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:: ‘Universo Paralelo’

UNIVERSO PARALELO

“PREVENTIVOS” E DISFARCES DA LINGUAGEM

Ousarme Citoaian

“Acabo de fazer meus exames preventivos de câncer – e está tudo bem”, me diz a amiga cheia de esperanças numa longa vida. É interessante como as armadilhas da linguagem se disfarçam até nas frases mais simples.  Essa impropriedade repetida pela mídia tem sido divulgada pelos profissionais da saúde, levando-a à consagração pelos leigos. Como seria bom para a humanidade que o câncer pudesse ser “prevenido”. Mas não pode. A rigor, os exames “preventivos” (câncer de mama, próstata, colo do útero, pele e outras formas) são apenas “detectivos”: vão mostrar se o indivíduo está ou não está com a moléstia – mas não há meio, pelo menos até agora, de prevenir o surgimento dela.

“PREVENÇÃO”: DENGUE, SIM;  CÂNCER , NÃO

Quando um homem faz exame de próstata, por exemplo (o folclórico toque retal, fonte de tantas piadas de mau gosto), não previne o câncer nessa glândula, somente fica sabendo se a tem doente. Com sorte, o urologista lhe dirá: “Você não está com câncer de próstata” – mas não inventaram ainda tecnologia capaz de impedir que o câncer apareça, mais tarde. Vale o mesmo para os casos de pele, útero, seios, pâncreas ou o que mais seja. É diferente da dengue: se houver combate eficiente ao mosquito transmissor (que tem gente chamando de aédes egípti – mas que é édes egípti), não haverá a doença: pode-se prevenir o surgimento da dengue; do câncer, lastimavelmente, não.

GAY TEM PRÓSTATA – E QUEM TEM, TEM MEDO

Tecnicamente, esses exames ditos preventivos, são “de detecção precoce”: visam detectar (descobrir, revelar, encontrar) a doença logo cedo, o que a faz curável – e, muitas vezes, esse exame será a diferença entre a vida e a morte. E já que adentramos o perigoso campo da medicina, é conveniente lembrar que estudos recentes apontam a alta probabilidade de que todos os homens terão câncer de próstata (desde que vivam o suficiente, até os 100anos, por exemplo). Por isso, a importância do exame de detecção precoce, para que o tratamento seja feito a tempo. E não há vantagem em ser gay: a natureza dividiu nossa espécie em dois gêneros, um deles tem próstata – e quem tem, tem medo.

A TELEVISÃO E SEU GOSTO PELAS FÓRMULAS

Fui levado a trabalhar em televisão (o que a gente não faz para pagar em dia o uisquinho com água de coco!) lá pelo fim dos anos oitenta. Naqueles tempos imemoriais, topei com uma coisa que muito me incomodava: a repetição de fórmulas na chamada linguagem televisiva. A mais enjoativa delas era, no encerramento do telejornal (e de outros programas), o redator escrever (que seria repetido pelo apresentador) “o jornal tal fica por aqui”. Esse “fica por aqui” me soava execrável – não pela expressão em si, mas pela forma como era dita a toda hora, em todas as emissoras, em diversos programas.

“FICA POR AQUI” É DO TEMPO DAS VÁLVULA

Na semana passada, passadas mais de duas décadas, ouço o impecável William Bonner encerrar o JN com estas palavras abomináveis: “O Jornal Nacional fica por aqui”. Leitores mais “ligados” em tevê saberão se foi uma recaída ou se é a permanência da antiga prática delituosa – que eu imaginava morta e sepultada. Não vejo muito televisão, a ponto de saber se isto ocorre todas as noites – se for, é lamentável que tal lugar-comum, já insuportável “no meu tempo”, seja veiculado até hoje, e na maior rede brasileira. Seria outra mostra de que o público é muito condescendente com as bobagens divulgadas pela mídia.

NÃO CONFUNDIR CLAREZA COM INDIGÊNCIA

Excesso não se comete ao lembrar que originalidade (extirpar do texto as imitações, frases repetidas, banalidades e chavões) é qualidade fundamental do estilo. Não se trata de escrever ou falar “difícil”, “bonito”, de forma hermética (o que cairia no outro extremo, que é o estilo empolado, portador do pecado contra a clareza). Qualidades de estilo que quem escreve precisa sempre manter à vista são  harmonia, correção, precisão, nobreza e naturalidade – além das duas citadas. No santo nome da clareza, a tevê sacrifica a originalidade e mergulha na indigência estilística. Parece ter sido o caso do JN.

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CANTAR A HISTÓRIA DOS HOMENS E DO MEIO

Manuel Bandeira disse (cito de memória) que “É poeta quem inventa/em boa improvisação/como faz Dimas Batista/e Otacílio, seu irmão/como faz o violeiro/bom cantador do sertão”. O Michaelis tem uma definição ótima para cantador: “Cantor popular que, cantando, narra a história dos homens e do ambiente que o cerca”. Aurélio simplifica, ao afirmar que a característica do cantador é a capacidade de improvisar, enquanto Câmara Cascudo aprofunda o tema: “o cantador  é representante legítimo de todos os bardos menestréis”. Profissional nascido da linha direta dos violeiros nordestinos (e pesquisador da cantoria), Luiz Vieira não gosta de ser chamado de cantor, mas de cantador.

PRESENÇA DA POESIA POPULAR NORDESTINA

Cantor-cantador, compositor e radialista (nascido em Caruaru, cedo se mudou para o Rio), começou cantando as coisas da moda (valsa, bolero, samba-canção), até encontrar seu próprio caminho: canções com versos de bom gosto, linguagem direta, simples e bem-humorada – tudo isso temperado com a memória da poesia popular nordestina (a que chamam “cordel”). Luiz Vieira, marcado por forte atavismo, é ele e seu passado, presente nas conversas, estórias e canções. Foi “descoberto” somente em 1953 (após muitos anos de luta), com Menino de Braçanã, uma toada que o Brasil inteiro cantarolou. Depois vieram Canção para Ninar Gente Grande, Na Asa do Vento, Guarânia da Lua Nova, Pagando o Pato e outras.

“TODA A RECOMPENSA DE UM AMOR SEM FIM”

É provável que Paz do Meu Amor seja o melhor exemplo da produção romântica a que nos referimos. Luiz Vieira faz um canto à mulher amada, à moda antiga. Ela silente, no pedestal, ele de joelhos, a lhe dirigir um panegírico que em nossos dias de pragmatismo amoroso soaria um tanto deslocado. Hoje, a coisa está mais para presa e predador – e a presa não é, necessariamente, o macho (na fórmula avant la lettre de João do Vale, “pega, mata e come!”). Paz do Meu Amor começa assim: “Você é isso, uma beleza imensa/Toda a recompensa de um amor sem fim” (ah, como era verde o meu vale de esperanças!). Dá vontade de dizer isto a alguém, mesmo com o risco de ser internado, urgentemente, como extravagante incurável.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

ESSES MÚSICOS E SUAS BAQUETAS PERDIDAS

Ousarme Citoaian

Um site de negócios anuncia que está à venda uma baqueta usada pelo Guns N’ Roses no último Rock in Rio. Esse troféu (à disposição dos fãs por meros R$ 250,00) teria pertencido ao baterista Matt Sorum (se é assim que se escreve, pois o grupo me é inteiramente desconhecido, graças a Deus!). Não atino como teria esse acessório ido parar no mercado, considerando que os músicos costumam ser muito ciumentos com suas coisas. Provavelmente o baterista o perdeu por acidente de trabalho, pois tais coisas acontecem mais do que nós, pobres mortais, possamos imaginar. O jornalista Ruy Castro (Tempestade de Ritmos/2007) tem uma boa história a respeito.

LIONEL HAMPTON: REGENTE E MALABARISTA

Se não conheço Matt Sorum, sei quem é Lionel Hampton (foto), o inventor do vibrafone no jazz, mas também baterista, pianista, regente e… malabarista. Hamp, como era chamado,  fazia  do palco uma espécie de picadeiro, e dos seus músicos, artistas de circo – sem prejuízo para o ritmo, a afinação ou a elegância: coreografia complicada (criada por ele), interação com o público, baquetas voando, band-leader dando pulos (o pernambucano Severino Araújo é um seguidor, com sua Orquestra Tabajara), a orquestra tocando alto, forte e certo. O objetivo de Hamp era que, num raio de 500 metros, ninguém permanecesse estático ao ouvir sua música.

DE CICATRIZES SE FAZ A HISTÓRIA DO JAZZ

Em São Paulo, Hampton fazia um longo solo com várias baquetas trocando de mãos, como num show de magia. De repente, uma delas lhe escapou (tão rápido que quase ninguém viu) e escorregou para debaixo da mesa de Ruy Castro. Este, também como um mágico (de paletó) a pôs imediatamente debaixo do braço, ficando imóvel pelo resto da noite. Na saída, soube que o músico estava furioso com a perda da baqueta, e se fez de inocente. “Ao saber da morte de Lionel Hampton, afaguei aquela baqueta cheia de arranhões, sulcos e machucaduras – cicatrizes das muitas noites em que ele a usou para escrever tantas páginas empolgantes da história do jazz”, depõe o jornalista|.

PARA NEOLOGISMO, PUXAVANTES DE ORELHAS

A gramática formal condena os neologismos.  A Estilística tem os neologismos na lista dos “defeitos” do bom estilo de escrever e falar. No entanto, eles resistem, se sobrepõem à oposição, adentram o vocabulário, consagram-se, vão em frente – passam de novidades (neo = novo) a formas consagradas. Meu professor de redação puxaria as orelhas de quem escrevesse homenagear (isto em tempos imemoriais!). Hoje, escreve-se (e se diz) homenagear e ninguém vira Van Gogh (foto) por causa disso (até porque, em nossos dias, as orelhas postas em perigo são as do mestre, não as do aluno). Prestar homenagem era a forma “certa”. Já o uso do verbo aniversariar constituía crime inafiançável.

RUI, PRECISANDO, USAVA, “SEM VACILAR”

Mas, convenhamos, dizer (a exemplo de Machado de Assis) “Ele faz anos” soa meio estranho à língua “brasileira”.  Chico Buarque já em 1966 aderiu a este neologismo (“Todo mundo homenageia/Januária na janela…”), mas poeta… pode. Mais estranho ainda ficaria se ele seguisse a norma clássica (“Todo mundo presta homenagem…/A Januária na janela…”). Rui Barbosa deu o caminho: na Réplica ao professor Carneiro Ribeiro, disse ser contra o neologismo “desnecessário”, mas que, nos outros casos, “não vacilo até em lhe assumir a iniciativa”. Acho que é isto que eu queria dizer: a linguagem, além de suas próprias regras, há de também submeter-se às regras do bom senso.

NEOLOGISMO “VELHO” É NEOLOGISMO ACEITO

O mal (ou o bem?) do neologismo é que ele envelhece. E se envelhece é porque foi aceito na linguagem, deixando de ser neologismo. Quando, há poucos anos, alguém emitiu a palavra “aidético” criou alguma comoção. Passou-se o tempo, o termo incorporou-se ao Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), já ninguém o estranha. “Espiritismo” (categoria criada pelo francês Allan Kardec) foi neologismo combatido pela língua formal… no século XIX.  Há termos que, ao contrário, aparecem e desaparecem, não “pegam”, talvez por nada acrescentarem à comunicação. No fundo, os falantes sabem, ainda que de maneira empírica, quando novos valores linguísticos devem ser aceitos ou descartados.

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EDITH PIAF: ENTRE A HISTÓRIA E A LENDA

Situada entre a história e a lenda, a vida de Edith Piaf (foto) nunca foi fácil. Conta-se que sua mãe, na miséria, deu à luz sob um poste.  Abandonada pela mãe, criada pela avó, dona de um bordel na Normandia, ficou cega dos três aos sete anos. A doença (ceratite) teve o prognóstico esperado (a cura com o tempo), mas as “meninas” de Madame Louise achavam que foi um milagre de Santa Teresa de Lisieux. Aos 15 anos (depois do bordel e de morar com o pai alcoólatra), canta nas ruas de Paris, quando, em 1935, é descoberta por um dono de boate e grava, ainda naquele ano, seu primeiro disco. Sucesso, fama e dinheiro vieram, mas o sofrimento permaneceu.

A VOZ QUE FEZ O MUNDO CANTAR O AMOR

O mundo inteiro cantou os temas de amor divulgados pela voz inconfundível de Edith Piaf: Hymne à l’amour, La vie em rose, Non, je ne regrette rien e Milord são dos mais conhecidos. É a maior chanteuse popular de todos os tempos. O grande Maurice Chevalier (foto), encantado, afirmou: “Ela canta como se estivesse se oferecendo em holocausto”. Teve vida amorosa conturbada, pela qual passaram Yves Montand e o cantor Jacques Phill, até conhecer o pugilista Marcel Cerdan, a grande paixão – e também sua maior tragédia amorosa. Quando ela se encontrava num estado de felicidade nunca experimentado, ele morreu, num desastre de avião.

MESMO NA DOR, O SHOW TEM QUE CONTINUAR

Aqui, uma cena de Piaf – Um Hino ao Amor, o momento em que a cantora descobre a morte de Marcel, e se desespera. Ele vem visitá-la no quarto, como um aviso, uma despedida, mas tudo não passa de um truque do diretor Olivier Dahan, criando um ambiente de misticismo. Marcel já está morto. Quando Piaf (Marion Cottilard) sai do quarto (vai pegar um presente para ele) a realidade a atropela: descobre que o avião do amante caíra e que a visita dele ao quarto nunca existiu. Angústia e tristeza marcam esta cena, antológica pela fusão da casa para o palco – mostrando como a arte é capaz de superar a dor. Ou… o show tem que continuar.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

A INCONTROLÁVEL “CONSAGRAÇÃO PELO USO”

Ousarme Citoaian

Antes que o mal cresça, corte-se-lhe a cabeça é provérbio (aqui emitido em formato mais “erudito”) válido também para a língua portuguesa: as formas estranhas aparecem, a mídia as repete sem analisar, o público as considera “bonitinhas” – e a desgraça está feita: mais cedo ou mais tarde, essa estranheza é registrada pelos dicionários e ganha direito de defesa em nome da “consagração pelo uso”. Não tardará muito e a forma tradicional passará a ser considerada arcaica, desusada, candidata ao esquecimento. É a dinâmica da língua, que parece vencer todas as tentativas de conservação. Apresento-me aqui na condição incomum de culpado e vítima.

NÃO EXISTE PAÍS CHAMADO ESTADOS UNIDOS

Recorro a Marcos de Castro (A Imprensa e o Caos na Ortografia), a propósito de “norte-americano”, como gentílico referente a quem nasce nos Estados Unidos da América. Também incorri no erro (com “norte-americano”) duas ou três vezes nesta coluna. Há na América do Sul um país chamado Estados Unidos do Brasil, que, a partir de 1968, mudou o nome para República Federativa do Brasil – e nunca tivemos dúvidas do seu nome: Brasil. É a mesma coisa com os EUA: o nome do país é América (não é Estados Unidos, pasmem os mais distraídos). Estados Unidos, lá como cá, é apenas uma referência. Quem nasce no país América é americano, lógico.

AMÉRICA DO NORTE É CONTINENTE, NÃO PAÍS

Todos sabem (mas são induzidos ao erro, devido à repetição desta forma arrevesada) que não existe o país América do Norte, e sim o continente com tal denominação. E o continente é mais do que os EUA: inclui México e Canadá (o maior dos três). Logo, quando alguém diz “norte-americano” nos põe diante de uma imprecisão. A que país esse alguém se refere? Todos três são norte-americanos (assim como sul-americano são Brasil, Chile, Argentina e outros oito países – além de umas possessões da França e do Reino Unido). Portanto, ao se referir ao povo daquele país de bárbaros, chame-o, sem medo de errar, americano (estadunidense também serve).

PROCURAR OBSESSIVAMENTE A MELHOR FORMA

“Eu sou meu primeiro leitor” – diz o escritor Marcos Santarrita, recentemente falecido. O autor de A Solidão do Cavaleiro no Horizonte afirma que quem escreve não deve ler a si mesmo mais tarde, pois a leitura não teria surpresas. É aquilo que Herbert Read (citado por Santarrita) explica como a capacidade de despertar na mente do leitor a cada página, a pergunta: “O que vem agora?”. E esta dúvida motivadora da leitura não a tem o autor do texto, a não ser no momento da criação. Quem relê o próprio texto (romance, conto, novela, artigo ou coisa que o valha), geralmente o faz de esferográfica em punho, na tentativa da reescrita, na busca de melhor forma.

A ESTROFE CRISTALINA, SEM UM DEFEITO

Eça de Queirós foi grande reescrevedor: transformou o conto “Civilização” no romance A Cidade e as Serras (Jorge Luís Borges era tido como “reescrevedor obsessivo”). O amazonense Milton Hatoum (Manaus/1952) revisa seu último texto há, pelo menos, três anos. Hélio Pólvora reescreveu os contos do “clássico” Os Galos da Aurora e, em outro momento, elevou Surdo, personagem de conto, ao centro do romance Inúteis Luas Obscenas. Há de se citar, também nesse grupo, Cyro de Mattos, que não reescreve muito, mas remodelou Berro de Fogo e Outras Histórias, quase vinte anos depois. Parodiam Bilac: querem que o texto saia da oficina sem um defeito, sequer.

SE EU NÃO GOSTO, O LEITOR NÃO GOSTARÁ

O texto prazeroso para o autor tem grande probabilidade de ser prazeroso também para o leitor. Na via contrária, se o autor tiver dúvidas sobre se o que escreve é capaz de lhe tocar, emocionar, dar prazer intenso (e isto pode vir em forma de risos ou de lágrimas), certamente essa fragilidade chegará à outra ponta e contaminará esse ser em extinção chamado leitor. A palavra permanece – e talvez esta seja a maior condenação a que se expõem os que de alguma forma se dedicam ao ofício de escrever. Seja romance, conto, crônica, e-mail, bilhete ou notícia de jornal, o que mais nos deve inquietar não é a página em branco, mas a página escrita.

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DOIS CANTADORES NOVOS E… “CLÁSSICOS”

Quando ouvi falar de Os Nonatos pela primeira vez, há uns vinte anos, quase os desdenhei. Imaginei (sei lá a quanto as ideias pré-concebidas nos remetem!) que se tratava de algum produto comercial do tipo Caju e Castanha. Felizmente, errei: são dois repentistas de formato “clássico”, na linha direta de Ivanildo Vila Nova, Otacílio Batista, Valdir Teles, Mocinha de Passira (uma repentista, sim senhor!), Oliveira de Panelas – gente dessa estatura. A dupla (que também poderia chamar-se Os Raimundos) é formada pelo cearense Raimundo Nonato Costa (na foto, em primeiro plano) e o paraibano Raimundo Nonato Neto. Fora da cantoria, eles faturam canções “românticas”, gênero em moda, de alto consumo.

