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:: ‘Universo Paralelo’

UNIVERSO PARALELO

ESTOU DE LUTO HÁ 28 ANOS

Ousarme Citoaian

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É quase obrigação lembrar que perdemos, numa semana como esta (19 de janeiro), uma cantora chamada Elis Regina Carvalho Costa (foto). Aconteceu em 1982, portanto, há 28 anos. Elis ainda é considerada por muitos críticos e músicos, quase três décadas depois, a maior cantora brasileira de todos os tempos. Essa qualidade excepcional se deve à combinação, em porções certas, de emoção e técnica de cantar (em Betânia, emoção quase sem técnica; em Gal, técnica quase sem emoção).

Nascida em 1945 (em Porto Alegre), a artista teve sua voz imortalizada em 47 discos (em formatos diversos) durante 18 anos de carreira, a partir de 1961. Teve morte trágica e prematura, aos 36 anos, quando se encontrava em plena forma. Uma mistura de tranqüilizantes, cocaína e álcool lhe foi fatal. Eu estou de luto até hoje.

CEMITÉRIO DOS MORTOS-VIVOS

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Chamava a atenção em Elis Regina a coragem, cívica e artística. Acusada de colaborar com os militares (cantou o Hino Nacional numa solenidade, em 1972),  foi inserida no “Cemitério dos mortos-vivos”, impiedosa seção que o genial cartunista Henfil (foto) mantinha no Pasquim. (lá foram “enterrados” Carlos Drummond de Andrade, Pelé, Marília Pera, Paulo Gracindo, Clarice Lispector, Tarcísio Meira e Glória Menezes). Ficou amiga de Henfil  e se fez musa do movimento pela anistia, ao gravar O bêbado e o equilibrista (João Bosco-Aldir Blanc), em 1979. Essa música, com uma carga de emoção que o tempo não apaga, é considerada seu ingresso definitivo nas hostes intelectuais contrárias à ditadura. Antes, teria dito (o que não é confirmado) que o Brasil era governado por gorilas – e só sua popularidade lhe teria evitado a prisão (o “cemitério” era tão sectário que, no fim, Henfil também se “enterrou”…).

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LAMENTO PELOS TORTURADOS

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O texto de Aldir Blanc tem elementos nem sempre percebidos à primeira audição: o bêbado com chapéu coco é homenagem a Carlitos; o irmão do Henfil é o sociólogo Betinho, exilado; as marias e clarices são mulheres que choram pelos seus homens torturados e mortos pela ditadura – uma delas se chama mesmo Clarice (foto), mulher do jornalista Wladimir Herzog, assassinado no Doi-Codi). Uma dor assim pungente não há de ser inutilmente… A esperança dança na corda bamba, pode até se machucar, mas está viva, é a última a morrer – afinal, mesmo sob violência e iniqüidade, o show tem que continuar. Genial! Leio num site que O bêbado e o equilibrista é uma das canções mais executadas do mundo. Acho justo.

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A FORÇA DADA AOS NOVOS

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Nunca antes na história desse país houve uma estrela que tanto desse a mão (e emprestasse a voz) aos novos compositores (o ótimo Emílio Santiago, por exemplo, gosta de gravar o que já é sucesso). Elis Regina se arriscou com João Bosco e Aldir Blanc (foto), além de registrar os então desconhecidos Renato Teixeira, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Belchior, Tim Maia, Sueli Costa, Ivan Lins e outros. A maioria dessas gravações está na lista de “clássicos da MPB”. Fantástico (não o da Globo, mas o da vida real). Milton Nascimento foi o mais agradecido de todos, pois a elegeu sua musa e a ela dedicou várias composições.

Este mês, mostraremos três vídeos de Elis Regina. Aqui, o primeiro, com o Hino da anistia, ao vivo.

O HOMEM E A BARBA DO HOMEM

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A já um tanto prateada barba do professor Jorge de Souza Araujo (foto) esconde um dos nomes mais significativos da literatura produzida no Brasil. Não por coincidência (Jung diz que não existe coincidência, existe sincronicidade), é uma barba que nos lembra o muito citado e pouco lido Karl Marx: Jorge é militante marxista e, nesta condição, arriscou-se ter as unhas arrancadas – ou ser submetido a pau-de-arara, choque elétrico, afogamento e mimos outros com que a “Gloriosa Revolução de 64” tratava seus desafetos.

Se, à época, não fosse imberbe, arriscar-se-ia a ter a barba cortada a biscó, pois estas eram as regras do jogo – e os ditadores nos queriam todos devidamente depilados, pois barba grande e cabelo idem eram sinais inequívocos da intenção de derrubar o governo. Esse sertanejo de Baixa Grande, para o bem de todos nós, passou ao largo da tortura, sem abdicar de suas convicções: se perdeu anéis, ao menos manteve intatos os dedos, as unhas e o buço emergente, de grande futuro.

