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:: ‘Universo Paralelo’

UNIVERSO PARALELO

A LÍNGUA QUE SEPARA BRASIL E PORTUGAL

Ousarme Citoaian

Que brasileiros e lusitanos estão unidos por uma cadeia linguística não é verdade – e se seu professor afirmar isto, é bom que você o faça explicar-se um pouco mais. Assim, a repetida frase de Bernard Shaw (“Inglaterra e Estados Unidos são dois países separados pela mesma língua”) talvez se aplique melhor ao nosso caso, e nem é necessário ir a Lisboa para identificar diferenças do modo de falar desses dois povos: tudo está muito bem organizado no Dicionário contrastivo luso-brasileiro, do filólogo Mauro Villar (Editora Guanabara/1989). Nele bebo algumas curiosidades, junto a outras colhidas em artigo de Ruy Castro e abono minha tese. Com palavras parecidas, mas muitas vezes de sentidos distantes, a comunicação entre esses povos lembra Babel, aquela.

NARRAÇÃO DE FUTEBOL SÓ COM TRADUTOR

Aqui, se morre afogado; lá, morre-se ao tomar banho (banheiro para os lusos é salva-vidas, ou guarda-vidas, enquanto o nosso banheiro é quarto de banhos). Quem quiser comprar o jornal, procure um ardina, não um jornaleiro, pois este é um indivíduo que trabalha por dia, faz jornada. E entender as notícias do jornal (em tempo: ardina também significa cachaça!) é outro exercício, se elas vêm da Gronelândia, Moscovo, Amesterdão ou Bona (Groenlândia, Moscou, Amsterdam ou Bonn). Você pode se deparar com manchetes do tipo Atentado bombista no Harlemo (soltaram uma bomba no Harlem) ou Sarilho de liceus na Cantabrígia (revolta estudantil em Cambridge). E para ver futebol na tevê portuguesa é bom munir-se de um “tradutor”!

ÁRBITRO EM PORTUGAL NÃO APITA, ASSOBIA

A bola é o esférico, o gramado chama-se relvado, e o árbitro não usa apito, usa assobio. Os jogadores não jogam de chuteiras, mas de botas, e não vestem a camisa do time, e sim a camisola da equipa. A do Benfica não é vermelha como parece, mas encarnada (também para os pernambucanos, sei lá o porquê, vermelho é encarnado); e a camisola do Sporting é de quinas (listrada). Se o zagueiro é um pé-de-chumbo (perna-de-pau), ainda assim não faz gol contra, mas autogolo. Contundido, diz-se que o gajo se aleijou ou (gosto muito desta) estatuou-se no relvado. O sujeito que o aleijou será irradiado (isto é, expulso) do jogo, ora pois. Já se me acabam (ops!) tempo e espaço, mas não resisto a mencionar mais umas poucas curiosidades.

EM PORTUGAL, MIÚDOS BRINCAM DE COITO

Mauro Villar adverte: Carregar a campainha não é arrancar a campainha da parede e levá-la pra casa, mas apenas apertá-la. Fechar a janela para não entrar correspondência é proteger-se contra correntes de ar. Curar uma carraspana é livrar-se da gripe, não de uma ressaca, e urinol não é penico, mas mictório público – penico é vaso de noite. Moça é rapariga, menino, mesmo ainda usando fraldas, é rapaz e as crianças em geral são os miúdos (miúdos de galinha são as miudezas, pois os miúdos dela são os pintos)… Os miúdos chupam rebuçados no lugar de balas, e gelados de palito em vez de picolés. Esses miúdos (que usam chupa-chupas em lugar de pirulitos) têm o costume, aparentemente estranho, de brincar de coito (no Brasil, brinca-se de esconder).

“O VULCÃO EXTINTO QUE NÃO MAIS SINTO”

“Lembro antecedentes,/quando o inferno então era;/verões inclementes/
já são primavera./A gastrite, fumaçando em azia/(úlcera! – pensei, com megalomania) exorcizada, é memória vã./Reduzido a estrela anã,/o motivo da dor que não mais sinto/é vulcão extinto,/e onde havia pranto, canto:/o outrora interno sol/apagou-se com omeprazol./Outra dor, de difícil remédio,/confesso, ainda é./(Velhas paixões não se apagam/ e, em fogo lento, retardado, maltratam…)/Concluo, com o que me resta de razão: a acidez do estômago/é domável; a aridez do coração, não”. E aos críticos que condenarem esta poética ociosa, outonal, me declaro “incompreendido” e respondo, ao estilo Antônio Maria: “Ninguém me ama,/ninguém me quer,/ninguém me chama/de Baudelaire…”.

COISA FEITA PARA ASSUSTAR ADOLESCENTE


Urge encerrar nosso papo sobre “Coisa”. Na literatura, a palavra é antiga. Em 1943 o modernista renitente Oswald de Andrade publicou a crônica O Coisa. Nos oitenta, o estadunidense Stephen King (dito o Rei do Terror) assombrou os adolescente com o livro A Coisa. Da França, dois nomes surgem na minha lista informal: Michel Foucault (As Palavras e as Coisas) e a grand-mère das feministas, Simone de Beauvoir (A força das coisas). Mas é provável que a maior inflação de coisas esteja na MPB. Chico Buarque, lá em 1966 (quando verde-oliva era coisa da moda), falou de uma banda que passava “cantando coisas de amor”. Antes (1962), Vinícius, de olho rútilo sobre Helô Pinheiro a caminho do mar, disse (em música de Tom Jobim): “Olha que coisa mais linda…”.

TIA RITA LEE: GENTE FINA É OUTRA COISA

Quatro anos antes, Elizete Cardoso propalara, da mesma dupla (Chega de saudade), “ai, se ela voltar, se ela voltar/que coisa linda/que coisa louca”. Roberto Carlos, que vem dos tempos de “coisa linda/coisa que eu adoro”, seria o Rei das Coisas: fez Coisas do coração, Coisas que não se esquece, Coisa bonita, Diga-me coisas bonitas e Tem coisas que a gente não tira do coração (soube dessas coisas por e-mail). Gal Costa gravou o CD Todas as coisas e eu, e titia Rita Lee fez Gente fina é outra coisa. Cecília Meireles na voz tremulante de Fagner: “Deixemos de coisa,/cuidemos da vida, /senão chega a morte/ou coisa parecida”. O maestro Moacir Santos (foto) sabia das coisas: tocava, com domínio pleno, piano, saxofone, banjo, violão, clarineta, trompete e bateria.

MOACIR SANTOS NÃO ERA UM, “ERA TANTOS”

O músico pernambucano (1926-2006) ensinou a arte a Baden Powell, Paulo Moura, Menescal, Sérgio Mendes, Nara Leão, João Donato. Não é pouca coisa. Dele, Vinícius disse (Samba da Bênção): “Moacir Santos/tu que não és um só, és tantos”. Sua estreia em gravação se deu com o álbum Coisas, “um dos melhores discos brasileiros de todos os tempos”, segundo a revista Rolling Stones. São dez faixas – Coisa nº 1, Coisa nº 2, Coisa nº 3 (e por aí vai), mas Coisa nº 1 não é a primeira faixa, é a 8ª, Coisa nº 8 é a 10ª e Coisa nº 5 é a 3ª. Coisa confusa, não? Coisa mais linda é Sônia Braga, que enfeita, acompanhada de figuras carimbadas da Globo em 1980, Coisas do mundo, minha nega, do elegante, fino, inteligente, discreto e terno Paulinho da Viola. Faltou alguma coisa? Então vá: genial.

UNIVERSO PARALELO

MC DONALD´S COMO SÍMBOLO DA DECADÊNCIA

Ousarme Citoaian

Em viagem recente, conversei com uma senhora parisiense sobre a decadência da cultura francesa, que influenciou o Brasil e o mundo (até o início do século XX, pelo menos). Acordamos em que o espaço da língua culta foi muito reduzido – salvo na área diplomática, em que ainda é exigida. Mas tínhamos preocupações diferentes: eu, perfunctório, o geral (língua, música, cinema, literatura); ela, de olhar profundo, incluía a mesa. Enquanto eu lamento que já pouco se estude francês (língua “irmã” do português) ou se ouçam canções francesas, a gentil senhora deplorava a presença do Mc Donald´s a popularizar hambúrgueres malcheirosos – uma agressão à cuisine (pouco importa se nouvelle ou classique). É a obesidade chegando.

AO LADO DE ROBESPIERRE, MARAT E DANTON

Sou dos tempos em que Hugo, Flaubert, La Fontaine e Voltaire eram traduzidos na escola. Cantava-se, mesmo desafinado, La marseilleise (lá fui pescar este grito de Aux armes, citoyens!), ouvia-se Bécaud, Piaf, Aznavour, Mireille Mathieu,Yves Montand e Juliette Gréco. No cinema, Alain Resnais, Clouzot, Simone Signoret, Alain Delon, Louis Malle, Charles Vanel e Anouk  Aimée-Jean-Louis Trintignant (na foto). Certo menino, durante a aula de história, muitas vezes atravessou a velha Paris do fim do século XVIII em companhia de Robespierre, Danton e Marat. Derrubei bastilhas e monarquias, nenhuma piedade pelas cabeças coroadas que rolavam. Na França ensanguentada, imaginei a reação no meu País – e ainda imagino: às urnas, cidadãos!

O NOVO SEMPRE VEM, QUEIRAMOS OU NÃO

As coisas mudam, o novo sempre vem. Mas nem todo velho é ruim, nem todo novo é bom, nem tudo que parece novo é novo. Com a companheira de viagem fiz apreensões da realidade e externei preocupações com a expansão do império norte-americano – entendendo que tal império outrora foi francês, e que La mère África sofre com isso até hoje. C´est la vie, dissemos em coro. E, para comemorar, comemos talvez nossa última refeição ritual: um pavê de morue à l´huile d´olive, et ratatouille, que vem a ser (se acaso o vinho e aqueles olhos insondáveis não me embotaram a memória) um lombo de bacalhau nadando em azeite, cercado de legumes por todos os lados, menos o de cima. Não era uma sessão de saudosismo. Se saudade tive foi do menino que já teima em não mais habitar em mim.

COISA É MACONHA E MUITAS OUTRAS COISAS

Circulam na internet curiosidades sobre a palavra “coisa”, entre elas que pode ser substantivo, adjetivo, advérbio e, como derivado, o verbo “coisar” – usado em substituição a verbo esquecido. No Nordeste (e em Portugal) significa praticar o ato sexual, enquanto “coisas” seriam os órgãos genitais. Tirem as crianças da sala que lá vai José Lins do Rego, num trechinho didático de Riacho doce: “E deixava-se possuir pelo amante, que lhe beijava os pés, as coisas, os seios”. Fred Navarro (Dicionário do Nordeste) informa que, na região, “coisa” é um dos nomes da maconha, hoje coisa de passeata. O abono vem de um time que sabe das coisas: Bráulio Tavares, Zé Vicente da Paraíba e Passarinho do Norte, num martelo agalopado.

“VIAGEM” COM SUOR, VERTIGEM E FRAQUEZA

“Tem um verso que fala da maconha/Uma erva que dá no meio do mato/Se fumada provoca o tal barato/A maior emoção que a gente sonha/A viagem às vezes é medonha/Dá suor, dá vertigem, dá fraqueza/Porém quase sempre é uma beleza/Eu por mim experimento todo dia/Se tivesse um agora eu bem queria/Pois a coisa é da santa natureza”. Pausa para dizer uma coisa: martelo agalopado é uma dentre as muitas modalidades da composição poética popular, conforme o modelo acima: dez versos de dez sílabas poéticas, com rimas do tipo ABBAACCDDC, isto é, o primeiro verso rima com o quarto e o quinto, o segundo com o terceiro, o sexto com o sétimo etc. Já se vê que produzir esse pacote de rimas de improviso não é coisa para amador.

CARNAVAL: SEGURA A COISA E A COISINHA!

Caetano Veloso usou a palavra em Qualquer coisa (“esse papo seu tá qualquer coisa” e em Sampa (“Alguma coisa acontece no meu coração”). Noel disse que o samba, a malandragem, a mulata e outras bossas “são coisas nossas”. O carnaval de Olinda tem o bloco adulto Segura a coisa (no estandarte, um baseado tamanho família) e o infantil Segura a coisinha. O grito de Alceu Valença ecoa pelas ladeiras seculares: “Segura a coisa, que eu estou chegando”. A MPB, às vezes, trata a coisa com certo exagero: Gonzaguinha fala em “coisinhas miúdas” e Jorge Aragão-Almir Guineto-Luís Carlos criaram a tatibitate “coisinha tão bonitinha do pai”, que virou trilha sonora da Nasa. Do maestro Moacir Santos (e seu Coisas) falaremos depois.

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FILME QUE NÃO CHEIRA A NOVELA DAS OITO

Sem esperar muito da Globo Filmes e suas produções com cheiro de novela das oito, fui ver Tempos de paz (Daniel Filho/2009) e tive uma surpresa agradável. É abril de 1945. Após muita tortura pelo Estado Novo de Getúlio Vargas, vários presos políticos ganham a liberdade, devido à pressão externa decorrente do fim da segunda guerra mundial. Um ex-torturador (Tony Ramos), agora chefe da seção de imigração na Alfândega do Rio de Janeiro, teme que suas vítimas resolvam se vingar. Em meio a essa paranóia, surge um imigrante polonês (Dan Stulbach) que se diz agricultor, mas tem mãos finas e recita Drummond (“Não serei o poeta de um mundo caduco”). Isto é muito suspeito.

ATORES VIVEM “DUELO” DE INTERPRETAÇÃO

O ex-torturador é chamado a investigar o caso, com poder de decidir se o polonês entra no Brasil. A alternativa é a volta, pelo mesmo navio em que chegara, e que já apita no cais, anunciando a saída. O fugitivo da Polônia tem contra ele, além da má vontade, o tempo. O que se vê aqui é uma espécie de duelo de interpretação de dois grandes artistas: Tony Ramos, consagrado pelo público, e Dan Stulbach, um bicho de teatro, com raras aparições na tevê. Depois de esgotar todos as justificativas para seu ingresso no Brasil, o polonês não dissipa as suspeitas do ex-policial. Este, como se espera, é um homem frio, capaz de contar detalhes do seu “trabalho”, sem mostrar emoção.

O TEATRO JAMAIS GANHOU HOMENAGEM MAIOR

E é em cima dessa frieza que o imigrante é chamado a defender sua permanência no Brasil ou ser repatriado (no porto, o navio apita mais uma vez).  Com um estranho senso de humor (talvez próprio dos torturadores), é proposto ao imigrante um desafio: se este contar algo que faça o agente chorar, poderá entrar no País; se não, embarcará no navio que zarpa em poucos minutos. É o ápice do filme. O polonês (que não é lavrador, mas ator) declama Monólogo de Segismundo – da peça A vida é sonho (Calderón de la Barca/1635). Tempos de paz é a maior homenagem que o teatro já recebeu do cinema.  Ah, sim. O torturador chorou – e eu também. Clique e veja que só o bom texto nos redime.

(O.C.)

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UNIVERSO PARALELO

“POETA” AGRIDE A LITERATURA NORDESTINA

Ousarme Citoaian

Várias mídias festejaram que um delegado de Brasília “lançou mão dos seus dotes poéticos cordelistas” (sic) para relatar o inquérito sobre a prisão do receptador de uma moto roubada. É lamentável que os veículos, por ignorância de quem os produz, deem abrigo a coisas desse tipo. O delegado, longe de poetar, agride a poesia: na sua versalhada (mais de 60 linhas) não há um só verso razoável. Piligra e Gustavo Felicíssimo, que cultivam o gênero, não encontrarão aqui nada que se salve. “Já era quase madrugada/Neste querido Riacho Fundo/Cidade muito amada/Que arranca elogios de todo mundo” – é a primeira quadra, anunciando o atentado à métrica. Deus, oh Deus, onde estás que não respondes? Sextilhas piores virão.

TERNO AÇOITE DE CORDAS LEVES E SONORAS

“Logo surge a viatura/Desce um policial fardado/Que sem nenhuma frescura/Traz preso um sujeito folgado”. Fiquemos por aqui, para não propagar artigo tão pífio, nem aumentar o calor da indignação. Sentenças e petições em versos não são novidade. Era 1955, em Campina Grande, quando o advogado Ronaldo Cunha Lima (foto) foi chamado a “soltar” um violão tomado de um grupo de boêmios. O “cliente” é “qualificado” em decassílabos: “Seu viver como o nosso é transitório,/mas seu destino, não, se perpetua./Ele nasceu para cantar na rua/e não pra ser arquivo de cartório”. Conclusão: “Mande soltá-lo pelo amor da noite/que se sente vazia em suas horas,/pra que volte a sentir o terno açoite/de suas cordas leves e sonoras”.

VERSEJANDO, CARLOS MARIGHELA TIROU DEZ

Se os 40 versos do futuro político Cunha Lima são bons, os 14 do juiz Arthur Moura, sobretudo os últimos, atingem a alma: “Recebo a petição escrita em verso/e, despachando-a sem autuação,/verbero o ato vil, rude e perverso,/que prende, no cartório, um violão./Emudecer a prima e o bordão,/nos confins de um arquivo em sombra imerso/é desumana e vil destruição/de tudo que há de belo no universo./Que seja solto, ainda que a desoras,/e volte à rua, em vida transviada,/num esbanjar de lágrimas sonoras./Se grato for, acaso ao que lhe fiz,/noite de lua, plena madrugada,/venha tocar à porta do Juiz”. Carlos Marighela (foto) tirou dez numa prova de Física, em versos(no Colégio da Bahia,1929). O delegado, a meu juízo, zero.

AS AGÊNCIAS DEVERIAM ASSINAR SUAS PEÇAS

Quem tiver a grandeza de perdoar à publicidade alguns excessos, como tirar o acento circunflexo de Banco Econômico (marca já extinta) e colocar acento agudo em pitu, da Aguardente Pitu, terá bons momentos a apreciar. Gosto tanto do tema que sugeri às agências divulgarem seus nomes nas peças que produzem. Seria, pareceu-me, boa forma de separar os bons dos medíocres. Ziraldo disse que divulgar uma obra de arte sem nome do autor (ele falava de música, mas eu incluo aí a propaganda) equivale a passar um cheque sem fundos. Minha ideia mereceu somente o desdém de um publicitário.

ANÚNCIO TRANSFORMADO EM OBRA DE ARTE

Entre clientes e publicitários há divergências. Os primeiros, por natural pragmatismo dos negócios, acham “bom” o anúncio que leva o cliente potencial ao ponto de venda – e, conforme diz o merceeiro da minha rua, “o resto é poesia”. As agências às vezes têm outra visão: ao invés de um simples anúncio para vender sabão, aspiram a obra de arte. É como bater pênalti: há quem dê uma cacetada entre o goleiro e um dos postes (o que é praticamente indefensável, devido à velocidade da bola); outros preferem um toque “artístico”, com risco de levar sua torcida a lagrimejar frustração e raiva.

DO SUTIÃ E DA BRASTEMP NINGUÉM ESQUECE

Grandes momentos da propaganda brasileira estão no imaginário de várias gerações:  Brastemp (“não é nenhuma brastemp, mas…”), Coca-Cola (“não é essa coca-cola toda”), Bayer (“se é Bayer, é bom”), Valisère ( ”o primeiro sutiã ninguém esquece”), A Tarde (“se deu n´A Tarde é verdade”) são clientes que ficaram famosos graças a suas contas publicitárias. Melhoral é um caso à parte: mesmo de baixa qualidade (“é melhor e não faz mal”) seu slogan pegou feito chiclete. Junto à lista um que vi há pouco na tevê, sobre um restaurante que trabalha com pescado: ”Dos mares, o melhor”. Perfeito.

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UMA CANÇÃO ME PERSEGUE HÁ MEIO SÉCULO

Defendo a tese de que nossa sensibilidade tem variações palpáveis, de acordo com o tempo e o espaço. E isto me parece tão óbvio, acaciano, primário e rasteiro que provavelmente alguém já defendeu tal ponto de vista. Estou querendo dizer que uma obra de arte (ou qualquer acontecimento) nos atinge de maneira diferente, a depender da circunstância em que com ela temos contato. Não somos máquinas. Pegamos um livro num dia e não lhe toleramos nem a leitura das primeiras frases; mais tarde, descobrimos que o mal não estava no livro, mas em nós. Não sei com que estado de espírito vi o filme O mágico de Oz para que a canção-título (Somewhere over the rainbow) jamais me saísse da memória.

NÃO HÁ LUGAR MELHOR DO QUE NOSSA CASA

O tempo passou, passou a grande atriz-cantora Judy Garland (1922-1969), chegamos à era da insensatez, quando a tela foi transformada em geradora de sangue e secreções sexuais. Mas a história da menina Dorothy e sua estranha trupe (o leão covarde, o espantalho e o homem de lata) permanece. Dorothy Gale (com seu cãozinho Totó) embarca num ciclone, viaja pela Estrada de Tijolos Amarelos, é assediada por bruxas más do Leste e do Oeste, chega à Cidade das Esmeraldas, entra em contato com o Mágico de Oz – e logo vai descobrir esta verdade universal que muitas vezes nos escapa: “Não existe lugar como a nossa casa”. De passagem: a terra de Oz tem menções literárias que remontam a 1910 (o filme é de 1939).

O FILME É ETERNO PORQUE FALA DE SONHO

Penso que O mágico de Oz é eterno porque fala de um dos mais universais dos nossos sentimentos – o sonho: “Em algum lugar além do arco-íris/os pássaros azuis voam/e os sonhos se tornam realidade”. A música ganhou registro de artistas do nível de Ray Charles, Ella Fitzgerald, Eric Clapton e Sarah Vaughan. Na excepcional trilha sonora de Uma babá perfeita (a que nos referimos recentemente) lá está Over the rainbow, cantada por uma visceral Jevetta Steele, em gravação especialmente para o filme. Há de se notar o sax tenor de Rickey Woodard (foto), com entradas precisas. Sabendo-se coadjuvante, Woodard se mantém nos limites. Mesmo quando tem preciosos 35 segundos para improvisar, evita que seu sax roube a cena.

(O.C.)

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UNIVERSO PARALELO

MALTRADA, A VIDA SE DESMANCHA NO AR

Ousarme Citoaian

Ouvi, ad nauseam,  falar da coincidência de que  Amy Winehouse morreu aos 27 anos – com a citação de que na mesma idade morreram Janis Joplin (foto), Jimi Hendrix e Jim Morrison. Um repórter pouquinha coisa mais bobo chamou a isso de ”Maldição dos 27 anos”. Besteira. “Maldição” (vinda das múmias do Egito ou que outra origem tenha) rima com alienação: é algo criado por nós mesmos, não pelos deuses ou demais forças impalpáveis. Se maltratamos o corpo (com drogas, comida imprópria, descanso insuficiente), ele tende a apressar seu fim, como ocorre com todo tipo de vida (o amor também, maltratado, cedo fenece). Infringida esta regra, a morte não é razão de espanto.