REPENTISTAS DOS MAIS PREMIADOS DO PAÍS

Nonato Costa, além de poeta e cantador de repente com grandes recursos, é licenciado em Letras. Aos 19 anos, teve o primeiro encontro com Raimundo Nonato Neto (em Cajazeiras/Paraíba), o que definiu sua vida profissional. Quatro anos mais tarde, formariam uma das duplas mais premiadas do Brasil, no gênero cantoria. A primeira apresentação da dupla se deu em 1989 (um ano depois do primeiro encontro), numa “peleja” em São Paulo. E logo em seguida (maio de 1990), os dois conquistaram a primeira vitória importante, durante um congresso de cantadores, em Patos/PB. Dai em diante, a popularidade lhes sorriu e eles passaram a se ombrear com os grandes desse meio.

O PLANETA ESCRAVIZADO PELA TECNOLOGIA

Improvisando sobre o mote decassílabo “O planeta movido a internet/É escravo da tecnologia”, Os Nonatos venceram o V Desafio de Cantadores em 2005 (evento itinerante, realizado em várias cidades pernambucanas, incluindo Recife). O tema glosado pela dupla tornou-se muito popular, pois engloba assunto em moda nos últimos anos, as ditas novas tecnologias. É notável nessa cantoria o domínio que os dois cantadores têm da terminologia da moderna parafernália eletrônica que nos cerca. Os mais antenados com esse mundo virtual vão notar a falta de alguns termos – mas é preciso lembrar que o improviso de Os Nonatos foi feito há seis anos (e que novos hardwares surgiram desde então).

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

A ARTE E SUA INFLUÊNCIA NO NOSSO FALAR

Ousarme Citoaian

A arte, mormente a literatura, nos invade e transforma. Já falamos de expressões citadas à mancheia, por indivíduos que, talvez em maioria, jamais leram o texto de onde elas provêm: Machado de Assis (“Círculo vicioso”), Bilac (“Última flor do Lácio…”), Vinícius (“Que seja eterno enquanto dure”), Noel Rosa (“O x do problema”), Augusto dos Anjos (“A mão que afaga é a mesma que apedreja”), o indefectível Luiz Guimarães (“Depois de um longo e tenebroso inverno”) e o pegajoso Conde de Afonso Celso (“Por que me ufano do meu país”). Ultimamente está em moda surreal, mesmo para pessoas sem noção do que seja o Surrealismo, de onde vem a palavra.

SURREAL E KAFKIANO: PARA ALÉM DO REAL

Trata-se de algo absurdo, bizarro, estranho, que está numa dimensão “para além do real” (as aspas são do dicionário Priberam da Língua Portuguesa). Onde está surreal, pode-se dizer, sem prejuízo, kafkiano – e agora a influência não é mais francesa, do Surrealismo, mas alemã, da literatura do pouco lido e muito citado Franz Kafka (1883-1924). Kafka, aliás, não era alemão, mas tcheco.  E era “kafkiano”, com certeza: O Processo (meu primeiro contato foi com o filme, não com o livro), A Metamorfose e O Castelo são prova disso. Gostei de A Metamorfose, adorei O Processo (depois que li o crítico de cinema Maurice Capovilla) e fui ao fim de O Castelo só por implicância.

DITADURAS VÃO DO ESTÚPIDO AO KAFKIANO

Não se pode esquecer de dantesco, adjetivo que identifica cenas de horror semelhantes àquelas que Dante (1265-1321) descreve em A Divina Comédia (ao lado, “O Inferno”).  Mas fiquemos com kafkiano/a e este belo exemplo contado por Álvaro Almeida, do Instituto Cultural Brasil-Alemanha, em Salvador: “Na ditadura de Getúlio Vargas (1930-1945) só se podia entrar na Secretaria da Segurança apresentando a carteira de identidade. O problema é que só se tirava esse documento na Secretaria da Segurança – na qual não se poderia entrar, por falta da carteira de identidade”. Evidência de que as ditaduras costumam chafurdar entre o kafkiano e o meramente estúpido.

ENTRE A SIMPLICIDADE E AS “INVENÇÕES”

Lembram do verbo que ama a preposição? Pois é. Dizem os que entendem do assunto que tais verbos, ditos transitivos indiretos, não admitem a voz passiva. Demos o exemplo de abusar, que “geraria” abusado/abusada: “Criança era abusada sexualmente pelos dois irmãos” – diz blog de Itabuna. E nem precisa dizer qual, pois a imensa maioria dos veículos de comunicação se vale dessa forma equivocada. No caso, era muito simples trocar abusada por molestada e estaríamos em segurança. Mas a simplicidade já foi trocada, faz tempo, por “invenções” agressivas à linguagem, como esta. E há outra que está crescendo – portanto, precisa que se lhe corte a cabeça.

LÍNGUA VILIPENDIADA EM SUA ESSÊNCIA

O verbo perguntar também é chegado a uma preposição. E é verbo de muita utilidade: o repórter pergunta, o padre pergunta, perguntamo-nos (“Às vezes me pergunto…”, cantava-se no bolero antigo) e o poeta, atônito, pergunta “E agora, José?”. Nos últimos dias, mídias regionais (incluindo, ai de mim!, o Pimenta) escreveram que “o prefeito foi perguntado…”, “o deputado foi perguntado…”, o bispo foi perguntado…” – enfim, Deus, os botões e o mundo foram perguntados sobre os assuntos mais estapafúrdios. E a língua de Camões, pobrezinha, tratada a socos e pontapés, vilipendiada em sua essência, molestada em suas partes íntimas (eu quase disse abusada!).

TODOS PERGUNTAM, NINGUÉM É PERGUNTADO

Bob Dylan (foto), em canção muito cultuada, pergunta a esmo e repete que “a resposta está soprando no vento”, seja lá o que isto signifique (The answer is blowin’ in the wind). Eu gostaria de entender a frase  como “o vento está soprando a resposta”, mas quem sou eu para me aventurar nessa língua de bárbaros? Vasculho o Google e só encontro as formas “soprada” ou “soprando” (no vento), donde concluo que minha tradução não se sustenta. Voltando ao que interessa, perguntar só admite a voz ativa: qualquer um pergunta, mas ninguém é perguntado. É interrogado, inquirido, indagado, interpelado – e por aí vai. Abusado é adjetivo; perguntado não é coisa alguma.

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OS VERSOS ATINGIAM O CORAÇÃO DAS MOÇAS

Num tempo que acabou há meio século, a poesia dita rimada era muito popular. Castro Alves, Olavo Bilac, Fagundes Varela, Casimiro de Abreu e Raimundo Correia eram recitados na escola, nas festas, em casa e nos bares (então chamados botequins). Nenhum rapaz alfabetizado deixava de ter ao alcance da mão um ou outro texto de emergência, capaz de atingir corações femininos aparentemente inexpugnáveis. Hoje não mais se recita nada em canto nenhum – e o que antes arrancava suspiros de amor agora provocaria risadas de escárnio ou sorrisos anêmicos. Há muitas mulheres mais sensíveis ao batidão do arrocha e ao chamamento de vadias e cachorras do que a versos parnasianos.

A POESIA COMO “DESCANSO” DA REALIDADE

Sinais dos tempos. Posso dizer, com a frase célebre de Cícero, O tempora, o mores (ó tempos, ó costumes), ou, parodiando Shakespeare em Ricardo III, “Um soneto! Meu reino por um soneto!” Mesmo que não me considere grande leitor de poesia, volta e meia revisito uma antiga coletânea do crítico José Lino Grünewald (Grandes sonetos da nossa língua/1987), como forma de não perder o rumo da estética. Do século XVI (Sá de Miranda e Camões) até os nossos dias (Ferreira Gullar, Jorge de Sena, Vinícius, Drummond) são séculos de canto amoroso, aprisionados em 220 páginas. Ler poesia é refúgio sentimental para a dura realidade da vida. Romantismo tem tudo a ver com escapismo.

NELSON: DITADURA, SOFRIMENTO E POESIA

Nelson Schaun (1901-1968) era comunista forjado na luta contra a ditadura Vargas. Professor de português e latim, seus recursos de autodidata abrangiam ainda a sociologia e a filologia. Perseguido, refugiado, muitos dias no mato, foi preso e exibido nas ruas de Ilhéus, amarrado feito bicho feroz, espancado na via pública,como “exemplo”. Sobrevivente da iniqüidade, sepultou os ressentimentos,sendo apenas um homem que cumpriu o dever cívico. Em aulas e conversas, mostrava Meus Oito Anos (Casimiro de Abreu) como típico exemplo de poesia romântica: simples, saudosa, fugindo da realidade. Com um dos maiores do teatro brasileiro, Paulo Autran, um trecho de Meus Oito Anos – homenagem a Nelson, presente a nós todos!

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

“OBJETOFILIA”, O SURTO QUE NOS AMEAÇA

Ousarme Citoaian

Quem duvidou não duvide mais. O vasto mundo está fora de controle, rodando a poder de chips, blogs, i-pods, bugs, edges, hosts, hyperlinks, firewalls e outros mistérios. Tão desembestada anda a terra que se faz difícil dizer se alguma notícia é, de fato, nova.  Enquanto a gente se arrisca a tal afirmação, um panacum de maluquices atualizadas está a caminho de sepultar, como superada, aquela que havíamos destacado. Mas, vá lá, corro o risco. A última desse universo é a objetofilia, nome de uma paixão desenfreada que pessoas de juízo duvidoso desenvolvem pelas coisas. Sim, senhor e senhora, leitor e leitora, atônitos ambos, a mais recente e bizarra obsessão está no ar: gente se apaixonando por objetos.

EU E MEU PC SOMOS APENAS “BONS AMIGOS”

Se antes a palavra era emprestada da expressão “objeto de desejo”, por exemplo, agora é usada em sentido lato. E os psiquiatras, enquanto se esforçam para explicar essa sandice, já lhe encontraram um nome – objetofilia.  Suponho que o gajo que cai de amores, digamos, por uma máquina de lavar roupa, seja um objetófilo (em sentido genérico) ou maquinófilo (mais especificamente). Eu, na tentativa de ser um rapaz da moda, tentei “ficar” com meu PC, mas foi só decepção, pois o desalmado me traiu, danificou (de propósito) um arquivo, quase fazendo comigo aquilo que o prefeito faz com a cidade. Condenei-o ao ferro velho e adquiri um notebook potente, a quem já deixei claro: seremos apenas bons amigos.

ARDENTE AMOR PELO APARELHO ORTODÔNTICO

A separação às vezes é litigiosa. Conheço uma jovem que se perdeu de amores pelo seu aparelho ortodôntico. No início, ele a incomodava muito (mesmo que não fizesse xixi na tampa da privada nem largasse toalhas molhadas por aí). Desapareceu o incômodo, e a mocinha, mais do que adaptada àqueles ferrinhos, passou a considerá-los repousantes, confortáveis e incrivelmente charmosos. O dentista desconfiou, pois terminado o tempo de uso da parafernália, a cliente não compareceu. Ele telefonou, ela desconversou; preocupado, voltou a ligar, ela veio, mas decidida a manter aparelho na boca – até que a morte (ou a ferrugem) os separe. O dentista não aceita essa união eterna – e o caso, tudo indica, vai aos tribunais.

HISTÓRIA DO VERBO QUE  AMA A PREPOSIÇÃO

Para argumentar, colho em mídias recentes cinco manchetes sobre um crime tão chocante quanto repetido, a pedofilia: 1)Pedófilo abusou de quatro crianças”, 2)Inquérito conclui que acusado de pedofilia abusou de nove meninas”, 3) “Rede de pedofilia abusou de 36 menores”; 4) “Padre americano abusou de crianças surdas” e 5)Polícia prende pedófilo que abusou de várias crianças”. Em todas, o comportamento moral execrável dos acusados, mas, por parte dos redatores, a obediência à correção do estilo: a gramática chama o verbo “abusar” de transitivo indireto, em regra geral. Ele ama a preposição “de” e fica triste quando o separam dela.

LEMBRANÇA DE VIEIRA, HÁ QUATRO SÉCULOS

A imprensa, volta e meia, transforma, por sua conta e risco, esse verbo em transitivo direto: “Abusou o filho durante sessão de filme pornô”, diz influente jornal diário de Itabuna. Não pode. Incursões de abusar como transitivo direto são, no máximo, matéria de estudo da gramática histórica. A forma é, depois de Vieira (foto) tê-la usado uma vez ou outra, arcaica de quase quatro séculos. E ainda piores são as frases com o particípio passado de tal verbo. Selecionei, em mídias de Itabuna, três casos: 1) “Criança abusada em cárcere é ouvida pelo MP”, 2) “Criança é abusada em escola de Itabuna” e 3) “Menina deficiente de 14 anos é abusada sexualmente e filmada”.

PALAVRA QUE CORROMPEU A ORIGEM “NOBRE”

Verbos dessa “família” (os que “gostam” de preposição), a exemplo de abusar,confiar , optar, gostar, pertencer e muitos outros, não admitem a voz passiva.Daí, quem sabe o básico da língua não diz que “alguém é gostado”, porexemplo. Ou “optado”, “pertencido” etc. Mas abusadoe confiado podem ser empregados comoadjetivos, numa boa: abusado quer dizer atrevido, ousado,marrento e… confiado. Umacuriosidade quanto ao termo filo (dogrego, com fortes marcas no vernáculo): remete a apreço, afeição, admiração (bibliofilia), simpatia, amor, amizade (filosofia) – mas também a folha (filófago), raça (filogenia). Em pedofilia,nada de bom e nobre: não é “amor a crianças”, mas corrupção. Moral e etimológica.

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A CIGARRA “TONTA DO SOL DA PRIMAVERA”

O pernambucano Olegário Mariano (1889-1958), da Academia Brasileira de Letras, também diplomata e deputado, é um desses poetas que ninguém mais lê. Lírico, romântico, atuou naquela fase parnasiano-simbolista que abriu as portas para o Modernismo. Sonetista emérito, ficou conhecido como “o poeta das cigarras”, de tantas vezes em que abordou o tema. “Cigarra cor de mel. Extraordinária!/Cigarra! Quem me dera/Que eu fosse um velho cedro adusto e bronco,/E tu, nessa alegria tumultuária,/Viesses pousar sobre o meu tronco/Ainda tonta do sol da primavera” – chorou ele, em Evangelho da Sombra e do Silêncio (o título do livro é um achado).

UM ERRO HISTÓRICO EM “DE PAPO PRO AR”

O poeta, que chegou às ruas via MPB (a exemplo de Vinícius de Morais, embora em grau muitíssimo menor), terminaria vítima de um erro histórico em sua composição De papo pro ar, musicada pelo mineiro Joubert de Carvalho (1900-1972) e gravada inicialmente pelo paulista Gastão Formenti (1894-1974). “Se compro na feira feijão, rapadura/Pra que trabalhar?” é passagem que me intrigava, pela falta de sentido lógico. Muitos anos depois li (creio que em Hermínio Belo de Carvalho) que alguém levou a questão a Olegário Mariano (já no fim da vida) e ouviu que ele nunca escrevera aquilo: o original era “Se ganho na feira…”.

DE POUCO SERVIU A EXPLICAÇÃO DO AUTOR

Ocorre que Gastão Formenti (talvez lançador da “moda” de errar a letra das músicas) gravou “Se compro na feira…”, em 1931, e todos passaram a repetir o erro (a começar por Inezita Barroso (foto), primeira a regravar a música, em 1959). Curioso é que mesmo depois da explicação de Olegário Mariano, persistiu-se no equívoco: gravações modernas deste hino à preguiça (Betânia, Sérgio Reis, Renato Teixeira e da excelente dupla Pena Branca e Xavantinho) não fizeram a correção, enquanto Renato Teixeira acrescentou várias bobagens à já existente. Conheço somente um cantor, Ney Matogrosso, que fez a leitura correta do texto. Aleluia!

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

UMA IRRESISTÍVEL ATRAÇÃO PELO INUSITADO

Ousarme Citoaian

A “inteligência” brasileira, é incrível, ainda discute se o termo “certo” é presidente ou presidenta, quando se trata de mulher. E se retomamos o tema é porque esta coluna sofre de irresistível atração pelo inusitado. Há dias, espantou-me uma declaração do escritor Antônio Risério, em artigo n´A Tarde.  “Ninguém vai me obrigar a escrever ´presidenta´. É forma dicionarizada e correta, sei. Mas dói nos meus ouvidos. E não coloco norma ideológica alguma acima da estética da língua. Nem resisto em repetir a brincadeira do nosso querido João Ubaldo: daqui a pouco, vamos acabar falando do ´motoristo´ do táxi ou das ´adolescentas´ que adoram baladas”, disse o autor de Adorável comunista (biografia de Fernando Sant´Anna).

RISÉRIO: PROSADOR, POETA E “SANGUE BOM”

A estranheza é que esse equívoco sobre “norma ideológica” parta de quem partiu. Antônio Risério, sangue bom, além de prosador e poeta, é doutor em Sociologia e dono de respeitável trabalho de pesquisa que incorpora ao português elementos de linguagem africana. E pena ainda é que ele embarque nesse sem-gracismo de João Ubaldo, grande escritor, que tem apresentado ultimamente estranha semelhança com Diogo Mainardi (a lista de baboseiras dos que se opõem a presidenta inclui ainda representanta, dirigenta, eleganta, sorridenta e outras – uma forçação de barra com gêneros femininos que, simplesmente, nunca existiram na língua. Risério, ao menos, manteve a velha decência, ao afirmar que presidenta “é forma dicionarizada e correta”.

POLÍTICOS NÃO DECIDEM SOBRE A LINGUAGEM

A tal “norma ideológica” não está em chamar mulher de presidenta, mas em não fazê-lo.  A forma “a presidente” (comparável a “o salsicha”) é discriminatória da mulher – que quando assume um cargo “de homem” é obrigada pelo machismo vigente a assumir também a forma masculina – segundo o filólogo Marcos de Castro. Dizer, como o fazem certos setores mais reacionários da sociedade, que “isto é coisa do PT” – a dita norma ideológica a que se referiu, equivocadamente, o escritor – é rematada tolice: políticos não decidem sobre a linguagem. E presidenta tem abono dos clássicos (Risério sabe mais do que eu): está, por exemplo, no luso Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875) e no contemporâneo brasileiro Ariano Suassuna (1927-…).

EVITEMOS O PERIGO DOS SONS SIBILANTES

O ”s” é inimigo da comunicação oral, pois sua presença torna a pronúncia mais difícil. Importante semanário de Itabuna tascou: “Carnes ainda são vendidas a ´céu aberto´”; enquanto outro importante diário de Itabuna criava uma coluna chamada Músicas. Há um truque de que se valem os redatores mais competentes: empregar a forma singular, sempre que a plural não seja indispensável.  É preferível “a chuva que caiu esta semana…” – a “as chuvas que caíram esta semana…”. Ao ler em voz alta as duas frases, percebemos que dizer “a chuva” é algo bem mais simples do que “as chuvas”, uma armadilha de sons sibilantes. E mesmo que tenha chovido por vários dias, não há erro em generalizar tudo como “chuva”.

