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:: ‘Cultura’

COLUNISTA DO PIMENTA EM MESA-REDONDA COM MEIRELLES

O cineasta Fernando Meirelles, autor de sucessos como Cidade de Deus e Ensaio sobre a Cegueira, vai participar, neste fim de ano, do projeto Cinema de Artista, do Museu de Arte Moderna da Bahia, em Salvador.

O colunista do Pimenta e diretor do documentário Do goleiro ao ponta-esquerda, Leandro Afonso Guimarães, vai participar, como ouvinte, de uma mesa-redonda com o cineasta e ídolo no dia 19 de dezembro, às 15 horas, na sala de cinema do MAM. “Ouvir Meirelles já nos garante um grande aprendizado”, garante.

O evento, que terá a participação da curadora do museu, Solange Farkas, e da jornalista baiana e editora da Revista Muito, Nadja Vladi, também exibirá o longa Cidade de Deus, filme que deu projeção internacional a Meirelles.

SOBRE O VIVER DOS OLHOS

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Leandro Afonso | www.ohomemsemnome.blogspot.com

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Em Má Educação (2004), apesar de um discreto conflito entre (excesso de?) esmero e (certa falta de) fluidez, Pedro Almodóvar atingiu uma quase inacreditável combinação, límpida e convincente, entre o demonstrar sua paixão pelo ofício e o admirável caráter declaradamente auto-biográfico de sua obra. Cinco anos depois, aos 60 de idade, ele lança Abraços Partidos (Los abrazos rotos – Espanha, 2009), irmão daquele de 2004 e com um fascínio forte o suficiente para suplantar a marcha lenta que o mantém em boa parte do tempo.

A melhor personagem do filme é, sem dúvida, Penélope Cruz – que foi de uma potencial enganação a uma atriz cujo potencial ainda não nos apresentou seu limite. Lena é a imagem pura e auto-suficiente, é a vontade de existir no cinema, de fazer o cinema existir, e que representa não só ela como o próprio filme dentro do filme que temos aqui. Não menos bela é a cena do abraçar a imagem projetada, já filmada entre outros por Godard, emblemática de uma paixão que, no restante do filme, é puro Almodóvar.

Mais do que a auto-citação, ele volta a usar revelações e reviravoltas, comuns na sua escrita folhetinesca, que parecem (a maioria delas) menos relevantes e surpreendentes do que já foram em filmes anteriores. Bom dizer, contudo, que o que pode ser analisado como um pouco antecipável e sem um encaixe perfeito, pode ser visto também (prefiro olhar assim) como um ponto a favor da capacidade de Almodóvar trazer ardor e acaso com a naturalidade de quem sabe tratar com esse tipo de narração e essa mescla de gêneros. Sua assinatura é forte e bonita o suficiente para tornar uma suposta previsibilidade em marca inconteste – que pode incomodar a uns e maximizar o efeito da obra em outros.

O tom novelesco, por exemplo, se no começo não traz o mesmo impacto de muita coisa já feita por ele, acaba por premiar o até então impossível, em – aí sim – uma reviravolta digna de um apaixonado absurdamente talentoso. E capaz de finalizar um filme com uma frase explícita que, se na mão de outro poderia parecer forçada, nas dele parece potencializar ainda mais o nó na garganta de quem sente um mínimo de afeição por esse meio que é o cinema.

É verdade que o amor em comum pela arte talvez contribua para um caráter mais condescendente de quem o analisa, graças à carga emocional do fim do filme, mas também é verdade que não faltam obras que tentam transbordar cinefilia quando, de fato, derramam citações sem nada de genuíno como resultado à parte da referência. Diferente de Almodóvar, que, embora não chegue aqui à sua criação mais bem acabada, é provável que tenha nela a mais apaixonada e cativante.

Filme: Abraços Partidos (Los abrazos rotos – Espanha, 2009)

Direção: Pedro Almodóvar

Elenco: Penélope Cruz, Lluís Omar, Blanca Portillo, José Luiz Gómez

Duração: 127 minutos

Filmes da semana:

  1. 1. Abraços Partidos (2009), de Pedro Almodóvar (Cine Vivo) (****)
  2. O Poderoso Chefão Parte II (1974), de Francis Ford Coppola (****1/2)
  3. 3. Atividade Paranormal (2007), de Oren Peli (UCI Aeroclube) (***1/2)
  4. Um Sonho Americano (1993), de Emir Kusturica (**1/2)
  5. Barravento (1962), de Glauber Rocha (***)
  6. 6. Penalty (2001), de Adler “Kibe” Paz (Walter da Silveira) (curta) (**)
  7. 7. Rádio Gogó (1999), de José Araripe Jr. (Walter da Silveira) (curta) (***)
  8. Viver a Vida (1962), de Jean-Luc Godard (***)
  9. Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988), de Pedro Almodóvar (***)

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Leandro Afonso é comunicólogo, blogueiro e diretor do documentário “Do goleiro ao ponta esquerda”

O ATUALIZAR DA PAIXÃO CRÍTICA

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Final 3,5

Leandro Afonso | www.ohomemsemnome.blogspot.com

Diário dos Mortos (Diary of the Dead – EUA, 2007), de George A. Romero, é um filme reflexo não só das obsessões como também, e principalmente, do talento de seu diretor para o gênero. É uma atualização de um cineasta que parece capaz de se reinventar com a fluência de um mestre, mesmo dentro de um nicho bem específico – mais do que outro filme de terror, ele volta visitar o terreno específico dos filmes de zumbis.

Percebemos desde o começo que a época é outra, e Romero sabe nos mostrar isso sem que o resultado soe (apenas) modista. O uso da câmera na mão é coerente com a ideia do filme (universitário) dentro do filme, e tem a naturalidade e o domínio de quem sabe usar um plano sequencia, sabe decupar uma cena e consegue dar ritmo ao filme; tendo, ainda, algo a dizer.

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Esse “algo a dizer”, é bom falar, pouco ou nada tem de novo – especialmente se pensarmos em tudo que Romero fez desde A Noite dos Mortos Vivos (1969) –, mas a abordagem de mais do mesmo é qualquer coisa menos desinteressante. Não só pela diferenciação do jeito de filmar, que se aproxima de um “contemporâneo” sem parecer publicitário-enganador, como por alfinetadas roméricas presentes em quase toda cena.

Lógico que os filmes de Romero nunca foram ingênuos (longe disso), mas Diário dos Mortos talvez seja o resultado em que ele combine melhor crítica e cinismo. De um jeito que, entre um momento subliminar e outro explicíto, só poderia funcionar tão bem e de maneira tão pessoal num filme de gênero. O que Romero ainda sabe fazer como poucos.

