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:: ‘Universo Paralelo’

UNIVERSO PARALELO

HÉLIO PÓLVORA E A ESCOLHA DO SIMPLES

Ousarme Citoaian

O título do primeiro romance de Hélio Pólvora (foto), Inúteis luas obscenas, é um achado, mas não surpreende: jornalista de batente (além de contista, ensaísta, cronista, tradutor e crítico de cinema) ele sabe a importância de bem titular (até procurou, em vão, convencer disso seu compadre Euclides Neto, que criou títulos não muito inteligíveis, como Machombongo). Mas o melhor de Inúteis luas obscenas não é o título, é o próprio livro, um retorno ao bom e velho estilo de contar histórias com começo, meio e fim. Senhor de erudição suficiente para atingir o esnobismo (poucos brasileiros leram tanto quanto ele), Hélio fugiu dos experimentos estéreis, em privilégio do simples.

O LEITOR ESCOLHE O FINAL “MELHOR”

Surdo é personagem recorrente em contos do autor. De tanto perturbar o sono do contista foi parar no romance – um romance que se lê de uma sentada, tal a qualidade da narrativa, que pega o leitor pelo colarinho e o leva, subjugado, à última página – quando, surpreso, será chamado a decidir entre dois epílogos. Inúteis luas obscenas é um tratado sobre a solidão humana, estampada em anti-heróis condenados à vida miserável, sem perspectiva de romper seu círculo de pequenez, empurrados para um final em que nenhum tipo de libertação é possível. Nesse ambiente, duas mulheres fortes (“Somos duas cobras venenosas”, diz uma delas) se destacam: Celina e Regina.

AROMAS, CORES E SABORES DE CACAU

Surdo (que talvez nem seja surdo) é dado a leituras e filosofias, pensa, medita e dá mostras de ter visitado os bons autores. “Os maus têm uma felicidade negra”, cita Victor Hugo (foto). Envolvido com luas azuis, vermelhas e obscenas, e um amor não convencional, Surdo é um homem incompreendido e portador de certa carga de amargura – na grande sabedoria há grande pesar, ensina o Eclesiastes. Resta dizer que Hélio Pólvora é um escritor da zona cacaueira (“Sou um pobre homem de Itabuna”, diz ele, parodiando Eça), e seu romance tem cheiros, cores e sabores de teobroma, ainda que seja universal, na medida em que trata do sofrimento do ser humano, presente em todas as latitudes.

TEXTO PRAZEROSO, INOVADOR E ECONÔMICO

O clima de tragédia é acentuado por um prólogo em cada capítulo, à moda do coro do teatro grego, e referências a entes mitológicos (na gravura, Édipo). O romancista esparge constantes pitadas de lirismo sobre seus embrutecidos personagens, o que enriquece e “humaniza” a história. No entanto, esse olhar, que às vezes parece cúmplice e protetor, não subtrai a Inúteis luas obscenas seu conteúdo de tragicidade. Há de ressaltar-se (afora essa leitura pessoal), o texto prazeroso, econômico (sem chegar à mesquinharia de Dalton Trevisan), conciso, sem sobras nem faltas. A sensação é de que valeu (muito) a pena esperar pelo primeiro romance de Hélio Pólvora.

O QUE NOS IRRITA TAMBÉM NOS MELHORA

Teria sido o velho e suíço Gustav Jung (foto) quem disse: “Tudo o que nos irrita nos outros pode nos levar a um conhecimento de nós mesmos”. Assim, coisas que a gente combate, como ingratidão, injustiça, traição, inveja, ciúme, medo ou impaciência e, no meu caso, a má concordância, a regência pífia e os lugares-comuns, pode significar que nós próprios somos portadores desses defeitos. Entendo ser imperativo que eu, crítico iconoclasta da obra alheia, exerça essa mesma exigência em relação a meus textos. E eu a exerço, embora considere normal não ter a isenção suficiente e ainda deixar contaminar minhas opiniões pela excessiva carga de autocompaixão.

NO INESPERADO, O EROTISMO VOCABULAR

Em maré de citações (hei de ter cuidado, pois Newton disse que quem cita muito não tem idéias próprias) ponho em campo o pensador francês Roland Barthes (foto), para quem as palavras se tornam eróticas pela excessiva repetição. Confesso que sinto esse erotismo vocabular (parece que inventei isto agora!) no inverso da repetição, que é o inesperado. O texto novo e simples tem uma força estranha que me agride (no melhor sentido), me pega pelo colarinho e me transporta a mundos distantes. Arrisco-me a perder os leitores exigentes, pois acabo (ai de mim!) de me pôr em posição contrária a Barthes (se vivo, não creio que ele ficasse muito preocupado com minha opinião…).

TEXTO QUE NOS EMBALA E TRANSPORTA

A verdade é que experimento um prazer muito grande com frases corretas, desde que despidas de pedantismo. Elas mexem em minha alma, me embalam e me transportam, como esta, um verso de sete sílabas: “Onde eu nasci passa um rio…”. A partir desta frase de Caetano Veloso é possível escrever romance, novela, crônica, conto… ou não escrever coisa nenhuma, mas será impossível não pensar e não sentir. “Onde eu nasci passa um rio” é texto a um só tempo refinado e simples. Uma das melhores frases da MPB, provocativa, por isso nova e boa, digna de ser tema de redação de vestibular para qualquer curso. Em prosa ou verso.

LIVRARIA ENTRE NÓS, NEM PRA REMÉDIO

Há variadas formas de medir o desenvolvimento cultural de uma comunidade: universidades, livrarias, editoras, cinemas, teatros e outras. Itabuna e Ilhéus (principais cidades da região) não têm, a rigor, nem uma livraria para remédio (temos casas que vendem, dentre outros itens, livros). Quanto aos outros padrões citados, estamos também em grande déficit – e é deplorável dizer que já estivemos em melhores condições do que hoje. Quer dizer: no que respeita a esses valores, andamos para trás. Ou, no máximo, de banda, no melhor estilo Ucides cordatus, também chamado caranguejo-uçá.

XADREZ POR AQUI SÓ A CADEIA PÚBLICA

Um leitor indignado nos ofereceu outro metro comparativo (igualmente empírico, é verdade) do nosso nível cultural: quase a ponto de nos confundir com o Procon, ele reclama que vasculhou Ilhéus e Itabuna para, surpreso, descobrir que é impossível, em cidades tão culturalmente ”avançadas”, comprar um jogo de peças de xadrez, com o mínimo de qualidade. Ora, vejam só. O chamado nobre jogo é mesmo um padrão interessante para o caso. O leitor diz que Vitória da Conquista, por exemplo, tem o xadrez na escola fundamental, como prática educativa. Aqui, xadrez é apenas a super-povoada cadeia pública.

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LUIZ GONZAGA E O INCÔMODO “VOZES DA SECA”

Dia desses, falamos aqui no médico Zé Dantas, um dos dois maiores parceiros de Luiz Gonzaga – o outro foi o advogado Humberto Teixeira (foto) – quando listamos “Vozes da seca” entre os clássicos do médico pernambucano. Luiz Gonzaga, na minha modesta opinião, foi o maior músico pop do Brasil (com a morte dele, creio que o lugar é de Gilberto Gil), mas é preciso lembrar, nem que seja apenas em favor da fria verdade histórica, que o Rei do Baião foi um conservador exacerbado, apoiou o golpe de 1964, chegou a dizer que não havia tortura no Brasil – e “Vozes da seca” o incomodava. Sei de um show em que ele, ao pedirem esta música, se recusou a cantá-la, com uma frase marota: “Não me lembro da letra”.

O CONSTRANGIMENTO DOS JOVENS COLEGAS

Gonzaga sempre teve horror a políticos de esquerda. Passou nove anos no Exército, quando aprendeu a admirar os militares, sendo amigo do presidente general Dutra, de quem animou muitos saraus palacianos – e, mais tarde, de Marco Maciel. Talvez não por acaso, “Boiadeiro”, a toada com que costumava iniciar suas apresentações, é de dois ex-militares (Armando Cavalcante e Clécius Caldas) que conhecera na caserna.  Já no governo Médici (o mais sanguinário dos generais da ditadura) ele decepcionou os colegas engajados na luta política, a exemplo de Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Geraldo Vandré (foto).  E o mais constrangido de todos com esse comportamento era Gonzaguinha, filho do Rei.

POR BURRICE, “ASA BRANCA” FOI CENSURADA

A ditadura, que nunca respeitou nem mesmo os que apoiaram o golpe, também não poupou Luiz Gonzaga, proibindo-o de cantar (era o governo Médici) “Vozes da seca”, “Paulo Afonso” e “Asa branca” (as duas primeiras com letra de Zé Dantas, a segunda de Humberto Teixeira). As razões da censura: “Vozes da seca”, por ser música de protesto, e “Paulo Afonso”, por ciúmes – exalta os presidentes Getúlio, Dutra e Café Filho; já “Asa branca” foi censurada devido à burrice que grassava no governo – a ditadura era um monstro sem cabeça e, logo, sem juízo. Em 1980 (sob o general Figueiredo), Luiz Gonzaga gravou “Caminhando”, o “hino” de Geraldo Vandré; em 1981 fez as pazes com Gonzaguinha.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

UMA EDIÇÃO COM MUITAS LÁGRIMAS

Este vídeo foi editado com lágrimas, especialmente para a coluna. As imagens mostram o sertão nordestino torturado pela seca, aquele ambiente de intenso sofrimento (físico e, por consequência, psicológica) que inspirou o ginecologista e compositor José de Souza Dantas Filho, o Zé Dantas (1921-1962). O ano é 1953. Algumas cenas são de Vidas secas (1963), filme de Nelson Pereira dos Santos (foto), que também merece nossa homenagem menos tardia do que sincera. Clique.
(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

PREPOSIÇÃO PERIGOSA E IMPREVISÍVEL

Ousarme Citoaian

A julgar pelo que vejo, a preposição “de” (apesar de sua aparente inocência) é traiçoeira, perigosa, imprevisível: quando menos esperamos, ela se mete onde não é chamada; outras vezes, contamos com sua presença, e ela, caprichosamente, nos dá as costas e escafede-se pelo lado da página. Há dias, respeitável jornal publicou a notícia, claramente contaminada pela inoportuna preposição (que, nestes casos, seria melhor batizada como “penduricalho”): “Em Buenos Aires, o presidente Lula afirmou de que pretende fortalecer o Mercosul”. E aviso aos sem graça que isto nada tem a ver com o preconceituoso “analfabetismo” presidencial, mas a erro do veículo que publicou a nota .

ATRIZ PERDE OPORTUNIDADE DE USAR O “DE”

A relação entre os verbos afirmar, negar, garantir, dizer, destacar, salientar e outros é como a convivência de Geraldo Simões e Fernando Gomes: não comem na mesma mesa, não amarram o burro juntos. Políticos assim são ditos inimigos figadais; no caso dos verbos, os filólogos os chamam transitivos diretos. “Quem afirma, nega, garante, diz, destaca, salienta – afirma, nega etc. alguma coisa” – ensina a gramática. Zero de preposição. Logo, no caso citado, seria sensato guardar o “de” para o momento oportuno. Já uma jovem atriz de tevê que, numa entrevista, disse “Entre as coisas que mais gosto…” perdeu a oportunidade de usar adequadamente nosso simpático “de”.

ERRAR NOME DE PESSOAS É GROSSERIA

A coisa piora quando se trata não apenas da construção da frase, mas de nomes próprios. Nomear erradamente as pessoas, sobretudo em ocasiões solenes, ultrapassa o erro, chega à grosseria. Os políticos acima referidos têm seus nomes frequentemente trocados nos jornais: Fernando é Gomes Oliveira; Geraldo é Simões de Oliveira. E, até onde nos é dado saber, não os une laço de parentesco. Nem preposição. Querem um caso recente? Pois saibam que vários blogs, jornais e emissoras de rádio (não conferi as tevês) noticiaram a morte do jornalista Nelito Nunes de Carvalho. Notícia inverídica: quem morreu (morte que este colunista muito pranteou) foi Nelito Nunes Carvalho.

JORNALISTA FAMOSO TAMBÉM FOI VÍTIMA

Ilustres jornalista brasileiro, o acadêmico Murilo Melo Filho (foto), teve, em Ilhéus, seu nome agredido num artigo de jornal: Murilo de Melo Filho; o professor Dorival de Freitas, que não faz mal a ninguém, volta e meia é “xingado” de Dorival Freitas; em recente debate na tevê, o candidato Plínio de Arruda Sampaio teve o  nome mutilado: Ricardo  Boechat tirou-lhe, impunemente, o “de”; José Haroldo Castro Vieira, lendário dirigente da Ceplac, tem sido dito de Castro (a placa no principal pavilhão da Uesc teve o “de” arrancado à última hora – mas guardou os sinais da correção apressada); por fim, outra placa, ao lado da mencionada, diz que ali é a Universidade Estadual Santa Cruz! Erro de palmatória, já se vê.

JOÃO SALDANHA, OUTRA VEZ, NAS LIVRARIAS

Personagem freqüente na árida literatura do futebol, o jornalista, ativista político e treinador João Alves Jobim Saldanha (1917-1990), está de volta às livrarias. À imensa bibliografia (nos limites da aridez  referida) sobre esse homem que entrou para o folclore nacional junta-se agora Quem derrubou João Saldanha? – livro do jornalista Carlos Ferreira Vilarinho. Antes (sem intenção de citar todas) houve livros de João Máximo (Sobre nuvens de fantasia), Eduardo Manhães (João Sem Medo), Raul Millet Filho (Vida que segue) e André Iki Siqueira (Uma vida em jogo, aqui comentado). E o próprio Saldanha, além de artigos e crônicas, publicou títulos que reforçam seu mito pessoal, entre eles um clássico: Os subterrâneos do futebol.

AO LADO DE EDUARDO GALEANO E MÁRIO FILHO

A Abril.com “escalou” onze livros fundamentais sobre esportes, com Os subterrâneos… em segundo lugar. Eis, para a satisfação de eventual curiosidade, a lista: 1) O negro no futebol brasileiro (Mário Filho), 2) Os subterrâneos do futebol (João Saldanha), 3) Estrela solitária: um brasileiro chamado Garrincha (Ruy Castro), 4) Futebol, ao sol e à sombra (Eduardo Galeano), 5) Michael Jordan: a história de um campeão e o mundo que ele criou (David Halberstam), 6) Como eles roubaram o jogo (David A. Yallop), 7) A Luta (Norman Mailer), 8 ) Fio de Esperança: biografia de Telê Santana (André Ribeiro), 9) Maracanã: meio século de paixão (João Máximo), 10) À sombra das chuteiras imortais (Nelson Rodrigues) e 11) A ginga e o jogo (Armando Nogueira, na foto).

“FOI DERRUBADO PELA DITADURA MILITAR”

Quem derrubou… vai fundo numa questão muito polêmica: o motivo da saída de Saldanha da seleção brasileira. “Foi derrubado pela ditadura militar”, afirma Ferreira Vilarinho (foto), acrescentando que a decisão de derrubá-lo vinha desde que ele classificara o Brasil para a Copa do Mundo.  As razões de governo são transparentes: Saldanha – figura popular e de invejável retrospecto nas eliminatórias – “não servia mais à ditadura”. Aí, veio o assassinato do amigo Marighela pelo Exército (ambos eram do PCB) e Saldanha virou bicho. Na Europa, lhe perguntaram sobre a situação política do Brasil e ele abriu o jogo (novembro de 1969): prisões, tortura e assassinato de presos políticos. Precisava ser demitido com urgência.

O TREINADOR COM O DESTINO TRAÇADO

Saldanha (foto), na visão do autor de Quem derrubou…, “era uma figura nacional, adorado pelo povo e respeitado internacionalmente, mas tinha, desde aquela data, o destino traçado – e sabia disso. Em janeiro de 1970, no México, para acompanhar o sorteio das chaves, ele encontrou Didi (seu jogador no Botafogo, campeão de 1957) e disse que “provavelmente, não duraria muito tempo na seleção”. Em março, dia 3, numa entrevista de rádio em Porto Alegre, sobre o famoso caso Dario-Médici, ele entornou o caldo: “Nem eu escalo ministério nem o presidente escala time. Então, está vendo que nós nos entendemos muito bem”. Apenas 12 dias depois dessa resposta “impertinente” foi demitido (ou, como disse Havelange, “dissolvido”).

NÓ NA LÍNGUA E FALTA DE ORGULHO

O brasileiro sofre de uma espécie de complexo de inferioridade em relação aos americanos e à língua inglesa que, de tão antigo, parece eterno. As siglas dão bem a nota desse servilismo, de tal maneira que, há poucos dias, na Globo – durante a transmissão de um jogo de vôlei, creio – o locutor pronunciou NBA (ene-bê-á) eu   estranhei. O normal, para nossa mídia contaminada por esse complexo, é ene-bi-êi, da mesma forma que se diz éfe-bi-ai para a  agência de investigações FBI (que a sensatez manda pronunciar éfe-bê-i, ou, talvez, fê-bê-i). É claro que gente sem orgulho de suas tradições culturais prefere dar um nó na língua e dizer éfe-bi-ai. É mais chique.

DIANA É UM NOME LINDO DE DEUSA

Essa subserviência atingiu também os nomes próprios, a julgar pelas tantas Daianas e Daiannes (assim, com dois nês) que pululam no noticiário. Temos tais nomes em gente famosa (uma atleta e uma envolvida no crime com o goleiro Bruno) e também as anônimas e sofredoras que engrossam a listagem de pacientes do SUS. A matriz disso, todos sabem, está numa certa princesa Diana, que a mídia mal informada apelidou de Daiana. O público seguiu esse caminho tortuoso, criando estranha inflação de Daianas: estamos em risco iminente de tropeçar nelas, de variados tipos, tamanhos e cores, em qualquer rua de qualquer cidade; quanto à Diana de origem, lindo nome de deusa, não há uma, nem pra remédio.

A FRANÇA TEVE UM REI SANTIFICADO

Reis, rainhas, imperadores e que tais (muito ao nosso gosto de plebeus) têm os nomes traduzidos. Quem foi o rei e a rainha guilhotinados na Revolução Francesa? Todo mundo acertou: Luís XVI e Maria Antonieta. Só um rematado pernóstico os chamaria de Louis XVI e Marie-Antoinette (no retrato clássico de Elisabeth Vigée-Le Brun, dez anos antes da guilhotina). A França é cheia de Luíses reis, e um deles, o número IX, é o São Luís dos católicos. Pelo comportamento da mídia que inventou Daiana, ele seria tratado como Saint Louis, para desespero de D. Mauro Montagnolli, que fala português. Dia desses, ao revisar um texto, topei com um pintor italiano chamado Michelangelo. Mudei, com urgência urgentíssima, o nome para Miguel Ângelo. Comme il fault.

UMA “TRADUÇÃO” SEM GROSSERIAS

O canadense Paul Anka (foto) lançou Diana em 1957 e a canção se tornou uma das mais vendidas do mundo.  A letra, como soe acontecer na canção americana, tem lá suas bobagens. Logo de saída, uma agressão, com “Eu sou jovem e você é velha/ Isto, minha querida, eu já lhe disse” (I’m so young and you’re so old/ This, my darling, I’ve been told), grosseria que o paulista Fred Jorge (1924-1994), autor da versão em português, jamais se permitiria repetir. Valendo-se apenas da melodia, ele trocou essa pedrada na testa por “Não te esqueças, meu amor/ Que quem mais te amou fui eu”. Ficou uma “cantada” bastante aceitável.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

CONTRA O “MACAQUISMO” BRASILEIRO

O brasileiro Carlos Gonzaga (foto), nascido em Paraisópolis/MG, da geração Jovem Guarda, ajudou no êxito mundial, pois sua gravação de Diana (nunca Daiana!) vendeu feito pipoca nas nações de língua portuguesa e espanhola. Com a ajuda luxuosa de Fred Jorge, reafirmou que os ianques são maus letristas e lançou um grito contra o “macaquismo” hodierno, que chama Diana de Daiana. Clique.
(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

A ORELHA CORTADA E O GOL QUE NÃO HOUVE

Ousarme Citoaian

Certos artistas são lembrados por um momento, uma curiosidade, uma circunstância: Van Gogh, por ter cortado a própria orelha e por vender, em vida, um único quadro –  A vinha encarnada (foto); mesmo quem não é dado a jazz & blues sabe que Ray Charles era cego, e isso basta; também de Jorge Luís Borges não se precisa ler nada, mas é imperdoável desconhecer-lhe a cegueira; e Pelé (embora não seja, rigorosamente, um artista)  foi muitas vezes celebrado pelo gol que não fez. Penso que essas situações poderiam integrar a lista daquilo que o gênio de Millôr Fernandes chama de “Ah, essa falsa cultura!” Entende.

FIRMINO ROCHA E O MENINO DO FUZIL

Autores são, volta e meia, vítimas da simplificação, passando a ser identificados por um só trabalho, não raro um detalhe, um ângulo desse trabalho. Essas referências, que contribuem para eclipsar o conjunto da obra, têm sido causa de irritação para muitas “vítimas”, que veem sua produção reduzida à expressão mais simples. São várias as situações em que o artista tem sua obra expressada por um item – um quadro, um disco, às vezes um verso, uma frase. Há poucos dias, citamos aqui o poeta itabunense Firmino Rocha, também ele atingido por essa “maldição”: sempre que se o cita, ouve-se uma referência ao poema “Deram um fuzil ao menino”. E só.

MÃOS QUE AFAGAM TAMBÉM APEDREJAM

Conta-se que Raimundo Correa ficava de mau humor quando alguém o tratava como o autor de As pombas (“Vai-se a primeira pomba despertada…”) e João Cabral de Melo Neto (foto), já de si zangado, não costumava ser simpático com quem demonstrava conhecê-lo apenas pela leitura do poema Morte e vida severina. Há pessoas que jamais abriram um livro e, mesmo assim, citam, sem saber a origem: “Depois de um longo e tenebroso inverno” (Luiz Guimarães), “Última flor do Lácio inculta e bela” (Olavo Bilac), “A mão que afaga é a mesma que apedreja” (Augusto dos Anjos) e “Que seja infinito enquanto dure” (Vinícius de Moraes). Também sei de gente que reduz Valdelice Pinheiro a “Rio Cachoeira” (“Rio torto, rio magro, rio triste…”).

A ELIPSE E A SEM-GRACICE DE MILÔR

Uma questão recorrente nesta coluna – a figura chamada elipse, que leva as pessoas a misturar os artigos definidos – teve um abono interessante, mesmo que nunca mais repetido, devido aos protestos que provocou. O nome do abonador, pasmem, é Luís Fernando Veríssimo. Com surpresa, leio no jornalista e filólogo Marcos de Castro (última edição de A imprensa e o caos na ortografia, uma de minhas leituras de cabeceira) que em 1997 o filho de Érico Veríssimo afirmou, em crônica no Jornal do Brasil, que Millôr Fernandes trabalhara “na Cruzeiro”. Millôr, que trabalhou na revista O Cruzeiro (e tem intolerância a bobagens) ficou sem graça.

SIMÕES FILHO EM ESTADO APOPLÉTICO

Essa epidemia de elipse fere uma regra simples, que toda redação conhece (ao que vejo, conhecia): o artigo que está no nome do veículo dita-lhe o gênero. Assim, O Cruzeiro é usado no masculino, tanto quanto O Malho e O Tico-Tico (embora sejam revistas, o que lhes dá “aparência” de feminino). Já A Tarde, A Gazeta, A Região e A Crítica são femininos (esse nó na língua que se dá para chamar A Tarde de “o A Tarde” deixaria apoplético o eminente Ernesto Simões Filho). Procurei de lanterna mão e não encontrei um só texto em que se chame a Folha de S. Paulo de “o Folha…” ou A Gazeta de “o Gazeta”. Ainda bem que o ataque não é generalizado.

PORTUGUÊS SEM “CONTORCIONISMOS”

Sobre a batatada de Luís Fernando Veríssimo (primeiro à esquerda, sentado), depois de dizer que “seu pai não faria o mesmo”, Marcos de Castro dá um exemplo, colhido “no admirável Solo de clarineta, de Érico Veríssimo”: “Quarta-feira era o meu dia mais esperado e feliz da semana, pois era às quartas que geralmente chegava a Cruz Alta o último número de O Tico-Tico”. O crítico nos chama a atenção para o fato de que por mais cinco vezes Érico se refere à revista na forma masculina, “sem fazer contorcionismos com o idioma”, mudando o gênero para o feminino. E conclui, com uma ponta de maldade: “O filho pode ser bom em saxofone, mas em clarineta o pai era melhor”.

NO BALCÃO, QUEM DIRIA, A FRASE GENIAL

Quando inventaram o comércio, inventaram os caloteiros e, por consequencia, as frases que procuram afastá-los. “Fiado só amanhã” é uma das mais antigas e, por isso, o tempo já lhe subtraiu a graça que, por ventura, teve na juventude. Desconfio de que, menino (aconteceu há uns 300 anos, ai meu Deus!) eu já desgostava da mesmice na linguagem, tanto que me encantei com uma frase de genial economia de palavras (sobre vender fiado), que vi sobre um balcão de loja – e nunca mais a encontrei, por mais que a buscasse, nem mesmo nos arquivos da internet. Jamais esqueci a frase e, claro, o nome do seu autor, o italiano Paolo Mantegazza (foto).

OS ARTISTAS NÃO SÃO FEITOS NA ESCOLA

Esse Mantegazza (1831-1910) não era um qualquer: foi neurologista, fisiologista e antropólogo, notável por ter isolado a cocaína da coca, que utilizou em experimentos, investigando seus efeitos psicológicos em humanos (“pesco” isto no Google). O velho italiano foi escritor de ficção e ainda encontrava tempo para produzir frases de efeito. “A escola pode aperfeiçoar o artista, criá-lo, nunca; não se melhora senão o que já existe”, é uma de suas pérolas. Outra: “A honra nunca existe por metade; inteira é forte, ferida está morta”. Faltou citar a minha preferida, primor de síntese para desestimular os velhacos: “Vendo, vendo; não vendo, não vendo”.

VOZES OBLÍQUAS NA HORA DO SOL SE PÔR

Há murmúrios neste rio,
vozes oblíquas me chamam;
Cantigas de bem-me-quer
entre rosas imaginárias.
Gemidos de superfície,
do coração de Jandira;
acenos de mãos franzinas
entre brisas de luar.
Senda do meu destino
nesta hora tão antiga;
uma saudade-ternura
na hora do sol se pôr.
Cachoeira, Itabuna, Jandira.
Amor cravado em cruz.