A MÍDIA NÃO CONHECE DA LISTA A METADE

Mas o noticiário, mesmo repetido, não corrigiu a ignorância por ele disseminada. As drogas (na suposição de que seja este o caso) mataram muitos artistas, sobretudo músicos, norte-americanos e ligados ao jazz/blues (e disso já falamos aqui). Pior: esqueceram de Noel Rosa e Robert Johnson (foto), também mortos aos 27 anos. O primeiro (um dos maiores da MPB), de tuberculose; o outro (um dos maiores do blues), assassinado, provavelmente. Nenhum dos dois era padrão de vida saudável. Destaco Noel e Johnson por mera preferência pessoal, mas a lista dos “amaldiçoados”, que colho na internet, vai muito além da vã filosofia da mídia mal informada e má informante. A seguir, alguns desses nomes.

“MALDIÇÃO” TEM MUITO A VER COM DROGAS

Aqui, 26 músicos mortos aos 27 anos, de 1908 a 2006 (a lista completa tem uns 40!), a maioria devido a drogas: Louis Chauvin (1908), Nat Jaffe (1945), Jesse Belvin (1960), Rudy Lewis (1964), Malcolm Hale (1968), Brian Jones (1969), Arlester Cristian (1971), Linda Jones (1972), Ron McKernan (1973), Wallace Yohn (1974), Peter Ram (1975), Cecilia Sobredo Galanes (1976), Helmut Kollen (1977), Chris Bell (1978), Jacob Miller (1980), D. Bun (1985), Alexander Bashlachev (1988), Pete de Freitas (1989), Mia Zapata (1993) Kurt Cobain (1994), Richey James Edwards (1995, na foto), Patrick McCabe (2000), Rodrigo Bueno (2000), Maria Serrano (2001), Bryan Ottoson (2005), Valentin Elizalde (2006).

O DIRETOR QUE APARECIA EM SEUS FILMES

Alfred Hitchcock (foto) tinha excentricidades de gênios de anedota. Entre elas, a de aparecer em seus próprios filmes. Na juventude que me abandonou há uns 300 anos (quando cinema era coisa banal) me diverti identificando a presença do mestre em seus trabalhos. Mas isto não é tão fácil quanto parece, pois o velho Hitch divertia-se também com esse expediente, “disfarçando-se”, de maneira que sua figura rotunda nem sempre ficasse evidente. Em Um barco e nove destinos ele pensou em aparecer como um cadáver boiando próximo ao barco, mas trocou a ideia macabra por outra do tipo “Antes & Depois”: um anúncio de remédio para emagrecer, exibido durante o filme, mostra o diretor redondo (antes) e, na outra foto, mais magro.

UM PACATO CIDADÃO COM SEUS CÃEZINHOS

Outras aparições hithcockianas: Em Festim diabólico, o ilusionista, de novo, tenta nos enganar: aparece logo no início, atravessando a rua. Mais tarde, quando a gente pensa que a xarada está morta, ele ressurge, com sua caricatura num neon que incide sobre a janela do apartamento dos assassinos. No começo de Intriga Internacional, lá vem ele correndo para pegar o ônibus (a porta se fecha, antes que ele entre!); em Topázio, o diretor está numa cadeira de rodas, e se levanta para cumprimentar um homem. Depois dos 12 minutos iniciais de Correspondente estrangeiro vê-se um senhor de chapéu, lendo o jornal. É ele. Em Os pássaros, Hitchcock passa pela calçada de uma loja de animais, levando dois simpáticos cãezinhos para passear.

ATRIZ BICADA POR PÁSSAROS ENFURECIDOS

Contam que Hitchcock preferia aparecer de forma que não complicasse o entendimento da história, não roubasse a cena. Mas isso não funcionava, pelo menos com a fauna que comigo ia ao cinema naqueles tempos: buscávamos a figura famosa e não descansávamos até identificar o reconchudo diretor. Era um jogo de esconde-esconde que só terminava quando o “apanhávamos”. Outras esquisitices ele deixou transparecer em Os pássaros: tornou-se obcecado pela atriz Tippi Hedren, a ponto de contratar uma equipe de detetives somente para seguí-la e informá-lo de tudo o que ela estivesse fazendo. E na famosa cena do ataque ele usa pássaros realmente enfurecidos para bicar a pobre moça, para horror dos outros atores.

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GAITA E VIOLA: O BLUES VISITA O SERTÃO

O paraibano Bráulio Tavares (foto), dono de incomum inquietude intelectual (é poeta, prosador, compositor popular, estuda cinema, faz pesquisa em literatura fantástica, escreve coluna de jornal e roteiros de filmes), chama a atenção para a convergência do blues com a cantoria nordestina (a que chamam “cordel”). Apenas na forma: a cantoria é montada, ao menos em seu formato mais comum, em sextilhas (estrofe de seis versos), e o blues também. Na origem, ficam distantes, pois a sextilha, até prova em contrário, é “ibérico-catingueira” (creio que Ariano Suassuna aprovaria esta invenção) e, ao contrário do blues, nasceu em área de baixa densidade negra e tem raríssimos cantadores negros.

ROBERT JOHNSON E O PACTO COM O CAPETA

O poeta da terra dos grandes Jackson do Pandeiro e Genival Lacerda faz um inesperado aproach do canto nordestino com o sofrido blues de raiz plantada nos algodoais racistas do sul estadunidense. Para tanto, Bráulio contou com o gaitista carioca Flávio Guimarães (foto), velha fera do blues brasileiro, fundador da banda Blues etílicos e que já gravou com meio mundo: Ed Motta, Alceu Valença, Renato Russo, Rita Lee, Zélia Duncan, Titãs, Luiz Melodia, Paulo Moura, Zeca Baleiro e outros. Na letra de Bráulio, música e voz de Flávio, uma homenagem a Robert Johnson – que alimentou a lenda de ter aprendido a tocar o diabo. Meia-noite, numa encruzilhada, évidement. Como se o capeta tocasse blues tão bem.

O BLUES É SOMA DE TRISTEZA COM POESIA

Balada de Robert Johnson é a história romanceada do artista negro. Tem 93 versos, mas logo no primeiro bloco há seis sextilhas que “pagam” o poema: “Vinte e sete anos vividos/lá nos Estados Unidos/passou veloz como a luz//Naquela terra sombria/onde a tristeza e poesia/se dava o nome de blues”. Já na abertura (são nove blocos de dez versos, mais três sextilhas finais), Bráulio nos brinda com um achado: “Seu nome era Robert Johnson/cantador d´outro sertão”, ligando a temática da miséria nas plantations de algodão (berço do blues) à seca nordestina (onde vige a cantoria). Mas é bom deixar que o leitor faça suas próprias descobertas.

(O.C.)

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UNIVERSO PARALELO

É PRECISO PACIÊNCIA COM MAUS REDATORES

Ousarme Citoaian

Falamos aqui da condenação do artigo indefinido, do qual os plumitivos (dicionário, urgente?) abusam tanto quanto os políticos da nossa paciência. Exemplos dados, não serão repetidos, por desnecessários. Mas ficamos devendo uma referência a abusos com os artigos definidos, que, igualmente àqueles, não melhoram a linguagem.  Ao contrário, conspurcam-na. E aqui estão alguns “abonos” que, para evitar que a coluna seja acusada de injuriosa, maledicente e difamatória, foram colhidos na mídia impressa regional. Antes (quem avisa, amigo é) uma advertência: se houver pronome possessivo por perto, redobre seus cuidados com os artigos definidos, porque, juntos, eles são uma mistura indigesta. Dito o que, vamos à colheita.

FRASE NÃO QUER CORREÇÃO, QUER ESPONJA

Um articulista ensina que “todo mundo tem a sua própria opinião”; numa coluna sobre política partidária descubro que “Alcides Kruschewsky reassumiu o seu posto na Câmara”; perspicaz, um analista conclui que “é necessário ter coragem de exibir a sua opinião”; outro, na mesma linha doutoral e perdulária, disserta sobre a conveniência de  “compartilhar a sua ideia”. Não entendo a razão de não se escrever (com notável economia, e sem prejuízo da clareza) ”exibir sua opinião”, “compartilhar sua ideia” e que o vereador “assumiu seu posto na Câmara”, com varrição radical dos artigos inúteis. Sobre a primeira frase, digo como aquele ministro da ditadura: “Nada a declarar”. É passar-lhe a esponja e construir outra.

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CINCO LIVROS E A REVELAÇÃO DE UMA VIDA

O crítico Hélio Pólvora foi submetido a uma prova que não me dá inveja: ditar, para Gabriel Kuak (presidente da União Brasileira de Escritores) a lista dos cinco livros que mais pesaram em sua formação. Apenas cinco, e é isto que faz espinhosa a tarefa. Creio que os leitores (para quem esta notícia seja nova) tenham curiosidade em saber a preferência do autor de O grito da perdiz, por isso antecipo os escolhidos, na ordem em que foram citados (Hélio se ateve apenas aos brasileiros): O Guarani (José de Alencar), Dom Casmurro (Machado de Assis), Angústia (Graciliano Ramos), Fogo Morto (José Lins do Rego) e O Continente (parte de O Tempo e o Vento, Érico Veríssimo). Lista inesperada, à exceção de Machado de Assis.

SEM CLARICE LISPECTOR E GUIMARÃES ROSA

Hélio parece temer que a originalidade lhe custe caro. “Corro o risco de bordoadas dos fãs de Clarice Lispector e João Guimarães Rosa”, reconhece, mas defende sua escolha de cinco livros que não vão para a ilha deserta nem ficam à cabeceira, ao alcance da mão. “Preferem o leito da memória, onde ardem ou palpitam sob cinzas”. De minha parte, tentei antecipar alguns votos e errei feio. Mas acertei com Dom Casmurro, sabendo que Hélio Pólvora é um dos especialistas no mais célebre triângulo amoroso da literatura brasileira – até escreveu um ensaio “provando” que a traição de Capitu a Bentinho, discutida há mais de um século, ocorreu de fato. Minha “previsão” incluiu Guimarães Rosa e Graciliano Ramos. Passei longe de um, raspei o outro.

EM ANGÚSTIA, O NASCIMENTO DO ESCRITOR

Imaginava que Hélio incluiria São Bernardo ou Vidas Secas, quando ele preferiu Angústia. Imagino que não me equivoquei de todo. O ensaísta explica que Angústia lhe deu “um estalo”, com a arte de escrever a roçar-lhe o rosto, “qual leve asa de pássaro”, e afirma que o livro “talvez perca, em estrutura, para São Bernardo e Vidas Secas, mas revela uma intimidade cúmplice que acentua a comoção”. Mais adiante, na hipótese de uma relação de dez livros, ele lembra Os Sertões (Euclides da Cunha), Minha Formação (Joaquim Nabuco), Capítulos de História Colonial (Capistrano de Abreu), Jubiabá (Jorge Amado, na rede) e Dora, Doralina (Rachel de Queiroz). E encerra com extrema elegância: “Perdão Pompeia, Lygia, Adonias e Autran Dourado”.

ENTRE ERRO E LICENÇA POÉTICA, O ABISMO

Dentre os truques com que tentamos justificar erros de linguagem está um, chamado licença poética. É preciso atenção do leitor para não confundir as duas categorias. Apenas tangenciando o assunto (não sou professor, nem isto aqui é aula de português), é bom lembrar que licença poética é a permissão para se fugir da chamada norma culta da língua, não um salvo-conduto para a ignorância, conforme alguns autores parecem entender. É uma forma de libertar o escritor de amarras gramaticais que o impeçam de tornar sua mensagem clara a esse animal em extinção chamado leitor. Portanto, a licença poética tem tempo e lugar adequados à sua prática.

A PRINCESA, O REVOLUCIONÁRIO E O BODE

Muito citado para identificar algo confuso, O samba do crioulo doido, de Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto), me parece um atípico caso de licença poética – em que a manipulação não é da gramática, mas da história: a abertura (“Foi em Diamantina/onde nasceu JK”) guarda fidelidade histórica – o sorridente Juscelino (foto) nasceu naquela cidade mineira, em 1902 – mas em seguida o letrista parece “endoidar de vez” e não fala mais coisa com coisa: a princesa Leopoldina “arresolveu” se casar, mas Chica da Silva entra pelo meio e mistura a princesa com Tiradentes! E o refrão? “Lá iá, lá, iá, lá, iá/o bode que deu vou te contar”. Só podia dar bode.

CAOS TOTAL: “PROCLAMARAM A ESCRAVIDÃO”

 

Está implantado o caos irremediável: “Joaquim José/que também é (breque!)/da Silva Xavier/queria ser dono do mundo/e se elegeu Pedro II”.  Depois, mancomunados, Dom Pedro e Anchieta proclamam a escravidão, “Dona Leopoldina virou trem/ e Dom Pedro é uma estação também”. Fechando esse pacote tão insano quanto saboroso, um refrão anárquico: “Ô, ô, ô, ô, ô, ô/o trem tá atrasado ou já passou”. Além de nada bater com o que ouvimos na escola, a falta de lógica é absoluta: dizer que Tiradentes “se elegeu Pedro II” é de uma desordem inconcebível, um “desrespeito” com a história que deixou muita “otoridade” em pé de guerra naquele plúmbeo 1968.

BOM HUMOR CONTRA A BURRICE VERDE-OLIVA

Sucesso imediato, o samba se fez clássico. Mas Martinho da Vila o detesta, achando-o “preconceituoso”. Eu discordo. Sérgio Porto nunca deu sinais de discriminar quem quer que fosse: conhecedor de jazz, ele se referia ao gênero como “jazz tocado por negros”. E “crioulo” não tinha o ar pejorativo de hoje. A propósito, João Saldanha frequentemente  chamava Pelé de “o crioulo” – e  nunca ninguém o enquadrou na Lei Afonso Arinos. Samba…  é uma canção política: insurge-se, com bom humor, contra a ditadura, que exigia louvações a vultos históricos no Carnaval. O “crioulo” era a vítima. Aqui, a gravação original (Quarteto em Cy, com abertura do autor).

(O.C.)

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UNIVERSO PARALELO

TODOS NÓS CONHECEMOS HOMENS NO ESTOJO

Ousarme Citoaian

O leitor Mohammad Padilha referiu-se aqui aos contos de humor de Tchekhov (foto), o que me motivou a uma releitura, mesmo dinâmica, de O homem no estojo (que tenho) e Um negócio fracassado (da coletânea de humor), captado no PC. O primeiro fala de um professor de grego que se agasalha, a qualquer tempo, com sobretudo de lã, galochas e guarda-chuva. Quando sobe numa carruagem, levanta a capota imediatamente e, ao dormir, mesmo em noites quentes, fica sob os cobertores, os ouvidos tapados com algodão. O presente o apavora, enquanto ao passado faz louvações exageradas, sempre a combater qualquer ideia nova. É o homem no estojo, tipo que todos nós conhecemos. Por essas e outras, Tchekhov é universal.

“DON JUAN” TUDO PERDE POR FALAR DEMAIS

Um negócio fracassado nos dá um Tchekhov picaresco (lado que, penso, é pouco analisado em sua obra), num texto que nos prende logo de saída: “Estou com uma terrível vontade de chorar! – começa o narrador, passando a contar como lhe escapou das mãos, num casamento, uma pequena fortuna.“Ela é jovem, linda, vai receber de dote 30 mil rublos, tem alguma cultura, e a mim, autor, ama como uma gata”, festeja o Don Juan, por antecipação. Veste-se, perfuma-se, penteia-se, impressiona  a incauta. Mas quando já tinha como seus os  30 mil rubros (mais a linda moça que os acompanharia), mete-se a falar e tudo põe a perder. É de fazer chorar. Tem bom gosto, esse Mohammad com sobrenome de grande poeta.

O CONTO LIBERTO LEVITA FEITO ASA-DELTA

Diz o crítico Hélio Pólvora, em Itinerários do conto (Editus-Uesc/2002), que Tchekhov “libertou o conto de um pesado arcabouço clássico, enchendo-o de oxigênio puro e fazendo-o levitar como asa-delta”. Itinerários… deve ser adotado como livro de cabeceira pelos que se propõem a apreender os mecanismos do conto e/ou ter uma visão dos nomes capitais da literatura mundial: lá estão (fora Tchekhov) de Maupassant a Poe, de Machado de Assis a Mark Twain, de Sartre a Adonias Filho, Marquês de Sade, Eduardo Portela, Proust, Ricardo Ramos, Ariano Suassuna, Joyce, Álvaro Lins, Jorge Amado – mais de 250 autores. Curiosamente, Tchekhov é o campeão de citações de todo o livro, com 22 referências.

SAUDADES DAS COORDENADAS ASSINDÉTICAS

Na escola, em tempos idos, todos nos sentíamos mais ou menos molestados (olha a aliteração aí, gente!) com a insistência dos professores em nos enfiar análise sintática cabeça adentro. Ah, as orações… coordenadas e subordinadas, sindéticas e assindéticas, partidas e sem sujeito, adjetivas, adverbiais, reduzidas, substantivas e outras – parece mesmo um exagero. Programa para quem almeja a especialização, privilégio de poucos.  Mas tenho como indispensável apreender o sentido de sujeito, predicado e objeto (mais uma pitada de regência e concordância). Com isso, já se pode fazer muito jornalismo e até um pouco de literatura, sim senhor.

MONSTRENGO QUE AGRIDE OLHOS E OUVIDOS

A reflexão me surge quando leio, em importante jornal de Salvador, este título, totalmente (ou deveria dizer “sintaticamente”) equivocado: Julgamento de padres pedófilos finaliza dia 22. Gramáticos encontrariam nesta construção material suficiente para uma conferência magna. Mesmo quem não tem engenho e arte para dissecar o monstrengo, nota que sua desnecessária complexidade agride nossos olhos e ouvidos: “Julgamento de padres pedófilos”, ao mesmo tempo, finaliza e é finalizado, pois é resposta às perguntas “quem finaliza?” (sujeito) e “o que finaliza?” (objeto). Dessa mistura incomum saiu um resultado, no mínimo, insalubre.

JULGAMENTO NÃO FINALIZA, É FINALIZADO

Melhor para todos é escancarar o sujeito, tirá-lo da sombra. Com “Tribunal finaliza julgamento de padres…” estaria tudo resolvido. Colho na grande mídia (para não fatigar os leitores) apenas cinco abonos da construção que defendo neste caso: 1) Supremo finaliza julgamento sobre Raposa Serra do Sol; 2) Elenco do Flamengo finaliza atividade física; 3) Petrobras finaliza plano de investimento; 4) MEC finaliza plano de educação com meta de 7% do PIB; 5) Supremo finaliza julgamento de Battisti. “Julgamento” não finaliza, é finalizado; sofre a ação, não a pratica; não é elemento principal, mas acessório; logo, não é sujeito, é complemento.

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MPB NUM NOME SÓ: ANTÔNIO CARLOS JOBIM

Ari Vasconcelos, no Panorama da Música Popular Brasileira, diz que se tivesse espaço para apenas um nome que representasse a MPB escreveria “Pixinguinha”. Pode ser, pode ser. Músicos fazem música, letristas fazem letras, políticos fazem discurso. É a lei natural das coisas. Da mesma forma, bananeira não dá laranja e coqueiro não dá caju – segundo Braguinha, na marcha Bananeira não dá laranja/1953. Como as demais regras, esta comporta exceções, e uma das mais notáveis é Tom Jobim. O maestro, à primeira vista exclusivamente músico, era também um letrista excepcional. Enfim, resta dizer que Panorama… foi publicado em 1964 – e Tom ainda faria, pelo menos, dez clássicos.

BAIANA COM CESTO DE FRUTAS NA CABEÇA

Tom é um dos pais da Bossa Nova. E esta abriu as portas do mundo para a MPB, livrando-nos daquele estereótipo ridículo criado para Carmem Miranda (a baiana que usava na cabeça algo parecido com um cesto de frutas tropicais). E influenciou o jazz, para sempre. É lembrar que Tom Jobim foi gravado por Ella Fitzgerald, Stan Getz, Anita O´Day, Sarah Vaughan, Joe Henderson, Miles Davis, Chet Baker – para citar apenas algumas feras desse gênero. E gravou com Frank Sinatra, o que não é pouco. Lobão disse, dentre outras do seu latifúndio de polêmicas, que a Bossa Nova é uma linguagem morta. Ofensa das pequenas, para quem já condenara as vozes que “crucificam os torturadores que arrancaram umas unhazinhas”.

ROCK BRASILEIRO É APENAS CONTRAFAÇÃO

Não tenho simpatia pelo rock, filho bastardo do jazz. E falo do rock norte-americano, pois rock brasileiro não passa de contrafação – no sentido anotado no Michaelis: “Imitação fraudulenta de um produto industrial ou de uma obra de arte”. Ainda assim, gosto de uma coisa ou outra de Raul Seixas, do pioneirismo do Camisa de Vênus, de Tia Rita Lee e do Skank (penso que Chico Amaral é muito bom letrista). E porque falávamos de Tom Jobim, vamos a uma de suas melodias mais importantes, O amor em paz. Para ela, Vinícius escreveu “O amor é a coisa mais triste, quando se desfaz”. E não é mesmo? Aqui, com o pungente sax tenor de Joe Henderson, com músicos brasileiros.

(O.C.)

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UNIVERSO PARALELO

“QUALIDADE” ANDA AO LADO DE ADJETIVOS

Ousarme Citoaian
É curioso como o falar das ruas ultrapassa a chamada norma culta e, nessa transgressão, facilita a linguagem assentada na gramática. Falamos aqui, há poucos dias, em adjetivos, e hoje retomamos o tema, de outro ângulo. Veja-se, por exemplo, “qualidade”, no sentido (Dicionário Michaelis) de “propriedade pela qual algo ou alguém se individualiza, distinguindo-se dos demais”. Já se vê que a palavra necessita de adjetivo que a explique: comida de boa qualidade, artigo de primeira qualidade, trabalho de qualidade inferior, música de qualidade – e demais lembranças que ocorram ao leitor. Se bem utilizado, o termo vem de braço dado com outro que o faça claro.

NOSSO FUTEBOL PRECISA DE “QUALIDADE”

É quando surge o falar brasileiro e faz a necessária adaptação. “Ronaldinho é um jogador de muita qualidade”, diz o narrador da tevê; “O ataque do Vasco não funciona porque falta qualidade no passe”, emenda o outro. Talvez regido pela lei do menor esforço (que abordaremos a qualquer dia), o falante eliminou o adjetivo, tornou a frase mais econômica e, pasmem, todos entendemos o que ele quis dizer: o jogador é de boa qualidade e o passe é de qualidade. Noel Rosa já dizia: “Isto é brasileiro, já passou de português” – mas o jornalismo não se pode permitir tal gênero de grosseria. Um jornalista tem que escrever tão bem quanto um romancista, sentencia Dad Squarisi.