Filme: Diário dos Mortos (Diary of the Dead – EUA, 2007)

Direção: George A. Romero

Elenco: Michelle Morgan, Joshua Close, Shawn Roberts, Tracy Thurman

Duração: 95 minutos

8mm

Virtuosismo?

Eu juro que pensei em escrever sobre O Solista (2009), mas o potencial desperdiçado pelo filme só não é maior do que a impressão de que Joe Wright, também diretor do ótimo Orgulho e Preconceito, parece ter perdido todo o tato para direção. O roteiro não é bom, ele se esforça em tornar tudo mais enfadonho, mas – o pra mim inexplicável – o filme não é exatamente horroroso; e talvez longe disso. Só me pareceu deveras insosso, e não consegui me imaginar escrevendo mais de um parágrafo sobre ele. Sensação confusa.

Filmes da semana:

  1. 1. Diário dos Mortos (2007), de George A. Romero (***1/2)
  2. 2. O Dinheiro (1983), de Robert Bresson (sala Walter da Silveira) (***)
  3. 3. O Solista (2009), de Joe Wright (Multiplex Iguatemi) (**)

Filmes do mês:

10. 500 Dias com Ela (2009), de Marc Webb (**1/2)

9. O Signo do Leão (1958), de Eric Rohmer (***)

8. O Dinheiro (1983), de Robert Bresson (***)

7. Pioneiros em Ingolstadt (1971), de Rainer Werner Fassbinder (***)

6. Domicílio Conjugal (1970), de François Truffaut (***1/2)

5. Casamento Silencioso (2008), de Horatiu Malaele (***1/2)

4. As Testemunhas (2007), de André Téchiné (***1/2)

3. Diário dos Mortos (2007), de George A. Romero (***1/2)

2. Deixa Ela Entrar (2008), de Tomas Alfredson (****)

1. Bastardos Inglórios (2009), de Quentin Tarantino (****1/2)

Leandro Afonso é comunicólogo, blogueiro e diretor do documentário “Do goleiro ao ponta esquerda”

A ALEGRIA DE UM VIVER MELANCÓLICO

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Cópia de estrelinhas BR

Leandro Afonso | www.ohomemsemnome.blogspot.com

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Casamento Silencioso (Nunta muta – Romênia/ Luxemburgo/ França, 2008), de Horatiu Malaele, é um caso curioso de filme (aparentemente de forma não intencional) dividido em duas partes claras, bem diferentes entre si, e com ligação direta com a qualidade – e falta dela. A primeira é marcada por uma irregularidade e pouca delicadeza que contrasta com a segunda, um flashback que mostra, de forma convincente e cativante, uma tristeza e uma vontade de viver bem própria – que parece emanar de muito do cinema feito em parte da Europa oriental.

A história é de um tema muito caro não só à Romênia como a toda aquela região: o passado político – explorado muito bem em, por exemplo, 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (2007), de Cristian Mungiu, vencedor da Palma de Ouro. Mas o filme de Mungiu, que prefere planos longos que captam toda uma agonia e uma sensação de uma situação e uma época, pouca dialoga com Casamento Silencioso além do óbvio. Malaele, que dirige o seu primeiro longa para o cinema, demonstra pouco tino para filmar a introdução, com vícios contemporâneos de quem morre de medo de o público piscar quando não existe uma cena de ação. O diálogo pouco diz de interessante e a direção não ajuda, as coisas estão invertidas – quanto mais corte e movimento o filme tem, no início, mais monótono ele parece. Até o momento em que somos apresentados a uma pequena digressão de um dos personagens, quando vemos o bendito casamento silencioso.

O casamento em si, e o absurdo real da situação, combinam uma dupla que, como raramente se vê, sincroniza com equilíbrio o riso e o choro. Todo esse momento, que deve durar coisa de meia-hora, não é uma homenagem ao cinema mudo, mas pode muito bem funcionar como um manifesto puritano dos que defendem filmes menos falados – e como eles podem comunicar emoção e comicidade apenas pelas imagens.

Após o generoso – pelo tamanho – flashback, o filme volta a assumir seu caráter tragicômico, agora muito mais triste, com o esperado caráter político de volta. E embora esse tom – advindo principalmente pela frase e pela imagem finais – pouco traga de novo, tudo que o carrega até ali vale muito a pena como peça única.

Filme: Casamento Silencioso (Nunta muta – Romênia/ Luxemburgo/ França, 2008)

Direção: Horatiu Malaele

Elenco: Meda Andreea Victor, Alexandru Potocean, Valentin Teodosiu, Alexandru Bindea

Duração: 87 minutos

Filmes da semana:

  1. Casamento Silencioso (2008), de Horatiu Malaele (cinema) (***1/2)
  2. Coco antes de Chanel (2009), de Anne Fontaine (cabine de imprensa) (**)

P.S.: Essa semana toda fui uma agonia só, refletida na quantidade de filmes vistos, apenas dois, e no texto – escrito às pressas. Mas, depois de enfim assentado (espero que até o dia 1º), e do quarto endereço em menos de quatro meses, espero parar com essa esculhambação nômade.

Leandro Afonso é comunicólogo, blogueiro e diretor do documentário “Do goleiro ao ponta esquerda”

BASTARDOS INGLÓRIOS (2)

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Rever Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds – EUA/ Alemanha, 2009) em condições ideais (de saúde, de público e de exibição) é uma experiência não só difícil de ser descrita, como de ser repetida. Em primeiro lugar, devido ao crescimento da popularidade de Tarantino (o que deve contribuir para a dificuldade de encontrar salas com poucas pessoas em dias em que é possível a ida para o cinema) e, também, porque não sei até que ponto o próprio QT será capaz de fazer outra coisa assim.

É possível que as maiores sequências da carreira dele, lembradas separadamente, já tenham sido filmadas: a combinação de Urge Overkill e Uma Thurman em Pulp Fiction; Santa Esmeralda e a luta na neve em Kill Bill; as duas últimas sequências de Kill Bill Vol. 2… Isso, obviamente, sempre recordando de outras imagens e momentos também indeléveis e não citados aqui. Mas, pelo menos essa é a impressão que fica, isso se dá menos por uma queda de nível do que por uma maturidade que mantenha esse nível sempre no alto – o que acontece aqui.

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Num exercício de futurologia, Bastardos parece o filme cuja manutenção da qualidade estratosférica (de domínio da mise-en-scène à combinação de criatividade e sensatez na construção do roteiro e dos diálogos), do início ao fim, acaba por prejudicar um destaque maior para alguns dos momentos excelentes dele – já que tudo aqui me parece excelente, inclusive o que a princípio me incomodou (trilha em cena na sala de projeção e as intervenções de Samuel L. Jackson na narração).