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BOM OUVINTE E BOM FALANTE

Jorge Araujo é intelectual completo: escreve poesia, conto, crônica, ensaio, pesquisa, teatro e ainda encontra tempo para a sala de aula, orientar teses de mestrandos, visitar o bar e charlar com antigos ou ocasionais. Sabe administrar o tempo e dissimular intenções: quem o vê diante de uma cerveja, em papo comprido de fim de tarde, desapressado, bom ouvinte e bom falante, pensa que descobriu mais um desses boêmios sem relógio, responsabilidade ou patrão. Crasso erro. Jorge tem um entendimento quase bíblico da adequação da hora. Conhece o tempo de plantar, colher, flanar, beber, namorar, casar (atividade a que se tem dedicado com impressionante persistência) e trabalhar, que ninguém é de ferro. Quando se enfurna na biblioteca, a ler, pesquisar, anotar e produzir, esquece o mundo do lado de fora, seja em sua casa, seja em outros sítios, pois ele vai aonde a informação estiver. Coleções públicas ou particulares, no Rio, São Paulo, Oropa, França e Bahia recebem frequentes visitas suas. Sequer os alfarrábios de poeira secular escondidos na Torre do Tombo, em Lisboa, conseguiram escapar à sua perseguição, quando esteve à cata de um certo padre Antônio Vieira. Por certo, contabiliza algumas crises de alergia – mas o que não se faz pela arte?

“ELEMENTO PERIGOSO”

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Feitas as contas, de Eu nu e algumas curtas estórias, em 1969,  até Floração de imaginários, em 2008, ele publicou quase um livro por ano. A leitura em si é tema recorrente (“Ler é evitar que a alma infarte”, diz em Agenda de emoções extraviadas), mas o espectro de interesse do autor é muito amplo: vai do citado Vieira à análise literária propriamente dita (Jorge Amado, Jorge de Lima, Graciliano), do mito do conquistador D. Juan às pegadas de Anchieta na praia, com passagem pelo teatro – Auto do descobrimento: o romanceiro de vagas descobertas (foto)  – sem gastar o espaço cativo da crônica de jornal (Ainda que nos precipitem) e da poesia (Os becos do homem, com prefácio de Antônio Houais). O liame político jamais foi rompido, pois o autor não pode e não quer fazê-lo. Está lá, em “Escrevo para me manter vivo”, no livro Caderno de exercícios – algumas reflexões sobre o ato de ler: “A escrita é minha prática subversiva, sempre a minha forma de ver o outro lado do mundo, de ver não oficialmente como me convidam a ver”. Conforme se vê, Jorge Araujo não se emenda: continua, depois de grande, a ser “elemento perigoso”.

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PATRIMÔNIO CULTURAL

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A última proeza literária de Jorge Araújo, abstraindo-se uma premiadíssima biografia de Graciliano Ramos, é o ensaio Floração de imaginários (foto), editado pela Via Litterarum/Itabuna). Vão pensar que minto, mas me arrisco a dizer: são 77 romancistas com suas obras analisadas num espaço de 490 páginas – o que significa dizer uns 380 livros lidos, pesquisados, resenhados, virados pelo avesso, mas todos tratados com generosidade e respeito. Se você ouviu falar de um obscuro baiano que escreveu um romance há anos tantos (desde que no século XX), ele estará em Floração, o maior acervo de conhecimento da literatura baiana que já se publicou. O livro ganhou o prêmio Braskem de ensaios, mas isso não atesta sua verdadeira dimensão. Merece muito mais, pois é o manual, o inventário, o vade-mécum, o alfa e o ômega, o “quem-é-quem” do romance neste Estado.

Esta coluna não se atribui tamanho, peso, engenho e arte suficientes para se aventurar na avaliação intelectual de Jorge Araujo, tarefa para críticos, exegetas e doutores da literatura. Mas de uma coisa temos certeza: trata-se de indivíduo pleno de generosidade, distante de arrogâncias, limpo de soberbas, que jamais se utilizou de sua forte erudição para humilhar pessoas ou elevar-se pessoalmente. Nunca quis ser “superior” a ninguém. Nem precisa.  Creio que se fôssemos uma terra dada a cultivar valores intelectuais (não sei se existe alguma assim), Jorge Araujo não poderia sair à rua sem segurança reforçada, como acontece com as grandes estrelas. No dia em que Itabuna e Ilhéus criarem juízo vão tombá-lo como patrimônio cultural da região. E eu estarei lá, batendo palmas.

TRAUMA DE JARARACA ENSABOADA

Jararaca Ensaboada leu um livro quando estava na escola elementar, por insistência da professora. A aventura causou-lhe tamanho trauma que ela foi aconselhada, em nome da saúde, a nunca, jamais, em tempo algum repetir esse tresloucado gesto. Há dias, numa súbita tentativa de ascender à erudição, procurou, com a ajuda de um psicanalista de hora regiamente paga, ler as orelhas de Dom Casmurro, e se deu mal: o esforço levou a nefanda criatura a tal estado de histeria que o psicanalista de hora regiamente paga lhe recomendou procurar o psiquiatra, com urgência urgentíssima.

O UNIVERSO DERRAPOU

Na semana passada, os leitores desta coluna foram muito bondosos, ao não reclamar de dois erros que berravam no texto: numa “intromissão” do word, saiu agüenta, quando o correto, segundo o polêmico Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, é aguenta; e, por injustificável descuido, escrevi “o Luiz Viana Filho…” – detestável forma de linguagem comum no Sudeste, mas alienígena entre nós. Nordestino que escreve “o Fulano”, em vez do simples “Fulano”, exercita um ridículo pernosticismo. Foi o que eu fiz, sem intenção (os erros foram rapidamente corrigidos, graças à diligência dos rapazes do Pimenta). Peço desculpas e agradeço a todos pela generosidade.
(O.C.)
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<h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3>
<div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

UNIVERSO PARALELO

A CASA DE DYLAN, BURDON E AGNALDO

Ousarme Citoaian

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É incerta a origem do clássico folk A casa do sol nascente, que teria chegado à América via colonos ingleses. The house of the rising sun é gravada desde 1933, por diversos artistas. O mais famoso arranjo, cantado por Eric Burdon, do The Animals, foi inspirado num show de Nina Simone (festejada vocalista de jazz), que cantou a The house antes de Bob Dylan (foto).