NO HEROI MACUNAÍMA, “NENHUM CARÁTER”

“Caráter” (em referência a traços psicológicos, índole, temperamento, modo de ser e de agir dos indivíduos) parece seguir o mesmo modelo desvirtuado da norma culta. A divisão primária entre bom caráter e mau caráter já foi esquecida. Quando se deseja dizer que uma pessoa é moralmente sã diz-se que ela tem caráter (em vez de bom caráter); quando, ao contrário, se trata de cabra safado, é comum afirmar-se que ele não tem caráter. Pior é que tem; mau, mas tem. Lembram de Macunaíma? Era o herói sem nenhum caráter. Pode? Pode, como licença poética que o jornalismo não possui. E como ninguém aqui é Mário de Andrade, lembremo-nos de que todos têm “caráter” (bom, ruim, frágil, forte, irascível, leviano, colérico, dúbio etc).

“SHANE” OU… “OS BRUTOS TAMBÉM AMAM”

No Brasil resta consolidado o costume de dar aos filmes estrangeiros títulos capazes de atrair o público. Dois exemplos interessantes são The quiet man, de John Ford/1952 (aparentemente, “O homem quieto”), que  virou “Depois do Vendaval”; e The thin man (talvez “O homem magro”), W.S. Van Dyke/1934, sobre o romance noir de Dashiell Hammett), que chegou às telas (antes, às livrarias) como “A ceia dos acusados”. Porém, não tenho notícia de tradução mais manipulada pelo mercado do que “Os brutos também amam”, de Georges Stevens/1953, cujo título no original é um prosaico Shane, nome do personagem principal, feito por Allan Ladd (foto).

PERSONAGENS QUE NÃO TÊM AMOR A NINGUÉM

Guido Bilharino (O filme de faroeste, edição Instituto Triangulino de Cultura/2001) diz que a referência marota é aos “brutos” do filme: um fazendeiro ganancioso e seus pistoleiros, entre eles Jack Palance. “Mas estes não demonstram amor a ninguém, nem lhes é dada essa oportunidade pelo script”, ressalta o crítico. O título, portanto, é impróprio para definir a história mostrada na tela, embora tenha cumprido às mil maravilhas seu objetivo mercadológico: não há dúvida de que a expressão “Os brutos também amam” carrega a pieguice necessária para atingir o grande público. E o filme caiu (não pelo título subliterário) também no goto da crítica.

CRÍTICO OBSESSIVO VIU O FILME 82 VEZES


Shane é um clássico que tem lugar na estante de qualquer fã do faroeste. Densidade psicológica e feitura cuidadosa se destacam nesse trabalho que produziu até um especialista obsessivo no Brasil, o crítico Paulo Perdigão (1939-2007): ele viu Os brutos… 82 vezes, foi conhecer o set de filmagens nos Estados Unidos, entrevistou o diretor (na foto, à direita) e escreveu um livro a respeito do filme (Western clássico — gênese e estrutura de Shane). Treze críticos declararam à Folha de S. Paulo (1984) que este é o maior western de todos os tempos. Para Moniz Viana, “Shane é uma das obras mais perfeitas que não só o gênero, mas o próprio cinema produziu”.

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UM SAXOFONISTA GRANDE E POUCO BADALADO

Faço saber a todos que me dão a honra de dispensar a esta coluna uma vista d´olhos (acho-me hoje inusitadamente lusitano) que sou, desde  antigamentes já olvidados, fã de jazz. Mais: se fosse forçado a escolher um instrumento para símbolo desse gênero, apontaria o saxofone, o tenor, de preferência. Não me perguntem sobre os tenoristas geniais, que são tantos, e eu não me arriscaria a dar palpite: Coleman Hawkins, Lester Young, Charlie Parker, Sonny Rolins, John Coltrane, há muitos, cada um com seu estilo: o sax tenor, segundo os críticos, é tão pessoal quanto a voz humana. Para os não iniciados, mostramos aqui o resumo da trajetória de um dos grandes, porém menos badalados, Sonny Stitt (foto).

TODA A FAMÍLIA DO SAX, MENOS O SOPRANO

Não se trata, a rigor, de um tenorista, pois Stitt (1924-1982) domina quase toda a família do saxofone: tenor, alto e barítono. Não consta que toque sax soprano, mas aposto que ele fez isso alguma vez, às escondidas, talvez no banheiro. E trabalhou com as grandes feras do jazz a partir da metade dos anos 40: tocou com Dexter Gordon (na banda do cantor Billy Eckstine), depois no sexteto do trompetista Dizzy Gillespie (foto), gravou com os pianistas Bud Powell e Oscar Peterson, em horas diferentes. Em 1960 integrou o grupo de ninguém menos do que Miles Davis, substituindo ninguém menos do que John Coltrane. Um currículo impressionante, mesmo que tenhamos esquecido de Thelonious Monk e Art Blakey.

FILHO DE “BIRD” PARKER E DEXTER GORDON

Críticos apontaram, no começo da carreira de Sonny Stitt (1945, ao trabalhar com Gordon) clara influência de Charlie “Bird” Parker, mas hoje acusam a presença de “Bird” apenas no sax alto. No tenor, Stitt logo desenvolveu linguagem própria, afastando-se do mestre. Aponta-se ainda que ele tem, sobretudo ao tocar baladas, um lirismo relaxado que o assemelha mais a Dexter Gordon (foto)
do que a Parker. Dessa combinação do clássico “Bird” Parker e do moderno bebop de Gordon, nasceu o estilo Sonny Stitt. Aqui, para quem é do ramo (e quem não é está perdendo muito), o sax alto de Stitt num dos temas mais populares do jazz: Stardust (creio que, em língua de barbares, quer dizer “poeira de estrelas”).

O.C.

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ESSES CRIATIVOS CONSULTORES DE EMPRESAS

Ousarme Citoaian
O professor gaúcho Ricardo Mallet (foto, em ação) exerce uma atividade que está em moda há alguns anos no Brasil – consultor de empresas. Graduado em gestão empresarial, ele ganha a vida honestamente em andanças pela vastidão medida entre o Chuí e o Caburaí, fazendo palestras de incentivo às iniciativas de negócios. Não sei se participou de algum dos seminários de marketing que ocorrem há séculos em Itabuna, o que, aliás, não vem ao caso. Vem ao caso sua “descoberta” de que os grandes e principais vícios dos brasileiros (não digo “da humanidade” devido às diferentes línguas do planeta) começam com c.

COCAÍNA, CRACK E MACONHA COMEÇAM COM C

Diz o palestrante em seu blog que, durante uma viagem de ônibus, começou a pensar no assunto e chegou a conclusões que agora passo a quem aprecie inutilidades. “De drogas leves a pesadas, bebidas, comidas ou diversões, percebi que todo vício curiosamente começava com c”. E aí vai a lista: cigarro (“que causa mais dependência que muita droga pesada”) começa com c”, cocaína, crack e maconha, também. Maconha? Sim, pois “maconha é apenas o apelido da cannabis sativa”. Entre as bebidas, cachaça, cerveja e café. Este, “muitos gaúchos trocaram pelo chimarrão e não adiantou: também tem inicial c”.

“SEM TER NADA INTERESSANTE PARA FAZER”

O consultor diz que se envolveu em tais lucubrações num momento em que estava “sem nada interessante para fazer”, o que parece óbvio. Talvez por semelhante motivação, vou adiante nessa curiosidade. Citemos o chocolate e as comidinhas carregadas no sal ou no açúcar. E daí? Daí que sal é cloreto de sódio (olha o c aí!) e o açúcar vem da cana do mesmo nome. Para arrematar, o professor nos impõe uma conclusão um pouquinho forçada: “Coca-Cola vicia e Pepsi, não”. Por que? Fácil: a primeira tem dois cês; a segunda, nenhum! Faltou lembrar que consultor (em que algumas pessoas se viciam) também começa com c.

QUATRO PALAVRAS E LUGAR NA HISTÓRIA

Uma frase não deve ter, em benefício de sua clareza, muitas palavras. Esta tem 12. Getúlio Vargas, num palanque em Ilhéus, usou 15: “Façam-me a ponte para o Catete e eu vos farei a ponte para o Pontal”; com os dez termos de “O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever” o almirante Barroso entrou para a história; Gagarin (quase um século depois) foi fazer companhia ao velho comandante, com apenas quatro: “A terra é azul”… Quantas palavras devemos usar numa frase? Não há regra. Mas Dad Squarisi (foto), musa desta coluna, dá uma dica valiosa: “Use sentenças de, no máximo, uma linha e meia”. Logo, modestamente concluo: ao contar vinte termos, cuidado (nenhuma das citações feitas acima chegou a tanto).

FRASE LONGA E UNIÃO DE FRASES CURTAS

Tal qual Freud, a musa explica: “a pessoa só consegue dominar determinado número de palavras, antes que os olhos peçam uma pausa. A frase muito longa dá trabalho, confunde”. Finalizando, diz a mestra que “uma frase longa nada mais é do que duas curtas”. E aí entro eu, de novo, com minha colher de pau: tenho visto sentenças tão longas que precisariam ser divididas não em duas, mas em três ou quatro. “Não quis Deus que os meus cinquenta anos de consagração ao direito viessem receber, no templo do seu ensino, em São Paulo, o selo de uma grande benção, associando-se hoje com a vossa admissão ao nosso sacerdócio, na solenidade imponente dos votos que o ides esposar” – é frase de Rui Barbosa (foto), com 46 palavras.

NOSSA MÍDIA GANHA ATÉ DE RUI BARBOSA

A sentença ruibarbosiana (Oração aos moços/1920) não é recorde de gigantismo – e, afinal, Rui é Rui. Vejam esta, de lavratura regional: “Assim, foi que, em 5 de junho de 1972, na primeira conferencia das Nações Unidas sobre o meio ambiente, nasceu a nível internacional as primeiras ações chamando atenção do mundo para temas como poluição e degradação ambiental, trazendo no item 6 da declaração, a necessidade de ´defender e melhorar o ambiente humano para as atuais e futuras gerações´, mas que sozinhas não seriam suficientes e por isso mesmo, foi objetivado ser alcançado com a paz, o desenvolvimento econômico e social”. Ufa! Um tijolaço de 80 palavras (transcrito da exata forma como saiu no blog).

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SOBRE RACISMO E DISCRIMINAÇÃO SOCIAL

O filme se passa em 1959. Um viúvo, compositor de jingles, branco, tem problemas com a filha de sete anos, por isso precisa urgentemente de uma babá. Entrevista várias candidatas, até encontrar uma recém-formada, que não consegue arrumar trabalho, por ser negra. A esta altura, a menina (Molly/Lina Majorino), de birra, parara até de falar. E ele (Manny/Ray Liotta) não parara de fumar, o que, segundo Molly “descobriu”, vai levá-lo à morte. Pior: a babá (Corina/Whoopi Goldberg) também é fumante. Falamos de Corina, uma babá perfeita/1994. Por trás da fórmula água com açúcar, Uma babá… trata de racismo e discriminação social, embora de forma sutil, por isso discordo de que se trata apenas uma história romântica xaroposa.

UM PAINEL DO JAZZ POUCAS VEZES VISTO

Corina é babá por necessidade, pois tem sólida formação em literatura e música, o que a leva a aportar comentários pertinentes sobre jazz e e publicidade. Aliás, Uma babá…  oferece um dos melhores painéis do jazz já visto no cinema (com Billie Holiday, Duke Ellington, Dinah Washington, Sarah Vaughan, Armstrong & Oscar Peterson, além de valiosas citações. Por exemplo, num bar noturno, Jevetta Steele canta os primeiros versos de Over the rainbow (aquela de O mágico de Oz), com o sax tenor de Rickey Woodard ao fundo (que eu não conhecia), me deixando com ganas de sair correndo e comprar o  CD, ou Dinah Washington, com What a diffrerence a day makes, standard que sempre ouço com satisfação. Mas o melhor só vem no final.

NO FIM, UM CLÁSSICO DA CANÇÃO GOSPEL

Para encerrar, a menina Molly tenta fazer a avó (Eva/Erika Yohn), dilacerada pela morte do marido, solfejar This little light of mine (um clássico da canção gospel), conseguindo arrancar-lhe um canto rouco e triste, em seguida coberto pelas vozes poderosas do grupo vocal The Steeles (Billy, Fred, JD, Jearlyn e Jevetta). Infelizmente, já não tenho o DVD (e também não o encontro em nenhuma loja da internet), o que dificultou a edição deste vídeo. Mas, modéstia à parte, o material aqui mostrado (com um pouco da última cena de Uma babá… e 48 segundos de Jevetta  Steele a cappella) é suficiente para ouriçar todos os pelos do corpo e ainda umedecer os olhos – desde que não haja nada errado com sua sensibilidade. Se duvida, clique.

O.C.

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UNIVERSO PARALELO

JÁ MUITO ALÉM DO CABO DA BOA ESPERANÇA

Ousarme Citoaian
Foi com Emílio de Menezes que aprendi a beber uísque com água de coco. “Como?” – gritariam horrorizados puristas, para os quais uísque não se mistura – e, no seu espanto, me levantariam a bola para um mau trocadilho: eu não como, bebo. Mais: se o poeta morreu em 1918, este humilde e hebdomático colunista, para gabar-se de com ele ter bebericado, precisaria carregar no costado, pelo menos, 100 anos – e ter começado a beber ainda usando fraldas. Convenhamos que já estou meio para a idade provecta, mais pra lá do que pra cá, dobrado o Cabo da Boa Esperança e ofensas semelhantes, mas não tanto que ultrapasse uma centena de verões ardentes.  Meu convívio com o poeta não se deu em boteco, mas em livro.

EMÍLIO, QUEM DIRIA, NÃO É MAIS AQUELE


Trata-se de Emílio de Menezes, o último boêmio, de Raimundo de Menezes, bebido (ops!) na adolescência, e que agora recuperei num sebo. Réu, confesso: precoce, lia, bebia uísque e fumava (de fumar, logo me cansei, pois odeio vícios pequenos). Pois saibam todos que o velho e bom Emílio (a voz poética mais destrutiva que já se ouviu neste País) está também num livro psicografado por Chico Xavier (Parnaso de além túmulo) e, crenças à parte, não gostei de vê-lo “recuperado”, como ali se mostra em dois sonetos. Num deles, confessa: “Sou o Emílio, distante da garrafa,/ mas que não se entristece nem se abafa,/ longe das anedotas indecentes”. Não é Emílio, é anti-Emílio. 

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OPINIÃO DE LINGUISTA “PESA” EM DECISÃO

A variedade de entendimentos é um dos muitos encantos do Direito e, por extensão, da democracia e da vida. Um juiz de Niterói (poderia ser qualquer outro cidadão) recorreu à Justiça, exigindo ser tratado por “senhor”, pois se sentira ofendido ao ser chamado de “vocêpelo síndico do edifício onde mora. Pleiteava que também suas visitas recebessem do mesmo síndico o tratamento de “senhor”, “senhora”, “doutor”, “doutora” e por aí vai – e ainda pedia que, em caso contrário, fosse o “infrator” levado a pagar multa não inferior a 100 salários mínimos, por danos morais. No tribunal, o julgador negou-lhe a pretensão, com base em parecer da linguista Eliana Pitombo Teixeira.

DOUTOR É TÍTULO, NÃO FORMA TRATAMENTO

Segundo a professora, “você” é tratamento formal – por ser variante (contração) da alocução respeitosa “Vossa Mercê”. Para o magistrado sentenciante, “´Doutor´ não é forma de tratamento, e sim título acadêmico utilizado apenas quando se apresenta tese a uma banca e esta a julga merecedora de um doutoramento”. Estou perfeitamente de acordo quanto à segunda justificativa. Da primeira, data vênia, discordo frontalmente: “você”, embora vindo de uma expressão formal, é, na linguagem de todos os quadrantes do Brasil (exceto, talvez, alguns locais da região Sul), tratamento íntimo. Nenhuma pessoa medianamente educada usa “você” com pessoa idosa, autoridade ou desconhecido.

COMO REGRA, “VOCÊ” É TRATAMENTO ÍNTIMO

Não opino se há direito ou apenas pose na “exigência” do cidadão em não querer ser tratado por “você”. Apenas digo que “você”, em não sendo, por si só, forma ofensiva de abordagem, não é formal, como diz a ilustre professora, opinando a distância do falar brasileiro. Mas ela tem seguidores, obviamente: o ótimo apresentador Jô Soares costuma tratar todos seus convidados por “você” – e há quem ache isto normal (ele, por exemplo, acha). Assustou-me ver, por exemplo, Fernando Henrique Cardoso e D. Evaristo Arns (para citar apenas duas figuras que devem receber trato formal) serem chamados de “você”. No meu entender, cometeu-se, nestes dois casos, uma descortesia. Ou mais.

“JUSTIÇA, PARA SER BOA, COMEÇA EM CASA”

Não resisto a esticar o assunto e fazer um comentário em torno da palavra “doutor”, de sentido hoje já desvirtuado (para não dizer desmoralizado) entre nós. Aqui, a tese aprovada por banca especializada não está entre as formas mais comuns de chegar ao título: mais fácil é obter uma licenciatura qualquer ou, na falta desta, vestir-se de branco. Bem fez famoso bacharel em Direito, de Itabuna, que, tão logo recebeu o diploma, reuniu a família e fez seu primeiro grande discurso: “A justiça, para ser boa, começa em casa; portanto, a partir de hoje, quero ser chamado de doutor”. Assim foi feito e assim é até hoje, “doutor pra lá, doutor pra cá”, com (quase) todos felizes.

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NOEL, UMA IMENSA PRODUÇÃO EM OITO ANOS

Vinícius de Morais, que praticamente abandonou a carreira de poeta “sério” para se dedicar a um gênero então considerado menor, a MPB, foi letrista dos mais profícuos. Penso que, em termos de produtividade, ele só tem rival em Noel Rosa, que fez mais de 200 composições – sem contar muitas que vendeu e foram assinadas por outros compositores. Vinícius ultrapassou a marca de 300. Não faltará fã de Noel a fazer as contas e concluir que o Poeta da Vila, que viveu 27 anos (1910-1937) realizou toda sua carreira musical em curtíssimo período (de 1929 a 1937). Já Vinícius (1913-1980) produziu durante 22 anos, a partir de 1958.

VINÍCIUS FOI BARROCO, NOEL FOI CAIPIRA

Visto assim, Noel foi mais produtivo. Porém a ideia não é comparar os dois autores e levantar polêmica, mas mostrar alguns pontos curiosos. Além desse da alta produção, os dois começaram com gêneros que logo abandonaram: Noel estreou com a embolada Minha viola, cuja letra hoje parece fora do padrão noelino: “Minha viola tá chorando com razão,/com saudade da marvada que roubou meu coração”. Vinícius começou em tom barroco, com Serenata do adeus. Refere-se à mulher como “estrela a refulgir” e cria estes versos: “Crava as garras em peito em dor/ e esvai em sangue todo o amor,/ toda desilusão”. Cândido das Neves assinaria.

EM VINÍCIUS, ATÉ CÂNCER ERA INSPIRAÇÃO

Noel subiu o nível dos seus versos, assumindo-se como poeta urbano “culto”, Vinícius abandonou a escola antiga, integrou-se à Bossa Nova, popularizou-se, sem fazer concessões à vulgaridade. Como costuma acontecer, o espaço se finda, e tanto ainda resta a dizer. Há tempo para citar Chico Buarque (foto), para quem Vinícius fazia letra de música com “qualquer coisa”. Certa noite, numa clínica para se tratar do excesso de uísque, o Poetinha ouviu que no quarto vizinho um homem com câncer estava em estado terminal – e alguém, logicamente, chorava seu desenlace iminente: Vinícius fez e mandou pra Baden pôr a melodia em Pra que chorar (aqui, com Zeca Pagodinho).

 

 O.C.

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UNIVERSO PARALELO

GRAMÁTICA NÃO É INSTRUMENTO DE JUSTIÇA

Ousarme Citoaian
Declarou-se no Brasil uma guerra injusta contra o adjetivo (dirão que as guerras são assim mesmo e que o espaço da justiça não é a gramática, mas o tribunal): uns o execram sem qualquer vezo de compaixão, reduzindo a zero sua presença no texto; outros o aspergem na página, atrelando-o a substantivos suspeitos. Talvez seja possível encontrar-lhe o meio termo, que é o uso quando necessário. Graciliano, o mais “descarnado” dos escritores brasileiros, pasmem os matadores de adjetivos, usava esse penduricalho em lugar certo e momento aprazado. Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes, diz ele, abrindo magistralmente Vidas secas (citado em coluna anterior). Na mesma frase, dois adjetivos necessários e certeiros.

ESTILO QUE DEIXA AS CARÊNCIAS À MOSTRA

Convém não confundir texto econômico com texto pobre. O econômico é rico sem ser perdulário, tem tudo de que precisa, sem nada lhe sobrar; o pobre deixa à vista carências básicas, até de grafia. Mesmo com risco de vida, digo que a internet é o túmulo da linguagem – cada vez mais descuidada, maltratada e “econômica”, transforma “que” em “q”, ”também” em “tb”, e por aí vai a carruagem. “Acabou-se o nosso carnaval” – o verso de Vinícius, numa canção com Carlos Lyra, serve como ícone do fim da alegria na construção do texto, o enterro do metafórico, o império do estereótipo da cultura pequeno-burguesa apressada e “pragmática”. Quase não mais se escreve com purpurina, lantejoulas, serpentinas, confetes, paetês, sangue, coração e alma.

A BOA LINGUAGEM EXIGE COR, RITMO E SOM

Ensinam os mestres da estilística esquecida que “escrever bem” inclui preocupações que ultrapassam o saber primário da gramática: pensar em ritmo, sonoridade, criatividade, não temer a palavra desusada, correr do pedantismo e do lugar comum. Le mot juste (o termo que não só define o pensamento como o emoldura com cores e sons) há de ser buscado, e essa busca às vezes é penosa. A tarefa de escrever, para quem o faz com responsabilidade, é estafante. O texto é areia movediça, terreno cheio de armadilhas, há o autor de locomover-se com cuidado, velho marinheiro conduzindo o barco em noite de temporal. Mas é trabalho compensador. Imagino até que o prazer, mais do que a obrigação de escrever, seja o dínamo do profissional dessa atividade.

EDITORIAL É TEXTO DE PALETO E GRAVATA

Só para quem é de outro ramo, que não jornalismo: o editorial é o espaço mais nobre do veículo. É texto analítico, opinativo, afirmativo, que representa o ponto de vista da empresa, em geral sobre notícia do momento. Faz-se editorial, por exemplo, a respeito do Porto Sul ou da ponte Ilhéus-Pontal, nunca sobre as capitanias hereditárias ou as pirâmides do Egito. Diz-se nas redações que o editorial (também chamado “artigo de fundo” e – quando muito pequeno – “suelto”) é o texto de paletó e gravata, grave, circunspecto e, obviamente, lavrado em linguagem formal. Não é à toa que os veículos escolhem para fazê-lo, via de regra, um jornalista de cabelos brancos.