SINAL DE DESENCANTO COM A LITERATURA

Autor de “Água corrente”, acima, Ariston Caldas (1923-2007) passou sua vida, principalmente, em Uruçuca, Itabuna e Salvador. Na região e na capital exerceu o ofício de jornalista, poeta e prosador. Trabalhou nos grandes jornais de Salvador e aqui do Sul, tendo participado de várias antologias de contos e poemas. Publicou cinco livros de poesia: Mar distante, A hora sem astros, Balada que vai e vem, Olho dágua e Dissipação, todos em edições mais ou menos artesanais, hoje difíceis de ser encontrados.  Ariston (à direita da foto, ao lado de Jorge Amado – acervo de A Região) pareceu, em certo momento da vida, desencantado com a literatura, ficando mais de três décadas sem publicar. Curiosamente, um ano antes da morte voltou às livrarias, mas com um trabalho em prosa: Linhas intercaladas (Via Litterarum/2006).

SARAH VAUGHAN, A DIVINA, TERÁ EXISTIDO?

A primeira vez que o som inusitado da voz de Sarah Vaughan entrou pelos meus ouvidos eu senti um impacto próximo ao delírio. E cheguei de imediato à conclusão de que aquela cantora não existia – seria uma invenção de técnicos desocupados, um desses “milagres tecnológicos” que sempre estiveram em moda. Na época, minha sensação era da impossibilidade de um canto tão perfeito; e hoje (tantos anos já passados) ainda às vezes penso que Sarah (chamada, com justiça, a Divina) nunca existiu de se ver e pegar, não é gente de carne e osso. O exemplo é sua interpretação de Someone to watch over me, de George (foto) e Ira Gershwin – os irmãos da ópera Porgy and Bess (1935), já citada nesta coluna.

LETRAS COM BOBAGENS ARREPIANTES

Someone… tem letra feminina e bobinha (como em geral as letras dos americanos). Fala de “procurar um certo rapaz que eu tenho em mente” (I’m going to seek a certain lad I’ve had in mind), com bobagens arrepiantes, como “Onde está o pastor para esta ovelha perdida (Where is the shepherd for this lost lamb)? Na versão “masculina” com Emílio Santiago (foto) ficou:  “Eu sou um carneirinho perdido, arrependido e oferecido a alguém que olhe por mim” (Céus!). E antes que perguntem se Ira e George, com esse papo estranho, eram do reduto, respondo que não, ao menos que eu saiba – Cole Porter, contemporâneo deles, era quem jogava nessa posição. O que se notabiliza em Someone… é a melodia (de George), mais ainda com Sarah Vaughan, capaz de transformar em música até a lista telefônica de Constantinopla.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

O COMPOSITOR MAIS RICO DO MUNDO

George Gershwin está na calçada da fama de Long Island desde 2006 e é nome de teatro em Manhatan, em resposta à contribuição que deu a esse meio cultural.  Aproveito e digo, só para quem ainda não sabe, que esse Gershwin (1898-1973), cuja fama encobriu   o irmão e colaborador Ira, formou ao lado dos maiores compositores americanos – como Cole Porter (foto), Richard Rodgers, Irvin Berlin e outros. E também das maiores fortunas. Artista talentoso e com uma vocação atávica para ganhar dinheiro (era judeu-russo), se deu muito bem na vida: em 2005, o jornal The Guardian concluiu que, “estimando os lucros acumulados na vida de um compositor, Gershwin foi o compositor mais rico de todos os tempos”.

COM VOCÊS, A DIVINA SARAH VAUGHAN!

Agora clique, se ajoelhe e esqueça, por escassos três minutos e meio, tudo o que ficou está lá fora. No fim, bata palmas – e se alguém estranhar, não ligue: o mundo está cheio de gente sem poesia.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

SÍMBOLO LATINO PROVOCA DOR DE CABEÇA

Ousarme Citoaian

Além de récorde, invenção pedante a nos ferir os ouvidos, tenho observado uma estranha pronúncia do nome daquele mosquitinho da dengue. A mídia o tem apelidado de a-édis egípti, numa prosódia ofensiva à origem da palavra (em latim: Aedes aegypti).  Na língua de Virgílio, o grupo AE chama-se “E ditongo” (na verdade, as duas letras se fundem, como se fosse “metade A, metade E”, formando um símbolo que nossos teclados não têm.  Há também, com a mesma estrutura, OE – sendo que o primeiro tem som de E aberto e o segundo de E fechado. Exemplos? Caesar (nome próprio) e Poena (pena). E, claro,o já citado Aedes aegypti (ambos abertos).

ET CAETERA (ETC.) É DA MESMÍSSIMA FAMÍLIA

Quando a mídia (oral) trata do assunto, além do medo de contrair a doença, me inquieta a incoerência com que a expressão é enunciada. Como as duas palavras têm o mesmo ditongo (AE), não se justifica emiti-lo na segunda (e-gípiti) e omiti-lo na primeira (a-édes). Logo, a pronúncia precisa de ser é-des é-gípiti). Fazer o “aportuguesamento” para a-édes a-egípiti seria uma sandice, porém ainda menor, pois, pelo menos, guardaria a coerência. Quem fala a-édes deveria falar também et ca-étera (para a expressão et caetera – empregada com o sentido de “e outras coisas” – em geral abreviada para etc.).

É PRECISO MAIS RESPEITO COM O MOSQUITO

Já vi até profissionais da saúde aparentemente qualificados, com esse vício.  Dia desses, um deles, talvez porque convive há muito tempo com o mosquito, tratava o bichinho pelo primeiro nome, na maior intimidade: “O a-édesa-édes faz, acontece, o a-édes isso, o a-édes aquilo…” – quando o nome é ÉDES e não A-ÉDES. Não sei latim, mas penso que estas questões precisam ser dominadas por quem tem deveres com os vários aspectos da linguagem, a prosódia inclusa. Então, em dúvidas ou interesse pelo tema, que procurem as professoras Maria Nilva de Carvalho, Wanda Magalhães ou o professor Dorival de Freitas – dentre outros latinistas.

DUKE ELINGTON, O “XAROPOSO”

Para quem ouvia jazz e MPB nos anos 60 (a moda era Roberto Carlos, Wanderleia, Wanderley Cardoso e outros), Lúcio Rangel era o guru. Sabia tudo de importante, tinha uma inacreditável coleção de discos, era corajoso na defesa de suas opiniões, conhecia todo mundo que interessava (diz-se que ele apresentou Tom Jobim a Vinícius de Moraes, criando uma das parcerias mais significativas da história). Radical, só admitia jazz tocado por negros, e para ele só contava a turma das antigas: Jelly-Roll Morton, Armstrong, Kid Ory, King Olivier, Bechet. Não a Fats Waller, Coleman Hawkins e Duke Ellington (que chamava de “xaroposo”). Dizzy Gillespie (foto) e Charlie Parker eram pouco mais do que… “lixo”.

“TORTURANTE IRONIA DOS CIÚMES”

O mundo e eu cada vez concordamos menos com o velho Lúcio, mas isso não tira o prazer da leitura de seus textos em Samba, jazz e outras notas, a coletânea feita pelo jornalista Sérgio Augusto para a Agir. Entre as delícias, “Continho da Lapa”, com referências diretas a letras de músicas brasileiras, do qual tiro este trecho: “Louco, seguia-lhe os passos, enjeitado e faminto como um cão, sob a luz do abajur de meigo tom, na torturante ironia dos ciúmes”. Lúcio era tio do lendário Stanislaw Ponte Preta e quando este morreu, o tio exclamava “Não vou chorar! Não vou chorar!” – enquanto se desfazia em lágrimas.

A DITADURA E O SAMBA “ENQUADRADO”

É muito interessante o capítulo em que Lúcio Rangel historia a passagem do tema “malandragem”, dos mais recorrentes no samba carioca, para o bom-mocismo imposto em 1937 pela ditadura de Getúlio (foto), o famigerado Estado Novo. Por exemplo, O bonde São Januário (Wilson Batista e Ataulfo Alves) era “Quem trabalha não tem razão/ Eu digo e não tenho medo de errar (bis)/ O bonde São Januário/ Leva mais um sócio otário/ Sou eu que vou trabalhar”; ficou sendo “Quem trabalha é quem tem razão/ Eu digo e não tenho medo de errar (bis)/ O bonde São Januário/ Leva mais um operário/ Sou eu que vou trabalhar”.

A SECRETÁRIA QUE LIXAVA AS UNHAS

Ligo para uma empresa, para falar com o gerente. “Quem deseja?” – pergunta uma voz indiferente, do outro lado da linha, parecendo mais distante do que está de verdade. Ainda de bom humor informo meu nome (heterônimo?) usado nesta coluna. “Como?” – interroga a moça (a esta altura, arbitrariamente, decido que ela é do tipo desenxabida, que está “se achando” e que, entre uma e outra pergunta de boba rotina, lixa as unhas). Soletro. Ela, fazendo que entendeu, põe fim à conversa: “Ele deu uma saidinha e estará retornando daqui a pouco. O senhor não gostaria de estar deixando um recado, senhor Mitoaian?” Não gostaria, pois não deixo  recado com alguém que sequer sabe anotar meu nome.

NÃO CONFUNDA PIÃO COM CARRAPETA

Vá lá que o nome não é tão simples assim, mas pior seria se eu me chamasse Amphilóphio. Se me irritei foi porque a paciência acabou, de tanto me deparar com misturas inusitadas. Conheço gente que confunde Corpus Christi com habeas corpus; tromba de elefante com conta-gotas; Jorge Araújo com Jorge Aragão; Oswald de Andrade com Mário de Andrade; babado com bico; beiço de jegue com arroz doce; Daniel Thame com Edmar Tommy; tapioca com beiju; pião com carrapeta; homem com menino crescido, marselhesa com maionese… Assim olhado, a moça que lixava as unhas cometeu um crime menor, ao misturar Cidadão (Citoyen ) com Intermediário (Mitoyen).  Não ofende, mas chateia.

A LIBERDADE VAI FICAR NO LUGAR DO MEDO

Tempo haverá em que o medo
será artigo de quinta categoria
nas prateleiras do esquecimento.

Então nos despediremos
da exatamência deste vil
relógio do tempo
a que nos vendemos hoje.

e cruzaremos fartos de coragem
a fronteira doida do imenso vale
de nossa solidão
no exercício enfim da liberdade

POESIA COM A CORAGEM DO ENGAJAMENTO

Antônio Houaiss (aquele mesmo!) anota que Jorge de Souza Araujo (foto) faz poesia engajada, “a poesia da coragem”, a coragem de assumir “a força de pôr a nu as fraquezas dos nossos becos”.  E nem se esperava caminho diverso: animal político, no sentido aristotélico da expressão, Jorge Araujo, hábil com as letras, sempre se caracterizou pela capacidade de discutir, provocar e denunciar – e explicar, se lhe permitem. No prefácio de Os becos do homem (de onde retiramos “Presságio”, acima), vem a voz de Houaiss, a insistir que a poesia de Jorge “não encobre o seu engajamento, pois se funda em duas direções políticas, a da inutilidade de certa ordem e da incapacidade dos homens dessa ordem”.

SKIP JAMES E O VIOLÃO “ENVENENADO” DE BENJOR

Skip James (1902-1969) era um cara com tudo para dar errado. Negro nascido no Mississipi, centro racista dos EUA, era filho de um ex-contrabandista de álcool e ele próprio era dado a fabricar uísque (sem CNPJ, é claro). Quando não estava fazendo funcionar sua destilaria clandestina, dedicava-se ao blues. Aprendeu a tocar órgão (provavelmente na Igreja Metodista – pois seu pai se convertera, passando de contrabandista a ministro), mais tarde, guitarra e piano. Sua guitarra emitia um som único, com afinação atípica – coisa inventada por ele. Fico pensando se não teria sido com Skip James (foto) que Jorge Benjor aprendeu a, como ele diz, “envenenar” o violão.

BLUES ANTIGO EM VERSÃO CONTEMPORÂNEA

Alvin Youngblood Hart, músico de blues nascido na Califórnia no meado dos sessenta, gravou “Illinois blues” (de Skip James) especialmente para o filme The soul of a man (sem título em português), dirigido por Wenders para a série Blues – uma jornada musical, coordenada por Martin Scorsese. O blues costuma ser cheio de gírias, duplos sentidos e locuções regionais. Neste, Youngblood subtraiu coisas como When I gin my little cotton and sell my see/ I’m gonna give my baby, everything she need (“Quando eu descaroçar meu pouco algodão e vender minha semente eu vou dar a minha garota, tudo que ela precisa”). O registro ficou pungente, digno do velho Skip.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

AMANHÃ TEREMOS UM VERÃO BRILHANTE

As pessoas que aparecem no clip foram captadas pela lente de Wim Wenders (um luxo para esta humilde coluna) e são figurantes do Sul negro, filmadas ao a caso, sem aviso ou ensaio. O refrão de “Illinois blues” fala algo parecido como “a esperança de um verão brilhante amanhã” (Hope morning summer bright).  Wenders (foto), em comentário sobre The soul of a man, chama a atenção para o fato de que Alvin Youngblood Hart é um tipo grandalhão, a ponto de a guitarra (afinada segundo o estilo Skip James) parecer um brinquedo em suas mãos. Agora, é clicar e curtir.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

ENTERRAMOS O SÍMBOLO DE UMA GERAÇÃO

Ousarme Citoaian
A última edição do UP estava sendo blogada quando Nelito Carvalho era enterrado (e eu, vítima do mecanismo da repetição, quase escrevi “o corpo de Nelito Carvalho”) no cemitério da Santa Casa de Itabuna. “Foi-se uma era, o marco de uma geração” –  recitei para o jornalista Marival Guedes, nós dois ao lado do caixão aberto. Minutos depois, admiti que se Nelito pudesse pular dali, viria, de dedo em riste, me chamar de piegas ou, pior ainda, esgrimir seu adjetivo preferido: imbecil (que ele estenderia aos circunstantes, pelo pecado de me ouvirem). Nelito era assim: pão, pão; queijo, queijo – e mesmo com os amigos seu nível de hipocrisia era zero.

UM HOMEM QUE ERA BOM E NÃO SABIA

Nelito era bom e não sabia, talvez porque seu credo de comunista nunca teve como ponto focal a bondade, mas a justiça. No entanto, que homem bom ele foi! O seu SB – Informações e Negócios (antes, fez o Jornal de Notícias, com Manuel Leal) foi laboratório que projetou muita gente no jornalismo regional. Por ali passaram Paulo Afonso, Jorge Araujo, Kleber Torres, Cyro de Mattos, Mário de Queiroz, Alberto Nunes, Plínio Aguiar, Raimundo Galvão, Marival Guedes, Eduardo Anunciação, Chiquinho Briglia, Pedro Ivo, Antônio Lopes, Helena Mendes, Roberto Junquilho, Manuel Lins e vários e outros. Mesmo que dela retiremos os ingratos, os que chutaram o prato em que comeram, ainda assim a relação está longe de ficar completa.

RICO, TEVE A GENEROSIDADE EXPLORADA

Se alguém afirmar que Nelito foi um mecenas ele não resistirá à ofensa: ressurgirá dos mortos para protestar contra a infâmia (de dedo na cara do difamador “imbecil”, é claro). Mas, me dói dizer, ele estaria sendo injusto: quando rico (teve lá sua fase de pobreza intensa, criada pelo romantismo), custeou todo tipo de maluquice que lhe foi apresentada, na exploração de sua generosidade, a todos deu a mão. Este registro é feito na suposição de que muitos “alunos” de Nelito gostariam de fazê-lo, mas não encontram espaço. E com a certeza de que, em vida dele, este texto jamais poderia ser publicado. Ele me chamaria de piegas, no mínimo.

A LÓGICA EM OPOSIÇÃO AO ROMANTISMO

Restou dizer que chamá-lo de “romântico” seria outro motivo para uma fulminante resposta desaforada: comunista confesso, perseguido, mas nunca renunciante da doutrina que abraçou desde cedo, Nelito Carvalho – como é próprio dos marxista – cultivava a lógica, em detrimento do romantismo, e o materialismo em oposição ao idealismo. Creio ser mais justo retirar o termo anterior e afirmar que se ele não foi mais longe como empresário foi devido à sua absoluta falta de habilidade para sobreviver como homem de negócios no mundo capitalista hostil que ele tanto combatia. E, claro, à sua imensa generosidade que muitos exploraram sem nem lhe dizer “obrigado”.

OS GOLEIROS E O CAVALO DE ÁTILA

Talvez a literatura sobre futebol, para me deixar mal, não seja assim tão árida quanto eu disse aqui – e mais árida terá sido minha ignorância. No site do jornalista Flávio Araújo encontro dois livros que eu não conhecia e que falam, especificamente, de… goleiros. São trabalhos que, por certo, merecem ser lidos por quem se interessa pelo famoso esporte bretão. No primeiro, Goleiros – heróis e anti-heróis da camisa 1, do jornalista Paulo Guilherme, descobre-se que aquela posição digna do cavalo de Átila (“Onde goleiro pisa, não nasce grama”, diz o folclore) já foi ocupada por ilustres personagens (ao menos ilustres fora do campo).

O FRANGO AO ALCANCE DE TODOS

Para exemplificar, anotem que a meta foi defendida por figuras como o papa João Paulo II, o escritor francês Albert Camus (autor de A peste), o inglês “sir” Arthur Conan Doyle (criador de Sherlock Holmes), o cantor espanhol Julio Iglesias e o revolucionário argentino Ernesto Che Guevara. Como se vê, o lugar, antes chamado de “debaixo dos três paus”, é um espaço democrático, tendo sido habitado (com os frangos que a inabilidade chama), por tipos faceiros e de filosofias muito diferenciadas. Já o outro livro, de Roberto Muylaert, tira de campo os amadores e fala de um goleiro de verdade, numa história real e muito pouco engraçada.

DÍVIDA QUE ZAGALLO NUNCA PAGARÁ

Em Barbosa – um gol faz cinqüenta anos Muylaert narra o drama do grande goleiro Moacyr Barbosa, sempre estigmatizado por ter levado aquela bola de Gighia na Copa do Mundo de 1950, que deu a vitória aos uruguaios. O evento, já citado nesta coluna, passou à história com o nome de Maracanazo, o dia em que o Brasil estava prontinho para comemorar o primeiro título de campeão mundial e, subitamente, calou-se e caiu no choro convulsivo. Em tempos recentes, o técnico Zagallo proibiu a entrada de Barbosa na concentração do Brasil, alegando que o goleiro era pé-frio. A atitude inqualificável do ex-técnico gerou uma dívida que ele morrerá devendo.

O SILÊNCIO DO POETA SOB A CHUVA

Certa vez, num restaurante,
Dentro do espaço e do tempo,
Eu vi Padilha, o poeta,
Que vinha de estar infeliz
Pois trazia, contraídas,
Palavras, não de beijo, mas de fúria,
Esmagada no silêncio dos seus lábios.

Não quis sentar à mesa nem provar
Uma gota sequer do Johannesberg:
Foi-se embora em silêncio
Sem dizer a que veio, sob a chuva,
Como Pessoa,
Que nada encontrou, jamais,
Vindo de Beja  para o meio de Lisboa..

QUARTETO CHEIRA A FERNANDO PESSOA

Carlos Roberto Santos Araujo, autor de “Telmo Padilha II”, nasceu em Ibirapitanga (1952), mas “estourou” em São Paulo: ganhou lá o Concurso Governador do Estado, com a coletânea de poemas. Foi juiz de Direito em Itabuna e hoje é desembargador do Tribunal de Justiça da Bahia. Publicou os seguintes livros de poesia:  Nave submersa (1986), Lira destemperada (2003), Sonetos da luz matinal (2004) e Viola ferida (2008). Cultor de variadas forma de expressão poética (em particular, o soneto)  CRSA, em Soneto da noite escura, lembra outro grande nome da poesia em língua portuguesa: “A chuva toca piano/ Nos tímpanos da tarde nua,/ Dedilha com dedos lânguidos/ O teclado das lentas ruas”. Fernando Pessoa bem que poderia assinar este quarteto.

O DUPLO ALFABETO DOS BRASILEIROS

A coluna não emite regras de português (apenas sugestões e preferências) e não é o que o professor Odilon Pinto chamaria “Pronto-Socorro gramatical” (aliás, muita gente ficaria espantada com meu desconhecimento de gramática). Mesmo assim, volta e meia nos vêm consultas sobre determinadas questões. Exemplo: recentemente nos sugeriram “explicar”  o porquê de as pessoas  pronunciarem o nome de famoso político baiano (isola: toc! toc! toc!) como a-cê-eme e não a-cê-mê (do jeito nordestino). E antes que alguém ache isso natural, vamos lembrar que quem fala a-cê-eme fala também  a-fê-i (para Ação Fraternal de Itabuna) e não a-efe-i. Haveria contradição nesse comportamento?

O “FÊ-GUÊ-LÊ-MÊ” SUMIU DOS DICIONÁRIOS

Salvo melhor juízo, não existe aqui nenhuma incoerência. A pronúncia do “fê-guê-lê-mê”  é legitimada  pelo Aurélio,  o Michaelis a identifica como  regional (Nordeste), enquanto o Priberam (Portugal) sequer a menciona. No caso da AFI (a-fê-i) trata-se de consagração pelo uso, e dizer-se a-efe-i soaria absolutamente pernóstico, além de quase ofensivo às gerações de alunas que passaram pela escola de Dona Amélia Amado. Em Ilhéus, o Instituto Municipal de Educação (I. M. E.) é tratado como i-mê-é, igualmente por tradição de uso: por certo, chamar de i-eme-é o venerando “Ginásio Eusínio Lavigne”, de tanta história, não o identificaria perante os seus mestres e ex-alunos.

A IDENTIDADE NORDESTINA ESTÁ EM PERIGO

Acima da escolha de eme ou , está a questão da cultura nordestina, que vem sendo minada pela “globalização da linguagem” (fenômeno que chamo assim por falta de nome mais adequado), num  processo em que a mídia eletrônica é fundamental.  A antena parabólica liga o brasileiro do interior a um mundo que não é o dele, integrando-o, via novelas e telejornalismo, a uma “realidade de ficção” (se é que posso assim me expressar). Parece que já nos falta coragem para defender os valores regionais, enquanto sobra vergonha do nosso sotaque – e assim se esvai nossa identidade de povo nordestino. A propósito do citado dirigente, chamá-lo a-cê-eme ou a-ce-mê daria no mesmo mané luiz.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

DO NORDESTE PARA O MERCADO NACIONAL

Zé Dantas, médico, poeta e folclorista pernambucano (Carnaíba, 1921 – Rio, 1962) ajudou muito a “nacionalizar” a música popular nordestina em geral. Fez mais de 50 composições (a grande maioria com Luiz Gonzaga), sendo que pelo menos uma dúzia delas é de clássicos que todo mundo conhece: Vozes da seca, Cintura fina, A volta da asa branca, Xote das meninasRiacho do navio, Sabiá, A dança da moda, Farinhada, Imbalança, Vem morena, Forró de Mané Vito, Letra I. Dantas (na foto, com Luiz Gonzaga), que não quis seu nome nas primeiras letras que foram gravadas – para que o pai não lhe cortasse a mesada de estudante, fez também a letra de ABC do sertão, ilustrativa do que queríamos dizer. Clique, veja e ouça.
(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

ESCREVER É EQUILIBRAR-SE NA CORDA BAMBA

Ousarme Citoaian

Dia desses, grafei torço (verbo torcer), quando queria dizer torso (busto) – ferida em que um leitor diligente logo pôs o dedo. Em outros tempos, tentava-se (com um sorriso amarelo) justificar isso como “erro de imprensa”, uma impropriedade, já se vê: o erro seria, quando muito, de datilografia (usava-se máquina de escrever) e, hoje, de digitação (já não se escreve, digita-se).  Como o Ç está bem longe do S, o meu caso é sem remédio: não foi erro de digitação, mas derrapada das brabas, desatenção, desleixo. Mas, e daí?  – haverão de perguntar os mais pressurosos. É para dizer que as armadilhas, seja teclar a tecla (ops!) errada ou se permitir atos falhos, sempre rondam quem escreve.

RECLAME NÃO É QUEIXA, É PUBLICIDADE

Por exemplo: temos visto um abusivo emprego de reclame, como substantivo: “A PM quer ouvir os reclames da população”, diz um jornal, um blog fala dos reclames quanto ao transporte ao Carefour, outro informa que a UPB registra muitos reclames de prefeitos e um terceiro acusa, de dedo em riste: “O governo de Ilhéus não atende aos reclames da população”. Aqui não se trata de “erro de digitação”, pois veículos diversos não conseguem cometer o mesmo engano, de forma recorrente. Logo, é desinformação, de fato. Reclame, para os casos citados, não serve. O mais indicado é reclamo, que remete a reclamação, queixa; reclame é anúncio (ao lado, um do Leite Leik, no Diário da Tarde de Ilhéus, anos 60).

ORESTES BARBOSA E OS VERSOS LUMINOSOS

Há um abono em Arranha-céu, de Orestes Barbosa, ao descrever (com versos de sete sílabas) uma situação em que o sujeito espera, de coração dilacerado, a mulher que não vem. O cara fica “vendo a cidade a luzir/ nos seus delírios nervosos/ dos anúncios luminosos/ que são a vida a mentir”. Mais adiante, o poeta, na voz de Sílvio Caldas (foto), cai na real e afirma: “Cansei de olhar os reclames/ e disse ao peito ´não ames,/ que teu amor não te quer´”…  Os reclames a que ele se refere são os luminosos (“que são a vida a mentir”, lindo verso!). Faustão sabe o que é reclame, tanto que criou a expressão “Reclames do plim-plim”, em referência aos comerciais da Globo, não às queixas da Globo.

OLAVO BILAC E O SEU PODEROSO RECLAME

Até o começo do século XIX não havia agências de publicidade, sendo os escritores, em especial os poetas, chamados a fazer anúncios. Conta-se que um amigo de Olavo Bilac lhe pediu um reclame para a venda de um sítio. O poeta fez algo assim: “Vende-se encantadora propriedade, onde cantam os pássaros ao amanhecer no extenso arvoredo, cortada por cristalinas e marejantes águas de um ribeirão. A casa, banhada pelo sol nascente, oferece a sombra tranquila das tardes na varanda”.  Dias depois, soube que o amigo desistira da venda. O sujeito, ao ler o reclame, “descobriu” a maravilha que era o sítio, para ele, até então, apenas um terreno, uma casa velha e umas árvores, coisa que só lhe dava prejuízo. Ah, do que é capaz o bom texto!

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COMPLEXO DE CULPA INQUIETA COLUNISTA

Penso em sugerir ao  Pimenta colocar nesta página a tarja “Cuidado! Perigo! Afaste-se!”, ou algo equivalente. É que me sinto na contramão do mundo e, no caso, com a possibilidade de influenciar (o pensamento mais arcaico diria “desencaminhar”) alguns leitores, o que me daria certo complexo de culpa. Conforta saber que as crianças não me leem, daí não sofrerem interferências negativas em seu desenvolvimento sociocultural. Pelo menos é o que espero das mães mais cuidadosas, pois com os pais, todo mundo sabe, é difícil contar. Senão, vejamos em que se baseiam minhas preocupações, de todo fundadas.

