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:: ‘Universo Paralelo’

UNIVERSO PARALELO

RICARDINO, O QUE SE RECUSOU A MORRER

Ousarme Citoaian
Ricardino Batista dos Anjos, justamente homenageado com seu nome no Prêmio de Imprensa da Prefeitura de Itabuna, contava uma história de grande interesse humano. Menino ainda, cavando a vida em Itabuna, foi acometido de doença grave, que o fez submeter-se a tratamento especializado. Depois de algumas tentativas, o médico (dos quadros do INPS, uma espécie de SUS daquela época) chegou à conclusão de que a moléstia era incurável. Recomendou ao doente que fosse “morrer em casa”, numa prova de que não devotava maior apreço à vida dos pacientes.

ALBERTO SEIXAS MUDA O RUMO DA HISTÓRIA

Negro, pobre, só e abalado pela doença, estava prestes a aceitar esse diagnóstico cruel, quando o instinto de sobrevivência falou mais alto (aliás, gritou): a caminho da pensão onde morava, Ricardino (foto) mudou de rota e procurou outro médico. Este o atendeu “por caridade”, jogou fora os remédios até então utilizados e impôs novo esquema de tratamento. “Riscadinho” (como o chamava Jorge Araujo) sobreviveu, fortificou-se e decidiu que só morreria dali a muitos anos, no longínquo 2005. No intervalo, casou-se, teve dois filhos e se fez radialista, jornalista, advogado e pedagogo.

CLARK GABLE “DE PAPO” NA CINQUENTENÁRIO

O nome do médico que o desenganou, não sei; o que o salvou chamava-se Alberto Seixas. Bom de clínica e de conversa, esse Seixas era um homem alto, forte, risonho e bonitão, aproximado ao melhor Clark Gable (… E o vento levou). Mais do que isso, era humano (este caso parece exemplar), fino, cortês, fidalgo, um gentilhomme raro entre médicos ou qualquer categoria, não importa o tempo ou lugar. Seu modelo sobrevive no oftalmologista Carlos Ernane Andrade (foto), que tem mestrado em civilização e gentileza. Quanto a Ricardino Batista, hoje é, mais que foi em vida, dos Anjos.

MATEMÁTICA E COMUNICAÇÃO

Dia desses, opinamos sobre a influência que a matemática exerce na minha forma de expressão, e causei surpresa. Recorramos aos exemplos: “Havia na praia gente de todas as idades”, diz a repórter da tevê, numa matéria de domingo. Essa linguagem é condenável, por imprecisa (é impossível que pessoas de todas as idades estejam na praia). É preferível “de idades variadas” ou coisa parecida. Também comum é a fórmula “toda a diretoria compareceu”. Cuidado para ver se não faltou alguém, o que poria a perder a precisão do relato. Outro: “O investimento do Estado será de R$ 42 milhões” – atenção, que talvez não seja exatamente isto. Melhor é “cerca de R$ 42 milhões”.

RIGOR QUE MELHORA O ESTILO

Devido a seu rigor típico, a matemática auxilia na precisão da linguagem. Voltada para a exatidão e a lógica, quando ela diz “todas as idades” está dizendo “todas as idades”, do recém-nascido ao ancião, com intervalos pequeníssimos. Já se vê que é impossível reunir um grupo de pessoas nesta condição. Talvez seja um conjunto infinito, conforme Cantor (matemático russo) e sua teoria. Da mesma forma, estaria “errada” a informação de R$ 42 milhões, se acaso, na prática, a despesa for ultrapassada (ou reduzida) em qualquer valor, R$ 0,01 (um centavo) que seja. Que importância tem isso para a comunicação? Talvez nenhuma.

A CURVA QUE ALONGA O CAMINHO

“Itabuna perde o título de campeão baiano de Juniores”, diz o jornal, na primeira página (parêntesis para lembrar que a primeira página tem sido chamada, inapropriadamente, de capa). Procuro o fundo do mistério e descubro que o Itabuna Juniores enfrentou o Bahia Idem e perdeu o jogo. Ora, por que cargas d´água o redator não disse logo isso?  O Itabuna perdeu o jogo, não o título, pois não se perde o que não se tem. Deixar de ganhar não é perder. Ainda me surpreendo com esse festival de formas “elípticas” de escrita, quando a reta é a menor distância entre dois pontos.

CAPA É CAPA, NÃO É PRIMEIRA PÁGINA

Falemos em capa, espero que sem levar pedradas dos coleguinhas mais novos. As trocas são naturais numa redação (por exemplo, a máquina de escrever pelo computador), como de resto, em todos os setores da vida: o velho, queira ou não, dará lugar ao novo. Mas capa é capa e primeira página é primeira página (ou, para ficar no modismo partidário, água e óleo que não se misturam). Revistas e livros têm capa – uma proteção com material de maior resistência, diferente das páginas, o miolo do livro ou revista. E o método de trabalho de quem faz capa de revista ou livro é diverso do método de quem “fecha” uma primeira página de jornal.

DA ARTE DE ESCREVER BEM

É provável que Canto de amor e ódio a Itabuna não seja a coletânea ideal do poeta Telmo Padilha. Talvez seja a coletânea possível, neste momento. Vale pela iniciativa da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania (FICC) que resolveu fazer uma coisa quase inédita por estas bandas: prestar homenagem a um autor regional. Na verdade, as boas intenções já começam na gênese do livro, com os textos selecionados por José Haroldo Castro Vieira, amigo de Telmo, mas não crítico literário. A Editus/Uesc, que encampou o projeto de edição, tem também grande mérito na homenagem.

O DÉBITO COM TELMO CONTINUA

Adiante-se que tudo isso valeu a pena, pois se não fosse esse livro não seria nenhum outro – e o aniversário do poeta passaria em branco. Mas a cidade continua em débito com Telmo (foto). Sua produção, sobretudo a poesia, ainda tem muita coisa à deriva, anotada às pressas, em papéis inadequados (até canhotos de talões de cheques), já maduras para servir de alimento às traças. Se a FICC, com mais tempo e recursos, tiver condições de sonhar sonho maior, poderia contratar Jorge de Souza Araujo, este, sim, crítico e pesquisador, para a seleção e notas dos inéditos de Telmo Padilha.

FALTA DINHEIRO, SOBRAM PROBLEMAS

O presidente da FICC, escritor Cyro de Mattos (foto), também faria eficientemente esse trabalho, pois tem longa experiência em selecionar textos, tendo coordenado antologias várias, incluindo duas de autores regionais (Ilhéus de poetas e prosadores e Itabuna, chão de minhas raízes). Conhece muito bem as literaturas daqui e de alhures, em prosa e poesia, e por várias vezes antologiou Telmo Padilha. Mas não tem tempo, e a FICC, sem dinheiro e eivada de problemas, já o molesta suficientemente. Jorge Araujo, portanto, é a melhor escolha.

CRÉDITO DE “PROFESSOR” DA UESC

Louvada a iniciativa do presidente da FICC, vamos lembrar que a Editus/Uesc já deu contribuição fundamental às letras regionais, ao editar dois volumes de alta qualidade, com capa dura e papel especial: Expressão poética de Valdelice Soares Pinheiro/2002 e (melhor ainda) Jorge Medauar em prosa e verso/2006. Seria o caso de a FICC chamar aquela editora para o resgate de um dos grandes poetas brasileiros. E é pertinente salientar que Telmo Padilha, autor de mais de 35 títulos, com 16 traduzidos, tem crédito para tanto: era professor Honoris Causa da Uesc.

AZNAVOUR E O “REALISMO” NA CANÇÃO

Charles Aznavour se sentia infeliz com as canções que interpretava, por isso resolveu compor, com a intenção de dizer “coisas que o público não estava acostumado a ouvir”. Seus temas são desamor e conflitos interpessoais, numa espécie de realismo que conquistou milhares de ouvintes. Os jornais eram sua fonte de inspiração. Filho de imigrantes armênios que escaparam do genocídio feito pelos turcos em 1914, ele trabalhou oito anos com Edith Piaf (foto), seguindo-a por toda parte, e foram amigos até a morte da chansonière. “Com ela aprendi que não devia fingir ser outra pessoa no palco, que devia ser eu mesmo, uma pessoa real”, reconhece.

VEIO DUAS VEZES AO BRASIL

Charles Aznavour, nascido Shahnour Vaghinagh Aznavourian (foto),  fez, no mínimo, 600 canções (há quem fale em 850), incluindo 150 em inglês, 100 em italiano, 70 em espanhol e 50 em alemão. Vendeu mais de 100 milhões de discos e apareceu, como ator, em mais de 60 filmes, entre eles, Atirem no pianista, O caso dos dez negrinhos e O tambor. Em 2008, obteve a cidadania armênia e já no início de 2009 se tornou embaixador da Armênia na Suíça. O franco-armênio, que completa 86 anos no dia em que esta coluna é postada (22 de maio), visitou o Brasil duas vezes em 2008, cantando em dez capitais.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

“AVENTAL TODO SUJO DE OVO”

La mamma vendeu 1,5 milhão cópias, com uma letra de mau gosto atroz, só perdendo, no tema, para aquela da mãe rainha do lar com o chinelo na mão e o avental todo sujo de ovo. Ray Charles a gravou como For mamma e Agnaldo Timóteo (foto), Mamãe, é claro. O tema: a velha matriarca está nas últimas, e a família vem assistir ao desenlace. “Eles vieram, eles estão todos lá/Desde que entenderam este grito/Ela vai morrer, a mamma” (Ils sont venus,ils sont tous là/ Dès qu’ils ont entendu ce cri/ Elle va mourir, la mamma). Nazareno de Brito (para o vozeirão de Timóteo) põe lirismo nessa morte: “O véu da noite vai chegar/E docemente vai nublar/ Os olhos meigos de mamãe”. Bombou. Com brasileiro não há quem possa.

CARISMA QUE ATRAVESSOU O ATLÂNTICO

A melodia e o carisma de Charles Aznavour somados ao êxito dessa canção nos dois lados do Atlântico justificam a presença de La mamma na coluna. É quase como se estivéssemos respondendo ao clamor das ruas.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

ALFABETIZADO QUE NÃO LÊ, ANALFABETO É

Ousarme Citoaian
Há algum tempo, em Itabuna, uma professora de alfabetização infantil, na solenidade de “licenciatura” de seus alunos, recomendou aos mesmos que lessem. “A gente se alfabetiza para ler, pois, se não fosse assim, não valeria a pena o meu esforço, nem dos pais de vocês, nem de vocês”. O discurso me emocionou. Se não o aplaudi de pé, solitário, solidário e esperançoso, foi com receio de ser internado com urgência em nosocômio psiquiátrico credenciado pelo SUS. Está certíssima a professora: se não leio, para quê me alfabetizei? A alfabetização é irmã siamesa da leitura e prima carnal da escrita.

A MENOR DISTÂNCIA ENTRE DOIS PONTOS

Tenho dificuldade para explicar o assunto. Mas imagino que o alfabetizado que não lê é como aquele indivíduo que cursa a faculdade, licencia-se, por exemplo, em Direito e, depois, monta uma loja de calçados. Com todo respeito, para ter êxito com uma empresa comercial necessita-se de alguma técnica (que pode ser apreendida na prática da observação) e talento para os negócios. Então, ir à escola para ser comerciante é dissipar inteligência, perder tempo importante a estudar o que não interessa, usar a linha curva para ir de um ponto a outro, quando a reta é a menor distância.

CAMINHO PARA A TRANSFORMAÇÃO

A propósito de professores, aproveito para registrar dois textinhos, com sugestão de que pensemos a respeito deles: “Não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo, torná-lo sério, com adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor. Se a educação sozinha não transformar a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”. Falou e disse o educador brasileiro Paulo Freire (foto); “O professor medíocre conta; o bom professor explica; o professor superior demonstra; o grande professor inspira”, sentenciou Arthur Ward, administrador americano.

HOJE É DIA DO PROFESSOR

Conservadora e preconceituosa (isto está comprovado em vários estudos), a sociedade brasileira tem ojeriza ao novo. Certos setores sofrem ataques agudos de urticária tão logo entram em contato com alguma coisa fora da mesmice. Isto é perceptível também quanto ao conhecimento. Todos nós já ouvimos a expressão calhorda “quem sabe faz; quem não sabe, ensina”. Uma grosseria contra o professor. Se é possível graduar as profissões, esta fica ao lado ou à frente do que há de mais importante. Vá o comentário por conta do Dia do Professor. É 15 de outubro? E daí? Façamos de conta que é hoje também.

COISAS DE MARSHAL MCLUHAN

Ligo a tevê e, num lance de má sorte, dou de cara com um ilustre especialista em nutrição, explicando as excelências da vitamina Ê. Assim mesmo: vitamina Ê. “A vitamina Ê faz, a vitamina Ê acontece”, e por aí segue. As vitaminas são identificadas por letras (A, B, C, D, E e K, com ligeiras variações) – e não existe em língua portuguesa a letra Ê. Interligada pela tecnologia – veja conceito de aldeia global de McLuhan (foto) –, a sociedade brasileira parece condenada a repetir bobagens linguísticas que, dicionarizadas mais tarde, adquirem status de consagração. Mas continuam sendo o que são: bobagens.

DIFERENÇA ENTRE LETRA E FONEMA

Dizem os conhecedores da língua (aqueles que não têm disposição para “consagrar” babaquices) que esse Ê não é letra, mas fonema. A quinta letra do nosso alfabeto (também segunda vogal) chama-se E (com som aberto). Não se trata de implicância nem de regionalismo nordestino, mas da pronúncia correta. Vale para qualquer canto do Brasil. Quem fala Ê é paulista mal informado ou quem repete a televisão, como se ela fosse, mal comparando, a Bíblia. Assim, vamos chamar IBGÊ e não IBGÉ, sendo que aquele famoso colégio de Ilhéus (o I.M.E., na foto de Mendonça), baianamente dito IMÊÉ, passa a se chamar IMÊÊ. Lá ele!

PRECONCEITO ATINGE NOMES DE  MULHER

Marcos de Castro, aqui várias vezes referido, nos chama a atenção para o imenso preconceito que a gramática alimenta contra as mulheres. E destaca a questão dos nomes próprios, que me passara despercebida: “Boa parte deles nasce de nomes masculinos e só se tornam nomes de mulher quando recebem desinência feminina”. O jornalista e filólogo aponta uma exceção, aliás nome muito bonito, de sonoridade cristalina e origem “nobilíssima”: Mariana. Trata-se da justaposição de Maria e Ana (Nossa Senhora e sua mãe). De Mariana nasceu Mariano, uma formação rara.

