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:: ‘Antônio Olinto’

UNIVERSO PARALELO

ITABUNA E O NÓ GÓRDIO NA SAÚDE PÚBLICA

Ousarme Citoaian
Em artigo que comenta a situação da saúde pública de Itabuna, um diário local afirma haver nas relações da prefeitura com o estado um nó górdio a ser desatado. Bela expressão, dessas que integram o falar brasileiro – e cujo emprego tanto temos defendido. Essas aquisições parecem dar ao texto sabor erudito, “culto” – o que é verdade, pois quem não tem boa base de leitura raramente recorre a tais adornos estilísticos. Mesmo quando utilizadas por pessoa que delas apenas ouviu falar, tais “frases feitas” oferecem ao texto encanto e formosura. Como nem todos sabem a origem do termo, valho-me do Google e atualizo minha informação, que passo adiante.

O NÓ SÓ FOI DESFEITO DEPOIS DE 500 ANOS

Górdio foi um camponês que se tornou rei da Frígia, na Ásia Menor (lá pelo século VIII a.C.) e, para não esquecer sua origem humilde, botou dentro do templo de Zeus a carroça em que chegou à cidade.  E a amarrou com um nó tão danado que gerou uma profecia: quem o desatasse tornar-se-ia rei de toda a região. Mesmo com tão grande prêmio, o Nó de Górdio ficou intato durante cinco séculos. Até que Alexandre da Macedônia parou em Frígia para o repouso de suas tropas e, sabendo da profecia, resolveu tirar a história a limpo. Pôs-se em silêncio em frente ao nó, analisou-o e, com um golpe de espada forte e certeiro, o cortou, tornando-se assim o rei do pedaço, isto é, o líder da Ásia Menor.

O REI MIDAS FOI ATENDIDO AO PÉ DA LETRA

Moral da história: diante de problemas, precisamos – com o emprego do capital intelectual de que dispomos – pensar, analisar e encontrar alternativas. Mas é pertinente  referir que esse rei Górdio fazedor de nós era pai do rei Midas, fazedor de ouro, outro nome caro à mitologia grega. Midas era rico, ganancioso, orgulhoso, enfim, se achava. Foi vítima da ganância e da má interpretação de suas palavras: pediu a Dionísio (a quem prestara um favor) o poder de transformar em ouro tudo o que tocasse e, a partir daquele dia, sua vida ficou um inferno dourado, pois tudo que ele tocava (água, comida, gente, coisas e bichos) virava ouro. Pediu em sentido figurado, recebeu ao pé da letra.

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A MEMÓRIA FAZ O PASSADO SEMPRE PRESENTE

Há de se perceber nestas provocações semanais um quê de memória, de passado, nem sempre aprovado pelo apetite dos obsessivos do imediato. “Quem gosta de passado é museu”, repete-se o adágio indigente de bom gosto, graça ou criatividade. É tempo de lembrar, sem rodeios ou firulas, que, ao contrário desse discurso equivocado, o passado sempre está presente. Não há intenção de trocadilho, mas a constatação de que nosso ontem não nos abandona – e isso é tão fundamental, que o homem nasceu com memória, faculdade de guardar, registrar e lembrar. Não sei de alguém que diga isto melhor do que o historiador francês Jules Michelet: “Memória é ressurreição”.

REMÉDIO CONTRA AS FISSURAS DO PASSADO

A relação tempo-memória foi muito bem analisada no discurso de posse do escritor mineiro Antônio Olinto (foto), na Academia Brasileira de Letras. Baseio-me na lembrança (não disponho, no momento, do livro em que está o discurso) e destaco a essência: não se vive sem passado, o passado sempre está presente em nossa vida, e a memória vence o tempo. A memória é o anti-tempo, a panaceia para traumas e fissuras que ele causa. E Olinto encerra com este fecho de ouro: “Só na memória palpita uma possível imortalidade”. Um fato ocorrido ontem pode estar esquecido hoje; outro, há séculos, pode permanecer atual. O que os diferencia não é o tempo, é a memória.

