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:: ‘Ariano Suassuna’

AS REDES SOCIAIS E A SUA GERAÇÃO HIPOCRISIA

Manuela BerbertManuela Berbert | manuelaberbert@yahoo.com.br

O grande problema é que para essa Geração Hipocrisia do século XXI, que cria mitos e astros diariamente, a depressão do vizinho é apenas um drama, um chiliquezinho a mais.

E, de repente, todo mundo leu Viva o povo brasileiro, quando Rubem Alves morreu. Não, pera!, esse texto era do João Ubaldo Ribeiro, jornalista e também escritor, que faleceu algum (muito pouco, inclusive!) tempo depois. E eu fiquei me perguntando quantas pessoas de fato sabiam sequer quem eram aqueles caras e o que eles acrescentaram para a cultura nacional. Não, pera, quem acrescentou mesmo foi o Ariano Suassuna, aquele que escreveu novelas para a toda-poderosa-salve-salve Rede Globo. Não? Ele não escreveu novelas? Ah, sei lá, só sei que eu lembro muito bem do Selton Mello interpretando um cara meio nordestino, meio sertanejo, na telinha do Plim Plim, e soube que foi ele quem inventou o cara. E assim, entre erros, acertos e achismos, caminha a incrível Geração Hipocrisia, aquela que compartilha tudo nas redes sociais, ainda que não saiba do que de fato se trata!

Que geração é essa, que aguarda ansiosamente pela edição brasileira daquele evento bombástico, o Tomorrowland? Ela sabe que a atração principal desse mega show não é a Ivete Sangalo?! Que geração é essa que adora a Rihanna e a Jude Law? Não, a Jude na verdade é O Jude? É homem? Ah, tudo bem, ele também é ator, mas num lapso de segundos de esquecimento achei que fosse aquela gostosona que até veio cantar na abertura da Copa do Mundo com a Claudia Leitte. É que, sei lá, mas de alguma forma, como a abertura foi bastante criticada nas redes sociais, eu também esqueci o seu nome.

Ok, essa é a Geração Hipocrisia! E ela agora lamenta profundamente a morte daquele ator americano (e eu na verdade nem sei se ele é mesmo americano ou marciano), e fico pensando como pode um cara que sempre fez comédia, morrer depressivo. Depressão mata, e mata muito. E tem matado cada vez mais. O grande problema é que para essa Geração Hipocrisia do século XXI, que cria mitos e astros diariamente, a depressão do vizinho é apenas um drama, um chiliquezinho a mais. Ah, sei lá porque fulano tá depressivo! Eu tô aqui super ocupado com a informação de que o clipe novo da Madonna não teve o mesmo número de acessos do último, e o seu upload no youtube já passa dos cinco minutos! Nossa, como ela deve estar arrasada com isso! Diva, minha querida, meus sinceros sentimentos!

Manuela Berbert é publicitária, colunista do Diário Bahia e blogueira no www.colanamanu.com.br

LITERATURA PERDE ARIANO SUASSUNA

Paraibano Ariano Suassuna faleceu nesta quarta (Foto Beto Figueroa).

Paraibano Ariano Suassuna faleceu nesta quarta (Foto Beto Figueroa).

Da Agência Brasil

Morreu hoje (23), de parada cardíaca, o escritor, poeta e dramaturgo Ariano Suassuna. Ele estava internado, desde segunda-feira (21) no Real Hospital Português, após ter sofrido um acidente vascular cerebral (AVC) hemorrágico. Suassuna, que tinha 87 anos, morreu às 17h15min, de parada cardíaca, provocada pela hipertensão intracraniana. A família ainda não informou os detalhes do funeral.

Nascido em João Pessoa, quando a capital paraibana ainda se chamava Nossa Senhora das Neves, em 1927,  ainda adolescente, Ariano Vilar Suassuna foi morar no Recife, onde terminou os estudos secundários e deixou seu nome marcado na cultura literatura brasileira, especialmente no teatro e na literatura.

Em 1946, na capital pernambucana, fundou o Teatro do Estudante de Pernambuco, junto com o amigo Hermilo Borba Filho. No ano seguinte, escreveu sua primeira peça teatral, Uma Mulher Vestida de Sol, seguida de Cantam as Harpas de Sião e Os Homens de Barro. Em 1955, escreveu sua obra mais popular, Auto da Compadecida, que conta as aventuras de dois amigos, Chicó e João Grilo, no Nordeste brasileiro. A peça foi adaptada duas vezes para o cinema, em 1969 e 2000.