EM CASA DE JOÃO, MULHER ERA JOÃOZINHO

Entre os romanos, as mulheres eram tão sem importância (tanto em casa quanto na sociedade) que muitos dos seus nomes eram somente diminutivos dos nomes masculinos. Agripina (de Agripa) e Messalina (de Messala) são os exemplos citados por mestre João Ribeiro. É algo que soa hoje tão ridículo quanto se a um homem chamado João correspondesse uma mulher batizada como Joãozinho. Ao acaso, alguns nomes que nasceram do masculino: Manuela, Getúlia, Paula, Lúcia, Júlia, Maura, Antônia, Célia, Fernanda, Márcia e Patrícia.

PATRÍCIA AMORIM É PRESIDENTA DO FLA

Patrícios eram os nobres romanos, a elite à qual se conferia alta dignidade, em determinado período. Mais tarde, o substantivo comum transformou-se em próprio, e de Patrício veio Patrícia (que nada tem a ver com as atuais patricinhas). Por falar nisso, Marcos de Castro sugere que a nadadora Patrícia Amorim reaja às tentativas de chamá-la de presidente, dizendo aos repórteres: “Por favor, sou mulher e mãe, e tenho o direito de ser tratada por uma forma feminina. Sou presidenta do Flamengo, não sou presidente”. Dá neles, Patrícia!

DA ARTE DE ESCREVER BEM

O pesquisador Jorge de Souza Araujo me espanta a cada página. Num dos seus livros mais recentes, Graciliano Ramos e o desgosto de ser criatura, vejo que Quebrangulo, onde nasceu o Velho Graça, significa “matador de porcos”, em quimbundo. Jorge aponta forte semelhança entre o autor de Vidas secas e o escritor e ativista italiano Antonio Gramsci (foto): os dois foram criticados pelos seus partidos comunistas (PCB e PCI) por “falta de vigor revolucionário”, estiveram presos, adoeceram na cadeia e voltaram à liberdade no mesmo ano (1937). Gramsci, vítima do fascismo de Mussolini; Graciliano, do de Getúlio. O brasileiro escreveu Memórias do cárcere; o italiano, Cartas do cárcere.

GRACILIANO RAMOS EPIGRAMISTA

Graciliano Ramos, o que surpreende quem lê sua prosa descarnada, fez incursões na poesia.  Ele disse que compunha sonetos “para adquirir ritmo”, sem nunca ter pretendido ser poeta. “Aprendi isso para chegar à prosa, que sempre achei muito difícil”, afirmou. E o estoque de inusitados nesse Graciliano Ramos de Jorge Araujo (ganhador do Concurso Nacional de Literatura da Academia Alagoana de Letras) ainda guardava um inesperado Velho Graça epigramista: “De sífilis terciária, um dia, enfim, morreu/Este de alcoice imundo ignóbil filho espúrio/E a terra que o comeu/Entrou logo a tomar injeções de mercúrio”, escreveu ele contra desafeto anônimo.

ROBERTO DAMATTA E AS BALAS PERDIDAS

Sou um raro brasileiro que nunca viu (nem pretende ver) Tropa de elite. Também não quero ler Elite da tropa. Fico com a opinião de Roberto DaMatta, quando diz que “o cinema brasileiro é uma deprimente, com as exceções de praxe: só mostra pobreza, miséria, sofrimento, prostituição e bandidagem”. Prefiro o faroeste, a violência lá longe, antiga e vingada. Para ver polícia e bandido trocando tiros, basta estar na rua de uma grande cidade. Bom pra quem gosta de emoções fortes. No faroeste há justiça; no dia-a-dia das balas perdidas, não (e quando digo faroeste, me refiro aos americanos). A ficção não supera a realidade.

ITALIANO EM TEMPO DE TELENOVELA

 Faroeste italiano é como acarajé feito por baiana branca, se vocês me entendem. Já se vê, sou seletivo: Sergio Leone, o grande nome do spaghetti western, não entra em minha lista. Seu Era uma vez no Oeste, por exemplo, não me agrada, porque tem timing de telenovela (e eu detesto telenovela). Se a crítica adora Era uma vez, azar da crítica. Vamos fazer uma lista de dez ou vinte? Eu dou a saída com Matar ou morrer (Fred Zinnemann), Onde começa o inferno (Howard Hawkins), Os Brutos também amam (George Stevens), O homem que matou o facínora (John Ford), El Dorado (refilmagem de Onde começa) e Paixão de fortes (Ford).
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

ESTRANHA FORMA DE DIZER “I LOVE YOU”

Filmes de caubói (como se dizia antigamente), às vezes, têm referências surpreendentes. Em Onde começa o inferno, Angie Dickson ameaça vestir uma roupa que deixa as pernas à mostra e ouve do desajeitado xerife John Wayne: “Se você usar isso em público, eu vou prendê-la”. E ela, chorando de felicidade: “Até que enfim! Pensei que você nunca ia dizer que me ama”. Ele, espantado: “Eu disse que ia prendê-la. Ela: “É a mesma coisa”. Em Paixão de fortes, Henri Fonda, caído por Cathy Downs, busca ajuda no velho Farrell Mac Donald: “Você já esteve apaixonado?”. Resposta: “Não. Sempre fui barman”. Filme americano com humor inglês…

O HOMEM, O RIFLE E O CAVALO

Outro recurso recorrente no cauboi é a música. High noon (Matar ou morrer), My Darling Clementine (Paixão de fortes) são bons exemplos. Em Onde começa o inferno, há um intervalo na tensão de quatro homens à espera de uma quadrilha inteira, quando Dean Martin e Rick Nelson cantam um tema country (My rifle, my pony and me), com a ajuda do “doidinho” Walter Brennan, tendo John Wayne como plateia. É a síntese do gênero: o vaqueiro, a arma, o cavalo e a mulher amada. Confira em vídeo:
 
 

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

  

MÁQUINA DE FAZER DOIDOS 

Ousarme Citoaian
A televisão já foi chamada de máquina de fazer doidos. Em outra época, psicólogos previram que ela criaria uma geração de oligofrênicos – tipos que se dedicariam a comer pipocas diante da telinha, praticamente renunciando à análise e à crítica. Não seria difícil encontrar, ainda hoje, quem se disponha a, se não prová-la, ao menos argumentar em favor dessa tese: a tevê, se não robotizou o público e estimulou o retardamento mental, muito contribuiu para a redução do pensamento crítico. O seu imenso poder de convencimento, montado sobre uma programação socialmente descompromissada (em que abunda a dramaturgia de baixa extração), implanta hábitos nem sempre saudáveis. A linguagem é uma dessas contribuições deletérias.  

FUTEBOL QUE FERE OS OUVIDOS

Não falemos do insistente récorde, que virou moda. Mas é notável a forma como a principal rede de tevê do País “recria”, nas chamadas de esporte, a palavra futebol: o locutor pronuncia futé-ból (é impossível reproduzi-lo à perfeição), numa fórmula absolutamente estranha à nossa fala – salvo o regionalismo paulista. Qualquer brasileiro normal diz futibol, pois, segundo os foneticistas, esse “e” é uma vogal reduzida (tanto quanto o segundo “a” de cara ou o “o” de pato. Todos sabem que a expressão vem de football, sendo curioso que a pronúncia, se seguisse o original (como a Globo faz com record), ficaria mais próxima da nossa prosódia. Também é curioso que na tevê não se diga, como seria coerente, futêssál nem futêvôlei. Então, por que esse alienígena futé-ból, tão estranho aos nossos ouvidos?

A FEIJOADA NÃO NASCEU NA BAHIA

O Aleijadinho é um personagem de ficção (pelo menos como o conhecemos, com seu perfil inspirado em Quasímodo, de Victor Hugo), Zumbi tinha escravos, a feijoada não foi criada na Bahia, mas na França, e Santos Dumont não inventou o avião. Essas, dentre outras, são revelações do livro Guia politicamente incorreto da História do Brasil (Editora Leya), do jornalista Leandro Marlock (ex-Veja e Superinteressante). O autor pesquisou temas “sedimentados” pela historiografia oficial, concluindo que as coisas nem sempre são como nos ensinaram na escola. Chamou-me a atenção a forma como, na crônica Traços a esmo, Graciliano Ramos (1892-1953) afirma que o futebol, imaginem, não daria certo no Brasil..  

FUTEBOL: UM “COSTUME INTRUSO” 

Lima Barreto (1881-1922), acrescento, também era ferrenho opositor do futebol, que acusava de ser “simples importação artificial e elitista”. O velho Graça (foto) achava que esse esporte era um “costume intruso”, querendo tomar o lugar de um (estranho) jogo então existente. Segundo o autor de Vidas secas, para que um costume se estabeleça “é preciso não só que se harmonize com a índole do povo que o vai receber, mas que o lugar a ocupar não esteja tomado por outro mais antigo, de cunho indígena”. E conclui: “O [costume] do futebol não preenche coisa nenhuma, pois já temos a muito conhecida bola de palha de milho, que nossos amadores mambembes jogam com uma perícia que deixaria o mais experimentado sportman britânico de queixo caído”.

POR UM PUNHADO DE DÓLARES

É curioso que João Saldanha, mais de meio século depois, afirmou que o profissionalismo representava o fim do futebol brasileiro, devido à perda de vínculo do jogador com o clube. O grande João errou no atacado, mas acertou no varejo: o esporte se fortaleceu como negócio, mas o vínculo se perdeu, irremediavelmente: hoje, um jogador beija o escudo do time que o paga e na semana seguinte, por uns dólares a mais, vai beijar o escudo do adversário. Mas quem de nós nunca fez uma previsão desastrada? No começo dos anos 60, vaticinei que Roberto Carlos, com aquele romantismo piegas exarado nas tardes da tevê paulista, não duraria 15 dias. Errei, confesso.  

INCULTA, BELA E NOBRE

No bar de Eduardo, aqui no Beco, a placa, escrita no estilo jogo de palavras de Gilberto Gil (sem jamais cair na grosseria), anuncia, com um bem posto trocadilho, tratar-se de uma casa de Artigos para beber; no Café Pomar, avenida do Cinquentenário (onde mato minha sede e o vício do cafezinho), os clientes são recebidos com um aviso de notória sabedoria gramatical, antigo, dos tempos de seu Mariano, que inaugurou a casa: Atendimento com fichas. Compre-as no caixa. Dois belos exemplos, um moderno outro clássico, do bom manejo da língua portuguesa, que, em assim sendo tratada, se mostra bela e nobre, sem esnobismos.

LINGUISTA DE MAU HUMOR 

Há quem defenda uma espécie de fiscalização da linguagem, para os anúncios afixados na via pública. Parece-me que Fortaleza/CE possui um programa municipal nesse sentido: se alguém, no seu comunicado, agride a já maltratada língua portuguesa, o fiscal vai lá e fornece a orientação necessária. A ideia é defensável, embora possa haver algum linguista de mau humor a apoiar a tese de que “se as pessoas entenderem a mensagem, está bom” – e então, porque “a língua é viva”, que se deixe cada um meter os pés pelas mãos. Embora não houvesse, até agora, pensado no assunto, eu tendo pela fiscalização. Seria uma espécie de escola peripatética.

DA ARTE DE ESCREVER BEM

Recentemente, num comentário, tangenciamos aqui a questão do hino La marseillaise, referência que nos despertou para um conto engraçadíssimo de João Ubaldo Ribeiro, Alandelão de la patrie, em torno do mesmo tema. No estilo picaresco em que é mestre o autor de Viva o povo brasileiro, não lembro de nada melhor do que essa short story que Cyro de Mattos (foto) selecionou para a antologia O conto em vinte e cinco baianos, publicada pela Editus/Uesc. Alandelão de la patrie é um touro francês, usado como reprodutor na fazenda, mas que só trabalha “indiretamente”, por inseminação artificial. Essa crueldade desperta a compaixão do narrador.

ALANDELÃO E A VACA FLOR DE MEL 

João Ubaldo (foto): “Foi assim que tivemos o plano de fazer um benefício a Alandelão, benefício este com a vaca Flor de Mel, pé-duro porém forte de ancas, boa envergadura e vaca já com muita experiência de vida, inclusive havendo sido, segundo muitos, amante de Nonô de Bombaim, e diz o povo que os dois comiam uns pezinhos de liamba, conhecida por outros como fumo-de-angola, aliás maconha – o que é que estamos escondendo – que aqui nasce feito mato e não deixa de haver quem faça um fumeirozinho. Enfim, diz o povo que os dois comiam uns pezinhos e ficavam na maior safadagem, isto antes de Nonô ter pegado aftosa numa farra e ter morrido velho e aftoso e desestimado por todos em geral”.

PROSA E POESIA ENCADEADAS 

Cyro de Mattos, organizador de O conto em vinte e cinco baianos, é um itabunense que honra sua terra. Jornalista e escritor, tanto navega no conto/novela, quando nada de braçada na poesia e na crônica, além de investidas de muito êxito na literatura infantil. Dono de grande fortuna crítica, ouviu de Eduardo Portela (foto), ex-ministro da Educação, este juízo: “Em Cyro de Mattos o poema e a narrativa se entrelaçam engenhosamente. Quando escreve o poema, narra; quando narra, jamais se afasta do sopro vital da poesia”. Cyro tem vários prêmios literários, além de textos publicados em outros países. Atualmente, mesmo com danos à sua atividade intelectual, dirige a Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania.

JAZZ, DROGAS, TRISTEZA E POESIA

Tangenciei, há dias, Bird (1988), o filme de Clint Eastwood sobre o saxofonista Charlie Parker (1920-1955). O filme, por ser fiel à vida real do astro, é um tanto sombrio. Mas é bem feito, premiado e aplaudido por um público específico, os amantes do jazz. E é também (o que se convencionou chamar de “trabalho autoral”) a cara de Eastwood, um apaixonado pela grande música negra e fascinado por Parker. O tema de fundo, já falamos, é a droga, que caiu no jazz como uma doença contagiosa, destruindo muitas estrelas. O que emerge da tela é um duplo Parker – tão altamente construtivo com o seu instrumento (o sax tenor) quanto autodestrutivo, devido ao intenso uso de drogas, a partir do álcool.

O SAX QUE GANHOU O OSCAR

Eastwood (foto) traça o retrato quase sem retoques de um artista brilhante e frágil, que vai buscar nas drogas a solução de problemas pessoais. O diretor levantou a discografia do seu ídolo e produziu uma ótima trilha sonora, partindo de discos originais de Parker. E tudo valeu a pena: Forest Withaker (Charlie Parker) ficou com o prêmio de melhor ator em Cannes; Diane Verona (Chan Parker, mulher do músico) foi a melhor atriz coadjuvante, segundo o New York Film Critics; a trilha sonora ganhou o Oscar de melhor som e Clint Eastwood ficou com o Globo de Ouro de melhor diretor. Logo, homenageado e homenageante se deram muito bem.