EM ITABUNA, O EXAGERO HÁ DE SER LOUVADO

Itabuna acaba de criar duas academias de letras. À parte o exagero de dois sodalícios de uma tacada só, a iniciativa há de ser louvada. Afinal, o que é uma academia de letras, se não um grande e nobre mergulho no passado literário da região? Só por ter levantado o assunto, a cidade já fala, quando nada à boca pequena, em Adonias Filho, Firmino Rocha (foto), Manuel Lins, Telmo Padilha, Gil Nunesmaia, José Bastos, Jorge Medauar, Euclides Neto, Plínio de Almeida, Afrânio Peixoto e tantos outros patronos da novel instituição (todos mortos, comme il fault) – a  lista, conforme o modelo francês da Academia Brasileira de Letras, é de 40 nomes. É a possível imortalidade literária palpitando, como quis Antônio Olinto.

O COLUNISTA PERDEU SUA APOSTA TEMEROSA

Os leitores foram generosos quanto à minha aposta (um tanto temerosa, sei) em Bravura indômita como ganhador do Oscar. O filme ficou no zero, mesmo com dez indicações, perdendo feio para O discurso do rei. Rubens Ewald Filho tinha razão – e este episódio deixa clara a distância entre palpites de amador e de profissional: um opina apoiado em aspectos técnicos, mercadológicos e políticos; outro baseia-se em preferências pessoais. Rubens Ewald sabia; eu queria. Mas continuo a ver o faroeste como a essência do cinema norte-americano. E, por favor, sejam gentis comigo: não me falem em faroeste spaghetti.

JOHN WAYNE, OU A ARTE IMITANDO A VIDA

Alguns westerns abordaram a decadência do gênero, sempre com uma visão romântico-nostálgica sobre o ocaso desse ciclo. À memória me vem, sem muito esforço, O último pistoleiro (Don Siegel/1976), em que o velho Marion Robert Morrison, mais conhecido como John Wayne (1907-1979), faz papel dele mesmo: com câncer de pulmão (era fumante), Wayne representa John Bernard Books, famoso pistoleiro corroído pela doença – e que procura um lugar tranqüilo para morrer em paz. Com mão segura, Siegel (Perseguidor implacável/1971 e mais de 30 outros títulos) conduz a história a um final digno dos clássicos, depois de diálogos (e silêncios!) muito inteligentes.

PISTOLEIRO CHORA PELOS “VELHOS TEMPOS”

Mas nenhum faroeste tem tanta graça e leveza quanto Dívida de sangue/1965, de Elliot Silvestein (Um homem chamado cavalo/1970) – que deu o Oscar a Lee Marvin. O filme, além de Marvin em plena forma, tem a plena beleza de Jane Fonda (“Oh! que saudades que eu tenho!”) e, para arrematar, Nat King Cole e Stubby Kaye, os menestréis que, no formato de coro do teatro grego, fazem o contraponto da narrativa. A cena em que o pistoleiro pé de cana toma uma talagada “para firmar a mão” é antológica. E tocante é seu discurso saudosista sobre a perda de poder dos caubóis. Um vídeo especial para esta coluna, aqui.

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O.C.

UNIVERSO PARALELO

REFORMA: MUITO DEBATE, POUCO RESULTADO

Ousarme Citoaian
As gerações que aprenderam língua portuguesa antes das últimas quatro décadas (só para fixar um período, sem maior precisão) têm discutido acirradamente a presença do Y em nomes próprios.  Enquanto a reforma ortográfica de 1942 eliminava essa letra (na companhia do K e do W), continuaram a ser grafados os Raymundos, Ruys, Cyros, Euclydes, Oswaldos, obviamente, e, em tempos recentes, sem prejuízo, duma profusão de Yasmines, Karlas, Karines e Kamilas. A mesma reforma – que gerou apaixonados debates na Academia Brasileira de Letras – também aboliu o H medial (de Christo, por exemplo), deixando como exceção a palavra Bahia.