Os fãs de Dylan o acusaram de plagiar a versão do The Animals e ele, na moral, retirou a canção do repertório (aqui, uma contradição que não explico: ao que me consta, a gravação de Bob Dylan é anterior à do The Animals – o que torna o plágio uma impossibilidade. Aliás, o velho Bob anda com uma urucubaca danada: dia desses, passou pelo constrangimento de ter o clássico Blowin’ in the wind “interpretado” em pleno parlamento brasileiro pelo senador Eduardo Suplicy.
“(…) The house of the rising sun, com todos aqueles acordes  dançantes, saltou do aparelho de som e invadiu meus ouvidos, trouxe de volta os anos da dance e humilhou minhas articulações, lembrando a vítima que fui de mim mesmo, por culpa de um comportamento intolerante e esnobe.
Refresco minhas memórias esmaecidas: esta era, no longínquo 1965, a faixa de trabalho da banda The Animals, um grupo que disputava o gosto de quem amava os Beatles e os Rolling Stones, e que  foi revivida no fim dos setenta pelos ciganos da Santa Esmeralda, provocando verdadeiro “estouro” nacional. Entre aprender a música e derrubar a ditadura militar, minha geração preferiu a segunda escolha e fracassou rotundamente nas duas.
A história, impiedosa como é do seu costume, sepultou a ditadura e os Beatles (estes, apenas fisicamente, apresso-me a dizer, diante da previsível ira dos beatlemaníacos), fez dos Stones inesperados sobreviventes, com suas “titias” aí dando o maior banho na mesmice, enquanto do The Animals tudo que restou, ao menos para minha tribo, foi  The house
O que não é pouco. Quando Eric Burdon (ele era “o cara”), apoiado pelas guitarras do grupo, berra “There is a house in New Orleans/They call the rising sun…” é, como dizem alguns criativos redatores de tevê, “pra não deixar ninguém parado”. O mundo balança, as lembranças acordam, a vontade proustiana é de regressar a tempos de antanho e, não importa de que modo, recuperá-los, mesmo os sabendo irremediavelmente perdidos (…)”.
(LOPES, Antônio. “Caçador de mim”, in Estória de facão e chuva. Ilhéus: Editus/Editora da Uesc, 2005).

E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!

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No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as versões, a letra em português (de Fred Jorge) nada tem a ver com a americana, aliás, bem chinfrim. A original fala de uma casa de tolerância, ambiente barra pesada, um lugar impróprio para menores; já Fred Jorge, pelo vozeirão de Timóteo, diz: “A casa dos meus sonhos/ é feita de ilusão/ e vive sempre cheia de amor/ amor e solidão…”. O texto poético é pífio, mas, pelo menos, não chega a tirar o sono do juiz de menores. E vendeu feito pão quente em fim de tarde.

Fred Jorge (nascido em Tietê-SP) foi letrista de música, jornalista, escritor e, acima de tudo, o grande versionista (era este o termo) do rock americano, nos tempos da Jovem Guarda. Entre seus maiores êxitos (além de A casa do sol nascente) dá para citar, de memória, Estúpido cupido, Banho de lua e Lacinhos cor de rosa – três músicas que garantiram à cantora Celly Campello (foto) o título de Rainha do Rock Brasileiro, graças ao trabalho do versionista. Mas também houve Diana e Oh, Carol! (Carlos Gonzaga) e A noiva (Agnaldo Timóteo). Fred Jorge morreu em 1994, em sua cidade natal, na mesma casa em que nascera, e em estado de pobreza, sobrevivendo da aposentadoria do INSS, sem receber nenhum direito autoral.
Por fidelidade ao clássico, revivemos aqui o registro do The Animals, com vocal de Eric Burdon.

CAMÕES E A LÍNGUA TORTURADA

A língua de Camões tem cerca de 370 mil palavras, segundo o último Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp), da Academia Brasileira de Letras (ABL).
Por que as pessoas teimam em torturá-la, ao repetir termos e frases, se ela, riquíssima, oferece tantas possibilidades? A reincidência em não olhar para os lados, não explorar o amplo horizonte linguístico, é o caminho para aliar-se ao pior inimigo da comunicação: o lugar-comum (o locus comunis do latim, também identificado como  chapa, chavão, frase feita e outros), uma praga com presente brilhante e futuro promissor na nossa língua.
Claro que entre esses 370 mil vocábulos estão arcaísmos, neologismos, palavrões, calões, gírias e termos que revelam pedantismo, portanto, de menor interesse para a comunicação. Mas, se ficarmos somente com as categorias mais utilizáveis (substantivos, verbos, adjetivos e advérbios), ainda teremos umas 150 mil unidades para, devidamente combinadas, nos “traduzir” perante o mundo (este cálculo arbitrado, é da coluna, não da ABL).
Conta-se que um editor de jornal americano, cansado das repetições do seu jovem redator, lhe disse: “Filho, a língua inglesa tem mais de 60 mil palavras disponíveis. Use-as”.
Talvez a observação valha para todos nós, que lutamos com as palavras, “mal rompe a manhã”. Ler frequentemente, policiar a própria linguagem, ser implacável com os erros – enfim, fazer o melhor que possa ser feito, pois é isso que o redator deve ao seu público. Errar por ignorância é ser humano; errar por preguiça e desleixo é ser irresponsável. Embora o conselho de “ler, ler, ler” nunca seja seguido, é permitido dizer que há coisas que a gente só aprende com a leitura. O correto é casa… ou “caza”? É casa, segundo tenho lido nos bons autores. Como não existe regra que imponha a grafia, eu bem poderia grafar “caza”. Mas não grafo, porque a forma eleita por quem sabe escrever é casa (com “s”, não com “z”). Ler vale a pena.