POESIA PARA ATENUAR A TRISTEZA 

O estrago que as drogas fizeram em Charlie “Bird” Parker (foto) não foram pequenos: contratos rompidos, a beira da sarjeta, o envelhecimento precoce. Ao morrer de infarto na casa de uma “protetora”, o músico foi descrito pelo médico, preliminarmente, como “Charlie Christopher Parker Junior, negro, forte, cerca de 65 anos”. Ele ainda não tinha 35. Ao menos na aparência, as drogas lhe tiraram quase metade da vida, antecipando-lhe o fim. Aliás, a cena de sua morte, quando o diretor e jazzófilo Clint Eastwood consegue atenuar com poesia a nossa tristeza, é um extraordinário momento do filme. Se quiser, veja/ouça Lover man, um clássico que, em Bird, mostra o tenorista Charlie Parker no último degrau.
 
(O.C.)
 
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

UNIVERSO PARALELO

POLICIAL E GRAMÁTICA ESCAPAM DE GRAVE ATENTADO

Ousarme Citoaian

Disse um dos mais importantes jornais de Itabuna, em sua manchete principal, na semana passada: Suspeito de tentar contra a vida de policial morre com outros dois comparsas (O. C. grifou). O verbo tentar, usado desde bíblicos tempos (o capeta tentou Jesus no alto do monte, lembram-se?), tem sobre si a responsabilidade de muitos significados. O pobre já está até curvado para a frente, com a carga que carrega, conforme ocorreu com Atlas, aquele que foi condenado a andar por aí com o mundo nas costas. E agora (ops!) o verbinho (sem ofensas!), já cansado, recebeu a promoção a sinônimo de atentar.  Mas ele recusa a honraria, por falta de espaço e excesso de peso. O “elemento” era suspeito de atentar contra a vida do policial. Quer dizer: manifestava a intenção de matar o homem da lei, passá-lo desta para melhor, apagá-lo, mandá-lo acertar as contas com o Criador, tirá-lo do mapa. Não quis tentá-lo, o que talvez depusesse contra a masculinidade de um dos dois. Houve, sim, um atentado também contra a gramática portuguesa, mas os dois, policial e gramática, escaparam. Deus é grande.

SACUDIR A POEIRA DO DICIONÁRIO

A vizinha do 6º andar me tenta todos os dias. Sempre que ela passa (deixando aquela fragrância de rosas amassadas em tarde de primavera) minha cabeça se povoa de bandalheiras tais que não me arrisco a referi-las no Pimenta, blog familiar. Vontades inconfessáveis me assaltam, imagino planos tão mirabolantes, mergulho num virtual mar de sem-vergonhices inenarráveis. Essa moça que passa por mim e não olha é o exemplo raro que me ocorre de tentar e atentar, a um só tempo. Ela me tenta e, ao fazê-lo, atenta (talvez involuntariamente, não estou certo se) contra minha paz de espírito. Os dicionários estão aí (eu ainda os prefiro de papel, não online) para mostrar que atentar e tentar, embora parecidos, estão tão distantes quanto Dilma e Serra. Deixo ao leitor o prazer de consultar o dicionário (se estiver empoeirado – não o leitor, mas o “pai dos burros” – sacuda-a, que há de valer a pena).

“NÃO NOS DEIXEIS CAIR EM TENTAÇÃO”

Geddel tenta subir nas pesquisas, Jararaca Ensaboada atenta contra a sensatez, os políticos, em geral, tentam nos levar na conversa, Anamara (na opinião do comandante da PM) atenta contra o pudor (e me tenta, nos intervalos deixados pela vizinha do 6º andar), Itabuna e Colo Colo tentam se afastar da lanterna, alguns textos de jornais atentam contra a inteligência do leitor, o velhinho tenta, tenta, tenta… e o bandido atenta contra a vida do policial. É claro que de tentar vem tentação. No Paraíso, a serpente tentou, o casalzinho pioneiro caiu em tentação (foi no papo da cobra) e deu no que deu (para evitar acidentes, o Padre Nosso reivindica ao Criador: “Não nos deixeis cair em tentação…”). De atentar, vem atentado: ao atentar contra o policial o bandido cometeu um atentado contra aquele. O trio elétrico é um atentado aos tímpanos. Para escrever, não precisa ser gênio. Mas tem que ter atenção, pois o erro atenta contra nós, em cada frase (ver nota abaixo).

O UNIVERSO PISOU NA BOLA

E pisou feio. Num lance de absoluta infelicidade – como alguns que têm acontecido com o Itabuna e o Colo Colo – foi grafado na edição passada, o tempo verbal torço, em lugar do substantivo torso. Descuido lamentável, que alguém autoidentificado como “Gorby Li” imediata e generosamente registrou nos comentários. Aos leitores, nossas desculpas. A Gorby Li, mais do que desculpas pelo erro, agradecimentos pela corrigenda. Se pensarmos nisto aqui como jogo de futebol, sendo eu goleiro, não fica dúvida de que engoli um frango antológico. Mea culpa!

NÃO ME XINGUEM DE “FLANGUISTA”

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Os que acompanham esta coluna já perceberam que ela é vazada em certo tom “clássico” – prefere, aos neologismos, as formas consagradas. Questão de fidelidade aos bons autores. É o caso de “flamenguista”. Não uso, pois minha santa mãezinha (que Deus a ampare!) me recomendou não falar nem escrever palavrões. É provável que algumas mães tenham contribuído, por desatenção, para divulgar este termo. Mas a minha era do tipo “formal”. Flamengo é adjetivo referente a Flandres (região da Bélgica), da mesma forma que fluminense (do latim flumen, o rio) se refere ao Estado do Rio de Janeiro (e outros rios). Ninguém “xinga” de “fluminensista” o nativo daquela região (ou torcedor do Fluminense). Existe a Baixada Fluminense (terra onde filho chora e mãe não vê), que nenhum brasileiro sensato chamaria de Baixada “Fluminensista” – e ainda podemos invocar o testemunho insuspeito de um certo Machado de Assis: ele batizou de Contos fluminenses um de seus livros – e não Contos flumensistas, como desejariam os defensores de “flamenguista”.

UMA VEZ FLAMENGUISTA… (ARGH!)

Arthur da Távola (foto), que sabia escrever e falar como poucos, tem um texto que nos ajuda a argumentar. Diz o jornalista carioca: “Ser Flamengo é ser humano e ser inteiro (…); ser Flamengo é deixar a tristeza para depois da batalha (…)”. Perceberam? Ele não diria jamais “Ser flamenguista é…”. Então, por que eu, ai de mim!, iria escrever tal heresia? É do hino: “Uma vez Flamengo, sempre Flamengo…”. Nunca “Uma vez “flamenguista…”.  E Jorge Benjor? Diz lá o negão, em País tropical: “Sou Flamengo, tenho uma nega chamada Teresa etc. etc.”. Na verdade, “Sou flamenguista, tenho uma nega…” é crime inafiançável contra o bom gosto… Gil, ao ser expulso da pátria pela ditadura militar, deixou bilhete antológico: “Alô torcida do Flamengo, aquele abraço!”… Alguém se atreveria a “modernizar” isto para “Alô torcida flamenguista?”. Muito se escreveu exaltando o Flamengo, com destaque para vários autores que não eram rubro-negros: Mário Filho, Henrique Pongetti, Nelson Rodrigues, David Nasser, João do Rio, o citado Arthur da Távola, Eliezer Rosa e outros. Nenhum deles empregou o termo “flamenguista”. Queriam exaltar a torcida, não ofendê-la.

O VERMELHO E O NEGRO

Nelson Rodrigues, tricolor de coração, era politicamente execrável, mas um cronista esportivo de altíssimo nível. Li, com prazer, muitas de suas crônicas sobre o Flamengo, e jamais encontrei ali o termo “flamenguista”. Numa delas, o autor de À sombra das chuteiras imortais chega a falar em torcida “flamenga”, mas nunca “flamenguista”. Ruy Castro (foto), texto extraordinário do jornalismo contemporâneo (este sim, Flamengo desde o berço, biógrafo de Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmem Miranda) escreveu um livro notável sobre as glórias do clube da Gávea, chamado O vermelho e o negro (uma citação óbvia de Stendhal). São 232 páginas que qualquer torcedor do Flamengo lê com satisfação imensa, mas que deixarão frustradas algumas pessoas: não há, ao longo de toda a obra, uma só vez a palavra “flamenguista”. Ruy Castro sabe das coisas.

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

Listas remetem a saudades e “toda saudade é uma espécie de velhice” (saibam que li as orelhas de Guimarães Rosa em Grande sertão: veredas). Mesmo assim, cito aqui algumas músicas de Carnaval que muito aprecio: 1Taí /1930 (Joubert de Carvalho), 2Pierrô apaixonado/1936 (Noel-Heitor dos Prazeres), 3As pastorinhas/1938 (Noel-Braguinha), 4A jardineira/1939 (Humberto Porto-Benedito Lacerda), 5Aurora 1941 (Mário Lago-Roberto Roberti), 6Nós, os carecas/1942 (Arlindo Marques Jr.-Roberto Roberti), 7Cordão dos puxa-saco/1945 (Eratóstenes Frazão-Roberto Martins), 8Saca-Rolha/1946 (Zé da Zilda-Zilda do Zé-W. Machado),  9Chiquita Bacana/1949 (Braguinha-Alberto Ribeiro), 10Confete/1952 (David Nasser-Jota Júnior), 11Cachaça não é água/1952 (Marinósio Filho), 12Colombina/1956 (Armando Sá-Miguel Brito), 13Turma do funil/1956 (Mirabeau-Milton de Oliveira-Urgel de Castro), 14Evocação/1957 (Nelson Ferreira) e 15Chuva, suor e cerveja/1971 (Caetano Veloso).

JEAN-PAUL SARTRE NA FUZARCA

Colombina, Chiquita bacana, Saca-Rolha, Turma do funil, Cordão dos puxa-saco e Nós, os carecas são exemplos de arte popular, sem apelação. Gosto muito de “as águas vão rolar/ garrafa cheia eu não quero ver sobrar” (Saca-rolha), enquanto Genolino Amado afirmou que o verso “só faz o que manda o seu coração” (Chiquita Bacana) era, para o existencialismo de Sartre (foto), então em moda, a melhor definição. Também poderiam estar na lista, se espaço houvesse, Até amanhã, Mamãe, eu quero, Ai que saudades da Amélia,Praça onze,Tomara que chova,  Vassourinhas, Máscara negra, Corre, corre, lambretinha, Yes, nós temos banana, General da banda, Atrás do trio elétrico, Se você jurar, Agora é cinza, Até quarta-feira, Alah-la-ô, Vai com jeito, Marcha do caracol e Índio quer apito (sucesso na voz do ilheense Walter Levita).

POR AMOR AOS OUVIDOS

Consideradas não propriamente “carnavalescas”, incluiríamos ainda entre as melhores: Noite dos mascarados, Hora da razão, Manhã de Carnaval (apresentada aqui na semana passada) e Marcha da quarta-feira de cinzas. Omissões propositais: Me dá um dinheiro aí (uma bobagem popularizada pelo uso), além de Cabeleira do Zezé, Maria Sapatão e O teu cabelo não nega (três monumentos sonoros ao preconceito). Colombina é, oficialmente, o hino do Carnaval baiano. Mas, sufocada pelo som distorcido do trio elétrico, é menos lembrada do que deveria. Essa marcha, entre as melhores da festa de Momo (ao menos quanto à melodia), é pouco cantada – mostrando ser pequeno o tempo entre a homenagem e o esquecimento. A lista é pobre em música baiana. É que, devido a irrenunciável amor a meus tímpanos, não passo perto de trio elétrico nem cultivo aquelas riquíssimas rimas em ô (pelô, salvadô, meu amô). Enfim, listas são… deixa pra lá.

(O.C.)
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<h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3>
<div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

UNIVERSO PARALELO

“CANTA O MEU CORAÇÃO, ALEGRIA VOLTOU”

Ousarme Citoaian

Mesmo que, sob os mais variados motivos, ele seja adiado, transferido, mudado ou impugnado, o Carnaval está à porta, e não há força capaz de impedir sua vinda, pois ele sobrevive em nossos corações. Então, mesmo desafinados (“é preciso cantar para alegrar a cidade”), cantemos jardineiras, auroras, pastorinhas, colombinas, cantemos até à beira do balcão, prá comprar fiado, se preciso for. Cantemos as mulheres, no geral e no particular, pois só elas têm o dom de devolver a este mundo a graça perdida. “Benditas sejam as moças”, disse um poeta chamado Antônio Maria (foto), antes de nos fazer cantar os versos de Manhã de carnaval, sobre melodia de Luiz Bonfá. É um casamento de música e texto do tipo “feitos um para o outro”. Mas se você pensa que cachaça é água, cachaça não é água, não. E se a lei não quer que você dirija quando bebe, é só deixar de dirigir… Evoé, Momo!

Clique no play e confira Manhã de Carnaval, na interpretação de Emílio Santiago.

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RACHEL, A CONSPIRADORA

A escritora Rachel de Queiroz (1910-2003), que nasceu junto com Itabuna, se identificava pela simpatia (marcada pelo sorriso de avó) e o sofrimento de  jovem militante do Partido Comunista. Na ditadura de Getúlio Vargas (1937-1945), foi presa e teve seus livros queimados em praça pública (a exemplo do também comunista Jorge Amado). Caminho de pedras foi feito na prisão, no Rio de Janeiro, em 1937. Tudo isso é verdadeiro, mas há um lado que a mídia mal informada ou a crítica conivente não tem mostrado ao público: Rachel, aos 54 anos, já deixara o PCB, virara trotskista e saíra pelo outro lado. Adquirira o perfeito e completo perfil da intelectual reacionária: quando os anjos vestidos de verde-oliva derrubaram um presidente, para “salvar” o Brasil da “ameaça vermelha”, a velha Remington da escritora cearense estava a serviço deles.

ADONIAS, O “GENERAL CIVIL”

A autora de O quinze, com aquele ar bondoso, jamais superou o ódio que devotara a Getúlio – chegando ao absurdo de transferir tal ódio para Jango e Brizola. Para o grupo dela, dito de liberais, Getúlio simbolizava “a reação, o fascismo, a aliança com o Eixo” – é o que está em Tantos anos, seu livro de memórias, já mencionado aqui. Convenhamos que classificar Jango como fascista é algo excessivamente criativo, mesmo para uma ficcionista (na verdade, Jango estava mais para alienado). O fato é que ela começa a conspirar com um grupo de generais (Golbery – “O satânico Dr. Gô”, Andrade Muricy, Sizeno Sarmento e outros, com a presença silenciosa do general Castelo Branco, seu parente pelo lado Alencar), em companhia do nosso Adonias Filho (foto), que Rachel descreve como “uma espécie de general civil”. As reuniões, às vezes “vigílias cívicas”, eram na casa da escritora, transformada em quartel-general do golpe. “O que nós fazíamos era conspiração mesmo: saber onde estava a tropa, o que tinha havido, se o coronel fulano tinha se manifestado, se o coronel beltrano era de confiança”, confessa.