NA BAHIA, NINGUÉM MEXE COM RUY BARBOSA

Em 1993, quando Sérgio Cabral publicou No tempo de Ari Barroso, incluiu uma nota explicativa sobre o motivo de grafar Ari (e não Ary, como fazia o compositor mineiro) – e levou um elegante “pito” do filólogo Antônio Houaiss. Para aquele que é tido como “o maior conhecedor da língua portuguesa em tempos modernos”, o autor não precisava se justificar, pois a forma arcaica Ary inexistia entre nós, devido à queda do Y. A mesma regra também aboliu Ruy, sob protesto de baianos enfurecidos, pois nesta terra descoberta por Cabral (Pedro, o lusitano, não Sérgio, o carioca) Ruy Barbosa é “imexível”.

NADA MUDA PARA RAYMUNDOS, CYROS E RUYS

Eis que em 2009 entra em vigor o (mais um!) novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (AOLP), que recoloca no alfabeto as letras K, W e Y, renovando uma querela já, pela parte que me toca (e a Antônio Houaiss!), resolvida. As  “novas” letras só podem ser utilizadas em nomes estrangeiros não aportuguesados (como Darwin, Franklin, Wagner, motoboy),mas mesmo assim a medida deu ânimo aos “cartoristas”: afinal de contas, se temos, legalizada pelo AOLP, a presença  desses sinais outrora banidos, por que não usá-los? Porque seu uso “recuperado” é restrito – então, quanto a W, Y e K, nada importante há de novo.

OS QUE ESTÃO MORTOS NADA MAIS RECLAMAM

Um linguista (já não me lembro quem) sugeriu uma saída sábia para tal questão: respeitar as grafias “ao gosto do dono”, enquanto este for vivo. Por exemplo: embora o acadêmico Antônio Olinto grafasse seu nome sem circunflexo, me dou ao direito de escrever Antônio, seguindo a regra (e o crítico não está mais entre nós para reclamar), o mesmo ocorrendo com o poeta Vinícius – para mim, “de Morais”, pois a forma “Moraes” é estranha à língua. Jorge de Souza Araujo não quer acento em seu último nome: e, pelo que me é dado opinar, assim fica, enquanto vida ele tiver – que rezo para ser loooonga e profícua.

CEM ANOS DE MARIGHELLA E ASSIS VALENTE

Uma listinha de nascimentos em 1911 (faz cem anos!): Assis Valente (compositor, Santo Amaro-BA), Broderick Crawford (ator, Filadélfia-EUA), Carybé (pintor, Buenos Aires-ARG), Carlos Marighella (político, Salvador-BA – na foto, metralhado), Mahalia Jackson (cantora, Nova Orleans/EUA), Maria Bonita (“lampiona”, Santa Brígida-BA), Mikhail Botvinnik (enxadrista, Kuokkuala-FIN), Paulo Gracindo (ator, Rio de Janeiro-RJ), Pedro Caetano (compositor, Bananal-SP), Robert Johnson (bluesman, Mississipi-EUA), Roland Barbera (criador de desenho animado, Nova Iorque-EUA). Também se tornam centenários neste ano da graça de 2011: San Thiago Dantas (político, Rio de Janeiro-RJ) e Tennessee Williams (dramaturgo, Mississipi-EUA).

COLUNISTA “DIVIDE” A DATA COM BOB DYLAN

E há uma pequena relação de setentões, os nascidos em 1941: são daquele ano as atrizes Faye Dunaway (Os olhos de Laura Mars/1978) e Julie Christi, o jornalista e compositor Sérgio Bittencourt (Modinha, Naquela mesa), o cantor Roberto Carlos (já fartamente noticiado), o baterista Airto Moreira e o cantor Bob Dylan. Que coincidência: Bob Dylan (foto) e um veterano colunista da região (de quem não revelo o nome porque ele considera sua idade uma espécie de segredo de estado) viram a luz do mundo pela primeira vez na mesma data, há 70 anos: 24 de maio de 1941. Também deram seu primeiro berro no dia 24 de maio os “globais” Marcelo Madureira (comediante) e José de Abreu (ator).