A FORMA SINGULAR É SEMPRE MAIS SIMPLES

Já ouvi coisas piores. Em rede nacional, uma emissora de tevê informa que a polícia, em ação num morro do Rio, apreendeu “mais de mil munições”. Isto é bobagem da grossa, pois “munição” está entre as palavras que raramente são empregadas no plural (ao contrário de juro/juros). Na verdade, a polícia apreendeu balas. Parêntesis para dizer que acho ótima a frase “munição de boca”, gíria da caserna para comida (“rancho”). Aliás, “comida” está na nossa lista de plurais “evitáveis”: alguém que conhece o básico da língua portuguesa jamais dirá “as comidas daquele restaurante são muito boas” – mas “a comida daquele restaurante…”. No singular é bem mais simples.

SEM “GEOMETRIA” NÃO SE VAI AO ESPAÇO

Chuva e munição. Lembro ainda orientação e coreografia. Com irritante freqüência ouço repórteres falarem das “orientações” dadas pelo técnico à equipe e das “coreografias” de tal peça de teatro. Façamos uma campanha para economizar os “esses”: basta “orientação” (pouco importa se repetida) e “coreografia (nem que a peça tenha 300 atos!). No mais, é filosofar: só terão acesso ao paraíso os redatores que sabem ser a reta o caminho mais curto entre dois pontos. Dia desses, na sujíssima Central de Abastecimento de Ilhéus, ouvi um senhor dizer que era de “Itabunas”. Ele pode, pois é feirante, não jornalista, “formador de opinião”.

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SARAH VAUGHAN: A GRAVAÇÃO “DEFINITIVA”

Por fim, o terceiro vídeo mais visitado da coluna: Someone to watch over me, a bela canção de Gershwin, teve 1.882 visualizações. A estatística do Youtube, para mim incompreensivelmente, não inclui a audiência no Brasil, mas a do exterior. O vídeo foi acessado (por ordem de quantidade) nos Estados Unidos, Japão, Israel, Filipinas, Espanha, Itália, Reino Unido, Alemanha, Argentina e Grécia. Someone… já teve todo tipo de gravação, de Ella Fitzgerald a Emílio Santiago, Frank Sinatra e Amy Winehouse (com entonações de Billie Holiday), de Hilary Duff  e Barbra Streisand à surpreendente Susan Boyle.  Mas, como tudo que Sarah Vaughan faz, esta é definitiva.

NÃO MAIS QUE UM “CORDEIRINHO OFERECIDO”

 A letra é feminina (Ira Gershwin não era da tribo!), com coisas do tipo “Eu vou procurar/um certo rapaz/que eu tenho em mente” (I’m going to seek/a certain lad/I’ve had in mind), ou “Ele é o grande caso/que eu não consigo esquecer/o único homem em que penso/com arrependimento” (He’s the big affair/I cannot forget,/only man I ever think/of with regret). Isto não impediu a gravação de Frank Sinatra, mas a versão (Zé Rodrix-Miguel Paiva) para Emílio Santiago “masculinizou” o texto:  man foi traduzido por “mulher” e, mais chocante, I’m a little lamb/who’s lost in the wood transformou-se em “Não sou mais que um cordeirinho/perdido, arrependido e oferecido”. Estranho.

 O GRAVE PRIVILEGIADO DE SARAH VAUGHAN

As três grandes divas negras do jazz, por ordem de nascimento, são Billie Holiday (1915-1959), Ella Fitzgerald (1917-1996) e Sarah Vaughan (1924-1990). Eu levaria pilhas de CDs de todas elas para a tal ilha deserta.  Mas minha preferida é Sarah Vaughan, pela versatilidade, a presença cênica e o grave privilegiado. Sei que Billie (foto) é a tristeza do blues associada à história de sofrimento pessoal (algo próximo a Edith Piaf). É pioneira – como se toda cantora negra do mundo buscasse um pouco do seu “patos”.  E sei que Ella, segundo os críticos, bateu as duas. Ella é “a dama do jazz”. Eu, que não tenho técnica, tenho só emoção, elegi Sarah.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

OS PORTUGUESES SÃO MUITO… “FRANCESES”

Ousarme Citoaian

Creio que sou mais cartesiano do que desejaria, mas isso não é escolha, é herança genética. Ou maldita. Tendo a ver o mundo de forma dual: preto-branco, alto-baixo, positivo-negativo, bom-ruim, esquerda-direita. Os cartesianos têm um quê de esquizofrenia, pois vivem num mundo lógico que não existe. O mundo é cheio de nuances: entre o preto e o branco há todo um calidoscópio (ou caleidoscópio), um festival de pigmentos; e distância quase infinita separa o bem e o mal, ninguém é inteiramente bom ou ruim. Ouvi dizer, e acreditei, que os franceses são cartesianos, lógicos. Não por acaso René Descartes – na forma latina, Renatus Cartesius – é francês. Mas a linguagem mostra que os portugueses parecem mais “franceses” do que os próprios.

NÃO SE PODE FECHAR, SE NÃO FOI ABERTO

Situações que mostram o lado lógico dos lusitanos: 1) o brasileiro pergunta se o português sabe as horas. Resposta: “sei”; 2) A moça avisa à senhora, ao volante, que a porta do carro está aberta e ouve, em vez de “obrigada”, esta correção: “Ela não está aberta; está mal fechada”; 3) O cliente (brasileiro, claro) reclama: foi informado pelo gerente de que o restaurante não fechava aos sábados e, ao ir almoçar, deu com a cara na porta. “É verdade que não fechamos”, ouviu do português. “Pois se não abrimos, como haveríamos de fechar?” 4) Na pia do hotel, duas torneiras com a letra F, em vez das costumeiras F (fria) e Q (quente). A camareira explica ao hóspede confuso: “Uma é fria, outra é fervente”.

ÀS VEZES, A ÚLTIMA É TAMBÉM A PRIMEIRA

Numa loja, o brasileiro, cansado de esperar o vendedor a fazer cálculos com lápis e papel, pergunta: “O senhor não tem calculadora?” O portuga: “Infelizmente, não trabalhamos com electrónicos, mas o senhor pode encontrar na loja aqui ao lado…” 6) O turista vai de Lisboa a Madrid, de carro, sem saber bem o caminho, avista um camponês, e procura informar-se: “Amigo, esta estrada vai para Madrid?”. Camponês: “Ao que me consta, não. Mas se for vai nos fazer muita falta”. 7) Sebastião Nery (A Nuvem), num vilarejo, perto de Trás-os-Montes, pergunta numa quitanda se aquela é a última vila antes da Espanha. Resposta: “Depende. Se o senhor vai daqui pra lá, é a última; mas se vem de lá pra cá, é a primeira”.

NA FALTA DE BONS AUTORES, LEIA OS MAUS

Leio declarações do jornalista e escritor Fernando Morais (foto) e encontro, renovada, a fórmula que pessoas mais experientes com a escrita “culta” sempre repetem. Perguntaram-lhe (já perdi a conta das vezes em que vi esta pergunta feita) sobre que conselho daria a jovens jornalistas.  Fernando Morais citou o deputado Ulisses Guimarães (“Conselho ilumina, mas não aquece”) e indicou o caminho esperado: ler. “De preferência, leiam bons autores. Se não der, leiam maus autores – é melhor do que não ler nada. Não conheço nenhum grande escritor que não seja um leitor voraz. Aprende-se a escrever lendo”.

MESTRE INTOLERANTE, RANZINZA, ANTIQUADO

Sem ser candidato a Machado de Assis – a idade, me faz postulante mais adequado a avô, ao pijama, ao chinelo folgado e à cadeira (tomara que de balanço, não de rodas) – ainda assim não entendo jornalista que não lê. E, creiam-me, existem alguns deles, bem falantes e conceituados, que leram o último livro quando estavam na escola – se é que passaram por lá. São gênios, pobres vítimas de algum professor intolerante, antiquado, ranzinza, teimoso, casmurro e caturra. Mas esse mestre hipotético e patético, pregador no deserto, tipo de João Batista, da Bíblia, tem a minha solidariedade.

CHATÔ, CIDADÃO KANE E ROBERTO MARINHO

Fernando Morais é um desses caras que migraram do jornal para o livro. E se deu muito bem (Ruy Castro fez o mesmo), pois os dez livros que publicou venderam mais de dois milhões de exemplares, puxados por Chatô – o Rei do Brasil (1994), Olga (1986) e A Ilha (1976).  A Ilha é sobre Cuba, Olga é a mulher do líder comunista Luís Carlos Prestes (presa e entregue aos nazistas pela polícia de Getúlio) e Chatô fala de Assis Chateaubriand, espécie de Cidadão Kane caboclo (ou Roberto Marinho arcaico). Escritor engajado, acaba de lançar Os Últimos Soldados da Guerra Fria (outra vez Cuba).

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GRANDE PELEJA, DRAMÁTICA E CONFLITUOSA

Entre as mais belas manifestações da cultura nordestina está o desafio de repentistas. Em 1997, isto foi mostrado mais uma vez, com o I Campeonato Brasileiro de Poetas Repentistas, em São Paulo. Esse certame inovou: se antes eram premiadas as melhores duplas, passou-se a premiar o melhor poeta; se antes os repentistas cantavam um com o outro, dessa vez foi um contra o outro. Tal modalidade, de acordo com Sérgio Rubens de Araújo Torres, colocou o evento “mais próximo do tradicional desafio ao pé da parede, mais dramático, mais conflituoso, injetou uma dose extra de emoção às pelejas”.

VENCENDO O CANTADOR SEBASTIÃO DA SILVA

 No CD que reproduz o grande espetáculo, chama a atenção o desempenho do vencedor, Oliveira de Panelas (foto). O cantador esteve em Itabuna, com Deusdeth Bandeira (em 2002, se a memória não me trai), a convite da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania (FIIC), e eu estava lá. Apesar da timidez crônica, conversei com os poetas (porque gosto do assunto e porque foi fácil: o público, no Centro de Cultura, era bem pequeno). No Campeonato de São Paulo, o pernambucano Oliveira de Panelas massacrou o cearense Sebastião da Silva, apesar da experiência deste, cantador de primeira, vencedor de vários certames.

 O PORQUÊ É SEPARADO QUANDO É PERGUNTA

Na final, os dois glosaram o mote decassílabo “Na gramática portuguesa/quem sabe tudo sou eu” (dado na hora, sem que os repentistas tenham dele qualquer conhecimento prévio). Neste caso, são estrofes de dez versos, com rimas do tipo ABBAACCDDC (o primeiro verso rima com o quarto e o quinto, o segundo com o terceiro etc.). Oliveira de Panelas dá uma “aula” de português, mostrando conhecer, empiricamente, mais do que muito doutor de anel no dedo. As estrofes foram improvisadas alternadamente pelos dois cantadores, conforme a regra – mas deixamos de apresentar a parte de Sebastião da Silva, por ser menos interessante.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

“DEPOIS DE LONGO E TENEBROSO INVERNO”

Ousarme Citoaian

Livre da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania (FICC), em que amargou uma quase hibernação de seu fazer literário (o lugar-comum costuma chamar a isto de “longo e tenebroso inverno”), o escritor Cyro de Mattos emerge nesta primavera com toda força. Digo isto porque na mesma semana leio lúcido artigo seu n´A Tarde, vejo notícia do lançamento do livro 21poemas de amor e ouço falar dos primeiros movimentos da Academia de Letras de Itabuna (Alita),  da qual ele é o principal inspirador. Sobre o livro, que ainda não vi, e a Alita, que sequer teve tempo de dizer a que veio, me calo. Cito o artigo, sobre cultura, que “não se vê nem se pega, mas precisamos dela para sobreviver”.

OS SIGNOS CULTURAIS DÃO SENTIDO À VIDA

Preceitua o autor de Cancioneiro do cacau: “Cultura é uma rede de significados que dão sentido ao mundo. A religião, a culinária, o vestuário, o mobiliário, as formas de habitação, os hábitos à mesa, as cerimônias, o modo de relacionar-se com os mais velhos e os mais jovens, com os animais e com a terra, os utensílios, as técnicas, as instituições sociais (como a família) e políticas (como o Estado), os costumes diante da morte, a guerra, o trabalho, as ciências, a filosofia, as artes, os jogos, as festas, os tribunais, as relações amorosas, as diferenças sexuais e étnicas, tudo isso constitui a cultura como invenção da relação dos seres humanos com o outro”.

INCULTOS, SOMOS FRÁGEIS, “GADO HUMANO”

Em defesa do Museu Jorge Amado, argumenta Cyro que “um povo sem cultura é frágil, não percebe de onde veio nem para onde vai, vive à deriva, ou como gado humano”. Ele salienta que os imediatistas não exaltam esses valores, “só concebem a vida através dos meios materiais”. Entendem que “cultura não é base do equilíbrio social, meio para combater a pobreza” – é “pura distração, curtição, futilidade, ornamento”. Para essa gente, segundo o poeta, “a vida é produção e troca de valores materiais, empreendimento e lucro”. O museu também ajudaria as pessoas a “distinguir entre o bom e o ruim, o ético e o demagogo, a verdade e a mentira”. Falou e disse Cyro de Mattos.

MARCOS SANTARRITA, ITAJUÍPE NA FICÇÃO

O crítico Jorge de Souza Araujo, em Floração de Imaginários (espécie de quem é quem no romance baiano no século XX) disseca os (sete) romances de Marcos Santarrita (1941-2011) – e de outros 76 autores!  E diz que Danação dos Justos (1977) “movimenta danados por toda uma geografia humana e física, centralizando em Itajuípe as complexidades de seres existencialmente incompletados”.  Locus onde se formou a mitologia de Santarrita, “pano de fundo aparentemente imóvel, a cidade também é persona” da narrativa que impressionou Ernesto Sábato (1911-2010): “Senti que em alguma constelação distante fomos irmãos de leite”, disse o escritor argentino, a respeito de Danação dos Justos.

UM ESCRITOR “SEM PACTO COM AS SOMBRAS”

Danação… recebeu muitos elogios, incluindo de Jorge Amado, que o saudou como “um dos mais belos romances brasileiros dos últimos tempos”. Voltemos a Jorge, o de Souza Araujo (e Floração de Imaginários/Via Litterarum/2008), que destaca A Solidão do Cavaleiro no Horizonte (1978) e dá pistas sobre o romancista falecido no dia 5 de outubro. A Solidão…  – que forma com A Juventude Passa e Lady Luana Savage uma trilogia sobre a ditadura militar, “confirma, técnica e conteudisticamente, a precisa retórica narrativa de Marcos Santarrita”. Ainda Jorge Araujo sobre A Solidão…: “Faria Ernesto Sábato repetir o que disse a propósito de Danação dos Justos, porque se inscreve na mesma família dos que não pactuam com as sombras”.

ITAJUÍPE ACOLHE O SORRISO DO SEU FILHO

Santarrita alimentava, secretamente, uma frustração: reconhecido no Brasil, era estranho em Itajuípe. Queria ser profeta na própria terra. Sabendo disso, seu amigo Antônio Lopes propôs à professora Silmara Oliveira e ao jornalista Marcos Luedy (todos na foto) uma festa, em 2001, com Título de Cidadão e placa na casa onde o escritor viveu na infância, à beira do rio Almada. Silmara e Luedy, com suor e lágrimas, conseguiram que a Câmara aprovasse o título, o prefeito Paulo Martinho autorizasse as despesas (estadia e passagens, para o homenageado e Aldinha, sua mulher). A Caixa Econômica pagou a placa, Lopes fez a saudação a Santarrita – e este ficou muito feliz. Nunca soube quem, de fato, organizou sua festa, nem os entraves que Silmara e Marcos Luedy enfrentaram.

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RANCHO DAS FLORES CHEGA A SEIS PAÍSES

Por compromisso assumido, apresentamos outro vídeo dos mais populares da coluna (a idéia é mostrar os três primeiros colocados): o de hoje é Rancho das flores, postado em 15 de setembro de 2010 (com a voz de Fagner). É o segundo da lista, tendo recebido 3.422 visitas, até quando postamos esta nota. No item “popularidade regional” (seja lá o que isto signifique), nosso clipezinho teve 73% de visitantes no Brasil, 14% em Portugal, 7% na Argentina e 6% pulverizados pela Costa Rica, Sri Lanka, Venezuela, Chile e Espanha. Nada ruim, para o vídeo de coluna de amenidades que nunca aspirou a notoriedade internacional. Rancho…  já nasceu destinada a romper fronteiras.

PARA VINÍCIUS, BACH ERA POP E NÃO SABIA

À comovente letra de Vínícius junta-se a melodia de um compositor alemão de muito prestígio, ninguém menos do que o velho e sisudo Johann Sebastian Bach (foto).  Se a Cantata 147 (mais conhecida como Jesus, alegria dos homens) já possui forte apelo no público mais “culto”, Vinícius colocou o “parceirinho” ao alcance das massas. Como a melodia é de 1716 e os versos foram lançados em 1961, os dois estariam separados por 245 anos – mas não estão.  Estão casados, como feitos um para o outro. Baden Powell conta que, ao saber dessa “heresia” que Vínicius teria cometido contra o sacro alemão, ouviu do poetinha outra irreverência: “Eu descobri que Bach é o titio da marcha-rancho brasileira”. Mas não sabia.

BACH NÃO TEVE TEMPO PARA OUVIR VINÍCIUS

É um momento mágico poder-se cantar “o milagre do aroma florido” de Vinícius sobre a música de um artista do século XVII. O poeta parece se superar a cada verso (e a cada flor), com este destaque de intenso lirismo: “Olhem bem para a rosa/Não há mais formosa/É flor dos amantes/É rosa-mulher/Que em perfume e em nobreza/Vem antes do cravo/E do lírio e da hortência/E da dália e do bom crisântemo/E até mesmo do puro e gentil malmequer”. Um crescendo de (literalmente) tirar o fôlego. É pena que Bach não viveu mais dois séculos e meio para ouvir isto – aposto que ele aprovaria o ousado parceiro. A gravação de Fagner (do CD Fortaleza/2000) é das mais cultuadas.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

TÁBUA DE GRAXA GERA PESADELO EM ILHÉUS

Ousarme Citoaian

O afastamento do prefeito de Ilhéus nos rendeu um comentário sobre expressões idiomáticas: alguém escreveu que o substituto do prefeito estava “com o prato e o queijo nas mãos”, quando a fórmula secular é “com a faca e o queijo nas mãos (ou na mão)”. Pois o assunto rende. Em texto do Pimenta (“Ilhéus: governo por mais dez dias com Marão”), o redator usa falares de outras áreas, sobretudo do  futebol (houve um presidente da República que adorava fazer isto!) com inteira propriedade. A nota diz que os secretários tiveram pesadelo, com a possibilidade de descer na tábua de graxa. Em seguida, o futebol.