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O escritor Hélio Pólvora (foto), faz tempo, já chamava a atenção para a diferença entre falar e dizer: muitos falam (ou escrevem), mas poucos dizem. E Hélio, bem aparelhado ensaísta, cronista e contista/novelista tem a crítica literária nacional a atestar que ele sabe… dizer – e o disse em muitos livros e artigos de jornal.

Expressões vazias de conteúdo (nos ensina o mestre itabunense) falam, mas não dizem. Prestam homenagem à banalidade, preenchem espaços no jornal (ou tempo de rádio e tevê), mas não comunicam, ou, ao menos, não exaltam a beleza da língua. Ao contrário, a atiram no abismo da anti-estética.

SEM ARROGÂNCIA OU PRECONCEITO

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“Um jornalista tem que escrever tão bem quanto um romancista”, prega a filóloga Dad Squarisi. Obviamente, jornalistas não precisam ter a desenvoltura dos ficcionistas (há quem diga que o jornalismo é só uma forma de subliteratura), mas são, igualmente, guardiões da linguagem: precisam perder a arrogância, o preconceito contra a gramática e, mais do que isso, ler os bons autores. Fazer isso não é ser sofisticado, mas reconhecer que tem responsabilidades com o leitor e com a língua em que se comunica.

Pensemos nisso, enquanto vemos uma listinha de lugares-comuns dos quais precisamos correr tanto quanto o capeta corre da cruz – isto também um lugar-comum, mas que me pareceu adequado, além de engraçadinho. Antes, não resisto a lhes passar esta frase de um anúncio do Sebrae, que está no ar, na tevê: “seu envolvimento faz toda a diferença”. Alguém ainda aguenta essa coisa de “fazer toda a diferença”? Vamos à lista:
No aniversário, quem ganha o presente é você; com certeza; fazer a diferença, não deixa ninguém parado, gente bonita, a sala ficou pequena, fazer o dever de casa, com pompa e circunstância, para se ter uma ideia, tragédia anunciada, deixa muito a desejar, gerar emprego e renda… E, para encerrar, este, mais recente e não menos detestável: “Um beijo no coração” (argh!)!

O GOVERNADOR E O LUGAR-COMUM

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Luiz Viana Filho era intelectual e político, filho de intelectual e político. Em 1968 (plena ditadura militar a que, aliás, ele serviu com denodo), estava – como governador “biônico” da Bahia – para assinar um decreto sobre o abastecimento de água, quando se deparou com a expressão “precioso líquido”. Recusou-se a assinar, sublinhou a heresia, escreveu ao lado “isto é mau português!” e devolveu o documento ao secretário. Biógrafo de Rui Barbosa e membro da Academia Brasileira de Letras, Luiz Viana Filho detestava lugares-comuns. “Mas gostava da ditadura”, diriam os maldosos.

Parece-me que tais expressões batidas não cabem em códigos, leis, matérias jornalísticas, crônicas, contos, enfim, qualquer coisa que exija comprometimento com a língua culta. São bem-vindas, no entanto, quando se proponhem ao picaresco, à ironia, ao gracejo – como nesta quadrinha do trovador Agulhão Filho, publicada aqui no Pimenta (a propósito da água de Itabuna):
Nosso líquido precioso
ganhou valor agregado:
está deveras gostoso,
depois que ficou salgado!…
(Uma curiosidade sobre Luiz Viana Filho: foi o único político brasileiro que nasceu em… Paris!).

PRECIOSO LÍQUIDO, SEM SAL

Em tempo: Jararaca Ensaboada, que não lê nem bula de remédio, e por isso escreve num dialeto que parece (mas não é) língua portuguesa, usa aquela expressão execrável, quando pede água. A fala da hipertensa criatura ao atônito garçom soa mais ou menos assim: “Quero uma taça com o precioso líquido, sem sal!”.
(O.C.)
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<h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3>
<div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

UNIVERSO PARALELO

AO REI DO ROCK TUDO É PERMITIDO

Ousarme Citoaian

Elvis Presley .

Quem nunca cantarolou Unchained melody, nem que fosse sob o chuveiro frio (em dia de apagão da Coelba), atire a primeira pedra. É a canção do filme Ghost, de Jerry Zucker/1990 (com Patrick Swayze e Demi Moore), que emocionou multidões. A canção (de Alex North, com letra de Hy Zaret), no entanto, é bem anterior ao filme, gravada pela primeira vez em 1955, por um cara chamado Al Hibbler. Você o conhece? Nem eu. E você sabe qual a última música cantada por Elvis Presley? Acertou: Unchained melody.