JOÃO, NOEL E SAMUEL, TODOS SÃO ROSA

Como (e aí me refiro aos adultos, obviamente) ler alguém que não vê a novela das oito (que na verdade é das nove!), não tem discos do Chiclete, de Claudinha, nem de Ivete? Minha preferência é Rosa, Guimarães ou Samuel (foto), sem esquecer de Noel, ou Rosa de Pixinguinha, e Rosa minha madrinha, ou ainda Rosa Passos  e  também Rosa Maria, de Lupicínio um achado, em boa e velha canção: “Seu nome é Maria Rosa, seu sobrenome, Paixão”. Quero Caetano, Caymmi – fiz uma aliteração? – e também Luiz Gonzaga, eterno rei do baião, eu quero Cauby Peixoto, quero mais Elis Regina, chega do forró maroto, que me agride em cada esquina.

CARLOS CACHAÇA, CANDEIA E BADEN

Eu quero o som da Portela, Sarah Vaughan, Billie, Ella, jazz e samba de Cartola, quero Jackson do Pandeiro, Gil, Paulinho da Viola. De Alcione o vozeirão, de Jacó o bandolim, pelo não e pelo sim, para botá-los nos trilhos sugeridos por meu estro, eu chamaria o maestro Antônio Carlos Jobim. Eu quero xote e baião, Carlos Cachaça e Candeia, Baden Powell ao violão (foto), Clementina (“Não vadeia”!), show de Zeca Pagodinho, Marcelo Ganem, Toquinho, as rimas de Ari Barroso, quero Elizete Cardoso, boa poesia e prosa, canção de Orestes Barbosa, samba-enredo da Mangueira, versos de Manuel Bandeira, contos de Guimarães Rosa.

POESIA, CONTA E NOVELA (NÃO DE TEVÊ!)

Quero Nelson Cavaquinho, com o sorriso no caminho, para eu passar com a minha dor, lembrando ainda outro Nelson, o que canta “Normalista”, e quase encerrei a lista, mas vou deixá-la em aberto, pois só agora desperto: eu não citei o maior, e o maior é João Gilberto. Permaneço nesta trilha, invoco Telmo Padilha, o breque de Morengueira, haicais de Abel Pereira, Cyro de Mattos em festa, com Canto a nossa senhora, prece em favor da floresta, da nossa fauna e da flora. Quero a Piaf de outrora, novela (não de tevê!!!) mas Os galos da aurora (de rimar o autor eu fujo – só se fosse Hélio Polvóra!), me tragam Jorge Araujo e nada lhes peço mais, com uma só exceção: é Vinícius de Moraes, que eu chamo de… “poetão”.

A MENINICE EM FIRMINO ROCHA

Rua da meninice
em noite de maio
desperta em mim
velhas canções,
antigas sagas,
amoríssimas baladas
de quando os luares faziam cirandas,
histórias de moças perdidas nos bosques,
sonhares em mim de doces afagos.

Rua da meninice
em noite de maio
me faz parecer
que nunca pequei,
que  nunca chorei,
que nunca sofri.

O POETA E SEU RITUAL DE SOLIDÃO

O autor de “Rua da meninice em noite de maio”, Firmino Rocha (Itabuna, 1919-Ilhéus, 1971), é, na visão crítica de Cyro de Mattos (na antologia Itabuna, chão de minhas raízes), poeta “místico e romântico”, com “voz essencialmente lírica”, tendo “vários poemas endereçados mais aos ouvidos do que aos olhos”. Assis Brasil, em A poesia baiana no século XX, deplora a ausência de fontes sobre Firmino (foto), dizendo tê-lo encontrado apenas na referida antologia de Cyro e numa nota publicada no extinto suplemento A Tarde Cultural. É ainda Cyro de Mattos quem anota: “Comove o ritual de solidão que cumpria esse poeta de espírito manso nas madrugadas de sua cidade natal”.

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O ESTADO ESPUMA E RANGE OS DENTES

Se fosse possível escolher uma canção-símbolo para o blues, esta seria Strange fruit, de Lewis Allan (foto), feita em 1940 e imortalizada por Billie Holiday. Diz a lenda que Allan (também conhecido pelo  nome judeu de Abel Meeropol) ficou impressionado com uma foto dos anos 30, com negros assassinados e pendurados pelo pescoço, numa árvore. “Estranhos frutos”,  pensou o poeta. Billie Holiday, negra, comprometida com seu povo, encerrava seus shows com esta música. Ao cantar Strange fruit, ela chorava, enquanto o poder espumava e rangia os dentes: é uma canção política, e por isso a cantora teve que se explicar às autoridades americanas.

UM TOM SANGUÍNEO DE CRUELDADE

O mais curioso é que Strange fruit, a rigor, não é blues, ao menos na forma em que o gênero é mais comumente definido – aquilo que os músicos chamam de 12 compassos, num esquema de pergunta e resposta. Sem possuir bagagem técnica, eu fiquei com essa dúvida, até ver The Blues – uma jornada musical (a série de sete filmes coordenada por Martin Scorsese). Um músico, já não me lembra quem, deu a resposta: tudo que Billie Holiday canta é blues, pelo patos que ela imprime à canção, que “contamina” com seu sofrimento pessoal. Vista assim, Strange fruit é essencialmente blues, pela letra carregada na cor vermelha da crueldade e da injustiça e pela interpretação insuperável de Lady Day (foto).
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as
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O FRUTO ESTRANHO E PODRE DO RACISMO

O Sul dos Estados Unidos era o local das plantations de algodão, com negros submetidos a odiosas formas de vida. É difícil imaginar a degradação em que essas pessoas sobreviviam – sob pressão de grande parte da população branca. O grupo racista Klu Klux Klan (KKK), com atuação ao longo dos tempos, registra um rosário de agressões a negros, hispanos e judeus, com linchamentos, incêndios e assassinatos (também de brancos simpatizantes). A filosofia da KKK resiste: em 1963, um seu ex-membro jogou uma bomba numa igreja batista do Alabama, matando quatro meninas negras; em 2001, um plebiscito decidiu manter na bandeira do Mississipi um símbolo associado à defesa da escravidão (a cruz de treze estrelas)

“SANGUE NAS FOLHAS E NA RAIZ”

Antes de ouvir, saiba que a letra fala de árvores que “têm um estranho fruto”, corpos negros balançando ao sopro da brisa sulina, “sangue nas folhas e sangue na raiz e, no último verso, a conclusão de que se trata de “uma estranha e amarga colheita” (a strange and bitter crop”). Clique, se for capaz.


(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

A MÍDIA TEME ENTERRAR AS ALMAS

Ousarme Citoaian
Em tempos imemoriais, quando a tuberculose era doença gravíssima, bastava alguém ter uma simples tosse que logo surgia um engraçadinho, com a piada manjada: “Trate da alma, pois o corpo não tem mais jeito”. Toda a turma de aposentados da pracinha já ouviu esta bobagem – que, de uns anos para cá, me tem sido lembrada, quase sempre que a mídia noticia um sepultamento: atualmente, na visão dos nossos redatores, já não se enterram pessoas, enterram-se corpos. Como corpo e alma são entidades dicotômicas, ficamos com a impressão de que nos querem dizer que a alma do penitente não desceu à cova, mas apenas o corpo. Então, tá.

POETA FOI SEPULTADO EM JUNHO

Uma tragédia que se abateu sobre (pelo menos) duas famílias em Itabuna, no mês passado, alimentou a má construção de textos na mídia: poucos veículos deixaram de mencionar que “os corpos foram enterrados”. Mas a boa linguagem fornece muitos exemplos no sentido contrário. A Rádio Notícias deu, em 2005, a seguinte nota: “O Papa João Paulo II foi sepultado esta sexta-feira, na cripta da Basílica de São Pedro…”, o jornal Voz da Rússia noticiou que “O poeta Andrei Voznessenski (foto), que faleceu no dia 1º de junho, foi sepultado no Cemitério Novodevitchie de Moscou” – sem especificar que os enterros foram dos corpos. Nem precisava. Não se enterra a alma.

JK FOI ENTERRADO AO LADO DO AMIGO

Os exemplos são legião. Num artigo sobre personagens históricos fico sabendo que “Ciro foi sepultado em uma simples tumba de pedra”, em referência ao rei Ciro I (559-530 a. C.), do Império Persa; na Bíblia, relata-se que “Sara, Abraão, Isaque, Rebeca, Lia e Jacó foram enterrados em Hebrom, numa caverna denominada Cova de Macpela”; retornando ao Brasil, em texto do jornalista Francisco Basso Dias, Os anos JK, anoto que “JK foi enterrado ao lado do amigo Bernardo Sayão, engenheiro e principal executor da construção de Brasília” – na foto, Juscelino Kubitscheck com Fidel Castro, em 1959. Vejam que nos três exemplos menciona-se o enterro (ou sepultamento) das pessoas, não dos seus corpos.

BOBAGEM QUE JÁ FOI CONSAGRADA

Adianto-me às vozes que vão defender tal escolha: sei que o emprego de “enterrar o corpo de Fulano” (em vez de, mais simples, enterrar Fulano) está sedimentado, certamente com a ajuda daqueles que, nas redações, se limitam ao processo de repetição, decretado o fim do trabalho de pensar. Alguém escolhe uma fórmula, outros vão atrás e, quando menos se espera, a coisa está “consagrada pelo uso”. É o caso: variados meios utilizam esse incômodo “corpo”, sempre que noticiam um sepultamento. Esquecendo que a simplicidade é uma qualidade do estilo, esses novidadeiros fazem questão de dificultar o que é fácil.

TELMO PADILHA E A TRAGÉDIA DA SOLIDÃO

Se não há montanhas,
como escalá-las?
Se não há florestas,
como embrenhar-me
em sombras
que não estas?
Se não há o mar,
como falar-te de águas
e horizontes?

Sou o cantor
desta planície,
e me abismo
em mim,
e desço aos outros
de mim,
e sofro os outros
de mim.

“A MORTE, A NOITE, O NADA, O TEMPO”

Em “Itabuna” (com foto de Waldyr Gomes), acima, Telmo Padilha (1930-1997) justifica o crítico Fausto Cunha, que identifica um lado “estranhamente trágico” na produção do poeta itabunense. Esta página, bebida em O anjo apunhalado (1980), confronta o cantor com a impossibilidade do canto (como cantar as águas e os horizontes, se não há mar?). Esse sofrimento diante do imutável parece ser a essência do trágico no autor de Canto rouco. Poeta universal, Telmo Padilha (foto), ao longo de sua obra, com cerca de 35 títulos, foi fiel aos temas que inquietam o ser humano, desde que este se descobriu na terra, lembrados na crítica que lhe fez Augusto Frederico Schmidt: “a morte, a noite, o nada, o tempo” – a tragédia da vida vivida, enfim.

BOM PARA ELES, “BOM” PARA O BRASIL

Sei que vou mexer em casa de maribondos, mas devo dizer que abomino a pronúncia anglicizada “raicai” – para aquele pequeno poema japonês que o Vocabulário Ortográfico denomina haicai. Já ouvi tal pronúncia vinda de alguns intelectuais, mas sempre imaginei tratar-se de mero descuido, pois eles são obrigados a saber, mais do que eu, que o H português/brasileiro não tem e não teve jamais som de R. Logo, haicai (com H mudo) é a escolha, não importa que alguns autores, muito receptivos ao que nos vem da América do Norte (“O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”, dizia um ex-governador baiano), desejem “consagrar” a deplorável forma “raicai”.

O “REXA” DO BRASIL FOI ADIADO PARA 2014

Como haicai é dicionarizada, chamá-la “raicai” cria uma exceção injustificável. A não ser que passássemos a falar “rábito” (hábito), “rabitar” (habitar), “Raiti” e “raitiano” (Haiti e haitiano), e em vez de hastear a bandeira, a “rastearíamos”. Lembremo-nos de que o H seguido de outras vogais que não o A dos exemplos anteriores, formaria excrescências prosódicas interessantes: “rolístico” (em lugar de holístico), “Rélio” – para azar de Hélio Pólvora (foto), “ríbrido” (híbrido) etc. Os brasileiros passariam a sonhar com o “rexa” (novo nome para o hexacampeonato) e aquele bichinho que ri, não se sabe de quê, sairia no lucro: seria chamado “riena”, ganhando um nome apropriado.

SUMIDADE JURÍDICA DIANTE DO ESPELHO

E imagino não estar tão distante o dia em que, pela macaquice que brasileiro alimenta com a língua inglesa, será criado esse H aspirado que parece tanta falta fazer a essa gente. É que, além de “raicai”, já ouvi um douto jurista (ao menos, ele assim se vê no espelho) referir-se ao Código de “Ramurabi”, quando todo mundo que passou pela aula de História sabe tratar-se do Código de Hamurabi). Acreditem em mim: também vi um religioso judeu ser tratado em página de jornal como “habino”, em lugar do óbvio rabino. E aí já é mais grave, pois o H e o R fizeram um caminho surpreendente, de sorte que a pronúncia correta (rabino) contaminou a escrita (“habino”). E ainda mexeram com o judaísmo.

FORD, BLUES, LENDAS E FATOS

Todo mundo já ouviu por aí que William Christopher Handy (o WC Handy) inventou o gênero blues, com Saint Louis blues. São lendas que alimentam a música negra norte-americana. Pouco importa que o próprio Handy tenha feito Menphis blues dois anos antes (Saint Louis blues é de 1914), e que seu pioneirismo seja contestado por dez entre dez especialistas. Outro americano (John Ford, no filme O homem que matou o facínora) já sugeriu que quando a lenda é mais interessante do que o fato, deve-se publicar a lenda. A invenção do blues é pura lenda; fato é que WC Handy fez várias canções, mas se tivesse parado em Saint Louis blues já estaria “clássico”.

O BLUES ADOTADO “NA RAÇA”

O tema foi gravado por Besse Smith, Billy Eckstine, Armstrong, Velva Midleton, Cab Calloway, Harry James, Glenn Miller, Nat King Cole, Billie Holiday, Dave Brubeck e Ella Fitzgerald, só os poucos de quem me lembro. A brasileira Rosa Maria (foto), aquela do California dreams, também gravou St. Louis blues. A verdade é que WC Handy se tornou “Pai do blues” porque ele mesmo se apropriou do título, com o livro The father of the blues, lançado em 1941 (como o filho estava órfão, ele se adiantou com o processo de adoção). Diz a lenda que Handy, já em criança, tinha um ouvido incrível, a ponto de anotar em notas musicais o assovio dos pássaros, o apito dos barcos e o barulho das águas do rio Tennessee.

MÚSICA NASCIDA NO SOFRIMENTO

Gerado nas work songs (canções de trabalho) dos negros colhedores de algodão, o blues rima bem com tristeza. O Brasil até usava, há decênios, uma gíria americana, numa estranha forma singularizada de blues: “Fulano está blue”, dizia-se, para identificar alguém jururu, de crista baixa. St. Louis blues fala de um indivíduo solitário, esmagado pela cidadezinha, roendo saudades da mulher querida que foi embora. As que ficaram, cheias de jóias, dominadoras, arrastam seu homem por aí, pelos cordões do avental (by her apron strings), não lhe servem, é claro. Sem perspectivas, ele diz que vai fazer as malas e dar o fora. O tema é recorrente, mas, na composição de Handy (foto), se mantém vivo há 96 anos.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

BRANCO E PRETO, LIGHT E VISCERAL

O St. Louis blues já beirava os 70 anos, quando nasceu Peter Cincotti, em Nova Iorque. Hoje, o artista está com 27 (nasceu em 1983) e administra uma carreira de talentoso cantor e pianista de jazz. O fato de um artista de tão pouca idade se deixar empolgar por uma canção popular antiga é sintomático do gosto dele e da qualidade dela. O arranjo, cheio de swing, desdenha a tristeza típica do gênero, mas é justo dizer-se que Cincotti não está nada mal, para um jovem branquelo descendente de italianos. Em seguida, Nathalie Cole (com luxuosa participação “tecnológica” do próprio Handy) mostra a diferença entre cantores negros e brancos: ele é light; ela, visceral.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

EUFEMISMO E “MAL DOS DICIONÁRIOS”

Ousarme Citoaian
De leituras muito antigas, lembro do pensador espanhol Ortega y Gasset (foto), nascido em 1883 e falecido em 1955, que cunhou a expressão “mal dos dicionários”: é quando as pessoas, por maldade das piores, dão àquilo que os outros dizem um sentido diverso, autoritário e interesseiro. Por exemplo: reclamar da violência policial é ser defensor de bandidos; querer punição para os torturadores da ditadura militar é revanchismo, quem não se mostra solidário com exibições públicas de homossexualidade é execrado como portador de homofobia, e por aí vai. O falante precisa adotar cuidados com a língua (nos dois sentidos), para que não seja pendurado no mais próximo poste da Coelba.

VIVEMOS A PLENA ERA DO EUFEMISMO

Por essas e outras, o eufemismo se mantém em moda, gerando formulações até curiosas. Pobre já deixou de sê-lo há muito tempo, sendo promovido a carente; deficiente físico agora é PNE (Pessoa com necessidades especiais); aquele pobre (ops!) que morria esquecido no hospital, então classificado como indigente, ainda morre do mesmo jeito, mas agora é PNP (Paciente não pagante); negro, que em tempos imemoriais era preto (ai, meu Deus!),  hoje é afrodescendente, e miserável é excluído social. Atenção: chamar alguém de “bambi”, ou equivalente, é crime. E esqueça o arcaísmo “pederasta”, pois além de mostrar que você é do tempo do Onça, ele o envolve em crime hediondo e imprescritível.

CAPITÃO ONÇA, A VIRGEM DO BORDEL

Aproveito e dou a explicação mais corrente (sei de duas) para “tempo do Onça”.  A expressão, que indica algo muito antigo, vem da época do capitão Luís Vahia Monteiro (governador do Rio de Janeiro de 1725 a 1732), apelidado Onça. Esse Onça era tido como ranzina, austero, exigente, uma mala, avant la lettre. Em carta a D. João V, rei de Portugal, afirmou: “Nesta terra todos roubam; só eu não roubo”. O governador Onça passou à história como pregador de uma seriedade que não se via mais em sua época (há mais de dois séculos e meio) e, provavelmente, não se viu jamais. Não é à toa que em certo período, a população do Rio de Janeiro o chamava, carinhosamente, de Virgem no bordel.

NÃO MAIS SE ROUBA: MALVERSA-SE O DINHEIRO

Conta-se que Onça era muito severo quanto a seus deveres, cumpria a lei e exigia que, ao seu redor, todos a cumprissem. Sua defenestração do cargo (o governador era nomeado, não eleito, e, portando, demitido) deixou muita gente saudosa, que, diante da bagunça então reinante, suspirava: “Ah, no tempo do Onça, isso não existia”. Com o passar dos anos, a expressão começou a designar não só o que era bom, mas o que fosse velho. Esse registro nos mostra que a falta de cidadania, a má educação, o desleixo e o roubo são, como diria o carioca Noel Rosa, coisas nossas, das antigas. Mas isso também merece hoje um eufemismo, pois não é de bom tom afirmar que os governos roubam: atualmente, esse mau hábito intitula-se “malversação do dinheiro público”.  Ah, o Onça!…

O POETA JÁ NÃO RECONHECE SUA ITABUNA

Minha cidade estendeu-se
alargou suas redondezas
multiplicada em distâncias.
Insatisfeita
subiu
buscando mais horizontes
e perdeu-se
dentro dela.
Volto hoje a procurá-la.
Transfiguram-se os jardins
e os encantos do seu rio
tomaram novas feições.
Até o céu era outro
ou eram outros
os meus olhos?
Sob a ação de tanto tempo
anoiteceu em si mesma
e confundiu seus vestígios
entre as formas de mais gritos.
Agora
é só pensamento
– minha cidade de outrora.

AMARGA, TRISTE, INSONE E SOFRIDA

“A Itabuna”, acima, é um poema publicado pelo itabunense Walker Luna no livro Um ângulo entre montanhas, de 1985. Foi colhido em Assis Brasil, na antologia A poesia baiana no século XX. Telmo Padilha disse sobre Walker Luna (nascido em 1925): “Seus poemas, de elevadíssima tessitura, são personalíssimos e possuem uma ductilidade rara entre seus contemporâneos”. Para Cyro de Mattos (que selecionou o poeta para Itabuna, chão de minhas raízes, de 1996), a produção de Walker Luna é ”vazada numa experiência humana vivida com intensidade, ora triste, ora amarga, de insônia e sofrimento cúmplices entre o transitório e o inevitável”.

A HISTÓRIA REPETIDA SEM GRANDEZA

Em 17 de março de 1970, João Saldanha (na foto, a estátua dele, no Maracanã), técnico da seleção brasileira, teve seu último encontro com a CBD. Havelange, o presidente, lhe comunicou que a comissão técnica estava “dissolvida”. Saldanha o enfrentou: “Não sou sorvete para ser dissolvido. O senhor quer dizer que estou demitido?”. Havelange, espumando: “O senhor está demitido”. Saldanha: “Boa noite. Vou pra casa dormir”. Dunga, 40 anos depois, é demitido de forma humilhante. Ao saber que ele fez uma carta à CBF, esfreguei as mãos: “Vai bater!”. Não bateu. Baixou a cabeça e agradeceu “pela confiança, respaldo e autonomia concedida”. Moral: quem nasce para ser Dunga nunca chega a João Saldanha.

O BRASIL NÃO TEM MAIS REPÓRTERES

É interessante notar como termos bem prosaicos, outrora empregados à mancheia, entraram em processo de decadência e extinção. É o caso da simpática palavra “repórter”: já não encontramos mais um só repórter, nem pra remédio. De algum tempo para cá, eles se transformaram em “jornalistas”. Antes, as autoridades falavam com os repórteres, contestavam os repórteres e, principalmente, xingavam os repórteres.  Agora, elas convocam os jornalistas, discutem e agridem os jornalistas – e, dia desses, absurdo dos absurdos, um jornalista chamado Pimenta Neves assassinou a jornalista Sandra Gomide, segundo noticiaram os… jornalistas. Nem em assassinato aparece repórter.

O TERMO “JORNALISTA” É GENÉRICO

Pimenta Neves está em liberdade, mesmo tendo confessado o crime, o que também não é novidade, pois a Justiça tem grande dificuldade em alcançar os ricos, mas disso todos já sabemos… De volta: jornalista é termo abrangente, que engloba as funções de editor, redator, editorialista, copidesque, diagramador, pessoal de artes, revisor (praticamente extinta) e… repórter. Dizer “Os jornalistas aguardam que o técnico Dunga (se não estiver nos azeites) venha falar com eles” é pouco claro. Melhor seria “Os repórteres aguardam…”, pois as outras funções de jornalista são exercidas na redação e, graças ao bom Deus, ficam livres de levar chutes nas canelas, confundidas com a própria jabulani.

JORNALISTA AGORA É… “COMUNICÓLOGO”

Talvez seja útil, apenas para quem não tem intimidade com o meio, explicar que, esquematicamente, repórter é quem vai à rua, “farejar” notícias. Deve ser por isso que o repórter novo (no tempo em que havia repórteres, claro!) era chamado de “foca” – aquele bichinho simpático, que vive com o nariz pra cima. O bom “foca” tinha faro apurado ou, pelo menos, sadias ambições: sonhava com a grande notícia, o “furo” que um dia levaria à redação. Mas a mudança não para no sumiço da palavra “repórter”, pois jornalista também está ficando démodé. Tenho observado uma tendência de trocar o termo “jornalista” pela mais nova forma de presunção: “comunicólogo”… Aí, desculpem a gíria jurássica, peço meu boné.

SOBRE A LÓGICA E O IMPONDERÁVEL

Nem bem saiu de nossos tímpanos o som de irritantes vuvuzelas e aquele já é um tempo de lembranças. E entre elas está Mick Jagger (foto), que ganhou o título de pé-frio, em mais uma das injustiças que o futebol comete. Se as seleções da Inglaterra e Brasil perderam não foi devido ao imponderável, mas à lógica – pois ela, embora digam que “não tem” no futebol, às vezes fica perceptível. Como não falo inglês, não sei o que houve com o time da Rainha, mas querer que o nosso chegasse muito longe seria alimentar improváveis sonhos e ilusões. Portanto, deixemos a velha “titia” dos Rolling Stones fora do mundo jabulânico e vamos ao que motivou as considerações acima. Você sabe de onde saiu a expressão rolling stones?

MICK JAGGER E AS “PEDRAS QUE ROLAM”

Que rolling stones significa, literalmente, “pedras rolando”, todos sabem. Mas o bluesman Muddy Waters (literalmente, “Águas Lamacentas”) usou a expressão com outro sentido, algo próximo a vagabundo, alguém que não fica no mesmo lugar (“pedra que rola não cria limo”, diz o provérbio). O velho BW (1915-1983) é a fonte onde Jagger, Keith Richards e outros beberam o nome do grupo. Em “Rollin´ stone blues”, Muddy (foto) fala de sua mãe dizendo ao pai “Vou dar à luz um menino,/ ele será um rolling stone (I got a boy child’s comin,/ he’s gonna be a rollin´ stone). Salvo melhor tradução, é isto. E Bob Dylan também se valeu da mesma informação em “Like a rolling stone”.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

REI DO RITMO NASCEU NA PARAÍBA

Dylan fala de uma mulher que está sem direção alguma, uma completa estranha, como uma pedra rolando (like a rolling stone), mais ou menos isto. É curioso que na Bahia uma banda usou processo semelhante na escolha do nome: foi buscá-lo em “Chiclete com banana”, composição de Gordurinha e Almira, gravada em 1959 por Jackson do Pandeiro (Almira Castilho era mulher de Jackson). Esse JP, paraibano de Campina Grande, tinha uma noção de ritmo única no Brasil, considerado um verdadeiro mestre da divisão. A banda referida que disse ter tirado seu nome de sonhos, aviso de extra-terrestes e outras baboseiras, faria uma ação ética admitindo sua origem honrada: Jackson do Pandeiro (foto), Gordurinha e Almira.

Clique e ouça os “pais” das bandas referidas, Muddy Waters e Jackson do Pandeiro, respectivamente.



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(O.C.)