NÃO SOU LINGUISTA, SOU APENAS LEITOR

Daí o espanto ao ler um jornal de Ilhéus e tropeçar, no seu espaço mais nobre, com uma linguagem absolutamente fora do lugar. O título, Informações vaciladas, é algo inesperado, exigindo esforço para saber o que o autor pretende dizer. Vacilar, todos sabem, é hesitar, cambalear, tremer, estar incerto, irresoluto etc. Logo, uma informação “vacilada” é uma invenção carente de sentido. Concedamos que “vacilante” seria bem aceita no texto – mas que “vacilada” é uma ousadia gramatical que só a corrente linguista excessivamente bem humorada acataria. Não sou linguista, mas leitor de jornais, e meu bom humor, graças ao bom Deus, está esgotado para esse tipo de coisa.

LEITURA PARA SABER COMO NÃO ESCREVER

Mesmo assim, por mera curiosidade, leio, em busca da solução do mistério. A primeira frase (“Palavra dita é palavra que não volta atrás”) introduz um pleonasmo “defensável” (ah, os linguistas!) que me deixa em expectativa nada positiva. A segunda “explica” a primeira: “Pelo menos é isso o que aprendemos desde pequeno”.  Como é mesmo? Aprendemos desde pequeno”? Ih!.. Em seguida, doutoral, o artigo cita que “um homem deve ter palavra” e que “isso é o que costuma nos afirmar nossos pais…”. Chega. Curioso, sim, masoquista, não, suspendi a leitura. Mas a recomendo a todos quantos quiserem saber como não escrever. Por certo, o editorial não é mais o mesmo.

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“PAU DE ARARA”: DA TRAGÉDIA À COMÉDIA

A vida dura de um retirante nordestino visto em Copacabana inspirou Vinícius de Morais a fazer (com Carlos Lyra) Pau de arara, na linha da música engagée, em moda naqueles anos sessenta. Mas a canção, na voz de Ary Toledo, ganhou vida própria, e o que tinha ares trágicos transformou-se em comédia: era de fazer chorar, arrancou risos da plateia. Não sei se a mensagem política – com crítica às desigualdades sociais, em particular no caso do Nordeste – perdeu força. O fato é que Pau de arara foi o momento que consolidou a carreira de Ary Toledo, um artista que ainda não havia encontrado o caminho a seguir.

RISADAS “ESTRIPITOSAS” DE ELIS REGINA

Na peça Pobre menina rica (texto de Vinícius e música de Carlinhos Lyra), Ary pediu aos dois que o deixassem cantar Pau de arara “ao seu estilo”, no que foi atendido, e não deu outra: o público caiu na risada. Lançada num compacto simples, a saga do “paraíba” não alcançou grande êxito, até que Ary fez uma gravação ao vivo no Teatro Record (programa “O Fino da bossa”), arrancando gargalhadas estrepitosas do público e da apresentadora, chamada Elis Regina. Era 1965. Vinícius e Elis aconselharam o jovem Ary Toledo (nascido em Martinópolis-SP/1937) a seguir a carreira de humorista, no que foram atendidos.

NÃO HÁ LUGAR MELHOR DO QUE NOSSA CASA

A canção desfia as desventuras do pobre homem, a comer em praça pública, mediante pagamento vil, lâminas de barbear e cacos de vidro. A canção do retirante, portanto, não era engraçada, mas trágica, denunciadora do modo de vida que se impõe ao povo, o acúmulo de riquezas tantas para uns poucos e da miséria para milhões. Após desfilar seu rosário de sofrimentos e humilhações, o personagem conclui ser mais sensato retornar à terrinha: “Vou-me embora pro meu Ceará/ porque lá tenho um nome/ e aqui não sou nada, sou só Zé Com Fome/ sou só pau de arara/ Não sei nem cantá”. Não existe lugar como nossa casa.


O.C.

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UNIVERSO PARALELO

VINÍCIUS E O MONOSSÍLABO IMPUBLICÁVEL

Ousarme Citoaian
Imaginei não levantar o assunto, por ser tão, mas não resisti – talvez por isso mesmo.  Falo de Tonga da mironga do cabuletê, de Vinícius-Toquinho, que tem uma “tradução” impublicável circulando na internet (e até integra um livro!): diz tratar-se de expressão em nagô, falando dos pelos que florescem no centro da região que Deus escolheu para ser a mais carnuda do corpo da mãe. Não entendeu? É um monossílabo que começa com c e termina com u (embora já haja até música gravada, usando tal palavra, recuso-me a grafá-la em blog de família. Pois dizem que Gessy Gesse (foto), paixão baiana do poetinha, lhe ensinara essa coisa em nagô, com que ele xingou os militares, sem que estes percebessem.

UMA “TRADUÇÃO” SEM NADA DE CIENTÍFICO

Vinícius dizia que o título não tinha sentido, mas apoiou a versão aqui referida, e até parece ter se divertido com isso: certa vez, afirmou sentir-se seguro, pois  “na Escola Superior de Guerra não tem um milico que saiba falar nagô”. Pior é que Toquinho, o parceiro, também defende essa “tradução”, que nada tem de científico. O professor Cláudio Moreno, do site Sua língua (também na tevê), diz que “não significa nada” a tal expressão: “Era a época da ditadura, no entanto, e muitos preferiram acreditar que o poeta tinha escondido atrás dessas palavras africanas uma ofensa ao governo militar” – explica o mestre. Quis consultar o Novo dicionário banto do Brasil, de Nei Lopes, mas foi impossível.

EXPRESSÃO MISTURA QUICONGO E QUIMBUNDO

A obra está esgotada em todas as livrarias (e também na editora). Então, vali-me, outra vez, do professor Cláudio Moreno, que – mais precavido do que eu – reservou seu exemplar e hoje é um feliz possuidor do Novo dicionário…, obra recomendada por Antônio Houaiss. No maior repositório de africanismos da língua portuguesa, o professor gaúcho encontrou:  (1) tonga (do Quicongo) – “força, poder”; (2) mironga (do Quimbundo) –  “mistério, segredo” (Houaiss acrescenta “feitiço”) e (3) cabuletê (de origem incerta) –  “indivíduo desprezível, vagabundo” . Portanto, palavras de línguas diferentes, isoladas – que não xingam os milicos, são apenas um barulhinho simpático ao ouvido.

EM SARAMAGO, A RELAÇÃO PEIXE E LEITOR

“Abordamos aqui, há tempos (com referência a um personagem de Flávio Moreira da Costa, no romance “noir brasileiro” Modelo para morrer), a necessidade de “fisgar” o leitor. Alguns de vocês se lembram: é pegar o sujeito pelo colarinho, logo nas primeiras frases, e, assim manietado, levá-lo até o ponto final. Pois encontro, em análise primorosa da jornalista Débora Alcântara (Caderno 2 – A Tarde), a retomada desse tema, em torno do livro póstumo de José Saramago O silêncio da água, um exercício de literatura infantil. Registre-se que Saramago, único prêmio Nobel conquistado em língua portuguesa, morreu há um ano (18 de junho de 2010). E que a visão apresentada na matéria é, obviamente, muito melhor do que a minha.

ÀS MARGENS DO TEJO, UM MENINO PESCANDO

“A palavra não morre quando se impregna na memória, feito um anzol na guelra de um peixe”, sentencia a articulista. E emenda: “O leitor, como o peixe, ao abocanhar a isca, mesmo não sendo resgatado do silêncio profundo da água onde habita, é remetido ao choque de singularidades, de modos de ver e de sentir. É transformado para sempre, levando o gosto do anzol desferido”. Quisera eu, ao crescer, escrever assim… A autora explica a analogia entre anzol e linguagem, peixe e leitor, a partir de O silêncio da água. A história se passa nas margens de um rio (o Tejo, é óbvio!), onde um menino tenta pescar um grande peixe. Quase fisgado, o bichão escapa, como nas estórias de pescadores, e é neste momento que a lucidez toma o personagem.

“ESCREVER É JOGAR UMA GARRAFA NO MAR”

É curioso que tal clareza lhe venha de um encontro em que o bicho saiu vencedor. Mas ao menino restou uma certeza: “De uma maneira ou de outra, porém, com o meu anzol enganchado nas guelras, tinha [o peixe] a minha marca, era meu”. Aqui, a analogia, bem explicada pela poeta Myriam Fraga: “É essa marca transformadora que pode sanar em parte a frustração de não se conseguir fisgar o leitor por inteiro”. É ainda a autora de O risco na pele quem esclarece a relação autor-leitor: “O autor mostra o sentimento de quem escreve, que é como jogar uma garrafa no mar, sem saber quem vai achá-la e como vai concebê-la”. Penso que é isto que procuro transmitir a quem, menos experiente do que eu, escreve: cuidado, atenção e respeito a leitor. É o meu anzol.

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ENTRE O BOLERO DERRAMADO E A ANTOLOGIA

Os Tincoãs – nome de uma ave do cerrado – surgiu em 1960 (formado por Erivaldo, Heraldo e Dadinho, todos de Cachoeira), cantando boleros  ao estilo Trio Irakitan. O grupo era afinado, arrumadinho, mas não deu certo, e o disco Meu último bolero encalhou.  Após três anos de luta, com Erivaldo substituído por Mateus, os rapazes deixaram os boleros derramados e foram beber em fontes puras – sambas de roda do Recôncavo, temas de candomblé e cantos católicos. Os terreiros constituem a principal inspiração do trio. Em 1973 gravam um disco antológico (Os Tincoãs), produzido por Adelzon Alves (foto), com marcante presença da legítima música afro-baiana.

INCORPORAÇÃO DE NOSSA HERANÇA AFRICANA

Os arranjos de Os Tincoãs valorizam o canto coral do trio afinado, com destaque para o acompanhamento só  com violão, atabaque, agogô e cabaça. O disco foi recordista de vendas, não pelo ineditismo do repertório, pois a temática negra já tinha sido muitas vezes gravada, mas pela beleza das canções e a excelência dos vocalistas, incorporando, como nunca antes, o sentimento de nossa herança africana. Para o critico Luiz Américo Lisboa Jr., especialista em música baiana (com pelo menos dois livros publicados sobre o assunto) o LP Os Tincoãs “é a afirmação da identidade de uma cultura que nos engrandece e nos faz ver o quanto devemos aprender com ela”.

DISCO CHEGA AO MERCADO 20 ANOS DEPOIS

Em 1975, com Badu em lugar de Heraldo (que morrera naquele ano) sai mais um LP, em que se destaca a música “Cordeiro de Nanã”. A partir de 1983, Os Tincoãs, em Luanda, participa de  projetos da Secretaria da Cultura de Angola,  e grava o disco Afro Canto Coral Barroco, só lançado 20 anos depois, quando o grupo não mais existia. Resta dizer que este registro foi “pautado” pela leitora leidikeiti e baseou-se na única fonte escrita de que tenho conhecimento: um artigo do pesquisador Luiz Américo Lisboa Jr. O grupo se desfez em 2000 e, segundo Luiz Américo (foto), “deixou um legado dos mais primorosos para a música popular brasileira”. Clique e ouça Deixa a gira girar.

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O.C.

UNIVERSO PARALELO

CASAR E CASAR-SE SÃO COISAS DIFERENTES

Ousarme Citoaian
Creio ter sido no primeiro Universo Paralelo (e ele já vai a dezoito meses de distância!) que registrei o que parece ser uma sistemática campanha contra os pronomes pessoais. Dizíamos que o “se”, abandonado pelos redatores (sobretudo os de publicidade), corria sério risco de vida: “Aluga-se” virou “aluga” e “vende-se” agora é apenas “vende”. Simples, rápido e rasteiro – principalmente rasteiro (na foto, a “contribuição” do Banco do Brasil). Dia desses, ouvi um sujeito contando ao outro (a quem parecia não ver há muito tempo): “Já casei e separei”. Com meus botões, conclui (o que tenho com a vida dos outros?) que o supracitado cidadão casou-se e separou-se. Assim, com o “se” ligadinho ao verbo, evitando dúvidas.

APENAS PADRES, JUÍZES E PASTORES CASAM

“Casei” (ou “casei-os”) – diria, em boa linguagem o juiz, padre, pastor ou autoridade semelhante, após celebrar o casamento (ato legal para o juiz e sacramento para os crentes). Já o noivo (ou a noiva) diria “Casei-me!” Se quisessem proclamar seu tresloucado gesto em estilo coral, era só dizer, no alto e bom som que a felicidade recomenda: “Casamo-nos!” Em suma, o verbo casar (nesta acepção) significa “unir pelo casamento” e “unir-se pelo casamento”. Entendi o rapaz da história: concluí, por ele não levar jeito de padre, juiz ou pastor, que falava da própria experiência de casar-se e separar-se (não de casar e separar alguma dupla, como pode parecer aos desavisados).

CASA-SE COM; ÀS VEZES, CASA-SE CONTRA

Aprende-se na escola que uma frase tem, como regra, sujeito e predicado, que predicado é verbo e este “exige”, frequentemente, complemento. Isto é primário. Se digo “casou”, logo me assalta a dúvida: “casou…quem?”). Se me refiro a alguém que se uniu em matrimônio, a resposta é se: “casou-se”; mas se falamos de autoridade que une as pessoas em matrimônio, é “casou… Fulano e Fulana” (e, conforme anda a carruagem social, “Fulano e Fulano”, “Fulana e Fulana e por aí vai). Gosto de dizer que “Fulana se casou contra Fulano”, mas é só gracejo. Em português, alguém casa com alguém, ou casam-se alguém e alguém. Construir frases é fácil; difícil é a conviver em casamento.

QUANDO O CACÓFATO ERA MORTO A PAULADAS

“Em cismar sozinho à noite” – também à tarde ou pela manhã – não logro saber o que ocorreu com o ensino da língua do Brasil no último meio século. Em outras quadras da vida, o cacófato, por exemplo, sofria dos professores de português caçada implacável e, quando encontrado, era morto a cacetadas, como um cão raivoso. O autor do delito, que Deus se apiede de sua alma, era levado ao pelourinho da desonra. “Ora – direis – o grande Camões também fez lá seu cacofatozinho, em Alma minha gentil que te partiste…” – e eu vos direi no entanto que Camões é Camões, ora pois, e estamos conversados. A propósito, o verso que abre este tópico (nem era preciso dizê-lo) é de Gonçalves Dias (Canção do exílio)

EM TEMPOS DE PERMISSIVIDADE GRAMATICAL

Hoje, em tempos de estranha permissividade gramatical, redatores se acham no direito de cometer medonhos cacófatos e, ainda assim, se mantêm impunes, como se inocentes fossem. Vejam o time do América (que tem entre seus poucos torcedores regionais esse Orlando Cardoso, radialista de elevados méritos e homem de caráter acima de qualquer suspeita): mesmo em seus bons tempos, o Ameriquinha (sete vezes campeão carioca – a primeira em 1913, a última em 1960) não ganhava nunca (evitemos nunca ganhava!), apenas vencia. Se numa redação alguém se atrevesse a escrever “O América ganhou”, “O América ganha”, ou barbaridade semelhante teria as orelhas puxadas pelo editor (então chamado redator-chefe).

ESCREVER SE FAZ TAMBÉM COM OS OUVIDOS

Pois hoje por aí abundam os cacófatos. A repórter de tevê fala em “comunicação por rádio”, o Dnit avisa que a estrada é fiscalizada por radar, e coisas do tipo. Ricardo Ribeiro, jovem jornalista de texto irretocável, envia à coluna a pérola publicada por um grande jornal de Salvador (foto): “Filme com temática gay é censurado em projeto”. Façamos com esta frase o teste da leitura em voz alta. Quem não perceber a bobagem aí implícita, independentemente de ter êxito em outra profissão, não se mostrará habilitado como redator: se o som é uma das qualidades do estilo, eu me animo a dizer, sem preocupação de ser mal interpretado, que escrevemos, também, com os ouvidos.

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CONNIFF: O MUNDO DANDO VOLTAS NA PISTA

O maestro norte-americano Ray Conniff (1916-2002) era o Rei Midas da canção pop na segunda metade do século passado. E isto não é só recorrer ao lugar comum, mas estar muito próximo da verdade: sem trocadilho, o que ele tocava virava ouro. No fim dos anos 50, cansado de fazer arranjos para os outros, Conniff cria seu grupo, grava S´ wonderful e fica nas paradas por nove meses. Em seguida, lota as principais casas noturnas de Los Angeles e São Francisco durante onze dias, consolidando seu estilo, depois mundialmente conhecido. Entre as marcas da orquestra, um coro que, em vez de cantar, como fazem os coros normais, emitia sílabas, do tipo bá-bá, bu-bu, du-du.

APLAUSOS DO PÚBLICO E VAIAS DA CRÍTICA

Espécie de Emílio Santiago do instrumental, Connif adorava gravar standards: suas interpretações de Bésame mucho, Smoke gets in your eyes, Strangers in the night e New York, New York venderam em todo o mundo mais do que pipoca com manteiga. Durante uma carreira que se estendeu por seis décadas, Conniff conquistou com seus sucessos dez discos de ouro e dois de platina. Mas não conquistou a crítica, que o acusava de fazer arranjos suaves e adocicados. Fosse jazz, bossa, swing, rock, bolero ou samba de breque, tudo na pauta dele virava… Ray Conniff. E o público, sem ligar para os críticos, apenas dançava, nas mais diversas partes do mundo. No Brasil também.

JUNTA-SE A FOME COM A VONTADE DE COMER

O maestro esteve no Brasil, entre 1960 e 2000, mais de dez vezes. Em 1999, lançou um surpreendente Ray Conniff’s country, dedicado à música sertaneja. Lá estão, com os arranjos de sempre, faixas que arrepiaram os críticos: É o amor, Pense em mim, Festa de rodeio e Entre tapas e beijos – ao lado de Luar do sertão e No rancho fundo. Em 2000, o disco (com nome piegas e uma rosa na capa) Do Ray para o rei (com músicas de Roberto-Erasmo Carlos) junta a fome à vontade de comer: o maestro dos elevadores e o cantor dos motéis. Mas o disco, Conniff já em fase declinante, não vendeu o esperado. Ao tentar sair da mesmice, ele foi fiel à sua filosofia: escolheu o garantido Aquarela do Brasil, por ele apelidada Brazil.

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O.C.

UNIVERSO PARALELO

A MÍDIA PARECE NÃO QUERER QUE EU VOLTE

Ousarme Citoaian
Estive de férias (razão para não ter respondido aos comentários às últimas colunas) e, tão logo retomo o trabalho e a leitura dos jornais, recebo a primeira cutilada, de importante diário itabunense. Estranhos e dispensáveis votos de boas-vindas. Em duas linhas iguais, como recomenda o clássico modelo nas redações, o jornal manda ver: “Augusto Castro cobra e Wagner garante obras”. Não querem que eu volte! – é minha conclusão, diante da insistência da mídia em manter essa acepção canhestra do verbo “garantir”: o governador, neste caso específico, não “garante”, apenas diz, afirma e, mais adequado à lógica política, promete. Mas (ainda bem!) são muitos os empregos “certos” desse verbo.

PROMESSA É COISA DIFERENTE DE GARANTIA

Vejamos estes exemplos, aleatoriamente colhidos: “STF garante aposentadoria especial a servidor com deficiência”, “Brasil vence Equador e garante vaga no Mundial e no Pan-Americano” e – para não esquecer o futebol – “Flamengo vence o Vasco, conquista a Taça Rio e garante o título carioca invicto”. É fácil perceber que nas três manchetes fala-se de algo realizado, concreto, que não depende de eventos futuros (como é o caso das tais obras “garantidas” pelo governador). Fôssemos acreditar em “garantias” de políticos… A manchete ficaria ironicamente bem construída assim: Augusto Castro “cobra” e Wagner “garante” obras.

MÍDIA LEVANTA A BOLA PARA OS PODEROSOS

Jornalistas, por ignorância, preguiça, ingenuidade, conveniência ou motivações mais condenáveis, costumam ser a escada por onde os homens públicos ascendem ao poder. Mesmo com o risco de que pedradas surjam à direta, à esquerda, atrás e à frente, analisar a manchete (“Augusto Castro cobra e Wagner garante obras”) é preciso: levanta-se a bola a ser chutada pelo deputado e o governador, mostrados como eficientes (um porque “cobra”, outro porque “garante”), mas a boa informação – de que isto tudo é um engodo tão velho quanto as pirâmides do Egito – é sonegada ao leitor. Este, sabemos, pouco significado tem nos negócios midiáticos.

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LER JORNAL PODE SER EXERCÍCIO DE RISCO

Sou compulsivo leitor de jornais (queria dizer “voraz”, em vez de “compulsivo”, mas sei que os leitores não me perdoariam o eco). Porém não me imagino o maior deles.  Perco feio para Raimundo Galvão e Luiz Conceição (foto), inevitável é a rima. O primeiro, que já nos falta desde 1993 (e que falta nos faz!), lia até o obituário; o segundo, agora primeiro, está aí – e também lê até o obituário. Nessa longa vida de leitor, assisti, entristecido, ao funeral de diversos veículos: Última Hora e Jornal do Brasil (que muito têm a ver com minha formação), Correio da Manhã, Diário da Tarde (Ilhéus), Jornal da Bahia, Diário de Itabuna, Tribuna do Cacau (Itabuna) e SB – Informações e Negócios (Itabuna).

JORNAL GRANDE, ESTILO PEQUENO E FROUXO

Pois fosse eu meu analista a R$ 150,00 a hora de 45 minutos, me recomendaria, sisudo: “Pare de ler jornais e de ver televisão, pois essas coisas não lhe fazem bem”. Estaria certo o diagnóstico? Provavelmente, sim. Ao me deparar com certos textos de coleguinhas (para quem a boa redação é dever primário), sobe-me a adrenalina. Também agita-se-me o sangue nas veias, entrecortado se faz o respirar, a taquicardia me visita, ficam suadas e frias as mãos. Tive todos esses sintomas ao ler em grande jornal de Salvador esta manchete, em duas linhas: Operação policial consegue desarticular quadrilha que era liderada por delegados. Estilo amador, frouxo, no nível da escola elementar.