Calcula-se que mais de 300 gravações foram feitas de Unchained melody, nesse mais de meio século  de idade da canção (a mais recente de que tenho notícia é a de Cyndi Lauper, de 2003). Em Ghost, as vozes são da dupla The Righteous Brothers, num ótimo desempenho – fazendo a melodia grudar no telespectador.
Uma curiosidade: Unchained melody, foi cantada no último show do Rei do Rock, em junho de 1977, de improviso, sem ser ensaiada. Combalido, excessivamente gordo, metido numa roupa um tantinho ridícula pra meu gosto, cheio de drogas, Elvis é uma triste sombra da figura arrebatadora de outros tempos, um homem dilacerado. Mas aí ocorre a metamorfose: diante do piano, com limitada técnica do instrumento (há duas notas erradas, segundo os críticos), ele parece ter redescoberto a alegria de viver, é um artista feliz, bem humorado, cheio de força e energia.
O show é um renascer, depois de quase um ano de intensa depressão e muito remédio. Pena que esse rejuvenescimento tenha durado tão pouco. Ele morreria menos de dois meses depois dessa apresentação fantástica.
Juntando a melancolia de Unchained… com a compaixão que o artista me desperta no seu infortúnio, sinto um aperto na garganta e os olhos marejar, sempre que vejo/ouço este vídeo. Há momentos em que o cantor nos surpreende a sorrir, quando a canção é intensamente dramática (que, no caso dele, soa como um pedido de socorro). É que ele estava em estado de graça, sentia o prazer do reencontro com sua plateia.
Talvez, por essa alegria ao cantar um tema tristemente romântico, outro intérprete fosse acusado de canastrão, o que não se deve fazer com Elvis Presley: ao sorrir, ele atenua nossa tristeza, dando a impressão de que está bem mais feliz (ao menos naquele instante) do que seus fãs imaginam. Depois, ele era o Rei, a quem tudo é permitido.
A gravação só foi lançada nove meses depois, em março de 1978, no lado B de um compacto simples. Hoje, os críticos a consideram uma das maiores interpretações da carreira de Elvis.
Antes de clicar, pegue o lenço.


MACHADO DE ASSIS ESTAVA “POR FORA”

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Na semana passada, esta coluna empregou a expressão “risco de vida”. Foi o suficiente para um leitor nos interpelar, sugerindo que queríamos dizer “risco de morte”. Agradecemos pela colaboração, mas desejávamos dizer o que foi dito: “risco de vida” (até mesmo para chamar a polêmica a este palco). A expressão é perfeitamente defensável à luz da gramática portuguesa e não será difícil mostrar que a coluna estava em boa companhia – com Machado de Assis, Eça de Queirós e muitos outros.

Dizem os gramáticos que a construção “risco de vida” (usada aqui na semana passada, e que gerou protesto) é boa e bem feita: trata-se de uma elipse, situação em que uma palavra ou expressão é omitida. Exemplos? João foi ao cinema; Maria, ao teatro. Eu bebo vinho; ela, cerveja. Nos dois casos há um verbo “encoberto” (“foi”, na primeira frase e “bebe”, na segunda). A construção fica econômica e elegante. E em “risco de vida”, o que tem a ver com isso? Simples: é risco de (perder a) vida. Há outras explicações, mas esta me satisfaz. A elipse, já se vê, está subjugada pela lei do menor esforço, a nos evitar gasto desnecessário de energia e palavras.

“Risco de morte” é invenção modernosa, que famoso professor de português criou (na TV Cultura de São Paulo, creio) e a boiada foi atrás. O lente televisivo argumentou com a “lógica” de que risco de vida é coisa de quem está morto e “corre o risco de voltar a viver”. Francamente, ninguém merece.
Em linha reta – A expressão “risco de morte” é defensável, pelo mesmo mecanismo da elipse – talvez “risco de (encontrar a) morte”. Mas existe um equivalente, considerado melhor, que evita a tal curva elíptica, indo ao ponto em linha reta): “risco de morrer”
A expressão “risco de vida”, além de (também) correta, é consagrada pelo uso. Uma pesquisa rápida me responde que desta forma curvilínea se valeram Machado de Assis, João de Barros, Coelho Neto, Joaquim Nabuco, Eça de Queirós e muitos outros autores, além de milhares de pessoas “comuns”, ao longo dos séculos. Entre os clássicos, avulta-se a exceção do Padre Manuel Bernardes, que preferiu “risco de morte”. Direito dele.
Em resumo, é preciso desconfiar das “novidades lingüísticas” que surgem a todo instante, como em linha de montagem. Alguns neologismos são, verdadeiramente, necessários como enriquecedores da língua portuguesa. Mas quando, em nome da “lógica”, tenta-se sepultar expressões consagradas por muitas gerações, é preciso cuidado. Ou então, que o professor da tevê e seus seguidores vão dizer a Machado de Assis e Joaquim Nabuco (num encontro hipotético, é claro), que eles estavam “por fora”  em matéria de gramática.
A propósito, o lendário professor Evanildo Bechara defende “risco de vida”, o que já me parece suficiente para encerrar a discussão. Ele é “o cara”.

A INFINITA AMPLITUDE DAS ESCOLHAS

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Nesta época do ano, mesmo a turma da cerveja costuma fazer esta pergunta de múltiplas respostas: Qual é o melhor vinho? Abstraindo-se o suave, que não é vinho, mas agressão ao paladar, qual seria a escolha? Champagne? Tinto seco, branco, rosé, espumante? Nacional, importado? Chileno, europeu, aqueles baratinhos (e ordinários) que a Argentina coloca nos supermercados? Os “clássicos” da região Sul, os emergentes do Nordeste? A decisão depende de gosto e bolso.