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EU QUE NÃO AMAVA OS BEATLES E OS STONES

Quando Drummond nasceu, um anjo torto disse: “Vai Carlos, ser gauche na vida!”. A “praga” me atingiu. Gauche (não sei se por artes de anjos ou demônios), enquanto os Beatles reviravam o mundo com suas guitarras retumbantes, eu me mantinha em cool, ouvindo João Gilberto, o mar, o sol, o sul (“as mãos se descobrindo em tanto azul”), é preciso cantar para alegrar a cidade – e tudo se acabar na quarta-feira. Avesso a fusões, era-me inviável conciliar Beatles e Bossa Nova: cartesiano, dicotômico, sim ou não, preto e branco, ai de mim, eu era um garoto que não amava os Beatles e os Rolling Stones. O castigo não demorou a chegar: tempos depois, passei a absorver Beatles de segunda mão, pelo novo canto que vinha do Norte.

“SOM E A FÚRIA DE UM “POETA MALDITO”

Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenele Fernandes é o compositor brasileiro que mais foi influenciado pelo som, a fúria e a poética da turma de Liverpool. Belchior é campeão de citações literárias – o que o remete ao panteão dos grandes: Shakespeare e Edgard Allan Poe, Divina comédia de Dante e “Ora – direis – ouvir estrelas. Certo perdeste o senso”, de Bilac, estão em seus versos, além de colegas como Caetano, Roberto Carlos e Celly Campello. Com raízes que vão do erudito aos violeiros nordestinos, de Luiz Gonzaga a Bob Dylan e os Stones, seu tom saudosista esconde um revolucionário. “O passado é uma roupa que não nos serve mais”, “o novo sempre vem”, “eles venceram e o sinal está fechado pra nós, que somos jovens”.

DE BOB DYLAN AOS VIOLEIROS NORDESTINOS

Mas os Beatles são os mais citados: em Velha roupa colorida (“Blackbird” e “She´s leaving home”), Medo de avião (“I want to hold your hand”) e ainda “Hapiness is a warm gun”, em Comentário a respeito de John, feita com José Luiz Penna. O canto nostálgico de Belchior, a voz sofrida do retirante sufocado pela cidade grande sempre me fascinou, também pela sua presença no cancioneiro anti-ditadura militar: são dele, dentre outros, os versos “Mas veio o tempo negro e a força fez comigo/ o mal que a força sempre faz./Não sou feliz, mas não sou mudo:/hoje eu canto muito mais”. Clique e ouça o clássico Medo de avião, arquivado no Fantástico (com citação dos Beatles e uma sombra de fetiche sobre aeromoças).



(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

NUM SÓ DIA, DUAS PEDRADAS NOS JORNAIS

Ousarme Citoaian

No mesmo fim de semana, recebo duas pedradas, vindas de veículos diferentes, mas igualados no mesmo desleixo com a linguagem. Um dos principais diários de Itabuna estampa no alto da página: “Gisnática Laboral em alta no setor empresarial”; e o dito mais importante jornal do Nordeste, de Salvador, saiu-se com esta pérola, também num título: “O medo não é só da mulher. Não tem haver com gênero”. Um caso, além dessa incômoda gisnática, tem o agravante da rima (“laboral-empresarial”), o que já condenaria o título. O outro (pela relevância do jornal) é ainda mais grave.

OS ERROS NOS ESPREITAM TODO O TEMPO

Quem conhece, mesmo sem aprofundar-se, a rotina de uma redação sabe que os erros nos espreitam todo o tempo. Mas há erros e erros (até já abordamos aqui os famosos erros de digitação, outrora chamados erros de imprensa). Escrever gisnática (em vez de ginástica) é erro de digitação, ao levar o “s” para um lugar estranho. É acidente de trabalho que precisa ser atendido pelo próprio redator, o editor ou por um profissional em extinção, chamado revisor). Nada justifica (principalmente em letras grandes) que chutes na canela cheguem às bancas e atinjam leitores incautos.