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UNIVERSO PARALELO

ASPAS, URTICÁRIA E ESCABIOSE

Ousarme Citoaian
Os jornais, blogs e semelhantes têm sido contaminados por uma moléstia que irrita tanto quanto urticária ou escabiose. São as chamadas “aspas simples” – ou, como preferem os arautos das novidades inúteis, ´aspas simples´. Atualmente, se alguns desses redatores desejam citar a famosa frase de Euclides da Cunha, por certo escreverão  ´O brasileiro é, antes de tudo, um forte´. De que lado veio a sandice, não sei. Mas sei que ela chegou às redações – lugar onde pouco se lê (e hoje, com a internet, também pouco se escreve) – e lá fez morada, pois encontrou quem a adotasse, sem fazer incômodas perguntas.

SERIA ISTO “EVOLUÇÃO” OU ‘EVOLUÇÃO’?

Antes que algum linguista um pouco mais permissivo surja de dedo em riste a defender essa bobagem, provavelmente em nome da “evolução” (ou ´evolução´?) da língua, adianto que nunca em minha já longa existência encontrei guarida para tal coisa em qualquer autor de respeito. De poetas a ficcionistas, de dicionaristas a gramáticos, de Cyro de Mattos a Adonias Filho, de Aurélio Buarque de Holanda a Napoleão Mendes de Almeida e Rocha Lima, sempre encontro aspas utilizadas (ou definidas) como vírgulas dobradas (“). Aspas simples, para esses autores, são usadas somente numa situação muito especial.

EXEMPLO NA CITAÇÃO DE BERGSON

José Afonso de Souza Camboim, em Língua hílare língua (Universidade de Brasília), nos dá uma citação do filósofo Henri Bergson (1859-1941), tirada de um texto do comediante também francês Eugéne-Marin Labiche (1815-1888): “Certo personagem grita ao locatário de cima, que lhe suja a varanda: ´Por que você joga lixo na minha área?´ ao que o locatário responde: ´Por que você põe sua área debaixo do meu lixo?´”. Esta comicidade de inversão citada por Bergson (foto) talvez não tenha muita graça hoje (afinal de contas, o texto tem uns bons 130 anos), mas que o exemplo do uso das aspas simples dentro das aspas “normais” (ou prefeririam ´normais´?) é bom, lá isto é.

DESCONHECIMENTO E PREGUIÇA

Esta frase, colhida num jornal que parece escrito por pessoas que têm compromisso com a língua culta, deixa claro o centro da minha dúvida: “A melhor escolha hoje para o tratamento da Aids é um ‘coquetel’ de três antivirais”, disse o ministro José Gomes Temporão. Até agora, segundo fui informado, aspas simples servem para marcar uma sentença ou palavra dentro de uma citação já aspeada (ou aspada), conforme ilustra o textinho acima. Fora disso, o uso indiscriminado das aspas simples me parece o resultado de uma fórmula sabidamente danosa à escrita: desconhecimento da língua consorciado preguiça de aprender.

DE VALES TRISTES E FLORES MORTAS

Impossível fugir .
Nem mais as praias são serenas,
nem mais os bosques são tranquilos.
Onde o silêncio? onde o repouso?
Acaso a alma dos bosques fugiu
pelas clareiras abertas como bocas
E os vales?
Por que não mais florescem lírios?
alvos lírios, mais alvos que as espumas?
Vejo tanques passando pelos campos,
machucando flores, amassando gramas,
baladas, madrigais aos ermos bosques.
Vinde cantar, poetas, o massacre das flores.
Rondéis,
aos vales tristes
às flores mortas (…).

POETA EM TEMPO DE GUERRA

Este excerto de “Passam tanques pela vida”, de Jorge Medauar (foto), foi colhido em Chuva sobre tua semente, livro de 1945, e o ano termina sendo relevante: o poeta sofre e reflete um tempo de guerra. Mas a composição carrega o signo da eternidade: hoje, 65 anos depois,  a sensação que temos é de que os tanques estão nas ruas e nos campos, amassando flores e esperanças – e o homem ainda é um ser repleto de lamentos. Uma curiosidade sobre o poeta e contista Jorge Medauar (1918-2003): nunca aceitou que sua cidade natal se chamasse “Uruçuca”; tratou-a, sempre, como Água Preta, o nome anterior.

A FALTA QUE FAZ O ROMANCE DO FUTEBOL

O futebol, ao que sei, não teve maior interesse para a literatura regional. Telmo Padilha, se bem me lembro, nunca se debruçou sobre o assunto, Jorge Amado (foto) e Adonias Filho também não, Jorge de Souza Araujo, embora goste do velho esporte bretão, não lhe dedicou maior esforço – e Marcos Santarrita, que chegou a goleiro do fortíssimo esquadrão do Vasco da Gama de Itajuípe, também não escreve sobre esse tema. Essa mesma visão local poderia ser estendida à literatura brasileira como um todo – pois, embora tenhamos ótimos contistas, parece que ainda não nasceu o ficcionista destinado a produzir o grande romance do futebol brasileiro.

“IMAGINÁRIO AMPLO E COMPLEXO”

O antropólogo Roberto DaMatta afirma que os intelectuais brasileiros, elitistas, “detestam futebol”, mesmo os escritores mais ligados às camadas populares, como Jorge Amado e Graciliano Ramos. Este chegou a dizer que o futebol jamais daria certo no Brasil. Exceção que confirma a regra é José Lins do Rego, torcedor fanático e cartola do Flamengo. “Vou ao futebol e sofro como um pobre-diabo”, dizia o autor de Água-Mãe (em que o futebol tem forte presença). Para o crítico Silviano Santiago, não se trata de  “elitismo”, mas de dificuldade inerente ao tema: o imaginário do futebol é amplo e complexo, desencorajador de projetos estéticos na área (ops!). Mas na aridez do assunto entre nós avultam dois nomes: Hélio Pólvora e Cyro de Mattos.

HÉLIO PÓLVORA E A DERROTA DE 1950

Ghiggia/Pablo La RosaHélio, recém-saído da adolescência (nasceu em 1928), sofreu todo o trauma do Maracanaço – como ficou chamado aquele evento fatídico, em que o Brasil, favorito absoluto, já comemorando o título do (como se dizia na época) Oiapoque ao Chuí, perdeu para o Uruguai. Ghiggia (foto), quase antecipando Jorge Benjor, chegou aos 21 minutos do segundo tempo, bateu Bigode e não deu chance ao goleiro Barbosa. O Maracanã calou-se. Espantada, atônita, a nação brasileira fora nocauteada, sem perceber de onde veio o direto que lhe atingiu a mandíbula. Hélio parece ter carregado essa imagem pela vida inteira – e a imprime no excelente conto “O gol de Ghiggia”, de sintomas autobiográficos.

“É CAMPEÃO! O BRASIL É CAMPEÃO!”

Gol do Uruguai 1950Cyro de Mattos, que selecionou “O gol de Ghiggia” para a antologia Contos brasileiros de futebol, é apaixonado por esse esporte, com remessas à infância em Itabuna. O velho campo da Desportiva (título por ele lançado no fim de junho) é tema recorrente, em prosa e verso. E o autor de Alma mais que tudo é outra vítima de Ghiggia, confessado no texto pungente de “Copa do Mundo de 50”, a taça que ele se recusou a perder:

Valia a pena driblar as sombras de um pesadelo que se alojava em meu pequeno coração. Afugentar aquela coisa que só infundia tristeza,  aderia à pele, ardia tanto no coração. Empurrava-me com os outros meninos para os campos do abismo. O plano que armei com os meninos da Rua do Quartel Velho era simples. Não assistiríamos mesmo, na tela do Cine Itabuna, à derrota do Brasil na final contra o Uruguai.  Em algazarra sairíamos pela rua gritando “É campeão! O Brasil é campeão!”, batendo com pau nas latas vazias.

ACORDES QUE VÊM DO SÉCULO XIX

Fugindo a novelas e pregações (pseudo) religiosas, descubro num canal alternativo a reprise do filme Memórias póstumas, de André Klotzel, de 2001 (com Reginaldo Farias, Sônia Braga e Walmor Chagas).  A história, todos sabem, baseia-se em Memórias póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis no ápice da criação): morto em 1869, Brás Cubas narra sua vida, fala dos amigos (Quincas Borba, principalmente), dos amores e do fato de nunca haver trabalhado. Mas não foi isso que me chamou a atenção, e sim, na trilha sonora, a modinha incidental “Quem sabe”, de Carlos Gomes (letra de Bittencourt Sampaio), cantada pela soprano Kátia Guedes de Souza.

LIRISMO EUROPEU EM TERRA PAULISTA

Coisa mais linda! O músico campineiro (1836-1896), autor de O guarani, rendeu-se ao popular, via modinha, gênero então em voga, ao fazer, dentre outras, “Suspiros d´alma” (sobre versos do lusitano Almeida Garret). Um texto do Ministério da Cultura diz que o artista teve forte influência européia. “Nas modinhas e canções de Carlos Gomes encontramos um pouco do lirismo francês e muito dos tons humorísticos das canções italianas”, registra o MinC. Romântico, com forte influência interiorana, Carlos Gomes (foto) deixou cerca de 50 canções, dentre elas essa surpreendente “Quem sabe”, aqui, na gravação de Francisco Petrônio (1923-2007).
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

DISCOS QUE VALEM O PESO EM OURO

Petrônio gravou pela primeira vez aos 37 anos. Teve sucessos como “O baile da saudade”, “Lampião de gás”, além da série de 4 LPs que valem seu peso em outro: Uma voz e um violão em serenata. Nesses discos ele é acompanhado por ninguém menos do que Dilermando Reis (1916-1977), referência em violão brasileiro – mais conhecido pela autoria de “Magoado” e pela execução de “Sons de carrilhões” e “Abismo de rosas”. Consta que somente entre 1941 e 1962 gravou 68 músicas, sendo 43 de sua autoria. Petrônio, neste “Quem sabe”, mostra o virtuosismo que lhe justificou a alcunha de “Cantor da voz de veludo”.


(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

DEPUTADO CHUTANDO CANELAS

Ousarme Citoaian

“Ela não caiu no gosto dos baianos”, vocifera um deputado federal da Boa Terra, ao referir-se a uma candidata à presidência da República. Convenhamos que atacar a língua portuguesa não é o defeito mais grave dos nossos parlamentares. Mas é certo que “cair no gosto”, solecismo também utilizado exaustivamente na mídia ignara, é chute na canela, sem bola. Lance pra cartão vermelho. A antiga e legítima expressão cair no goto é conhecida de todos os que já leram algum livro – nem que tenha sido na escola, sob o ferrão daquela injustiçada professora de literatura. Desconhecer tal expressão é injustificável para os cultores da dita última flor do Lácio.

“TRADUÇÃO NASCIDA NA IGNORÂNCIA”

Cair no goto é frase feita. Mas daquelas que, ao contrário de provérbios e lugares-comuns que incomodam nossos ouvidos, valorizam o texto. Escritores as empregam com freqüência, pois elas revigoram a tradição da boa linguagem, dando elegância e sabor originais à escrita. Quem diz “caiu no gosto” atesta ignorância da língua literária, valendo-se de uma “tradução” modernosa, nascida no desleixo, amamentada pelos redatores desinformados e, pelo que ouvi, agora encampada também pelo parlamento. Leio num blog que “Invictus não caiu no goto dos críticos de cinema, que o classificam como uma obra menor de Eastwood”, e festejo. Nem tudo está perdido.

NINGUÉM ABONA “CAIR NO GOSTO”

Trocar cair no goto por cair no gosto é rematada ignorância. A expressão (com o significado de algo que agradou às pessoas) é recorrente na linguagem culta. “O romance caiu no goto do público”, diz o Aurélio. Hélio Pólvora, Machado de Assis e muitos outros usaram cair no goto (nunca, jamais, cair no gosto!), de sorte que seria enfadonho apontar abonações de grandes autores (quando “cair no gosto” não encontra nenhuma). Mas vá lá Mário Palmério, no clássico Vila dos confins (com reedição em 2003): “Prova provada é o Domingos, o tal rapaz novo e disposto que caiu logo no goto do Pe. Sommer”.

O GOTO, O TINHOSO E A CACHAÇA

Não resisto a outra abonação: o folclorista alagoano Altimar Pimentel (1936-2007), conta que o Diabo vinha pela estrada, sedento, cansado e mau humorado, quando viu um canavial. Entra como se ali fosse sua casa, “quebra uma cana e começa a chupá-la com tal sofreguidão que o caldo, azedo, caiu-lhe no goto e abrasou-lhe as goelas”. Era “o cão chupando cana”. Vingancista contumaz, o Tinhoso atirou sobre aquelas plantas inocentes (e pelas suas gerações ad aeternum) uma maldição: “De vocês o homem há de tirar uma bebida tão ardente como as caldeiras do inferno”. Tal bebida é a cachaça, outrora chamada, não sem motivo, água ardente (e que virou, creio, por aglutinação, aguardente).

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SONHANDO O SONHO DAS ÁRVORES

Eu queria dormir
dentro
das árvores
e sonhar os seus sonhos,
viver os seus amores.

Eu queria morar
dentro
das árvores e viver a justiça
de suas raízes.
Eu queria morrer
dentro
das árvores
e participar da glória
de renascer no chão,
como semente.

POETA DE LINGUAGEM MEDIDA E DESPOJADA

A autora do texto acima, Ecologia, é Valdelice Soares Pinheiro (1929-1993), que publicou dois livros de poesia (De dentro de mim e Pacto). Cyro de Mattos (em Itabuna, chão de minhas raízes) a descreve como “poeta que elabora sua poesia com linguagem medida e despojada”. Para o autor de Berro de fogo, a poética de Valdelice (foto) também “é de grande conteúdo humano, de equilíbrio entre concepção e execução, harmonia entre poema e ato, verso e matéria”. Ecologia foi retirado de Expressão poética de Valdelice Pinheiro, livro coordenado por Maria de Lourdes Neto Simões, lançada pela Editus/Uesc em 2002.

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DA IRRELEVÂNCIA E OUTROS DEMÔNIOS

Mas saibam quantos lerem esta coluna em feitio de bazar de turco, que nela assuntos abundam, pois tudo aqui é relevante. Até a irrelevância se faz relevante. Então, falemos de identificação das pessoas que escrevem nos jornais – não por falta de tema, mas por ser… relevante. Antes, um passeio pelos veículos nacionais, em que uma senhora chamada Danuza Leão se identifica nos seus escritos como “escritora e cronista”. Ora, muito bem. Quererão me dizer que essas categorias são diferentes? Cronista não é escritor? Será que alguém teria a petulância de dizer que Rubem Braga (foto), talvez o único cronista-apenas-cronista de quem já se ouviu falar, não era escritor?

OS “FILÓSOFOS” QUE SOBRAM NA CURVA

É comum que articulistas bissextos sejam identificados por uma lenga-lenga que sabe a curriculum vitae. A identificação quase compete, em tamanho, com o texto pífio que a antecede, e por pouco não ganha dele em qualidade. O palavrório varia entre 20 e 40 termos, que falam das excelências do autor, indo de cursos que fez a prêmios que ganhou, havendo até um que se diz “nacionalmente conhecido” (!). Há também o tipo que, além de sete ou oito “especialidades”, também se diz “escritor, poeta e redator” (o que, ao fim e ao cabo, vem dar no mesmo Mané Luiz). Mas a joia da coroa vai para uns dois desses comunicadores que empregam em suas identificações a palavra “filósofo”. Aí, sobram na curva.

TATIBITATE, SENSO COMUM E FILOSOFIA

Ser filósofo é algo além de concluir uma licenciatura em Filosofia. Mesmo quem se doutorou na matéria não usa o título de filósofo, salvo se for um rematado presunçoso. Filósofo é quem investiga, argumenta, discute, analisa, “pensa” criticamente o mundo e formula teorias que expliquem nosso cotidiano. Não é qualquer artigo vazado em linguagem gaguejada, defendendo teses bebidas no senso comum da tevê que vai justificar a alguém se auto-intitular filósofo. Lembremos de que a professora Helena dos Anjos, que sabe do assunto mais do que uma dúzia desses “articulistas-filósofos”, é chamada de professora de Filosofia, não de filósofa.

NA HUMILDADE DO PASTOR, O EXEMPLO

É preciso dizer que essa explosão de incontidas vaidades é estimulada pelos jornais, pois seus editores, a quem caberia fazê-lo, não podam os excessos, reduzindo a identificação àquilo que a sensatez recomenda, e que é seguido pelos grandes veículos. Por exemplo, Clóvis Rossi se identifica  nos seus artigos como “jornalista”, sem os penduricalhos da presunção. Mas preferimos utilizar um modelo mais próximo a todos nós: Dom Ceslau Stanula (foto), de vastíssimo currículo (incluindo Filosofia!), se identifica no texto que publica num jornal da cidade como “Bispo de Itabuna”. Um exemplo acabado de humildade e (“de onde não se espera é que sai”) de bom jornalismo, a ser seguido pelas editorias.

ALGUÉM CHORA EM ALGUM LUGAR

Às 20h10min do dia 18 de junho, alguém que se apresenta apenas como “Larissa”, e que diz morar em vasto espaço chamado “República Portuguesa”, entre lágrimas, postou no seu blog:

Vou sentir a tua falta Saramago, porque, tal
como pertenciais ao mundo, um pouco de ti
também era meu…

Ainda sobre a morte de Saramago, escreveu o poeta argentino Juan Gelman:

Com as lágrimas que se vertem agora se
poderia acabar com as secas do mundo
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ATITUDE DE DUNGA É COMUM NO FUTEBOL

O cronista esportivo Alberto Helena Jr. (Última Hora/SP) queria na seleção brasileira de 1970 o zagueiro Joel Camargo, para compor a defesa com Carlos Alberto, Djalma Dias e Rildo, todos quatro do Santos, e sugeriu isso a seu amigo João Saldanha, que convocara Brito. “Brito é mais versátil”, disse o técnico. Helena Jr. (foto)  insistiu, tentando justificar a troca de Brito por Joel Camargo. Saldanha, como sempre, foi direto: “Você arruma uma seleção e faz o seu time; a minha seleção escalo eu”. A passagem, do livro João Saldanha, uma vida em jogo (André Iki Siqueira), marca apenas uma das vezes em que João quis sair no tapa com os críticos. Resposta semelhante ele daria ao ditador do momento, o famigerado Garrastazu Médici.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

POÇO DE TEIMOSIA, ARROGÂNCIA E GROSSURA

Ninguém seria insano a ponto de colocar no mesmo saco João Saldanha e o atual técnico brasileiro, pois todos sabem que, como pessoa ou treinador de futebol, seria necessário dissolver dez ou doze Dungas para obter meio Saldanha. O que se deseja lembrar é que treinador de futebol costuma ser poço de arrogância, teimosia e grossura. Alguns deles: Leão e Felipão (de cuja genética saiu Dunga), Paulo Amaral (brigão emérito), Telê (teimoso até a medula), Evaristo, Luxemburgo (a pose em pessoa) e Muricy (imbatível em presunção). Carlos Alberto Parreira, parece-me, só confirma a regra: é um homem educado, a quem o técnico da França deixou de mão estendida. Prova de que o futebol merece Dunga, não Parreira (foto).

UM RISCO PARA NOSSAS CRIANÇAS

O viés autoritário era visível em Saldanha (foto) – para mim o homem que revolucionou o futebol (embora a mesmice voltasse, quando ele se afastou). Creio, sem querer passear pelo espaço da psicologia, ser isto normal. Tanto assim que (até que as mulheres ousassem entrar em campo) se repetia a frase calhorda “futebol é pra homem”, numa alusão à grossura que impera nesse esporte. Se futebol é mesmo assim, Dunga é seu símbolo, pois a terra dele é famosa pela exaltação dos machos, ao menos é o que diz o folclore gaúcho. E o técnico aplicou tapas na própria cara, para provar que é macho de verdade, bradando, raivoso, entre tabefes, ter “cara de homem”. Homem ridículo, sim, com risco de ser exemplo para nossas crianças.


(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

O MINISTRO QUE CONFESSOU A TORTURA

Ousarme Citoaian

Às margens do Sena (Ediouro), marca meio século de trabalho profissional do jornalista Reali Jr., sendo 35 anos como correspondente em Paris. Entrevistou quatro presidentes do Brasil (Jânio, Sarney, FHC e Lula) e três da França (Giscard d´Estaing, François Miterrand e Jacques Chirac), além de Chico Xavier, Mário Soares, Glauber Rocha e o coronel Jarbas Passarinho – quando levou o risonho ministro da ditadura a confessar que o Brasil torturava seus presos políticos. Cobriu também a Revolução dos Cravos, a morte do ditador Francisco Franco e a assinatura do acordo de paz no Vietnã (em Paris). Carreira nada monótona.

UM PAINEL DE ÉTICA, POLÍTICA E HISTÓRIA

Às margens do Sena (depoimento a Gianni Carta) trata de temas de permanente interesse, como ética, política e história. Homem de rádio, Reali Jr. (na foto, à direita de Luís Fernando Veríssimo) chega a Paris em 1972, contratado pela Jovem Pan/SP, dedicando-se, ao mesmo tempo, à mídia impressa. No prefácio, diz Mino Carta: “O rádio fez por merecer o papel que lhe coube, de unir um país de tamanho continental, porque arregimentou aqueles que sabiam usá-lo (…). E havia respeito pela língua, algo assim como fidelidade canina à gramática e à sintaxe, ao castiço sem pompa, mas elegante, incapaz por natureza de resvalar na vulgaridade”.

O COLOQUIAL POSTO FORA DO LUGAR

O livro é fundamental, mesmo que a transcrição da entrevista misture as linguagens oral e escrita. Permite-se, conforme vemos em jornais de nossa região, formas condenáveis como o entrevistado se expressou (embora defensáveis na fala). Em Às margens, os exemplos estão em todas as páginas. Abro na 34, ao acaso: “… para o pessoal do Adhemar, quem entrevistava o Jango era acusado, além de comuna e esquerdista, de janguista”; um pulo à página 164: “O Giles Lapouge teve uma meia dúzia de entrevistas com o Lévi-Straus (…). Para você ter uma idéia, o Lévi-Straus lê os livros do Lapouge”. É algo que incomoda.

TESTEMUNHOS QUE NÃO FORAM DADOS

A fórmula não nos é estranha. A Editus/Uesc lançou em 2001 a série Testemunhos para a história, inaugurada com um depoimento do memorialista ilheense Raymundo Sá Barreto, no estilo de Às margens do Sena: a fala do entrevistado foi passada do gravador para o papel, conservando-lhe até eventuais erros. Um parêntesis sobre Testemunhos: é de lamentar-se que o projeto tenha morrido ainda no berço, pois Lindaura Brandão, Zélia Lessa, Henrique Cardoso, Ritinha Fontes, João França Santana, Otoni Silva, Helena Borborema, Alberto Lessa e tantos outros teriam muito a dizer sobre a história regional.

TALENTO QUE APENAS APLAUDIMOS

Ainda sobre Às margens do Sena e Testemunhos para a história, adianto-me à chuva de pedras e esclareço que não pretendo (nem tenho qualificação para tanto) usar lápis vermelho nos textos referidos. Em ambos os casos, não se trata de incompetência, mas de escolha, só que essa escolha me molesta. Entendo que as línguas falada e escrita sejam diversas. Mas não desconheço a possibilidade, em situações específicas, de tirar bons efeitos literários ao “confundir” os dois formatos, como em Sargento Getúlio, (justamente) festejado livro de João Ubaldo Ribeiro. Talento não se discute, apenas se aplaude.

O OPERÁRIO FORMATANDO O DIVINO

eu já concebo o verso assim metrificado
como arquiteto que planeja um edifício
na exatidão do prumo reto e equilibrado
sem perguntar se isto é fácil ou é difícil…

eu já concebo a rima assim – intercalada,
numa urdidura trabalhosa e singular –
puxando o fio de cada sílaba marcada
pelo tecido de uma métrica sem “sem par”!
eu já concebo o meu soneto alexandrino
(como a matriz de uma equação vetorial)
fazendo cálculo semântico e verbal

com  meu compasso atrapalhado de menino!
eu já concebo o meu poema ornamental,
como operário que dá forma ao que é divino!

VISITA DO CONTEMPORÂNEO AO CLÁSSICO

O autor de “Concepção” , o soneto acima, é Lourival Piligra Júnior (foto), poeta itabunense nascido em 1965, com um livro publicado – Fractais – e participação em antologias. Neste soneto, ele nos dá a entender que atualiza o “Profissão de fé”, do parnasiano Olavo Bilac: enquanto para o carioca a estrofe precisa sair da oficina do ourives “cristalina, sem um defeito”, o itabunense concebe o verso rigorosamente metrificado, “na exatidão do prumo reto e equilibrado”, não importam as dificuldades. É o gênero renovado, com o contemporâneo visitando o clássico. “Concepção” foi retirado de Diálogos (Via Litterarum), organização de Gustavo Felicíssimo.

A ROMA, A INTER E A JUVENTUS

Da série “Nem tudo está perdido”: ouço, na Globo, referências ao futebol europeu,  particularmente quanto ao Internazionale (de  Milão), e, para minha surpresa, o narrador, famoso por meter os pés pelas mãos em termos de linguagem, trata o time italiano como o Inter. E isto é uma agradável novidade, pois ele e a imensa maioria dos seus colegas, incluindo Tostão, meu cronista esportivo preferido, falam do grande clube italiano como a Inter. O mesmo é observado em relação ao Roma (apelidado a Roma) e ao Juventus (dito a Juventus).  O motivo desse absurdo, só o saberia o Deus da gramática. Os mortais apenas especulam.

SOMENTE A IGNORÂNCIA JUSTIFICA

Houve quem dissesse que se trata de uma elipse (isto está em moda!), o que seria “justificável” apenas no caso do Roma: por chamar-se Associazione Sportiva Roma estaria implícito o gênero feminino (a Roma). Mas o argumento é fragilíssimo, pois a Sociedade Esportiva Palmeiras (antes, Sociedade Esportiva Palestra Itália) nunca levou ninguém a tratar o clube como a Palmeiras. E, pior, os outros dois não são associaziones: um se chama Football Clube Internazionale Milano e outro é Juventus Football Clube, nomes masculinos, com certeza – o que atesta que o motivo de serem chamados a Roma, a Inter e a Juventus é tão somente a ignorância de alguns comunicadores.

CUIDADO COM O COLORADO GAÚCHO

O processo dessa “evolução”, da preferência de certo grupo de linguistas, é simples: alguém diz “a Juventus”, sem motivo aparente, algum preguiçoso acha bonitinho e repete a excrescência no noticiário do jornal, rádio e tevê. Pela repetição, a besteira injustificável adquire status de “uso consagrado” e então ai de quem pretender retomar a forma anterior – será carimbado como “arcaico” e atirado às feras, não faltando quem lhe esfregue nas fuças o lugar-comum de que a língua é dinâmica, como se ele disso não soubesse. Fico pensando se alguém, nesse desvario linguístico em que vivemos, resolver chamado o Internacional de Porto Alegre de a Inter. Não ia combinar com a tradição dos colorados.