O BOM TÍTULO VENDE O TEXTO QUE O SEGUE

Falamos aqui, há dias, em linguagem econômica – e eis que o anti-exemplo vem a cavalo e irrompe coluna adentro. O título (ou manchete) da matéria está entre os itens mais nobres do jornal, pela quantidade de virtudes que encerra: concisão, clareza, capacidade de despertar interesse no leitor. Costuma-se dizer que uma boa manchete de primeira página (que há gente chamando de “capa”) vende toda a edição do jornal. Um bom título “vende”, no mínimo, o texto que encabeça. Vamos corrigir a montoeira de bobagens acima? Ficaria melhor se reduzida em três palavras e 18 toques: Operação policial desarticula quadrilha liderada por delegados. “A economia é a base da prosperidade”, diz o provérbio.

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DE CARONA NA GARUPA LEVE DO VENTO MACIO

Paulo César (Francisco) Pinheiro, a quem nos referimos há dias, é nome fundamental na canção brasileira, formando entre os melhores letristas do País. Nascido em 1949 (Rio de Janeiro), ele se revela poeta ainda muito jovem, despertando parceiros e intérpretes para sua produção. Tinha só 14 anos, quando fez um clássico romântico irretocável (musicado por João de Aquino), Viagem, que tem versos assim: “Vamos visitar a estrela da manhã raiada/que pensei perdida pela madrugada/ mas vai escondida, querendo brincar”. Permitam-me citar ainda: “Oh! poesia me ajude,/vou colher avencas,/lírios, rosas, dálias/pelos campos verdes,/que você batiza de jardins do céu”.

GRANDES PARCEIROS E GRANDES INTÉRPRETES

Viagem foi gravada por Marisa Gata Mansa (depois, vários artistas). Outros grandes intérpretes de Paulo César Pinheiro foram Elis Regina, Nelson Gonçalves, MPB-4, Elizeth Cardoso, Clara Nunes, Simone, Emílio Santiago, Quarteto em Ci, Soraia Ravenle (que montou o show “Arco do tempo”, em homenagem ao poeta) e, mostrada nesta coluna, Alobêned, meu furacão preferido. A ala de parceiros é integrada, além do pioneiro João de Aquino, por Baden Powell, Dori Caymmi, Tom Jobim, Ivan Lins,Toquinho, Guinga, João Nogueira, Mauro Duarte, Edu Lobo e outros. Ganhou em 2002 o Grammy de Melhor canção brasileira (em companhia de Dori) e, em2003, o Prêmio Shell, com CD O lamento do samba.

INTÉRPRETES COSTUMAM MUTILAR AS LETRAS

Paulo César Pinheiro é autor, ele mesmo disse, de dez livros de poemas (tendo quatro publicados), três romances (o primeiro foi Pontal do pilar/2009), duas peças de teatro, crônicas em diversos veículos, produções de discos e centenas de shows. O maior volume vem por último: “Mais de duas mil músicas compostas e mais de mil gravadas”, depõe. “Acho que mereço uma festinha, pois não desperdicei meu tempo”, brincou o poeta, ao comentar essa imensa produtividade, nas comemorações dos seus 60 anos (em 2009). No vídeo, Emílio Santiago (conforme o hábito) erra feio na letra: o ótimo poeta escreveu “desde muito longe”, o ótimo cantor leu “desde muito tempo”. Faz parte.

O.C.

UNIVERSO PARALELO

BARBA RENDE MAIS DO QUE OURO E POUPANÇA

Ousarme Citoaian
Raspar a barba, quem diria, é o último “grito” do mercado. Possuir tal apêndice capilar, que o digam um cantor de trio elétrico da Bahia e o governador da dita cuja, significa ter amealhado capital de rendimento superior a poupança, dólar, ouro, CDB e outros investimentos convencionais. Veja-se Wagner (foto): meio milhão de reais para deixar a cara lisa feito bumbum de bebê. Segundo se comenta, a barba wagneriana tem apenas 34 anos, me pergunto “que investimento zero renderia tanto em tão pouco tempo” e eu mesmo respondo: “Nenhum”.

BIGODE E COSTELETAS RASPADOS DE GRAÇA

É dinheiro que este colunista, por mais generosos que sejam seus patrões no Pimenta, aguardará  muitos anos (é só fazer as contas!) até pôr-lhe o olhos em cima. Em épocas que distantes vão, administrei vasto bigode, modelo a meio caminho de Belchior e Pancho Vila. Um moustache, digamos, de respeito – acompanhado de um par de costeletas. Raspei-os, de graça, costeletas e bigode, sem saudade ou remorso, no dia em que um sujeito metido a debochado me chamou de Rivelino (foto). Mas de barba, nunca fui, e disso me arrependo, pois elas, quando seguidas de sorte do proprietário, são garantia de gorda renda.

BARBA AO ESTILO KARL MARX VALE MILHÕES

Pretendo, com a notoriedade que me tem dado esta coluna, cultivar essa cobertura capilar sobre a face, por motivos estéticos ou ideológicos, mas financeiros: em dez anos, espero ter barba fechada e grisalha, a corrigir minha aposentadoria pelo INSS. Mais sorte tem o professor Jorge Araujo: barbaça consagrada, antiga e famosa, tem a valorizá-la a parecença com a de uma figura das mais importantes de todo o pensamento mundial: Karl Marx. Jorge está em fase de colheita; eu, no plantio. Que o mercado de barba nos seja receptivo, amém.

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A MÃO QUE DEMOLE É A MESMA QUE PREMIA

Em 1867, o químico sueco Alfred Nobel, para reduzir o risco de acidentes com a nitroglicerina (explosivo muito sensível ao calor), juntou, na proporção devida, essa substância com um tipo especial de terra, acondicionando a mistura em cilindros de papel, chamados “banana”. Assim, criou a dinamite, que não é nitroglicerina pura, mas uma mistura explosiva, segura, inerte, não facilmente acionada. Aqui, faço duas observações, sob o perigo de ser chamado de almanaque ou poço de cultura inútil: 1) o demolidor Alfred Nobel é o mesmo do Prêmio Nobel de todos os anos, que o Brasil jamais recebeu, e 2) Nobel é palavra oxítona (não se trata de opinião minha, mas dos filólogos): pronuncia-se Nobél.

MONTAND, NITROGLICERINA E FOLHAS MORTAS

Não resisto a uma terceira informação (pois nada há de novo nas duas acima): O salário do medo é um notável filme francês (de Henri-Georges Clouzot/1953), a partir do excelente título (fiel ao original Le salaire de la peur).Um drama de alto impacto, sobre o transporte de nitroglicerina em caminhões e a exploração dos motoristas nesse trabalho, tendo final imprevisto. O salário… tem Yves Montand como protagonista – e é oportuno lembrar que Montand é uma espécie de padrinho da coluna: ilustrou nossa primeira edição (em 17.12.2009), cantando Les feuilles mortes. O filme (disponível em DVD) e a canção são lembranças do tempo em que a cultura francesa ainda não tinha sido sufocada com a invasão dos bárbaros.

A TEVÊ INVENTA OS “BASTÕES DE DINAMITE

Eu queria dizer outra coisa: há dias, mostrei-me abespinhado com o uso da expressão ociosa “bandeira a meio mastro”, criada na tevê, contra a clássica “bandeira a meio pau”. Pois parece que tudo está perdido. Recentemente, uma graciosa repórter da maquininha de fazer doido, descrevendo uma intervenção da polícia, relacionou entre as coisas apreendidas, “vários bastões de dinamite”. Jamais se viu tamanha besteira. Dinamite, desde o século passado, é apresentada em “banana” (há quem diga que a invenção de Nobel lembrava essa fruta tropical). Bastão (parente próximo da bengala) tem significados em medicina, comércio, esporte, química, informática e outros, até o prosaico bastão de cola. Mas bastão de dinamite é demais pro meu anseio.

BANANAS DE DINAMITE E BONÉ DA POLÍCIA

No noticiário do dia a dia, sem salamaleques, feito por quem conhece a boa linguagem, colho estes exemplos: “Um carregamento com bananas de dinamite foi apreendido em Iacanga, na região de Bauru/SP”. Um jornal paranaense “abusa” da expressão: diz que a polícia apreendeu na segunda-feira, próximo ao Teatro Paiol, no Rebouças, uns caras “com 66 bananas de dinamite e estopins”, informa que eles “venderiam cada banana de dinamite por R$ 80,00” e destaca que, para mostrar o perigo, os policiais “explodiram cinco bananas de dinamite”. De João Pessoa, vem esta: “Um homem foi preso com 31 bananas de dinamite, espoletas, armas e um boné da polícia da Paraíba”. “Bastão de dinamite” parece devaneio de redator ocioso.

NISSEI É “ESPECIALISTA” EM BOSSA NOVA

À lista de ilustres desconhecidas cantoras brasileiras que vivem (e gravam!) no exterior (Rosa Passos, Clécia Queiroz, Virgínia Rodrigues, Leny Andrade) há de juntar-se Lisa Ono, uma “japonezinha” que (em português, francês, inglês, italiano, japonês e espanhol) canta qualquer coisa (de romântico latino a pop americano, soul e jazz), embora seja “especialista”, quem diria, em samba e Bossa Nova. Seu primeiro CD (Catupiry/1989) tem participações de Tom Jobim, Sivuca, Paulo Moura e Danilo Caymmi. Nada mau para quem começa. Diga-se logo, a bem da verdade: Lisa Ono (nada a ver com Yoko Ono, aquela) não é japonesa, mas nissei, nascida em São Paulo, em 1962.

PISTOLEIRO CHORA PELOS “VELHOS TEMPOS”

O último CD de Lisa Ono a que tive acesso é de 2009, uma coleção de standards de jazz, cujo título, Cheek to cheek, é o da canção famosa lançada por Fred Astaire (foto), em O Picolino/1935). Lá estão também All of me, I got rhythm, Caravan, Hello Dolly! – enfim, temas que todo fã de jazz conhece de cor e salteado. Mas meu preferido, dos CDs feitos em língua estrangeira, é Dans mon île/2004, canções francesas clássicas (C´est si bon, La vie en rose, La dernière valse, Dans mon île e a mencionada lá atrás, que iniciou esta coluna: Les feuilles mortes. Clique e (re) veja a imortal canção francesa, na leitura bossa-novista da brasileira Lisa Ono.

O.C.

UNIVERSO PARALELO

ITABUNA E O NÓ GÓRDIO NA SAÚDE PÚBLICA

Ousarme Citoaian
Em artigo que comenta a situação da saúde pública de Itabuna, um diário local afirma haver nas relações da prefeitura com o estado um nó górdio a ser desatado. Bela expressão, dessas que integram o falar brasileiro – e cujo emprego tanto temos defendido. Essas aquisições parecem dar ao texto sabor erudito, “culto” – o que é verdade, pois quem não tem boa base de leitura raramente recorre a tais adornos estilísticos. Mesmo quando utilizadas por pessoa que delas apenas ouviu falar, tais “frases feitas” oferecem ao texto encanto e formosura. Como nem todos sabem a origem do termo, valho-me do Google e atualizo minha informação, que passo adiante.

O NÓ SÓ FOI DESFEITO DEPOIS DE 500 ANOS

Górdio foi um camponês que se tornou rei da Frígia, na Ásia Menor (lá pelo século VIII a.C.) e, para não esquecer sua origem humilde, botou dentro do templo de Zeus a carroça em que chegou à cidade.  E a amarrou com um nó tão danado que gerou uma profecia: quem o desatasse tornar-se-ia rei de toda a região. Mesmo com tão grande prêmio, o Nó de Górdio ficou intato durante cinco séculos. Até que Alexandre da Macedônia parou em Frígia para o repouso de suas tropas e, sabendo da profecia, resolveu tirar a história a limpo. Pôs-se em silêncio em frente ao nó, analisou-o e, com um golpe de espada forte e certeiro, o cortou, tornando-se assim o rei do pedaço, isto é, o líder da Ásia Menor.

O REI MIDAS FOI ATENDIDO AO PÉ DA LETRA

Moral da história: diante de problemas, precisamos – com o emprego do capital intelectual de que dispomos – pensar, analisar e encontrar alternativas. Mas é pertinente  referir que esse rei Górdio fazedor de nós era pai do rei Midas, fazedor de ouro, outro nome caro à mitologia grega. Midas era rico, ganancioso, orgulhoso, enfim, se achava. Foi vítima da ganância e da má interpretação de suas palavras: pediu a Dionísio (a quem prestara um favor) o poder de transformar em ouro tudo o que tocasse e, a partir daquele dia, sua vida ficou um inferno dourado, pois tudo que ele tocava (água, comida, gente, coisas e bichos) virava ouro. Pediu em sentido figurado, recebeu ao pé da letra.

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A MEMÓRIA FAZ O PASSADO SEMPRE PRESENTE

Há de se perceber nestas provocações semanais um quê de memória, de passado, nem sempre aprovado pelo apetite dos obsessivos do imediato. “Quem gosta de passado é museu”, repete-se o adágio indigente de bom gosto, graça ou criatividade. É tempo de lembrar, sem rodeios ou firulas, que, ao contrário desse discurso equivocado, o passado sempre está presente. Não há intenção de trocadilho, mas a constatação de que nosso ontem não nos abandona – e isso é tão fundamental, que o homem nasceu com memória, faculdade de guardar, registrar e lembrar. Não sei de alguém que diga isto melhor do que o historiador francês Jules Michelet: “Memória é ressurreição”.

REMÉDIO CONTRA AS FISSURAS DO PASSADO

A relação tempo-memória foi muito bem analisada no discurso de posse do escritor mineiro Antônio Olinto (foto), na Academia Brasileira de Letras. Baseio-me na lembrança (não disponho, no momento, do livro em que está o discurso) e destaco a essência: não se vive sem passado, o passado sempre está presente em nossa vida, e a memória vence o tempo. A memória é o anti-tempo, a panaceia para traumas e fissuras que ele causa. E Olinto encerra com este fecho de ouro: “Só na memória palpita uma possível imortalidade”. Um fato ocorrido ontem pode estar esquecido hoje; outro, há séculos, pode permanecer atual. O que os diferencia não é o tempo, é a memória.

EM ITABUNA, O EXAGERO HÁ DE SER LOUVADO

Itabuna acaba de criar duas academias de letras. À parte o exagero de dois sodalícios de uma tacada só, a iniciativa há de ser louvada. Afinal, o que é uma academia de letras, se não um grande e nobre mergulho no passado literário da região? Só por ter levantado o assunto, a cidade já fala, quando nada à boca pequena, em Adonias Filho, Firmino Rocha (foto), Manuel Lins, Telmo Padilha, Gil Nunesmaia, José Bastos, Jorge Medauar, Euclides Neto, Plínio de Almeida, Afrânio Peixoto e tantos outros patronos da novel instituição (todos mortos, comme il fault) – a  lista, conforme o modelo francês da Academia Brasileira de Letras, é de 40 nomes. É a possível imortalidade literária palpitando, como quis Antônio Olinto.

O COLUNISTA PERDEU SUA APOSTA TEMEROSA

Os leitores foram generosos quanto à minha aposta (um tanto temerosa, sei) em Bravura indômita como ganhador do Oscar. O filme ficou no zero, mesmo com dez indicações, perdendo feio para O discurso do rei. Rubens Ewald Filho tinha razão – e este episódio deixa clara a distância entre palpites de amador e de profissional: um opina apoiado em aspectos técnicos, mercadológicos e políticos; outro baseia-se em preferências pessoais. Rubens Ewald sabia; eu queria. Mas continuo a ver o faroeste como a essência do cinema norte-americano. E, por favor, sejam gentis comigo: não me falem em faroeste spaghetti.

JOHN WAYNE, OU A ARTE IMITANDO A VIDA

Alguns westerns abordaram a decadência do gênero, sempre com uma visão romântico-nostálgica sobre o ocaso desse ciclo. À memória me vem, sem muito esforço, O último pistoleiro (Don Siegel/1976), em que o velho Marion Robert Morrison, mais conhecido como John Wayne (1907-1979), faz papel dele mesmo: com câncer de pulmão (era fumante), Wayne representa John Bernard Books, famoso pistoleiro corroído pela doença – e que procura um lugar tranqüilo para morrer em paz. Com mão segura, Siegel (Perseguidor implacável/1971 e mais de 30 outros títulos) conduz a história a um final digno dos clássicos, depois de diálogos (e silêncios!) muito inteligentes.

PISTOLEIRO CHORA PELOS “VELHOS TEMPOS”

Mas nenhum faroeste tem tanta graça e leveza quanto Dívida de sangue/1965, de Elliot Silvestein (Um homem chamado cavalo/1970) – que deu o Oscar a Lee Marvin. O filme, além de Marvin em plena forma, tem a plena beleza de Jane Fonda (“Oh! que saudades que eu tenho!”) e, para arrematar, Nat King Cole e Stubby Kaye, os menestréis que, no formato de coro do teatro grego, fazem o contraponto da narrativa. A cena em que o pistoleiro pé de cana toma uma talagada “para firmar a mão” é antológica. E tocante é seu discurso saudosista sobre a perda de poder dos caubóis. Um vídeo especial para esta coluna, aqui.

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O.C.

UNIVERSO PARALELO

UM ENTRAVE DE NOME ESQUISITO: ANACOLUTO

Ousarme Citoaian
Falamos aqui de termos que aparecem nas frases sem que nada de bom a elas acrescentem – aos quais os gramáticos chamam de anacolutos, ou nome parecido. No caminho de quem persegue a “linguagem econômica” (apanágio de poucos redatores) emergem os tais anacolutos como um dos mais sérios obstáculos a transpor. Observo, na leitura das mídias regionais escritas, que entre nós abunda (além da preposição “de”, penduricalho que muito me irrita) uma profusão de artigos, indefinidos, sobretudo. É tamanho o festival de “um” e “uma” que até parece epidemia, caso de saúde pública.Vejamos alguns exemplos, colhidos aleatoriamente.

EMPREGAR MUITO ARTIGO LEVA AO DESASTRE

“Não é por um acaso que Itabuna ficou sendo a cidade mas (sic!) violenta do país”, diz um blog; “Quero deixar claro que se por um acaso inaceitável…”,  escreve colunista de Ilhéus, comentando a ideia gaiata de  anexar o  Salobrinho a Itabuna. Outro articulista, de Itabuna, titula seu arrazoado como “O direito de se ter uma opinião”. Mais curioso é que “O direito de se ter uma opinião” poderia, com lucro para o estilo, ser reduzido a “Direito de opinião”. Sobre os artigos definidos, falaremos num dia desses – mas adiantemos que tal categoria tem um quê de bebida alcoólica: se usar muito, o desastre é certo.

HÉLIO PÓLVORA E A LINGUAGEM ECONÔMICA

O texto econômico, de um mestre, da linha direta de Graciliano Ramos: “O coronel sacou o relógio da algibeira, em gesto maquinal. Sol a pino, de meio-dia. Ao longe, além das pastagens, os cacaueiros tinham um jeito tristonho de árvores murchas. O coronel cumprimentou o Surdo com um aceno de cabeça, depois de franzir a testa na tentativa de reconhecer-lhe a fisionomia e o nome. Inútil, eles se viam pela primeira vez. O Surdo desejou-lhe boas-tardes – e o coronel, devolvido o relógio chapeado de ouro à algibeira do colete de casimira inglesa, caminhou para o armazém, seguido por um pequeno séquito de curiosos” (Hélio Pólvora – Inúteis luas obscenas/2010).

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A LITERATURA ESTÁ PRESENTE NO DIA A DIA

A literatura, muitas vezes desdenhada, está presente na vida brasileira, bem mais do que admite nossa vã filosofia. Há frases que integram o imaginário nacional, muitas vezes citadas sem referência a origem e autoria. Exemplos que me vêm à mente: “Vai-se a primeira pomba despertada”, verso que já utilizei, emprestado de As pombas, de Raimundo Correa (foto) – que, contam, detestava este soneto, de tanto que o ouviu recitado; volta e meia alguém, falando de nossa língua a chama de “Última flor do Lácio” – sem pagar direitos autorais a Bilac; “A mão que afaga é a mesma que apedreja” é lembrança de Augusto dos Anjos, empregada à larga.

MÁRQUEZ, QUEM DIRIA, VIROU LUGAR COMUM

O repetido “mudaria o Carnaval ou mudei eu?” é Machado de Assis, que também popularizou o círculo vicioso; Gabriel García Márquez teve seu título Crônica de uma morte anunciada /1981 transformado em lugar-comum pela mídia pouco pensante, a ponto de não aguentarmos mais a expressão “tragédia anunciada”, apresentada como novidade.  O então ministro da Saúde (até tu, Tinhorão?), escolheu aproximar-se mais do título, ao comentar uma epidemia de dengue em Itabuna. “O que houve ali foi uma crônica da morte anunciada”, disse o lusitano. Em alguns veículos encontramos, em tempo de dengue exacerbada, verdadeiras pérolas do gênero.

NUNCA SE VIU TANTA “TRAGÉDIA ANUNCIADA”

“De acordo com os representantes do Ministério Público, o problema que atinge na região (sic!) foi uma tragédia anunciada”, diz um blog; “O que está acontecendo em Ilhéus é uma tragédia anunciada, proclama outro; de bem antes (2008), n´O Globo: “Essa tragédia porque passa o Rio foi muito anunciada”; a Veja (outrora modelo de linguagem jornalística),  na mesma data e trilha: “A situação do Rio é, nada menos, do que uma tragédia anunciada” e, adiante,  empolada: “quando a tragédia anunciada enfim se impõe como realidade…”. O governador, para não ficar atrás, também definiu a enchente no Rio como uma tragédia anunciada.

VINÍCIUS, SHAKESPEARE, ROMEU E JULIETA

Como se vê, nossa mídia tem mais tragédia do que o antigo teatro grego – e eu, sem pensar, me vali de uma expressão também clássica, numa paródia de  “Até tu, Brutus!”, atribuída a Júlio César (ano de  44 a. C.) e popularizada no teatro de Shakespeare. Aliás, o bardo inglês é responsável pela apelido de sujeito apaixonado:  Romeu (referência ao protagonista de Romeu e Julieta). “Depois de um longo e tenebroso inverno” é verso de Luis Guimarães Jr. que já nos incomoda, de tão recidivante; e “De repente, não mais que de repente” é da lavra de Vinícius, muito lembrado, mas que perde feio para “que seja infinito enquanto dure”.

JOIA RARA: ELLA CANTANDO EM PORTUGUÊS

O LP duplo (alguém ainda sabe do que estou falando?)  Ella abraça Jobim foi a grande surpresa fonográfica de 1981. Não é o melhor Ella Fitzgerald que já se ouviu, mas é um buquê de 19 canções de Tom, selecionadas por Norman Granz  (que o chamou de The Antônio Carlos Jobim songbook), na voz de uma das maiores cantoras de jazz de qualquer tempo, segundo a melhor crítica. Apesar de as letras vertidas para o inglês, chama a atenção o esforço que a grande diva faz para cantar alguns trechos em língua portuguesa, o que torna ainda mais singular a homenagem a Tom Jobim.