CHUTEIRAS PENDURADAS, POR POUCO TEMPO

O prefeito anunciou que ficará com as chuteiras penduradas por mais dez dias, mas deixa claro que o vice não deve eliminar o Bahia (referência ao secretário deste nome) nem dar cartão vermelho ao atacante Carlinhos Freitas (então, polêmico auxiliar do prefeito titular). A notícia ainda diz que o prefeito afastado espera que seja mantido o mesmo esquema de jogo e que o comando do time seja devolvido ao seu capitão da forma como foi recebido pelo vice. Perfeito (sem intenção de trocadilho). O folclórico Jânio Quadros (que, dentre outras esquisitices, era gramático!) se permitiu algumas formulações desse tipo.

JÂNIO QUADROS E A “METAMETALINGUAGEM”

No seu último mandato (prefeito de São Paulo, pela segunda vez), JQ pendurou uma chuteira na porta do gabinete (um recado aos que especulavam seu futuro  político (eu chamaria isto de “metametalinguagem”). Também proibiu o uso de sunga e biquínis fio-dental no Parque do Ibirapuera, obrigou o Teatro Municipal a expulsar os alunos tidos como homossexuais, multou pessoalmente motorista infratores, fechou os oito cinemas que iriam exibir o filme A última tentação de Cristo e recusou-se a dar posse à substituta, Luiza Erundina (dez dias antes, viajou para Londres, sua grande paixão). JQ era mais perigoso do que engraçado.

O GÊNERO NEUTRO QUE TANTA FALTA FAZ

Identificar a diferença entre masculino e feminino parece ser uma informação elementar para nos exprimirmos corretamente. Mas algumas palavras teimam em ficar na coluna do meio, como se indecisas, em cima do muro do gênero.  A língua portuguesa não possui o gênero neutro (embora este exista no latim, de onde viemos). As línguas neolatinas (português, francês, espanhol) não admitem meio termo: ou é uma coisa ou outra, ou está de um lado ou de outro.  Nada de terceira via. Entre parêntesis, uma observação de Stanislaw Ponte Preta, de muitos anos: “Do jeito que está crescendo, o terceiro sexo vai terminar sendo o primeiro”. Uma amiga desta coluna afirma que, de acordo com sua estatística, o terceiro sexo já é o segundo. Viu só?

A TERMINAÇÃO “FEMININA” É UMA ARAPUCA

Voltemos, enquanto é tempo, à gramática. Se tivéssemos herdado o neutro latino, muitas dúvidas estariam resolvidas. Por exemplo, telefonema, que gerou boas confusões: vi muita gente boa referir-se à telefonema (no feminino), quando o termo é masculino, macho – e disso não abre mão. Convenhamos que a palavra, com essa terminação sugestiva de feminino, é uma armadilha. Mas a dúvida foi sanada pelo tempo, de sorte que já não se ouve ninguém dizer “vou dar uma telefonema”. Que bom. Baianos ensaiaram, por motivos etimológicos que desconheço, “uma acarajé”. É raro, mas ainda possível ouvir-se em Salvador essa estranha formulação. Porém, a dúvida mais notória que me ocorre é com a palavra alface, volta e meia apelidada o alface.

COMPLICAÇÕES CRIADAS PELA HIDROPONIA


Alface é feminino, mas as coisas ficaram um tanto complexas, após a popularização de um processo chamado hidroponia – alguma coisa do grego hidro (água) e ponos (trabalho). No caso da alface é mais ou menos isto: o cultivo na água (não na terra). Por isso, é comum encontrarmos nas feiras alguém oferecendo “alface hidropônico”, aparentemente uma agressão ao gênero dessa folha, que deveria ser chamada, no caso, de “alface hidropônica”, o que não ocorre. Está errado? Assim é, se lhe parece (isto é Pirandello, creio): alface hidropônica está certo, porque alface é feminina; mas alface.hidropônico também, por conter, oculta por elipse, a ideia de processo, método, jeito (como foi cultivada a folha), palavras masculinas. É só escolher.

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“CARINHOSO”: CANÇÃO ROMÂNTICA PERFEITA

Há tempos (a rigor, faz muitos anos!), a Rede Globo, num desses concursos de regras pouco claras, levou o público a escolher “a música do milênio”, ou título semelhante. Torci por Carinhoso (Pixinguinha-João de Barro/1937), deu Aquarela do Brasil (Ari Barroso/1939). Acho que Carinhoso, com aquele “meu coração,/não sei por que,/bate feliz/quando te vê”, é perfeito como canção romântica . Os demais versos também são de uma simplicidade que muitos procuram e raros alcançam: “Vem matar esta paixão/que me devora o coração/e só assim, então, serei feliz,/bem feliz”. Braguinha, clássico, é simples, sem ser rasteiro.

MORENA SESTROSA E COQUEIRO QUE DÁ COCO

Aquarela do Brasil (por favor, ninguém precisa me lembrar da enorme importância do autor) não me atinge muito. Dirão que “o mundo inteiro” aprovou a canção – o próprio Ari, numa caricatura famosa do comediante José Vasconcelos, disse que “na Inglaterra, qualquer criança sabe quem é o autor de Aquarela do Brasil”. Eu respondo feito o cara da piada: “Não falo inglês…” Gracinhas à parte, a composição tem coisas demais de que não gosto: “coqueiro que dá coco”, “Brasil brasileiro”, “mulato inzoneiro”, “terra boa e gostosa”, “morena sestrosa” – são expressões vazias, em rimas forçadas.

“SAMBA-BAJULAÇÃO” À DITADURA GETULISTA

Sem contar que essa modalidade, conhecida como samba-exaltação, serviu como trilha sonora do Estado Novo (1937-1945). Era o ovo da serpente para coisas do tipo “Eu te amo, meu Brasil”, da última ditadura militar (aliás, Abreu Sodré, então governador de São Paulo – nomeado, obviamente – quis transformar essa excrescência de Dom e Ravel em Hino Nacional!). Voltando ao gênero “samba-bajulação” (ou “por-que-me-ufano-do –meu-País”), lembrar que, além de Aquarela do Brasil, o mais famoso é Canta Brasil (Alcyr Pires Vermelho-David Nasser/1941) e que a mim me parece de qualidade muito superior: os versos de David Nasser, quase sempre, impecáveis. Aqui, na interpretação do sempre impecável (sem quase) João Gilberto.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

TODA LÍNGUA TEM EXPRESSÕES IDIOMÁTICAS

Ousarme Citoaian

O vice-prefeito de Ilhéus, ao assumir o governo “fica com o prato e o queijo nas mãos”, diz prestigiado colunista político de Itabuna, num evidente equívoco. As expressões idiomáticas, imagéticas ou parabólicas são ótimos adornos da linguagem não formal (o ex-presidente Lula, excelente comunicador, as emprega em qualquer situação, mas ele não é regra). São recursos de todos os países, línguas e culturas, que dão um sabor muito especial aos dizeres e escreveres de cada povo.  De acordo com os entendidos (ops!), só domina uma língua quem for capaz de identificar tais facetas próprias dessa língua. O colunista, de boas intenções, quis dizer “fica com a faca e o queijo nas mãos”.

SOLECISMO GENERALIZADO: “CAIR NO GOSTO”

Citadas erradamente, tais expressões perdem seu vigor tradicional, histórico, de origem às vezes perdida na noite dos tempos. Estar com a faca e o queijo na mão (ou nas mãos) significa ter o comando das decisões.  Quando se diz “o prato e o queijo” incorre-se em solecismo, ao menos por enquanto (não aposto que, em futuro longínquo, não seja correto dizer-se “o prato e o queijo”). Um caso interessante é cair no goto (conquistar a simpatia de, ser do agrado de, etc.), que já se transmudou em “cair no gosto”, que a gramática histórica considera uma ofensa – mas que parece irreversível, de tanto que é repetida, sobretudo na tevê. A língua, já se disse aqui muitas vezes, é dinâmica.

CUIDADO PARA NÃO RECEBER UM “VÁ PASTAR”

Cito idiomatismos, que não “traduzo” porque esta coluna não é feita para gregos nem troianos: estar feito barata tonta, abrir o jogo, bater as botas, comprar gato por lebre, arrancar os cabelos, pegar com unhas e dentes, tomar chá de cadeira, engolir sapos, pendurar as chuteiras, arregaçar as mangas… Mas cuidado ao utilizá-los. Se o leitor estiver num boteco e anunciar aos amigos que vai tirar água do joelho, tudo bem; mas estando com uma senhora, não faça tal grosseria.  Você se arrisca a, na volta do sanitário, encontrar um bilhete no guardanapo, com esta justa expressão: ”Vá pastar”. A não ser que sua convidada tenha incorporado o status de vadia ou cachorra, lastimavelmente em moda.

USAR O HÍFEN NÃO É COISA PARA AMADORES

Como qualquer brasileiro sensato que exerce a perigosa função de escrever, vivo às voltas com o dicionário. O escritor sergipano Gilberto Amado (1887-1969) – irmão de Gileno, que viveu em terras grapiúnas, e tio do Jorge famoso – já clamava: “não escrevo sem dicionário”. Eu também não (já o disse aqui), mais ainda depois que se publicou o último Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que, a propósito de unificar a escrita das nações lusófonas, embananou tudo de vez. O emprego correto do hífen, que nunca foi fácil, virou coisa de especialista. É até provável que tenhamos, dentro em pouco, alguma tese de doutoramento sobre o tema. Então, dicionário, urgente.

NELSON RODRIGUES E A ALMA DE VIRA-LATA

As expressões auto-estima e vira-lata são grafadas com hífen (já o eram  assim antes do Acordo). Nelson Rodrigues dizia (falando de futebol) que nós temos alma de vira-lata, isto é, não possuímos auto-estima, vivemos ressabiados, de rabo entre as pernas. As coisas mudaram um pouco, já não se tem tanta vergonha de ser brasileiro, mas determinados setores, por preconceito, ignorância ou má-fé (olha o hífen!), parecem trabalhar contra a auto-estima do povo. Quando Coimbra deu a Lula o título de doutor honoris  causa (o que deveria ser motivo de júbilo para nós), esses setores chamaram o evento de “piada de português”; em relação a outros prêmios internacionais ganhos pelo barbudo aconteceu a mesma tentativa de esvaziamento.

CAFONA, PATRIOTEIRO, UFANISTA E PIEGAS

A presidenta Dilma (depois de apontada pela revista Forbes como a terceira mulher mais influente do mundo) abriu a Assembleia Geral da ONU, como a primeira mulher a fazer isto. Ela se disse “orgulhosa” desse feito. O Brasil também deveria orgulhar-se, mas certos segmentos parecem sentir-se ofendidos quando algo assim nos acontece. Eu, sob risco de ser classificado como cafona, patrioteiro, ufanista, piegas ou coisa impublicável em blog familiar, vibro com o que vem ocorrendo. Aliás, Lula acaba de receber um raro prêmio do Instituto de Estudos Políticos de Paris, mas ainda é necessário o mundo para fazer o brasileiro enxergar aquilo que, internamente, as almas de vira-lata (ou espírito de porco – sem hífen!) tentam minimizar.

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VÍDEO MAIS VISTO DO UP COMPLETA UM ANO

Registramos uma curiosidade, desde que esta coluna passou a editar seus próprios vídeos. É que os três clipes mais vistos são todos do mês de setembro (postados no Youtube nos dias 1, 7 e 15). Logo, acabam de fazer um ano. Dos três, o campeão foi Vozes da seca, o grito de Zé Dantas sobre o sofrimento dos nordestinos com a estiagem – na voz poderosa desse que talvez seja o maior cantor pop brasileiro, Luiz Gonzaga. Segundo a estatística do Youtube, nosso modesto clipe teve 5.623 visualizações, recebeu comentários elogiosos e atingiu comunidades (por ordem da quantidade de acessos) do Brasil, Portugal, Espanha, Austrália e Chile.

A MÚSICA TEM LETRA “INFELIZMENTE ATUAL”

O leitor/ouvinte que se assina samuel63867 registra que o vídeo “reproduz a primeiríssima gravação que Luiz Gonzaga fez desta sua toada-baião, feita em parceria com Zé Dantas, e com letra infelizmente atual. Seus lançadores foram os Quatro Ases e um Coringa, em maio de 1953, mas o sucesso foi mesmo de Gonzagão, que a gravou na RCA Victor em 2 de julho do mesmo ano, com lançamento em setembro seguinte (80-1193-B, matriz BE3VB-0196). Vídeo bem feito, som de ótima qualidade!” – e eu fico sabendo que o lançamento de Luiz Gonzaga se deu também num setembro (1954), há 57 anos (nosso videoclipe usa imagens do filme Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos/1963).

AS DITADURAS COMEM OS PRÓPRIOS AMIGOS

Por força do destino, Luiz Gonzaga, que apoiava os golpistas de 1964 (chegou a afirmar que não havia tortura no Brasil), foi uma das vítimas do golpe: os militares o proibiram de cantar (além desta “subversiva” Vozes da Seca) Paulo Afonso – também de Zé Dantas (por “ciúmes” dos ex-presidentes Café Filho e Getúlio Vargas, citados na letra) – e Asa Branca, de Humberto Teixeira (por motivos que a sensatez desconhece). Eram os ásperos tempos dos porões de Médici. Luiz Gonzaga foi mais uma prova de que as ditaduras, quando lhes falta melhor opção ao apetite destruidor, comem seus próprios amigos. Aqui, um grande momento da MPB (mostraremos outros “campeões”, depois).

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

SEBASTIÃO NERY ASSINA COLUNA EM ITABUNA

Ousarme Citoaian

Suponho que a notícia deva ser comemorada: um jornal diário de Itabuna passou a abrigar a coluna de um dos mais brilhantes, cultos e experientes jornalistas brasileiros – Sebastião Nery. Autor de mais de quinze livros, principalmente sobre a política partidária (dentre eles, Pais e padrastos da pátria, Crepúsculo caiado, Socialismo com liberdade e Folclore político), Nery sabe, como os melhores de sua geração, contar histórias deliciosas, em estilo leve e cativante. Alguns dos textos publicados em jornal vêm dos livros. E vice-versa. Nas colunas reproduzidas no jornal de Itabuna ele tem usado passagens do seu excelente A Nuvem/2009, livro de memórias que só li no ano passado.

A LEITORA SABE ONDE FICA A TAPROBANA

De A Nuvem, esta história, passada no Seminário de Amargosa, quando Nery e outros analisavam, em aula, Os Lusíadas (“As armas e os barões assinalados/Que da ocidental praia lusitana/Por mares nunca d´antes navegados/Passaram muito além da Taprobana”). “Onde fica a Taprobana?” – vai perguntando o exigente e quase surdo Padre Correia, sem resposta. Até chegar à última fila de carteiras, onde está um tímido seminarista recém-chegado de Jequiriçá: “Sei não, professor”. O velho mestre esfrega a resposta na cara dos alunos. “Muito bem! Ceilão! Vocês, seus marmanjos, há anos aqui, não sabem. E o tabareuzinho de Jequiriçá já sabia”. Conta Sebastião Nery: “Nenhum de nós dedurou o tabareuzinho de Jequiriça”.

NABUCODONOSOR “VISITA” JOAQUIM NABUCO

Eu também não saberia onde fica a Taprobana – e aproveito para contar um caso, da forma como me foi contado. Era o lendário Instituto Municipal de Educação (I.M.E.,na foto de Mendonça), Ilhéus, no fim dos anos cinquenta. Durante uma prova oral de História do Brasil, o professor Leopoldo Campos Monteiro pergunta a um aluno meio “curto” o nome do diplomata famoso, autor de O estadista do Império. Como o rapaz não sabia, o mestre, bondoso, tentava ajudar, mas a resposta não saía. Já esgotados os “argumentos”, o professor dá a pista definitiva: “Nabuco, meu filho, Nabuco…” O mau aluno, achando que tinha captado a dica, sai-se com esta pérola, em voz alta: “Nabuco…donosor”! O bom professor Leopoldo quase desmaia de susto e frustração, diante da risadaria geral.

MASSAGISTA SE APAIXONA POR “SINÔNIMO

Tempos antes de ganhar o nome de Zito Bolinha, o futuro massagista do Itabuna, apaixonou-se por uma palavra nova e bonita: sinônimo. Assim, tudo que o espantava, divertia ou preocupava, ele definia como… “um sinônimo!” – para a total perplexidade dos que o ouviam. A gripe asiática era um sinônimo, Leo, entortador de zagueiros, era outro sinônimo, e que sinônimo era a louríssima arrasa-quarteirão Marylin Monroe (foto), incendiando telas e a imaginações! Até que, interrogado a respeito, Zito explicou que ouviu a palavra no filme Absolutamente certo: Anselmo Duarte (1920-2009), a certa altura da narrativa, afirma: “Isto é um fenômeno!”. O bom Zito Bolinha, que nunca teve oportunidade de ir à escola, confundiu fenômeno com sinônimo.

CUIDADO: ATLETA “FINALIZA” ADVERSÁRIO

Com pessoas iletradas eu sou todo boa vontade, mas não consigo reeditar esse comportamento com os que se dão ao ofício de escrever para o público. Estes (às vezes com pose que supera a competência) não têm justificativa para erros palmares, resultantes de indolência, descuido, desatenção, desleixo. “Jornalistas têm que escrever tão bem…” (vocês já sabem). Com tal espírito, leio em importante diário de Itabuna este título enigmático: “Itabunense finaliza adversário em 15 segundos de luta”. Ora, como será que esse lutador de maus bofes ”finalizou” seu infeliz desafeto? Um furo na jugular do pobre coitado? Vitimou-o a tiros de escopeta ou o forçou a uma overdose de droga.

APENAS A LINGUAGEM FICOU COM HEMATOMAS

Decido-me pela leitura do texto e respiro aliviado, pois – ao contrário da expectativa criada pela manchete – a notícia não revela nenhuma agressão com sangue derramado, apenas a linguagem sofreu hematomas: um atleta de Itabuna aplicou uma chave de braço no seu adversário e o venceu, tornando-se campeão de um torneio de luta livre, em Jequié. Fico sem saber o porquê de certos redatores buscarem complicações, quando deveriam manter-se no simples. A estilística não vê a simplicidade como defeito a evitar, mas qualidade a perseguir. Se Zito Bolinha tinha o direito falar “bonito”, jornalistas não o têm. Aliás, o falecido massagista certamente diria que o título referido é… um sinônimo!