CANÇÃO PARA ENCERRAR CASO

Em seu périplo pelo Nordeste, José Serra acenou com a canonização de Irmã Dulce, visitou o memorial do Padre Cícero e, em Recife, solfejou uns versos de Fim de caso de Dolores Duran ((a foto é do disco Dolores Duran canta pra você dançar), para anunciar seu distanciamento do atual governo federal: “Eu desconfio/que nosso caso/está na hora de acabar/”. Que o candidato desista desse perigoso caminho de cantante desajeitado, para o bem dos nossos ouvidos, amém. Depois de aguentar Suplicy fazendo um Bob Dylan gaguejante (com Blowin´ the wind), minha tolerância a políticos desafinados já está esgotada.

BRASILEIRO: PROFISSÃO ESPERANÇA

Mais grave é que o jornalista Victor Hugo Soares, em artigo que circula pela internet, relacionou a autora com Antônio Maria, referindo-se ao Fim de caso (agredido por Serra) como “clássico da criativa e explosiva fase de rompimento de Dolores com o notável compositor e cronista pernambucano”. Não fosse o jornalista quem é (um dos mais respeitáveis profissionais da área), eu diria que ele se engana redondamente. A autora de A noite do meu bem foi grande amiga do autor de Ninguém me ama, gravou canções dele e foi o lado feminino do show Brasileiro: profissão esperança (com Clara Nunes e Paulo Gracindo/1974). Mas nunca tive notícia de “caso” entre os dois.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

“QUERO A PRIMEIRA ESTRELA QUE VIER”

Dolores Duran, dona de uma veia romântica impressionante, não precisava de amores descarrilados para produzir seus versos. Era, nesse sentido, um Antônio Maria (foto) de saias (saia era uma estranha peça de roupa que as mulheres usavam antigamente). Aí estão, além do citado “Fim de caso”, “Por causa de você” (Ah, você está vendo só do jeito que eu fiquei e que tudo ficou), “A noite do meu bem” (Hoje eu quero a rosa mais linda que houver…/Para enfeitar a noite do meu bem), “Ternura antiga” (Ai, a rua escura, o vento frio/Esta saudade, este vazio…), “Solidão” (Ai, a solidão vai acabar comigo…) e outras. Ela e Antônio Maria eram rei e rainha de um gênero chamado fossa (e que atendia também pela alcunha de dor-de-cotovelo.

SUGESTÕES QUE O VENTO SOPRA

Bob Dylan completou em 24 de maio 69 anos (nasceu em 1941). Em março de 2008, num show em São Paulo, ele cantou Blowin´ the wind (a pedidos, também do “cover” Eduardo Suplicy). E canta outra vez aqui, como eco do seu aniversário e para relembrarmos aquela voz rascante de “caipira” (antes do rock ele teve uma fase country, todos sabem). Mais ainda porque se trata de uma canção política, de apelo atualíssimo, com o vento soprando sugestões aos candidatos. Dolores Duran (que se apresentou no Sul da Bahia nos anos cinqüenta, alguém se lembra?), fica para outra.


(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

AFINAL DE CONTAS, QUEM É A BOLA?

Ousarme Citoaian

A grã-fina das narinas de cadáver chega ao Maracanã em dia de Fla-Flu e, diante daquele espetáculo de povo, pergunta, entediada, a seu acompanhante igualmente grã-fino: “Quem é a bola?”. A grã-fina das narinas de cadáver é um dos tipos do escritor Nelson Rodrigues, reinventor da crônica esportiva – e que também poria em campo o Sobrenatural de Almeida. No geral, é lembrado pela criação de expressões como o óbvio ululante, toda unanimidade é burra, Palhares (o canalha), a freira de minissaia, o padre de passeata e outras, entre elas A Pátria em chuteiras, para justificar a paixão brasileira pelo futebol.

COLEÇÃO DE CHUTES NA LINGUAGEM

Mas estes tempos sem bom senso estão mais propícios aos atentados à linguagem do que ao lirismo rodrigueano. O treinador do Brasil já deu a saída, com uma exortação sobre patriotismo. O discurso do “sargento” Dunga (foto), eivado de sandices sobre atitude, doação, emoção, sonho de vestir a camisa verde-amarela e comprometimento (a última invenção do indigente vocabulário esportivo) é ridículo. Mais curioso é que no MVD (Manual de Virtudes do Dunguismo) não entra a palavra “técnica”. Saudades de João Saldanha, para quem a prioridade na convocação era saber jogar bola. Agora, é preciso ser “patriota”. Futebol é futebol, guerra é guerra e patriotismo é outra coisa.

“PATRIOTAS” BERRAM DIANTE DA TEVÊ

É possível incluir na categoria “patriota” quem (ou aquele que) pretende reduzir desigualdades, integrar negros, favelados, índios, sem-terra e outros grupos “vegetativos”. Transferir esse “comprometimento” para um jogo de futebol é ser, além de simplório, alienado – quando não posto a serviço da consolidação do atraso. Não é por se vestir de verde e amarelo, agitar a bandeira brasileira e berrar diante da tevê que alguém se faz patriota. De igual modo, ser indiferente a um negócio que movimenta milhões de reais, dólares e euros não transforma ninguém em mau brasileiro. Temos direito de não torcer (ou até – que Deus me perdoe! – torcer pela Argentina), e continuarmos patriotas.

DUNGA, SE ACASO LEU, NÃO ENTENDEU

“A Pátria em chuteiras” é só uma criação literária de um cronista genial, que Dunga não leu, e se leu não entendeu as circunstâncias históricas em que nasceu a expressão. Sobre a importância da Copa do Mundo para o patriotismo, acho ilustrativa uma historinha de Garrincha, talvez inventada por Sandro Moreyra: em 1958, quando lhe disseram que aquele jogo (Brasil 5×2 Suécia) era o último, o ponta-direita do Botafogo saiu-se com este comentário judicioso: “Que torneiozinho mais mixuruca!…”. Pela parte que me toca, continua sendo.

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“ATÉ MEU PADECER, DE TODO FENECER”

Se alguém ganhou o CD do prêmio (semana passada), pelos erros descobertos na interpretação de Luciana Mello, em Rosa, do misterioso Otávio de Sousa, procure o Pimenta. Todos já sabem, o prêmio é o CD O melhor do arrocha, com a faixa bônus “Rebolation”, interpretada por Caetano Veloso. Brincadeiras à parte, Rosa é um tour de force capaz de desafiar qualquer cantor. Enquanto Garota de Ipanema tem 100 palavras simples, Rosa abriga mais de 220, em 42 versos, com expressões pouco utilizadas: rósea cruz, sândalos olentes, ativo olor, láctea estrela, alma perenal, remir desejos (que rima com nuvens de beijos), isso tudo “até meu padecer, de todo fenecer”. Um trava-língua, sem dúvida.

MÁGICA ORAÇÃO À MULHER AMADA

Erros de Luciana Mello (foto): “É preferida pelo beija-flor” (transformou-se em “és preferida pelo beija-flor”); “Aqui nesse ambiente de luz” (ela diz de dor ou algo parecido – de cor?); “sepultas o amor” (ficou “sepultas um amor”).  Rosa teve falta de sorte desde o início, pois na gravação original Orlando Silva comete um erro de concordância – e o disco foi pra rua assim mesmo: ele canta “sândalos olente” (em vez de “sândalos olentes”). Erro imperdoável. Já os equívocos de Luciana são “desculpáveis”, por serem num espetáculo ao vivo. De toda forma, Rosa conserva sua magia de pungente oração à mulher amada. É “uma prece comovente, aos pés do Onipotente”, sem dúvida.

CANÇÃO PREFERIDA DE DONA BALBINA

Qualquer dia desses vamos relacionar aqui alguns erros famosos, de cantores igualmente famosos. Por enquanto, fiquemos com (mais) uma curiosidade sobre Rosa: Francisco Alves (o Chico Viola, Rei das Voz) e Carlos Galhardo se recusaram a fazer a primeira gravação dessa música porque o lado A do disco (eram, então, só duas canções por disco)  tinha Carinhoso. Orlando Silva (foto) pegou a oportunidade, e o resto todo mundo sabe. Recentemente, numa velha entrevista de Orlando Silva, soube que a partir de 1968 ele deixou de cantar Rosa, pois caía no choro a cada tentativa. Era a canção preferida de sua mãe (Dona Balbina), que morreu naquele ano.

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A “CULTURA” ESTÁ NAS ORELHAS

Uma amiga me pede sugestão de livros. “Por quê?” – pergunto; “Porque quero ser culta”, me responde. Explico que para ser “culta” ela não precisa ler livros; basta ler as orelhas dos livros. Certo “lingüista” leu as orelhas de Chomsky e Saussure, e está “se achando”. Mas a leitura que se recomenda tem outro caminho. “Ler, para mim, é importante porque dá alegria”, diz o escritor Rubem Alves (de Boa Esperança-MG, onde está a serra homônima, imortalizada por Lamartine Babo e que tem gravação recente de Marcelo Ganem). Segredo: só li dois terços de A montanha mágica, de Thomas Mann (larguei porque não me deu alegria…).

DE LEITURAS, RELEITURAS E SAUDADES

Permitam-me a inconfidência. Certa vez, em encontro com Telmo Padilha (foto), lhe perguntei se estava lendo muito. O autor de Onde tombam os pássaros respondeu de pronto, com  a mansidão de sempre: “Não estou lendo muito, mas relendo muito”. Hoje, após tantos anos e tantas saudades, entendo melhor a mensagem: também releio muito mais do que leio. Uma crueldade com os novos autores e livros que me chegam? Talvez. Mas tenho compromissos anteriormente assumidos com os já provados grandes escritores, sendo que de alguns deles, dói-me confessar, não fiz até hoje a primeira leitura.

EM DÉBITO COM HOMERO, ESOPO E MARX

É permitido a alguém ler apenas uma vez Cem anos de solidão, Dom Casmurro, Grande sertão: veredas, Dom Quixote, Madame Bovary, Menino de engenho, Os galos da aurora, Memórias póstumas de Brás Cubas, Vidas secas, Sagarana (para citar apenas alguns livros “obrigatórios”)? E a mitologia grega, o Eclesiastes (onde Hemingway foi buscar o título O sol também se levanta), a poesia popular (que os mais esnobes chamam cordel)? Como encontrar tempo para (re) ler Homero, as fábulas de Esopo, Dyonelio Machado, Graciliano, Marx e princípios de filosofia (indispensáveis para o entendimento do mundo)?

CONTOS DE CYRO, POEMAS DE BANDEIRA

Por isso, que me perdoe meu amigo oculto, pela não leitura daquele seu livro, com o qual ele imagina (talvez, com boa margem de acerto) revolucionar a literatura brasileira. Mas compreenda que até hoje só li A pedra do Reino (Ariano Suassuna) três vezes, As velhas (Adonias Filho) duas; O coronel e o lobisomem (José Cândido de Carvalho) “apenas” umas dez. E há muita gente na fila de espera da releitura: Bandeira, Drummond, Cecília Meireles, versos de Dinah Hoisel (foto), crônicas de Carlinhos Oliveira, contos de Cyro de Mattos, pesquisas de Jorge Araujo. É curta a vida para tanto livro .

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QUALQUER-COISA-COM-QUALQUER-COISA

Não falemos das letras de axés e pagodes da Bahia (que encontram defensores até em Caetano Veloso!), pois isso já foi feito magistralmente por Los Catedrásticos, com o Novíssimo recital da poesia baiana, lá pelo finzinho dos noventa (na foto, Maria Menezes, do grupo). O que me atordoa é o nome das bandas, com sua carga de mau gosto atroz, algo nunca imaginado num ambiente artístico. Há quase vinte anos, num lance de criatividade, os cearenses descobriram a fórmula “qualquer-coisa-com-qualquer-coisa”, criando a vitoriosa Mastruz com leite. O filão mostrou-se irritantemente inesgotável.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

O MAU GOSTO QUE VEM EM ONDAS

O que surgiu em seguida, em vários pontos do Brasil (incluindo Itabuna, com a banda Cacau com leite), foi uma onda de plágios. Mas esse pastiche (Acarajé com camarão, Limão com mel, Caviar com rapadura, Mingau com cevada, Mel com terra, Sarapatel com pimenta) ainda seria preferível à lista de nomes grosseiros que assola o meio: Mulheres perdidas, Raio da silibrina, Calcinha preta, Levanta a saia, Cangaia de jegue, Fogo na saia, Unskaraí e outras de igual estupidez. Sinto saudades de nomes como Premeditando o breque, Joelho de porco (foto), Casa das máquinas, A cor do som e Ultraje a rigor.

A PRIMEIRA GRAVAÇÃO É DE PERY RIBEIRO

Voltemos ao sério. Garota de Ipanema foi lançada num show na boate Au bon gourmet em 1962, com a presença dos autores (Tom Jobim/Vinícius de Moraes) e João Gilberto. Uma das mais gravadas do mundo, a canção nasceu, dizem os pesquisadores, com o nome de Menina que passa, não foi feita numa mesa de bar, conforme o folclore, e o primeiro registro em disco não foi com João Gilberto, mas com Pery Ribeiro (foto). Mostramos aqui uma raridade: o texto introdutório usado no Au bon gourmet pelos três artistas (hoje há apenas um sobrevivente). Como não foi recuperada nas gravações, esta parte ficou desconhecida da maioria do público.
Clique e veja um João Gilberto (em 1992, nas comemorações dos 30 anos de Garota de Ipanema) inusitadamente bem humorado, aplaudido de pé por Tom Jobim.


(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

ENTRE A CONDENAÇÃO E A CURIOSIDADE

Ousarme Citoaian

Que meu olhar não seja de condenação, para evitar receber pedradas da CLMH (Comunidade dos Linguistas Mal Humorados), mas que possa ser de curiosidade. É que (assim como o “risco de vida”, aqui abordado recentemente), alguns neo-puristas decidiram que a expressão “entrega a domicílio” é ilegítima, de sorte que se algum infeliz a utilizar vai arder no fogo do inferno. O “certo” é “em domicílio”, proclamam os descobridores de novidades. Vamos acertar uma coisa: a língua portuguesa se alimenta do novo, mas mantém um pé na tradição, nas formas ditas consagradas, aquelas que os bons autores abonam.

EXPRESSÕES LEGITIMADAS PELO USO

“A domicílio” (condenada pelos puristas desvairados como abominável galicismo) é uma expressão enraizada na linguagem popular, que nossos avós já empregavam, e que, por ser consagrada, dispensa esses cuidados urgentes que lhe querem prestar. Os neologismos inúteis precisam ser evitados, e não aqueles se insinuam de forma natural e terminam integrantes “legítimos” da nossa fala. É o caso dos legitimados abajur (que já foi abat-jour) e piquenique (outrora, picnic). Atualmente, insiste-se em delivery de pizza (este, sim, um estrangeirismo dispensável). Contra ele temos o boa e velha “entrega a domicílio”.

INÚTIL ARTIFICIALISMO DE LINGUAGEM

A professora Maria Tereza Piacentini afirma que a regra purista manda usar “a domicílio” com palavras que indicam movimento (levar a roupa, a pizza etc.), e “em domicílio” quando sem movimento (dar aulas, cortar cabelo, fazer unhas e outros). Mas ela reconhece que “essa diferenciação está ultrapassada”, e que o uso prático recuperou (se alguma vez perdeu) a forma “a domicílio”, para ambos os casos. Portanto, vamos deixar de lado mais esse inútil e bobo artificialismo de linguagem que alguns redatores mal informados ajudam a difundir, e retomar a já brasileiríssima “a domicílio”, sem receios.

COPA DO MUNDO DE LUDOPÉDIO

Há estrangeirismos contra os quais a luta dos puristas é vã. Em certa época, tentou-se um termo “brasileiro” para piquenique, encontrando-se “convescote”. Não pegou, de sorte que os mais jovens (se não forem estudiosos de Gramática Histórica) desconhecem o termo. Só um sujeito irremediavelmente imbecil chamaria a colega de trabalho para “fazer um convescote” – e se arriscaria a um processo por assédio sexual: antigamente, moça de família só “convescoteava” depois do casamento. E tem ludopédio, do latim ludus (jogo) e pedis (pé) que quiseram pôr no lugar do anglicismo futebol. Não deu. Receio até que o Brasil, diante das patriotadas do “sargento” Dunga, jogue ludopédio, em vez de bola.

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“ARTIGO NOVIDADEIRO E INÚTIL”

Com o futebol no topo do noticiário, fortifica-se o festival de bobagens que habita o meio. Um dos itens mais notáveis é a inflação de artigos definidos que toma conta do noticiário. Em outros tempos, dizia-se que Zico ia vestir a camisa 10; atualmente, diz-se que quem vai vesti-la é o Kaká; no gol, informava-se que estaria, por exemplo, Tafarel; agora quem está é o Júlio César; a lateral direita, que em 1970 tinha Carlos Alberto Torres, agora tem como titular o Maicon – e por aí vai. “É de lamentar-se, mas todos os veículos de comunicação têm atrelado esse artigo novidadeiro e inútil em seus textos”, constata Marcos de Castro, em A imprensa e o caos na ortografia (Record – 5ª edição).

SEM CONCESSÕES AO MAU GOSTO

No começo, falar o Pelé ou o Luís Pereira (foto) era costume de algumas camadas das populações paulista e carioca, sempre em termos informais, quando ainda se mantinha maior respeito pela norma culta. Mais tarde, a televisão (a Globo, sobretudo, grande criadora de modismos) adotou algo semelhante como forma de comunicação: buscava-se uma linguagem capaz de ser entendida por todo o conjunto dos telespectadores, tendo como padrão de baixa escolaridade as pessoas de mais baixa escolaridade (se elas entendessem, todos entenderiam). Era o “coloquial bem escrito”: simples, claro e correto, sem preciosismos, mas igualmente sem concessões ao popularesco. Só que o controle se perdeu.

O BALTAZAR, O GASPAR E O BELCHIOR

“Qualquer palmeirense lembra, com saudades, de Leão, Luís Pereira, Dudu, Ademir da Guia e Leivinha. Já o bom marcador Zeca não foi tão marcante. E o Internacional de Rubens Minelli, bicampeão brasileiro? Ali fizeram história Manga, Figueroa, Falcão, Valdomiro e o lendário Dadá Maravilha. Mas ali também jogou o discreto Vacaria”, anota José Roberto Torero (Os cabeças-de-bagre também merecem o paraíso/Editora Objetiva). Em texto contemporâneo, o cronista manda sua mensagem sem gastar o estoque de artigos definidos – mostrando que não se trata de época, mas da competência de quem escreve. Há redatores por aí querendo “modernizar” o texto bíblico, dizendo que o Jesus, ao nascer, foi anunciado pelo Baltazar, o Gaspar e o Belchior.

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CHUMBO QUENTE E TEXTO REFINADO

E cá estamos, outra vez, a de western, como gênero de cinema uma paixão. John Ford, em Paixão de fortes nos faz bela surpresa, ao introduzir, quem diria, uma citação de Shakespeare, nada menos do que a cena 5 do ato III de (a tragédia de) Hamlet. Num saloon esfumaçado, um artista meio bêbado declama o To be, or not to be. Os vapores etílicos lhe atacam a memória e ele se vale de um pistoleiro “erudito” (o lendário Doc Holiday, aqui vivido por Victor Mature) para recitar o resto do texto, sob o olhar perplexo de Wyatt Earp/Henri Fonda. Improvável? Sim, mas criativo e de bom gosto.

EDGAR ALLAN POE EM PLENA PRADARIA

Howard Hawkins gostou tanto de Onde começa o inferno/1958 que fez uma refilmagem (esse hábito não estava em moda, como hoje, quando os filmes terminam dando a deixa para o próximo): é Eldorado, outra vez com John Wayne, agora liderando novo elenco (com destaque para Robert Mitchum, o xerife bêbado). Pois é nesse incrível ambiente que Hawkins introduz o poema “Eldorado” de Poe – no qual o autor ironiza a irracional corrida do ouro e dá aos versos, em Inglês, uma forma tal que o ritmo simula cavalos correndo. No filme de Hawkins, quem declama “Eldorado” é James Caan (à esquerda, na foto), um jovem e desajeitado pistoleiro de nome impronunciável.

O HOMEM EM SUA BUSCA SEM FIM

“Sozinho e errante/ um cavaleiro galante/ no sol e na sombra/ longamente viajara/ cantando, em busca do Eldorado”, recita Caan. O poema fala da eterna andança que o cavaleiro galante (noutra tradução é “elegante”) empreende em direção, talvez, à felicidade. Ele cavalga até ficar velho, sem encontrar “nenhum pedaço de chão parecido com Eldorado”. Quando está à beira da desistência, “caiu-lhe no peito uma sombra”, a quem ele, quase vencido pelo desânimo, interroga: “Onde estará essa terra/ chamada Eldorado?” – e a sombra responde: “Cavalgue, cavalgue corajosamente/ se você quer encontrar Eldorado” (combinei a tradução do filme com a de Rodrigo Garcia Lopes).

EM LETRAS, SOMOS OS BAMBAMBÃS

Do pouquíssimo que sei, acho que nossa música é a melhor do mundo, ao menos em termos de letra. O europeu é bom letrista, mas o brasileiro é melhor. Os americanos não são grande coisa. Mesmo o jazz, se cantado, não diz muito. Os europeus (sobretudo franceses, italianos e portugueses) ganham dos ianques, mas o Brasil ganha fácil deles todos. Yes, nós temos Braguinha (foto), Noel, Tom, Vinícius, Edu, Caetano, Gil, Chico Buarque, Paulo César Pinheiro, Cartola, Dolores Duran, Orestes Barbosa – citemos poucos, para não humilhar os gringos e criar problemas diplomáticos. Orestes escreveu “Tu pisavas nos astros, distraída”, o mais belo verso da língua portuguesa, segundo Manuel Bandeira.

LANCEADO, PREGADO, CRUCIFICADO

Há uma letra que me impressiona sobre as outras: Rosa, de Otávio de Sousa, que tem coisas assim: “Se Deus/ me fora tão clemente/ aqui neste ambiente/ de luz, formada numa tela/ deslumbrante e bela…/Teu coração/ junto ao meu lanceado/ pregado e crucificado/ sobre a rósea cruz/ do arfante peito teu”. Romantismo derramado, tangenciando o barroco, de autor praticamente anônimo. O público, injustamente, identifica a canção como “Rosa de Pixinguinha”. E o grande Pixinguinha (foto), autor da melodia, não ajudou a esclarecer o mistério. Interrogado, disse que Otávio de Sousa “era um mecânico que morava no Engenho de dentro, muito inteligente e que morreu novo”.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

O MECÂNICO QUE NÃO DEIXOU RASTRO

Fazer esta letra e sumir sem deixar outro rastro na MPB é impossível. Minha versão preferida é outra: Otávio de Sousa nunca existiu, e Rosa seria de Cândido das Neves, o Índio (na verdade, negro!). O autor de Última estrofe (que todo seresteiro de respeito conhece) teria vendido os versos de Rosa a Pixinguinha e este “inventou” o mecânico. É coisa para pesquisador com P caixa alta. Os vídeos na internet estão cheios de erros na letra. Há até uma anta que canta (anta canta?) “vozes tão dormentes como um sonho em flor”, quando o poeta (seja quem for) escreveu dolentes.

ARROCHA PARA OS CAÇADORES DE ERROS

Luciana Mello comete “só” três erros. Se você descobrir algum deles, reclame no Pimenta o CD O melhor do arrocha, com a faixa-bônus “Rebolation”, na voz do Mano Cae. Mas, melhor do que caçar erros é relaxar e apreciar esse banho de romantismo, típico da MPB que se fazia no meado do século XX  – Orlando Silva (foto) lançou Rosa em 1937.


(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

O TEXTO SOBREVIVERÁ AO MUNDO

Ousarme Citoaian

Em jornal e revista (a dita mídia impressa), o texto fala por si, enquanto a foto é fundamental como ajuda. Por isso disseram por aí que quando o mundo se acabar será necessário um jornalista para dar a notícia. Sobrando fotógrafo, melhor ainda. Se o the end da “civilização cacaueira” chegou mesmo, montado na vassoura-de-bruxa, há controvérsia – alimentada pelos laboratórios, que tentam parir cacaueiros resistentes à doença. Enquanto isso, Daniel Thame (foto), pelo sim, pelo não, apresenta-se como o cronista que o assunto exige. Seu Vassoura (Via Litterarum) está na praça, para agitar, provocar e cutucar cérebros anestesiados. Só o bom texto nos redime.

COMBINAÇÃO DE MITO E REALIDADE

O livro, com 23 histórias curtas (média de 2,5 páginas), situa-se, conforme destaca o editor Agenor Gasparetto, no lugar que separa os gêneros crônica e conto, classificação que, de resto, não deve tirar o sono de ninguém. Fiquemos com Mário de Andrade, que simplificou a questão: “Conto é tudo aquilo que o autor chama de conto”. Ou então, que se reconheça em Vassoura as duas facetas: na medida em que registra fatos, seria crônica histórica; já a parte com pitadas (melhor dizendo, generosas porções) de ficção, identificaríamos como conto, pois o livro é, claramente, essa combinação de realidade vivida e mito imaginado.

A ESPERANÇA AINDA ESTÁ VIVA

Daniel Thame introduz a vassoura-de-bruxa na literatura regional, e o faz com textos bem escritos, de feitura concisa e leitura agradável, sem descambar para o mero entretenimento. Ao contrário, sua ficção (surpreendente em alguém forjado no factual das redações) convida a pensar – talvez a mais nobre função da literatura. Se alguém achar que ele pesa no dramático, no humor negro ou na tragédia de seus anti-heróis, poderá estar certo. De minha parte, sinto nesse Vassoura um produto perpassado pela sensibilidade do autor, animal político aristotélico, que, sem disfarce no olhar de compaixão com nossa gente, nos diz que a esperança ainda resiste.

DITADOR É “IMORTALIZADO” EM ESCOLA

“Em sociedade, tudo se sabe” era um bordão do colunista social Ibrahim Sued (1924-1995). Pois, em conversa, fico sabendo que Itabuna possui uma escola chamada Garrastazu Médici (foto). E me ponho a pensar como a sociedade se curva aos interesses do poder, desdenhando sua própria dignidade. A escola, apesar de não estar poupada nestes tempos de violência, é um lugar sagrado. Sua identificação há de ser alvo de respeito, reverência e orgulho para a comunidade que ela se insere. Nomeia-se uma escola com pessoas que representaram bons exemplos a seguir.