Dentre todas as bebidas, o vinho é, certamente, a de maior variedade. Dos mais baratos e inferiores, aos sofisticados e de alto preço, o espectro tangencia o infinito. E então, ficamos com os nacionais simples, ou temos paladar para os franceses Château Latour, Lafite-Rothschild ou Boujolais Nouveau (deles não damos o preço, porque esta coluna pretende divertir os leitores, não assustá-los). Ao menos para meu orçamento, eles são todos (que as vinícolas não me processem) “avinagrados”.
(De certa feita, num restaurante de Ilhéus, analisava o lado direito da carta de vinhos de forma um tanto dissimulada – quase à Capitu de Machado de Assis – quando a discreta senhora que me acompanhava, dona de mais beleza do que bom gosto, sugeriu uma marca de popular suave e de baixo preço – um chamado Samba, Bolero, Valsa ou coisa parecida. Salvou-me a lavoura, a pecuária, a noite e a vida: meu paladar fez várias perguntas, mas meu bolso não perguntou nada (atendi-lhe a solicitação e pedi para mim um uísque com gelo). Devo dizer que hoje tenho método próprio de olhar bem a coluna da direta, sem que a senhora que me acompanha perceba o truque.
Enquanto você se decide, vai uma rápida e fantástica estória sobre vinhos, com a ressalva de que, se parece mentirosa, não foi inventada por mim:
Conta-se que em 1985 o bilionário Malcolm Forbes (1919-1990) pagou, num leilão da Christie´s, 155 mil dólares por uma garrafa de Château Lafite,  de 1787, que pertencera à adega do presidente Thomas Jefferson (um grande amante dos vinhos de Bordeaux). Corrigida pelo poder de compra da moeda americana, essa quantia corresponde hoje a uns 500 mil dólares, a algo próximo a R$ 900 mil.

Final infeliz: a garrafa foi colocada em demonstração, na posição errada (vertical), e sob um forte foco de luz. O calor fez secar a rolha, esta caiu dentro da garrafa e o vinho se perdeu. Dá para acreditar? Acredite: é o fantástico mundo dos muito ricos. É de Forbes, que gostava de fazer frases (além de dinheiro), esta: “A diferença entre homens e meninos é o preço dos seus brinquedos” (Mr. Forbes, se verdadeira a estória do leilão, era chegado a brinquedinhos nada baratos).
Voltemos à questão primária da escolha. Pensando bem, tudo tem a ver com o gosto (e o bolso). Logo, você pode até ir de tinto suave, pois a decisão é sua e ninguém tem nada com isso. O suave também é muito bom vinho, se assim lhe parece.

De minha parte, fico com esta definição do poeta:

Quintana

MELHOR VINHO

Por mais raro que seja, ou mais antigo,
só um vinho é deveras excelente:
aquele que tu bebes, docemente,
com teu mais velho e silencioso amigo.
Falou e disse, Mário Quintana. Tintim!

JOTAÉ FICARÁ DE BUZU EM FEVEREIRO

Jararaca Ensaboada está de carro novo, comprado em 60 prestações ditas suaves, com a primeira delas agendada para quando o Carnaval chegar. Tadinho do vendedor: novo na região, ainda não sabe que, de acordo com o histórico do comprador, o veículo terá de ser tomado (com muita dificuldade), tão logo soem as trombetas do Zé Pereira de 2010. Jotaé é do tipo que não paga nem promessa a santo, que dirá bens de consumo. Depois dessa providência traumática, a triste figura voltará ao buzu, ou terá de usar o polegar para pedir carona a quem não a conhece.
(O.C.)

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UNIVERSO PARALELO

MAHALIA JACKSON: JAZZ OU GOSPEL?

Ousarme Citoaian

Mahalia: a voz do sonho de Luther King.

Se você encontrar Mahalia Jackson entre as vocalistas do jazz talvez seja homenagem, não erro. Os mais exigentes dizem que ela não é cantora de jazz: distorcer a melodia e alongar sílabas não é suficiente (ela gasta 4 segundos para dizer “at”). Já outros a veneram, justamente por essas qualidades e pelo jeito “negro” de cantar (seja lá o que isto signifique). É a herança do blues, via Besse Smith, “mãe” de vocalistas negras e brancas. Na dúvida, fique com o senso comum: Mahalia é cantora gospel, a voz que embalou Martin Luther King no último sono.

Os especialistas europeus puseram fim à discussão, pois consideram Mahalia Jackson “a maior cantora gospel de todos os tempos”. Nascida em Nova Orleans (1911),  morreu em Chicago (1972), antes de completar 62 anos. Vivia-se pouco naquela época, mesmo os artistas que não se entupiam de álcool, heroína e outros venenos (Billie Holiday só durou 44 anos; Janis Joplin, morreu com 27).
Em 1950, Mahalia Jackson tornou-se a primeira cantora gospel a se apresentar no Carnegie Hall de Nova York, e em 1952, durante turnê pela Europa, ganhou o citado título de “a maior cantora etc.”. Nessa categoria, também foi a primeira a cantar no consagrado The Newport Jazz Festival (em 1958 e 1959).
Mahalia teve participação especial no filme Imitação da vida, com Lana Turner (de 1959); em 1961, cantou na posse do presidente americano Jonh Kennedy; em 63, apresentou-se perante 250 mil pessoas, num comício de Martin Luther King – quando ele fez o famoso discurso pelos direitos civis “I have a dream” (“Eu tenho um sonho”). Ela voltaria a cantar no funeral de Luther King, que foi assassinado, em 1968.
Aqui, Silent night, holy night, gravação de Mahalia Jackson de 1949, em que ela faz uma leitura muito própria da conhecida canção de Natal, com um andamento novo e pungente.
Clique e se arrepie (afinal, Christ the Savior is born!).