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O ERRO “ESPECIAL” DE NELSON GONÇALVES

Já nos referimos aos erros gravados na MPB, voltamos a eles hoje e, por certo, tão cedo não esgotaremos o tema. Há erros menores, facilmente absorvíveis, e erros notáveis, que transformaram em definitivo a letra original. Mas há um deles que tem características diferentes, por ter sido “corrigido” no ar, coisa nunca vista. O registro em disco tornou-se antológico, devido ao erro e a imediata correção. Trata-se da canção Maria Betânia, de Capiba (Lourenço Fonseca Barbosa), cuja letra foi “atacada” por ninguém menos do que Nelson Gonçalves, e “defendida” por Jessé, uma espécie de concorrente. A gravação, ao vivo, ganhou esse quê de especial, pela importância de Nelson Gonçalves.

LUTA DE GIGANTES, RENHIDA, EQUILIBRADA

Depois de Jessé cantar metade da letra, Nelson exibe aquele grave que o caracterizava, com Jessé num contracanto emocionado. Aí Nelson (que é “dono e senhor” de Maria Betânia desde 1944!) confunde o texto, enfia um “esplendor” no lugar errado, Jessé percebe o erro, diz “data vênia, mestre!” e, de peito escancarado, corrige: “hoje confesso, com dissabor”. Gosto de imaginar que foi assim. Ou então penso numa luta de gigantes, equilibrada, renhida, sem prognóstico e, quando menos se espera, um deles escorrega numa casca de banana. Maria Betânia (então, Bethânia) foi feita em 1943, quando Capiba (1904-1997), musicou a opereta “Senhora de Engenho”.

CAETANO VELOSO GOSTOU DE MARIA BETHÂNIA

Em visita ao Recife, Nelson resolveu gravar a canção, o que fez em 1944, popularizando o nome. Maria Bethânia era ouvida também nos alto-falantes de Santo Amaro, pela família Veloso, tanto que Maria Bethânia, a cantora, chama-se Maria Bethânia por causa de Maria Bethânia, a canção. Se alguém aí vive no mundo da lua e ainda não sabe dessa história, vá lá: quem deu o nome à festejada cantora foi seu criativo mano Caetano. Outra curiosidade, menos óbvia: a pequena Surubim (foto) –  pouco mais de 58 mil habitantes, pelo censo de 2010), no agreste pernambucano – deu, além do compositor Capiba, o animador Chacrinha. Veja/ouça o “duelo” de dois grandes da MPB: Jessé e Nelson Gonçalves.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

A TELEVISÃO E SUA LINGUAGEM RASTEIRA

Ousarme Citoaian

Do jeito que a coisa anda, terminaremos nos comunicando por sinais de fumaça. Escrever (ou falar) de acordo com o que a norma preceitua virou coisa arcaica, sem graça e de difícil entendimento. E a mídia (façamos aqui um mea culpa) tem muito a ver com isso, sobretudo a tevê, que defende como princípio uma linguagem cada vez mais rasteira, cooptando, lentamente, a sociedade: os folhetins (a que chamam novela), antes considerados “produto para domésticas analfabetas”, hoje são matéria de teses de doutoramento nas universidades (e quem empregar a frase aspeada será tido como preconceituoso e politicamente incorreto). São ásperos os tempos.

ANTÔNIO MARIA, A FRASE PARA A HISTÓRIA

O processo de erosão intelectual é bem antigo. Sérgio Porto (o Stanislaw Ponte Preta) nos conta esta: Antônio Maria (cronista, compositor, narrador de futebol, roteirista e apresentador de programas de rádio e televisão), foi solicitado por Péricles do Amaral, então diretor da TV Rio, a copidescar uma matéria. A ideia era tornar o texto mais simples, ao alcance do público menos escolarizado. O trabalho do autor de Ninguém me ama não satisfez o chefe, pois este achava que o texto ainda poderia ser mais simples. O bom Maria refez a tarefa, porém, ao entregar a nova adaptação, produziu uma frase para a história: “Pior do que isto eu não sei fazer”.

DE COMO TORNAR PERPÉTUA A IGNORÂNCIA

A tevê, em seu objetivo de atingir as camadas medianas da população, derrapa tanto em linguagem quanto em conteúdo. A linguagem (seja na tevê seja na literatura de ficção, por exemplo) precisa ser simples, sem ser indigente. Nunca é demais repetir que a simplicidade é uma qualidade do estilo. Portanto, ser simples, sem ser rasteiro, não é defeito, é virtude. Já a questão do conteúdo é mais difícil: William Bonner, editor do Jornal Nacional, comparou o telespectador médio a alguém simplório como o personagem Homer Simpson, “incapaz de entender notícias complexas” – daí o JN só divulgar o “simples”. Este, sim, é um argumento destinado a perpetuar a ignorância.

PROVA DE DESRESPEITO AO LEITOR/OUVINTE

Costumo dizer que jornalistas detêm, basicamente, o mesmo saber. Eles se diferenciam na ética, no comportamento moral e na (in) dependência com que atuam – mas se equivalem em domínio da linguagem (ou não são jornalistas, são enganadores). Todos eles sabem o que é sujeito e predicado, estudaram e apreenderam noções de concordância, regência e acentuação (se não estão seguros sobre o emprego do hífen, não os culpemos – afinal de contas, ninguém sabe usar esse sinalzinho nefasto, depois do último Acordo Ortográfico). Por que erram tanto? – perguntaria a leitora ingênua (ainda há leitoras ingênuas?), a quem eu diria: erram por falta de cuidado, desleixo e conseqüente desrespeito ao leitor/ouvinte.

CUIDADO COM O REBANHO BOVINO NAS RUAS

Em dias recuados, na aventura de assistir a um noticiário de tevê, dei de cara com uma reportagem do Extremo Sul da Bahia, alardeando o progresso econômico daquela região. Lá pras tantas, o repórter destacou que, além da agricultura, existe em Teixeira de Freitas um notável crescimento da pecuária. E saiu-me com esta pérola: “Tanto é assim que a cidade já possui o quarto rebanho bovino do estado”. Pálido de espanto, pensei no inferno que seria a cidade conviver com tantas vacas, bois, bezerros e touros nem sempre de bom humor, a atravancar ruas e amedrontar pessoas. Ao que me consta, nem a Índia (onde as vacas, por tradição religiosa, têm sagradas até as fezes e a urina) se viu igual pesadelo.

PARA UM BIFE, 15 MIL LITROS DE BOA ÁGUA

Devidamente traduzida e digerida a notícia, filosofei, a respeito do repórter: tão jovem, bem vestido, mas tão descuidado! Tudo ficaria simples e claro se ele dissesse que “o município” etc. etc., pois é regra conhecida que a pecuária não se pratica na cidade: é lá no campo que ela se exerce, sob protesto dos ambientalistas, que querem os bois extintos (um bovino, até que passe de bezerro a bife acebolado, bebeu milhões de litros de boa água – sendo que o tal bife acebolado “custa” cerca de 15 mil litros – mas esta é outra história). Voltando à pérola, é o que dizíamos na abertura deste tema: o repórter, por certo, está careca de saber que município e cidade são valores bem diferentes. Descuidou-se.

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DE TROPEIRO A ATOR, POETA E COMPOSITOR

Zé do Norte (por extenso, Alfredo Ricardo do Nascimento, em Cajazeiras/PB) trabalhou na enxada sob o sol do sertão nordestino, foi tropeiro e apanhador de algodão. Em 1921, alistado no Exército, foi servir no Rio de Janeiro e, a partir de um convite de Joracy Camargo, embrenhou-se no meio artístico e foi em frente: virou cantor, compositor, poeta, folclorista e ator. Jogava nas onze e chutava com as duas. Trabalhou nas principais emissoras de rádio da época, foi consultor do sotaque nordestino em O Cangaceiro (Lima Barreto) e, graças a esse filme, ficou conhecido mundialmente com Muié Rendera (ou Mulher Rendeira). Fez cerca de cem canções, algumas delas com revisitas modernas de Nana Caymmi, Raul Seixas, Maria Bethânia e Joan Baez. É tido como “descobridor” de Luiz Gonzaga.

CANGACEIRO-POETA OU POETA-CANGACEIRO?

O músico pernambucano (1926-2006) ensinou a arte a Baden Powell, Paulo Moura, Menescal, Sérgio Mendes, Nara Leão, João Donato. Não é pouca coisa. Dele, Vinícius disse (Samba da Bênção): “Moacir Santos/tu que não és um só, és tantos”. Sua estreia em gravação se deu com o álbum Coisas, “um dos melhores discos brasileiros de todos os tempos”, segundo a revista Rolling Stones. São dez faixas – Coisa nº 1, Coisa nº 2, Coisa nº 3 (e por aí vai), mas Coisa nº 1 não é a primeira faixa, é a 8ª, Coisa nº 8 é a 10ª e Coisa nº 5 é a 3ª. Coisa confusa, não? Coisa mais linda é Sônia Braga, que enfeita, acompanhada de figuras carimbadas da Globo em 1980, Coisas do mundo, minha nega, do elegante, fino, inteligente, discreto e terno Paulinho da Viola. Faltou alguma coisa? Então vá: genial.

LAMPIÃO: “TU ME ENSINA A FAZER RENDA”

Volta Seca e Zé do Norte foram contemporâneos (Zé do Norte era dez anos mais velho) e, ao que consta, chegaram a trabalhar juntos como consultores de O Cangaceiro. Mesmo assim, o ex-integrante do bando de Lampião não se mostrou incomodado com a Muié Rendera cantada pelo grupo paulistano Demônios da Garoa (a letra de Zé do Norte, não a dele). E não se pode ignorar a versão também corrente de que o autor não seria nenhum dos dois, mas o mítico Lampião, o Rei do Cangaço. Enfim, a autoria da letra simplória de Mulher Rendeira tem lá seus mistérios, mas a Zé do Norte cabe o mérito da adaptação conhecida por várias gerações de brasileiros, há quase 60 anos. A dupla Marco Pereira (violão) e Gabriel Grossi nos mostram o que a composição tem de melhor, a melodia.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

A LÍNGUA QUE SEPARA BRASIL E PORTUGAL

Ousarme Citoaian

Que brasileiros e lusitanos estão unidos por uma cadeia linguística não é verdade – e se seu professor afirmar isto, é bom que você o faça explicar-se um pouco mais. Assim, a repetida frase de Bernard Shaw (“Inglaterra e Estados Unidos são dois países separados pela mesma língua”) talvez se aplique melhor ao nosso caso, e nem é necessário ir a Lisboa para identificar diferenças do modo de falar desses dois povos: tudo está muito bem organizado no Dicionário contrastivo luso-brasileiro, do filólogo Mauro Villar (Editora Guanabara/1989). Nele bebo algumas curiosidades, junto a outras colhidas em artigo de Ruy Castro e abono minha tese. Com palavras parecidas, mas muitas vezes de sentidos distantes, a comunicação entre esses povos lembra Babel, aquela.

NARRAÇÃO DE FUTEBOL SÓ COM TRADUTOR

Aqui, se morre afogado; lá, morre-se ao tomar banho (banheiro para os lusos é salva-vidas, ou guarda-vidas, enquanto o nosso banheiro é quarto de banhos). Quem quiser comprar o jornal, procure um ardina, não um jornaleiro, pois este é um indivíduo que trabalha por dia, faz jornada. E entender as notícias do jornal (em tempo: ardina também significa cachaça!) é outro exercício, se elas vêm da Gronelândia, Moscovo, Amesterdão ou Bona (Groenlândia, Moscou, Amsterdam ou Bonn). Você pode se deparar com manchetes do tipo Atentado bombista no Harlemo (soltaram uma bomba no Harlem) ou Sarilho de liceus na Cantabrígia (revolta estudantil em Cambridge). E para ver futebol na tevê portuguesa é bom munir-se de um “tradutor”!

ÁRBITRO EM PORTUGAL NÃO APITA, ASSOBIA

A bola é o esférico, o gramado chama-se relvado, e o árbitro não usa apito, usa assobio. Os jogadores não jogam de chuteiras, mas de botas, e não vestem a camisa do time, e sim a camisola da equipa. A do Benfica não é vermelha como parece, mas encarnada (também para os pernambucanos, sei lá o porquê, vermelho é encarnado); e a camisola do Sporting é de quinas (listrada). Se o zagueiro é um pé-de-chumbo (perna-de-pau), ainda assim não faz gol contra, mas autogolo. Contundido, diz-se que o gajo se aleijou ou (gosto muito desta) estatuou-se no relvado. O sujeito que o aleijou será irradiado (isto é, expulso) do jogo, ora pois. Já se me acabam (ops!) tempo e espaço, mas não resisto a mencionar mais umas poucas curiosidades.

EM PORTUGAL, MIÚDOS BRINCAM DE COITO

Mauro Villar adverte: Carregar a campainha não é arrancar a campainha da parede e levá-la pra casa, mas apenas apertá-la. Fechar a janela para não entrar correspondência é proteger-se contra correntes de ar. Curar uma carraspana é livrar-se da gripe, não de uma ressaca, e urinol não é penico, mas mictório público – penico é vaso de noite. Moça é rapariga, menino, mesmo ainda usando fraldas, é rapaz e as crianças em geral são os miúdos (miúdos de galinha são as miudezas, pois os miúdos dela são os pintos)… Os miúdos chupam rebuçados no lugar de balas, e gelados de palito em vez de picolés. Esses miúdos (que usam chupa-chupas em lugar de pirulitos) têm o costume, aparentemente estranho, de brincar de coito (no Brasil, brinca-se de esconder).

“O VULCÃO EXTINTO QUE NÃO MAIS SINTO”

“Lembro antecedentes,/quando o inferno então era;/verões inclementes/
já são primavera./A gastrite, fumaçando em azia/(úlcera! – pensei, com megalomania) exorcizada, é memória vã./Reduzido a estrela anã,/o motivo da dor que não mais sinto/é vulcão extinto,/e onde havia pranto, canto:/o outrora interno sol/apagou-se com omeprazol./Outra dor, de difícil remédio,/confesso, ainda é./(Velhas paixões não se apagam/ e, em fogo lento, retardado, maltratam…)/Concluo, com o que me resta de razão: a acidez do estômago/é domável; a aridez do coração, não”. E aos críticos que condenarem esta poética ociosa, outonal, me declaro “incompreendido” e respondo, ao estilo Antônio Maria: “Ninguém me ama,/ninguém me quer,/ninguém me chama/de Baudelaire…”.

COISA FEITA PARA ASSUSTAR ADOLESCENTE


Urge encerrar nosso papo sobre “Coisa”. Na literatura, a palavra é antiga. Em 1943 o modernista renitente Oswald de Andrade publicou a crônica O Coisa. Nos oitenta, o estadunidense Stephen King (dito o Rei do Terror) assombrou os adolescente com o livro A Coisa. Da França, dois nomes surgem na minha lista informal: Michel Foucault (As Palavras e as Coisas) e a grand-mère das feministas, Simone de Beauvoir (A força das coisas). Mas é provável que a maior inflação de coisas esteja na MPB. Chico Buarque, lá em 1966 (quando verde-oliva era coisa da moda), falou de uma banda que passava “cantando coisas de amor”. Antes (1962), Vinícius, de olho rútilo sobre Helô Pinheiro a caminho do mar, disse (em música de Tom Jobim): “Olha que coisa mais linda…”.

TIA RITA LEE: GENTE FINA É OUTRA COISA

Quatro anos antes, Elizete Cardoso propalara, da mesma dupla (Chega de saudade), “ai, se ela voltar, se ela voltar/que coisa linda/que coisa louca”. Roberto Carlos, que vem dos tempos de “coisa linda/coisa que eu adoro”, seria o Rei das Coisas: fez Coisas do coração, Coisas que não se esquece, Coisa bonita, Diga-me coisas bonitas e Tem coisas que a gente não tira do coração (soube dessas coisas por e-mail). Gal Costa gravou o CD Todas as coisas e eu, e titia Rita Lee fez Gente fina é outra coisa. Cecília Meireles na voz tremulante de Fagner: “Deixemos de coisa,/cuidemos da vida, /senão chega a morte/ou coisa parecida”. O maestro Moacir Santos (foto) sabia das coisas: tocava, com domínio pleno, piano, saxofone, banjo, violão, clarineta, trompete e bateria.

MOACIR SANTOS NÃO ERA UM, “ERA TANTOS”

O músico pernambucano (1926-2006) ensinou a arte a Baden Powell, Paulo Moura, Menescal, Sérgio Mendes, Nara Leão, João Donato. Não é pouca coisa. Dele, Vinícius disse (Samba da Bênção): “Moacir Santos/tu que não és um só, és tantos”. Sua estreia em gravação se deu com o álbum Coisas, “um dos melhores discos brasileiros de todos os tempos”, segundo a revista Rolling Stones. São dez faixas – Coisa nº 1, Coisa nº 2, Coisa nº 3 (e por aí vai), mas Coisa nº 1 não é a primeira faixa, é a 8ª, Coisa nº 8 é a 10ª e Coisa nº 5 é a 3ª. Coisa confusa, não? Coisa mais linda é Sônia Braga, que enfeita, acompanhada de figuras carimbadas da Globo em 1980, Coisas do mundo, minha nega, do elegante, fino, inteligente, discreto e terno Paulinho da Viola. Faltou alguma coisa? Então vá: genial.

UNIVERSO PARALELO

MC DONALD´S COMO SÍMBOLO DA DECADÊNCIA

Ousarme Citoaian

Em viagem recente, conversei com uma senhora parisiense sobre a decadência da cultura francesa, que influenciou o Brasil e o mundo (até o início do século XX, pelo menos). Acordamos em que o espaço da língua culta foi muito reduzido – salvo na área diplomática, em que ainda é exigida. Mas tínhamos preocupações diferentes: eu, perfunctório, o geral (língua, música, cinema, literatura); ela, de olhar profundo, incluía a mesa. Enquanto eu lamento que já pouco se estude francês (língua “irmã” do português) ou se ouçam canções francesas, a gentil senhora deplorava a presença do Mc Donald´s a popularizar hambúrgueres malcheirosos – uma agressão à cuisine (pouco importa se nouvelle ou classique). É a obesidade chegando.

AO LADO DE ROBESPIERRE, MARAT E DANTON

Sou dos tempos em que Hugo, Flaubert, La Fontaine e Voltaire eram traduzidos na escola. Cantava-se, mesmo desafinado, La marseilleise (lá fui pescar este grito de Aux armes, citoyens!), ouvia-se Bécaud, Piaf, Aznavour, Mireille Mathieu,Yves Montand e Juliette Gréco. No cinema, Alain Resnais, Clouzot, Simone Signoret, Alain Delon, Louis Malle, Charles Vanel e Anouk  Aimée-Jean-Louis Trintignant (na foto). Certo menino, durante a aula de história, muitas vezes atravessou a velha Paris do fim do século XVIII em companhia de Robespierre, Danton e Marat. Derrubei bastilhas e monarquias, nenhuma piedade pelas cabeças coroadas que rolavam. Na França ensanguentada, imaginei a reação no meu País – e ainda imagino: às urnas, cidadãos!