Suassuna continuou criando, escrevendo peças de teatro, romances e poesias. O Santo e a Porca, Farsa da Boa Preguiça e O Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta são algumas das dezenas de obras dele. A maioria delas foi traduzida para outros idiomas, como francês, alemão, espanhol, inglês e holandês. Em 1989, passou a ocupar a Cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras.

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UNIVERSO PARALELO

HÍFEN É PUNIÇÃO CRUEL PARA A INOCÊNCIA

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

Já citei Dad Squarisi e o “castigo divino” que Deus lançou sobre as línguas como punição aos homens por causa da Torre de Babel: o francês ficou com uma carga de acentos, o inglês escreve de um jeito e pronuncia de outro (exemplo: a pronúncia de here, é ria!), o alemão emenda as palavras, e nós de língua portuguesa fomos punidos com o hífen. Por isso eu digo que hífen não é sinal de escrita, é cruel punição para a inocência. As coisas estavam nesse eterno “tem hífen, não tem hífen”, quando veio o Acordo Ortográfico de 2009 e embananou tudo de uma vez por todas. Na semana passada, por imposição da regra, escrevi aqui “dor de cotovelo” (assim, sem hífen), sob protesto.

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Fica complicado o que nunca foi simples

Antes do Acordo, a regra era clara. Quando dois termos se unem e perdem o sentido, mete-se entre eles um tracinho ou dois e pronto. Assim, pé de moleque é o pé do moleque, enquanto pé-de-moleque é um doce; mesa redonda é uma mesa redonda (óbvio), mesa-redonda é uma negociação, uma discussão. Seguindo esse princípio, dor de cotovelo não é o que eu quis dizer (disse-o sob pressão, pois assim mandou o livro consultado). Qualquer pessoa escolarizada sabe que dor-de-cotovelo resulta de saudades e amores descarrilhados, não de bater os braços por aí. Mas parece que estamos condenados a essa barafunda hifeniana oficializada pelo Acordo, que veio complicar o que nunca foi simples.

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O GURIATÃ NOS UMBRAIS DA IMORTALIDADE

A Academia de Letras de Itabuna (Alita) tem entre seus símbolos um simpático pássaro outrora popular na região, hoje talvez já extinto, o guriatã. Minha surpresa foi descobrir desse bichinho uma descrição feita por um certo padre Jácome Monteiro, em 1610, há, portanto, mais de 400 anos: “É pássaro pequeno, do tamanho de um pintassilgo, preto pelas costas e por baixo amarelo, com um barrete da mesma cor, que o faz mui gracioso. É o pássaro mais músico de quantos há nesta Província, porque arremeda a todos os mais, e por isso o chamaram guiranheenguetá, que quer dizer pássaro que fala todas as línguas de todos os mais pássaros. São mui prezados. Estes são os que de ordinário se conservam cá em gaiolas”. Ao guriatã, agora imortal da Alita, mais quatro séculos de vida.

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DE ITALIANO SÓ SEI UMA PALAVRA: “PIZZA”

O Brasil ainda discute se dona Dilma é presidente ou presidenta – e os saudosistas não a aceitam, seja no masculino, no feminino, no neutro ou pintada de ouro sob pedrinhas de brilhantes (mas esta é outra história). Eu sempre tratei mulher no feminino: vereadora, professora, parenta, reitora – e por aí vai. Presidenta, então. A palavra existe nas línguas irmãs francês e espanhol (em italiano, desconheço, pois na língua de Dante eu só sei dizer pizza – e outra coisa que não pode ser escrita em blog familiar). Sthendal (O vermelho e o negro), Ariano Suassuna (O romance d´A pedra do Reino) usaram presidenta . O lusitano Antônio Feliciano de Castilho, também. Mas nosso tema é poeta/poetisa.

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Finalmente, mulher é poeta ou poetisa?

A história fala de uma poetisa chamada Safo, da ilha de Lesbos, na Grécia do século VII a. C. Nas últimas décadas, o Brasil passou a chamar as mulheres de poetas, transformando o que era feminino em “comum de dois”. Para os defensores de “novidades” na língua portuguesa, quem escreve “poesia de verdade” é poeta, não importa se homem, mulher ou qualquer outro sexo desses que por aí abundam. Poetisas seriam as senhoras e moçoilas que recitam seus versos bisonhos em modorrentas tardes de saraus, rimando mão com coração, ou não rimando nada com nada. Poeta escreve poesia, poetisa escreve asneiras – parece ser a regra que fixaram. Besteira pura, acho eu.

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Poetisas são “promovidas” a poeta?