DEPOIS VEIO O TEMPO NEGRO

Como jornalistas influentes, Adonias e Rachel procuravam manipular a opinião pública, em favor dos fardados. Ele era ex-presidente da ABI (Associação Brasileira de Imprensa) e editorialista do Diário de Notícias; ela assinava uma coluna com muitos leitores (eu, inclusive), a “Última página”, na revista O Cruzeiro. Na voz da dona: “Eles me usavam como jornalista, eu opinava muito e era muito lida”. O baiano e a cearense se deixavam claramente usar pelos arcanjos que iriam mergulhar o País nas trevas, por duas décadas: “o lado político, de pregação, de jornalismo de combate, de artigos de encomenda, de nos trazerem assuntos para a gente falar, isso era o nosso trabalho”. Depois veio o tempo negro (1964-1985). Rachel de Queiroz estava no sertão do Ceará, quando soube do golpe – que ela, como todo simpatizante, chama “Revolução de 1964” – não pelo rádio ou pelo seu precário televisor movido a bateria de carro: o aviso a alcançou num telegrama assinado pelo “Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, presidente da República”. Castelo mostrou-se grato à romancista: ofereceu-lhe vaga no diretório da Arena, para “intelectualizar” o partido do governo (a entrada não se concretizou), e delegada do Brasil na Assembleia Geral da ONU, que ela aceitou.

RACHEL DE CORAGEM

Tempos depois, Costa e Silva (foto), que Rachel definia como “um sargento de poucas letras”, assumiu o governo e ganhou da escritora uma louvação, solicitada pelo amigo e parente Castelo Branco. “O presidente me obrigou a fazer um artigo sobre o primeiro mês do governo, artigo imparcial e até elogioso”, explica. Mais tarde, ela seria uma espécie de conselheira dos generais da ditadura. Médici a convidou para discutir o Funrural e Geisel fez a ela um convite para ser ministra – mimo que se repetiria com João Figueiredo e José Sarney (presidente civil, mas oriundo da Arena, o ninho dos generais). Mesmo os que reprovam em Rachel de Queiroz a colaboração com o golpe de 1964 e, posteriormente, com a ditadura que se instalou, hão de louvar a coragem com que a escritora, na obra citada, esclarece, mais de três décadas depois (e cinco anos antes de morrer), essa fase moralmente discutível de sua vida. Poucos envolvidos, até hoje, tiveram coragem de confessá-lo.

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A PRESIDENTE OU A PRESIDENTA?

O correto jornalista Levi Vasconcelos (foto), d´A Tarde, comentando as eleições no progressista município baiano de Lajedo do Tabocal, assim se pronunciou: “… mas quem assumiu foi Lilian Nascimento (PDT), presidenta da Câmara (nosso, o grifo). E agora, minha gente, como ficamos: dona Lilian é presidenta mesmo ou é, conforme se lê por aí, presidente da Câmara? Para mim, nenhuma dúvida resta de que o velho Levi sabe do que escreve. Quando se fala de mulher é lógico que se empregue a forma feminina. Assim, presidenta é a melhor escolha. A Tarde, jornal a que o citado profissional presta serviços, vive uma crise de identidade quanto a este termo. Às vezes grafa a presidenta, noutras tasca a presidente. Os veículos de Itabuna e Ilhéus repetem a presidente, com uma só exceção: o Agora (herança de quando era editado por Walmir Rosário) escreve (e bem) a presidenta.

“A MINISTRO DILMA ROUSSEF”

Sem intenção de firmar jurisprudência (que sei eu?), imagino que a presidente nasceu por “contaminação” (os gramáticos chamam analogia) com palavras do tipo gerente, cliente, nubente, consulente – que têm os dois gêneros, quer dizer, não variam. Nesse grupo estão também docente, aderente, paciente, suplente, coerente, consciente, complacente, congruente, demente e muitas outras. Presidente é do grupo de parente, palavra masculina, tendo, portanto, uma forma feminina: o presidente, a presidenta; o parente, a parenta. Deve ser isso. Ou desconhecimento elementar da língua portuguesa. Basta olhar o dicionário e ver que presidenta é feminino de presidente. É curioso que a imprensa chama “a ministra Dilma Rousseff”, não “a ministro…”, e coisas parecidas: reitora, vereadora, prefeita, secretária, escritora… por que não presidenta – palavra que aparece como verbete independente no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa e também no Houaiss e no Aurélio? O Houaiss, neste caso, até oferece um exemplo: “a presidenta da Nicarágua”.

RESPEITO AO GÊNERO FEMININO

Jornalista e filólogo, Marcos de Castro (ex-Rede Globo) nos dá uma explicação de ordem, digamos, ideológica. Para ele, essa construção esdrúxula (a presidente, que lembra o salsicha, quase nos força a um nó na língua) é fruto do machismo gramatical: a presidente lembra que o cargo é masculino e que estaria, ocasionalmente, ocupado por mulher. Diz lá o autor de A imprensa e o caos na ortografia (foto): “As mulheres vêm sofrendo, através da história, com a permanente situação de inferioridade para a qual são calcadas pelos homens. Mas é tempo de reagir com grandeza, não como fez há tempos uma bobalhona nos Estados Unidos comandando uma grotesca queima de sutiãs. É tempo de reagir de maneira séria, exigindo, por exemplo, que os cargos importantes, os cargos cuja ocupação exige um comportamento digno (que o Governo do Distrito Federal não seja luz a iluminar esse caminho) tenham tratamento através do bom e velho gênero feminino”.

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SEM CAMISA, NÃO DÁ!

Num simpático restaurante ilheense, em companhia de gentil senhora mineira (turista a quem eu mostrava a cidade), discutíamos o cardápio, na busca da melhor opção. Eis senão quando adentraram o recinto dois caras de torso nu, como se estivessem na casa da Mãe Joana. Tão logo me recuperei da surpresa (e da vergonha pela senhora que me acompanhava), pedi ao gerente explicações sobre tão inusitado proceder. E dele ouvi, que esse costume de botocudo que era permitido, “por se tratar de uma cidade praiana”. Retruquei-lhe, de pronto, que não se tratava de praia, mas de bons modos, pois gente civilizada não frequenta local público sem estar adequadamente vestida. Ilhéus oferece, em ônibus, supermercados, bares e restaurantes, um espetáculo constrangedor: indivíduos exibem suas panças e, algumas vezes, chegam a mostrar partes íntimas do corpo, à frente e atrás.  Os que fazem isso, tanto quanto quem os aceita e justifica, são carentes de educação fundamental. Mas, pelo visto, não adianta reclamar. Em nome da cidade, pedi desculpas à senhora mineira e fomos almoçar, por sugestão dela, no seu hotel, a portas trancadas, para evitar visitas inoportunas. Como se diz nas gerais (as do futebol): valeu!

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(O.C.)
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<h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3>
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UNIVERSO PARALELO

O CHAMADO IRRESISTÍVEL DA SANFONA

Ousarme Citoaian

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O Milagre de Santa Luzia (foto), filme que estreou no fim do ano em várias capitais (Salvador inclusa), é uma celebração da sanfona. Trata-se de uma “visita” do músico Dominguinhos aos mais diversos pontos do vasto Brasil que puxa o fole consagrado por Luiz Gonzaga. Foi o velho Lua quem abriu as portas para os sanfoneiros e criou no panorama cultural do País uma cadeira cativa para esse instrumento (antes disso, algo a ser confinado aos grotões). O longa-metragem de 104 minutos (com direção de Sérgio Roizenblit) segue Dominguinhos por vários pontos do Brasil, encontrando os melhores sanfoneiros disponíveis. Com depoimentos de Sivuca, Patativa do Assaré e outros, o filme faz um mapeamento das regiões brasileiras onde a sanfona se estabeleceu.

LUIZ GONZAGA, SANFONA E SIMPATIA

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Dominguinhos, que não entra em avião nem amarrado, conduziu o trabalho a bordo de sua caminhonete, por mais de 30 mil quilômetros. Além dele, filho espiritual de Luiz Gonzaga (foto), lá estão Renato Borghetti, Mário Zan, Osvaldinho do Acordeom, Sivuca e Pinto do Acordeom (paraibano de Conceição do Piancó). Mas, além de Dominguinhos, paira a figura magistral do filho de Januário. O sanfoneiro de Exu nasceu no dia de Santa Luzia, por isso o título do filme. Foi Gonzaga, com sua sanfona e sua simpatia, quem deu amplitude nacional à música dos grotões nordestinos. Organizou-a num sistema musical, renovou-lhe a poética (para tanto convocou Zé Dantas e Humberto Teixeira) e deu-lhe a expressão sonora que hoje ecoa por todo o Brasil. Como extraordinário artista pop que era, universalizou o forró (transformado em “dança da moda”) e atraiu para o gênero músicos consagrados. Cai-lhe muito bem o título de Rei do Baião.

FRANK SINATRA DO FORRÓ

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Dominguinhos (na foto, com Sivuca) à frente, O milagre mostra os mais diversos locais onde a sanfona ganhou destaque e de onde surgiram os maiores intérpretes desse instrumento. Sanfona, gaita, acordeom, gaita-ponto ou oito baixos (a pé-de-bode com que Gonzaga fez os primeiros acordes), todo o campo do instrumento está representado. O filme deixa às claras que, apesar dessa universalização (é ouvido em todo o  Brasil), o som da sanfona tem uma marca indelevelmente nordestina – imposta pelo carisma de Luiz Gonzaga, seu maior tocador. Um momento engraçadíssimo de O milagre de Santa Luzia: num arrasta-pé, um sujeito de maus bofes, portando uma peixeira de avantajado tamanho, “convida” Pinto do Acordeom a mudar de repertório (a cena tem Dominguinhos, a morrer de rir, com o relato do sanfoneiro).

Clique e veja.

ITABUNA NÃO ESTÁ SÓ

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No mesmo ano em que Itabuna foi fundada, 1910, nasceram: Django Reinhardt, guitarrista de jazz (23 de janeiro); David Niven, ator (1º de março); Aroldo de Azevedo, geógrafo (3 de março), Tancredo Neves, político (4 de março); Akira Kurosawa, cineasta (23 de março); Nelson Carneiro, político (8 de abril), Paul Sweezy, economista (10 de abril); Chico Xavier, líder religioso (2 de abril), Custódio Mesquita, compositor de MPB (25 de abril); Ranieri Mazzilli, político (27 de abril); Aurélio Buarque de Holanda, dicionarista (2 de maio); Artie Shaw, clarinetista de jazz  (23 de maio), Paullete Goddard (foto), atriz “chapliniana” (3 de junho); Jacques Cousteau, oceanógrafo (11 de junho); Haroldo Lobo, compositor de MPB (22 de julho); Adoniran Barbosa, compositor de MPB (6 de agosto), Madre Teresa de Calcutá, missionária (26 de agosto); Miguel Reale, jurista (6  de novembro); Rachel de Queiroz, escritora (17 de novembro); Noel Rosa, compositor de MPB (11 de dezembro) e Jean Genet, teatrólogo (19 de dezembro).

ILHA DOS TRÓPICOS FAZ 20 ANOS

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Na literatura regional, 2010 marca os 20 anos do lançamento de A ilha dos trópicos/1990, de Marcos Santarrita (foto), 40 de Antologia dos contos brasileiros de bichos/1970, de Cyro de Mattos e Hélio Pólvora, 90 anos do nascimento de Emmo Duarte (1920, em dia e mês não sabidos); 80 de Telmo Padilha (5 de maio de 1930); 20 anos da morte de Adonias Filho (2 de agosto de 1990) e 10 da de Euclides Neto (5 de abril de 2000). Alguns desses nomes e eventos serão abordados aqui no Universo Paralelo. Hoje, Rachel de Queiroz.

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À BEIRA DO RIO CACHOEIRA

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Rachel de Queiroz nasceu com Itabuna. E viveu na cidade emergente (“num sobradinho que ficava perto do rio”), tudo indica que por menos de um ano, entre 1932 e 1933. Eu me pergunto se ela sabia que tinha a mesma idade da terra que a acolhera. Evidentemente que não sabia, mas me divirto ao pensar nisso. Rachel chega a Ilhéus em 1932, num navio da Baiana, é recebida por Jorge Amado, permanece alguns dias no palacete de João Amado (foto acima), pai de Jorge, para só depois transferir-se, de trem, para Itabuna. Ela vinha de Fortaleza, por Salvador, recém-casada com um funcionário do Banco do Brasil, José Auto da Cruz Oliveira, o Zé Auto, que para Itabuna fora transferido. Os dois eram militantes do Partido Comunista Brasileiro. Ela “perigosa agitadora”; ele, nem tanto.

IMPALUDISMO, “MISTÉRIO” E GRAVIDEZ

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A escritora sofre o diabo com o impaludismo, quase morre, pois se recusou a tomar quinino (então, o medicamento de escolha), que era abortivo, e ela estava grávida. Rachel (foto) sentiu-se grávida muito rapidamente (só tinha dois meses de casada), circunstância que ela mesma tinha dificuldade de entender. “Não se podia pensar em antecipações, porque Zé Auto, até o casamento, nunca tinha chegado perto de mim, senão com um simples abraço para dar adeus, e chegou ao Ceará três dias antes de nos casarmos”, depõe a escritora. Mistério!… Zé Auto, nas horas vagas de uma atividade  no Banco do Brasil descrito pela mulher como “verdadeira tirania” (ainda não havia leis trabalhistas), atendia ao chamamento do estro. Inspirado no frio incontrolável que o impaludismo causava a Rachel, dedicou-lhe uma versalhada, da qual a história registrou esta passagem: “Me dá lã pra comer,/que o meu frio é por dentro”. Por certo, insuficiente para ganhar o Nobel de Literatura.