O NOVO SEMPRE VEM, QUEIRAMOS OU NÃO

As coisas mudam, o novo sempre vem. Mas nem todo velho é ruim, nem todo novo é bom, nem tudo que parece novo é novo. Com a companheira de viagem fiz apreensões da realidade e externei preocupações com a expansão do império norte-americano – entendendo que tal império outrora foi francês, e que La mère África sofre com isso até hoje. C´est la vie, dissemos em coro. E, para comemorar, comemos talvez nossa última refeição ritual: um pavê de morue à l´huile d´olive, et ratatouille, que vem a ser (se acaso o vinho e aqueles olhos insondáveis não me embotaram a memória) um lombo de bacalhau nadando em azeite, cercado de legumes por todos os lados, menos o de cima. Não era uma sessão de saudosismo. Se saudade tive foi do menino que já teima em não mais habitar em mim.

COISA É MACONHA E MUITAS OUTRAS COISAS

Circulam na internet curiosidades sobre a palavra “coisa”, entre elas que pode ser substantivo, adjetivo, advérbio e, como derivado, o verbo “coisar” – usado em substituição a verbo esquecido. No Nordeste (e em Portugal) significa praticar o ato sexual, enquanto “coisas” seriam os órgãos genitais. Tirem as crianças da sala que lá vai José Lins do Rego, num trechinho didático de Riacho doce: “E deixava-se possuir pelo amante, que lhe beijava os pés, as coisas, os seios”. Fred Navarro (Dicionário do Nordeste) informa que, na região, “coisa” é um dos nomes da maconha, hoje coisa de passeata. O abono vem de um time que sabe das coisas: Bráulio Tavares, Zé Vicente da Paraíba e Passarinho do Norte, num martelo agalopado.

“VIAGEM” COM SUOR, VERTIGEM E FRAQUEZA

“Tem um verso que fala da maconha/Uma erva que dá no meio do mato/Se fumada provoca o tal barato/A maior emoção que a gente sonha/A viagem às vezes é medonha/Dá suor, dá vertigem, dá fraqueza/Porém quase sempre é uma beleza/Eu por mim experimento todo dia/Se tivesse um agora eu bem queria/Pois a coisa é da santa natureza”. Pausa para dizer uma coisa: martelo agalopado é uma dentre as muitas modalidades da composição poética popular, conforme o modelo acima: dez versos de dez sílabas poéticas, com rimas do tipo ABBAACCDDC, isto é, o primeiro verso rima com o quarto e o quinto, o segundo com o terceiro, o sexto com o sétimo etc. Já se vê que produzir esse pacote de rimas de improviso não é coisa para amador.

CARNAVAL: SEGURA A COISA E A COISINHA!

Caetano Veloso usou a palavra em Qualquer coisa (“esse papo seu tá qualquer coisa” e em Sampa (“Alguma coisa acontece no meu coração”). Noel disse que o samba, a malandragem, a mulata e outras bossas “são coisas nossas”. O carnaval de Olinda tem o bloco adulto Segura a coisa (no estandarte, um baseado tamanho família) e o infantil Segura a coisinha. O grito de Alceu Valença ecoa pelas ladeiras seculares: “Segura a coisa, que eu estou chegando”. A MPB, às vezes, trata a coisa com certo exagero: Gonzaguinha fala em “coisinhas miúdas” e Jorge Aragão-Almir Guineto-Luís Carlos criaram a tatibitate “coisinha tão bonitinha do pai”, que virou trilha sonora da Nasa. Do maestro Moacir Santos (e seu Coisas) falaremos depois.

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FILME QUE NÃO CHEIRA A NOVELA DAS OITO

Sem esperar muito da Globo Filmes e suas produções com cheiro de novela das oito, fui ver Tempos de paz (Daniel Filho/2009) e tive uma surpresa agradável. É abril de 1945. Após muita tortura pelo Estado Novo de Getúlio Vargas, vários presos políticos ganham a liberdade, devido à pressão externa decorrente do fim da segunda guerra mundial. Um ex-torturador (Tony Ramos), agora chefe da seção de imigração na Alfândega do Rio de Janeiro, teme que suas vítimas resolvam se vingar. Em meio a essa paranóia, surge um imigrante polonês (Dan Stulbach) que se diz agricultor, mas tem mãos finas e recita Drummond (“Não serei o poeta de um mundo caduco”). Isto é muito suspeito.

ATORES VIVEM “DUELO” DE INTERPRETAÇÃO

O ex-torturador é chamado a investigar o caso, com poder de decidir se o polonês entra no Brasil. A alternativa é a volta, pelo mesmo navio em que chegara, e que já apita no cais, anunciando a saída. O fugitivo da Polônia tem contra ele, além da má vontade, o tempo. O que se vê aqui é uma espécie de duelo de interpretação de dois grandes artistas: Tony Ramos, consagrado pelo público, e Dan Stulbach, um bicho de teatro, com raras aparições na tevê. Depois de esgotar todos as justificativas para seu ingresso no Brasil, o polonês não dissipa as suspeitas do ex-policial. Este, como se espera, é um homem frio, capaz de contar detalhes do seu “trabalho”, sem mostrar emoção.

O TEATRO JAMAIS GANHOU HOMENAGEM MAIOR

E é em cima dessa frieza que o imigrante é chamado a defender sua permanência no Brasil ou ser repatriado (no porto, o navio apita mais uma vez).  Com um estranho senso de humor (talvez próprio dos torturadores), é proposto ao imigrante um desafio: se este contar algo que faça o agente chorar, poderá entrar no País; se não, embarcará no navio que zarpa em poucos minutos. É o ápice do filme. O polonês (que não é lavrador, mas ator) declama Monólogo de Segismundo – da peça A vida é sonho (Calderón de la Barca/1635). Tempos de paz é a maior homenagem que o teatro já recebeu do cinema.  Ah, sim. O torturador chorou – e eu também. Clique e veja que só o bom texto nos redime.

(O.C.)

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UNIVERSO PARALELO

“POETA” AGRIDE A LITERATURA NORDESTINA

Ousarme Citoaian

Várias mídias festejaram que um delegado de Brasília “lançou mão dos seus dotes poéticos cordelistas” (sic) para relatar o inquérito sobre a prisão do receptador de uma moto roubada. É lamentável que os veículos, por ignorância de quem os produz, deem abrigo a coisas desse tipo. O delegado, longe de poetar, agride a poesia: na sua versalhada (mais de 60 linhas) não há um só verso razoável. Piligra e Gustavo Felicíssimo, que cultivam o gênero, não encontrarão aqui nada que se salve. “Já era quase madrugada/Neste querido Riacho Fundo/Cidade muito amada/Que arranca elogios de todo mundo” – é a primeira quadra, anunciando o atentado à métrica. Deus, oh Deus, onde estás que não respondes? Sextilhas piores virão.

TERNO AÇOITE DE CORDAS LEVES E SONORAS

“Logo surge a viatura/Desce um policial fardado/Que sem nenhuma frescura/Traz preso um sujeito folgado”. Fiquemos por aqui, para não propagar artigo tão pífio, nem aumentar o calor da indignação. Sentenças e petições em versos não são novidade. Era 1955, em Campina Grande, quando o advogado Ronaldo Cunha Lima (foto) foi chamado a “soltar” um violão tomado de um grupo de boêmios. O “cliente” é “qualificado” em decassílabos: “Seu viver como o nosso é transitório,/mas seu destino, não, se perpetua./Ele nasceu para cantar na rua/e não pra ser arquivo de cartório”. Conclusão: “Mande soltá-lo pelo amor da noite/que se sente vazia em suas horas,/pra que volte a sentir o terno açoite/de suas cordas leves e sonoras”.

VERSEJANDO, CARLOS MARIGHELA TIROU DEZ

Se os 40 versos do futuro político Cunha Lima são bons, os 14 do juiz Arthur Moura, sobretudo os últimos, atingem a alma: “Recebo a petição escrita em verso/e, despachando-a sem autuação,/verbero o ato vil, rude e perverso,/que prende, no cartório, um violão./Emudecer a prima e o bordão,/nos confins de um arquivo em sombra imerso/é desumana e vil destruição/de tudo que há de belo no universo./Que seja solto, ainda que a desoras,/e volte à rua, em vida transviada,/num esbanjar de lágrimas sonoras./Se grato for, acaso ao que lhe fiz,/noite de lua, plena madrugada,/venha tocar à porta do Juiz”. Carlos Marighela (foto) tirou dez numa prova de Física, em versos(no Colégio da Bahia,1929). O delegado, a meu juízo, zero.

AS AGÊNCIAS DEVERIAM ASSINAR SUAS PEÇAS

Quem tiver a grandeza de perdoar à publicidade alguns excessos, como tirar o acento circunflexo de Banco Econômico (marca já extinta) e colocar acento agudo em pitu, da Aguardente Pitu, terá bons momentos a apreciar. Gosto tanto do tema que sugeri às agências divulgarem seus nomes nas peças que produzem. Seria, pareceu-me, boa forma de separar os bons dos medíocres. Ziraldo disse que divulgar uma obra de arte sem nome do autor (ele falava de música, mas eu incluo aí a propaganda) equivale a passar um cheque sem fundos. Minha ideia mereceu somente o desdém de um publicitário.

ANÚNCIO TRANSFORMADO EM OBRA DE ARTE

Entre clientes e publicitários há divergências. Os primeiros, por natural pragmatismo dos negócios, acham “bom” o anúncio que leva o cliente potencial ao ponto de venda – e, conforme diz o merceeiro da minha rua, “o resto é poesia”. As agências às vezes têm outra visão: ao invés de um simples anúncio para vender sabão, aspiram a obra de arte. É como bater pênalti: há quem dê uma cacetada entre o goleiro e um dos postes (o que é praticamente indefensável, devido à velocidade da bola); outros preferem um toque “artístico”, com risco de levar sua torcida a lagrimejar frustração e raiva.

DO SUTIÃ E DA BRASTEMP NINGUÉM ESQUECE

Grandes momentos da propaganda brasileira estão no imaginário de várias gerações:  Brastemp (“não é nenhuma brastemp, mas…”), Coca-Cola (“não é essa coca-cola toda”), Bayer (“se é Bayer, é bom”), Valisère ( ”o primeiro sutiã ninguém esquece”), A Tarde (“se deu n´A Tarde é verdade”) são clientes que ficaram famosos graças a suas contas publicitárias. Melhoral é um caso à parte: mesmo de baixa qualidade (“é melhor e não faz mal”) seu slogan pegou feito chiclete. Junto à lista um que vi há pouco na tevê, sobre um restaurante que trabalha com pescado: ”Dos mares, o melhor”. Perfeito.

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UMA CANÇÃO ME PERSEGUE HÁ MEIO SÉCULO

Defendo a tese de que nossa sensibilidade tem variações palpáveis, de acordo com o tempo e o espaço. E isto me parece tão óbvio, acaciano, primário e rasteiro que provavelmente alguém já defendeu tal ponto de vista. Estou querendo dizer que uma obra de arte (ou qualquer acontecimento) nos atinge de maneira diferente, a depender da circunstância em que com ela temos contato. Não somos máquinas. Pegamos um livro num dia e não lhe toleramos nem a leitura das primeiras frases; mais tarde, descobrimos que o mal não estava no livro, mas em nós. Não sei com que estado de espírito vi o filme O mágico de Oz para que a canção-título (Somewhere over the rainbow) jamais me saísse da memória.

NÃO HÁ LUGAR MELHOR DO QUE NOSSA CASA

O tempo passou, passou a grande atriz-cantora Judy Garland (1922-1969), chegamos à era da insensatez, quando a tela foi transformada em geradora de sangue e secreções sexuais. Mas a história da menina Dorothy e sua estranha trupe (o leão covarde, o espantalho e o homem de lata) permanece. Dorothy Gale (com seu cãozinho Totó) embarca num ciclone, viaja pela Estrada de Tijolos Amarelos, é assediada por bruxas más do Leste e do Oeste, chega à Cidade das Esmeraldas, entra em contato com o Mágico de Oz – e logo vai descobrir esta verdade universal que muitas vezes nos escapa: “Não existe lugar como a nossa casa”. De passagem: a terra de Oz tem menções literárias que remontam a 1910 (o filme é de 1939).

O FILME É ETERNO PORQUE FALA DE SONHO

Penso que O mágico de Oz é eterno porque fala de um dos mais universais dos nossos sentimentos – o sonho: “Em algum lugar além do arco-íris/os pássaros azuis voam/e os sonhos se tornam realidade”. A música ganhou registro de artistas do nível de Ray Charles, Ella Fitzgerald, Eric Clapton e Sarah Vaughan. Na excepcional trilha sonora de Uma babá perfeita (a que nos referimos recentemente) lá está Over the rainbow, cantada por uma visceral Jevetta Steele, em gravação especialmente para o filme. Há de se notar o sax tenor de Rickey Woodard (foto), com entradas precisas. Sabendo-se coadjuvante, Woodard se mantém nos limites. Mesmo quando tem preciosos 35 segundos para improvisar, evita que seu sax roube a cena.

(O.C.)

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MALTRADA, A VIDA SE DESMANCHA NO AR

Ousarme Citoaian

Ouvi, ad nauseam,  falar da coincidência de que  Amy Winehouse morreu aos 27 anos – com a citação de que na mesma idade morreram Janis Joplin (foto), Jimi Hendrix e Jim Morrison. Um repórter pouquinha coisa mais bobo chamou a isso de ”Maldição dos 27 anos”. Besteira. “Maldição” (vinda das múmias do Egito ou que outra origem tenha) rima com alienação: é algo criado por nós mesmos, não pelos deuses ou demais forças impalpáveis. Se maltratamos o corpo (com drogas, comida imprópria, descanso insuficiente), ele tende a apressar seu fim, como ocorre com todo tipo de vida (o amor também, maltratado, cedo fenece). Infringida esta regra, a morte não é razão de espanto.

A MÍDIA NÃO CONHECE DA LISTA A METADE

Mas o noticiário, mesmo repetido, não corrigiu a ignorância por ele disseminada. As drogas (na suposição de que seja este o caso) mataram muitos artistas, sobretudo músicos, norte-americanos e ligados ao jazz/blues (e disso já falamos aqui). Pior: esqueceram de Noel Rosa e Robert Johnson (foto), também mortos aos 27 anos. O primeiro (um dos maiores da MPB), de tuberculose; o outro (um dos maiores do blues), assassinado, provavelmente. Nenhum dos dois era padrão de vida saudável. Destaco Noel e Johnson por mera preferência pessoal, mas a lista dos “amaldiçoados”, que colho na internet, vai muito além da vã filosofia da mídia mal informada e má informante. A seguir, alguns desses nomes.

“MALDIÇÃO” TEM MUITO A VER COM DROGAS

Aqui, 26 músicos mortos aos 27 anos, de 1908 a 2006 (a lista completa tem uns 40!), a maioria devido a drogas: Louis Chauvin (1908), Nat Jaffe (1945), Jesse Belvin (1960), Rudy Lewis (1964), Malcolm Hale (1968), Brian Jones (1969), Arlester Cristian (1971), Linda Jones (1972), Ron McKernan (1973), Wallace Yohn (1974), Peter Ram (1975), Cecilia Sobredo Galanes (1976), Helmut Kollen (1977), Chris Bell (1978), Jacob Miller (1980), D. Bun (1985), Alexander Bashlachev (1988), Pete de Freitas (1989), Mia Zapata (1993) Kurt Cobain (1994), Richey James Edwards (1995, na foto), Patrick McCabe (2000), Rodrigo Bueno (2000), Maria Serrano (2001), Bryan Ottoson (2005), Valentin Elizalde (2006).

O DIRETOR QUE APARECIA EM SEUS FILMES

Alfred Hitchcock (foto) tinha excentricidades de gênios de anedota. Entre elas, a de aparecer em seus próprios filmes. Na juventude que me abandonou há uns 300 anos (quando cinema era coisa banal) me diverti identificando a presença do mestre em seus trabalhos. Mas isto não é tão fácil quanto parece, pois o velho Hitch divertia-se também com esse expediente, “disfarçando-se”, de maneira que sua figura rotunda nem sempre ficasse evidente. Em Um barco e nove destinos ele pensou em aparecer como um cadáver boiando próximo ao barco, mas trocou a ideia macabra por outra do tipo “Antes & Depois”: um anúncio de remédio para emagrecer, exibido durante o filme, mostra o diretor redondo (antes) e, na outra foto, mais magro.

UM PACATO CIDADÃO COM SEUS CÃEZINHOS

Outras aparições hithcockianas: Em Festim diabólico, o ilusionista, de novo, tenta nos enganar: aparece logo no início, atravessando a rua. Mais tarde, quando a gente pensa que a xarada está morta, ele ressurge, com sua caricatura num neon que incide sobre a janela do apartamento dos assassinos. No começo de Intriga Internacional, lá vem ele correndo para pegar o ônibus (a porta se fecha, antes que ele entre!); em Topázio, o diretor está numa cadeira de rodas, e se levanta para cumprimentar um homem. Depois dos 12 minutos iniciais de Correspondente estrangeiro vê-se um senhor de chapéu, lendo o jornal. É ele. Em Os pássaros, Hitchcock passa pela calçada de uma loja de animais, levando dois simpáticos cãezinhos para passear.

ATRIZ BICADA POR PÁSSAROS ENFURECIDOS

Contam que Hitchcock preferia aparecer de forma que não complicasse o entendimento da história, não roubasse a cena. Mas isso não funcionava, pelo menos com a fauna que comigo ia ao cinema naqueles tempos: buscávamos a figura famosa e não descansávamos até identificar o reconchudo diretor. Era um jogo de esconde-esconde que só terminava quando o “apanhávamos”. Outras esquisitices ele deixou transparecer em Os pássaros: tornou-se obcecado pela atriz Tippi Hedren, a ponto de contratar uma equipe de detetives somente para seguí-la e informá-lo de tudo o que ela estivesse fazendo. E na famosa cena do ataque ele usa pássaros realmente enfurecidos para bicar a pobre moça, para horror dos outros atores.

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GAITA E VIOLA: O BLUES VISITA O SERTÃO

O paraibano Bráulio Tavares (foto), dono de incomum inquietude intelectual (é poeta, prosador, compositor popular, estuda cinema, faz pesquisa em literatura fantástica, escreve coluna de jornal e roteiros de filmes), chama a atenção para a convergência do blues com a cantoria nordestina (a que chamam “cordel”). Apenas na forma: a cantoria é montada, ao menos em seu formato mais comum, em sextilhas (estrofe de seis versos), e o blues também. Na origem, ficam distantes, pois a sextilha, até prova em contrário, é “ibérico-catingueira” (creio que Ariano Suassuna aprovaria esta invenção) e, ao contrário do blues, nasceu em área de baixa densidade negra e tem raríssimos cantadores negros.