ESCOLA FERNANDINHO BEIRA-MAR

“Eu estudo na escola Anísio Teixeira”; “Eu, na Paulo Freire”; “E eu sou do colégio Eusínio Lavigne”  – seria uma conversa esperada entre estudantes que se orgulham dos seus “patronos”. Já “Centro Educacional Jack, o estripador” ou “Escola Fernandinho Beira-Mar” seriam batismos infelizes. Então, por que coube a Itabuna a “honra” de ter um lugar (sagrado, repita-se) com o nome de tal indivíduo?  Submeter presos políticos a tortura, com choque elétricos e pau-de-arara (o que o general não fez pessoalmente, mas aprovou) não é pré-requisito para homenagem. Ao contrário.

NÃO QUEREMOS ABRIGAR A DESONRA

Ainda tenho esperanças de que fui mal informado, e que o sanguinário ditador dos anos setenta não identifica nenhuma escola entre nós. Mas, se abrigamos tal desonra, é tempo de professores, autoridades municipais e a comunidade em geral se levantarem num movimento que defenda a honra e a “limpeza” do nobre espaço de formação. É um crime coletivo permitirmos que esses jovens, mais tarde, se envergonhem de mencionar o nome da escola onde estudaram. E estarão certos, pois o lugar do general Garrastazu Médici não é a educação, mas a lata de lixo da história.

PALAVRAS DORMEM, MAS NÃO MORREM

Penso haver dito neste espaço que as palavras nascem, vivem e morrem. Mesmo que tal afirmação me tenha dado alguma sobrevida com a CLMH (Comunidade dos Linguistas Mal Humorados), preciso pedir perdão pela bobagem. Fui mal. As palavras só morrem se nós, que com elas lutamos mal rompe a manhã (na feliz expressão do poeta), assim o desejarmos. Digamos que os sem sensibilidade as condenam ao sono quase eterno, à  forçada hibernação, à troca por neologismos ainda recendentes a vinho novo. As palavras apenas se cansam e tiram férias compulsórias, até que sejam outra vez trazidas à lida.

RECUPERAÇÃO DO BRILHO ANTIGO

João Guimarães Rosa não me deixa mentir. O autor de Sagarana “acordou” centenas de vocábulos que a língua portuguesa pensava ter abolido. Muitos tão “mortos” estavam que não são encontrados em nenhum dicionário em moda no fim dos anos 50 (quando foi publicado Grande sertão: veredas). Alguns termos até foram, apressadamente, dados como “inventados” por JGR – quando uma análise menos perfunctória mostra que ele os recolheu, nas conversas com o povo nos sertões das geraes ou mesmo em textos antigos. O escritor tirou-lhes a poeira, restituiu-lhes o brilho anterior.

DO MANDU À MADRINHA DA TROPA

A beleza de algumas formas ditas arcaicas de nos expressarmos justifica sua ressurreição. O escritor Adylson Machado (Amendoeiras de outono/Via Litterarum) recuperou, dentre várias palavras e expressões curiosas, “mais enfeitado que madrinha de tropa” (referência à mula que “comandava” a tropa, cheia de guizos e enfeites), “mandu” (encrenca, problema, gente ruim, inconveniente) e “abistunta” (forma aleatória de acertar o preço de mercadorias de valores variados). Se esses termos não têm sido usados, isto não quer dizer que estejam mortos. Apenas dormem, à espera de quem os desperte.

SUJEITO CHEIO DE NÓS PELAS COSTAS

Os alagoanos designam uma coisa muito velha com a deliciosa expressão “do tempo em que candeeiro dava choque” (Dicionário do Nordeste, de Fred Navarro). Aqui na terra do mandu e da abistunta, um sujeito arrogante é dito cheio de nove horas, metido a sebo, cheio de nós pelas costas, podendo meter-se em camisa de onze varas num arranca-rabo, se acaso não tiver as costas quentes. Os pobres vestem roupa porta-de-loja, comem sobe-e-desce (às vezes, com o pão que o diabo amassou) e carregam seus poucos pertences num panacum. Ou bocapiu. Que, aliás, inexplicavelmente, não consta do Dicionareco das roças de cacau e arredores, de Euclides Neto.

BRASIL PÕE FRANK SINATRA NO GUINESS

Peças que a ignorância me prega. Só há poucos anos fiquei sabendo que uma das canções mais “americanas”, gravação famosa de Frank Sinatra, é… francesa. Trata-se de My way, que ao nascer chamava-se Comme d´habitude (de Thibault, Revaux e Claude François). Paul Anka (foto) comprou os direitos autorais da música, fez a versão para o inglês (dando-lhe o título de My way), em 1967, e a mostrou a Frank Sinatra. The Voice fez a gravação dois dias depois e prosseguiu cantando esse tema, quase obrigatório nos seus shows. No Maracanã, cantou My way para o maior público de sua carreira, 175 mil pessoas (o show entrou para o Guiness).

ALGUÉM JÁ OUVIU COMME D´HABITUDE?

O modelo “canção-francesa-que-vira-americana” já foi referido  aqui, com Les feulles mortes, mas não é a mesma coisa. Todo mundo conhece Les feuilles (ou Autunm leaves). Mas você já ouviu Comme d´habitude? Eu também não. A propósito, quem tiver essa música reclame na redação do Pimenta o prêmio a que faz jus (a coletânea O melhor do arrocha, com a faixa bônus “Rebolation”, na voz do Mano Cae). O mais interessante é que Frank Sinatra, após anos e anos cantando My way, revelou que não gostava dessa letra. Disse que quando a cantava se sentia “um gabola” diante da platéia, coisa que detestava.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

UMA ENORME CARGA DE GABOLICE

De outra vez, acentuou, sobre o assunto: “Eu odeio falta de modéstia, e é assim que eu me sinto com esta música”. A letra não é grande coisa: os americanos são bons melodistas, mas, para nossa sorte, Vinícius (foto), Chico Buarque, Caetano, Paulo César Pinheiro, Humberto Teixeira, Gilberto Gil, Noel Rosa e outros grandes letristas nasceram no Brasil. Mas bem olhada, My way revela enorme carga de arrogância, mostrando o cantor como todo-poderoso, acima dos mortais, dando a Sinatra razão para se sentir incomodado. É um hino ao cabotinismo, com som de caixa registradora: inesgotável fonte de renda para ele e, mais ainda, para Paul Anka.

“MAIOR CANTOR POPULAR DO MUNDO”

No vídeo será possível conferir essa opinião sobre o pedantismo da letra de My Way e identificar muita gente famosa, incluindo Dean Martin e Sammy Davis Jr. (na foto, nesta ordem, com Sinatra), amigos inseparáveis do artista. E também será fácil saber por que uma legião de críticos e fãs apontava Francis Albert Sinatra como o maior cantor popular do mundo.
Dê uma conferida.
(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

RICARDINO, O QUE SE RECUSOU A MORRER

Ousarme Citoaian
Ricardino Batista dos Anjos, justamente homenageado com seu nome no Prêmio de Imprensa da Prefeitura de Itabuna, contava uma história de grande interesse humano. Menino ainda, cavando a vida em Itabuna, foi acometido de doença grave, que o fez submeter-se a tratamento especializado. Depois de algumas tentativas, o médico (dos quadros do INPS, uma espécie de SUS daquela época) chegou à conclusão de que a moléstia era incurável. Recomendou ao doente que fosse “morrer em casa”, numa prova de que não devotava maior apreço à vida dos pacientes.

ALBERTO SEIXAS MUDA O RUMO DA HISTÓRIA

Negro, pobre, só e abalado pela doença, estava prestes a aceitar esse diagnóstico cruel, quando o instinto de sobrevivência falou mais alto (aliás, gritou): a caminho da pensão onde morava, Ricardino (foto) mudou de rota e procurou outro médico. Este o atendeu “por caridade”, jogou fora os remédios até então utilizados e impôs novo esquema de tratamento. “Riscadinho” (como o chamava Jorge Araujo) sobreviveu, fortificou-se e decidiu que só morreria dali a muitos anos, no longínquo 2005. No intervalo, casou-se, teve dois filhos e se fez radialista, jornalista, advogado e pedagogo.

CLARK GABLE “DE PAPO” NA CINQUENTENÁRIO

O nome do médico que o desenganou, não sei; o que o salvou chamava-se Alberto Seixas. Bom de clínica e de conversa, esse Seixas era um homem alto, forte, risonho e bonitão, aproximado ao melhor Clark Gable (… E o vento levou). Mais do que isso, era humano (este caso parece exemplar), fino, cortês, fidalgo, um gentilhomme raro entre médicos ou qualquer categoria, não importa o tempo ou lugar. Seu modelo sobrevive no oftalmologista Carlos Ernane Andrade (foto), que tem mestrado em civilização e gentileza. Quanto a Ricardino Batista, hoje é, mais que foi em vida, dos Anjos.

MATEMÁTICA E COMUNICAÇÃO

Dia desses, opinamos sobre a influência que a matemática exerce na minha forma de expressão, e causei surpresa. Recorramos aos exemplos: “Havia na praia gente de todas as idades”, diz a repórter da tevê, numa matéria de domingo. Essa linguagem é condenável, por imprecisa (é impossível que pessoas de todas as idades estejam na praia). É preferível “de idades variadas” ou coisa parecida. Também comum é a fórmula “toda a diretoria compareceu”. Cuidado para ver se não faltou alguém, o que poria a perder a precisão do relato. Outro: “O investimento do Estado será de R$ 42 milhões” – atenção, que talvez não seja exatamente isto. Melhor é “cerca de R$ 42 milhões”.

RIGOR QUE MELHORA O ESTILO

Devido a seu rigor típico, a matemática auxilia na precisão da linguagem. Voltada para a exatidão e a lógica, quando ela diz “todas as idades” está dizendo “todas as idades”, do recém-nascido ao ancião, com intervalos pequeníssimos. Já se vê que é impossível reunir um grupo de pessoas nesta condição. Talvez seja um conjunto infinito, conforme Cantor (matemático russo) e sua teoria. Da mesma forma, estaria “errada” a informação de R$ 42 milhões, se acaso, na prática, a despesa for ultrapassada (ou reduzida) em qualquer valor, R$ 0,01 (um centavo) que seja. Que importância tem isso para a comunicação? Talvez nenhuma.

A CURVA QUE ALONGA O CAMINHO

“Itabuna perde o título de campeão baiano de Juniores”, diz o jornal, na primeira página (parêntesis para lembrar que a primeira página tem sido chamada, inapropriadamente, de capa). Procuro o fundo do mistério e descubro que o Itabuna Juniores enfrentou o Bahia Idem e perdeu o jogo. Ora, por que cargas d´água o redator não disse logo isso?  O Itabuna perdeu o jogo, não o título, pois não se perde o que não se tem. Deixar de ganhar não é perder. Ainda me surpreendo com esse festival de formas “elípticas” de escrita, quando a reta é a menor distância entre dois pontos.

CAPA É CAPA, NÃO É PRIMEIRA PÁGINA

Falemos em capa, espero que sem levar pedradas dos coleguinhas mais novos. As trocas são naturais numa redação (por exemplo, a máquina de escrever pelo computador), como de resto, em todos os setores da vida: o velho, queira ou não, dará lugar ao novo. Mas capa é capa e primeira página é primeira página (ou, para ficar no modismo partidário, água e óleo que não se misturam). Revistas e livros têm capa – uma proteção com material de maior resistência, diferente das páginas, o miolo do livro ou revista. E o método de trabalho de quem faz capa de revista ou livro é diverso do método de quem “fecha” uma primeira página de jornal.

DA ARTE DE ESCREVER BEM

É provável que Canto de amor e ódio a Itabuna não seja a coletânea ideal do poeta Telmo Padilha. Talvez seja a coletânea possível, neste momento. Vale pela iniciativa da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania (FICC) que resolveu fazer uma coisa quase inédita por estas bandas: prestar homenagem a um autor regional. Na verdade, as boas intenções já começam na gênese do livro, com os textos selecionados por José Haroldo Castro Vieira, amigo de Telmo, mas não crítico literário. A Editus/Uesc, que encampou o projeto de edição, tem também grande mérito na homenagem.

O DÉBITO COM TELMO CONTINUA

Adiante-se que tudo isso valeu a pena, pois se não fosse esse livro não seria nenhum outro – e o aniversário do poeta passaria em branco. Mas a cidade continua em débito com Telmo (foto). Sua produção, sobretudo a poesia, ainda tem muita coisa à deriva, anotada às pressas, em papéis inadequados (até canhotos de talões de cheques), já maduras para servir de alimento às traças. Se a FICC, com mais tempo e recursos, tiver condições de sonhar sonho maior, poderia contratar Jorge de Souza Araujo, este, sim, crítico e pesquisador, para a seleção e notas dos inéditos de Telmo Padilha.

FALTA DINHEIRO, SOBRAM PROBLEMAS

O presidente da FICC, escritor Cyro de Mattos (foto), também faria eficientemente esse trabalho, pois tem longa experiência em selecionar textos, tendo coordenado antologias várias, incluindo duas de autores regionais (Ilhéus de poetas e prosadores e Itabuna, chão de minhas raízes). Conhece muito bem as literaturas daqui e de alhures, em prosa e poesia, e por várias vezes antologiou Telmo Padilha. Mas não tem tempo, e a FICC, sem dinheiro e eivada de problemas, já o molesta suficientemente. Jorge Araujo, portanto, é a melhor escolha.

CRÉDITO DE “PROFESSOR” DA UESC

Louvada a iniciativa do presidente da FICC, vamos lembrar que a Editus/Uesc já deu contribuição fundamental às letras regionais, ao editar dois volumes de alta qualidade, com capa dura e papel especial: Expressão poética de Valdelice Soares Pinheiro/2002 e (melhor ainda) Jorge Medauar em prosa e verso/2006. Seria o caso de a FICC chamar aquela editora para o resgate de um dos grandes poetas brasileiros. E é pertinente salientar que Telmo Padilha, autor de mais de 35 títulos, com 16 traduzidos, tem crédito para tanto: era professor Honoris Causa da Uesc.

AZNAVOUR E O “REALISMO” NA CANÇÃO

Charles Aznavour se sentia infeliz com as canções que interpretava, por isso resolveu compor, com a intenção de dizer “coisas que o público não estava acostumado a ouvir”. Seus temas são desamor e conflitos interpessoais, numa espécie de realismo que conquistou milhares de ouvintes. Os jornais eram sua fonte de inspiração. Filho de imigrantes armênios que escaparam do genocídio feito pelos turcos em 1914, ele trabalhou oito anos com Edith Piaf (foto), seguindo-a por toda parte, e foram amigos até a morte da chansonière. “Com ela aprendi que não devia fingir ser outra pessoa no palco, que devia ser eu mesmo, uma pessoa real”, reconhece.

VEIO DUAS VEZES AO BRASIL

Charles Aznavour, nascido Shahnour Vaghinagh Aznavourian (foto),  fez, no mínimo, 600 canções (há quem fale em 850), incluindo 150 em inglês, 100 em italiano, 70 em espanhol e 50 em alemão. Vendeu mais de 100 milhões de discos e apareceu, como ator, em mais de 60 filmes, entre eles, Atirem no pianista, O caso dos dez negrinhos e O tambor. Em 2008, obteve a cidadania armênia e já no início de 2009 se tornou embaixador da Armênia na Suíça. O franco-armênio, que completa 86 anos no dia em que esta coluna é postada (22 de maio), visitou o Brasil duas vezes em 2008, cantando em dez capitais.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

“AVENTAL TODO SUJO DE OVO”

La mamma vendeu 1,5 milhão cópias, com uma letra de mau gosto atroz, só perdendo, no tema, para aquela da mãe rainha do lar com o chinelo na mão e o avental todo sujo de ovo. Ray Charles a gravou como For mamma e Agnaldo Timóteo (foto), Mamãe, é claro. O tema: a velha matriarca está nas últimas, e a família vem assistir ao desenlace. “Eles vieram, eles estão todos lá/Desde que entenderam este grito/Ela vai morrer, a mamma” (Ils sont venus,ils sont tous là/ Dès qu’ils ont entendu ce cri/ Elle va mourir, la mamma). Nazareno de Brito (para o vozeirão de Timóteo) põe lirismo nessa morte: “O véu da noite vai chegar/E docemente vai nublar/ Os olhos meigos de mamãe”. Bombou. Com brasileiro não há quem possa.

CARISMA QUE ATRAVESSOU O ATLÂNTICO

A melodia e o carisma de Charles Aznavour somados ao êxito dessa canção nos dois lados do Atlântico justificam a presença de La mamma na coluna. É quase como se estivéssemos respondendo ao clamor das ruas.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

ALFABETIZADO QUE NÃO LÊ, ANALFABETO É

Ousarme Citoaian
Há algum tempo, em Itabuna, uma professora de alfabetização infantil, na solenidade de “licenciatura” de seus alunos, recomendou aos mesmos que lessem. “A gente se alfabetiza para ler, pois, se não fosse assim, não valeria a pena o meu esforço, nem dos pais de vocês, nem de vocês”. O discurso me emocionou. Se não o aplaudi de pé, solitário, solidário e esperançoso, foi com receio de ser internado com urgência em nosocômio psiquiátrico credenciado pelo SUS. Está certíssima a professora: se não leio, para quê me alfabetizei? A alfabetização é irmã siamesa da leitura e prima carnal da escrita.

A MENOR DISTÂNCIA ENTRE DOIS PONTOS

Tenho dificuldade para explicar o assunto. Mas imagino que o alfabetizado que não lê é como aquele indivíduo que cursa a faculdade, licencia-se, por exemplo, em Direito e, depois, monta uma loja de calçados. Com todo respeito, para ter êxito com uma empresa comercial necessita-se de alguma técnica (que pode ser apreendida na prática da observação) e talento para os negócios. Então, ir à escola para ser comerciante é dissipar inteligência, perder tempo importante a estudar o que não interessa, usar a linha curva para ir de um ponto a outro, quando a reta é a menor distância.

CAMINHO PARA A TRANSFORMAÇÃO

A propósito de professores, aproveito para registrar dois textinhos, com sugestão de que pensemos a respeito deles: “Não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo, torná-lo sério, com adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor. Se a educação sozinha não transformar a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”. Falou e disse o educador brasileiro Paulo Freire (foto); “O professor medíocre conta; o bom professor explica; o professor superior demonstra; o grande professor inspira”, sentenciou Arthur Ward, administrador americano.

HOJE É DIA DO PROFESSOR

Conservadora e preconceituosa (isto está comprovado em vários estudos), a sociedade brasileira tem ojeriza ao novo. Certos setores sofrem ataques agudos de urticária tão logo entram em contato com alguma coisa fora da mesmice. Isto é perceptível também quanto ao conhecimento. Todos nós já ouvimos a expressão calhorda “quem sabe faz; quem não sabe, ensina”. Uma grosseria contra o professor. Se é possível graduar as profissões, esta fica ao lado ou à frente do que há de mais importante. Vá o comentário por conta do Dia do Professor. É 15 de outubro? E daí? Façamos de conta que é hoje também.

COISAS DE MARSHAL MCLUHAN

Ligo a tevê e, num lance de má sorte, dou de cara com um ilustre especialista em nutrição, explicando as excelências da vitamina Ê. Assim mesmo: vitamina Ê. “A vitamina Ê faz, a vitamina Ê acontece”, e por aí segue. As vitaminas são identificadas por letras (A, B, C, D, E e K, com ligeiras variações) – e não existe em língua portuguesa a letra Ê. Interligada pela tecnologia – veja conceito de aldeia global de McLuhan (foto) –, a sociedade brasileira parece condenada a repetir bobagens linguísticas que, dicionarizadas mais tarde, adquirem status de consagração. Mas continuam sendo o que são: bobagens.

DIFERENÇA ENTRE LETRA E FONEMA

Dizem os conhecedores da língua (aqueles que não têm disposição para “consagrar” babaquices) que esse Ê não é letra, mas fonema. A quinta letra do nosso alfabeto (também segunda vogal) chama-se E (com som aberto). Não se trata de implicância nem de regionalismo nordestino, mas da pronúncia correta. Vale para qualquer canto do Brasil. Quem fala Ê é paulista mal informado ou quem repete a televisão, como se ela fosse, mal comparando, a Bíblia. Assim, vamos chamar IBGÊ e não IBGÉ, sendo que aquele famoso colégio de Ilhéus (o I.M.E., na foto de Mendonça), baianamente dito IMÊÉ, passa a se chamar IMÊÊ. Lá ele!

PRECONCEITO ATINGE NOMES DE  MULHER

Marcos de Castro, aqui várias vezes referido, nos chama a atenção para o imenso preconceito que a gramática alimenta contra as mulheres. E destaca a questão dos nomes próprios, que me passara despercebida: “Boa parte deles nasce de nomes masculinos e só se tornam nomes de mulher quando recebem desinência feminina”. O jornalista e filólogo aponta uma exceção, aliás nome muito bonito, de sonoridade cristalina e origem “nobilíssima”: Mariana. Trata-se da justaposição de Maria e Ana (Nossa Senhora e sua mãe). De Mariana nasceu Mariano, uma formação rara.

EM CASA DE JOÃO, MULHER ERA JOÃOZINHO

Entre os romanos, as mulheres eram tão sem importância (tanto em casa quanto na sociedade) que muitos dos seus nomes eram somente diminutivos dos nomes masculinos. Agripina (de Agripa) e Messalina (de Messala) são os exemplos citados por mestre João Ribeiro. É algo que soa hoje tão ridículo quanto se a um homem chamado João correspondesse uma mulher batizada como Joãozinho. Ao acaso, alguns nomes que nasceram do masculino: Manuela, Getúlia, Paula, Lúcia, Júlia, Maura, Antônia, Célia, Fernanda, Márcia e Patrícia.

PATRÍCIA AMORIM É PRESIDENTA DO FLA

Patrícios eram os nobres romanos, a elite à qual se conferia alta dignidade, em determinado período. Mais tarde, o substantivo comum transformou-se em próprio, e de Patrício veio Patrícia (que nada tem a ver com as atuais patricinhas). Por falar nisso, Marcos de Castro sugere que a nadadora Patrícia Amorim reaja às tentativas de chamá-la de presidente, dizendo aos repórteres: “Por favor, sou mulher e mãe, e tenho o direito de ser tratada por uma forma feminina. Sou presidenta do Flamengo, não sou presidente”. Dá neles, Patrícia!

DA ARTE DE ESCREVER BEM

O pesquisador Jorge de Souza Araujo me espanta a cada página. Num dos seus livros mais recentes, Graciliano Ramos e o desgosto de ser criatura, vejo que Quebrangulo, onde nasceu o Velho Graça, significa “matador de porcos”, em quimbundo. Jorge aponta forte semelhança entre o autor de Vidas secas e o escritor e ativista italiano Antonio Gramsci (foto): os dois foram criticados pelos seus partidos comunistas (PCB e PCI) por “falta de vigor revolucionário”, estiveram presos, adoeceram na cadeia e voltaram à liberdade no mesmo ano (1937). Gramsci, vítima do fascismo de Mussolini; Graciliano, do de Getúlio. O brasileiro escreveu Memórias do cárcere; o italiano, Cartas do cárcere.

GRACILIANO RAMOS EPIGRAMISTA

Graciliano Ramos, o que surpreende quem lê sua prosa descarnada, fez incursões na poesia.  Ele disse que compunha sonetos “para adquirir ritmo”, sem nunca ter pretendido ser poeta. “Aprendi isso para chegar à prosa, que sempre achei muito difícil”, afirmou. E o estoque de inusitados nesse Graciliano Ramos de Jorge Araujo (ganhador do Concurso Nacional de Literatura da Academia Alagoana de Letras) ainda guardava um inesperado Velho Graça epigramista: “De sífilis terciária, um dia, enfim, morreu/Este de alcoice imundo ignóbil filho espúrio/E a terra que o comeu/Entrou logo a tomar injeções de mercúrio”, escreveu ele contra desafeto anônimo.

ROBERTO DAMATTA E AS BALAS PERDIDAS

Sou um raro brasileiro que nunca viu (nem pretende ver) Tropa de elite. Também não quero ler Elite da tropa. Fico com a opinião de Roberto DaMatta, quando diz que “o cinema brasileiro é uma deprimente, com as exceções de praxe: só mostra pobreza, miséria, sofrimento, prostituição e bandidagem”. Prefiro o faroeste, a violência lá longe, antiga e vingada. Para ver polícia e bandido trocando tiros, basta estar na rua de uma grande cidade. Bom pra quem gosta de emoções fortes. No faroeste há justiça; no dia-a-dia das balas perdidas, não (e quando digo faroeste, me refiro aos americanos). A ficção não supera a realidade.

ITALIANO EM TEMPO DE TELENOVELA

 Faroeste italiano é como acarajé feito por baiana branca, se vocês me entendem. Já se vê, sou seletivo: Sergio Leone, o grande nome do spaghetti western, não entra em minha lista. Seu Era uma vez no Oeste, por exemplo, não me agrada, porque tem timing de telenovela (e eu detesto telenovela). Se a crítica adora Era uma vez, azar da crítica. Vamos fazer uma lista de dez ou vinte? Eu dou a saída com Matar ou morrer (Fred Zinnemann), Onde começa o inferno (Howard Hawkins), Os Brutos também amam (George Stevens), O homem que matou o facínora (John Ford), El Dorado (refilmagem de Onde começa) e Paixão de fortes (Ford).
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

ESTRANHA FORMA DE DIZER “I LOVE YOU”

Filmes de caubói (como se dizia antigamente), às vezes, têm referências surpreendentes. Em Onde começa o inferno, Angie Dickson ameaça vestir uma roupa que deixa as pernas à mostra e ouve do desajeitado xerife John Wayne: “Se você usar isso em público, eu vou prendê-la”. E ela, chorando de felicidade: “Até que enfim! Pensei que você nunca ia dizer que me ama”. Ele, espantado: “Eu disse que ia prendê-la. Ela: “É a mesma coisa”. Em Paixão de fortes, Henri Fonda, caído por Cathy Downs, busca ajuda no velho Farrell Mac Donald: “Você já esteve apaixonado?”. Resposta: “Não. Sempre fui barman”. Filme americano com humor inglês…

O HOMEM, O RIFLE E O CAVALO

Outro recurso recorrente no cauboi é a música. High noon (Matar ou morrer), My Darling Clementine (Paixão de fortes) são bons exemplos. Em Onde começa o inferno, há um intervalo na tensão de quatro homens à espera de uma quadrilha inteira, quando Dean Martin e Rick Nelson cantam um tema country (My rifle, my pony and me), com a ajuda do “doidinho” Walter Brennan, tendo John Wayne como plateia. É a síntese do gênero: o vaqueiro, a arma, o cavalo e a mulher amada. Confira em vídeo:
 
 

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

  

MÁQUINA DE FAZER DOIDOS 

Ousarme Citoaian
A televisão já foi chamada de máquina de fazer doidos. Em outra época, psicólogos previram que ela criaria uma geração de oligofrênicos – tipos que se dedicariam a comer pipocas diante da telinha, praticamente renunciando à análise e à crítica. Não seria difícil encontrar, ainda hoje, quem se disponha a, se não prová-la, ao menos argumentar em favor dessa tese: a tevê, se não robotizou o público e estimulou o retardamento mental, muito contribuiu para a redução do pensamento crítico. O seu imenso poder de convencimento, montado sobre uma programação socialmente descompromissada (em que abunda a dramaturgia de baixa extração), implanta hábitos nem sempre saudáveis. A linguagem é uma dessas contribuições deletérias.  