LENA WEBER, A MOÇA LIBERADA

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Nesse tempo de doença e gravidez ela foi assistida por “uma pessoa extraordinariamente boa, generosa e maternal, uma negra alta, forte, talvez sexagenária: Carmelita”. Essa Carmelita, ainda segundo Rachel, “fora dona de uma pensão de mulheres e, parece, também ela própria fora rapariga, como diziam por lá, e tinha haveres”. Rachel de Queiroz lembra, do tempo em Itabuna, também de Lena Weber, “uma moça judia suíça (uns irmãos seus tinham loja na cidade)”, que ficou sua amiga e a ajudou naquela quadra de dificuldades e solidão à beira do Cachoeira.  A escritora diz que “Lena lia muito, era liberada sexualmente, tivera seus amores com vários rapazes”. Rachel ficou abismada com tamanha liberdade, pois tanto na casa dela, uma tradicional família cearense, quanto nas hostes do Partido Comunista, o moralismo era muito severo.As raposas do PC tinham uma regra inflexível: “Não confundir questão social com questão sexual”. O quarteto feminino (uma recém-casada de apenas 22 anos, uma “dona de pensão de mulheres”, uma moça “avançada” e a pequena Clotilde no ventre de Rachel) tinha tudo para dar errado, mas não deu. Já tendo publicado O quinze (e com João Miguel no prelo), quando aqui esteve, ela lançou em seguida Caminhos de Pedras, As três Marias, O Galo de Ouro e vários outros títulos, consolidando-se como uma das maiores escritoras do Brasil, rumo à Academia Brasileira de Letras (primeira mulher ali admitida). Clotildinha nasceu em Fortaleza, de parto prematuro, e morreu aos 18 meses. Rachel de Queiroz e Zé Auto se desquitaram em 1939. Estas informações estão no livro Tantos anos (foto), depoimento de Rachel à irmã Maria Luíza de Queiroz (Editora Siciliano/1998).

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NÃO É PORTUGUESA, COM CERTEZA

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O ministro Geddel Vieira Lima (foto), de quem vocês, certamente, já ouviram falar, gravado à socapa em conversa telefônica, saiu-se com esta pérola, sobre o prefeito João Henrique: “não é uma figura que a gente pode estar confiando no que ele coloca”. Valha-me Deus! Que dialeto será esse, pois português não é? Uma língua, qualquer que seja, tem um padrão, um conjunto de regras a obedecer. O texto que as transgride não leva ninguém à cadeia (igualzinho ao dia a dia da política brasileira), mas recebe uma punição, digamos assim, subjetiva: o texto é “excomungado”, não é reconhecido como integrante daquela língua, mas de outra, sabe-se lá qual. A fala gedelliana, portanto, já nasceu expulsa do mundo lusófono, pois feriu-lhe de morte alguns princípios. O ministro, fiel a seu estilo, deu um pontapé em áreas íntimas e sensíveis da gramática. Na tumba, Camões e Machado de Assis espumam e rangem os dentes. Eu também. Só que ao vivo, se me permitem o trocadilho.

LULA, REI DOS GRAMÁTICOS

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O texto é um prodígio. Grosso e curto, concentra surpreendente quantidade de asneiras: regência verbal equivocada, emprego abusivo do gerúndio e o verbo “colocar” com sentido pífio. É erro em excesso para uma construção tão pequena. Se os professores de língua portuguesa perdessem tempo a ler fofocas de políticos – em infindável processo de conspiração para chegar ao poder – teriam na frase referida interessante material para usar em sala de aula (foto): um exemplo vivo e rasteiro da comunicação vazada em dialeto que se pensa língua portuguesa, mas não é. A canelada que o operoso ministro (com formação universitária) deu na gramática faz do seu chefe, o presidente Lula (sem maior formação escolar), Rei dos Gramáticos. Melhor: Príncipe dos Filólogos.

DOIS RIOS DE LÁGRIMAS

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Atrás da porta, de Chico Buarque e Francis Hime, foi feita em 1972, para Elis Regina, marcando o fim do casamento da cantora com Ronald Bôscoli. Este vídeo (de um especial da Rede Globo/1980) atinge outro casamento, o segundo, com César Camargo Mariano (na foto, com a cantora). Elis está abatida ao começar a canção e vai-se desmoronando à medida em que “sente”  os versos, como se descrevessem sua tragédia pessoal  É uma mulher desesperada, devastada pelo sentimento, pois sua união – e disso a platéia não sabe – chegara ao fim na noite anterior, é o que diz a lenda (César, a outra face da tragédia, acompanha Elis, ao piano). Ela tenta cobrir o rosto com os cabelos, a mão em concha, procura controlar-se, talvez fugir e se esconder de si mesma. Entregue aos leões, sabe que o show do circo tem de continuar. E canta, canta, canta, como se cantasse para morrer. Ao levantar a cabeça, está banhada em lágrimas (eu, em soluços!). Sob tensão irresistível, a artista perde o controle de sua celebrada técnica: a alma dilacerada, já a voz falhando, minha cantora preferida sussurra que, se preciso for, rastejará do palco ao infinito “até provar que ainda sou tua”. Um momento único da canção brasileira.

Se seu coração não tem feridas sentimentais mal cicatrizadas, clique aqui.

(O.C.)
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<h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3>
<div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

UNIVERSO PARALELO

“QUERO ASSISTIR AO SOL NASCER”

Ousarme Citoaian

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A meu entender de ouvinte, nenhuma lista de melhores da MPB poderia excluir Antônio Carlos Candeia Filho, o Candeia (foto). Nascido em casa de bamba, criado a feijoada, caipirinha e partido alto, Candeia era autêntica liderança do samba, empenhado em manter a tradição. Reuniu pessoas, criou a Escola de Samba Quilombo e, publicou, em parceria, o livro Escola de samba, árvore que esqueceu a raiz. Policial com fama de truculento, recebeu um tiro na coluna e perdeu o movimento das pernas. A partir daí, sua produção passa a refletir um pungente diálogo com a fatalidade, sabendo ter a morte nas imediações. Em cadeira de rodas, amargurado, não saía de casa, não recebia ninguém, mas prosseguia na resistência: um verso seu diz “de qualquer maneira, meu amor, eu canto”. Pintura sem arte, Peso dos anos, Anjo moreno, Preciso me encontrar e Eterna paz são seus sambas mais notáveis. Morreu em1978, aos 43 anos.

GRITO QUE VEM DA ALMA

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Pintura sem arte, que teve uma ótima gravação de Alcione (foto), a cantora que mais gravou Candeia. Nesse samba está escancarado o sofrimento do poeta, e seu orgulho, também ferido de morte: “Mas se é pra chorar/ Choro cantando/ Pra ninguém me ver sofrendo/ E dizer que estou pagando”. A cantora maranhense gravou também O mar serenou (que se tornara famosa na interpretação de Clara Nunes) e outras seis composições do sambista carioca. A obra-prima de Candeia, entretanto, é Preciso me encontrar – um lamento arrancado das entranhas do homem preso à tragédia irremediável: “Deixe-me ir/ Preciso andar/ Vou por aí a procurar/Rir pra não chorar”. O texto, muito bem escrito, é exemplo da boa regência do verbo “assistir” e correto emprego do infinitivo, onde tantos tropeçam: “Quero assistir ao sol nascer/ Ver as águas dos rios correr/Ouvir os pássaros cantar”. Mestre em MPB, sem dúvida.

Clique e saiba por que famosa estrela de música baiana tanto tentou ser Marisa Monte, sem êxito.

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AOS MESTRES, COM (MUITO) CARINHO

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Adoro listas (de músicas, filmes, livros, mulheres bonitas, políticos corruptos etc.), pela polêmica que tendem a provocar. Elas são, em geral, imperfeitas, na medida em que refletem o gosto pessoal de quem as fez, nem sempre alcançável pelo público a que se destina. Tenho em mãos a relação das Cem canções essenciais da MPB, que a revista Bravo! (foto) publicou há algum tempo. “Uma gracinha”, como diria aquela simpática loura do sofá (com todo respeito), que em outros tempos também solfejou umas canções, embora um tantinho desafinada. No topo (as dez mais votadas), ficaram: 1) Carinhoso (Pixinguinha/Braguinha), 2) Águas de Março (Tom Jobim), 3) João Valentão (Dorival Caymmi), 4) Chega de Saudade (Tom Jobim/Vinicius de Moraes), 5) Aquarela do Brasil (Ary Barroso), 6) Tropicália (Caetano Veloso), 7) Último Desejo (Noel Rosa), 8) Asa Branca (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira), 9) Construção (Chico Buarque) e 10) Detalhes (Roberto Carlos/Erasmo Carlos). Um trecho defensável da relação geral, embora pareça tentar agradar a variadas preferências.

Mas listas são listas, sempre sujeitas a aplausos e apupos.

O MAIOR NOME DA MODERNA MPB

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Em certo sentido, a relação me satisfaz: cinco canções de Noel Rosa (foto), mesmo para fãs como eu, está além da expectativa. Tom Jobim, o maior nome da moderna MPB, comparece com dez composições e ainda teria direito a várias outras. Os demais escolhidos: Chico Buarque (10 músicas), Caetano Veloso (5), Caymmi (4), Ari Barroso (3), Gilberto Gil (3), Lupicínio Rodrigues (3), Cartola (2), Luiz Gonzaga (2), Nelson Cavaquinho (2), Pixinguinha (2), Paulo Vanzolini (2), João Bosco-Aldir Blanc (2), Paulinho da Viola (2), Milton Nascimento (apenas 1), Antônio Maria (só 1), Geraldo Vandré (1), enfim, a presença dos mestres indefectíveis. Mas os furos são enormes, com alguns tangenciando o crime contra a canção popular brasileira.

MENESTREL DO SERTÃO PROFUNDO

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Além da já vista Preciso me encontrar (Candeia), a lista “grita” a ausência de Inútil paisagem, Vozes da seca, Viagem, Apelo, Andança, Atrás da porta, Até quem sabe, Modinha, Coração de estudante e Ilusão à toa, para não nos alongarmos. Quanto aos autores, não se explica o silêncio a respeito de Edu Lobo e Baden Powell, por exemplo. Mas lá estão coisas como As curvas da estrada de Santos, Você não soube me amar, Óculos e Exagerado (de Cazuza, seriam adequados  Blues da piedade e Codinome beija-flor). Em todo caso, a lista nos surpreende (em centésimo lugar!) com Cantiga de amigo, de Elomar Figueira de Melo (foto), menestrel do sertão profundo. Deve ser o cumprimento de penas alternativas pelos crimes.

JORNAIS, BLOGS E VÍTIMAS FATAIS

No fim do ano e começo de 2010 registraram-se muitas vítimas fatais no trânsito da região. Um dos principais jornais diários de Itabuna estampou: “Grave acidente deixa três vítimas fatais na BR-101”; um importante blog anotou: “Acidente em Ibicaraí deixa três vítimas fatais”; outro: “Três vítimas fatais em violento acidente”; o mais importante semanário da região foi na mesma linha: “Operação Fim de Ano registrou duas vítimas fatais”; outro dos principais jornais diários de Itabuna saiu-se com esta: “Pároco de Buerarema é vítima fatal em acidente na BR-101”; por fim, o melhor dos blogs (cujo nome não digo porque o pessoal do Pimenta sofre de modéstia incurável) também se mostrou contaminado e disse, a propósito de um acidente, que “profissionais de saúde não confirmam a existência de vítimas fatais”.

COM UM PÉ NA TRAGÉDIA GREGA

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A vítima fatal é como a girafa do zoológico, que nunca penetrou a compreensão do português, mesmo que lhe tenha, em absoluto desrespeito, lambido a careca. O gajo estava certo: um animal daquela altura, com um pescoço descomunal terminado numa ridícula cara de gafanhoto, do qual emergem dois surpreendentes chifres parecidos com antenas, não existe. A vítima fatal é assim: campeã de popularidade nas redações, dela não se tem notícia na língua culta. Fatal significa, de acordo com vários dicionários, o que há-de acontecer, inevitável, funesto, seguido de morte, prescrito pelo fado ou destino. É algo com um pé na tragédia grega. Todos se lembram de Édipo Rei (foto), que nasceu fadado a matar o pai e casar-se com a própria mãe, por determinação inapelável dos deuses. Pois é. Fatal é o que mata. A dengue é fatal, mata as pessoas. O acidente foi fatal, porque matou o motorista. Alhures, escrevi, com pesar, sobre a grande Elis Regina: “Uma mistura de tranqüilizantes, cocaína e álcool lhe foi fatal”. A mistura matou a artista, para meu desespero.

UMA VÍTIMA BEM TRAPALHONA

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A vítima fatal teria, para fazer jus ao adjetivo que carrega pregado ao nome, que matar alguém. Como a vítima, por definição, está morta, teria que se valer de forças imponderáveis, para provocar algum acidente, cair por cima de alguém, estrangular um desafeto, essas coisas só possíveis em filme de terror, Ou no fantástico (não o da Globo, mas o da ficção). A vítima fatal (a vítima que mata) teria de ser muito… desastrada, bem trapalhona. Já se vê que é impossível a alguém estar morto e, ainda assim, ser fatal. Morto, até que me provem o contrário, não mata. Mas existe gente fatal, funesta, como Jararaca Ensaboada, que onde pisa mata a grama. A PM Anamara Barreiros de Brito (foto), de acordo com a abalizada e insuspeita opinião do ex-governador Paulo Souto, é fatal: deixa o bandido paralisado, pensando besteira e até com vontade de ser honesto. Certo prefeito foi fatal para Itabuna; outro foi fatal para Ilhéus. O governo tem prazo fatal para receber os impostos escorchantes que nos cobra… Dirão que vítima fatal já está (quase) consagrada pelo uso. Creio que seria a lamentável consagração do erro.

MAÇÃ MADURA E DESAMPARO

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Mas Anamara, por quem o trovador Agulhão Filho se derrete feito manteiga no calor de janeiro, tem, se não na PM, antecedentes no cinema: Rita Hayworth (foto) foi a mais famosa mulher fatal de todos os tempos. A cena do strip-tease que ela faz em Gilda (Charles Vidor/1946) tornou-se histórica. E ela nem faz, é só uma sugestão: La Hayworth tira apenas a comprida luva de um dos braços. Foi bastante. Nunca houve mulher como Gilda. Igual à minha vizinha do 6º andar: quando a vejo, sinto (além do assalto de ideias impublicáveis) um friozinho na barriga, a respiração apressada, um pouco de taquicardia e suor nas mãos. Impávido colosso, ela passa por mim e não olha. Deixa no ar uma fragrância de rosas amassadas em tarde de primavera, o que me lança numa espiral de absoluto desamparo. Eu, vítima; ela, fatal.

