois da “limpeza” promovida pelo colonizador, mostra Serra do padeiro…, os primitivos habitantes da região enfrentam os mesmos problemas do Quinhentismo. Neste primeiro quarto do século XXI, se não são reeditadas explicitamente as ações de Mem de Sá e Francisco Romero, cultivam-se, nem sempre de forma velada, as ideias daqueles matadores de índios.

Uma estória de espantar: sangue e suor, risos e lágrimas, crueldade e compaixão, assassinatos, caxixes, tocaias, coronéis e jagunços, a mata derrubada e a perseguição implacável aos donos da terra.  A narrativa de Waldeny Andrade (Serra do padeiro: a saga dos Tupinambás – Via Litterarum/2017) é emoldurada por esses elementos, mas centrada no ramo regional indígena Tupiniquim/Tupinambá, viés pouco valorizado em nossa ficção: salvo o ilheense Aracyldo Marques (Extermínio – Cátedra/1986), índios são personagens apenas tangenciados na literatura regional (a exemplo dos Camacãs, em Adonias Filho).

Extermínio e Serra do padeiro… concorrem num mesmo ponto, ambos ambientados no tema da luta pela terra, mas em épocas diferentes: Aracyldo situa seu romance no amanhecer da Capitania de Ilhéus, enquanto Waldeny desenrola uma trama que referencia Mem de Sá, assenta-se no século XX e chega aos dias de Rosivaldo Pereira da Silva, o cacique Babau.

O livro começa nos tempos em que o principal produto agrícola regional já se projetava como baliza de nossa economia – o cacau nasce promissor (“adubado com sangue”, na feliz expressão de Jorge Amado), adoece (diante dos preços aviltantes impostos pela Bolsa de Nova Iorque, ajudados pela visão estreita dos produtores ), entra em agonia (vitimado pela vassoura-de-bruxa) – e chega, alquebrado e trôpego, aos dias de hoje.

Quatro séculos depois da “limpeza” promovida pelo colonizador, mostra Serra do padeiro…, os primitivos habitantes da região enfrentam os mesmos problemas do Quinhentismo. Neste primeiro quarto do século XXI, se não são reeditadas explicitamente as ações de Mem de Sá e Francisco Romero, cultivam-se, nem sempre de forma velada, as ideias daqueles matadores de índios.

Em Serra do padeiro… bem poderia ser uma descrição marcada pela frieza da pesquisa histórica, mas vira leitura leve e agradável, com índios de feição romântica, à Gonçalves Dias e Alencar, além de remessas ao “bom selvagem” de Rousseau. Para completar essa escolha, forte pitada de amores impossíveis, como a bem-sucedida união do austríaco Klaud com a índia Bartira e, agora com sabor de tragédia, do índio Bel com Zu, filha de fazendeiro rico e racista. Ao queimar incenso no altar dos bons e levar os maus ao pelourinho (pelo menos, ao pelourinho da ficção), até mesmo um toque de misticismo, en passant, será magistralmente recuperado na última página.

A presença do índio Tupinambá na região é tema explosivo, em sentido literal, mas o pesquisador/romancista não se atemoriza nem se omite, criando uma espécie de livro vingador: em equilibrada combinação de romantismo, história e jornalismo de denúncia, ele nos faz lembrar famosa frase de Euclides da Cunha, quando o autor de Os sertões se proclamou “advogado dos pobres sertanejos assassinados por uma sociedade pulha e sanguinária”.

Waldeny Andrade se mostra advogado dos índios de todas as etnias, tendo por modelo os Tupinambás. Na pena do conhecido e respeitado jornalista, Buerarema (antes, Macuco) arde, como metáfora, no amor de alguns tipos ficcionais, e queima, literalmente, nas ruas, em confronto de índios e “brancos”, pela posse de área agricultável, sob o olhar nem sempre isento e responsável de forças armadas federais.

Serra do padeiro: a saga dos Tupinambás se identifica como livro de repórter desassombrado, que cultiva a polêmica, diz o que pensa, não alimenta conveniências e compadrios; em “cortes” da narrativa, o autor nos oferece, às vezes como grata surpresa, pequenos e oportunos editoriais, em que não faltam protestos contra a conduta inconveniente de autoridades, sobretudo os prefeitos de Buerarema.

Alegra-me um livro que, mesmo querendo ser romance histórico, inova o gênero, ao abrir espaço para a denúncia, a opinião e a reivindicação de uma comunidade sem voz: em Serra do padeiro…, o leitor fica sabendo que “a prefeitura de Buerarema sempre esteve distante, nas ações mais relevantes e primárias da cidade”. O poder público meteu os pés pelas mãos quanto ao conflito entre fazendeiros e índios, o meio ambiente está degradado, a via principal (Avenida Paulo Portela) tem nove açougues fétidos, “com a carne pendurada em ganchos e vísceras expostas em tabuleiros, na calçada”.  Até o trânsito, para uma cidade com pouco mais de 15 mil habitantes (segundo o censo do IBGE/2010), consegue ser absolutamente caótico.