UM QUARENTÃO DE CARA NOVA

Márquez: realismo fantástico revisitado.

Uma obra-prima da literatura moderna (Cem anos de solidão, do colombiano Gabriel Garcia Márquez) completou 40 anos e ganhou edição especial da brasileira Distribuidora Record. Li a nova versão (o aniversário foi em 2007, mas a homenagem só foi feita em 2009), sem compará-la com a anterior. Não sei em que Garcia Márquez mexeu, mas sei que não mexeu em muita coisa. A estória continua arrebatadora.

Cem anos de solidão (Nobel de 1982) é o ápice da literatura de ficção em língua espanhola (com perdão de Borges e fora Cervantes). Obra cheia de encantos, da linguagem bem cuidada aos personagens fantásticos, extraordinários, ganhou em 2009 uma versão brasileira, especial para comemorar os 40 anos de publicação.
Homenagem depois da hora, mas ainda oportuna. O escritor paulista Eric Nepomuceno (Coisas do mundo e outros títulos) fez a tradução, anotou as mudanças do autor e entra com um artigo fundamental (“A solidão na América Latina”), para compreendermos a trajetória desse grande livro.
Contam que a estória “veio” ao autor durante uma viagem a Acapulco. Na estrada, o santo baixou, ele manobrou o carro (um Opel branco), foi pra casa e começou a escrever, num jorro só. “As coisas não ocorreram exatamente assim”, diz Nepomuceno. Márquez teve mesmo o “relâmpago” do livro, mas passou o fim de semana em Acapulco, angustiado, e só na terça-feira, já na Cidade do México, começa a escrever.
A primeira (e bela) frase do livro foi conservada na edição comemorativa, apesar do deslize num tempo verbal, comentado pelo tradutor: em vez de había (havia) ele sugere habría (haveria), pois como está “soa mal, perde força, perde ritmo, fica duro, em português”. Só que o erro foi conservado, com a frase traduzida ao pé da letra “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendia havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”.

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Fora de controle – Cem anos de solidão teve uma tiragem inicial de 10 mil exemplares, o que fez Márquez temer ser responsável pelo maior encalhe que a editora já vira. Engano. A edição se esgotou em 15 dias, foi feita outra igual, também se esgotou rapidamente e começaram a chegar pedidos de outros países: o México, por exemplo, queria 20 mil exemplares.

Foi um tufão que jamais parou. Em três anos, Cem anos… vendeu 600 mil unidades em castelhano; em oito anos, 2 milhões. Em 1982, quando Garcia Márquez ganha o Nobel, 25 milhões de exemplares foram vendidos, só em castelhano, e quando o autor fez 80 anos, em 2007, as vendas atingiram 50 milhões de exemplares. Da pilha de mensagens que o autor recebeu sobre o prêmio, uma se destacou. Dizia “Morro de inveja” – e era do amigo Darcy Ribeiro, que Márquez define como “um sábio”.
Cem anos… foi também um furacão na vida do escritor colombiano. Ele disse que tem “rancor” desse livro que “quase destroçou” sua vida. Com a fama, acabou-se a privacidade, subverteu-se a vida do autor e até sua correspondência virou mercadoria. Em 1970, Gabriel Garcia Márquez deixou de escrever cartas: descobriu que alguém, cujo nome preserva, havia vendido cartas suas para uma universidade americana. É a fama cobrando seu alto preço.

A MORTE NADA GLORIOSA DO “SE”

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O “se”, caso não esteja à morte, corre sério risco de vida. Antes, o aviso de aluguel do imóvel dizia “Aluga-se”. Hoje,   é comum (e irritante), encontramos placas que dizem: “Aluga”. Vale o mesmo para “Vende” e, como noticiou importante jornal, “a reunião inicia…”. É só descuido e preguiça ou também ignorância recidivante da língua portuguesa? Difícil saber. O Banco do Brasil também deu uma cacetada no pobrezinho do “se”, que nunca humilhou ninguém.

Há verbos que exigem a companhia do “se”. Queixar (sempre), e, de forma eventual, alugar, preocupar, despreocupar. O Banco do Brasil faz uma campanha sugerindo ao cliente que “Despreocupe” (a foto é da agência gaúcha de Flores da Cunha-RS, em 30 de novembro). Péssima idéia. Na linguagem de quem foi à escola, a forma correta é “Despreocupe-se” (ou “preocupe-se”, “queixe-se”, “dane-se” e por aí vai). “Despreocupe” é qualquer coisa menos língua portuguesa.
Sabe-se (olha o “se” aí, gente!) que “Queixar-se” é verbo essencialmente pronominal (diz ao “se” que não sai de casa sem ele!). Não existe “Queixar”. Aliás, existe, mas como gíria, alguma coisa do tipo azarar, xavecar, ganhar no queixo, no papo.
A propósito, o trovador Miguezim de Princesa empregou bem o termo, numa composição que fez sobre FHC. Antes, uma explicação, conforme Freud gostava de fazer: Miguezim de Princesa não é outro senão o delegado Miguel Lucena, nascido em Princesa Isabel-PB, morador de Brasília-DF, e que se define assim:
Meu nome é Miguel Lucena,
o Miguezim de Princesa,
saio espalhando alegria
para espantar a tristeza,
no entulho da feiúra
boto um rio de beleza (…).
O “Príncipe dos Sociólogos” teve uma filha com uma jornalista e, recentemente, descobriu-se um filho seu (lá dele!) com uma empregada doméstica. Empolgado com os feitos sexuais do ex-presidente, o trovador paraibano disse que “a Pátria verde e amarela/Também tem seu garanhão”. E, do alto desse pátrio entusiasmo, produziu esta primorosa quadrinha sobre as habilidades efeagacianas (mas antes, como se diz no cais do porto, “tirou o dele da reta”):
O que passar ele “queixa”
(empregada ou jornalista)
só não papa repentista
porque a gente não deixa!…
Bem que o BB (olha o trocadilho infame!) poderia evitar vexames como o de escrever “Despreocupe”. A rigor, não é uma campanha; é um atentado à regência verbal, um monumento à ignorância, que faz a língua portuguesa inculta e feia.
OBS.: Neste texto, usamos o pronome “se” 17 vezes. Só pra chatear.