COMO UM LUAR DESESPERADO

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Modinha foi gravada pela primeira por Elizeth Cardoso, no lendário LP Canção do amor demais, de 1958. Vocês lembram: é aquele disco que tem Chega de saudade, com João Gilberto ao violão, e que marcou o nascimento da Bossa-Nova. O pequeno grande poema de Vinícius (musicado pelo maestro soberano) ganhou, ao longo de mais de meio século, muitas gravações. Eu tenho as de Elizeth Cardoso, Alaíde Costa, Elis Regina e Teresa Salgueiro (foto), uma portuguesa incrível, que canta sem nenhum sotaque. Além da de Elis Regina, é óbvio. Há notícia de registros da sempre correta e esquecida Jane Duboc e de Olívia Byinton, que não acrescenta muito. Betânia também gravou, mas eu não ouvi e não gostei.

Aqui, nossa homenagem a Elis Regina, que morreu a 19 de janeiro de 1982.

JOTAÉ LEVA AFLIÇÃO AO COMÉRCIO

Vi Jararaca Ensaboada em loja chiquíssima do Shopping Jequitibá, provavelmente em manobras para povoar seu guarda-roupa de verão. Não me apraz saber o que a nefasta criatura comprou, nem o tamanho da despesa contraída. Mas aposto dois contra um como a conta foi “pendurada” e que as ações para “despendurá-la” vão provocar choro e ranger de dentes. Daqui a uns trinta dias, quando vencer o primeiro papagaio, haverá lojista em aflição, incerteza e desesperança, propondo ao travesseiro, em longa jornada noite adentro, esta profunda indagação filosófico-existencial: “Por que não fui ser bancário, em vez de comerciante”?
(O.C.)
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UNIVERSO PARALELO

ESTOU DE LUTO HÁ 28 ANOS

Ousarme Citoaian

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É quase obrigação lembrar que perdemos, numa semana como esta (19 de janeiro), uma cantora chamada Elis Regina Carvalho Costa (foto). Aconteceu em 1982, portanto, há 28 anos. Elis ainda é considerada por muitos críticos e músicos, quase três décadas depois, a maior cantora brasileira de todos os tempos. Essa qualidade excepcional se deve à combinação, em porções certas, de emoção e técnica de cantar (em Betânia, emoção quase sem técnica; em Gal, técnica quase sem emoção).

Nascida em 1945 (em Porto Alegre), a artista teve sua voz imortalizada em 47 discos (em formatos diversos) durante 18 anos de carreira, a partir de 1961. Teve morte trágica e prematura, aos 36 anos, quando se encontrava em plena forma. Uma mistura de tranqüilizantes, cocaína e álcool lhe foi fatal. Eu estou de luto até hoje.

CEMITÉRIO DOS MORTOS-VIVOS

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Chamava a atenção em Elis Regina a coragem, cívica e artística. Acusada de colaborar com os militares (cantou o Hino Nacional numa solenidade, em 1972),  foi inserida no “Cemitério dos mortos-vivos”, impiedosa seção que o genial cartunista Henfil (foto) mantinha no Pasquim. (lá foram “enterrados” Carlos Drummond de Andrade, Pelé, Marília Pera, Paulo Gracindo, Clarice Lispector, Tarcísio Meira e Glória Menezes). Ficou amiga de Henfil  e se fez musa do movimento pela anistia, ao gravar O bêbado e o equilibrista (João Bosco-Aldir Blanc), em 1979. Essa música, com uma carga de emoção que o tempo não apaga, é considerada seu ingresso definitivo nas hostes intelectuais contrárias à ditadura. Antes, teria dito (o que não é confirmado) que o Brasil era governado por gorilas – e só sua popularidade lhe teria evitado a prisão (o “cemitério” era tão sectário que, no fim, Henfil também se “enterrou”…).

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LAMENTO PELOS TORTURADOS

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O texto de Aldir Blanc tem elementos nem sempre percebidos à primeira audição: o bêbado com chapéu coco é homenagem a Carlitos; o irmão do Henfil é o sociólogo Betinho, exilado; as marias e clarices são mulheres que choram pelos seus homens torturados e mortos pela ditadura – uma delas se chama mesmo Clarice (foto), mulher do jornalista Wladimir Herzog, assassinado no Doi-Codi). Uma dor assim pungente não há de ser inutilmente… A esperança dança na corda bamba, pode até se machucar, mas está viva, é a última a morrer – afinal, mesmo sob violência e iniqüidade, o show tem que continuar. Genial! Leio num site que O bêbado e o equilibrista é uma das canções mais executadas do mundo. Acho justo.

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A FORÇA DADA AOS NOVOS

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Nunca antes na história desse país houve uma estrela que tanto desse a mão (e emprestasse a voz) aos novos compositores (o ótimo Emílio Santiago, por exemplo, gosta de gravar o que já é sucesso). Elis Regina se arriscou com João Bosco e Aldir Blanc (foto), além de registrar os então desconhecidos Renato Teixeira, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Belchior, Tim Maia, Sueli Costa, Ivan Lins e outros. A maioria dessas gravações está na lista de “clássicos da MPB”. Fantástico (não o da Globo, mas o da vida real). Milton Nascimento foi o mais agradecido de todos, pois a elegeu sua musa e a ela dedicou várias composições.

Este mês, mostraremos três vídeos de Elis Regina. Aqui, o primeiro, com o Hino da anistia, ao vivo.

O HOMEM E A BARBA DO HOMEM

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A já um tanto prateada barba do professor Jorge de Souza Araujo (foto) esconde um dos nomes mais significativos da literatura produzida no Brasil. Não por coincidência (Jung diz que não existe coincidência, existe sincronicidade), é uma barba que nos lembra o muito citado e pouco lido Karl Marx: Jorge é militante marxista e, nesta condição, arriscou-se ter as unhas arrancadas – ou ser submetido a pau-de-arara, choque elétrico, afogamento e mimos outros com que a “Gloriosa Revolução de 64” tratava seus desafetos.

Se, à época, não fosse imberbe, arriscar-se-ia a ter a barba cortada a biscó, pois estas eram as regras do jogo – e os ditadores nos queriam todos devidamente depilados, pois barba grande e cabelo idem eram sinais inequívocos da intenção de derrubar o governo. Esse sertanejo de Baixa Grande, para o bem de todos nós, passou ao largo da tortura, sem abdicar de suas convicções: se perdeu anéis, ao menos manteve intatos os dedos, as unhas e o buço emergente, de grande futuro.

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BOM OUVINTE E BOM FALANTE

Jorge Araujo é intelectual completo: escreve poesia, conto, crônica, ensaio, pesquisa, teatro e ainda encontra tempo para a sala de aula, orientar teses de mestrandos, visitar o bar e charlar com antigos ou ocasionais. Sabe administrar o tempo e dissimular intenções: quem o vê diante de uma cerveja, em papo comprido de fim de tarde, desapressado, bom ouvinte e bom falante, pensa que descobriu mais um desses boêmios sem relógio, responsabilidade ou patrão. Crasso erro. Jorge tem um entendimento quase bíblico da adequação da hora. Conhece o tempo de plantar, colher, flanar, beber, namorar, casar (atividade a que se tem dedicado com impressionante persistência) e trabalhar, que ninguém é de ferro. Quando se enfurna na biblioteca, a ler, pesquisar, anotar e produzir, esquece o mundo do lado de fora, seja em sua casa, seja em outros sítios, pois ele vai aonde a informação estiver. Coleções públicas ou particulares, no Rio, São Paulo, Oropa, França e Bahia recebem frequentes visitas suas. Sequer os alfarrábios de poeira secular escondidos na Torre do Tombo, em Lisboa, conseguiram escapar à sua perseguição, quando esteve à cata de um certo padre Antônio Vieira. Por certo, contabiliza algumas crises de alergia – mas o que não se faz pela arte?

“ELEMENTO PERIGOSO”

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Feitas as contas, de Eu nu e algumas curtas estórias, em 1969,  até Floração de imaginários, em 2008, ele publicou quase um livro por ano. A leitura em si é tema recorrente (“Ler é evitar que a alma infarte”, diz em Agenda de emoções extraviadas), mas o espectro de interesse do autor é muito amplo: vai do citado Vieira à análise literária propriamente dita (Jorge Amado, Jorge de Lima, Graciliano), do mito do conquistador D. Juan às pegadas de Anchieta na praia, com passagem pelo teatro – Auto do descobrimento: o romanceiro de vagas descobertas (foto)  – sem gastar o espaço cativo da crônica de jornal (Ainda que nos precipitem) e da poesia (Os becos do homem, com prefácio de Antônio Houais). O liame político jamais foi rompido, pois o autor não pode e não quer fazê-lo. Está lá, em “Escrevo para me manter vivo”, no livro Caderno de exercícios – algumas reflexões sobre o ato de ler: “A escrita é minha prática subversiva, sempre a minha forma de ver o outro lado do mundo, de ver não oficialmente como me convidam a ver”. Conforme se vê, Jorge Araujo não se emenda: continua, depois de grande, a ser “elemento perigoso”.

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PATRIMÔNIO CULTURAL

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A última proeza literária de Jorge Araújo, abstraindo-se uma premiadíssima biografia de Graciliano Ramos, é o ensaio Floração de imaginários (foto), editado pela Via Litterarum/Itabuna). Vão pensar que minto, mas me arrisco a dizer: são 77 romancistas com suas obras analisadas num espaço de 490 páginas – o que significa dizer uns 380 livros lidos, pesquisados, resenhados, virados pelo avesso, mas todos tratados com generosidade e respeito. Se você ouviu falar de um obscuro baiano que escreveu um romance há anos tantos (desde que no século XX), ele estará em Floração, o maior acervo de conhecimento da literatura baiana que já se publicou. O livro ganhou o prêmio Braskem de ensaios, mas isso não atesta sua verdadeira dimensão. Merece muito mais, pois é o manual, o inventário, o vade-mécum, o alfa e o ômega, o “quem-é-quem” do romance neste Estado.

Esta coluna não se atribui tamanho, peso, engenho e arte suficientes para se aventurar na avaliação intelectual de Jorge Araujo, tarefa para críticos, exegetas e doutores da literatura. Mas de uma coisa temos certeza: trata-se de indivíduo pleno de generosidade, distante de arrogâncias, limpo de soberbas, que jamais se utilizou de sua forte erudição para humilhar pessoas ou elevar-se pessoalmente. Nunca quis ser “superior” a ninguém. Nem precisa.  Creio que se fôssemos uma terra dada a cultivar valores intelectuais (não sei se existe alguma assim), Jorge Araujo não poderia sair à rua sem segurança reforçada, como acontece com as grandes estrelas. No dia em que Itabuna e Ilhéus criarem juízo vão tombá-lo como patrimônio cultural da região. E eu estarei lá, batendo palmas.

TRAUMA DE JARARACA ENSABOADA

Jararaca Ensaboada leu um livro quando estava na escola elementar, por insistência da professora. A aventura causou-lhe tamanho trauma que ela foi aconselhada, em nome da saúde, a nunca, jamais, em tempo algum repetir esse tresloucado gesto. Há dias, numa súbita tentativa de ascender à erudição, procurou, com a ajuda de um psicanalista de hora regiamente paga, ler as orelhas de Dom Casmurro, e se deu mal: o esforço levou a nefanda criatura a tal estado de histeria que o psicanalista de hora regiamente paga lhe recomendou procurar o psiquiatra, com urgência urgentíssima.

O UNIVERSO DERRAPOU

Na semana passada, os leitores desta coluna foram muito bondosos, ao não reclamar de dois erros que berravam no texto: numa “intromissão” do word, saiu agüenta, quando o correto, segundo o polêmico Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, é aguenta; e, por injustificável descuido, escrevi “o Luiz Viana Filho…” – detestável forma de linguagem comum no Sudeste, mas alienígena entre nós. Nordestino que escreve “o Fulano”, em vez do simples “Fulano”, exercita um ridículo pernosticismo. Foi o que eu fiz, sem intenção (os erros foram rapidamente corrigidos, graças à diligência dos rapazes do Pimenta). Peço desculpas e agradeço a todos pela generosidade.
(O.C.)
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UNIVERSO PARALELO

A CASA DE DYLAN, BURDON E AGNALDO

Ousarme Citoaian

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É incerta a origem do clássico folk A casa do sol nascente, que teria chegado à América via colonos ingleses. The house of the rising sun é gravada desde 1933, por diversos artistas. O mais famoso arranjo, cantado por Eric Burdon, do The Animals, foi inspirado num show de Nina Simone (festejada vocalista de jazz), que cantou a The house antes de Bob Dylan (foto).

Os fãs de Dylan o acusaram de plagiar a versão do The Animals e ele, na moral, retirou a canção do repertório (aqui, uma contradição que não explico: ao que me consta, a gravação de Bob Dylan é anterior à do The Animals – o que torna o plágio uma impossibilidade. Aliás, o velho Bob anda com uma urucubaca danada: dia desses, passou pelo constrangimento de ter o clássico Blowin’ in the wind “interpretado” em pleno parlamento brasileiro pelo senador Eduardo Suplicy.
“(…) The house of the rising sun, com todos aqueles acordes  dançantes, saltou do aparelho de som e invadiu meus ouvidos, trouxe de volta os anos da dance e humilhou minhas articulações, lembrando a vítima que fui de mim mesmo, por culpa de um comportamento intolerante e esnobe.
Refresco minhas memórias esmaecidas: esta era, no longínquo 1965, a faixa de trabalho da banda The Animals, um grupo que disputava o gosto de quem amava os Beatles e os Rolling Stones, e que  foi revivida no fim dos setenta pelos ciganos da Santa Esmeralda, provocando verdadeiro “estouro” nacional. Entre aprender a música e derrubar a ditadura militar, minha geração preferiu a segunda escolha e fracassou rotundamente nas duas.
A história, impiedosa como é do seu costume, sepultou a ditadura e os Beatles (estes, apenas fisicamente, apresso-me a dizer, diante da previsível ira dos beatlemaníacos), fez dos Stones inesperados sobreviventes, com suas “titias” aí dando o maior banho na mesmice, enquanto do The Animals tudo que restou, ao menos para minha tribo, foi  The house
O que não é pouco. Quando Eric Burdon (ele era “o cara”), apoiado pelas guitarras do grupo, berra “There is a house in New Orleans/They call the rising sun…” é, como dizem alguns criativos redatores de tevê, “pra não deixar ninguém parado”. O mundo balança, as lembranças acordam, a vontade proustiana é de regressar a tempos de antanho e, não importa de que modo, recuperá-los, mesmo os sabendo irremediavelmente perdidos (…)”.
(LOPES, Antônio. “Caçador de mim”, in Estória de facão e chuva. Ilhéus: Editus/Editora da Uesc, 2005).

E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!