Waldeny Andrade armou-se de muita coragem para produzir este trabalho que, imagino, não vai tornar o autor muito simpático em Buerarema. E é pena que assim seja, pois Serra do padeiro: a saga dos Tupinambás é um grande livro paradidático, pouco importa que leitura se faça dele: como romance, como história do município ou (a parte que “ofende” o lado mais conservador da sociedade local) como defesa dos Tupinambás. A quem não quiser ler Serra do padeiro…  como livro vingador, ainda resta lê-lo como livro cidadão.

Antônio Lopes é jornalista.

REFLEXÕES SOBRE AS ELEIÇÕES DE OUTUBRO

Josias Gomes

Durante minha campanha, visitei mais de 100 municípios e fui apoiado por dezenas de prefeitos, vereadores, ex-vereadores e lideranças políticas da maioria dos 417 municípios baianos

Quero expressar meu orgulho pela expressiva votação do companheiro Rui Costa, que foi reeleito governador da Bahia, no primeiro turno, com 5 milhões 096 mil e 062 votos, correspondente a 75,50% dos votos válidos, uma das maiores vitórias ao governo do Estado em todo o Brasil.

Essa votação maciça demonstra o reconhecimento do povo baiano ao seu trabalho desenvolvido em todas as cidades de todas as regiões do Estado. Prova disso é que Rui Costa venceu seu principal adversário em 414 dos 417 municípios baianos.

O governador reeleito priorizou em sua primeira gestão as áreas da Educação, Saúde, Segurança Pública e Infraestrutura, beneficiando os moradores de todo o Estado, tanto os do interior como os de Salvador – onde obteve 893.669 votos (72,23%) contra apenas 23,62% do seu principal adversário.

Todos receberam tratamento igualitário, o que pode ser comprovado no reconhecimento dos moradores das cidades baianas.

Rui Costa também conseguiu eleger os dois senadores de sua chapa majoritária. O ex-governador Jaques Wagner (PT) foi o mais votado, com 4 milhões 253 mil e 331 votos (35,71%). Já o presidente da Assembleia Legislativa da Bahia (Alba), Ângelo Coronel, obteve 3 milhões 927 mil e 598 votos (32,97%).

Haddad venceu com folga na Bahia – O nosso candidato à presidência da República, Fernando Haddad 13, conquistou uma enorme votação na Bahia, obtendo 4 milhões 441 mil e 955 votos – 60,28% do total – contra apenas 23,41% de seu principal adversário. E essa votação de Haddad aumentará expressivamente no dia 28, quando acontecerá o segundo turno da eleição presidencial, para varrermos para o lixo da história a ameaça totalitária do candidato reacionário, que ataca as mulheres, os negros, os nordestinos, os pobres, e as minorias do movimento LGBT, entre outros setores da população brasileira.

Quero aqui também agradecer aos eleitores baianos, que votaram na minha candidatura Josias Gomes 1312 a deputado federal. Renovei meu mandato com 115.571 votos obtidos em toda a Bahia.
Fui o sétimo candidato mais votado da bancada do Partido dos Trabalhadores (PT) e o 14º entre os 39 deputados eleitos pela Bahia para a Câmara Federal.

Durante minha campanha, visitei mais de 100 municípios e fui apoiado por dezenas de prefeitos, vereadores, ex-vereadores e lideranças políticas da maioria dos 417 municípios baianos. Também participei ativamente da campanha do governador Rui Costa, reeleito com 75,50% dos votos válidos.

Quero agradecer a todos os prefeitos, vereadores, e lideranças políticas de toda a Bahia, que caminharam junto comigo nesta árdua campanha. Também aos candidatos a deputado estadual com quem fiz dobradinhas, e ao povo da maioria dos 417 municípios baianos – em especial aos moradores daquelas 402 cidades em que fui votado.Isso tudo possibilitou essa minha expressiva votação.

Agora é arregaçar ainda mais as mangas da camisa e prosseguir com meu trabalho, que visa promover o desenvolvimento econômico e social dos municípios baianos e a melhoria de vida dos trabalhadores desta querida Bahia.

Neste momento, convoco todos os baianos a se empenharem ainda mais para garantir a vitória de Fernando Haddad (PT) como presidente da República no segundo turno da eleição que acontecerá no dia 28 deste mês.

Isso é fundamental para derrotarmos a direita, que já tirou muitos benefícios dos trabalhadores brasileiros, e garantirmos a defesa da democracia contra a ameaça totalitária representada pelo adversário de Haddad 13.

Josias Gomes é deputado federal reeleito pelo PT da Bahia com 115.571 votos.








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