ROBERT JOHNSON E O PACTO COM O CAPETA

O poeta da terra dos grandes Jackson do Pandeiro e Genival Lacerda faz um inesperado aproach do canto nordestino com o sofrido blues de raiz plantada nos algodoais racistas do sul estadunidense. Para tanto, Bráulio contou com o gaitista carioca Flávio Guimarães (foto), velha fera do blues brasileiro, fundador da banda Blues etílicos e que já gravou com meio mundo: Ed Motta, Alceu Valença, Renato Russo, Rita Lee, Zélia Duncan, Titãs, Luiz Melodia, Paulo Moura, Zeca Baleiro e outros. Na letra de Bráulio, música e voz de Flávio, uma homenagem a Robert Johnson – que alimentou a lenda de ter aprendido a tocar o diabo. Meia-noite, numa encruzilhada, évidement. Como se o capeta tocasse blues tão bem.

O BLUES É SOMA DE TRISTEZA COM POESIA

Balada de Robert Johnson é a história romanceada do artista negro. Tem 93 versos, mas logo no primeiro bloco há seis sextilhas que “pagam” o poema: “Vinte e sete anos vividos/lá nos Estados Unidos/passou veloz como a luz//Naquela terra sombria/onde a tristeza e poesia/se dava o nome de blues”. Já na abertura (são nove blocos de dez versos, mais três sextilhas finais), Bráulio nos brinda com um achado: “Seu nome era Robert Johnson/cantador d´outro sertão”, ligando a temática da miséria nas plantations de algodão (berço do blues) à seca nordestina (onde vige a cantoria). Mas é bom deixar que o leitor faça suas próprias descobertas.

(O.C.)

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É PRECISO PACIÊNCIA COM MAUS REDATORES

Ousarme Citoaian

Falamos aqui da condenação do artigo indefinido, do qual os plumitivos (dicionário, urgente?) abusam tanto quanto os políticos da nossa paciência. Exemplos dados, não serão repetidos, por desnecessários. Mas ficamos devendo uma referência a abusos com os artigos definidos, que, igualmente àqueles, não melhoram a linguagem.  Ao contrário, conspurcam-na. E aqui estão alguns “abonos” que, para evitar que a coluna seja acusada de injuriosa, maledicente e difamatória, foram colhidos na mídia impressa regional. Antes (quem avisa, amigo é) uma advertência: se houver pronome possessivo por perto, redobre seus cuidados com os artigos definidos, porque, juntos, eles são uma mistura indigesta. Dito o que, vamos à colheita.

FRASE NÃO QUER CORREÇÃO, QUER ESPONJA

Um articulista ensina que “todo mundo tem a sua própria opinião”; numa coluna sobre política partidária descubro que “Alcides Kruschewsky reassumiu o seu posto na Câmara”; perspicaz, um analista conclui que “é necessário ter coragem de exibir a sua opinião”; outro, na mesma linha doutoral e perdulária, disserta sobre a conveniência de  “compartilhar a sua ideia”. Não entendo a razão de não se escrever (com notável economia, e sem prejuízo da clareza) ”exibir sua opinião”, “compartilhar sua ideia” e que o vereador “assumiu seu posto na Câmara”, com varrição radical dos artigos inúteis. Sobre a primeira frase, digo como aquele ministro da ditadura: “Nada a declarar”. É passar-lhe a esponja e construir outra.

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CINCO LIVROS E A REVELAÇÃO DE UMA VIDA

O crítico Hélio Pólvora foi submetido a uma prova que não me dá inveja: ditar, para Gabriel Kuak (presidente da União Brasileira de Escritores) a lista dos cinco livros que mais pesaram em sua formação. Apenas cinco, e é isto que faz espinhosa a tarefa. Creio que os leitores (para quem esta notícia seja nova) tenham curiosidade em saber a preferência do autor de O grito da perdiz, por isso antecipo os escolhidos, na ordem em que foram citados (Hélio se ateve apenas aos brasileiros): O Guarani (José de Alencar), Dom Casmurro (Machado de Assis), Angústia (Graciliano Ramos), Fogo Morto (José Lins do Rego) e O Continente (parte de O Tempo e o Vento, Érico Veríssimo). Lista inesperada, à exceção de Machado de Assis.

SEM CLARICE LISPECTOR E GUIMARÃES ROSA

Hélio parece temer que a originalidade lhe custe caro. “Corro o risco de bordoadas dos fãs de Clarice Lispector e João Guimarães Rosa”, reconhece, mas defende sua escolha de cinco livros que não vão para a ilha deserta nem ficam à cabeceira, ao alcance da mão. “Preferem o leito da memória, onde ardem ou palpitam sob cinzas”. De minha parte, tentei antecipar alguns votos e errei feio. Mas acertei com Dom Casmurro, sabendo que Hélio Pólvora é um dos especialistas no mais célebre triângulo amoroso da literatura brasileira – até escreveu um ensaio “provando” que a traição de Capitu a Bentinho, discutida há mais de um século, ocorreu de fato. Minha “previsão” incluiu Guimarães Rosa e Graciliano Ramos. Passei longe de um, raspei o outro.

EM ANGÚSTIA, O NASCIMENTO DO ESCRITOR

Imaginava que Hélio incluiria São Bernardo ou Vidas Secas, quando ele preferiu Angústia. Imagino que não me equivoquei de todo. O ensaísta explica que Angústia lhe deu “um estalo”, com a arte de escrever a roçar-lhe o rosto, “qual leve asa de pássaro”, e afirma que o livro “talvez perca, em estrutura, para São Bernardo e Vidas Secas, mas revela uma intimidade cúmplice que acentua a comoção”. Mais adiante, na hipótese de uma relação de dez livros, ele lembra Os Sertões (Euclides da Cunha), Minha Formação (Joaquim Nabuco), Capítulos de História Colonial (Capistrano de Abreu), Jubiabá (Jorge Amado, na rede) e Dora, Doralina (Rachel de Queiroz). E encerra com extrema elegância: “Perdão Pompeia, Lygia, Adonias e Autran Dourado”.

ENTRE ERRO E LICENÇA POÉTICA, O ABISMO

Dentre os truques com que tentamos justificar erros de linguagem está um, chamado licença poética. É preciso atenção do leitor para não confundir as duas categorias. Apenas tangenciando o assunto (não sou professor, nem isto aqui é aula de português), é bom lembrar que licença poética é a permissão para se fugir da chamada norma culta da língua, não um salvo-conduto para a ignorância, conforme alguns autores parecem entender. É uma forma de libertar o escritor de amarras gramaticais que o impeçam de tornar sua mensagem clara a esse animal em extinção chamado leitor. Portanto, a licença poética tem tempo e lugar adequados à sua prática.

A PRINCESA, O REVOLUCIONÁRIO E O BODE

Muito citado para identificar algo confuso, O samba do crioulo doido, de Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto), me parece um atípico caso de licença poética – em que a manipulação não é da gramática, mas da história: a abertura (“Foi em Diamantina/onde nasceu JK”) guarda fidelidade histórica – o sorridente Juscelino (foto) nasceu naquela cidade mineira, em 1902 – mas em seguida o letrista parece “endoidar de vez” e não fala mais coisa com coisa: a princesa Leopoldina “arresolveu” se casar, mas Chica da Silva entra pelo meio e mistura a princesa com Tiradentes! E o refrão? “Lá iá, lá, iá, lá, iá/o bode que deu vou te contar”. Só podia dar bode.

CAOS TOTAL: “PROCLAMARAM A ESCRAVIDÃO”

 

Está implantado o caos irremediável: “Joaquim José/que também é (breque!)/da Silva Xavier/queria ser dono do mundo/e se elegeu Pedro II”.  Depois, mancomunados, Dom Pedro e Anchieta proclamam a escravidão, “Dona Leopoldina virou trem/ e Dom Pedro é uma estação também”. Fechando esse pacote tão insano quanto saboroso, um refrão anárquico: “Ô, ô, ô, ô, ô, ô/o trem tá atrasado ou já passou”. Além de nada bater com o que ouvimos na escola, a falta de lógica é absoluta: dizer que Tiradentes “se elegeu Pedro II” é de uma desordem inconcebível, um “desrespeito” com a história que deixou muita “otoridade” em pé de guerra naquele plúmbeo 1968.

BOM HUMOR CONTRA A BURRICE VERDE-OLIVA

Sucesso imediato, o samba se fez clássico. Mas Martinho da Vila o detesta, achando-o “preconceituoso”. Eu discordo. Sérgio Porto nunca deu sinais de discriminar quem quer que fosse: conhecedor de jazz, ele se referia ao gênero como “jazz tocado por negros”. E “crioulo” não tinha o ar pejorativo de hoje. A propósito, João Saldanha frequentemente  chamava Pelé de “o crioulo” – e  nunca ninguém o enquadrou na Lei Afonso Arinos. Samba…  é uma canção política: insurge-se, com bom humor, contra a ditadura, que exigia louvações a vultos históricos no Carnaval. O “crioulo” era a vítima. Aqui, a gravação original (Quarteto em Cy, com abertura do autor).

(O.C.)

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TODOS NÓS CONHECEMOS HOMENS NO ESTOJO

Ousarme Citoaian

O leitor Mohammad Padilha referiu-se aqui aos contos de humor de Tchekhov (foto), o que me motivou a uma releitura, mesmo dinâmica, de O homem no estojo (que tenho) e Um negócio fracassado (da coletânea de humor), captado no PC. O primeiro fala de um professor de grego que se agasalha, a qualquer tempo, com sobretudo de lã, galochas e guarda-chuva. Quando sobe numa carruagem, levanta a capota imediatamente e, ao dormir, mesmo em noites quentes, fica sob os cobertores, os ouvidos tapados com algodão. O presente o apavora, enquanto ao passado faz louvações exageradas, sempre a combater qualquer ideia nova. É o homem no estojo, tipo que todos nós conhecemos. Por essas e outras, Tchekhov é universal.

“DON JUAN” TUDO PERDE POR FALAR DEMAIS

Um negócio fracassado nos dá um Tchekhov picaresco (lado que, penso, é pouco analisado em sua obra), num texto que nos prende logo de saída: “Estou com uma terrível vontade de chorar! – começa o narrador, passando a contar como lhe escapou das mãos, num casamento, uma pequena fortuna.“Ela é jovem, linda, vai receber de dote 30 mil rublos, tem alguma cultura, e a mim, autor, ama como uma gata”, festeja o Don Juan, por antecipação. Veste-se, perfuma-se, penteia-se, impressiona  a incauta. Mas quando já tinha como seus os  30 mil rubros (mais a linda moça que os acompanharia), mete-se a falar e tudo põe a perder. É de fazer chorar. Tem bom gosto, esse Mohammad com sobrenome de grande poeta.

O CONTO LIBERTO LEVITA FEITO ASA-DELTA

Diz o crítico Hélio Pólvora, em Itinerários do conto (Editus-Uesc/2002), que Tchekhov “libertou o conto de um pesado arcabouço clássico, enchendo-o de oxigênio puro e fazendo-o levitar como asa-delta”. Itinerários… deve ser adotado como livro de cabeceira pelos que se propõem a apreender os mecanismos do conto e/ou ter uma visão dos nomes capitais da literatura mundial: lá estão (fora Tchekhov) de Maupassant a Poe, de Machado de Assis a Mark Twain, de Sartre a Adonias Filho, Marquês de Sade, Eduardo Portela, Proust, Ricardo Ramos, Ariano Suassuna, Joyce, Álvaro Lins, Jorge Amado – mais de 250 autores. Curiosamente, Tchekhov é o campeão de citações de todo o livro, com 22 referências.

SAUDADES DAS COORDENADAS ASSINDÉTICAS

Na escola, em tempos idos, todos nos sentíamos mais ou menos molestados (olha a aliteração aí, gente!) com a insistência dos professores em nos enfiar análise sintática cabeça adentro. Ah, as orações… coordenadas e subordinadas, sindéticas e assindéticas, partidas e sem sujeito, adjetivas, adverbiais, reduzidas, substantivas e outras – parece mesmo um exagero. Programa para quem almeja a especialização, privilégio de poucos.  Mas tenho como indispensável apreender o sentido de sujeito, predicado e objeto (mais uma pitada de regência e concordância). Com isso, já se pode fazer muito jornalismo e até um pouco de literatura, sim senhor.

MONSTRENGO QUE AGRIDE OLHOS E OUVIDOS

A reflexão me surge quando leio, em importante jornal de Salvador, este título, totalmente (ou deveria dizer “sintaticamente”) equivocado: Julgamento de padres pedófilos finaliza dia 22. Gramáticos encontrariam nesta construção material suficiente para uma conferência magna. Mesmo quem não tem engenho e arte para dissecar o monstrengo, nota que sua desnecessária complexidade agride nossos olhos e ouvidos: “Julgamento de padres pedófilos”, ao mesmo tempo, finaliza e é finalizado, pois é resposta às perguntas “quem finaliza?” (sujeito) e “o que finaliza?” (objeto). Dessa mistura incomum saiu um resultado, no mínimo, insalubre.

JULGAMENTO NÃO FINALIZA, É FINALIZADO

Melhor para todos é escancarar o sujeito, tirá-lo da sombra. Com “Tribunal finaliza julgamento de padres…” estaria tudo resolvido. Colho na grande mídia (para não fatigar os leitores) apenas cinco abonos da construção que defendo neste caso: 1) Supremo finaliza julgamento sobre Raposa Serra do Sol; 2) Elenco do Flamengo finaliza atividade física; 3) Petrobras finaliza plano de investimento; 4) MEC finaliza plano de educação com meta de 7% do PIB; 5) Supremo finaliza julgamento de Battisti. “Julgamento” não finaliza, é finalizado; sofre a ação, não a pratica; não é elemento principal, mas acessório; logo, não é sujeito, é complemento.

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MPB NUM NOME SÓ: ANTÔNIO CARLOS JOBIM

Ari Vasconcelos, no Panorama da Música Popular Brasileira, diz que se tivesse espaço para apenas um nome que representasse a MPB escreveria “Pixinguinha”. Pode ser, pode ser. Músicos fazem música, letristas fazem letras, políticos fazem discurso. É a lei natural das coisas. Da mesma forma, bananeira não dá laranja e coqueiro não dá caju – segundo Braguinha, na marcha Bananeira não dá laranja/1953. Como as demais regras, esta comporta exceções, e uma das mais notáveis é Tom Jobim. O maestro, à primeira vista exclusivamente músico, era também um letrista excepcional. Enfim, resta dizer que Panorama… foi publicado em 1964 – e Tom ainda faria, pelo menos, dez clássicos.

BAIANA COM CESTO DE FRUTAS NA CABEÇA

Tom é um dos pais da Bossa Nova. E esta abriu as portas do mundo para a MPB, livrando-nos daquele estereótipo ridículo criado para Carmem Miranda (a baiana que usava na cabeça algo parecido com um cesto de frutas tropicais). E influenciou o jazz, para sempre. É lembrar que Tom Jobim foi gravado por Ella Fitzgerald, Stan Getz, Anita O´Day, Sarah Vaughan, Joe Henderson, Miles Davis, Chet Baker – para citar apenas algumas feras desse gênero. E gravou com Frank Sinatra, o que não é pouco. Lobão disse, dentre outras do seu latifúndio de polêmicas, que a Bossa Nova é uma linguagem morta. Ofensa das pequenas, para quem já condenara as vozes que “crucificam os torturadores que arrancaram umas unhazinhas”.

ROCK BRASILEIRO É APENAS CONTRAFAÇÃO

Não tenho simpatia pelo rock, filho bastardo do jazz. E falo do rock norte-americano, pois rock brasileiro não passa de contrafação – no sentido anotado no Michaelis: “Imitação fraudulenta de um produto industrial ou de uma obra de arte”. Ainda assim, gosto de uma coisa ou outra de Raul Seixas, do pioneirismo do Camisa de Vênus, de Tia Rita Lee e do Skank (penso que Chico Amaral é muito bom letrista). E porque falávamos de Tom Jobim, vamos a uma de suas melodias mais importantes, O amor em paz. Para ela, Vinícius escreveu “O amor é a coisa mais triste, quando se desfaz”. E não é mesmo? Aqui, com o pungente sax tenor de Joe Henderson, com músicos brasileiros.

(O.C.)

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UNIVERSO PARALELO

“QUALIDADE” ANDA AO LADO DE ADJETIVOS

Ousarme Citoaian
É curioso como o falar das ruas ultrapassa a chamada norma culta e, nessa transgressão, facilita a linguagem assentada na gramática. Falamos aqui, há poucos dias, em adjetivos, e hoje retomamos o tema, de outro ângulo. Veja-se, por exemplo, “qualidade”, no sentido (Dicionário Michaelis) de “propriedade pela qual algo ou alguém se individualiza, distinguindo-se dos demais”. Já se vê que a palavra necessita de adjetivo que a explique: comida de boa qualidade, artigo de primeira qualidade, trabalho de qualidade inferior, música de qualidade – e demais lembranças que ocorram ao leitor. Se bem utilizado, o termo vem de braço dado com outro que o faça claro.

NOSSO FUTEBOL PRECISA DE “QUALIDADE”

É quando surge o falar brasileiro e faz a necessária adaptação. “Ronaldinho é um jogador de muita qualidade”, diz o narrador da tevê; “O ataque do Vasco não funciona porque falta qualidade no passe”, emenda o outro. Talvez regido pela lei do menor esforço (que abordaremos a qualquer dia), o falante eliminou o adjetivo, tornou a frase mais econômica e, pasmem, todos entendemos o que ele quis dizer: o jogador é de boa qualidade e o passe é de qualidade. Noel Rosa já dizia: “Isto é brasileiro, já passou de português” – mas o jornalismo não se pode permitir tal gênero de grosseria. Um jornalista tem que escrever tão bem quanto um romancista, sentencia Dad Squarisi.

NO HEROI MACUNAÍMA, “NENHUM CARÁTER”

“Caráter” (em referência a traços psicológicos, índole, temperamento, modo de ser e de agir dos indivíduos) parece seguir o mesmo modelo desvirtuado da norma culta. A divisão primária entre bom caráter e mau caráter já foi esquecida. Quando se deseja dizer que uma pessoa é moralmente sã diz-se que ela tem caráter (em vez de bom caráter); quando, ao contrário, se trata de cabra safado, é comum afirmar-se que ele não tem caráter. Pior é que tem; mau, mas tem. Lembram de Macunaíma? Era o herói sem nenhum caráter. Pode? Pode, como licença poética que o jornalismo não possui. E como ninguém aqui é Mário de Andrade, lembremo-nos de que todos têm “caráter” (bom, ruim, frágil, forte, irascível, leviano, colérico, dúbio etc).