COM RISOS INOCENTES, SONOROS PALAVRÕES

E é Tom quem explica ter ouvido da cantora que ela teve um padrasto português, homem desinibido, que, como bom lusitano, “costumava desabafar em baixo calão”. Como prova de “conhecimento”, a cantora recitou, na maior inocência, e para a vermelhidão do maestro brasileiro (ou Brasileiro!), todos os palavrões de que ainda se lembrava (que não eram poucos!), enquanto “ria, com seus olhinhos inocentes”. É ainda o pai da Bossa Nova quem depõe: ”Percebi que Ella não sabia o significado daqueles tão sonoros palavrões, mas, de qualquer forma, eles devem tê-la ajudado para cantar em Português”.

HERANÇA: CAMARÁ, CAMARADA, CAMARADINHO

Camará é termo largamente empregado nas rodas de capoeira, sem o sentido registrado nos dicionários. Creio que seja uma apócope (“perda de sílaba final”) de “camarada”, mas o termo tem assento em documentos de cultura afro que não a capoeira. Os Tincoãs, extraordinário grupo vocal do Recôncavo, lembra uma estranha forma do falar afro-baiano, em A força da jurema: “Meus camarada, meus camaradinho,/ meus camarada, meus camaradinho,/ se quer que eu dance/ toque um pouquinho!” – enfim, são os surpreendentes caminhos da indomável língua brasileira. Clique e veja como Ella se sai nesse meio: Água de beber (Tom-Vinícius).

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

REFORMA: MUITO DEBATE, POUCO RESULTADO

Ousarme Citoaian
As gerações que aprenderam língua portuguesa antes das últimas quatro décadas (só para fixar um período, sem maior precisão) têm discutido acirradamente a presença do Y em nomes próprios.  Enquanto a reforma ortográfica de 1942 eliminava essa letra (na companhia do K e do W), continuaram a ser grafados os Raymundos, Ruys, Cyros, Euclydes, Oswaldos, obviamente, e, em tempos recentes, sem prejuízo, duma profusão de Yasmines, Karlas, Karines e Kamilas. A mesma reforma – que gerou apaixonados debates na Academia Brasileira de Letras – também aboliu o H medial (de Christo, por exemplo), deixando como exceção a palavra Bahia.

NA BAHIA, NINGUÉM MEXE COM RUY BARBOSA

Em 1993, quando Sérgio Cabral publicou No tempo de Ari Barroso, incluiu uma nota explicativa sobre o motivo de grafar Ari (e não Ary, como fazia o compositor mineiro) – e levou um elegante “pito” do filólogo Antônio Houaiss. Para aquele que é tido como “o maior conhecedor da língua portuguesa em tempos modernos”, o autor não precisava se justificar, pois a forma arcaica Ary inexistia entre nós, devido à queda do Y. A mesma regra também aboliu Ruy, sob protesto de baianos enfurecidos, pois nesta terra descoberta por Cabral (Pedro, o lusitano, não Sérgio, o carioca) Ruy Barbosa é “imexível”.

NADA MUDA PARA RAYMUNDOS, CYROS E RUYS

Eis que em 2009 entra em vigor o (mais um!) novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (AOLP), que recoloca no alfabeto as letras K, W e Y, renovando uma querela já, pela parte que me toca (e a Antônio Houaiss!), resolvida. As  “novas” letras só podem ser utilizadas em nomes estrangeiros não aportuguesados (como Darwin, Franklin, Wagner, motoboy),mas mesmo assim a medida deu ânimo aos “cartoristas”: afinal de contas, se temos, legalizada pelo AOLP, a presença  desses sinais outrora banidos, por que não usá-los? Porque seu uso “recuperado” é restrito – então, quanto a W, Y e K, nada importante há de novo.

OS QUE ESTÃO MORTOS NADA MAIS RECLAMAM

Um linguista (já não me lembro quem) sugeriu uma saída sábia para tal questão: respeitar as grafias “ao gosto do dono”, enquanto este for vivo. Por exemplo: embora o acadêmico Antônio Olinto grafasse seu nome sem circunflexo, me dou ao direito de escrever Antônio, seguindo a regra (e o crítico não está mais entre nós para reclamar), o mesmo ocorrendo com o poeta Vinícius – para mim, “de Morais”, pois a forma “Moraes” é estranha à língua. Jorge de Souza Araujo não quer acento em seu último nome: e, pelo que me é dado opinar, assim fica, enquanto vida ele tiver – que rezo para ser loooonga e profícua.

CEM ANOS DE MARIGHELLA E ASSIS VALENTE

Uma listinha de nascimentos em 1911 (faz cem anos!): Assis Valente (compositor, Santo Amaro-BA), Broderick Crawford (ator, Filadélfia-EUA), Carybé (pintor, Buenos Aires-ARG), Carlos Marighella (político, Salvador-BA – na foto, metralhado), Mahalia Jackson (cantora, Nova Orleans/EUA), Maria Bonita (“lampiona”, Santa Brígida-BA), Mikhail Botvinnik (enxadrista, Kuokkuala-FIN), Paulo Gracindo (ator, Rio de Janeiro-RJ), Pedro Caetano (compositor, Bananal-SP), Robert Johnson (bluesman, Mississipi-EUA), Roland Barbera (criador de desenho animado, Nova Iorque-EUA). Também se tornam centenários neste ano da graça de 2011: San Thiago Dantas (político, Rio de Janeiro-RJ) e Tennessee Williams (dramaturgo, Mississipi-EUA).

COLUNISTA “DIVIDE” A DATA COM BOB DYLAN

E há uma pequena relação de setentões, os nascidos em 1941: são daquele ano as atrizes Faye Dunaway (Os olhos de Laura Mars/1978) e Julie Christi, o jornalista e compositor Sérgio Bittencourt (Modinha, Naquela mesa), o cantor Roberto Carlos (já fartamente noticiado), o baterista Airto Moreira e o cantor Bob Dylan. Que coincidência: Bob Dylan (foto) e um veterano colunista da região (de quem não revelo o nome porque ele considera sua idade uma espécie de segredo de estado) viram a luz do mundo pela primeira vez na mesma data, há 70 anos: 24 de maio de 1941. Também deram seu primeiro berro no dia 24 de maio os “globais” Marcelo Madureira (comediante) e José de Abreu (ator).

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EU QUE NÃO AMAVA OS BEATLES E OS STONES

Quando Drummond nasceu, um anjo torto disse: “Vai Carlos, ser gauche na vida!”. A “praga” me atingiu. Gauche (não sei se por artes de anjos ou demônios), enquanto os Beatles reviravam o mundo com suas guitarras retumbantes, eu me mantinha em cool, ouvindo João Gilberto, o mar, o sol, o sul (“as mãos se descobrindo em tanto azul”), é preciso cantar para alegrar a cidade – e tudo se acabar na quarta-feira. Avesso a fusões, era-me inviável conciliar Beatles e Bossa Nova: cartesiano, dicotômico, sim ou não, preto e branco, ai de mim, eu era um garoto que não amava os Beatles e os Rolling Stones. O castigo não demorou a chegar: tempos depois, passei a absorver Beatles de segunda mão, pelo novo canto que vinha do Norte.

“SOM E A FÚRIA DE UM “POETA MALDITO”

Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenele Fernandes é o compositor brasileiro que mais foi influenciado pelo som, a fúria e a poética da turma de Liverpool. Belchior é campeão de citações literárias – o que o remete ao panteão dos grandes: Shakespeare e Edgard Allan Poe, Divina comédia de Dante e “Ora – direis – ouvir estrelas. Certo perdeste o senso”, de Bilac, estão em seus versos, além de colegas como Caetano, Roberto Carlos e Celly Campello. Com raízes que vão do erudito aos violeiros nordestinos, de Luiz Gonzaga a Bob Dylan e os Stones, seu tom saudosista esconde um revolucionário. “O passado é uma roupa que não nos serve mais”, “o novo sempre vem”, “eles venceram e o sinal está fechado pra nós, que somos jovens”.

DE BOB DYLAN AOS VIOLEIROS NORDESTINOS

Mas os Beatles são os mais citados: em Velha roupa colorida (“Blackbird” e “She´s leaving home”), Medo de avião (“I want to hold your hand”) e ainda “Hapiness is a warm gun”, em Comentário a respeito de John, feita com José Luiz Penna. O canto nostálgico de Belchior, a voz sofrida do retirante sufocado pela cidade grande sempre me fascinou, também pela sua presença no cancioneiro anti-ditadura militar: são dele, dentre outros, os versos “Mas veio o tempo negro e a força fez comigo/ o mal que a força sempre faz./Não sou feliz, mas não sou mudo:/hoje eu canto muito mais”. Clique e ouça o clássico Medo de avião, arquivado no Fantástico (com citação dos Beatles e uma sombra de fetiche sobre aeromoças).



(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

ONTEM, DITADURA; HOJE, DESCONHECIMENTO

Ousarme Citoaian
“As atividades referentes ao Dia do Trabalhador começam nesta sexta-feira…” – noticiou o Pimenta, na tarde do dia 29 de abril. O Pimenta está certo. A mídia brasileira (já não sei se em maioria, mas com certeza em grande número) costuma chamar o 1º de maio de Dia do Trabalho, um ranço preconceituoso que remete à mais recente ditadura militar. Não interessava aos ditadores fardados louvar o trabalhador (elemento, por definição, “subversivo”), daí essa degeneração da data, que – criada para prestar homenagem ao trabalhador – passou a referir-se ao trabalho. Foi-se a ditadura, restou a ignorância de setores da comunicação.

DO SANGUE DERRAMADO AO SHOW DE PAGODE

Se a alguém isto interessa, o Dia do Trabalhador é efeméride mundial, nascida em apoio às reivindicações do movimento operário, esmagado sob o peso do patronato, a partir da Revolução Industrial (segunda metade do século XVII). Em 1º de maio de 1889, numa manifestação de rua em Chicago, trabalhadores anarquistas foram assassinados pela repressão – quando reivindicavam a jornada de trabalho de oito horas. A data, marcada pelo sangue dos operários, foi escolhida como Dia Internacional do Trabalhador. Hoje – com as comemorações reduzidas a shows de falsos caipiras e sorteio de eletrodomésticos – aqueles anarquistas dão cambalhotas no túmulo.

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DEPLORÁVEL REVISÃO DE CAYMMI E CARTOLA

No texto Velhas e novas implicâncias, publicado em rede de jornais, o escritor João Ubaldo Ribeiro se mostra irritado com o uso de anacolutos (termos que  ficam “perdidos” na frase, sem função sintática, “sobrando”).  O acadêmico cita vários casos, entre os quais saliento (objeto de minha especial implicância, já externada nesta coluna) o “de”. Ubaldo destaca expressões como “aconteceu de eu ver” (contra “aconteceu eu ver”) e levanta uma hipótese curiosa: Caymmi cantando “acontece de eu ser baiano”. Por certo, os versos de Cartola ficariam “Acontece de que eu já não sei mais amar” e “acontece de que o meu coração ficou frio”. Um horror.

OS PORTUGUESES ESCREVEM EM… PORTUGUÊS

Luiz Amado, chefe da diplomacia portuguesa, em abril deste ano, falando do quiproquó  que acometeu a economia lusitana: “Ninguém fez tudo para evitar uma crise como esta”. Ainda em terras camonianas, sobre a crise no Hospital Santa Maria, em Lisboa (também em abril), o administrador disse que “fez tudo” para resolver o problema – ao que, em comentário, um leitor gaiato disse que “fizeram tudo” foi para comer o dinheiro do contribuinte (neste aspecto, lá como cá, más fadas há). Veja-se que os lusitanos, ao menos, escrevem em português, sem dar socos, pontapés e rabos de arraia na linguagem culta – como ocorre em nossa mídia.

FAZEM “DE TUDO” CONTRA A BOA LINGUAGEM

São muitos os exemplos, entre nossos veículos, da expressão infeliz “de tudo”, sempre acoplada ao verbo fazer. Diz um blog, sobre a morte de um adolescente, que a mãe fez de tudo para tira-lo da droga”; outro, enaltecendo as indiscutíveis qualidades do jornalista Ramiro Aquino, afirma, sem acanhamento, que o bom Ramiro “no rádio, fez de tudo: repórter/comentarista esportivo, apresentador de programas, noticiarista e diretor”. Em outro espaço, alguém, ao falar do professor Landoaldo, destaca-lhe a modéstia, com esta construção exemplar: “muitas pessoas na vida [ao contrário do homenageado] fazem de tudo para ficar na história”.

A CANTORA QUE VEIO DO ESPAÇO SIDERAL

Fiz aqui uma provocação sobre o nome da cantora Alobêned, e hoje volto, com prazer, a abordar  o tema. Duas curiosidades: o nome da artista é Denébola (ao contrário, dá Alobêned); a outra é sobre a origem da palavra. Denébola é a estrela Beta da constelação de Leão – e este, na mitologia, é o lendário Leão de Nemeia, um imenso e mau humorado animal, tido como indestrutível, pois nenhuma arma penetrava seu couro. Mas Hércules, filho de Zeus, o enfrentou na mão grande, o estrangulou e, só pra humilhar, fez e usou um manto com a pele do bicho (consta que, ao fim desse primeiro trabalho – foram doze, ao todo – Hércules teria dito “Conheceu, papudo?”  – mas disso não há prova provada).

UM PAI CHEIO DE CURIOSIDADE PELA VIDA

Para se chamar Denébola Maria só tendo um pai “incomum”: ele é Romilton Teles Santos (foto), que desempenhou várias atividades: radialista, escrivão e delegado de polícia, compositor popular (com umas 200 músicas inéditas), poeta, autor de jingles de propaganda política, advogado.   A família é de músicos: além do pai, a mãe (Neide Prado) e os irmãos (Marcionílio e Nonato Teles) são do ramo. A irmã Denébola Airan não canta. Porque não quer. Esse Romilton, o pai, tem insaciável curiosidade pela vida. Famoso cantor “caipira” (foi o Martelo da dupla “Martelo & Martelin” – com Eurípedes Silva), ultimamente encarnou o personagem “O homem da peneira”, tentando uma outonal carreira política.

“VAI SER MENINA E SE CHAMAR DENÉBOLA!”

A curiosidade levaria Romilton a “descobrir” Denébola, e por ela cair de amores. “Ora – direis – ouvir estrelas…” – pois o poeta, que tem ouvido capaz de ouvir e entendê-las, mantinha com Denébola longo diálogo noite adentro, “até que o sol fizesse o céu deserto”. Os sintomas da paixão: a pequena propriedade rural passou a chamar-se “Denébola” e seu jipe, caindo de velho, exibia pelas ruas de Itabuna a homenagem incompreendida: “Fazenda Denébola”. Eis que, quando Neide engravidou pela última vez, Romilton esfregou as mãos, esnobou o ultrassom e decretou por sua conta e risco: “Vai ser menina e se chamar Denébola!”.

CANTO DE NEGROS, ÍNDIOS E INCONFIDENTES

E foi. Aqui, parênteses: Creio que esta coluna, publicada há 17 meses ininterruptos, está em débito com Paulo César Pinheiro (talvez nunca tenha sido citado aqui), um extraordinário compositor da MPB, dos maiores entre os maiores. Pagaremos a conta outra hora. Por enquanto, à guisa de juros e correção monetária do débito, vamos de Canto das três raças/1976, jóia de mensagem política, com  versos que me trazem lágrimas aos olhos (gravada primeiramente pela mulher dele, Clara Nunes). Por exemplo, quando o poeta descreve o canto sofrido do seu povo: “Esse canto que devia/ser um canto de alegria/soa apenas como um soluçar de dor”. Ave, Paulo César Pinheiro, o grande! E agora, fechado o parêntese, Denébola Maria, o meu furacão preferido.



(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

EUFEMISMOS, PRECONCEITO E SUPERSTIÇÃO

Ousarme Citoaian
Expressões populares, frases feitas e eufemismos constituem o apanágio de cada língua. Às vezes, tais construções mal conseguem disfarçar a carga de superstição e preconceito que carregam, levando o povo a dar voltas à imaginação e nós na língua, para evitar o nome verdadeiro das coisas. Há comunidades que nunca pronunciam a palavra diabo, tenho uma amiga que não fala em azar (ela prefere “má sorte”), em outros tempos não se dizia que uma pessoa estava com tuberculose, câncer é palavra que muitos não usam – e na grande fase do Santos a torcida adversária não pronunciava, durante o jogo, o nome de Pelé: era somente… Ele.

AS DIVERSAS FÓRMULAS PARA NÃO “MORRER”

Para a palavra morrer, há dois grupos de eufemismo, ambos dando cores e odores próprios à língua. O respeitoso: falecer, descansar, fechar os olhos, desencarnar (entre espíritas) e dar o último suspiro – além do detestável “passar para o andar de cima”, ao gosto de quem aprende português com a Globo. Do lado gaiato: bater as botas, esticar as canelas, ir comer capim pela raiz, bater a caçoleta, botar o bloco na rua (por certo, lembranças serão despertadas). Tenho minhas preferidas nos dois conjuntos: no primeiro, formal, gosto de “faltar”; no jocoso, destaco “subir no telhado” (resquício de uma das melhores piadas de português de todos os tempos).

“MINHA MÃE FALTOU-ME ERA EU PEQUENINO”

E por falar em português, sem gracinhas, reporto-me a Guerra Junqueiro (1850-1923), com cuja poesia abono o eufemismo para morrer, a que me referi.  No poema “Os simples”, ele canta (chora!): A minha mãe faltou-me era eu pequenino,/mas da sua piedade o fulgor diamantino/ficou sempre abençoando a minha vida inteira,/como junto dum leão um sorriso divino,/como sobre uma forca um ramo d´oliveira! Penso que “minha mãe morreu” não teria jamais a pungência de “minha mãe faltou-me”. E imagino tempestivo lembrar que esse Abílio Manuel Guerra Junqueiro nasceu num lugar de nome lindo, ao norte de Portugal: Freixo de Espada-à-Cinta, pois, pois.

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A LINGUA É NOSSA HERANÇA E PATRIMÔNIO

Nossa língua é mais do que caminho de expressão de ideias e sentimentos. Ultrapassa a utilidade imediata da comunicação entre as pessoas para ser ferramenta da história, da cultura, dos valores do passado, da construção do presente, da projeção do futuro. Bem lembra Bilac que, em português, ”Camões chorou, no exílio amargo, o gênio sem ventura e o amor sem brilho”. A linguagem é herança, patrimônio que nos legaram – e do qual nos cabe cuidar, conservar o que precisa ser conservado, transformar o necessário e passar esse conjunto às gerações próximas, com orgulho e responsabilidade.

CONFUSÃO ENTRE HIPOCRISIA E LIBERDADE

O jornal, por ser mais perene do que o rádio e a tevê (apesar de mais transitório do que o blog), é grande repositório desse cabedal, por isso precisa ser menos permissivo na abertura de seus espaços, numa hipocrisia travestida de vaga liberdade de expressão. Nossas páginas estão cheias de artigos e comentários de autolouvação, que em nada ajudam a melhorar a sociedade, mesmo que sirvam ao ego de quem os assina. Texto tatibitate, bajulação aos poderosos do momento, redação descuidada, solecismos à mancheia e lugares-comuns a dar no meio da canela – são um desserviço imposto à língua.

PRINCÍPIO DE JORNALISTAS E COSTUREIRAS

Os (maus) exemplos são legião. Antes, parodiemos Cláudio Abramo, que disse (em A regra do jogo) ser a ética do jornalista a mesma ética do marceneiro (e creio nisso, pois a ética é mesmo um valor comum a qualquer atividade): jornalistas, do ponto de vista operacional, não são diferentes de costureiras, por exemplo. Àquelas, se não conhecem linha e agulha, ninguém daria emprego; destes, há de se exigir conhecimentos básicos de língua portuguesa. São princípios, mutatis mutandis, indispensáveis para quem quer costurar ou escrever (que talvez seja, no final das contas, um gênero de costura).

VERBO TRANSITIVO DIRETO E MÁ COMPANHIA

O exemplo foi colhido em coluna de jornal de Ilhéus. Ao prantear a morte da professora Nélia de Saboia Orrico, o colunista descreve o ambiente do cemitério em linguagem romântica, talvez para atenuar o trágico. “O farfalhar do vento entre as alamedas com árvores frondosas nos convida a fazer sempre uma reflexão sobre o sentido da vida”, filosofa. Em merecida adjetivação à mestra, ele destaca a “perda irreparável” e saca este fecho infeliz: “Nunca vamos lhe esquecer”. Verbo transitivo direto, como este, acha que o “lhe” é má companhia: “Nunca vamos esquecê-la” é a forma requerida.

UM HOMEM DE RELAÇÕES (MUITO) PERIGOSAS

David Nasser  (1917-1980) foi um dos brasileiros mais influentes do seu tempo. Homem de muitas faces, publicou vários livros e reportagens de altíssima octanagem, que lhe renderam fama e dinheiro. Principal pena alugada de Chateaubriand, perseguiu desafetos e defendeu monstruosidades como o Esquadrão da Morte. Certa vez, com o fotógrafo Jean Manzon, fez uma reportagem para “ensinar” aos brasileiros como distinguir um japonês de um chinês. E dentre outras coisas, disse que o japonês podia ser identificado pelo aspecto “repulsivo, míope, insignificante”. Ao morrer, riquíssimo, teve o caixão coberto pela bandeira da organização criminosa que apoiou.

 

DE DENTRO DO MONSTRO EMERGIA UM POETA

Dentro do monstro habitava, além do panfletário temido, um poeta de belos versos. É, esse David Nasser de tão degradada biografia, um dos letristas mais festejados da MPB, parceiro de grandes músicos, sobretudo de Herivelto Martins. É autor de pérolas como Canta Brasil (com Alcir Pires Vermelho), Confete (Jota Júnior) e Normalista (Benedito Lacerda). Com Herivelto, fez Atiraste uma pedra, Pensando em ti e Camisola do dia, (as de que me lembro), uma memorável série de tangos (Estação da luz, Carlos Gardel e Hoje quem paga sou), além da vinheta de fim de ano usada pela Globo ( “Adeus ano velho, feliz ano-novo…”), em parceria com Francisco Alves.

RELEMBRADO POR BETÂNIA, CAETANO E GAL

Na minha memória, quem mais gravou David Nasser foi Nelson Gonçalves. Maria Betânia – que pode não ser a cantora que dizem, mas é dona de indiscutível bom gosto e cultura musical – regravou Atiraste uma pedra e A camisola do dia (Gal Costa também cantou Atiraste uma pedra) e Caetano recuperou Pensando em ti. Percebam como o jornalista, ao contrário de muitos coleguinhas por aí, não se permite cair na armadilha dos pronomes da segunda pessoa: eu amanheço (e anoiteço) pensando em “ti”, eu não “te” esqueço, vejo a vida pela luz dos olhos “teus”, “te” vejo nas espirais de fumaça, se leio um livro, em cada frase “tu” estás – e por aí vai. Uma aula.