FUTEBOL QUE FERE OS OUVIDOS

Não falemos do insistente récorde, que virou moda. Mas é notável a forma como a principal rede de tevê do País “recria”, nas chamadas de esporte, a palavra futebol: o locutor pronuncia futé-ból (é impossível reproduzi-lo à perfeição), numa fórmula absolutamente estranha à nossa fala – salvo o regionalismo paulista. Qualquer brasileiro normal diz futibol, pois, segundo os foneticistas, esse “e” é uma vogal reduzida (tanto quanto o segundo “a” de cara ou o “o” de pato. Todos sabem que a expressão vem de football, sendo curioso que a pronúncia, se seguisse o original (como a Globo faz com record), ficaria mais próxima da nossa prosódia. Também é curioso que na tevê não se diga, como seria coerente, futêssál nem futêvôlei. Então, por que esse alienígena futé-ból, tão estranho aos nossos ouvidos?

A FEIJOADA NÃO NASCEU NA BAHIA

O Aleijadinho é um personagem de ficção (pelo menos como o conhecemos, com seu perfil inspirado em Quasímodo, de Victor Hugo), Zumbi tinha escravos, a feijoada não foi criada na Bahia, mas na França, e Santos Dumont não inventou o avião. Essas, dentre outras, são revelações do livro Guia politicamente incorreto da História do Brasil (Editora Leya), do jornalista Leandro Marlock (ex-Veja e Superinteressante). O autor pesquisou temas “sedimentados” pela historiografia oficial, concluindo que as coisas nem sempre são como nos ensinaram na escola. Chamou-me a atenção a forma como, na crônica Traços a esmo, Graciliano Ramos (1892-1953) afirma que o futebol, imaginem, não daria certo no Brasil..  

FUTEBOL: UM “COSTUME INTRUSO” 

Lima Barreto (1881-1922), acrescento, também era ferrenho opositor do futebol, que acusava de ser “simples importação artificial e elitista”. O velho Graça (foto) achava que esse esporte era um “costume intruso”, querendo tomar o lugar de um (estranho) jogo então existente. Segundo o autor de Vidas secas, para que um costume se estabeleça “é preciso não só que se harmonize com a índole do povo que o vai receber, mas que o lugar a ocupar não esteja tomado por outro mais antigo, de cunho indígena”. E conclui: “O [costume] do futebol não preenche coisa nenhuma, pois já temos a muito conhecida bola de palha de milho, que nossos amadores mambembes jogam com uma perícia que deixaria o mais experimentado sportman britânico de queixo caído”.

POR UM PUNHADO DE DÓLARES

É curioso que João Saldanha, mais de meio século depois, afirmou que o profissionalismo representava o fim do futebol brasileiro, devido à perda de vínculo do jogador com o clube. O grande João errou no atacado, mas acertou no varejo: o esporte se fortaleceu como negócio, mas o vínculo se perdeu, irremediavelmente: hoje, um jogador beija o escudo do time que o paga e na semana seguinte, por uns dólares a mais, vai beijar o escudo do adversário. Mas quem de nós nunca fez uma previsão desastrada? No começo dos anos 60, vaticinei que Roberto Carlos, com aquele romantismo piegas exarado nas tardes da tevê paulista, não duraria 15 dias. Errei, confesso.  

INCULTA, BELA E NOBRE

No bar de Eduardo, aqui no Beco, a placa, escrita no estilo jogo de palavras de Gilberto Gil (sem jamais cair na grosseria), anuncia, com um bem posto trocadilho, tratar-se de uma casa de Artigos para beber; no Café Pomar, avenida do Cinquentenário (onde mato minha sede e o vício do cafezinho), os clientes são recebidos com um aviso de notória sabedoria gramatical, antigo, dos tempos de seu Mariano, que inaugurou a casa: Atendimento com fichas. Compre-as no caixa. Dois belos exemplos, um moderno outro clássico, do bom manejo da língua portuguesa, que, em assim sendo tratada, se mostra bela e nobre, sem esnobismos.

LINGUISTA DE MAU HUMOR 

Há quem defenda uma espécie de fiscalização da linguagem, para os anúncios afixados na via pública. Parece-me que Fortaleza/CE possui um programa municipal nesse sentido: se alguém, no seu comunicado, agride a já maltratada língua portuguesa, o fiscal vai lá e fornece a orientação necessária. A ideia é defensável, embora possa haver algum linguista de mau humor a apoiar a tese de que “se as pessoas entenderem a mensagem, está bom” – e então, porque “a língua é viva”, que se deixe cada um meter os pés pelas mãos. Embora não houvesse, até agora, pensado no assunto, eu tendo pela fiscalização. Seria uma espécie de escola peripatética.

DA ARTE DE ESCREVER BEM

Recentemente, num comentário, tangenciamos aqui a questão do hino La marseillaise, referência que nos despertou para um conto engraçadíssimo de João Ubaldo Ribeiro, Alandelão de la patrie, em torno do mesmo tema. No estilo picaresco em que é mestre o autor de Viva o povo brasileiro, não lembro de nada melhor do que essa short story que Cyro de Mattos (foto) selecionou para a antologia O conto em vinte e cinco baianos, publicada pela Editus/Uesc. Alandelão de la patrie é um touro francês, usado como reprodutor na fazenda, mas que só trabalha “indiretamente”, por inseminação artificial. Essa crueldade desperta a compaixão do narrador.

ALANDELÃO E A VACA FLOR DE MEL 

João Ubaldo (foto): “Foi assim que tivemos o plano de fazer um benefício a Alandelão, benefício este com a vaca Flor de Mel, pé-duro porém forte de ancas, boa envergadura e vaca já com muita experiência de vida, inclusive havendo sido, segundo muitos, amante de Nonô de Bombaim, e diz o povo que os dois comiam uns pezinhos de liamba, conhecida por outros como fumo-de-angola, aliás maconha – o que é que estamos escondendo – que aqui nasce feito mato e não deixa de haver quem faça um fumeirozinho. Enfim, diz o povo que os dois comiam uns pezinhos e ficavam na maior safadagem, isto antes de Nonô ter pegado aftosa numa farra e ter morrido velho e aftoso e desestimado por todos em geral”.

PROSA E POESIA ENCADEADAS 

Cyro de Mattos, organizador de O conto em vinte e cinco baianos, é um itabunense que honra sua terra. Jornalista e escritor, tanto navega no conto/novela, quando nada de braçada na poesia e na crônica, além de investidas de muito êxito na literatura infantil. Dono de grande fortuna crítica, ouviu de Eduardo Portela (foto), ex-ministro da Educação, este juízo: “Em Cyro de Mattos o poema e a narrativa se entrelaçam engenhosamente. Quando escreve o poema, narra; quando narra, jamais se afasta do sopro vital da poesia”. Cyro tem vários prêmios literários, além de textos publicados em outros países. Atualmente, mesmo com danos à sua atividade intelectual, dirige a Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania.

JAZZ, DROGAS, TRISTEZA E POESIA

Tangenciei, há dias, Bird (1988), o filme de Clint Eastwood sobre o saxofonista Charlie Parker (1920-1955). O filme, por ser fiel à vida real do astro, é um tanto sombrio. Mas é bem feito, premiado e aplaudido por um público específico, os amantes do jazz. E é também (o que se convencionou chamar de “trabalho autoral”) a cara de Eastwood, um apaixonado pela grande música negra e fascinado por Parker. O tema de fundo, já falamos, é a droga, que caiu no jazz como uma doença contagiosa, destruindo muitas estrelas. O que emerge da tela é um duplo Parker – tão altamente construtivo com o seu instrumento (o sax tenor) quanto autodestrutivo, devido ao intenso uso de drogas, a partir do álcool.

O SAX QUE GANHOU O OSCAR

Eastwood (foto) traça o retrato quase sem retoques de um artista brilhante e frágil, que vai buscar nas drogas a solução de problemas pessoais. O diretor levantou a discografia do seu ídolo e produziu uma ótima trilha sonora, partindo de discos originais de Parker. E tudo valeu a pena: Forest Withaker (Charlie Parker) ficou com o prêmio de melhor ator em Cannes; Diane Verona (Chan Parker, mulher do músico) foi a melhor atriz coadjuvante, segundo o New York Film Critics; a trilha sonora ganhou o Oscar de melhor som e Clint Eastwood ficou com o Globo de Ouro de melhor diretor. Logo, homenageado e homenageante se deram muito bem.

POESIA PARA ATENUAR A TRISTEZA 

O estrago que as drogas fizeram em Charlie “Bird” Parker (foto) não foram pequenos: contratos rompidos, a beira da sarjeta, o envelhecimento precoce. Ao morrer de infarto na casa de uma “protetora”, o músico foi descrito pelo médico, preliminarmente, como “Charlie Christopher Parker Junior, negro, forte, cerca de 65 anos”. Ele ainda não tinha 35. Ao menos na aparência, as drogas lhe tiraram quase metade da vida, antecipando-lhe o fim. Aliás, a cena de sua morte, quando o diretor e jazzófilo Clint Eastwood consegue atenuar com poesia a nossa tristeza, é um extraordinário momento do filme. Se quiser, veja/ouça Lover man, um clássico que, em Bird, mostra o tenorista Charlie Parker no último degrau.
 
(O.C.)
 
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UNIVERSO PARALELO

POLICIAL E GRAMÁTICA ESCAPAM DE GRAVE ATENTADO

Ousarme Citoaian

Disse um dos mais importantes jornais de Itabuna, em sua manchete principal, na semana passada: Suspeito de tentar contra a vida de policial morre com outros dois comparsas (O. C. grifou). O verbo tentar, usado desde bíblicos tempos (o capeta tentou Jesus no alto do monte, lembram-se?), tem sobre si a responsabilidade de muitos significados. O pobre já está até curvado para a frente, com a carga que carrega, conforme ocorreu com Atlas, aquele que foi condenado a andar por aí com o mundo nas costas. E agora (ops!) o verbinho (sem ofensas!), já cansado, recebeu a promoção a sinônimo de atentar.  Mas ele recusa a honraria, por falta de espaço e excesso de peso. O “elemento” era suspeito de atentar contra a vida do policial. Quer dizer: manifestava a intenção de matar o homem da lei, passá-lo desta para melhor, apagá-lo, mandá-lo acertar as contas com o Criador, tirá-lo do mapa. Não quis tentá-lo, o que talvez depusesse contra a masculinidade de um dos dois. Houve, sim, um atentado também contra a gramática portuguesa, mas os dois, policial e gramática, escaparam. Deus é grande.

SACUDIR A POEIRA DO DICIONÁRIO

A vizinha do 6º andar me tenta todos os dias. Sempre que ela passa (deixando aquela fragrância de rosas amassadas em tarde de primavera) minha cabeça se povoa de bandalheiras tais que não me arrisco a referi-las no Pimenta, blog familiar. Vontades inconfessáveis me assaltam, imagino planos tão mirabolantes, mergulho num virtual mar de sem-vergonhices inenarráveis. Essa moça que passa por mim e não olha é o exemplo raro que me ocorre de tentar e atentar, a um só tempo. Ela me tenta e, ao fazê-lo, atenta (talvez involuntariamente, não estou certo se) contra minha paz de espírito. Os dicionários estão aí (eu ainda os prefiro de papel, não online) para mostrar que atentar e tentar, embora parecidos, estão tão distantes quanto Dilma e Serra. Deixo ao leitor o prazer de consultar o dicionário (se estiver empoeirado – não o leitor, mas o “pai dos burros” – sacuda-a, que há de valer a pena).

“NÃO NOS DEIXEIS CAIR EM TENTAÇÃO”

Geddel tenta subir nas pesquisas, Jararaca Ensaboada atenta contra a sensatez, os políticos, em geral, tentam nos levar na conversa, Anamara (na opinião do comandante da PM) atenta contra o pudor (e me tenta, nos intervalos deixados pela vizinha do 6º andar), Itabuna e Colo Colo tentam se afastar da lanterna, alguns textos de jornais atentam contra a inteligência do leitor, o velhinho tenta, tenta, tenta… e o bandido atenta contra a vida do policial. É claro que de tentar vem tentação. No Paraíso, a serpente tentou, o casalzinho pioneiro caiu em tentação (foi no papo da cobra) e deu no que deu (para evitar acidentes, o Padre Nosso reivindica ao Criador: “Não nos deixeis cair em tentação…”). De atentar, vem atentado: ao atentar contra o policial o bandido cometeu um atentado contra aquele. O trio elétrico é um atentado aos tímpanos. Para escrever, não precisa ser gênio. Mas tem que ter atenção, pois o erro atenta contra nós, em cada frase (ver nota abaixo).

O UNIVERSO PISOU NA BOLA

E pisou feio. Num lance de absoluta infelicidade – como alguns que têm acontecido com o Itabuna e o Colo Colo – foi grafado na edição passada, o tempo verbal torço, em lugar do substantivo torso. Descuido lamentável, que alguém autoidentificado como “Gorby Li” imediata e generosamente registrou nos comentários. Aos leitores, nossas desculpas. A Gorby Li, mais do que desculpas pelo erro, agradecimentos pela corrigenda. Se pensarmos nisto aqui como jogo de futebol, sendo eu goleiro, não fica dúvida de que engoli um frango antológico. Mea culpa!

NÃO ME XINGUEM DE “FLANGUISTA”

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Os que acompanham esta coluna já perceberam que ela é vazada em certo tom “clássico” – prefere, aos neologismos, as formas consagradas. Questão de fidelidade aos bons autores. É o caso de “flamenguista”. Não uso, pois minha santa mãezinha (que Deus a ampare!) me recomendou não falar nem escrever palavrões. É provável que algumas mães tenham contribuído, por desatenção, para divulgar este termo. Mas a minha era do tipo “formal”. Flamengo é adjetivo referente a Flandres (região da Bélgica), da mesma forma que fluminense (do latim flumen, o rio) se refere ao Estado do Rio de Janeiro (e outros rios). Ninguém “xinga” de “fluminensista” o nativo daquela região (ou torcedor do Fluminense). Existe a Baixada Fluminense (terra onde filho chora e mãe não vê), que nenhum brasileiro sensato chamaria de Baixada “Fluminensista” – e ainda podemos invocar o testemunho insuspeito de um certo Machado de Assis: ele batizou de Contos fluminenses um de seus livros – e não Contos flumensistas, como desejariam os defensores de “flamenguista”.

UMA VEZ FLAMENGUISTA… (ARGH!)

Arthur da Távola (foto), que sabia escrever e falar como poucos, tem um texto que nos ajuda a argumentar. Diz o jornalista carioca: “Ser Flamengo é ser humano e ser inteiro (…); ser Flamengo é deixar a tristeza para depois da batalha (…)”. Perceberam? Ele não diria jamais “Ser flamenguista é…”. Então, por que eu, ai de mim!, iria escrever tal heresia? É do hino: “Uma vez Flamengo, sempre Flamengo…”. Nunca “Uma vez “flamenguista…”.  E Jorge Benjor? Diz lá o negão, em País tropical: “Sou Flamengo, tenho uma nega chamada Teresa etc. etc.”. Na verdade, “Sou flamenguista, tenho uma nega…” é crime inafiançável contra o bom gosto… Gil, ao ser expulso da pátria pela ditadura militar, deixou bilhete antológico: “Alô torcida do Flamengo, aquele abraço!”… Alguém se atreveria a “modernizar” isto para “Alô torcida flamenguista?”. Muito se escreveu exaltando o Flamengo, com destaque para vários autores que não eram rubro-negros: Mário Filho, Henrique Pongetti, Nelson Rodrigues, David Nasser, João do Rio, o citado Arthur da Távola, Eliezer Rosa e outros. Nenhum deles empregou o termo “flamenguista”. Queriam exaltar a torcida, não ofendê-la.

O VERMELHO E O NEGRO

Nelson Rodrigues, tricolor de coração, era politicamente execrável, mas um cronista esportivo de altíssimo nível. Li, com prazer, muitas de suas crônicas sobre o Flamengo, e jamais encontrei ali o termo “flamenguista”. Numa delas, o autor de À sombra das chuteiras imortais chega a falar em torcida “flamenga”, mas nunca “flamenguista”. Ruy Castro (foto), texto extraordinário do jornalismo contemporâneo (este sim, Flamengo desde o berço, biógrafo de Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmem Miranda) escreveu um livro notável sobre as glórias do clube da Gávea, chamado O vermelho e o negro (uma citação óbvia de Stendhal). São 232 páginas que qualquer torcedor do Flamengo lê com satisfação imensa, mas que deixarão frustradas algumas pessoas: não há, ao longo de toda a obra, uma só vez a palavra “flamenguista”. Ruy Castro sabe das coisas.

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

Listas remetem a saudades e “toda saudade é uma espécie de velhice” (saibam que li as orelhas de Guimarães Rosa em Grande sertão: veredas). Mesmo assim, cito aqui algumas músicas de Carnaval que muito aprecio: 1Taí /1930 (Joubert de Carvalho), 2Pierrô apaixonado/1936 (Noel-Heitor dos Prazeres), 3As pastorinhas/1938 (Noel-Braguinha), 4A jardineira/1939 (Humberto Porto-Benedito Lacerda), 5Aurora 1941 (Mário Lago-Roberto Roberti), 6Nós, os carecas/1942 (Arlindo Marques Jr.-Roberto Roberti), 7Cordão dos puxa-saco/1945 (Eratóstenes Frazão-Roberto Martins), 8Saca-Rolha/1946 (Zé da Zilda-Zilda do Zé-W. Machado),  9Chiquita Bacana/1949 (Braguinha-Alberto Ribeiro), 10Confete/1952 (David Nasser-Jota Júnior), 11Cachaça não é água/1952 (Marinósio Filho), 12Colombina/1956 (Armando Sá-Miguel Brito), 13Turma do funil/1956 (Mirabeau-Milton de Oliveira-Urgel de Castro), 14Evocação/1957 (Nelson Ferreira) e 15Chuva, suor e cerveja/1971 (Caetano Veloso).

JEAN-PAUL SARTRE NA FUZARCA

Colombina, Chiquita bacana, Saca-Rolha, Turma do funil, Cordão dos puxa-saco e Nós, os carecas são exemplos de arte popular, sem apelação. Gosto muito de “as águas vão rolar/ garrafa cheia eu não quero ver sobrar” (Saca-rolha), enquanto Genolino Amado afirmou que o verso “só faz o que manda o seu coração” (Chiquita Bacana) era, para o existencialismo de Sartre (foto), então em moda, a melhor definição. Também poderiam estar na lista, se espaço houvesse, Até amanhã, Mamãe, eu quero, Ai que saudades da Amélia,Praça onze,Tomara que chova,  Vassourinhas, Máscara negra, Corre, corre, lambretinha, Yes, nós temos banana, General da banda, Atrás do trio elétrico, Se você jurar, Agora é cinza, Até quarta-feira, Alah-la-ô, Vai com jeito, Marcha do caracol e Índio quer apito (sucesso na voz do ilheense Walter Levita).

POR AMOR AOS OUVIDOS

Consideradas não propriamente “carnavalescas”, incluiríamos ainda entre as melhores: Noite dos mascarados, Hora da razão, Manhã de Carnaval (apresentada aqui na semana passada) e Marcha da quarta-feira de cinzas. Omissões propositais: Me dá um dinheiro aí (uma bobagem popularizada pelo uso), além de Cabeleira do Zezé, Maria Sapatão e O teu cabelo não nega (três monumentos sonoros ao preconceito). Colombina é, oficialmente, o hino do Carnaval baiano. Mas, sufocada pelo som distorcido do trio elétrico, é menos lembrada do que deveria. Essa marcha, entre as melhores da festa de Momo (ao menos quanto à melodia), é pouco cantada – mostrando ser pequeno o tempo entre a homenagem e o esquecimento. A lista é pobre em música baiana. É que, devido a irrenunciável amor a meus tímpanos, não passo perto de trio elétrico nem cultivo aquelas riquíssimas rimas em ô (pelô, salvadô, meu amô). Enfim, listas são… deixa pra lá.

(O.C.)
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<h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3>
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UNIVERSO PARALELO

“CANTA O MEU CORAÇÃO, ALEGRIA VOLTOU”

Ousarme Citoaian

Mesmo que, sob os mais variados motivos, ele seja adiado, transferido, mudado ou impugnado, o Carnaval está à porta, e não há força capaz de impedir sua vinda, pois ele sobrevive em nossos corações. Então, mesmo desafinados (“é preciso cantar para alegrar a cidade”), cantemos jardineiras, auroras, pastorinhas, colombinas, cantemos até à beira do balcão, prá comprar fiado, se preciso for. Cantemos as mulheres, no geral e no particular, pois só elas têm o dom de devolver a este mundo a graça perdida. “Benditas sejam as moças”, disse um poeta chamado Antônio Maria (foto), antes de nos fazer cantar os versos de Manhã de carnaval, sobre melodia de Luiz Bonfá. É um casamento de música e texto do tipo “feitos um para o outro”. Mas se você pensa que cachaça é água, cachaça não é água, não. E se a lei não quer que você dirija quando bebe, é só deixar de dirigir… Evoé, Momo!

Clique no play e confira Manhã de Carnaval, na interpretação de Emílio Santiago.

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RACHEL, A CONSPIRADORA

A escritora Rachel de Queiroz (1910-2003), que nasceu junto com Itabuna, se identificava pela simpatia (marcada pelo sorriso de avó) e o sofrimento de  jovem militante do Partido Comunista. Na ditadura de Getúlio Vargas (1937-1945), foi presa e teve seus livros queimados em praça pública (a exemplo do também comunista Jorge Amado). Caminho de pedras foi feito na prisão, no Rio de Janeiro, em 1937. Tudo isso é verdadeiro, mas há um lado que a mídia mal informada ou a crítica conivente não tem mostrado ao público: Rachel, aos 54 anos, já deixara o PCB, virara trotskista e saíra pelo outro lado. Adquirira o perfeito e completo perfil da intelectual reacionária: quando os anjos vestidos de verde-oliva derrubaram um presidente, para “salvar” o Brasil da “ameaça vermelha”, a velha Remington da escritora cearense estava a serviço deles.

ADONIAS, O “GENERAL CIVIL”

A autora de O quinze, com aquele ar bondoso, jamais superou o ódio que devotara a Getúlio – chegando ao absurdo de transferir tal ódio para Jango e Brizola. Para o grupo dela, dito de liberais, Getúlio simbolizava “a reação, o fascismo, a aliança com o Eixo” – é o que está em Tantos anos, seu livro de memórias, já mencionado aqui. Convenhamos que classificar Jango como fascista é algo excessivamente criativo, mesmo para uma ficcionista (na verdade, Jango estava mais para alienado). O fato é que ela começa a conspirar com um grupo de generais (Golbery – “O satânico Dr. Gô”, Andrade Muricy, Sizeno Sarmento e outros, com a presença silenciosa do general Castelo Branco, seu parente pelo lado Alencar), em companhia do nosso Adonias Filho (foto), que Rachel descreve como “uma espécie de general civil”. As reuniões, às vezes “vigílias cívicas”, eram na casa da escritora, transformada em quartel-general do golpe. “O que nós fazíamos era conspiração mesmo: saber onde estava a tropa, o que tinha havido, se o coronel fulano tinha se manifestado, se o coronel beltrano era de confiança”, confessa.

DEPOIS VEIO O TEMPO NEGRO

Como jornalistas influentes, Adonias e Rachel procuravam manipular a opinião pública, em favor dos fardados. Ele era ex-presidente da ABI (Associação Brasileira de Imprensa) e editorialista do Diário de Notícias; ela assinava uma coluna com muitos leitores (eu, inclusive), a “Última página”, na revista O Cruzeiro. Na voz da dona: “Eles me usavam como jornalista, eu opinava muito e era muito lida”. O baiano e a cearense se deixavam claramente usar pelos arcanjos que iriam mergulhar o País nas trevas, por duas décadas: “o lado político, de pregação, de jornalismo de combate, de artigos de encomenda, de nos trazerem assuntos para a gente falar, isso era o nosso trabalho”. Depois veio o tempo negro (1964-1985). Rachel de Queiroz estava no sertão do Ceará, quando soube do golpe – que ela, como todo simpatizante, chama “Revolução de 1964” – não pelo rádio ou pelo seu precário televisor movido a bateria de carro: o aviso a alcançou num telegrama assinado pelo “Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, presidente da República”. Castelo mostrou-se grato à romancista: ofereceu-lhe vaga no diretório da Arena, para “intelectualizar” o partido do governo (a entrada não se concretizou), e delegada do Brasil na Assembleia Geral da ONU, que ela aceitou.

RACHEL DE CORAGEM

Tempos depois, Costa e Silva (foto), que Rachel definia como “um sargento de poucas letras”, assumiu o governo e ganhou da escritora uma louvação, solicitada pelo amigo e parente Castelo Branco. “O presidente me obrigou a fazer um artigo sobre o primeiro mês do governo, artigo imparcial e até elogioso”, explica. Mais tarde, ela seria uma espécie de conselheira dos generais da ditadura. Médici a convidou para discutir o Funrural e Geisel fez a ela um convite para ser ministra – mimo que se repetiria com João Figueiredo e José Sarney (presidente civil, mas oriundo da Arena, o ninho dos generais). Mesmo os que reprovam em Rachel de Queiroz a colaboração com o golpe de 1964 e, posteriormente, com a ditadura que se instalou, hão de louvar a coragem com que a escritora, na obra citada, esclarece, mais de três décadas depois (e cinco anos antes de morrer), essa fase moralmente discutível de sua vida. Poucos envolvidos, até hoje, tiveram coragem de confessá-lo.

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A PRESIDENTE OU A PRESIDENTA?

O correto jornalista Levi Vasconcelos (foto), d´A Tarde, comentando as eleições no progressista município baiano de Lajedo do Tabocal, assim se pronunciou: “… mas quem assumiu foi Lilian Nascimento (PDT), presidenta da Câmara (nosso, o grifo). E agora, minha gente, como ficamos: dona Lilian é presidenta mesmo ou é, conforme se lê por aí, presidente da Câmara? Para mim, nenhuma dúvida resta de que o velho Levi sabe do que escreve. Quando se fala de mulher é lógico que se empregue a forma feminina. Assim, presidenta é a melhor escolha. A Tarde, jornal a que o citado profissional presta serviços, vive uma crise de identidade quanto a este termo. Às vezes grafa a presidenta, noutras tasca a presidente. Os veículos de Itabuna e Ilhéus repetem a presidente, com uma só exceção: o Agora (herança de quando era editado por Walmir Rosário) escreve (e bem) a presidenta.