Não há em Bastardos, como em Pulp Fiction (só para ficar no que considero o melhor exemplo), oscilações entre momentos de gênio – com até a letra o em caixa alta – e uma certa vontade excessiva de exposição do próprio potencial, que prejudica o ritmo do filme como peça definitiva e independente do restante da obra.

Muito disso talvez venha do fato de cada porção de Bastardos parecer um curta-metragem autônomo, sem que, para isso, os capítulos pareçam enxertados ou uma mera exibição egocêntrica. Aqui, não existem cenas brilhantes, mas sim partes inteiras (de 20 a 30 minutos) que parecem irretocáveis.

Como completamente apaixonado pelo que faz, Tarantino nos dá uma aula sobre a segunda guerra, mas não uma aula de história (pretensão buscada por quase todos que a filmam), e sim de cinema. E, nesse ponto, ele atinge uma ambição – e um deleite – talvez nunca atingido anteriormente de maneira semelhante. A sua cara-de-pau para isso já foi chamada de fascista a irresponsável, passando por entediante (?!), mas soa, para mim, tão cativante quanto o melhor já feito por ele.

Filme: Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds – EUA/Alemanha, 2009)

Direção: Quentin Tarantino

Elenco: Brad Pitt, Mélanie Laurent, Christoph Waltz, Eli Roth

Duração: 153 minutos

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Cinema sem Camarão
Na quinta (19) e sexta-feira (20) participei do Cinema sem Camarão, evento promovido pela Facom – a Faculdade de Comunicação da Ufba. Apesar de um ou outro vídeo interessante (e um outro depoimento interessante), o melhor, como era de se esperar, ficou por conta de André Setaro – que, infelizmente, como mediador, pouco abriu a boca. Definitivamente, o cinema precisa de mais Setaros…

Filmes da semana:

1.    O Signo do Leão (1958), de Eric Rohmer (***)
2.    Almoço em Agosto (2008), de Gianni di Gregorio (cinema) (*1/2)
3.    500 Dias com Ela (2009), de Marc Webb (cinema) (**1/2)
4.    As Testemunhas (2007), de André Téchiné (cinema (***1/2)
5.    A Onda (2008), de Dennis Gansel (**1/2)
6.    Pioneiros em Ingolstadt (1971), de Rainer Werner Fassbinder (***)

Leandro Afonso é comunicólogo, blogueiro e diretor do documentário “Do goleiro ao ponta esquerda”

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O FUTURO QUE (AINDA) NÃO CHEGA

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Garota Infernal (Jennifer’s Body – EUA, 2009) é um filme cuja impressão deixada é a mesma que deu suporte à sua publicidade. Como as três mulheres principais por trás dele (Diablo Cody, Megan Fox e Karyn Kusama – ainda engantinhando em suas respectivas áreas), ele é, ou parece ser, sem nunca ter sido. Tem potencial e bons momentos, mas peca por passar a sensação de se perder justamente por um certo tom demasiadamente imaturo – o que não tem a ver menos com o público teen do que com a dúvida de onde se quer chegar.

A começar por Diablo Cody, a ex-stripper que roteiriza apenas seu segundo longa, mas já uma super-estrela-indie para muitos. Trata-se de alguém com algum feeling para gags, mas que, se em alguns momentos se apresenta possessa pela linha positiva de Judd Apatow, às vezes seus diálogos parecem escritos por um menino de 12 anos recém-apresentado à MTV. Sua caligrafia é pessoal, mas ela (ainda?) não consegue conciliar a sua bagagem (das citações musicais ao domínio – ou não – da escrita) com as concessões que faz; desnecessárias, mas disfarçáveis – e, infelizmente límpidas tanto aqui como em Juno. Quando vemos Megan Fox nadar “nua” (embora na prática, é lógico, não vejamos nada) em um lago deveras sombrio, temos o melhor exemplo de cena descartável, mas que (além de ter estado no trailer – outro óbvio ululante) ajuda um bocado a explorar ainda mais o corpo de quem quer que fosse protagonista – se não Megan Fox, alguém que igualmente garantiria parte do público graças ao fenótipo abençoado.

Megan Fox, por sua vez, é um caso de estranheza que, embora diferenciada, parece ter a mesma magnitude de Cody. Com 23 anos, seus únicos trabalhos relevantes para o cinema (em termo de visibilidade) foram com Michael Bay e os seus Transformers. Ou seja, Fox é uma estrela sem nunca ter atuado de verdade – até porque nunca teve, no cinema, um diretor de seres humanos. Aqui, no entanto, além de ter toda sua voluptuosidade novamente explorada, ela tem uma oportunidade maior de mostrar seu poder de atuação, embora não consiga afirmar até que ponto se sustenta pelo simples fato de a câmera gostar dela ou se ela é realmente talentosa. Seja como for, a expectativa para o futuro dela só cresce.

Já Karyn Kusama é outro exemplo curioso. Em 2000 dirigiu seu primeiro longa, o Girlfight (na estreia de Michelle Rodriguez no cinema), com o qual ganhou prêmios e respeito no circuito independente americano – e foi lembrado com o lançamento de Menina de Ouro (2004), de Clint Eastwood, com história semelhante. Dois filmes superestimados, com o adendo de que o segundo tem uma decência trazida por Eastwood, e o primeiro – apesar de interessante pelo seu caráter independente – é o trabalho de apenas uma iniciante com talvez algum tino.

Em Garota Infernal, contudo, Kusama permanece uma iniciante talentosa. A direção é bem cuidada, sem aparentes vícios teen-publicitários – eles já estão no roteiro –, e com a coragem de investir menos no terror do que no gore, trazendo um agradável tom ultrajante para o público de Crepúsculos da vida. No fim, ela oscila – no que talvez não tenha tanta culpa – entre uma cara de pau absurdamente divertida (com “cuspes” e “voos noturnos”) às bobagens do roteiro, igualmente inconstante.

Filme: Garota Infernal (Jennifer’s Body – 2009, EUA)

Direção: Karyn Kusama

Elenco: Megan Fox, Amanda Seyfried, Johnny Simmons

Duração: 102 minutos

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É sim

Rever Bastardos Inglórios, em condições físicas idéias (e em sala com pessoas educadas), foi a melhor experiência cinematográfica do ano, como esperava. Ele é do mesmo nível do que de melhor Tarantino pode fazer – se não for, realmente, sua obra-prima. No fim, é inevitável perguntar: até onde você vai, QT?