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No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as versões, a letra em português (de Fred Jorge) nada tem a ver com a americana, aliás, bem chinfrim. A original fala de uma casa de tolerância, ambiente barra pesada, um lugar impróprio para menores; já Fred Jorge, pelo vozeirão de Timóteo, diz: “A casa dos meus sonhos/ é feita de ilusão/ e vive sempre cheia de amor/ amor e solidão…”. O texto poético é pífio, mas, pelo menos, não chega a tirar o sono do juiz de menores. E vendeu feito pão quente em fim de tarde.

Fred Jorge (nascido em Tietê-SP) foi letrista de música, jornalista, escritor e, acima de tudo, o grande versionista (era este o termo) do rock americano, nos tempos da Jovem Guarda. Entre seus maiores êxitos (além de A casa do sol nascente) dá para citar, de memória, Estúpido cupido, Banho de lua e Lacinhos cor de rosa – três músicas que garantiram à cantora Celly Campello (foto) o título de Rainha do Rock Brasileiro, graças ao trabalho do versionista. Mas também houve Diana e Oh, Carol! (Carlos Gonzaga) e A noiva (Agnaldo Timóteo). Fred Jorge morreu em 1994, em sua cidade natal, na mesma casa em que nascera, e em estado de pobreza, sobrevivendo da aposentadoria do INSS, sem receber nenhum direito autoral.
Por fidelidade ao clássico, revivemos aqui o registro do The Animals, com vocal de Eric Burdon.

CAMÕES E A LÍNGUA TORTURADA

A língua de Camões tem cerca de 370 mil palavras, segundo o último Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp), da Academia Brasileira de Letras (ABL).
Por que as pessoas teimam em torturá-la, ao repetir termos e frases, se ela, riquíssima, oferece tantas possibilidades? A reincidência em não olhar para os lados, não explorar o amplo horizonte linguístico, é o caminho para aliar-se ao pior inimigo da comunicação: o lugar-comum (o locus comunis do latim, também identificado como  chapa, chavão, frase feita e outros), uma praga com presente brilhante e futuro promissor na nossa língua.
Claro que entre esses 370 mil vocábulos estão arcaísmos, neologismos, palavrões, calões, gírias e termos que revelam pedantismo, portanto, de menor interesse para a comunicação. Mas, se ficarmos somente com as categorias mais utilizáveis (substantivos, verbos, adjetivos e advérbios), ainda teremos umas 150 mil unidades para, devidamente combinadas, nos “traduzir” perante o mundo (este cálculo arbitrado, é da coluna, não da ABL).
Conta-se que um editor de jornal americano, cansado das repetições do seu jovem redator, lhe disse: “Filho, a língua inglesa tem mais de 60 mil palavras disponíveis. Use-as”.
Talvez a observação valha para todos nós, que lutamos com as palavras, “mal rompe a manhã”. Ler frequentemente, policiar a própria linguagem, ser implacável com os erros – enfim, fazer o melhor que possa ser feito, pois é isso que o redator deve ao seu público. Errar por ignorância é ser humano; errar por preguiça e desleixo é ser irresponsável. Embora o conselho de “ler, ler, ler” nunca seja seguido, é permitido dizer que há coisas que a gente só aprende com a leitura. O correto é casa… ou “caza”? É casa, segundo tenho lido nos bons autores. Como não existe regra que imponha a grafia, eu bem poderia grafar “caza”. Mas não grafo, porque a forma eleita por quem sabe escrever é casa (com “s”, não com “z”). Ler vale a pena.

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O escritor Hélio Pólvora (foto), faz tempo, já chamava a atenção para a diferença entre falar e dizer: muitos falam (ou escrevem), mas poucos dizem. E Hélio, bem aparelhado ensaísta, cronista e contista/novelista tem a crítica literária nacional a atestar que ele sabe… dizer – e o disse em muitos livros e artigos de jornal.

Expressões vazias de conteúdo (nos ensina o mestre itabunense) falam, mas não dizem. Prestam homenagem à banalidade, preenchem espaços no jornal (ou tempo de rádio e tevê), mas não comunicam, ou, ao menos, não exaltam a beleza da língua. Ao contrário, a atiram no abismo da anti-estética.

SEM ARROGÂNCIA OU PRECONCEITO

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“Um jornalista tem que escrever tão bem quanto um romancista”, prega a filóloga Dad Squarisi. Obviamente, jornalistas não precisam ter a desenvoltura dos ficcionistas (há quem diga que o jornalismo é só uma forma de subliteratura), mas são, igualmente, guardiões da linguagem: precisam perder a arrogância, o preconceito contra a gramática e, mais do que isso, ler os bons autores. Fazer isso não é ser sofisticado, mas reconhecer que tem responsabilidades com o leitor e com a língua em que se comunica.

Pensemos nisso, enquanto vemos uma listinha de lugares-comuns dos quais precisamos correr tanto quanto o capeta corre da cruz – isto também um lugar-comum, mas que me pareceu adequado, além de engraçadinho. Antes, não resisto a lhes passar esta frase de um anúncio do Sebrae, que está no ar, na tevê: “seu envolvimento faz toda a diferença”. Alguém ainda aguenta essa coisa de “fazer toda a diferença”? Vamos à lista:
No aniversário, quem ganha o presente é você; com certeza; fazer a diferença, não deixa ninguém parado, gente bonita, a sala ficou pequena, fazer o dever de casa, com pompa e circunstância, para se ter uma ideia, tragédia anunciada, deixa muito a desejar, gerar emprego e renda… E, para encerrar, este, mais recente e não menos detestável: “Um beijo no coração” (argh!)!

O GOVERNADOR E O LUGAR-COMUM

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Luiz Viana Filho era intelectual e político, filho de intelectual e político. Em 1968 (plena ditadura militar a que, aliás, ele serviu com denodo), estava – como governador “biônico” da Bahia – para assinar um decreto sobre o abastecimento de água, quando se deparou com a expressão “precioso líquido”. Recusou-se a assinar, sublinhou a heresia, escreveu ao lado “isto é mau português!” e devolveu o documento ao secretário. Biógrafo de Rui Barbosa e membro da Academia Brasileira de Letras, Luiz Viana Filho detestava lugares-comuns. “Mas gostava da ditadura”, diriam os maldosos.

Parece-me que tais expressões batidas não cabem em códigos, leis, matérias jornalísticas, crônicas, contos, enfim, qualquer coisa que exija comprometimento com a língua culta. São bem-vindas, no entanto, quando se proponhem ao picaresco, à ironia, ao gracejo – como nesta quadrinha do trovador Agulhão Filho, publicada aqui no Pimenta (a propósito da água de Itabuna):
Nosso líquido precioso
ganhou valor agregado:
está deveras gostoso,
depois que ficou salgado!…
(Uma curiosidade sobre Luiz Viana Filho: foi o único político brasileiro que nasceu em… Paris!).

PRECIOSO LÍQUIDO, SEM SAL

Em tempo: Jararaca Ensaboada, que não lê nem bula de remédio, e por isso escreve num dialeto que parece (mas não é) língua portuguesa, usa aquela expressão execrável, quando pede água. A fala da hipertensa criatura ao atônito garçom soa mais ou menos assim: “Quero uma taça com o precioso líquido, sem sal!”.
(O.C.)
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<h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3>
<div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

UNIVERSO PARALELO

AO REI DO ROCK TUDO É PERMITIDO

Ousarme Citoaian

Elvis Presley .

Quem nunca cantarolou Unchained melody, nem que fosse sob o chuveiro frio (em dia de apagão da Coelba), atire a primeira pedra. É a canção do filme Ghost, de Jerry Zucker/1990 (com Patrick Swayze e Demi Moore), que emocionou multidões. A canção (de Alex North, com letra de Hy Zaret), no entanto, é bem anterior ao filme, gravada pela primeira vez em 1955, por um cara chamado Al Hibbler. Você o conhece? Nem eu. E você sabe qual a última música cantada por Elvis Presley? Acertou: Unchained melody.

Calcula-se que mais de 300 gravações foram feitas de Unchained melody, nesse mais de meio século  de idade da canção (a mais recente de que tenho notícia é a de Cyndi Lauper, de 2003). Em Ghost, as vozes são da dupla The Righteous Brothers, num ótimo desempenho – fazendo a melodia grudar no telespectador.
Uma curiosidade: Unchained melody, foi cantada no último show do Rei do Rock, em junho de 1977, de improviso, sem ser ensaiada. Combalido, excessivamente gordo, metido numa roupa um tantinho ridícula pra meu gosto, cheio de drogas, Elvis é uma triste sombra da figura arrebatadora de outros tempos, um homem dilacerado. Mas aí ocorre a metamorfose: diante do piano, com limitada técnica do instrumento (há duas notas erradas, segundo os críticos), ele parece ter redescoberto a alegria de viver, é um artista feliz, bem humorado, cheio de força e energia.
O show é um renascer, depois de quase um ano de intensa depressão e muito remédio. Pena que esse rejuvenescimento tenha durado tão pouco. Ele morreria menos de dois meses depois dessa apresentação fantástica.
Juntando a melancolia de Unchained… com a compaixão que o artista me desperta no seu infortúnio, sinto um aperto na garganta e os olhos marejar, sempre que vejo/ouço este vídeo. Há momentos em que o cantor nos surpreende a sorrir, quando a canção é intensamente dramática (que, no caso dele, soa como um pedido de socorro). É que ele estava em estado de graça, sentia o prazer do reencontro com sua plateia.
Talvez, por essa alegria ao cantar um tema tristemente romântico, outro intérprete fosse acusado de canastrão, o que não se deve fazer com Elvis Presley: ao sorrir, ele atenua nossa tristeza, dando a impressão de que está bem mais feliz (ao menos naquele instante) do que seus fãs imaginam. Depois, ele era o Rei, a quem tudo é permitido.
A gravação só foi lançada nove meses depois, em março de 1978, no lado B de um compacto simples. Hoje, os críticos a consideram uma das maiores interpretações da carreira de Elvis.
Antes de clicar, pegue o lenço.


MACHADO DE ASSIS ESTAVA “POR FORA”

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Na semana passada, esta coluna empregou a expressão “risco de vida”. Foi o suficiente para um leitor nos interpelar, sugerindo que queríamos dizer “risco de morte”. Agradecemos pela colaboração, mas desejávamos dizer o que foi dito: “risco de vida” (até mesmo para chamar a polêmica a este palco). A expressão é perfeitamente defensável à luz da gramática portuguesa e não será difícil mostrar que a coluna estava em boa companhia – com Machado de Assis, Eça de Queirós e muitos outros.

Dizem os gramáticos que a construção “risco de vida” (usada aqui na semana passada, e que gerou protesto) é boa e bem feita: trata-se de uma elipse, situação em que uma palavra ou expressão é omitida. Exemplos? João foi ao cinema; Maria, ao teatro. Eu bebo vinho; ela, cerveja. Nos dois casos há um verbo “encoberto” (“foi”, na primeira frase e “bebe”, na segunda). A construção fica econômica e elegante. E em “risco de vida”, o que tem a ver com isso? Simples: é risco de (perder a) vida. Há outras explicações, mas esta me satisfaz. A elipse, já se vê, está subjugada pela lei do menor esforço, a nos evitar gasto desnecessário de energia e palavras.

“Risco de morte” é invenção modernosa, que famoso professor de português criou (na TV Cultura de São Paulo, creio) e a boiada foi atrás. O lente televisivo argumentou com a “lógica” de que risco de vida é coisa de quem está morto e “corre o risco de voltar a viver”. Francamente, ninguém merece.
Em linha reta – A expressão “risco de morte” é defensável, pelo mesmo mecanismo da elipse – talvez “risco de (encontrar a) morte”. Mas existe um equivalente, considerado melhor, que evita a tal curva elíptica, indo ao ponto em linha reta): “risco de morrer”
A expressão “risco de vida”, além de (também) correta, é consagrada pelo uso. Uma pesquisa rápida me responde que desta forma curvilínea se valeram Machado de Assis, João de Barros, Coelho Neto, Joaquim Nabuco, Eça de Queirós e muitos outros autores, além de milhares de pessoas “comuns”, ao longo dos séculos. Entre os clássicos, avulta-se a exceção do Padre Manuel Bernardes, que preferiu “risco de morte”. Direito dele.
Em resumo, é preciso desconfiar das “novidades lingüísticas” que surgem a todo instante, como em linha de montagem. Alguns neologismos são, verdadeiramente, necessários como enriquecedores da língua portuguesa. Mas quando, em nome da “lógica”, tenta-se sepultar expressões consagradas por muitas gerações, é preciso cuidado. Ou então, que o professor da tevê e seus seguidores vão dizer a Machado de Assis e Joaquim Nabuco (num encontro hipotético, é claro), que eles estavam “por fora”  em matéria de gramática.
A propósito, o lendário professor Evanildo Bechara defende “risco de vida”, o que já me parece suficiente para encerrar a discussão. Ele é “o cara”.

A INFINITA AMPLITUDE DAS ESCOLHAS

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Nesta época do ano, mesmo a turma da cerveja costuma fazer esta pergunta de múltiplas respostas: Qual é o melhor vinho? Abstraindo-se o suave, que não é vinho, mas agressão ao paladar, qual seria a escolha? Champagne? Tinto seco, branco, rosé, espumante? Nacional, importado? Chileno, europeu, aqueles baratinhos (e ordinários) que a Argentina coloca nos supermercados? Os “clássicos” da região Sul, os emergentes do Nordeste? A decisão depende de gosto e bolso.

Dentre todas as bebidas, o vinho é, certamente, a de maior variedade. Dos mais baratos e inferiores, aos sofisticados e de alto preço, o espectro tangencia o infinito. E então, ficamos com os nacionais simples, ou temos paladar para os franceses Château Latour, Lafite-Rothschild ou Boujolais Nouveau (deles não damos o preço, porque esta coluna pretende divertir os leitores, não assustá-los). Ao menos para meu orçamento, eles são todos (que as vinícolas não me processem) “avinagrados”.
(De certa feita, num restaurante de Ilhéus, analisava o lado direito da carta de vinhos de forma um tanto dissimulada – quase à Capitu de Machado de Assis – quando a discreta senhora que me acompanhava, dona de mais beleza do que bom gosto, sugeriu uma marca de popular suave e de baixo preço – um chamado Samba, Bolero, Valsa ou coisa parecida. Salvou-me a lavoura, a pecuária, a noite e a vida: meu paladar fez várias perguntas, mas meu bolso não perguntou nada (atendi-lhe a solicitação e pedi para mim um uísque com gelo). Devo dizer que hoje tenho método próprio de olhar bem a coluna da direta, sem que a senhora que me acompanha perceba o truque.
Enquanto você se decide, vai uma rápida e fantástica estória sobre vinhos, com a ressalva de que, se parece mentirosa, não foi inventada por mim:
Conta-se que em 1985 o bilionário Malcolm Forbes (1919-1990) pagou, num leilão da Christie´s, 155 mil dólares por uma garrafa de Château Lafite,  de 1787, que pertencera à adega do presidente Thomas Jefferson (um grande amante dos vinhos de Bordeaux). Corrigida pelo poder de compra da moeda americana, essa quantia corresponde hoje a uns 500 mil dólares, a algo próximo a R$ 900 mil.