DIFERENÇA ENTRE ACIDENTE E IGNORÂNCIA

Mais difícil ainda é aceitar como “normal” que um redator (muito provavelmente com formação universitária) grafe tem haver em lugar de tem a ver, pois aqui não se trata de simples derrapagem a que todos temos direito, mas de ignorância crassa de princípios elementares de língua portuguesa. Como disse um cínico, “herrar é umano”, mas se a gente usa mais a borracha do que o lápis, é preciso desconfiar. Não entendo que um grande jornal tenha o direito de cometer erros desse nível. Em qualquer boa escola de segundo grau essa construção receberia um zero bem grande e redondo.

A LEI DE LAVOISIER NO TEXTO LITERÁRIO

O crítico Hélio Pólvora compara a literatura a uma olimpíada, afirmando que “na boa literatura a lanterna de Diógenes passa de mão em mão, como tocha olímpica”. O autor de Itinerários do conto acrescenta que as consequências desse caminhar da tocha “são as aparentes imitações, que, na verdade, aproximam temperamentos, sensibilidades, experiências comuns”. Passando de uns para outros, a arte recebe acréscimos que a engrandecem, de sorte que nada é propriamente novo, mas transformado, uma espécie de Lei de Lavoisier. Por mais criativo que pareça o autor (foi assim que entendi), sempre há alguém que o inspirou e motivou.

O TEXTO RESULTA DE TRABALHO COLETIVO

Para Hélio, nada acontece por acaso em literatura, sendo esta uma obra de arte coletiva. “Para cada grande escritor que surge (…) em língua portuguesa, haverá sempre uma geração ou mais de escritores diversos que prepararam alicerces às suas descobertas”, afirmou o crítico em 1985, em palestra na Universidade Federal da Bahia. Por ser a literatura um trabalho “de equipe”, matéria que se transforma ao longo da existência, ao agregar autores diversos, ela cria dificuldades extras para os não iniciados, como eu. É muitas vezes torna-se difícil separar a homenagem e a deslealdade: citação e pastiche, referência e plágio .

A OLAVO BILAC O QUE É DE OLAVO BILAC

Tenho consciência de que a citação possa, diante de leitores menos atentos, soar como apropriação indébita, mesmo assim a uso. Há pouco, empreguei aqui, sem aspas nem nada, a expressão “nasceu pequeninho, como todo mundo nasceu”, uma referência (tomara que) óbvia a Caymmi; também reproduzi, aspeado, o verso “[Em que Camões] chorou no exílio amargo, o gênio sem ventura e o amor sem brilho”, citação intencional clara do soneto “Língua portuguesa”, de Olavo Bilac. Não me apropriei de produção alheia, apenas considerei que os leitores não exigem bula, e precisam ter sua inteligência respeitada. Mas vou tomar mais cuidado.

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE ANTÔNIO OLINTO

O jornalista João Lins de Albuquerque (foto), ex-chefe da Divisão de Língua Portuguesa da Rádio das Nações Unidas (ONU) em Nova York, tem na praça o livro Antônio Olinto – memórias póstumas de um imortal. É uma entrevista com o mineiro Antônio Olyntho Marques da Rocha (Ubá/MG 1919-Rio/RJ 2009), de quem extraiu histórias magníficas. Intelectual dos mais aparelhados que o Brasil produziu, Olinto (vejam que ele “consertou” o pernóstico Olyntho) brilhou em várias atividades, sobretudo a de professor: latim, português, história da literatura, francês, inglês e história da civilização. Seu livro Jornalismo e Literatura foi adotado em diversos cursos de jornalismo..

NOME QUE DISPENSA APRESENTAÇÕES

Antônio Olinto (foto) é uma das melhores justificativas para o lugar-comum “dispensa apresentações”. Como “apresentar” alguém que foi, com invulgar entusiasmo, professor, jornalista, crítico literário, autor de dicionários e de gramática, ensaísta, autor de literatura infantil, acadêmico (ocupou a Cadeira nº 8 da Academia Brasileira de Letras), contista, romancista, poeta – e ainda encontrou horas vagas para se dedicar às artes plásticas? É melhor não identificá-lo por nenhuma dessas habilidades, pois qualquer delas nos levaria ao pecado da omissão. Chamemo-lo, simplesmente, de Antônio Olinto. Para quem o conhece deve ser suficiente.