Filmes da semana:

  1. Domicílio Conjugal (1970), de François Truffaut (***1/2)
  2. 2012 (2009), de Roland Emmerich (cabine de imprensa) (*1/2)
  3. Deixa Ela Entrar (2008), de Tomas Alfredson (cinema) (****)
  4. Garota Infernal (2009), de Karyn Kusama (cinema) (**)
  5. Bastardos Inglórios (2009), de Quentin Tarantino (cinema) (****1/2)
  6. Véronique et son cancre (1958), de Eric Rohmer (curta) (**1/2)

Leandro Afonso – comunicólogo, blogueiro e diretor do documentário “Do goleiro ao ponta esquerda”

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ESTUDANTES FAZENDO ARTE

As obras ficaram expostas para votação na escola

As obras ficaram expostas para votação na escola

Alunos da rede pública estadual estão participando da segunda edição do projeto Artes Visuais Estudantis (AVE), da Secretaria Estadual da Educação e Cultura (SEC). O projeto visa estimular nos estudantes a exploração do potencial artístico de cada um, garantindo também acesso aos alunos à produção artística e um mergulho no vasto universo da cultura e das artes plásticas.

Nessa primeira fase, os alunos estão expondo suas obras nas próprias escolas. Dessa ‘disputa’ intra-escolar, sairão os classificados para concorrer com outros estudantes, de outras escolas, em disputas regionalizadas entre as Direcs. Depois disso as obras selecionadas serão expostas em Salvador, em nova disputa, agora envolvendo os classificados de todo o estado.

Mas o AVE é mais que o concurso, a disputa. “Os alunos têm a chance de mostrar seus talentos. Aqui na escola tivemos boas surpresas. Alunos que não tinham nenhum contato com as artes plásticas conseguiram produzir obras com uma boa qualidade artística”, observa a diretora do Colégio Estadual General Osório, Kátia Deveras.

É, quando estimulados, os estudantes mostram que têm mesmo talento. Os alunos do General tiveram apenas uma tarde de oficina com uma professora de artes plásticas, Olga Ortega, o que torna os resultados ainda mais expressivos. A coordenação do projeto na escola foi da professora Geíza Sotero. “Esse ano foi meio corrido, mas deu para os que não participaram entenderem o alcance desse projeto. No próximo ano, com certeza, a participação será maior”, avalia Kátia Deveras.

AINDA DÁ TEMPO

A Casa dos Artistas de Ilhéus traz, no mês da consciência negra, filmes que exaltam a cultura afro-brasileira no projeto Cine Clube Équio Reis. Hoje, por exemplo, tem a exibição do nacional Madame Satã, com Lázaro Ramos. A projeção começa às 19 horas, na Casa dos Artistas, em Ilhéus, com entrada franca.

DE ENCHER OS OLHOS

Exposição é de encher os olhos, mas dá uma fome...

Exposição é de encher os olhos, mas dá uma fome só justificada pelos motivos acima...

Daqui a pouquinho, no Teatro Municipal de Ilhéus, tem a abertura da exposição fotográfica Rio do Engenho: Festas, Saberes e Sabores, de Anabel Mascarenhas e Joliane Olschowsky. Pelo título da exposição na galeria do TMI, já dá para perceber que a coisa é de encher os olhos.

São 50 fotografias mostrando a cultura, o cotidiano e (deu fome!) a gastronomia do Rio do Engenho, uma pequena comunidade cravada no interior de Ilhéus. A exposição tem curadoria de Juliana Menezes, Gisane Santana e Mércia Cruz. A abertura está programada para as 18h.

E para criar um clima, todas as fotos foram montadas em molduras feitas, artesanalmente, por nativos do Rio do Engenho. A exposição, explica Anabel, é um projeto do Grupo de Pesquisa Identidade Cultural e Expressões Regionais (Icer), da UESC. O trabalho tem o apoio do CNPq e da Fapesb e patrocínio da prefeitura de Ilhéus.

A exposição vai até o dia 30 de novembro, e chega ao TMI depois de fazer sucesso em Salvador (no Museu da Gastronomia Baiana, no Pelourinho) e na Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc). O horário de visitação é das 8h às 12h e das 14h às 18h.  Não perca o clique… Ops, a exposição.

O NADA TRAVESTIDO

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Terminada a sessão de Anticristo (Antichrist – Dinamarca/ Alemanha/ França/ Suécia/ Itália/ Polônia, 2009), a sensação que fica é a que o eterno conflito entre o talento e a auto-importância de Lars Von Trier (Ondas do Destino, Dançando no Escuro, Dogville) finalmente chegou ao fim – ou pelo menos aqui essa briga tem claramente um perdedor e um vencedor. Se por um lado o início e o final nos deixam claro que o filme assistido é do dinamarquês perturbado, todo o resto do filme dá a impressão de apenas um menino em busca de atenção.

Em Anticristo, mais até do que em outras obras a princípio tão ou mais polêmicas, Lars Von Trier exala a sua vontade de chocar, embora o problema aqui seja o fato de esse desejo iconoclasta ser muito maior que o seu esmero (já que capacidade ele tem) para dar à obra um resultado minimamente bem tratado. E o começo e o fim, que talvez sejam os pontos mais altos do filme, também são a prova de que o homem do Dogma 95 não é mais o mesmo.

O excepcional manipulador, e nem tão bom encenador, dá lugar a um (em parte) estilista (maior que o de costume) que parece funcionar apenas como tal. Quando o filme tem sua assinatura, ela parece borrada, como se escrita por um bêbado, cuja caligrafia única – cheia de referências e com boa carga pessoal, inclusive nos defeitos – nos atinge com a aparência de feita a olhos fechados. Aqui, Lars Von Trier, que sempre chamou a atenção pelo seu caráter a princípio intimista, inicia e finaliza o filme mostrando uma faceta de quem tem algum talento – do que ninguém duvida – mas se apresenta infantil no restante do tempo, com um aspecto de completo desleixo para com o cinema e compromisso único com o chocar, não importa o quão gratuito esse chocar soe.

Difícil falar mais do filme sem cair numa vala comum de opções para se depreciar o filme de Von Trier, mas é inegável que, aqui, ele parece ter se perdido por completo. Uma pena, em meio ao nada agressivo e excessivamente auto-importante que Anticristo prima por ser – e o muito melhor que LVT pode fazer.

Filme: Anticristo (Antichrist – Dinamarca/ Alemanha/ França/ Suécia/ Itália/ Polônia, 2009)

Direção: Lars Von Trier

Elenco: Willem Dafoe, Charlotte Gainsbourg

Duração: 104 minutos

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Digital

Desde que vim pra Salvador, a maioria dos filmes a que assisti foram em projeções digitais – o Rain. Se em alguns casos a coisa não incomoda, em outros a passagem da película para o sistema foi patética, com aqueles gigantescos e nada sedutores pixels a me engolir. Os melhores (ou piores, melhor dizendo) exemplos foram Enquanto o Sol Não Vem e (especialmente) Amantes.

Para os que já se sentiram minimamente lesados com isso, vale a “Carta aberta aos responsáveis pela projeção digital no Brasil”: http://www.gopetition.com/online/31415.html.