(O.C.)

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UNIVERSO PARALELO

A ROTINA É AMEAÇA AO AMOR E À LINGUAGEM

Ousarme Citoaian
Um dos perigos que rondam o texto jornalístico é a mecanização da linguagem – expressão cunhada aqui e agora, creio.  Expliquemos, como Freud o faria: de tão repetido, o ato de redigir passa a ser feito sob fórmula, com quase as mesmas palavras. A linguagem, da mesma forma que o amor, detesta a rotina. Quem lê notícias com olhos críticos já observou com que freqüência determinados veículos repisam termos iguais (não confundir com estilo, que é coisa bem diversa de indigência vocabular). Um exemplo que grita é o verbo garantir. Atire a primeira pedra quem leu um noticiário hoje e não topou com esse verbo mal empregado.

O CRUEL ABANDONO DO SIMPLES E DO LÓGICO

Há poucos dias, em mais uma podridão exposta de dirigentes públicos, um ex-governador acusou um deputado baiano com nobre pedigree de ter sido “ajudado” durante a campanha eleitoral, recebendo dinheiro indevido. Um dos maiores jornais da Bahia não deixou por menos e tascou em manchete a reposta do acusado: “ACM Neto garante que Arruda mente sobre doações”. Caso típico de emprego abusivo do verbo. Não se pode “garantir” que uma pessoa mente, embora se possa “dizer”, “afirmar”, ou algo semelhante. “ACM disse que…” é o caminho simples e lógico que a mídia parece ter abandonado. É a tal mecanização da linguagem.

GESTORES GARANTEM, GARANTEM, GARANTEM…

Pra não dizer que não falei de flores regionais, recolhi algumas por aqui – e confesso que foi tarefa das mais fáceis. Um semanário, falando do prefeito de Itabuna: “Ele garante que fará um governo de união”; esta, do noticiário oficial: “Capitão Azevedo garante reforma de praças”; outra, de um blog: “Azevedo é candidato à reeleição – Burgos é quem garante”. Na mesma linha andou o alcaide de Ilhéus: “Newton Lima garante apoio à reeleição de Ângela Souza”; ainda de Ilhéus: “Parceria garante transporte escolar para alunos do ensino médio da zona rural”. Em nenhum caso existe garantia efetiva do que se afirma.

CONSTRUÇÕES QUE CONSAGRAM… A SANDICE

Se gostam dos exemplos, vamos ao governador – compreensivelmente o maior “garantidor” de todos – com amplo direito de aparecer mal no texto. Aqui, uns poucos exemplos desse abuso: “Wagner garante qualidade da educação”, “Wagner garante Mundial de Judô em 2012, aqui na Bahia”, “Wagner garante apoio ao Polo de Informática de Ilhéus”. E mais uma, para não perder a mão (desta vez não o governador ou o prefeito, mas uma entidade pouco mais impalpável): “Estado garante a construção da nova ponte Ilhéus-Pontal”. Não há de faltar quem defenda esta linguagem como “consagrada”. Só se for a consagração da sandice.

A COLONIZAÇÃO E O “PLURAL APOSTROFADO”

Temos encontrado na mídia regional, mais vezes do que pode agüentar a nossa santa paciência, uma estranha forma de plural para CD (aquele disquinho de música), abuso que vale também para seu primo rico, o DVD, mesmo que ambos venham com o olho tapado que identifica os salteadores dos sete mares: CD´s e DVD´s – um plural apostrofado (vou registrar copirraite para esta expressão), fórmula que imagino vir do inglês – “colonização” que se exerce sobre dez entre dez brasileiros mal informados. É uma saída meio rodrigueana, se me permitem o lugar-comum: bonitinha, mas ordinária. Apóstrofo, sinal gráfico comum em inglês e francês, só empregamos em português em poucos casos.

CASTRO ALVES VIROU EXEMPLO DA EXCEÇÃO

Em tempos idos, era um festival de cinqüent´anos (então, com trema) su´alma, grand´homem, d´Oliveira,Sábado d´Aleluia e outros, sendo Castro Alves o campeão da modalidade. Tanto assim que sua poesia foi base para a exceção desse sinal gráfico, quando se quer beneficiar a métrica. Abro minha edição fac-similar da príncipe de Os escravos (Edições GRD/1983) e revejo “´Stamos em pleno mar!” – verso de O navio negreiro, que todos conhecem – e topo, ainda no primeiro canto, com “Bem feliz quem ali pode nest´hora/sentir d´este painel a majestade”. Como CD e DVD nada têm a ver com Castro Alves, deixe-se em paz o apóstrofo, grafando os plurais assim: CDs e DVDs. Sem descabidas concessões ao genitivo dos gringos.

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NO JORNAL, A RIQUEZA DAS FRASES FEITAS

Jornal de Itabuna, falando em mudanças de comportamento do prefeito do município, afirma em editorial: “Ele sente que chegou o momento de dar a volta por cima”. Congênere de Salvador, noticiando o retorno de Adriano ao Brasil, criou este título de ótimo gosto: “A volta do boêmio”. Essas frases feitas colorem, enriquecem e embelezam a linguagem. Consagradas, mas ainda fora da relação de lugares-comuns, facilitam o entendimento da mensagem, ao fortificar uma das qualidades fundamentais do estilo, a simplicidade. As duas, como tantas outras, nasceram da MPB: a primeira é de Paulo Vanzolini (1924); a outra, de Adelino Moreira (1918-2002).

A MPB CONSOLIDA A LÍNGUA “BRASILEIRA”

Noel Rosa imortalizou “com que roupa”, para resumir uma situação de impossibilidade; “palpite infeliz”, que nos acode à mente, diante de algumas bobagens ouvidas, e “o x do problema”, largamente empregada diante de uma questão a resolver, um nó a desatar. Chico Buarque nos deu “roda viva”, simbolizando a rotina o dia a dia; Zé Dantas criou a imagem de que a esmola ao homem são o envergonha ou vicia; e não são poucas as vezes em que alguém se refere ao País, em tom irônico, como “Meu Brasil brasileiro” – isto é Ari Barroso. Estas poucas expressões saídas da memória mostram a MPB como importante componente da nossa cultura.

DA “CENA DE SANGUE” À “VOLTA POR CIMA”

Paulo Vanzolini (foto) é de um nível cultural poucas vezes encontrado na MPB: além de médico (Universidade de São Paulo), é Doutor em Zoologia (Universidade de Harvard), sendo conhecido internacionalmente como especialista em répteis e em fauna da Amazônia, região que visitou várias vezes. Grande nome do samba de São Paulo (ao lado de Adoniran Barbosa), ele compôs cerca de 60 músicas, sendo que duas delas viraram clássicos: Ronda e Volta por cima. Esta última popularizou a expressão usada pelos brasileiros quando querem falar sobre a superação de uma crise: “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”.

OBRA-PRIMA DE REGIONALISMO BRASILEIRO

Redescobri recentemente, com Renato Braz (e Bré na percussão), um tema de Vanzolini de que gosto muito, e que tem uma história curiosa: em 1967, o artista plástico Arnaldo Pedroso Horta, observando a “baianidade” do argentino Carybé (foto), que divulgava a capoeira em São Paulo, desafiou Vanzolini, dizendo que ele estava perdendo para o “gringo”, pois nunca fizera uma música de capoeira. “Amanhã te trago uma”, respondeu o compositor. Naquela mesma noite, Vanzolini fez “Capoeira do Arnaldo”, a bem-humorada saga de um retirante em busca da cidade grande, obra-prima de regionalismo brasileiro, com um tom nordestino jamais visto num músico paulista.

(O.C.)

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UNIVERSO PARALELO

FICAR DIANTE DA TEVÊ É LEVAR “PEDRADA”

Ousarme Citoaian

“Com a bandeira a meio mastro…” – assim a repórter da Globo iniciou, no Jornal Nacional do dia 29 de março, a matéria sobre a morte do ex-vice-presidente José  Alencar. É impressionante como não posso permanecer uns poucos minutos diante da tevê sem levar alguma pedrada: a expressão “a meio mastro” inexiste na língua portuguesa ou na fala brasileira, seja no coloquial, seja abrigada na dita norma culta. É invenção descabida, artificial, dispensável, ociosa, inútil.  A velha expressão, consagrada em todos os níveis da linguagem (para indicar que a bandeira, em sinal de luto, foi hasteada pela metade) é “a meio pau”. Que o digam os dicionários.

SANDICE QUE JÁ VAI COMPLETAR SETE ANOS

Antigos ou modernos, os dicionários da língua portuguesa anotam, para a situação referida, “a meio pau” (no verbete pau), nunca “a meio mastro” (que deveria guardar-se no verbete mastro). A sandice foi ouvida pela primeira em 11 de novembro de 2004 (Marcos de Castro – A imprensa e o caos na ortografia), quando o correspondente da Globo em Jerusalém, a propósito do luto pela morte de Arafat, falou em bandeira hasteada “a meio mastro”. Quase sete anos depois (abril de 2011), percebo que a agressão se mantém – certamente sob a justificativa de que “a meio mastro” é expressão mais bonita do que “a meio pau” (isto é usado para récorde e recorde).

FALTA DE LEITURA, EXCESSO DE REPETIÇÃO

Todo professor de cursinho intensivo de redação aprendeu a fórmula que deve ser passada aos alunos: “”Leiam, leiam, leiam…” – mas que pouco resultado dá. O leitor sem maior conhecimento da área de comunicação tende a pensar que os operadores do setor lemos muito. Pura falácia. Nas redações, lê-se pouco, tendo como motivo a falta de tempo, não sendo raros os casos de indivíduos que abriram o último livro há alguns anos, ainda na escola, por insistência de um professor chato. Em consequência,  não se pensa, repete-se muito, sobretudo asneiras avalizadas pela Globo – a exemplo dessa injustificável “bandeira a meio mastro”, já a caminho da consagração.

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PISTOLEIROS NÃO ENXERGAM BEM NO ESCURO

Vejo em jornal de Itabuna, com referência a improvável embate nas urnas entre os ex-prefeitos Geraldo Simões e Fernando Gomes, a expressão “duelo ao pôr do sol”. Frases feitas e expressões consagradas (bebidas em literatura, cinema, música ou no seio do povo), desde que não resvalem para o lugar-comum, são de grande utilidade. Se é válido o cotejo, digo que elas adornam o texto como um colar de pérolas no colo de uma dama. Mas houve, parece-me, um equívoco: duelos não ocorrem “ao pôr do sol”, hora em que o atirador não enxerga bem, mas “ao sol”. Por certo versado em cinema, o redator parece ter embaralhados na memória Duelo ao sol/1946 e O último pôr do sol/1961.

TRAGÉDIA GREGA NAS PRADARIAS DO OESTE

Os dois têm pontos comuns (além da presença de Joseph Cotten): diferentes do faroeste habitual, melodramáticos e com clima de tragédia. Tanto em Duelo ao sol/King Vidor quanto em O último pôr do sol/Robert Aldrich há uma pitada de Shakespeare (Romeu e Julieta), enquanto o segundo nos remete também a Eurípedes (Electra). Um final trágico, de formas diferentes, aguarda os protagonistas em ambos os filmes. As direções e elencos são de primeira: em Duelo…, Vidor trabalha com Jennifer Jones, Gregory Peck, Joseph Cotten e Lillian Gish; Aldrich, em O último…, comanda Kirk Douglas, Rock Hudson, Dorothy Malone e o mesmo Joseph Cotte.

UM GÊNERO FEITO DE GRANDEZA E HEROÍSMO

 

Diante desse aparente empate, eu me volto para O último pôr do sol, que os críticos apontam como um filme menor de Aldrich, talvez um nota 7 entre seus mais de 30 trabalhos, alguns nota dez,  como Os doze condenados/1967. Já se vê que minha opinião é pessoal, intransferível e nada técnica. O western é feito de tipos impregnados de grandeza e heroísmo, ética, bravura e nobreza; o caráter dos personagens de Jones e Peck me desagrada, a sordidez do mocinho bandido não me atrai: não vejo cinema como reflexo do real, mas como fuga, uma forma de escapismo romântico. Talvez seja por isso que Tropa de elite não me empolga. De cruel já me basta o dia a dia.

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A BAHIA E NOSSAS “VOCALISTAS ANÔNIMAS”

Dia desses, um crítico mal informado lamentava-se da falta de grandes vocalistas negras na MPB. Sua comparação lacrimosa era com os Estados Unidos, o que, à primeira vista, lhe dá razão. Mas só à primeira vista.  É claro que não temos Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald, Nina Simone, Billie Holiday, Dinah Washington e Carmen McRae (que são patrimônio dos estadunidenses), mas somos a terra de Rosa Passos, Virgínia Rodrigues, Márcia Short e da ilheense Clécia Queiroz. Se a Bahia e o Brasil não apóiam essas artistas – cujo mercado está mais no exterior do que entre nós – é outra história.

TERRA DO GARAGEM E DO CAMISA DE VÊNUS

A visão de que a Bahia pós Caymmis, Caetano, Gil e Tom Zé só produz submúsica de trio elétrico é outro equívoco. Aqui foram registradas poderosas incursões no instrumental e no pop brasileiro: no primeiro, destaque para o jazz do grupo Garagem (em atividade há mais de trinta anos); o segundo tem como principal representante o Camisa de Vênus (com quase igual longevidade, apesar de alguns períodos de saída e regresso aos palcos). E mesmo quem, como eu, não é especialista, sabe que, além das deusas eleitas pela mídia, aqui se faz arte, arte baiana e negra, sobretudo.

ALOBÊNED, O FURACÃO NEGRO DE ITABUNA

E para dizer que não falei de flores itabunenses, afirmo me faltar engenho e arte para saber se Alobêned é ou não uma grande cantora (dúvida que mantenho quanto a Maria Betânia, mas nunca tive a respeito de Gal). Sei é que esse furacão negro (assim como Betânia é uma estrela acima de qualquer suspeita) é uma força da natureza, uma rainha além da preferência de meros mortais como este colunista. Se querem compará-la, não sugiro as três cantoras brancas xodó da mídia, mas outra monarca africana: Margareth Menezes. Findo meu espaço, provoco: Quem sabe a razão do nome Alobêned?

NA POLÊMICA, VOU DE VIRGÍNIA RODRIGUES

Quando o Carnaval da Bahia entra em discussão, vou de Virgínia Rodrigues, uma das grandes vocalistas baianas “malditas”: lançou seu primeiro CD em 1997 (Sol negro), tendo as bênçãos de Caetano Veloso (direção), Gilberto Gil, Milton Nascimento e Djavan (participações) – e ainda assim se mantém quase “ilustre desconhecida”. É “uma das mais impressionantes cantoras que surgiram no Brasil nos últimos anos” – isto não foi dito pela crítica brasileira, mas pelo The New York Times. Na minha modesta cedeteca há ainda Mares profundos (com temas de Baden Powell) – “importado”, évidemment. Clique.

 

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(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

SHERLOCK HOLMES, BEATLES E JESUS CRISTO

Ousarme Citoaian

Não entro nessa especulação sobre se Os Beatles eram mais populares do que Jesus Cristo. Mas estou certo de que Sherlock Holmes rivaliza com todos eles. É difícil, em qualquer literatura, encontrar alguém tão conhecido quanto o personagem criado pelo oftalmologista desempregado Arthur Conan Doyle. “Nascido” na novela Um estudo em vermelho/1887, cujo título é um achado, seu endereço (221B, Baker Street) – que agora abriga o museu Sherlock Holmes – até hoje recebe cartas de pessoas buscando a ajuda do detetive famoso para solucionar crimes verdadeiros. Mas eu queria falar de frases, não de literatura de mistério.

A FAMOSA FRASE QUE DOYLE NUNCA ESCREVEU

Todos conhecem a frase que o investigador de Doyle repetia, dirigindo-se de forma irônica ao médico John Hamish Watson, companheiro de pensão e narrador das aventuras de Holmes. Elementar, minha cara leitora: a frase é um embuste que o mundo assimilou. Tanto quanto o cachimbo de cabo curvo, a expressão “Elementar, meu caro Watson” foi criada no teatro, não no consultório ocioso do médico. Há críticos a sustentar que ela foi pronunciada uma vez, em Um estudo… – o que é desmentido pela tradução brasileira, ao menos nas duas edições que conheço. Mas mitos do nível de Holmes não ficam isentos dessas atribuições.

DE GAULLE, MAU HUMOR, QUEIJOS E VINHOS

Ao presidente Charles André Joseph Pierre-Marie De Gaulle (1890/1970) é atribuída a frase “O Brasil não é um país sério” (Le Brésil n’est pas un pays sérieux). De Gaulle morreu negando o dito, e o diplomata brasileiro Carlos Alves de Souza afirma no livro Um embaixador em tempos de crise/1979 que o presidente francês nunca falou isso. A cientista política francesa Annick T. Melsan vasculhou os escaninhos da diplomacia de Paris e nada viu que confirmasse essa grosseria do velho militar. A boutade de mau gosto foi divulgada pelo correspondente Luís Edgar de Andrade, do Jornal do Brasil, e nunca mais nos abandonou.

A FRASE SERVIU PARA CRITICAR A DITADURA

O Brasil adotou o lema na ditadura militar, e ainda o conserva. De acordo com Mme. Melsan, isto “foi importante por ajudar na crítica ao sistema”, e a expressão “poderia ser de De Gaulle ou de outro europeu qualquer, devido à visão que se tinha do Brasil, como país do carnaval e do samba”. Certa vez, o presidente Chirac abriu uma coletiva com jornalistas brasileiros, brincando: “O Brasil é um país sério”. E é, diz La Melsan, mas “o problema é fazer os brasileiros acreditarem nisso”. De De Gaulle, prefiro outra frase: “Como se pode governar um país que tem 246 espécies de queijo?” Ele se esqueceu das centenas de tipos de vinho.

ESTRANHAS OPINIÕES A QUE TEMOS DIREITO

Uma espécie de enquete na tevê, quando um casal quase troca tapas, na dúvida sobre quem deveria sair do BBB, me desperta para os estranhos critérios que as pessoas usam para julgar o mundo. Perguntaram a Rubem Braga se ele acreditava em disco voador: “Não”, disse prontamente o cronista. “Por que não?” – insistiu a repórter. “Porque até hoje só vi dois”. Tenho um amigo que questiona as pesquisas em geral e as do Ibope em particular, dizendo que elas são “armadas”, sem exceção.  E tem o que considera uma justificativa irretocável: “Eu nunca fui entrevistado”.

DO BBB AO ASSASSINATO DE ODETE ROITMAN

Eu também não, mas em vez de lamentar, comemoro.  Tenho verdadeira paranoia de pagar mico diante da pergunta do entrevistador. Por exemplo, responder a esta profunda indagação filosófica que a Globo propõe semanalmente aos brasileiros nas ruas: “Quem deve ser eliminado do BBB?” Como diabos hei de saber a resposta disto, se nunca me foi dado assistir a um BBB que fosse? É mico, na certa.  Uma vez topei com uma equipe de tevê e uma repórter que andava em minha direção, com jeito de quem vira uma vítima, perdão, um potencial entrevistado. Desguiei, escafedi-me. À francesa.

CANDIDATO AO APEDREJAMENTO “CULTURAL”

Nada contra a bonita repórter regional, mas é que temi, devido à moda em vigor, que ela me perguntasse quem matou Odete Roitman.  Se milhões de pessoas assistiram à novela (é o que dizia o Ibope!), se o País inteiro parou para descobrir quem matara dona Odete, minha ignorância do tema era totalmente inadmissível, ofensiva à cultura nacional, talvez uma forma de esnobismo. Dar minha (falta de) opinião seria me oferecer ao apedrejamento “cultural” ou à exibição em feira, como um ET senil. Acho que fiz bem em fugir. E, pasmem, até hoje não sei (nem quero saber!) quem matou Odete Roitman.

EMBELEZAR O TEXTO NÃO É FAVOR, É DEVER

Por certo, revelar algum deslumbramento com o ”falar bonito” (referimo-nos, especificamente, a Gilberto Gil) não será do agrado de ponderável corrente de linguistas. Esta, em defesa de uma suposta clareza da comunicação, defende como fundamental apenas que a mensagem saída do emissor seja entendida pelo receptor. É a valorização única do conteúdo, em detrimento da forma – ou, num jeito muito surrado de simplificar, “se você entendeu, está certo”. No meu modesto modo de ver, embelezar o texto não é favor, mas dever de quem utiliza a chamada linguagem culta, pois beleza é qualidade de estilo, definida nos manuais: conteúdo é preciso, beleza também é preciso.

A IMAGEM QUE VALE MIL PALAVRAS: BOBAGEM

Atribuída ao poeta chinês Lin Yu-Tang, a frase “uma imagem vale mais do que mil palavras” entrou para o domínio público, de tão repetida. É uma bobagem que Millôr Fernandes (foto) já desmontou, ao questionar: “Se uma imagem vale mais do que mil palavras, diga isto com uma imagem”. Palavras são palavras, valores insubstituíveis. No jornalismo, imagens têm grande peso, mas são coadjuvantes. O texto, sim – com ritmo e som adequados, novo sem ser pedante – é protagonista. Creio na busca por le mot juste,  não apenas para melhor definir uma coisa, ação, sentimento ou conceito, mas como o termo que melhor soa, o mais bonito, o mais colorido, o que emoldura nosso pensamento.

TEXTO AGONIZANTE, SUFOCADO EM PURPURINA

Perdoem-me se, amparado em Lacan-Barthes, já disse isto: para algumas pessoas, a língua materna é objeto de prazer, ainda que elas tenham, como eu, musa calada e talento estreito. O indivíduo que escreve brinca com o corpo da mãe: ele o glorifica, embeleza, endeusa, avilta ou despedaça – mas não me intimem a aprofundar a discussão, pois me falecem condições para tanto. Sugiro que se queixem a Lacan (foto), Freud e seguidores, pois o papel a mim reservado é tão só o de agente provocador. Entre nós, o texto agoniza entre fotos de purpurina em colunas sociais, clamando por justiça, enodoada a memória dos clássicos. Balbucio virou fala; texto tatibitate, jornalismo.

Clique e veja/ouça Gil “falando bonito” de Vinícius de Morais.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

O CACOETE, ANTIGO INIMIGO DA LINGUAGEM”

Ousarme Citoaian

Dentre os vícios que nossa linguagem oral adquire, um dos mais incomodativos é o cacoete – o uso repetitivo de palavra ou expressão. Conheci um prefeito de Itabuna que era incapaz de fazer uma frase sem antecedê-la de um “realmente”. Criava-se uma situação esdrúxula nas entrevistas. Por exemplo, se algum puxa-saco lhe perguntava  como estava passando de saúde, a resposta vinha mais ou menos neste formato: Realmente, eu estou… E este nem é dos piores. Ruim mesmo é quando o cacoeteiro usa perguntas (sabe, entendeu, percebe?). O ex-jogador Pelé termina 99,99% das frases com uma amolante interrogação: entende?