Creio que em poeta/poetisa temos a sombra do preconceito: é de homem o ato de escrever poesia, de sorte que a boa poetisa tem direito ao título masculino de poeta, e a má poetisa que fique em sua primitiva condição feminina. Entendo que há bons e maus poetas, boas e más poetisas. Mas é só minha opinião. De Janete Badaró, ao entrar para a Academia de Letras de Ilhéus, Francolino Neto disse que deixou de ser poetisa, passou a poeta. Foi “promovida”, a meu ver, uma ofensa – mas o que fazer, se as próprias mulheres gostam desse jogo? Disse Cecília Meireles (foto), num poema: “Não sou alegre nem sou triste: sou poeta”. Nunca soube se Valdelice Pinheiro se achava poeta ou poetisa. Eu a chamo poetisa. E das grandes.

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A PEDRADA INADMISSÍVEL QUE NINGUÉM VIU

Tive um professor meio descuidado que, como é comum aos descuidados, volta e meia errava, falando ou escrevendo. Se, com todo respeito, lhe apontávamos o deslize, ele dava sempre a mesma explicação: errara de propósito, para verificar se seus alunos estavam atentos… Na semana passada, ao falar de “duas coisinhas”, grafei, numa pedrada homérica, “duas cozinhas”. Poderia dar várias “razões” para o episódio, mas seriam todas falsas. Foi erro mesmo (que não recebeu, estranhamente, nenhum comentário). Não há justificativa mas desculpas.

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DAVIS: DROGAS, ARROGÂNCIA, GENIALIDADE

Mesmo quem não é muito ligado ao jazz, a melhor coisa do mundo, depois do uísque com água de coco (melhor ainda os dois, de braços dados), conhece o som do trompete de Louis Armstrong (foto), por ser único. Creio que é único também o trompete de Miles Davis (Chet Baker é acusado de imitá-lo). Miles Davis, o divino, é um dos meus músicos preferidos – nunca tomei conhecimento de suas experiências inovadoras do rock (um filho espúrio do jazz), mas ele é tido como essencial aos dois gêneros. Tirânico, arrogante, autodestrutivo e com indisfarçável ódio pelos brancos, Davis era um gênio que não teria lugar neste século. Não por acaso, morreu em 1991, aos 64 anos, depois de muita confusão, drogas e influência sobre imenso número de músicos.

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Sopro particularíssimo do divino Davis

Aqui, Miles Davis mostra sua leitura de Summertime, um tema de jazz que já teve todo tipo de interpretação (Armstrong, Janis Joplin, Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Frank Sinatra, Norah Jones, Charlie Parker, Sarah Vaughan, para citar uns poucos). A meu juízo de ouvinte não técnico, este bem-comportado registro não faz nenhuma revolução no jazz (que o músico californiano costumava incendiar). Mas é uma oportunidade, para quem não é do ramo, de tomar conhecimento do sopro particularíssimo de Miles Davis, a cujo nome costuma seguir o epíteto “o divino”.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

UMA IRRESISTÍVEL ATRAÇÃO PELO INUSITADO

Ousarme Citoaian

A “inteligência” brasileira, é incrível, ainda discute se o termo “certo” é presidente ou presidenta, quando se trata de mulher. E se retomamos o tema é porque esta coluna sofre de irresistível atração pelo inusitado. Há dias, espantou-me uma declaração do escritor Antônio Risério, em artigo n´A Tarde.  “Ninguém vai me obrigar a escrever ´presidenta´. É forma dicionarizada e correta, sei. Mas dói nos meus ouvidos. E não coloco norma ideológica alguma acima da estética da língua. Nem resisto em repetir a brincadeira do nosso querido João Ubaldo: daqui a pouco, vamos acabar falando do ´motoristo´ do táxi ou das ´adolescentas´ que adoram baladas”, disse o autor de Adorável comunista (biografia de Fernando Sant´Anna).

RISÉRIO: PROSADOR, POETA E “SANGUE BOM”

A estranheza é que esse equívoco sobre “norma ideológica” parta de quem partiu. Antônio Risério, sangue bom, além de prosador e poeta, é doutor em Sociologia e dono de respeitável trabalho de pesquisa que incorpora ao português elementos de linguagem africana. E pena ainda é que ele embarque nesse sem-gracismo de João Ubaldo, grande escritor, que tem apresentado ultimamente estranha semelhança com Diogo Mainardi (a lista de baboseiras dos que se opõem a presidenta inclui ainda representanta, dirigenta, eleganta, sorridenta e outras – uma forçação de barra com gêneros femininos que, simplesmente, nunca existiram na língua. Risério, ao menos, manteve a velha decência, ao afirmar que presidenta “é forma dicionarizada e correta”.