Filmes da semana:

  1. Diário Proibido (2008), de Cristian Molina (cinema)
  2. Anticristo (2009), de Lars Von Trier (cinema)
  3. Verdade Nua e Crua (2009), de Robert Luketic (cinema)

Leandro Afonso é comunicólogo, blogueiro e diretor do documentário “Do goleiro ao ponta esquerda”

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NO MEU LUGAR – PRÉ-ESTREIA

O PODER DA OBSERVAÇÃO

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A pré-estreia em Salvador de No Meu Lugar (idem – Brasil/ Portugal, 2009), do carioca e também crítico Eduardo Valente, é um expoente dos casos em que o debate pós-sessão consegue ser tão ou mais interessante do que o filme – sem que, para isso, o demérito da obra seja maior que o mérito da discussão.

O enfoque do filme está em três famílias de classes sociais diferentes, interligadas por uma tragédia. Baseado aí, as lembranças imediatas vão de Alejandro González Iñárritu (Babel, Amores Brutos) a Robert Altman (Short Cuts – Cenas da Vida, Nashville). Mas o filme de Valente, caro ao cinema brasileiro como forma de abordar a representação do ser humano e da violência, chama mais atenção pela sua abordagem do que pela sua forma de narrativa.

A resolução da primeira cena, por exemplo, deixa uma sensação de falta de coragem (ou competência) para Valente mostrar sua (in)capacidade de encenador em um momento de tensão. Terminado o filme, contudo, a certeza é de que a recusa do início não só se justifica como potencializa o efeito da obra. Ao deixar sua câmera – e a plateia, consequentemente – alheia ao que acontece, Valente demonstra que o como aquilo acontece é menos importante do que como e o que cada um viveu até chegar ali. A impressão, depois de digerida, é semelhante à do acidente no final de O Desprezo (1963), de Jean-Luc Godard, onde o resultado é muito mais importante do que o diretor mostrar sua capacidade de saber decupar e cortar uma cena de ação.

Aqui, Valente filma o dia-a-dia de seres humanos de carne e osso, sem que precise transformar os momentos ordinários da existência em um romance épico. Ele sabe que falar do viver, aliado ao conviver com outras classes, é uma tarefa cuja profundidade é significativa o suficiente para tornar a própria observação espinhosa. E essa observação – que a princípio pode parecer apática –, se por um lado é focada basicamente em acontecimentos banais (e que algumas vezes são demasiado genéricos), por outro é filmada com uma riqueza de detalhes que transforma essa trivialidade de ações em algo notável, cuja unicidade é trazida – ou reforçada – pelos pormenores. De uma certa tensão sexual, existente em mais de uma das famílias, à resolução (ou falta dela), muita coisa fica sem resposta ou obscura; mas não por negligência ou prolixidade desnecessária – e sim por se admitir a complexidade do que trata.

Esse mostrar o caminho sem ter que finalizá-lo numa linha de chegada talvez seja exatamente o ponto mais positivo de No Meu Lugar. Um filme que trata e se passa no Rio de Janeiro, de um carioca que lá viveu praticamente seus 34 anos de vida, e que fala de uma região e de um bairro que conhece (Laranjeiras) – sem que esse universo se torne excessivamente fechado ou, no outro extremo, recheado de recursos fáceis proporcionados por tudo a que o Rio se liga.

Diferente de um Cidade de Deus e sua aparência de documento oficial-estilizado, e de Tropa de Elite e sua resolução simplória (ainda que sejam filmes interessantes), No Meu Lugar é mais contido por não querer responder e/ou documentar/estilizar em busca de uma auto-importância que ele não necessariamente tem. E, talvez justamente por isso, é mais contundente na sua força como possibilidade de um cinema ligado a política (ainda que o enfoque seja maior no ser humano do que em uma suposta ideologia – o que não é nenhum demérito) sem soar irresponsável e/ou constrangedoramente panfletário. O que Valente faz, no fim das contas, é simplesmente dar ouvidos (e vida) aos personagens e voz a um tipo de cinema – cuja coerência com o naturalismo apresentado é dos maiores altos do cinema brasileiro recente.

Filme:            No Meu Lugar (idem – Brasil/ Portugal, 2009)

Direção:         Eduardo Valente

Elenco:          Marcio Vito, Dedina Bernardelli, Luciana Bezerra

Duração:       113 minutos

8mm

Debate

Poderia (e gostaria de) falar muito mais do debate, mas o tempo é escasso. Ainda assim, bom dizer que o Valente, apesar de um cara com um incrível tesão pela fala, sabe ouvir e respeitar a opinião alheia – e inclusive admitiu que a trilha sonora principal, considerado ponto negativo por um dos espectadores, já havia sido considerada um revés do filme por outras pessoas (o que ele não precisava dizer).

Bom lembrar ainda o fato de a Vídeo Filmes ser uma das produtoras do filme. Video Filmes, de Walter Salles que – junto com seu irmão João Moreira Salles – já havia sido criticado pelo Valente crítico, o que não impediu o diretor de Central do Brasil perceber o potencial do roteiro do filme. É ótimo perceber não só a generosidade (palavra usada pelo próprio Valente) como a maturidade de Salles para separar as coisas. Por incrível (ou não) que possa parecer, a postura de Salles não é regra.

Rápido

Ah, e embora o www.imdb.com diga que o filme tenha 113 minutos (única minutagem disponível lá é a da França), a que assisti, acho, tinha menos – salvo engano, o Valente falou em 90 minutos.

Filmes da semana:

  1. 1. No Meu Lugar (2009), de Eduardo Valente (cinema – pré-estreia) (***1/2)
  2. 2. Herbert de Perto (2009), de Robert Berliner e Pedro Bronz (cinema) (***)
  3. 3. Delicatessen (1991), de Marc Caro e Jean-Pierre Jeunet (cinema) (**1/2)
  4. Ladrão de Casaca (1955), de Alfred Hitchcock (***1/2)
  5. 5. Enquanto o Sol Não Vem (2008), de Agnès Jaoui (**) (cinema)

Top 10 de outubro:

10. Amantes (2008), de James Gray (***1/2)

9. O Homem que Incomoda (2006), de Jens Lien (***1/2)

8. A Primeira Noite de Tranquilidade (1971), de Valerio Zurlini (***1/2)

7. Ladrão de Casaca (1955), de Alfred Hitchcock (***1/2)

6. No Meu Lugar (2009), de Eduardo Valente (***1/2)

5. Por um Punhado de Dólares (1964), de Sergio Leone (***1/2)

4. Por uns Dólares a Mais (1965), de Sergio Leone (***1/2)

3. Vicky Cristina Barcelona (2006), de Woody Allen (***1/2)

2. Um Filme Falado (2003), de Manoel de Oliveira (***1/2)

1. Bastardos Inglórios (2009), de Quentin Tarantino (****)

Leandro Afonso é comunicólogo, blogueiro e diretor do documentário “Do goleiro ao ponta esquerda”

www.ohomemsemnome.blogspot.com

FILMES PARA SONHAR NO CINE CLUBE ÉQUIO REIS

O Cine Clube Équio Reis, hoje, na Casa dos Artistas de Ilhéus, apresenta sessão dupla nesta quinta-feira, às 15 e às 19 horas. Na primeira, o drama Eliot conta a história de um menino que sonhava ser bailarino. Isso vivendo com uma família totalmente machista no interior da Inglaterra. Depois, também na Inglaterra, uma babá encanta crianças em Mary Poppins. As duas sessões têm entrada franca.