“SHANE” OU… “OS BRUTOS TAMBÉM AMAM”

No Brasil resta consolidado o costume de dar aos filmes estrangeiros títulos capazes de atrair o público. Dois exemplos interessantes são The quiet man, de John Ford/1952 (aparentemente, “O homem quieto”), que  virou “Depois do Vendaval”; e The thin man (talvez “O homem magro”), W.S. Van Dyke/1934, sobre o romance noir de Dashiell Hammett), que chegou às telas (antes, às livrarias) como “A ceia dos acusados”. Porém, não tenho notícia de tradução mais manipulada pelo mercado do que “Os brutos também amam”, de Georges Stevens/1953, cujo título no original é um prosaico Shane, nome do personagem principal, feito por Allan Ladd (foto).

PERSONAGENS QUE NÃO TÊM AMOR A NINGUÉM

Guido Bilharino (O filme de faroeste, edição Instituto Triangulino de Cultura/2001) diz que a referência marota é aos “brutos” do filme: um fazendeiro ganancioso e seus pistoleiros, entre eles Jack Palance. “Mas estes não demonstram amor a ninguém, nem lhes é dada essa oportunidade pelo script”, ressalta o crítico. O título, portanto, é impróprio para definir a história mostrada na tela, embora tenha cumprido às mil maravilhas seu objetivo mercadológico: não há dúvida de que a expressão “Os brutos também amam” carrega a pieguice necessária para atingir o grande público. E o filme caiu (não pelo título subliterário) também no goto da crítica.

CRÍTICO OBSESSIVO VIU O FILME 82 VEZES


Shane é um clássico que tem lugar na estante de qualquer fã do faroeste. Densidade psicológica e feitura cuidadosa se destacam nesse trabalho que produziu até um especialista obsessivo no Brasil, o crítico Paulo Perdigão (1939-2007): ele viu Os brutos… 82 vezes, foi conhecer o set de filmagens nos Estados Unidos, entrevistou o diretor (na foto, à direita) e escreveu um livro a respeito do filme (Western clássico — gênese e estrutura de Shane). Treze críticos declararam à Folha de S. Paulo (1984) que este é o maior western de todos os tempos. Para Moniz Viana, “Shane é uma das obras mais perfeitas que não só o gênero, mas o próprio cinema produziu”.

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UM SAXOFONISTA GRANDE E POUCO BADALADO

Faço saber a todos que me dão a honra de dispensar a esta coluna uma vista d´olhos (acho-me hoje inusitadamente lusitano) que sou, desde  antigamentes já olvidados, fã de jazz. Mais: se fosse forçado a escolher um instrumento para símbolo desse gênero, apontaria o saxofone, o tenor, de preferência. Não me perguntem sobre os tenoristas geniais, que são tantos, e eu não me arriscaria a dar palpite: Coleman Hawkins, Lester Young, Charlie Parker, Sonny Rolins, John Coltrane, há muitos, cada um com seu estilo: o sax tenor, segundo os críticos, é tão pessoal quanto a voz humana. Para os não iniciados, mostramos aqui o resumo da trajetória de um dos grandes, porém menos badalados, Sonny Stitt (foto).

TODA A FAMÍLIA DO SAX, MENOS O SOPRANO

Não se trata, a rigor, de um tenorista, pois Stitt (1924-1982) domina quase toda a família do saxofone: tenor, alto e barítono. Não consta que toque sax soprano, mas aposto que ele fez isso alguma vez, às escondidas, talvez no banheiro. E trabalhou com as grandes feras do jazz a partir da metade dos anos 40: tocou com Dexter Gordon (na banda do cantor Billy Eckstine), depois no sexteto do trompetista Dizzy Gillespie (foto), gravou com os pianistas Bud Powell e Oscar Peterson, em horas diferentes. Em 1960 integrou o grupo de ninguém menos do que Miles Davis, substituindo ninguém menos do que John Coltrane. Um currículo impressionante, mesmo que tenhamos esquecido de Thelonious Monk e Art Blakey.

FILHO DE “BIRD” PARKER E DEXTER GORDON

Críticos apontaram, no começo da carreira de Sonny Stitt (1945, ao trabalhar com Gordon) clara influência de Charlie “Bird” Parker, mas hoje acusam a presença de “Bird” apenas no sax alto. No tenor, Stitt logo desenvolveu linguagem própria, afastando-se do mestre. Aponta-se ainda que ele tem, sobretudo ao tocar baladas, um lirismo relaxado que o assemelha mais a Dexter Gordon (foto)
do que a Parker. Dessa combinação do clássico “Bird” Parker e do moderno bebop de Gordon, nasceu o estilo Sonny Stitt. Aqui, para quem é do ramo (e quem não é está perdendo muito), o sax alto de Stitt num dos temas mais populares do jazz: Stardust (creio que, em língua de barbares, quer dizer “poeira de estrelas”).

O.C.

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ESSES CRIATIVOS CONSULTORES DE EMPRESAS

Ousarme Citoaian
O professor gaúcho Ricardo Mallet (foto, em ação) exerce uma atividade que está em moda há alguns anos no Brasil – consultor de empresas. Graduado em gestão empresarial, ele ganha a vida honestamente em andanças pela vastidão medida entre o Chuí e o Caburaí, fazendo palestras de incentivo às iniciativas de negócios. Não sei se participou de algum dos seminários de marketing que ocorrem há séculos em Itabuna, o que, aliás, não vem ao caso. Vem ao caso sua “descoberta” de que os grandes e principais vícios dos brasileiros (não digo “da humanidade” devido às diferentes línguas do planeta) começam com c.

COCAÍNA, CRACK E MACONHA COMEÇAM COM C

Diz o palestrante em seu blog que, durante uma viagem de ônibus, começou a pensar no assunto e chegou a conclusões que agora passo a quem aprecie inutilidades. “De drogas leves a pesadas, bebidas, comidas ou diversões, percebi que todo vício curiosamente começava com c”. E aí vai a lista: cigarro (“que causa mais dependência que muita droga pesada”) começa com c”, cocaína, crack e maconha, também. Maconha? Sim, pois “maconha é apenas o apelido da cannabis sativa”. Entre as bebidas, cachaça, cerveja e café. Este, “muitos gaúchos trocaram pelo chimarrão e não adiantou: também tem inicial c”.

“SEM TER NADA INTERESSANTE PARA FAZER”

O consultor diz que se envolveu em tais lucubrações num momento em que estava “sem nada interessante para fazer”, o que parece óbvio. Talvez por semelhante motivação, vou adiante nessa curiosidade. Citemos o chocolate e as comidinhas carregadas no sal ou no açúcar. E daí? Daí que sal é cloreto de sódio (olha o c aí!) e o açúcar vem da cana do mesmo nome. Para arrematar, o professor nos impõe uma conclusão um pouquinho forçada: “Coca-Cola vicia e Pepsi, não”. Por que? Fácil: a primeira tem dois cês; a segunda, nenhum! Faltou lembrar que consultor (em que algumas pessoas se viciam) também começa com c.

QUATRO PALAVRAS E LUGAR NA HISTÓRIA

Uma frase não deve ter, em benefício de sua clareza, muitas palavras. Esta tem 12. Getúlio Vargas, num palanque em Ilhéus, usou 15: “Façam-me a ponte para o Catete e eu vos farei a ponte para o Pontal”; com os dez termos de “O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever” o almirante Barroso entrou para a história; Gagarin (quase um século depois) foi fazer companhia ao velho comandante, com apenas quatro: “A terra é azul”… Quantas palavras devemos usar numa frase? Não há regra. Mas Dad Squarisi (foto), musa desta coluna, dá uma dica valiosa: “Use sentenças de, no máximo, uma linha e meia”. Logo, modestamente concluo: ao contar vinte termos, cuidado (nenhuma das citações feitas acima chegou a tanto).

FRASE LONGA E UNIÃO DE FRASES CURTAS

Tal qual Freud, a musa explica: “a pessoa só consegue dominar determinado número de palavras, antes que os olhos peçam uma pausa. A frase muito longa dá trabalho, confunde”. Finalizando, diz a mestra que “uma frase longa nada mais é do que duas curtas”. E aí entro eu, de novo, com minha colher de pau: tenho visto sentenças tão longas que precisariam ser divididas não em duas, mas em três ou quatro. “Não quis Deus que os meus cinquenta anos de consagração ao direito viessem receber, no templo do seu ensino, em São Paulo, o selo de uma grande benção, associando-se hoje com a vossa admissão ao nosso sacerdócio, na solenidade imponente dos votos que o ides esposar” – é frase de Rui Barbosa (foto), com 46 palavras.

NOSSA MÍDIA GANHA ATÉ DE RUI BARBOSA

A sentença ruibarbosiana (Oração aos moços/1920) não é recorde de gigantismo – e, afinal, Rui é Rui. Vejam esta, de lavratura regional: “Assim, foi que, em 5 de junho de 1972, na primeira conferencia das Nações Unidas sobre o meio ambiente, nasceu a nível internacional as primeiras ações chamando atenção do mundo para temas como poluição e degradação ambiental, trazendo no item 6 da declaração, a necessidade de ´defender e melhorar o ambiente humano para as atuais e futuras gerações´, mas que sozinhas não seriam suficientes e por isso mesmo, foi objetivado ser alcançado com a paz, o desenvolvimento econômico e social”. Ufa! Um tijolaço de 80 palavras (transcrito da exata forma como saiu no blog).

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SOBRE RACISMO E DISCRIMINAÇÃO SOCIAL

O filme se passa em 1959. Um viúvo, compositor de jingles, branco, tem problemas com a filha de sete anos, por isso precisa urgentemente de uma babá. Entrevista várias candidatas, até encontrar uma recém-formada, que não consegue arrumar trabalho, por ser negra. A esta altura, a menina (Molly/Lina Majorino), de birra, parara até de falar. E ele (Manny/Ray Liotta) não parara de fumar, o que, segundo Molly “descobriu”, vai levá-lo à morte. Pior: a babá (Corina/Whoopi Goldberg) também é fumante. Falamos de Corina, uma babá perfeita/1994. Por trás da fórmula água com açúcar, Uma babá… trata de racismo e discriminação social, embora de forma sutil, por isso discordo de que se trata apenas uma história romântica xaroposa.

UM PAINEL DO JAZZ POUCAS VEZES VISTO

Corina é babá por necessidade, pois tem sólida formação em literatura e música, o que a leva a aportar comentários pertinentes sobre jazz e e publicidade. Aliás, Uma babá…  oferece um dos melhores painéis do jazz já visto no cinema (com Billie Holiday, Duke Ellington, Dinah Washington, Sarah Vaughan, Armstrong & Oscar Peterson, além de valiosas citações. Por exemplo, num bar noturno, Jevetta Steele canta os primeiros versos de Over the rainbow (aquela de O mágico de Oz), com o sax tenor de Rickey Woodard ao fundo (que eu não conhecia), me deixando com ganas de sair correndo e comprar o  CD, ou Dinah Washington, com What a diffrerence a day makes, standard que sempre ouço com satisfação. Mas o melhor só vem no final.

NO FIM, UM CLÁSSICO DA CANÇÃO GOSPEL

Para encerrar, a menina Molly tenta fazer a avó (Eva/Erika Yohn), dilacerada pela morte do marido, solfejar This little light of mine (um clássico da canção gospel), conseguindo arrancar-lhe um canto rouco e triste, em seguida coberto pelas vozes poderosas do grupo vocal The Steeles (Billy, Fred, JD, Jearlyn e Jevetta). Infelizmente, já não tenho o DVD (e também não o encontro em nenhuma loja da internet), o que dificultou a edição deste vídeo. Mas, modéstia à parte, o material aqui mostrado (com um pouco da última cena de Uma babá… e 48 segundos de Jevetta  Steele a cappella) é suficiente para ouriçar todos os pelos do corpo e ainda umedecer os olhos – desde que não haja nada errado com sua sensibilidade. Se duvida, clique.

O.C.

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JÁ MUITO ALÉM DO CABO DA BOA ESPERANÇA

Ousarme Citoaian
Foi com Emílio de Menezes que aprendi a beber uísque com água de coco. “Como?” – gritariam horrorizados puristas, para os quais uísque não se mistura – e, no seu espanto, me levantariam a bola para um mau trocadilho: eu não como, bebo. Mais: se o poeta morreu em 1918, este humilde e hebdomático colunista, para gabar-se de com ele ter bebericado, precisaria carregar no costado, pelo menos, 100 anos – e ter começado a beber ainda usando fraldas. Convenhamos que já estou meio para a idade provecta, mais pra lá do que pra cá, dobrado o Cabo da Boa Esperança e ofensas semelhantes, mas não tanto que ultrapasse uma centena de verões ardentes.  Meu convívio com o poeta não se deu em boteco, mas em livro.

EMÍLIO, QUEM DIRIA, NÃO É MAIS AQUELE


Trata-se de Emílio de Menezes, o último boêmio, de Raimundo de Menezes, bebido (ops!) na adolescência, e que agora recuperei num sebo. Réu, confesso: precoce, lia, bebia uísque e fumava (de fumar, logo me cansei, pois odeio vícios pequenos). Pois saibam todos que o velho e bom Emílio (a voz poética mais destrutiva que já se ouviu neste País) está também num livro psicografado por Chico Xavier (Parnaso de além túmulo) e, crenças à parte, não gostei de vê-lo “recuperado”, como ali se mostra em dois sonetos. Num deles, confessa: “Sou o Emílio, distante da garrafa,/ mas que não se entristece nem se abafa,/ longe das anedotas indecentes”. Não é Emílio, é anti-Emílio. 

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OPINIÃO DE LINGUISTA “PESA” EM DECISÃO

A variedade de entendimentos é um dos muitos encantos do Direito e, por extensão, da democracia e da vida. Um juiz de Niterói (poderia ser qualquer outro cidadão) recorreu à Justiça, exigindo ser tratado por “senhor”, pois se sentira ofendido ao ser chamado de “vocêpelo síndico do edifício onde mora. Pleiteava que também suas visitas recebessem do mesmo síndico o tratamento de “senhor”, “senhora”, “doutor”, “doutora” e por aí vai – e ainda pedia que, em caso contrário, fosse o “infrator” levado a pagar multa não inferior a 100 salários mínimos, por danos morais. No tribunal, o julgador negou-lhe a pretensão, com base em parecer da linguista Eliana Pitombo Teixeira.

DOUTOR É TÍTULO, NÃO FORMA TRATAMENTO

Segundo a professora, “você” é tratamento formal – por ser variante (contração) da alocução respeitosa “Vossa Mercê”. Para o magistrado sentenciante, “´Doutor´ não é forma de tratamento, e sim título acadêmico utilizado apenas quando se apresenta tese a uma banca e esta a julga merecedora de um doutoramento”. Estou perfeitamente de acordo quanto à segunda justificativa. Da primeira, data vênia, discordo frontalmente: “você”, embora vindo de uma expressão formal, é, na linguagem de todos os quadrantes do Brasil (exceto, talvez, alguns locais da região Sul), tratamento íntimo. Nenhuma pessoa medianamente educada usa “você” com pessoa idosa, autoridade ou desconhecido.

COMO REGRA, “VOCÊ” É TRATAMENTO ÍNTIMO

Não opino se há direito ou apenas pose na “exigência” do cidadão em não querer ser tratado por “você”. Apenas digo que “você”, em não sendo, por si só, forma ofensiva de abordagem, não é formal, como diz a ilustre professora, opinando a distância do falar brasileiro. Mas ela tem seguidores, obviamente: o ótimo apresentador Jô Soares costuma tratar todos seus convidados por “você” – e há quem ache isto normal (ele, por exemplo, acha). Assustou-me ver, por exemplo, Fernando Henrique Cardoso e D. Evaristo Arns (para citar apenas duas figuras que devem receber trato formal) serem chamados de “você”. No meu entender, cometeu-se, nestes dois casos, uma descortesia. Ou mais.

“JUSTIÇA, PARA SER BOA, COMEÇA EM CASA”

Não resisto a esticar o assunto e fazer um comentário em torno da palavra “doutor”, de sentido hoje já desvirtuado (para não dizer desmoralizado) entre nós. Aqui, a tese aprovada por banca especializada não está entre as formas mais comuns de chegar ao título: mais fácil é obter uma licenciatura qualquer ou, na falta desta, vestir-se de branco. Bem fez famoso bacharel em Direito, de Itabuna, que, tão logo recebeu o diploma, reuniu a família e fez seu primeiro grande discurso: “A justiça, para ser boa, começa em casa; portanto, a partir de hoje, quero ser chamado de doutor”. Assim foi feito e assim é até hoje, “doutor pra lá, doutor pra cá”, com (quase) todos felizes.

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NOEL, UMA IMENSA PRODUÇÃO EM OITO ANOS

Vinícius de Morais, que praticamente abandonou a carreira de poeta “sério” para se dedicar a um gênero então considerado menor, a MPB, foi letrista dos mais profícuos. Penso que, em termos de produtividade, ele só tem rival em Noel Rosa, que fez mais de 200 composições – sem contar muitas que vendeu e foram assinadas por outros compositores. Vinícius ultrapassou a marca de 300. Não faltará fã de Noel a fazer as contas e concluir que o Poeta da Vila, que viveu 27 anos (1910-1937) realizou toda sua carreira musical em curtíssimo período (de 1929 a 1937). Já Vinícius (1913-1980) produziu durante 22 anos, a partir de 1958.

VINÍCIUS FOI BARROCO, NOEL FOI CAIPIRA

Visto assim, Noel foi mais produtivo. Porém a ideia não é comparar os dois autores e levantar polêmica, mas mostrar alguns pontos curiosos. Além desse da alta produção, os dois começaram com gêneros que logo abandonaram: Noel estreou com a embolada Minha viola, cuja letra hoje parece fora do padrão noelino: “Minha viola tá chorando com razão,/com saudade da marvada que roubou meu coração”. Vinícius começou em tom barroco, com Serenata do adeus. Refere-se à mulher como “estrela a refulgir” e cria estes versos: “Crava as garras em peito em dor/ e esvai em sangue todo o amor,/ toda desilusão”. Cândido das Neves assinaria.

EM VINÍCIUS, ATÉ CÂNCER ERA INSPIRAÇÃO

Noel subiu o nível dos seus versos, assumindo-se como poeta urbano “culto”, Vinícius abandonou a escola antiga, integrou-se à Bossa Nova, popularizou-se, sem fazer concessões à vulgaridade. Como costuma acontecer, o espaço se finda, e tanto ainda resta a dizer. Há tempo para citar Chico Buarque (foto), para quem Vinícius fazia letra de música com “qualquer coisa”. Certa noite, numa clínica para se tratar do excesso de uísque, o Poetinha ouviu que no quarto vizinho um homem com câncer estava em estado terminal – e alguém, logicamente, chorava seu desenlace iminente: Vinícius fez e mandou pra Baden pôr a melodia em Pra que chorar (aqui, com Zeca Pagodinho).

 

 O.C.

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