UMA EXECUÇÃO “TREMENDAMENTE DOLOROSA”

Em Ilhéus, famoso professor de História do lendário I. M. E. (na foto de Mendonça) tinha, apesar de sua riqueza vocabular, predileção pelos termos “tremendo” e “doloroso”. Toda ocorrência incomum, chocante, era para ele “uma coisa tremenda” (ou “dolorosa”). “Certos” alunos anotavam as vezes em que ele dizia tais palavras e, ao fim da aula, não raro discutiam: “quatro tremendos e dois dolorosos”, dizia um; “foram quatro tremendos e três dolorosos”,  contestava o outro. Certo dia, o mestre, emocionado ao descrever, em cores vivas, a execução de Tiradentes, disse ter sido aquilo um ato… “tremendamente doloroso”. Foi difícil conter nosso entusiasmo.

ILUSTRE, ELEGANTE, PREPARADO E ÍNTEGRO

A referência, se parece jocosa, não teve essa intenção. Ao contrário, registra, com respeito e saudade, a ausência “dolorosa” (se me permitem) de um ilustre, preparado e dedicado educador, homem público reto, decente, elegante no trato, íntegro como poucos (foi secretário da Educação de Ilhéus), morto em 2008, em Brasília: Leopoldo Campos Monteiro, sergipano de nascimento e ilheense por escolha – e que nos faz hoje uma falta “tremenda”. Autoridade em História (o Palácio Paranaguá é nome sugerido por ele), também sabia muito de economia municipal, heráldica e numismática. O brasão de Ilhéus, criado em 1954, é de sua autoria.

PINTURA COM SOBRAS DE TINTA ROXO-TERRA

Por falar em Instituto Municipal de Educação (I. M. E.), ele acaba de receber mais um desserviço do poder público: uma pintura ao belo estilo “mistura de tintas”, indigna do prédio que foi modelo de cartão postal de Ilhéus. Essa intervenção – ao que parece, feita com sobras de material – agride o olhar e traumatiza a história, sugerindo obra de quem não tem sequer noção do que o I.M. E. significa para a cultura local. O tempora, o mores! (“Oh tempos, oh costumes!”), diria o cônego Mário, latinista da casa, que deve estar – tanto quanto Leopoldo, Mário Pessoa, Eusínio Lavigne, Heitor Dias e outros – dando pulos no túmulo.

ABRIL DESPEDAÇADO QUE NUNCA TERMINOU

Não pretendo perder de vista que há 47 anos, naquele abril despedaçado de 1964, ocorreu no Brasil um golpe militar de consequências desastrosas.  E no conjunto da burrice que se institucionalizou no país – quando algumas das maiores inteligências nacionais foram engessadas – aparece com destaque a tentativa de prisão de famoso teatrólogo, que, felizmente para as nossas relações diplomáticas com a Grécia, não aconteceu. Aliás, tal prisão seria uma absoluta impossibilidade histórica, só admissível por um governo que não tinha cabeça. Aconteceu no Teatro Jovem, no Rio de Janeiro, no fim dos anos 60.

MULHER MORRE POR CONTESTAR LEI INJUSTA

Levava-se a tragédia Antígona, de Sófocles, peça escrita há mais de quatro séculos a.C. Recorde-se que Antígona é irmã de Etéocles e Polinice, e os três são filhos de Édipo (aquele mesmo!), que morrera tragicamente. Os dois irmãos morrem em luta (um contra, outro a favor de Tebas). Creonte, o governador, determina que um dos mortos, o que era “amigo” da cidade, tivesse honras fúnebres e ao outro, “traidor”, tudo fosse negado – e seria também traidor quem não cumprisse esse édito. Antígona se insurge contra a decisão e o governador, seu cunhado, a condena à morte.  Creonte acha que todos são iguais perante a lei.

“AI DE MIM!”, O GRITO DOS TORTURADOS

Um bando de agentes do governo invadiu o Teatro Jovem, de pergunta em punho: “Onde está o Sr. Sófocles? Temos ordens de levá-lo para interrogar”. Como fazer aquela gente perversa entender que o autor morrera há 406 anos antes de Jesus? Mas milagres acontecem. Eles entenderam,desistiram da “prisão” e se contentaram em tirar a peça de cartaz, alegando que a mesma era subversiva. O grito secular de Antígona, feito por Anecy Rocha, irmã mais nova de Glauber (Ai de mim, zombam da minha desgraça!) prenunciava a noite sem luz que viria. Este registro é em homenagem aos que tiveram as unhas arrancadas a alicate. Sófocles escapou.

CARNE FRITA, A LENDA, PASSOU POR AQUI

A citação do livro Malagueta, Perus e Bacanaço, há dias, trouxe à baila o nome de Carne Frita (Walfrido Rodrigues dos Santos), a maior lenda da sinuca no Brasil. Sua fama foi feita no boca a boca, num tempo em que a mídia não divulgava o joguinho, considerado coisa de vagabundo. Mesmo assim, terminou na televisão e no cinema. Alagoano de Penedo (há quem diga que ele nasceu em Propriá/SE), viajou muito pelo Brasil. Em Itabuna, teria perdido para Rui Falcão (provavelmente o maior jogador que o Sul da Bahia já teve), num match memorável travado no Elite Bar. Ganhou poucos títulos: quando a sinuca foi organizada como esporte ele teve a visão prejudicada por um acidente. Mora em São Paulo, e joga raramente.

ITABUNA JÁ PRODUZIU UM GRANDE CAMPEÃO

O itabunense Rui Matos de Amorim, o Rui Chapéu (foto), foi motorista de caminhão até os anos 70, quando largou a atividade para viver do seu talento, a sinuca. Conta que não fez isso antes devido ao preconceito que tinha de enfrentar (o jogo era tido como coisa de malandro). Embora tenha uma penca de títulos, Rui não gostava de competir no Brasil, pois os prêmios são pagos em troféus. “Os campeonatos não rendem prêmio em dinheiro, e eu precisava levar dinheiro para casa. Nós não íamos comer as taças”, brinca. Da segunda metade dos 80 até 1992, deu aulas de sinuca na Rede Bandeirantes, transmitidas aos domingos. Seu maior feito foi, em1981, vencer o inglês Steve Davis, campeão mundial.

NOEL “FECHA”, NA MAIOR TACADA POSSÍVEL

Noel Rodrigues Moreira, o Noel, 39 anos, é de Roncador (área rural do Paraná), e um dos mais temidos tacos da nova geração. Desde os sete anos se interessava pelo joguinho (próximo à casa dele havia um boteco, com uma velha mesa, sua primeira experiência). Aos 18, já em Curitiba, deslumbrou-se com o estilo do goiano Roberto Carlos, intensificou os treinamentos e se profissionalizou. Dentre os títulos conquistados, estão os de campeão estadual (várias vezes), campeão brasileiro (duas vezes) e campeão sul-americano. Aqui, ele dá uma demonstração de como “fechar” o jogo, com a maior tacada possível: 112 pontos (observe que ele faz a proeza de encestar a bola sete treze vezes).

(O.C. )

UNIVERSO PARALELO

CRONISTA CHORA PELA MULHER QUE “PARTIU”

Ousarme Citoaian

Cada língua tem expressões que a enriquecem, figuras que a embelezam. Rubem Braga, em A borboleta amarela/1950), conta a aflição que passou num hotel de Paris, ao telefonar para uma amiga. Elle est partie (“Ela partiu”), disseram, do outro lado da linha. O cronista foi tomado de funda tristeza: imaginou a amiga morta, ou, no mínimo, vagando por cidades distantes, perdida no nevoeiro de um inverno rigoroso, talvez numa estação da Irlanda ou da Espanha… Meia hora depois o telefone da cabeceira tocou – e era a voz brasileira já dada como perdida. A moça explicou que “partira” para fazer umas compras, já estava de volta. Ressuscitara.

A VOZ MAIS AMADA DE TODAS AS AMADAS

Depõe o sabiá da crônica, como o apelidou Stanislaw Ponte Preta-Sérgio Porto (foto): “Não sei se ela estranhou o calor de minha alegria; talvez nem tenha notado a emoção de minha voz ao responder à sua. Era como se eu ouvisse a voz mais amada de todas as amadas, salva de um naufrágio que parecia sem remédio, em noite escura. Quando no dia seguinte nos encontramos para um almoço banal num bistrô, eu já estava refeito; era o mesmo conhecido de sempre, apenas cordial e de ar meio neutro, e ela era outra vez ela mesma, devolvida à sua realidade banal de pessoa presente, sem o prestígio misterioso da mulher que partira”.

POBRE MORA ONDE JUDAS PERDEU AS BOTAS

Os cursos de inglês (e há um deles em cada esquina) recomendam cuidado ao traduzir a expressão It’s raining cats and dogs, que, nessa língua de barbares, não quer dizer que as nuvens nos estão bombardeando com cães e bichanos, mas que está chovendo muito.  Em português, dir-se-ia que chove a cântaros; em “brasileiro”, que está caindo um toró. Temos, sim, grande cabedal nessa área. Aqui, procuram-se chifres em cabeça de cavalo, a corrupção dá no meio da canela, a mídia bota a boca no trombone, os pobres moram onde Judas perdeu as botas (mesmo lugar onde o vento faz a curva), pagam o pato e ficam a ver navios.

COM A GLOBALIZAÇÃO, A BOBAGEM CRESCE

A repórter da Rede Record, descrevendo as consequências de um acidente ecológico num rio, afirma: “O cheiro de óleo aqui é bastante forte”. Mas sua coleguinha da Globo, no Telecurso, conseguiu sair-se pior: “O Japão foi bastante arrasado na Segunda Guerra”. No começo, empregar bastante em lugar de muito era só um regionalismo. Hoje, com essa tal de globalização, a bobagem rompeu a fronteira paulista, espalhou-se feito chuchuzeiro de beira de cerca e atravessou mares nunca dantes navegados: os exemplos citados ocorreram em Cascavel/PR e Rio de Janeiro. E o segundo foi numa teleaula, o que lhe dá risco de crescer e multiplicar-se.

A PALMATÓRIA (AINDA BEM) FOI PROIBIDA

Muito e bastante não são sinônimos, salvo na linguagem das ruas (em São Paulo e adjacências). Seus significados principais são bem conhecidos: muito é em grande quantidade, em abundância, excessivo, demasiado; bastante (de sentido mais restrito) é o que basta, suficiente, necessário, na medida certa. A repórter, se não estivesse em moda o horror à simplicidade de estilo, diria: “O cheiro de óleo aqui é muito forte” – e guardaria o bastante para momento oportuno. Quanto a dizer (numa aula!) que o Japão foi bastante arrasado, não há perdão possível: é erro grosseiro que, aplicada a lei do professor Chalupp, seria punível com bolos de palmatória.

A REGRA: “COMPLICAR SE FOR POSSÍVEL”

O verbo arrasar é parecido com o verbo engravidar, se me entendem. Assim como as mulheres não ficam “bastante grávidas”, um país (o Japão, no caso) não tem como ficar “bastante arrasado”, a não ser na cabeça oca de certos profissionais. Nos dois casos, curiosamente, deve-se dar folga, igualmente, a muito e bastante: mulher “muito grávida” seria uma estupidez semelhante à mencionada. Resumindo, o Japão foi arrasado (assim, sem qualquer penduricalho), enquanto a mulher da nossa hipótese ficou grávida (embora possa também ficar arrasada com tal ocorrência). A regra nas redações parece ser “complicar, sempre que possível”.

UM PROFESSOR QUE DISPENSAVA PICILONES

Se o folclórico professor de Direito alguma vez maltratou seus alunos (sempre com um dichote na ponta da língua), a mídia regional o maltratou muito mais: chamou-o de Acioly, Aciolly, Accioly, Acciolly e, em menor grau, Acioli. Repórteres precisam, diante de nomes fora do comun, ter comportamento diferente dos maus policiais: antes de bater, perguntar. Certa vez, por imposição profissional, inquiri o citado professor sobre como grafar seu nome.  A resposta veio em jeito irritado-gozador-didático, marca Acioli da Cruz Moreira: “Meu nome não tem consoante dobrada nem picilone”. Picilone? Sim, picilone.

O PICILONE É ESNOBADO PELOS DICIONÁRIOS

O picilone é uma espécie de filho bastardo da língua portuguesa: existe, mas os filólogos lhe fecham os olhos, viram a cara e arrebitam o nariz. Está na rua e em registros de obras artísticas, mas os dicionários não o aceitam. É palavra de indisfarçável sabor brasileiro, contra o ípsilon, que tem gosto de coisa importada. O picilone não está no Aurélio, nem no Michaelis, não tem assento no Priberam (português), nem, suponho, no Houaiss. Zé Dantas, em ABC do Sertão/1953 (com Luiz Gonzaga), diz que “até o ípsilon,/lá é picilone” e, ao “ensinar” o alfabeto lista: “… tê, u,vê, xis, picilone e zê”.

NOEL EMPREGOU A LETRA COM DOIS SENTIDOS

Houve em 1931 um Acordo Ortográfico que “cassou” as letras K, W e Y (agora reintegradas). Noel Rosa se valeu da oportunidade e fez Picilone (para a menina Yvone, irmã de um amigo), quando empregou dois sentidos da palavra: como gíria e como letra do alfabeto. “Yvone, Yvone/eu ando roxo/pra te dizer um picilone”, canta o Poeta da Vila, e, em seguida, diz o picilone: “Já reparei outro dia/que o teu nome, ó Yvone,/na nova ortografia,/já perdeu o picilone”. O coco Sebastiana, de Rosil Cavalcanti/1953, fala de uma comadre Sebastiana que foi convidada para dançar e xaxar lá na Paraíba, e deu o que falar.

DESVAIRADA, SEBASTIANA GRITA: PICILONE!

Essa respeitável senhora “veio com uma dança diferente e pulava que só uma guariba” (espécie de macaco bugio, barbado e barulhento).  Pois saibam todos que essa surpreendente comadre Sebastiana, desvairada no meio do salão, gritava (por motivações incertas e não sabidas, mas com o testemunho insuspeito do grande Jackson do Pandeiro) “a, e, i, o, u… picilone!”. A comadre Sebastiana era, já se vê, atrevida, pois meteu um picilone entre as vogais, sem pedir licença aos linguistas. Rastreado em Ilhéus (1996), Pernambuco (1953), Rio (1931) e Paraíba (1953), por que o picilone não está nos dicionários?

A “ARITMÉTICA” DE JACKSON DO PANDEIRO

É clicar e ver o Rei do Ritmo, um cantor que divide as frases com maestria, uma espécie de professor da matéria: o paraibano Jackson do Pandeiro (1919-1982), mostrando o picilone da comadre Sebastiana (o picilone de Zé Dantas está num clipe especial desta coluna – reveja aqui).



(O.C)

UNIVERSO PARALELO

CAYMMI E A ESCOLHA DO VERBO ACONTECER

Ousarme Citoaian

Falamos aqui do verbo acontecer e seu bom uso, exemplificando com o clássico de Caymmi, Não tem solução (“Aconteceu um novo amor/ que não devia acontecer…”). Como conversa puxa conversa, chegamos hoje a outras acontescências (o termo foi inventado por Vilma Guimarães Rosa, que tem pedigree suficiente para tanto): o verbo está bem distribuído na MPB, pois só o mesmo Caymmi o empregou com certa prodigalidade em composições além da citada.  “Acontece que eu sou baiano,/ acontece que ela não é/ minha Nossa Senhora,/ meu Senhor São José”, diz ele em Acontece que eu sou baiano/1943.

EM CARTOLA, NINHO VAZIO, CORAÇÃO FRIO

Numa de suas melhores canções românticas, o cantor do mar da Bahia é didático sobre o sentido que defendemos para o verbo acontecer: “O amor acontece na vida/ estavas desprevenida/ e por acaso eu também” (Nem eu/1949). Perceba-se que o acontece é algo surpreendente, não está planejado, atinge os amantes distraídos. Cartola não deixa por menos: “Acontece que o meu coração ficou frio/porque nosso ninho de amor está vazio” – trazendo o mesmo sentido do não planejado: de repente (não mais que de repente), a ave bateu asas, ganhou o espaço, deixou vazio o primitivo ninho. Acontece.

O AMOR NOS IMPÕE URGÊNCIA E SURPRESA

Depois de Caymmi e Cartola, chega a vez de Abel Silva (com João Bosco), em Quando o amor acontece/1976: “O amor quando acontece/ a gente logo esquece/que sofreu um dia”.Vinícius disse que a mulher amada não vem; surge. Então é isso. Mesmo se estamos à espera, o ser amado acontece, emerge, sempre nos pega desprevenidos, nos impõe urgência e surpresa, taquicardia e respiração entrecortada. Os meninos Kim, César e Júlio, do ex-gospel Catedral atestam (Quando o amor acontece): “Quando o amor acontece/ é difícil dizer não”. Tudo muito longe da pobreza do acontece das colunas sociais e dos convites mal redigidos.

JORGE AMADO E SUA “SINFONIA INACABADA”

Bóris, o Vermelho é talvez o livro não publicado que mais teve espaços na mídia. Jorge Amado não lhe pôs o ponto final (e determinou que seus trabalhos não concluídos jamais venham a público). Bóris, de nome russo, é um hippie de Itapuã, de cabeça oca, interessado somente em surfe e erva. O sobrenome Vermelho se impôs devido a seu cabelo sarará. É na ditadura militar e um cara chamado Bóris, o Vermelho não fica impune, segue o figurino: prisão, tortura e morte (talvez por ser “morredor”). Apesar da cobrança dos rodapés dos jornais, o livro cedeu espaço para Tocaia grande, O sumiço da santa e outras obras, permanecendo como uma espécie de sinfonia inacabada do filho de Ferradas.

LIVRO QUE ESTAVA “EM TODOS OS JORNAIS”

Certa vez, numa coletiva em Ilhéus, Jorge Amado (foto) foi “alugado” por uma repórter, que lhe fez várias perguntas mais ou menos ociosas, às quais o escritor respondia pacientemente. Mas tudo tem limite. Lá pras tantas, quando ela perguntou se ele estava trabalhando “em algum livro, atualmente”, o autor de Terras do sem fim quase saiu do sério. Respirou fundo, virou-se para o poeta Telmo Padilha, que o acompanhava naquela aventura, e soltou, entre dentes: “Telmo, assim eu não aguento”. Mas agüentou. Repregou o sorriso no rosto, chamou a repórter de “minha filha” e lhe explicou, com certo enfado, que tecia um romance (era Bóris, o Vermelho), que estava “em todos os jornais”.

GREEN, TRANQUILO: “LEIA MEUS LIVROS”

Mas nem todo mundo tem a bonomia de Jorge Amado. Em 1958, o escritor Graham Greene (foto) esteve no Brasil e, ainda no aeroporto Tom Jobim (então chamado Galeão), deu uma exclusiva ao irrequieto repórter Severino de Albuquerque, dos Diários Associados. Ou melhor, quase deu, pois só houve uma pergunta e uma resposta. Severino: Mr. Greene, quais são os livros que o senhor escreveu? Mr. Greene (com tranquilo ar britânico, mesmo sem cachimbo): Meu filho, volte para casa, leia meus livros e só depois venha me entrevistar. A historinha eu tirei do delicioso Nonadas – O livro das bobagens (Flávio Moreira da Costa – Francisco Alves/2000), ótima leitura para pessoas de bom ou de mau humor .

ANTIGA LIÇÃO QUE MUITOS NÃO APRENDERAM

Há quem ache que Greene (1904-1991), autor de clássicos lidos em todo o planeta (por exemplo, O poder e a glória, Nosso homem em Havana), foi muito duro com o repórter. Eu, não (até porque ele respondeu em tom educado). A mais primária das lições que um entrevistador aprende é que ele precisa conhecer o básico sobre o entrevistado. Repórter que pergunta a um escritor (músico, pintor, ator e outros) o que ele fez, conforme já vi em nossa mídia, revela-se, além de ignorante do assunto, despreparado profissional e grosseiro com a pessoa entrevistada. O autor de O americano tranquilo deixou uma lição que não deve ser desdenhada pelas novas gerações de comunicadores.

ATRAPALHAÇÃO AO REDOR DE POLICHINELO

Em edição recente, conhecido jornal diário de Itabuna, referindo-se a uma investigação conduzida pelo Ministério Público Estadual, afirma: “Ninguém toma conhecimento do que irá acontecer com os vereadores que tiveram participação na malandragem da Câmara”. E conclui, para minha mais absoluta palidez de espanto: “É um segredo polichinelo (sic), guardado a sete chaves”. Data vênia, creio que foi confundido o significado dessa expressão popular e antiga, velha de muitos séculos, quando ainda estava em moda a Commedia dell´Arte, talvez mãe e pai do teatro de rua.

AFINAL, O QUE É “SEGREDO DE POLICHINELO”?

Segredo de Polichinelo (assim, com preposição e P grande!) significa, ao contrário do publicado, alguma coisa que é considerada segredo, mas que todos já sabem, isto é, aquilo que alguém trata confidencialmente, mas que deixou de ser segredo, é algo de conhecimento público. A referência é ao personagem Polichinelo (na ilustração), da modalidade teatral européia (italiana, mormente) Commedia dell´Arte (com início lá pelo século XVI). Elementos mais conhecidos desse gênero são Colombina, Pierrô e Arlequim, um triângulo amoroso do Carnaval, na já longínqua era pré-trio elétrico.

PIERRÔ CHORA PELO AMOR DE COLOMBINA

Esses elementos ítalo-franceses estão incorporados à nossa cultura, via MPB: “Pierrô, Pierrô/ teu destino, tão lindo/ é sofrer, é chorar toda a vida…” (Pierrot, Joubert de Carvalho-Paschoal Carlos Magno/1932); “Um Pierrô apaixonado/ que vivia só cantando/ por causa de uma Colombina/ acabou chorando, acabou chorando” (Noel Rosa-Heitor dos Prazeres/1936); “Colombina eu amei/ mas você não quis/ eu fui para você/ um Pierrô feliz” (Colombina, Armando Sá-Miguel Brito/1956); “Arlequim está chorando/ pelo amor de Colombina/ no meio da multidão” (Máscara negra, Zé Kéti/1967).

POLICHINELO PARECE RIR DOS APAIXONADOS

Polichinelo é uma espécie de palhaço, que parece se divertir com a confusão de sentimentos que vê a seu redor: Pierrô ama Colombina (foto), que ama Arlequim, que ama todas as belas damas do salão. Na irônica canção de Noel e Heitor, o triângulo amoroso da Commedia dell´Arte aterrissa no Carnaval do Rio de Janeiro e, por extensão, na cultura brasileira. Clique e (re) veja a leitura da dupla, na voz de Betânia.
(O.C)






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