Atualizado às 15h47min

APÓS CIRURGIA, FÁBIO LAGO PASSA BEM

Lago em papel do cômico Fabiano.

Lago no papel do cômico Fabiano.

Leitor do Pimenta e amigo do casal Alice e Fábio Lago informa que o ator ilheense e interprete do personagem Fabiano, da novela global Caras e Bocas, passa bem após cirurgia para reconstituição de três ligamentos que se romperam após o acidente de ontem à tarde (confira).

Lago passeava em Botafogo, no rio de Janeiro, quando foi atropelado por um VW Gol. O ator foi submetido a uma cirurgia no ombro na manhã deste sábado, no Hospital Copa D´Or. O ator pode receber alta neste domingo.

Fábio Lago é uma das grandes atrações da novela Caras e Bocas. Ele interpreta o divertido Fabiano, um baiano que desconfia da relação da sua mulher, Ivonete, com o suposto primo Adenor. Para tirar a dúvida, ele já se vestiu de oriental, freira, baiana e, por último, uma mulata de olhos azuis que segue os passos da mulher…

LIMITES

70-mm

final 4

IngloriousBasterds_2_Set2009

Antes de um filme de guerra, comédia e drama – ao mesmo tempo –, Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds – EUA/ Alemanha, 2009) é, talvez muito mais do que todos os outros, um filme de Quentin Tarantino. O que não quer dizer exatamente que o resultado não passe de uma repetição de maneirismos em defesa de uma satisfatória e segura egotrip, mas sim que, embora exista em Tarantino um ego gigantesco (e já característico), este parece tão grande quanto a vontade de, enquanto se diverte, testar mais do que nunca seu próprio talento enquanto cineasta.

A primeira cena de Bastardos Inglórios é a mais longa numa abertura dele, mais lento e contido desde a linda apresentação de créditos. A não menos bela – e educadamente tensa – conversa entre o Coronel Hans Landa (Christoph Waltz – extraterrenamente sensacional) e Perrier LaPadite (Denis Menochet – muito bom) remete ao diálogo entre Christopher Walken e Dennis Hopper no ótimo Amor à Queima-Roupa (1993) – roteiro que ele (infelizmente) vendeu para Tony Scott –, com o adendo de aqui Tarantino se arriscar mais; pela duração, pela não interferência de personagens, e por dirigir, logicamente. Numa cena em que duas pessoas conversam durante 20 minutos, é bonito perceber a plateia em silêncio hipnótico por tanto tempo sem que, para isso, a câmera tenha de dar piruetas. QT, completamente hábil em prender a atenção do público na base da escrita e em cuidadosa decupagem, se mostra um puritano do tripé, da steady cam e de gruas – nada de câmera na mão chamando atenção para os seus próprios tremeliques.

Esse mesmo puritanismo – nada novo, mas aqui elevado a enésima potência – Tarantino demonstra no que diz respeito ao cinema como ele vê. E este cinema é película – com direito a uma quase ojeriza pelo digital – e, bem diferente da maioria de Hollywood, respeito à língua e admiração pelo cinema de outros países. O que, convenhamos, é assaz coerente com alguém cuja maior influência é de diretores italianos (de Sergio Leone a Mario Bava) e cuja produtora leva o nome de um filme francês – Bande à Part, de Jean-Luc Godard.

O mesmo respeito, todavia, não é visto no que diz respeito à história – o que não é necessariamente um defeito, e o que vejo como justamente um dos maiores trunfos aqui. Não existem apenas inúmeros filmes sobre a segunda guerra, mas sim incontáveis obras marcantes e estudiosas do tema. No entanto, nenhum filme (que eu me lembre) teve a audácia de se revelar tão (re)escritor da história já conhecida – e reconhecida. E, mais do que uma afronta, essa reconfiguração histórica funciona como um deleite impossível fora do cinema.

Vingança é o pano de fundo, a lembrança de Kill Bill é várias inevitável, mas a descarga é catártica, e chega a remeter, embora de maneira bem rápida e diferente, a Vá e Veja (1985), de Elem Klimov, filme diametralmente oposto sobre (o horror bielorusso n)a mesma segunda-guerra. O diálogo com a obra-prima soviética, porém, não vai além disso, já que o que Tarantino faz é entretenimento – de onde menos se espera. É curiosa sua construção caricata (em harmonia com o espírito do filme) e por vezes lindamente infantil dos próprios conterrâneos, especialmente de Aldo Raine (Brad Pitt – não apenas hilário), natural do Tennesse, como o próprio QT. Tarantino é absurdamente hollywoodiano no seu fim (entretenimento), mas seu êxito maior é conseguir chegar a esse fim com um tom cinéfilo e zombeteiro; comprometido acima de tudo com o cinema dele – aqui mais do que nos seus outros filmes.

Esse seu tom autoral é visto inclusive no momento em que ele parece pecar por ir onde nunca foi anteriormente, ao tornar a trilha, antes (ou além) de um reforço de estilo, um potencializador de sentimento; trazendo uma aparência surpreendentemente genérica. Abruptos cortes secos (e de atmosfera) dão a certeza de que ele não quer ser piegas, mas não a de que consegue o equilíbrio entre moderação e sensibilidade sem que, para isso, se desvirtue de um filme tão absolutamente estilizado (e num mundo diferente) até ali. Talvez, e aí vai um talvez em caixa alta, seja o próprio Tarantino (re)conhecendo um (enfim) auto-limite: “ei, isso não encaixou tão bem quanto poderia, não sou tão bom aqui quanto no resto”.