“A MINISTRO DILMA ROUSSEF”

Sem intenção de firmar jurisprudência (que sei eu?), imagino que a presidente nasceu por “contaminação” (os gramáticos chamam analogia) com palavras do tipo gerente, cliente, nubente, consulente – que têm os dois gêneros, quer dizer, não variam. Nesse grupo estão também docente, aderente, paciente, suplente, coerente, consciente, complacente, congruente, demente e muitas outras. Presidente é do grupo de parente, palavra masculina, tendo, portanto, uma forma feminina: o presidente, a presidenta; o parente, a parenta. Deve ser isso. Ou desconhecimento elementar da língua portuguesa. Basta olhar o dicionário e ver que presidenta é feminino de presidente. É curioso que a imprensa chama “a ministra Dilma Rousseff”, não “a ministro…”, e coisas parecidas: reitora, vereadora, prefeita, secretária, escritora… por que não presidenta – palavra que aparece como verbete independente no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa e também no Houaiss e no Aurélio? O Houaiss, neste caso, até oferece um exemplo: “a presidenta da Nicarágua”.

RESPEITO AO GÊNERO FEMININO

Jornalista e filólogo, Marcos de Castro (ex-Rede Globo) nos dá uma explicação de ordem, digamos, ideológica. Para ele, essa construção esdrúxula (a presidente, que lembra o salsicha, quase nos força a um nó na língua) é fruto do machismo gramatical: a presidente lembra que o cargo é masculino e que estaria, ocasionalmente, ocupado por mulher. Diz lá o autor de A imprensa e o caos na ortografia (foto): “As mulheres vêm sofrendo, através da história, com a permanente situação de inferioridade para a qual são calcadas pelos homens. Mas é tempo de reagir com grandeza, não como fez há tempos uma bobalhona nos Estados Unidos comandando uma grotesca queima de sutiãs. É tempo de reagir de maneira séria, exigindo, por exemplo, que os cargos importantes, os cargos cuja ocupação exige um comportamento digno (que o Governo do Distrito Federal não seja luz a iluminar esse caminho) tenham tratamento através do bom e velho gênero feminino”.

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SEM CAMISA, NÃO DÁ!

Num simpático restaurante ilheense, em companhia de gentil senhora mineira (turista a quem eu mostrava a cidade), discutíamos o cardápio, na busca da melhor opção. Eis senão quando adentraram o recinto dois caras de torso nu, como se estivessem na casa da Mãe Joana. Tão logo me recuperei da surpresa (e da vergonha pela senhora que me acompanhava), pedi ao gerente explicações sobre tão inusitado proceder. E dele ouvi, que esse costume de botocudo que era permitido, “por se tratar de uma cidade praiana”. Retruquei-lhe, de pronto, que não se tratava de praia, mas de bons modos, pois gente civilizada não frequenta local público sem estar adequadamente vestida. Ilhéus oferece, em ônibus, supermercados, bares e restaurantes, um espetáculo constrangedor: indivíduos exibem suas panças e, algumas vezes, chegam a mostrar partes íntimas do corpo, à frente e atrás.  Os que fazem isso, tanto quanto quem os aceita e justifica, são carentes de educação fundamental. Mas, pelo visto, não adianta reclamar. Em nome da cidade, pedi desculpas à senhora mineira e fomos almoçar, por sugestão dela, no seu hotel, a portas trancadas, para evitar visitas inoportunas. Como se diz nas gerais (as do futebol): valeu!

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(O.C.)
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<h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3>
<div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

UNIVERSO PARALELO

O CHAMADO IRRESISTÍVEL DA SANFONA

Ousarme Citoaian

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O Milagre de Santa Luzia (foto), filme que estreou no fim do ano em várias capitais (Salvador inclusa), é uma celebração da sanfona. Trata-se de uma “visita” do músico Dominguinhos aos mais diversos pontos do vasto Brasil que puxa o fole consagrado por Luiz Gonzaga. Foi o velho Lua quem abriu as portas para os sanfoneiros e criou no panorama cultural do País uma cadeira cativa para esse instrumento (antes disso, algo a ser confinado aos grotões). O longa-metragem de 104 minutos (com direção de Sérgio Roizenblit) segue Dominguinhos por vários pontos do Brasil, encontrando os melhores sanfoneiros disponíveis. Com depoimentos de Sivuca, Patativa do Assaré e outros, o filme faz um mapeamento das regiões brasileiras onde a sanfona se estabeleceu.

LUIZ GONZAGA, SANFONA E SIMPATIA

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Dominguinhos, que não entra em avião nem amarrado, conduziu o trabalho a bordo de sua caminhonete, por mais de 30 mil quilômetros. Além dele, filho espiritual de Luiz Gonzaga (foto), lá estão Renato Borghetti, Mário Zan, Osvaldinho do Acordeom, Sivuca e Pinto do Acordeom (paraibano de Conceição do Piancó). Mas, além de Dominguinhos, paira a figura magistral do filho de Januário. O sanfoneiro de Exu nasceu no dia de Santa Luzia, por isso o título do filme. Foi Gonzaga, com sua sanfona e sua simpatia, quem deu amplitude nacional à música dos grotões nordestinos. Organizou-a num sistema musical, renovou-lhe a poética (para tanto convocou Zé Dantas e Humberto Teixeira) e deu-lhe a expressão sonora que hoje ecoa por todo o Brasil. Como extraordinário artista pop que era, universalizou o forró (transformado em “dança da moda”) e atraiu para o gênero músicos consagrados. Cai-lhe muito bem o título de Rei do Baião.

FRANK SINATRA DO FORRÓ

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Dominguinhos (na foto, com Sivuca) à frente, O milagre mostra os mais diversos locais onde a sanfona ganhou destaque e de onde surgiram os maiores intérpretes desse instrumento. Sanfona, gaita, acordeom, gaita-ponto ou oito baixos (a pé-de-bode com que Gonzaga fez os primeiros acordes), todo o campo do instrumento está representado. O filme deixa às claras que, apesar dessa universalização (é ouvido em todo o  Brasil), o som da sanfona tem uma marca indelevelmente nordestina – imposta pelo carisma de Luiz Gonzaga, seu maior tocador. Um momento engraçadíssimo de O milagre de Santa Luzia: num arrasta-pé, um sujeito de maus bofes, portando uma peixeira de avantajado tamanho, “convida” Pinto do Acordeom a mudar de repertório (a cena tem Dominguinhos, a morrer de rir, com o relato do sanfoneiro).

Clique e veja.

ITABUNA NÃO ESTÁ SÓ

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No mesmo ano em que Itabuna foi fundada, 1910, nasceram: Django Reinhardt, guitarrista de jazz (23 de janeiro); David Niven, ator (1º de março); Aroldo de Azevedo, geógrafo (3 de março), Tancredo Neves, político (4 de março); Akira Kurosawa, cineasta (23 de março); Nelson Carneiro, político (8 de abril), Paul Sweezy, economista (10 de abril); Chico Xavier, líder religioso (2 de abril), Custódio Mesquita, compositor de MPB (25 de abril); Ranieri Mazzilli, político (27 de abril); Aurélio Buarque de Holanda, dicionarista (2 de maio); Artie Shaw, clarinetista de jazz  (23 de maio), Paullete Goddard (foto), atriz “chapliniana” (3 de junho); Jacques Cousteau, oceanógrafo (11 de junho); Haroldo Lobo, compositor de MPB (22 de julho); Adoniran Barbosa, compositor de MPB (6 de agosto), Madre Teresa de Calcutá, missionária (26 de agosto); Miguel Reale, jurista (6  de novembro); Rachel de Queiroz, escritora (17 de novembro); Noel Rosa, compositor de MPB (11 de dezembro) e Jean Genet, teatrólogo (19 de dezembro).

ILHA DOS TRÓPICOS FAZ 20 ANOS

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Na literatura regional, 2010 marca os 20 anos do lançamento de A ilha dos trópicos/1990, de Marcos Santarrita (foto), 40 de Antologia dos contos brasileiros de bichos/1970, de Cyro de Mattos e Hélio Pólvora, 90 anos do nascimento de Emmo Duarte (1920, em dia e mês não sabidos); 80 de Telmo Padilha (5 de maio de 1930); 20 anos da morte de Adonias Filho (2 de agosto de 1990) e 10 da de Euclides Neto (5 de abril de 2000). Alguns desses nomes e eventos serão abordados aqui no Universo Paralelo. Hoje, Rachel de Queiroz.

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À BEIRA DO RIO CACHOEIRA

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Rachel de Queiroz nasceu com Itabuna. E viveu na cidade emergente (“num sobradinho que ficava perto do rio”), tudo indica que por menos de um ano, entre 1932 e 1933. Eu me pergunto se ela sabia que tinha a mesma idade da terra que a acolhera. Evidentemente que não sabia, mas me divirto ao pensar nisso. Rachel chega a Ilhéus em 1932, num navio da Baiana, é recebida por Jorge Amado, permanece alguns dias no palacete de João Amado (foto acima), pai de Jorge, para só depois transferir-se, de trem, para Itabuna. Ela vinha de Fortaleza, por Salvador, recém-casada com um funcionário do Banco do Brasil, José Auto da Cruz Oliveira, o Zé Auto, que para Itabuna fora transferido. Os dois eram militantes do Partido Comunista Brasileiro. Ela “perigosa agitadora”; ele, nem tanto.

IMPALUDISMO, “MISTÉRIO” E GRAVIDEZ

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A escritora sofre o diabo com o impaludismo, quase morre, pois se recusou a tomar quinino (então, o medicamento de escolha), que era abortivo, e ela estava grávida. Rachel (foto) sentiu-se grávida muito rapidamente (só tinha dois meses de casada), circunstância que ela mesma tinha dificuldade de entender. “Não se podia pensar em antecipações, porque Zé Auto, até o casamento, nunca tinha chegado perto de mim, senão com um simples abraço para dar adeus, e chegou ao Ceará três dias antes de nos casarmos”, depõe a escritora. Mistério!… Zé Auto, nas horas vagas de uma atividade  no Banco do Brasil descrito pela mulher como “verdadeira tirania” (ainda não havia leis trabalhistas), atendia ao chamamento do estro. Inspirado no frio incontrolável que o impaludismo causava a Rachel, dedicou-lhe uma versalhada, da qual a história registrou esta passagem: “Me dá lã pra comer,/que o meu frio é por dentro”. Por certo, insuficiente para ganhar o Nobel de Literatura.

LENA WEBER, A MOÇA LIBERADA

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Nesse tempo de doença e gravidez ela foi assistida por “uma pessoa extraordinariamente boa, generosa e maternal, uma negra alta, forte, talvez sexagenária: Carmelita”. Essa Carmelita, ainda segundo Rachel, “fora dona de uma pensão de mulheres e, parece, também ela própria fora rapariga, como diziam por lá, e tinha haveres”. Rachel de Queiroz lembra, do tempo em Itabuna, também de Lena Weber, “uma moça judia suíça (uns irmãos seus tinham loja na cidade)”, que ficou sua amiga e a ajudou naquela quadra de dificuldades e solidão à beira do Cachoeira.  A escritora diz que “Lena lia muito, era liberada sexualmente, tivera seus amores com vários rapazes”. Rachel ficou abismada com tamanha liberdade, pois tanto na casa dela, uma tradicional família cearense, quanto nas hostes do Partido Comunista, o moralismo era muito severo.As raposas do PC tinham uma regra inflexível: “Não confundir questão social com questão sexual”. O quarteto feminino (uma recém-casada de apenas 22 anos, uma “dona de pensão de mulheres”, uma moça “avançada” e a pequena Clotilde no ventre de Rachel) tinha tudo para dar errado, mas não deu. Já tendo publicado O quinze (e com João Miguel no prelo), quando aqui esteve, ela lançou em seguida Caminhos de Pedras, As três Marias, O Galo de Ouro e vários outros títulos, consolidando-se como uma das maiores escritoras do Brasil, rumo à Academia Brasileira de Letras (primeira mulher ali admitida). Clotildinha nasceu em Fortaleza, de parto prematuro, e morreu aos 18 meses. Rachel de Queiroz e Zé Auto se desquitaram em 1939. Estas informações estão no livro Tantos anos (foto), depoimento de Rachel à irmã Maria Luíza de Queiroz (Editora Siciliano/1998).

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NÃO É PORTUGUESA, COM CERTEZA

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O ministro Geddel Vieira Lima (foto), de quem vocês, certamente, já ouviram falar, gravado à socapa em conversa telefônica, saiu-se com esta pérola, sobre o prefeito João Henrique: “não é uma figura que a gente pode estar confiando no que ele coloca”. Valha-me Deus! Que dialeto será esse, pois português não é? Uma língua, qualquer que seja, tem um padrão, um conjunto de regras a obedecer. O texto que as transgride não leva ninguém à cadeia (igualzinho ao dia a dia da política brasileira), mas recebe uma punição, digamos assim, subjetiva: o texto é “excomungado”, não é reconhecido como integrante daquela língua, mas de outra, sabe-se lá qual. A fala gedelliana, portanto, já nasceu expulsa do mundo lusófono, pois feriu-lhe de morte alguns princípios. O ministro, fiel a seu estilo, deu um pontapé em áreas íntimas e sensíveis da gramática. Na tumba, Camões e Machado de Assis espumam e rangem os dentes. Eu também. Só que ao vivo, se me permitem o trocadilho.

LULA, REI DOS GRAMÁTICOS

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O texto é um prodígio. Grosso e curto, concentra surpreendente quantidade de asneiras: regência verbal equivocada, emprego abusivo do gerúndio e o verbo “colocar” com sentido pífio. É erro em excesso para uma construção tão pequena. Se os professores de língua portuguesa perdessem tempo a ler fofocas de políticos – em infindável processo de conspiração para chegar ao poder – teriam na frase referida interessante material para usar em sala de aula (foto): um exemplo vivo e rasteiro da comunicação vazada em dialeto que se pensa língua portuguesa, mas não é. A canelada que o operoso ministro (com formação universitária) deu na gramática faz do seu chefe, o presidente Lula (sem maior formação escolar), Rei dos Gramáticos. Melhor: Príncipe dos Filólogos.

DOIS RIOS DE LÁGRIMAS

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Atrás da porta, de Chico Buarque e Francis Hime, foi feita em 1972, para Elis Regina, marcando o fim do casamento da cantora com Ronald Bôscoli. Este vídeo (de um especial da Rede Globo/1980) atinge outro casamento, o segundo, com César Camargo Mariano (na foto, com a cantora). Elis está abatida ao começar a canção e vai-se desmoronando à medida em que “sente”  os versos, como se descrevessem sua tragédia pessoal  É uma mulher desesperada, devastada pelo sentimento, pois sua união – e disso a platéia não sabe – chegara ao fim na noite anterior, é o que diz a lenda (César, a outra face da tragédia, acompanha Elis, ao piano). Ela tenta cobrir o rosto com os cabelos, a mão em concha, procura controlar-se, talvez fugir e se esconder de si mesma. Entregue aos leões, sabe que o show do circo tem de continuar. E canta, canta, canta, como se cantasse para morrer. Ao levantar a cabeça, está banhada em lágrimas (eu, em soluços!). Sob tensão irresistível, a artista perde o controle de sua celebrada técnica: a alma dilacerada, já a voz falhando, minha cantora preferida sussurra que, se preciso for, rastejará do palco ao infinito “até provar que ainda sou tua”. Um momento único da canção brasileira.

Se seu coração não tem feridas sentimentais mal cicatrizadas, clique aqui.

(O.C.)
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<h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3>
<div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

UNIVERSO PARALELO

“QUERO ASSISTIR AO SOL NASCER”

Ousarme Citoaian

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A meu entender de ouvinte, nenhuma lista de melhores da MPB poderia excluir Antônio Carlos Candeia Filho, o Candeia (foto). Nascido em casa de bamba, criado a feijoada, caipirinha e partido alto, Candeia era autêntica liderança do samba, empenhado em manter a tradição. Reuniu pessoas, criou a Escola de Samba Quilombo e, publicou, em parceria, o livro Escola de samba, árvore que esqueceu a raiz. Policial com fama de truculento, recebeu um tiro na coluna e perdeu o movimento das pernas. A partir daí, sua produção passa a refletir um pungente diálogo com a fatalidade, sabendo ter a morte nas imediações. Em cadeira de rodas, amargurado, não saía de casa, não recebia ninguém, mas prosseguia na resistência: um verso seu diz “de qualquer maneira, meu amor, eu canto”. Pintura sem arte, Peso dos anos, Anjo moreno, Preciso me encontrar e Eterna paz são seus sambas mais notáveis. Morreu em1978, aos 43 anos.

GRITO QUE VEM DA ALMA

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Pintura sem arte, que teve uma ótima gravação de Alcione (foto), a cantora que mais gravou Candeia. Nesse samba está escancarado o sofrimento do poeta, e seu orgulho, também ferido de morte: “Mas se é pra chorar/ Choro cantando/ Pra ninguém me ver sofrendo/ E dizer que estou pagando”. A cantora maranhense gravou também O mar serenou (que se tornara famosa na interpretação de Clara Nunes) e outras seis composições do sambista carioca. A obra-prima de Candeia, entretanto, é Preciso me encontrar – um lamento arrancado das entranhas do homem preso à tragédia irremediável: “Deixe-me ir/ Preciso andar/ Vou por aí a procurar/Rir pra não chorar”. O texto, muito bem escrito, é exemplo da boa regência do verbo “assistir” e correto emprego do infinitivo, onde tantos tropeçam: “Quero assistir ao sol nascer/ Ver as águas dos rios correr/Ouvir os pássaros cantar”. Mestre em MPB, sem dúvida.

Clique e saiba por que famosa estrela de música baiana tanto tentou ser Marisa Monte, sem êxito.

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AOS MESTRES, COM (MUITO) CARINHO

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Adoro listas (de músicas, filmes, livros, mulheres bonitas, políticos corruptos etc.), pela polêmica que tendem a provocar. Elas são, em geral, imperfeitas, na medida em que refletem o gosto pessoal de quem as fez, nem sempre alcançável pelo público a que se destina. Tenho em mãos a relação das Cem canções essenciais da MPB, que a revista Bravo! (foto) publicou há algum tempo. “Uma gracinha”, como diria aquela simpática loura do sofá (com todo respeito), que em outros tempos também solfejou umas canções, embora um tantinho desafinada. No topo (as dez mais votadas), ficaram: 1) Carinhoso (Pixinguinha/Braguinha), 2) Águas de Março (Tom Jobim), 3) João Valentão (Dorival Caymmi), 4) Chega de Saudade (Tom Jobim/Vinicius de Moraes), 5) Aquarela do Brasil (Ary Barroso), 6) Tropicália (Caetano Veloso), 7) Último Desejo (Noel Rosa), 8) Asa Branca (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira), 9) Construção (Chico Buarque) e 10) Detalhes (Roberto Carlos/Erasmo Carlos). Um trecho defensável da relação geral, embora pareça tentar agradar a variadas preferências.

Mas listas são listas, sempre sujeitas a aplausos e apupos.

O MAIOR NOME DA MODERNA MPB

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Em certo sentido, a relação me satisfaz: cinco canções de Noel Rosa (foto), mesmo para fãs como eu, está além da expectativa. Tom Jobim, o maior nome da moderna MPB, comparece com dez composições e ainda teria direito a várias outras. Os demais escolhidos: Chico Buarque (10 músicas), Caetano Veloso (5), Caymmi (4), Ari Barroso (3), Gilberto Gil (3), Lupicínio Rodrigues (3), Cartola (2), Luiz Gonzaga (2), Nelson Cavaquinho (2), Pixinguinha (2), Paulo Vanzolini (2), João Bosco-Aldir Blanc (2), Paulinho da Viola (2), Milton Nascimento (apenas 1), Antônio Maria (só 1), Geraldo Vandré (1), enfim, a presença dos mestres indefectíveis. Mas os furos são enormes, com alguns tangenciando o crime contra a canção popular brasileira.

MENESTREL DO SERTÃO PROFUNDO

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Além da já vista Preciso me encontrar (Candeia), a lista “grita” a ausência de Inútil paisagem, Vozes da seca, Viagem, Apelo, Andança, Atrás da porta, Até quem sabe, Modinha, Coração de estudante e Ilusão à toa, para não nos alongarmos. Quanto aos autores, não se explica o silêncio a respeito de Edu Lobo e Baden Powell, por exemplo. Mas lá estão coisas como As curvas da estrada de Santos, Você não soube me amar, Óculos e Exagerado (de Cazuza, seriam adequados  Blues da piedade e Codinome beija-flor). Em todo caso, a lista nos surpreende (em centésimo lugar!) com Cantiga de amigo, de Elomar Figueira de Melo (foto), menestrel do sertão profundo. Deve ser o cumprimento de penas alternativas pelos crimes.

JORNAIS, BLOGS E VÍTIMAS FATAIS

No fim do ano e começo de 2010 registraram-se muitas vítimas fatais no trânsito da região. Um dos principais jornais diários de Itabuna estampou: “Grave acidente deixa três vítimas fatais na BR-101”; um importante blog anotou: “Acidente em Ibicaraí deixa três vítimas fatais”; outro: “Três vítimas fatais em violento acidente”; o mais importante semanário da região foi na mesma linha: “Operação Fim de Ano registrou duas vítimas fatais”; outro dos principais jornais diários de Itabuna saiu-se com esta: “Pároco de Buerarema é vítima fatal em acidente na BR-101”; por fim, o melhor dos blogs (cujo nome não digo porque o pessoal do Pimenta sofre de modéstia incurável) também se mostrou contaminado e disse, a propósito de um acidente, que “profissionais de saúde não confirmam a existência de vítimas fatais”.

COM UM PÉ NA TRAGÉDIA GREGA

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A vítima fatal é como a girafa do zoológico, que nunca penetrou a compreensão do português, mesmo que lhe tenha, em absoluto desrespeito, lambido a careca. O gajo estava certo: um animal daquela altura, com um pescoço descomunal terminado numa ridícula cara de gafanhoto, do qual emergem dois surpreendentes chifres parecidos com antenas, não existe. A vítima fatal é assim: campeã de popularidade nas redações, dela não se tem notícia na língua culta. Fatal significa, de acordo com vários dicionários, o que há-de acontecer, inevitável, funesto, seguido de morte, prescrito pelo fado ou destino. É algo com um pé na tragédia grega. Todos se lembram de Édipo Rei (foto), que nasceu fadado a matar o pai e casar-se com a própria mãe, por determinação inapelável dos deuses. Pois é. Fatal é o que mata. A dengue é fatal, mata as pessoas. O acidente foi fatal, porque matou o motorista. Alhures, escrevi, com pesar, sobre a grande Elis Regina: “Uma mistura de tranqüilizantes, cocaína e álcool lhe foi fatal”. A mistura matou a artista, para meu desespero.

UMA VÍTIMA BEM TRAPALHONA

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A vítima fatal teria, para fazer jus ao adjetivo que carrega pregado ao nome, que matar alguém. Como a vítima, por definição, está morta, teria que se valer de forças imponderáveis, para provocar algum acidente, cair por cima de alguém, estrangular um desafeto, essas coisas só possíveis em filme de terror, Ou no fantástico (não o da Globo, mas o da ficção). A vítima fatal (a vítima que mata) teria de ser muito… desastrada, bem trapalhona. Já se vê que é impossível a alguém estar morto e, ainda assim, ser fatal. Morto, até que me provem o contrário, não mata. Mas existe gente fatal, funesta, como Jararaca Ensaboada, que onde pisa mata a grama. A PM Anamara Barreiros de Brito (foto), de acordo com a abalizada e insuspeita opinião do ex-governador Paulo Souto, é fatal: deixa o bandido paralisado, pensando besteira e até com vontade de ser honesto. Certo prefeito foi fatal para Itabuna; outro foi fatal para Ilhéus. O governo tem prazo fatal para receber os impostos escorchantes que nos cobra… Dirão que vítima fatal já está (quase) consagrada pelo uso. Creio que seria a lamentável consagração do erro.

MAÇÃ MADURA E DESAMPARO

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Mas Anamara, por quem o trovador Agulhão Filho se derrete feito manteiga no calor de janeiro, tem, se não na PM, antecedentes no cinema: Rita Hayworth (foto) foi a mais famosa mulher fatal de todos os tempos. A cena do strip-tease que ela faz em Gilda (Charles Vidor/1946) tornou-se histórica. E ela nem faz, é só uma sugestão: La Hayworth tira apenas a comprida luva de um dos braços. Foi bastante. Nunca houve mulher como Gilda. Igual à minha vizinha do 6º andar: quando a vejo, sinto (além do assalto de ideias impublicáveis) um friozinho na barriga, a respiração apressada, um pouco de taquicardia e suor nas mãos. Impávido colosso, ela passa por mim e não olha. Deixa no ar uma fragrância de rosas amassadas em tarde de primavera, o que me lança numa espiral de absoluto desamparo. Eu, vítima; ela, fatal.

COMO UM LUAR DESESPERADO

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Modinha foi gravada pela primeira por Elizeth Cardoso, no lendário LP Canção do amor demais, de 1958. Vocês lembram: é aquele disco que tem Chega de saudade, com João Gilberto ao violão, e que marcou o nascimento da Bossa-Nova. O pequeno grande poema de Vinícius (musicado pelo maestro soberano) ganhou, ao longo de mais de meio século, muitas gravações. Eu tenho as de Elizeth Cardoso, Alaíde Costa, Elis Regina e Teresa Salgueiro (foto), uma portuguesa incrível, que canta sem nenhum sotaque. Além da de Elis Regina, é óbvio. Há notícia de registros da sempre correta e esquecida Jane Duboc e de Olívia Byinton, que não acrescenta muito. Betânia também gravou, mas eu não ouvi e não gostei.

Aqui, nossa homenagem a Elis Regina, que morreu a 19 de janeiro de 1982.

JOTAÉ LEVA AFLIÇÃO AO COMÉRCIO

Vi Jararaca Ensaboada em loja chiquíssima do Shopping Jequitibá, provavelmente em manobras para povoar seu guarda-roupa de verão. Não me apraz saber o que a nefasta criatura comprou, nem o tamanho da despesa contraída. Mas aposto dois contra um como a conta foi “pendurada” e que as ações para “despendurá-la” vão provocar choro e ranger de dentes. Daqui a uns trinta dias, quando vencer o primeiro papagaio, haverá lojista em aflição, incerteza e desesperança, propondo ao travesseiro, em longa jornada noite adentro, esta profunda indagação filosófico-existencial: “Por que não fui ser bancário, em vez de comerciante”?
(O.C.)
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<h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3>
<div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as







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