MURUCUTUTU, SAFADO, LUPANAR E SAUDADE

Em matéria para O Globo, Olinto perguntou a dez escritores, por telefone, qual era a palavra mais bela da língua portuguesa. Guimarães Rosa escolheu murucututu, segundo ele, uma corujinha amazônica, afirmando que “nenhum país tem uma palavra tão bonita quanto esta, cinco ´us´ numa palavra só”. Jorge Amado (foto), provocador, preferiu safado (de Safo, a poeta grega), mas Roberto Marinho vetou a publicação, o que levou o escritor a escolher outra: lupanar. “Pior ainda!”, lamentou Olinto, pois esta é que não seria publicada mesmo. Ele disse que lupanar é uma palavra bonita, mas que safado era de “um mau gosto atroz”. A vitoriosa no concurso de Globo foi… saudade.

PALAVRAS COM SEDUÇÃO E ENCANTO

Para Antônio Olinto, alegria era a palavra mais bonita da língua portuguesa. Ele conta que, em Londres, viu uma casa em cuja fachada estava escrito: “Alegria”. Sem pensar duas vezes, tocou a campainha, ouvindo de um inglês meio atônito a explicação: “Eu morei no Brasil um bom tempo e achava a palavra alegria tão bonita que, quando voltei, resolvi decorar a entrada da minha casa com ela!”. Eu tenho cá comigo algumas palavras que acho muito bonitas: encanto e sedução, por exemplo. E você, quer entrar no jogo e dizer quais as duas palavras que mais o seduzem ou encantam na língua portuguesa? Parece que cometi um trocadilho…

“FASCINANTE” CANÇÃO QUE VIROU MANIA

Fascinação enraizou-se na MPB a ponto de a gente nem lembrar que ela é francesa. De 1905, a canção só chegou à língua portuguesa em 1943, na versão de Armando Louzada, gravada por Carlos Galhardo. Foi mania nacional, aliás, mundial: teve registros de Dinah Shore, Nat King Cole, Jane Morgan (para o filme Amor na tarde, de 1957), Connie Francis, Dean Martin, Edith Piaf, Pat Boone, Demis Roussous. Entre nós, foi entoada, além de Galhardo, por Nana Caymmi, Agnaldo Rayol, Francisco Petrônio, José Augusto, Agnaldo Timóteo, Jorge Vercillo e até por uma dupla chamada Sandy e Júnior .
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

A GRANDE VOZ DA NOVELA “O CASARÃO”

Em 1976, quando ninguém mais queria saber de Fascinação, a música foi incluída no álbum Falso Brilhante, de Elis Regina, e daquele momento em diante tornou-se um dos temas românticos mais presentes no repertório da cantora – com a luxuosa ajuda das novelas O Casarão/1976 e O profeta/2006, ambas da Globo, de que fazia parte da trilha sonora. Mais tarde, com sua reconhecida criatividade, o SBT também teve Fascinação como tema (e título) de novela, só que na voz de Nana Caymmi. Tem mais: em 2007, com a letra em francês, o tema foi usado em Piaf – um hino ao amor, filme baseado na vida de Edith Piaf.

VERSÃO CORRIGIU FRAQUEZAS LITERÁRIAS

Canção de amor desesperado, bem ao feitio das escolhas de Piaf, a versão brasileira é “leve”, e poeticamente mais consistente, no estilo dos nossos letristas românticos. (curiosidade: nos mais de 30 versos de  Fascination não há esta palavra nem uma vez). As fraquezas literárias saltam logo nos primeiros versos: Je t’ai rencontrée simplement/ Et tu n’as rien fait pour chercher à me plaire (algo como “Eu lhe encontrei simplesmente/ E você nada fez para tentar me agradar”). Louzada corrigiu isto, com o lirismo de “Os sonhos mais lindos sonhei/ De quimeras mil um castelo ergui”. Com (letrista) brasileiro não há quem possa. Clique e veja/ouça.

(O.C.)






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