A prova de que esse talvez merece ser relativizado vem no final. Quem já leu algo do que Tarantino falou sobre Bastardos Inglórios sabe o que ele acha do filme, e – depois das mais de duas horas completamente apaixonadas – assistir a Brad Pitt dizer o que diz é imaginar as palavras saindo das mãos hiper-ativas de QT, falando em primeira e última instância de si (um tipo de personificação de um cinema) para o mundo – lembranças de Truffaut e Os Incompreendidos e Almodóvar e Má Educação foram imediatas. Com essa última frase, tudo que disse (sobre) e tudo que manifesta em Bastardos Inglórios, Tarantino nos dá a impressão de que, se não atingiu seu limite de talento – se é que isso é possível –, ele realmente fez aqui o filme que resume sua obra. Filme esse que, não por acaso, é uma ode não ao passado histórico, mas à infinita potencialidade cinematográfica de se fazer a própria história.

Numa situação hipotética, se fosse fazer um filme sobre a alarmante diminuição de água potável no mundo, Tarantino, muito provavelmente, enfocaria mesmo (o fim d)a película cinematográfica. Do que ele entende, pelo que ele se interessa, e o que ele ama o suficiente para escolher como protagonista de seus filmes mais ambiciosos – de Bastardos Inglórios à sua vida. É difícil que exista hoje, vivo, algum cineasta com tamanha combinação de audácia, talento e uma espécie de divertimento com o estado eternamente enamorado pelo próprio cinema.

P.s. 1: Ainda não sei precisar o quanto minha precária situação física influenciou no absorver do filme, mas – obviamente – irrelevante ela não foi. Muito dos Bastardos, de bom ou não, pode ter evaporado antes de ser digerido. Ou foi mal digerido…

P. s. 2: Texto escrito sem assistir ao À Prova de Morte (2007), o filme anterior de Tarantino lançado há mais de dois anos em Cannes e ainda inacreditavelmente inédito (comercialmente falando) no Brasil. A última previsão da Europa Filmes – a que tive acesso – falava em dezembro. Espero, mas não garanto.

Filme:            Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds – EUA/Alemanha, 2009)

Direção:         Quentin Tarantino

Elenco:          Brad Pitt, Mélanie Laurent, Christoph Waltz, Eli Roth

Duração:       153 minutos

8mm

Mais Itália

E Tarantino, deixando claro que os Western Spaghetti (para ele) não se resumem a Leone-Morricone, ainda nos dá o prazer de assistir a Shosanna (Mélanie Laurent – excelente) ao som da trilha de O Dólar Furado (1965), de Giorgio Ferroni. Ah, Itália..

Sem amantes

Um filme como Amantes (2008), de James Gray e com elenco de gente da popularidade do naipe de Gwyneth Paltrow e Joaquim Phoenix, numa quinta-feira às 16h20min, em Salvador. Ou seja, uma sessão deveras acessível. Pois bem, decorridos cinco minutos de projeção, eu era o único na sala – que viu os créditos finais subirem com o dobro do público.

Filmes da semana:

  1. 1. Bastardos Inglórios (2009), de Quentin Tarantino (cinema) (****)
  2. 2. Besouro (2009), de João Daniel Tikhomiroff (cinema – pré-estreia) (**)
  3. 3. Amantes (2008), de James Gray (cinema) (***1/2)

Leandro Afonso é comunicólogo, blogueiro e diretor do documentário “Do goleiro ao ponta esquerda”

www.ohomemsemnome.blogspot.com

TROVADOR “EXPLICA” COMENTÁRIO DO PREFEITO AZEVEDO

Agulhão F. não gostou do comentário do prefeito Azevedo em relação à vereadora Rose Castro (“O que ela fez, não se faz” – veja aqui). Segundo o trovador, basta olhar os jornais para saber que a traição faz parte da lógica partidária. “Só quem não sabe disso é Azevedo, porque se faz de tolinho”, brinca:

Trair tem o mesmo jeito
que tem o verbo coçar,
e sabe bem o prefeito
que é bastante começar…
Começa e não para mais,
é só coçar uma vez,
por isso, se Rose fez
o que Rose fez… se faz!…
Traição, se bem conheço,
é o caminho da desgraça:
como se fosse cachaça,
só precisa de começo
pra atingir a embriaguez,
por isso, se Rose fez,
eu cá não a desmereço,
pois todo político faz…
Ainda inexperiente,
Rose tá “virando gente”
e vai fazer muito mais.!…

ALTO BECO HOMENAGEIA RENAN SILVIO SANTOS

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Renan Silvio Santos será hoemanageado pelos confrades do Alto Beco do Fuxico

A Confraria do Alto Beco do Fuxico lembra, nesta sexta-feira (23 de outubro de 2009), os 10 anos de saudade do confrade Renan Sílvio Santos, falecido em virtude de infarto.

Para lembrar a data, a Confraria do Alto Beco do Fuxico reúne, à noite, no seu quartel-general etílico, os bares Whiskytório e Artigos para Beber, confrades e convidados para realizar uma homenagem póstuma.

Professor e advogado conceituado, Renan Sílvio Santos era uma das figuras mais carismáticas de Itabuna, que soube construir milhares de amigos em toda a sua vida.

Os trabalhos em homenagem à memória de Renan serão abertos pela Confraria do Alto Beco do Fuxico às 18h30min, e no cerimonial estão previstas atividades como uma saudação, lembranças e reminiscências ao amigo, brindadas com muita cachaça, cerveja e sarapatel.

Bem do jeito que ele gostava.

As informações são do blog Confraria do Alto Beco

Atualizado às 22h41min

LULA-LÁ NA TELONA

Ainda surfando no anúncio dos Jogos Olímpicos Rio 2016 e nos sinais de retomada do crescimento econômico, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva prepara-se para colecionar mais dividendos políticos, dessa vez nas telas do cinema e em pleno ano eleitoral, quando todos os esforços estarão voltados para eleger a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, sua sucessora.

Lula, o Filho do Brasil, cinebiografia sobre o petista, será lançado em 1º de janeiro de 2010 com uma estratégia de distribuição que tem como objetivo torná-lo um dos maiores lançamentos do cinema nacional, desde a retomada da produção cinematográfica do País, em 1995.

Para isso, a produção recorrerá a tradicionais bases de sustentação política de Lula, como sindicatos, e a regiões onde ele tem alta popularidade, como no Nordeste. Um universo de 10 milhões de pessoas sindicalizadas poderá comprar ingressos a preços populares para assistir ao filme, que pretende chegar aos rincões do País em 2010.

A estreia será feita em mais de 400 salas, sendo que 88 delas não fazem parte do circuito convencional. O objetivo é levar o filme para públicos populares, fora do mercado consumidor tradicional.

Reveja o trailer do filme:

EXPOSIÇÃO DE FOTOS DO RIO DO ENGENHO CHEGA À REGIÃO

Após uma temporada de 25 dias em Salvador, a Exposição Fotográfica Rio do Engenho: Festas, Saberes e Sabores chega a Ilhéus. Até este sábado (17) pode ser visitada no foyer do Auditório Paulo Souto, na Uesc. A partir do próximo dia 5, a exposição estará no Teatro Municipal de Ilhéus.