Final infeliz: a garrafa foi colocada em demonstração, na posição errada (vertical), e sob um forte foco de luz. O calor fez secar a rolha, esta caiu dentro da garrafa e o vinho se perdeu. Dá para acreditar? Acredite: é o fantástico mundo dos muito ricos. É de Forbes, que gostava de fazer frases (além de dinheiro), esta: “A diferença entre homens e meninos é o preço dos seus brinquedos” (Mr. Forbes, se verdadeira a estória do leilão, era chegado a brinquedinhos nada baratos).
Voltemos à questão primária da escolha. Pensando bem, tudo tem a ver com o gosto (e o bolso). Logo, você pode até ir de tinto suave, pois a decisão é sua e ninguém tem nada com isso. O suave também é muito bom vinho, se assim lhe parece.

De minha parte, fico com esta definição do poeta:

Quintana

MELHOR VINHO

Por mais raro que seja, ou mais antigo,
só um vinho é deveras excelente:
aquele que tu bebes, docemente,
com teu mais velho e silencioso amigo.
Falou e disse, Mário Quintana. Tintim!

JOTAÉ FICARÁ DE BUZU EM FEVEREIRO

Jararaca Ensaboada está de carro novo, comprado em 60 prestações ditas suaves, com a primeira delas agendada para quando o Carnaval chegar. Tadinho do vendedor: novo na região, ainda não sabe que, de acordo com o histórico do comprador, o veículo terá de ser tomado (com muita dificuldade), tão logo soem as trombetas do Zé Pereira de 2010. Jotaé é do tipo que não paga nem promessa a santo, que dirá bens de consumo. Depois dessa providência traumática, a triste figura voltará ao buzu, ou terá de usar o polegar para pedir carona a quem não a conhece.
(O.C.)

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UNIVERSO PARALELO

MAHALIA JACKSON: JAZZ OU GOSPEL?

Ousarme Citoaian

Mahalia: a voz do sonho de Luther King.

Se você encontrar Mahalia Jackson entre as vocalistas do jazz talvez seja homenagem, não erro. Os mais exigentes dizem que ela não é cantora de jazz: distorcer a melodia e alongar sílabas não é suficiente (ela gasta 4 segundos para dizer “at”). Já outros a veneram, justamente por essas qualidades e pelo jeito “negro” de cantar (seja lá o que isto signifique). É a herança do blues, via Besse Smith, “mãe” de vocalistas negras e brancas. Na dúvida, fique com o senso comum: Mahalia é cantora gospel, a voz que embalou Martin Luther King no último sono.

Os especialistas europeus puseram fim à discussão, pois consideram Mahalia Jackson “a maior cantora gospel de todos os tempos”. Nascida em Nova Orleans (1911),  morreu em Chicago (1972), antes de completar 62 anos. Vivia-se pouco naquela época, mesmo os artistas que não se entupiam de álcool, heroína e outros venenos (Billie Holiday só durou 44 anos; Janis Joplin, morreu com 27).
Em 1950, Mahalia Jackson tornou-se a primeira cantora gospel a se apresentar no Carnegie Hall de Nova York, e em 1952, durante turnê pela Europa, ganhou o citado título de “a maior cantora etc.”. Nessa categoria, também foi a primeira a cantar no consagrado The Newport Jazz Festival (em 1958 e 1959).
Mahalia teve participação especial no filme Imitação da vida, com Lana Turner (de 1959); em 1961, cantou na posse do presidente americano Jonh Kennedy; em 63, apresentou-se perante 250 mil pessoas, num comício de Martin Luther King – quando ele fez o famoso discurso pelos direitos civis “I have a dream” (“Eu tenho um sonho”). Ela voltaria a cantar no funeral de Luther King, que foi assassinado, em 1968.
Aqui, Silent night, holy night, gravação de Mahalia Jackson de 1949, em que ela faz uma leitura muito própria da conhecida canção de Natal, com um andamento novo e pungente.
Clique e se arrepie (afinal, Christ the Savior is born!).

UM QUARENTÃO DE CARA NOVA

Márquez: realismo fantástico revisitado.

Uma obra-prima da literatura moderna (Cem anos de solidão, do colombiano Gabriel Garcia Márquez) completou 40 anos e ganhou edição especial da brasileira Distribuidora Record. Li a nova versão (o aniversário foi em 2007, mas a homenagem só foi feita em 2009), sem compará-la com a anterior. Não sei em que Garcia Márquez mexeu, mas sei que não mexeu em muita coisa. A estória continua arrebatadora.

Cem anos de solidão (Nobel de 1982) é o ápice da literatura de ficção em língua espanhola (com perdão de Borges e fora Cervantes). Obra cheia de encantos, da linguagem bem cuidada aos personagens fantásticos, extraordinários, ganhou em 2009 uma versão brasileira, especial para comemorar os 40 anos de publicação.
Homenagem depois da hora, mas ainda oportuna. O escritor paulista Eric Nepomuceno (Coisas do mundo e outros títulos) fez a tradução, anotou as mudanças do autor e entra com um artigo fundamental (“A solidão na América Latina”), para compreendermos a trajetória desse grande livro.
Contam que a estória “veio” ao autor durante uma viagem a Acapulco. Na estrada, o santo baixou, ele manobrou o carro (um Opel branco), foi pra casa e começou a escrever, num jorro só. “As coisas não ocorreram exatamente assim”, diz Nepomuceno. Márquez teve mesmo o “relâmpago” do livro, mas passou o fim de semana em Acapulco, angustiado, e só na terça-feira, já na Cidade do México, começa a escrever.
A primeira (e bela) frase do livro foi conservada na edição comemorativa, apesar do deslize num tempo verbal, comentado pelo tradutor: em vez de había (havia) ele sugere habría (haveria), pois como está “soa mal, perde força, perde ritmo, fica duro, em português”. Só que o erro foi conservado, com a frase traduzida ao pé da letra “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendia havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”.

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Fora de controle – Cem anos de solidão teve uma tiragem inicial de 10 mil exemplares, o que fez Márquez temer ser responsável pelo maior encalhe que a editora já vira. Engano. A edição se esgotou em 15 dias, foi feita outra igual, também se esgotou rapidamente e começaram a chegar pedidos de outros países: o México, por exemplo, queria 20 mil exemplares.

Foi um tufão que jamais parou. Em três anos, Cem anos… vendeu 600 mil unidades em castelhano; em oito anos, 2 milhões. Em 1982, quando Garcia Márquez ganha o Nobel, 25 milhões de exemplares foram vendidos, só em castelhano, e quando o autor fez 80 anos, em 2007, as vendas atingiram 50 milhões de exemplares. Da pilha de mensagens que o autor recebeu sobre o prêmio, uma se destacou. Dizia “Morro de inveja” – e era do amigo Darcy Ribeiro, que Márquez define como “um sábio”.
Cem anos… foi também um furacão na vida do escritor colombiano. Ele disse que tem “rancor” desse livro que “quase destroçou” sua vida. Com a fama, acabou-se a privacidade, subverteu-se a vida do autor e até sua correspondência virou mercadoria. Em 1970, Gabriel Garcia Márquez deixou de escrever cartas: descobriu que alguém, cujo nome preserva, havia vendido cartas suas para uma universidade americana. É a fama cobrando seu alto preço.

A MORTE NADA GLORIOSA DO “SE”

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O “se”, caso não esteja à morte, corre sério risco de vida. Antes, o aviso de aluguel do imóvel dizia “Aluga-se”. Hoje,   é comum (e irritante), encontramos placas que dizem: “Aluga”. Vale o mesmo para “Vende” e, como noticiou importante jornal, “a reunião inicia…”. É só descuido e preguiça ou também ignorância recidivante da língua portuguesa? Difícil saber. O Banco do Brasil também deu uma cacetada no pobrezinho do “se”, que nunca humilhou ninguém.

Há verbos que exigem a companhia do “se”. Queixar (sempre), e, de forma eventual, alugar, preocupar, despreocupar. O Banco do Brasil faz uma campanha sugerindo ao cliente que “Despreocupe” (a foto é da agência gaúcha de Flores da Cunha-RS, em 30 de novembro). Péssima idéia. Na linguagem de quem foi à escola, a forma correta é “Despreocupe-se” (ou “preocupe-se”, “queixe-se”, “dane-se” e por aí vai). “Despreocupe” é qualquer coisa menos língua portuguesa.
Sabe-se (olha o “se” aí, gente!) que “Queixar-se” é verbo essencialmente pronominal (diz ao “se” que não sai de casa sem ele!). Não existe “Queixar”. Aliás, existe, mas como gíria, alguma coisa do tipo azarar, xavecar, ganhar no queixo, no papo.
A propósito, o trovador Miguezim de Princesa empregou bem o termo, numa composição que fez sobre FHC. Antes, uma explicação, conforme Freud gostava de fazer: Miguezim de Princesa não é outro senão o delegado Miguel Lucena, nascido em Princesa Isabel-PB, morador de Brasília-DF, e que se define assim:
Meu nome é Miguel Lucena,
o Miguezim de Princesa,
saio espalhando alegria
para espantar a tristeza,
no entulho da feiúra
boto um rio de beleza (…).
O “Príncipe dos Sociólogos” teve uma filha com uma jornalista e, recentemente, descobriu-se um filho seu (lá dele!) com uma empregada doméstica. Empolgado com os feitos sexuais do ex-presidente, o trovador paraibano disse que “a Pátria verde e amarela/Também tem seu garanhão”. E, do alto desse pátrio entusiasmo, produziu esta primorosa quadrinha sobre as habilidades efeagacianas (mas antes, como se diz no cais do porto, “tirou o dele da reta”):
O que passar ele “queixa”
(empregada ou jornalista)
só não papa repentista
porque a gente não deixa!…
Bem que o BB (olha o trocadilho infame!) poderia evitar vexames como o de escrever “Despreocupe”. A rigor, não é uma campanha; é um atentado à regência verbal, um monumento à ignorância, que faz a língua portuguesa inculta e feia.
OBS.: Neste texto, usamos o pronome “se” 17 vezes. Só pra chatear.

JOTAÉ NÃO LEU E NÃO GOSTOU

Perguntaram a opinião de Jararaca Ensaboada sobre esta coluna no Pimenta. A triste figura pediu licença, antes de chutar as canelas do perguntador e oferecer sua opinião abalizada, isenta, rasteira e sibilante:
– Não li e não gostei. Anote aí que também não vou ler nunca e tampouco vou gostar jamais!
Mais não disse. Nem precisava.
Jararaca Ensaboada é o único ser de língua lusófona que emprega a palavra “tampouco”. Jânio Quadros a empregava, mas Jânio, graças ao bom Deus, já esticou as canelas secas. Jotaé, para nossa falta de sorte, parece ser imortal.

CYRO E O CÉU QUE TOSSE

Na revista Direitos, editada por Vercil Rodrigues, Cyro de Mattos (bem aparelhado prosador, poeta e crítico) fala da Faculdade de Direito da Ufba, na qual se formou, em 1962. A certa altura, sobre a relação do homem com o Direito, acentua:
Sem essas regras coercitivas, novas e tão velhas, que ele trouxe dos longes comoventes, eu não acuso o céu que tosse, o rio que chora água e morre de sede, a lágrima que pende da árvore, o índio banido da taba na fuga em grito e sendo soterrado sem dó até o último gemido. Eu não acuso o exílio da flor nas ruínas da flora, o pássaro ferido nas cinzas da fauna. Não me insurjo contra o menino algemado. Não proclamo a semente profunda da humana alegria dos dias no azul, o rosto pendoado no calor das mãos que acalentam a justiça como flor sonora. Nem sequer dou conta e curo minhas pequenas queimaduras.
Um oásis em meio à aridez de composições tatibitates que encontramos frequentemente.
(O.C)

UNIVERSO PARALELO

ONDE VOCÊ ESTAVA HÁ 40 ANOS?

Ousarme Citoaian

Quem já rodou 60 anos (ou ultrapassou essa quilometragem) conhece Yves Montand. Se você está nessa faixa etária e não Ouviu falar dele, só existe uma explicação:  quando jovem, você estava mais por fora do que umbigo de vedete, quer dizer, tão desatualizado quanto esta gíria, exumada do tempo em que mulher de umbigo à mostra era novidade.  Se uma pessoa com esse tempo de estrada não dançou sob as canções nem namorou nos filmes com esse mito, me permito indagar: onde raios ela se escondia nos anos sessenta? Neste planeta, aposto, não era.

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AS IMORTAIS FOLHAS MORTAS DO OUTONO

Qualquer apreciador de jazz terá algumas gravações de Autumn leaves, um dos temas mais venerados desse gênero. A música (de Joseph Kosma, com versos do poeta Jacques Prévert) foi criada em 1945, com o título de Les feuilles mortes, e ninguém imaginava o terremoto que estava a caminho. Em 1946, no filme As portas da noite, o estreante Yves Montand canta a canção e ela se liga a ele pelo resto da vida (cantou-a também no Brasil, em 1982, no Teatro Municipal de São Paulo).

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Padilha:

Telmo Padilha.

O INSUPORTÁVEL PESO DAS PERDAS

Tenho curvos os ombros e torta coluna, com o peso das perdas. Dentre muitas, cito uma ainda não de todo superada: Telmo Padilha, morto há uma dúzia de anos. Telmo me incentivou, me motivou, me mostrou caminhos – que nem todos eu segui. Sua morte me deixou meio órfão, e talvez seja esta a primeira vez em que me confesso sobre este assunto. Ah, deve ser esse vinho e esse sax de Coleman Hawkins…

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FLORES PARA UM BRUXO

O que você está lendo? No momento, o Pimenta, óbvio, mas não é este o sentido da pergunta, você sabe. De minha parte, acabei de ler Capitu mandou flores, uma coletânea de textos baseados no romance Dom Casmurro e em dez contos famosos de Machado de Assis (Missa do galo, O alienista, Noite de almirante, Uns braços e outros seis), além de ensaios sobre esse extraordinário criador brasileiro, o bruxo do Cosme Velho.

Na relação dos mais de trinta escritores que o organizador Rinaldo de Fernandes desafiou a recriar o texto machadiano está o contista, crítico e tradutor Hélio Pólvora, com um conto monumental (O Regresso), tendo Dom Casmurro como espelho.

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