JOTAÉ NÃO LEU E NÃO GOSTOU

Perguntaram a opinião de Jararaca Ensaboada sobre esta coluna no Pimenta. A triste figura pediu licença, antes de chutar as canelas do perguntador e oferecer sua opinião abalizada, isenta, rasteira e sibilante:
– Não li e não gostei. Anote aí que também não vou ler nunca e tampouco vou gostar jamais!
Mais não disse. Nem precisava.
Jararaca Ensaboada é o único ser de língua lusófona que emprega a palavra “tampouco”. Jânio Quadros a empregava, mas Jânio, graças ao bom Deus, já esticou as canelas secas. Jotaé, para nossa falta de sorte, parece ser imortal.

CYRO E O CÉU QUE TOSSE

Na revista Direitos, editada por Vercil Rodrigues, Cyro de Mattos (bem aparelhado prosador, poeta e crítico) fala da Faculdade de Direito da Ufba, na qual se formou, em 1962. A certa altura, sobre a relação do homem com o Direito, acentua:
Sem essas regras coercitivas, novas e tão velhas, que ele trouxe dos longes comoventes, eu não acuso o céu que tosse, o rio que chora água e morre de sede, a lágrima que pende da árvore, o índio banido da taba na fuga em grito e sendo soterrado sem dó até o último gemido. Eu não acuso o exílio da flor nas ruínas da flora, o pássaro ferido nas cinzas da fauna. Não me insurjo contra o menino algemado. Não proclamo a semente profunda da humana alegria dos dias no azul, o rosto pendoado no calor das mãos que acalentam a justiça como flor sonora. Nem sequer dou conta e curo minhas pequenas queimaduras.
Um oásis em meio à aridez de composições tatibitates que encontramos frequentemente.
(O.C)

UNIVERSO PARALELO

ONDE VOCÊ ESTAVA HÁ 40 ANOS?

Ousarme Citoaian

Quem já rodou 60 anos (ou ultrapassou essa quilometragem) conhece Yves Montand. Se você está nessa faixa etária e não Ouviu falar dele, só existe uma explicação:  quando jovem, você estava mais por fora do que umbigo de vedete, quer dizer, tão desatualizado quanto esta gíria, exumada do tempo em que mulher de umbigo à mostra era novidade.  Se uma pessoa com esse tempo de estrada não dançou sob as canções nem namorou nos filmes com esse mito, me permito indagar: onde raios ela se escondia nos anos sessenta? Neste planeta, aposto, não era.

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AS IMORTAIS FOLHAS MORTAS DO OUTONO

Qualquer apreciador de jazz terá algumas gravações de Autumn leaves, um dos temas mais venerados desse gênero. A música (de Joseph Kosma, com versos do poeta Jacques Prévert) foi criada em 1945, com o título de Les feuilles mortes, e ninguém imaginava o terremoto que estava a caminho. Em 1946, no filme As portas da noite, o estreante Yves Montand canta a canção e ela se liga a ele pelo resto da vida (cantou-a também no Brasil, em 1982, no Teatro Municipal de São Paulo).

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Padilha:

Telmo Padilha.

O INSUPORTÁVEL PESO DAS PERDAS

Tenho curvos os ombros e torta coluna, com o peso das perdas. Dentre muitas, cito uma ainda não de todo superada: Telmo Padilha, morto há uma dúzia de anos. Telmo me incentivou, me motivou, me mostrou caminhos – que nem todos eu segui. Sua morte me deixou meio órfão, e talvez seja esta a primeira vez em que me confesso sobre este assunto. Ah, deve ser esse vinho e esse sax de Coleman Hawkins…

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FLORES PARA UM BRUXO

O que você está lendo? No momento, o Pimenta, óbvio, mas não é este o sentido da pergunta, você sabe. De minha parte, acabei de ler Capitu mandou flores, uma coletânea de textos baseados no romance Dom Casmurro e em dez contos famosos de Machado de Assis (Missa do galo, O alienista, Noite de almirante, Uns braços e outros seis), além de ensaios sobre esse extraordinário criador brasileiro, o bruxo do Cosme Velho.

Na relação dos mais de trinta escritores que o organizador Rinaldo de Fernandes desafiou a recriar o texto machadiano está o contista, crítico e tradutor Hélio Pólvora, com um conto monumental (O Regresso), tendo Dom Casmurro como espelho.

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