Anabel Mascarenhas e Joliane Olschowsky assinam os trabalhos – a curadoria é de Juliana Menezes, Gisane Santana e Mércia Cruz. A mostra retrata a cultura e vivência da comunidade do Rio do Engenho, distrito rural de Ilhéus, e explora o ambiente cultural, a gastronomia, a produção agrícola e a comercialização dos produtos cultivados.

Em Salvador, a exposição – na galeria Nelson Daiha, no Museu da Gastronomia Baiana, no Senac Pelourinho -, teve centenas de visitantes de São Paulo, Minas, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Paraná, além de turistas de alguns países, como Reino Unido, Argentina, França, Alemanha, Austrália, Chile e Dinamarca.

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A exposição retrata o dia a dia da comunidade rural de Rio do Engenho, de Ilhéus

ESCRITOR LANÇA ESTUDO SOBRE POESIA GRAPIÚNA

Gustavo Felicíssimo

Gustavo Felicíssimo

O escritor e pesquisador Gustavo Felicíssimo lança, nos próximos dias 22 (Ilhéus) e 23 (Itabuna), seu mais recente trabalho – Diálogos – Panorama da nova poesia grapiúna.

Antes, nessa sexta-feira, ocorre o pré-lançamento durante o 1º Congresso Nacional Linguagens e Representações, que se realiza na Uesc até amanhã.

Em Ilhéus, o lançamento será na Academia de Letras, e em Itabuna, na Biblioteca Plínio de Almeida. Quem for aos eventos poderá ouvir também um texto baseado em nos estudos – Poesia Grapiúna: Da sua fundação aos dias de hoje.

SUPERFÍCIE ILUSÓRIA

70-mm

Final 2,5

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Se a média geral de qualidade dos blockbusters é baixa, menor ainda é a média dos filmes de horror que chega à maioria de multiplexes e derivados. Assim, quando qualquer coisa tem, além de um mínimo de respeito ao espectador, relances de domínio sobre as especificidades de gênero (para dribá-las ou para usá-las), ela pode dar a impressão de ser mais do que é. E um exemplo de filme que me passou exatamente essa sensação foi A Órfã (Orphan – EUA/ Canadá/ Alemanha/ França, 2009), de Jaume Collet-Serra (do A Casa de Cera de 2005).

A apresentação à história é eficiente ao mostrar, além de um sangue que marca, o suposto parto de um bebê “nati-morto” que parece filho do demônio, tornando inevitável a lembrança de O Bebê de Rosemary (1968); onde, é bom diferenciar, o investimento maior era na sugestão, menos no horror do no terror. Aqui, no entanto, quase tudo parece sugado, como referência ou cópia disfarçada, de A Profecia (1976), de Richard Donner. O porém é que, se no caso anterior a questão era uma coisa ligada a uma certa para-normalidade não didaticamente convencível, o mistério aqui persiste até ser revelado palavra por palavra antes do final. Não há espaço para o (que pode ser charmoso e funcional) incompreensível.

Embora não tenha a mesma proposta de Pânico (1996), por exemplo, A Órfã trabalha com várias referências (apesar de em menor quantidade e tom diferente do filme de Wes Craven), mas não consegue fazer com que o filme funcione como uma coisa só. Se por um lado detalhes – ou bem mais – remetem imediatamente a clássicos, e se a princípio assistimos a uma versão interessante do já (bem) feito e filmado, por outro presenciamos o finalizar do filme com uma citação a O Chamado 2 (2005).

Esse percurso, que alguns podem (não sem razão) dizer que se foi do luxo ao lixo, não significa tornar necessariamente o resultado ruim. Mas passa a sensação de que A Órfã usa a voz de outros de maneira decepcionante. Ao invés de estudá-las para se tentar emitir um som treinado e bem referenciado (uma primeira impressão otimista), ela dialoga com elas para alcançar um timbre final apenas afinado – parece faltar talento natural para se ir além.

A personagem “diabólica”, os sustos, um possível humor, a construção do ambiente, da atmosfera, do medo, de possíveis cenas indeléveis, tudo isso não chega a ser mau feito ou constrangedor, mas não vai além do bem executado. Se for para avaliá-lo fora do gênero, ele tende a pecar já que as concessões tendem a se tornar menos indulgentes no que diz respeito à complexidade de personagens; o drama parece pré-programado a ponto de termos de voltar a vê-lo como um filme de terror para buscar alguma relevância nele. Que tem momentos inspirados, é verdade, mas que se tornam pequenos quando pensamos, também, em equivalentes (de ideia ou imagem-som) nas fontes das quais ele bebe.

Filme: A Órfã (Orphan – EUA/ Canadá/ Alemanha/ França, 2009)

Direção: Jaume Collet-Serra

Elenco: Vera Farmiga, Peter Sarsgaard, Isabelle Fuhrman

Duração: 123 minutos

8mm

Inglório

Outra vez de mudança e com tempo naturalmente escasso, o texto dessa semana chega com antecedência. O que vem na contra-mão da ideia inicial, que seria atrasá-lo para poder rabiscar as primeiras sensações após a sessão de Bastardos Inglórios (2009) – de Quentin Tarantino. A sessão não muda – se tudo der certo, verei sim no sábado (17) aqui em Salvador –, mas o texto sobre ele fica pra semana que vem.

Filmes da semana:

1. Antoine e Colette (1962), de François Truffaut (curta) (***1/2)

2. Na Natureza Selvagem (2007), de Sean Penn (**1/2)

3. A Órfã (2009), de Jaume Collet-Serra (**1/2) (cinema)

4. Por um Punhado de Dólares (1964), de Sergio Leone (***1/2)

5. Por uns Dólares a Mais (1965), de Sergio Leone (***1/2)

Leandro Afonso é comunicólogo, blogueiro e diretor do documentário “Do goleiro ao ponta esquerda”

www.ohomemsemnome.blogspot.com

USUÁRIO DE ÔNIBUS RECLAMA DE DORES NO “DISSÍLABO”

De olho no transporte urbano de Itabuna e Ilhéus, Agulhão F. chama a atenção para o sofrimento que muitos ônibus, com seus assentos de metal e plástico, impõem a certa parte do corpo humano, um dissílabo ainda grafado com reservas em blogs de família. E o trovador, desiludido com os governos municipais (que deveriam impor regras às empresas do setor), apela para o imponderável.

Falaí, porta-voz dos passageiros!

A reclamação abunda
E esta vive em tormento,
pois ao sentar não afunda,
por ser bem duro o assento!…
Nossa parte mais carnuda,
dissílabo proeminente,
espera de Deus ajuda,
para não ficar dormente!…






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