POLÍTICOS NÃO DECIDEM SOBRE A LINGUAGEM

A tal “norma ideológica” não está em chamar mulher de presidenta, mas em não fazê-lo.  A forma “a presidente” (comparável a “o salsicha”) é discriminatória da mulher – que quando assume um cargo “de homem” é obrigada pelo machismo vigente a assumir também a forma masculina – segundo o filólogo Marcos de Castro. Dizer, como o fazem certos setores mais reacionários da sociedade, que “isto é coisa do PT” – a dita norma ideológica a que se referiu, equivocadamente, o escritor – é rematada tolice: políticos não decidem sobre a linguagem. E presidenta tem abono dos clássicos (Risério sabe mais do que eu): está, por exemplo, no luso Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875) e no contemporâneo brasileiro Ariano Suassuna (1927-…).

EVITEMOS O PERIGO DOS SONS SIBILANTES

O ”s” é inimigo da comunicação oral, pois sua presença torna a pronúncia mais difícil. Importante semanário de Itabuna tascou: “Carnes ainda são vendidas a ´céu aberto´”; enquanto outro importante diário de Itabuna criava uma coluna chamada Músicas. Há um truque de que se valem os redatores mais competentes: empregar a forma singular, sempre que a plural não seja indispensável.  É preferível “a chuva que caiu esta semana…” – a “as chuvas que caíram esta semana…”. Ao ler em voz alta as duas frases, percebemos que dizer “a chuva” é algo bem mais simples do que “as chuvas”, uma armadilha de sons sibilantes. E mesmo que tenha chovido por vários dias, não há erro em generalizar tudo como “chuva”.

A FORMA SINGULAR É SEMPRE MAIS SIMPLES

Já ouvi coisas piores. Em rede nacional, uma emissora de tevê informa que a polícia, em ação num morro do Rio, apreendeu “mais de mil munições”. Isto é bobagem da grossa, pois “munição” está entre as palavras que raramente são empregadas no plural (ao contrário de juro/juros). Na verdade, a polícia apreendeu balas. Parêntesis para dizer que acho ótima a frase “munição de boca”, gíria da caserna para comida (“rancho”). Aliás, “comida” está na nossa lista de plurais “evitáveis”: alguém que conhece o básico da língua portuguesa jamais dirá “as comidas daquele restaurante são muito boas” – mas “a comida daquele restaurante…”. No singular é bem mais simples.

SEM “GEOMETRIA” NÃO SE VAI AO ESPAÇO

Chuva e munição. Lembro ainda orientação e coreografia. Com irritante freqüência ouço repórteres falarem das “orientações” dadas pelo técnico à equipe e das “coreografias” de tal peça de teatro. Façamos uma campanha para economizar os “esses”: basta “orientação” (pouco importa se repetida) e “coreografia (nem que a peça tenha 300 atos!). No mais, é filosofar: só terão acesso ao paraíso os redatores que sabem ser a reta o caminho mais curto entre dois pontos. Dia desses, na sujíssima Central de Abastecimento de Ilhéus, ouvi um senhor dizer que era de “Itabunas”. Ele pode, pois é feirante, não jornalista, “formador de opinião”.

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SARAH VAUGHAN: A GRAVAÇÃO “DEFINITIVA”

Por fim, o terceiro vídeo mais visitado da coluna: Someone to watch over me, a bela canção de Gershwin, teve 1.882 visualizações. A estatística do Youtube, para mim incompreensivelmente, não inclui a audiência no Brasil, mas a do exterior. O vídeo foi acessado (por ordem de quantidade) nos Estados Unidos, Japão, Israel, Filipinas, Espanha, Itália, Reino Unido, Alemanha, Argentina e Grécia. Someone… já teve todo tipo de gravação, de Ella Fitzgerald a Emílio Santiago, Frank Sinatra e Amy Winehouse (com entonações de Billie Holiday), de Hilary Duff  e Barbra Streisand à surpreendente Susan Boyle.  Mas, como tudo que Sarah Vaughan faz, esta é definitiva.

NÃO MAIS QUE UM “CORDEIRINHO OFERECIDO”

 A letra é feminina (Ira Gershwin não era da tribo!), com coisas do tipo “Eu vou procurar/um certo rapaz/que eu tenho em mente” (I’m going to seek/a certain lad/I’ve had in mind), ou “Ele é o grande caso/que eu não consigo esquecer/o único homem em que penso/com arrependimento” (He’s the big affair/I cannot forget,/only man I ever think/of with regret). Isto não impediu a gravação de Frank Sinatra, mas a versão (Zé Rodrix-Miguel Paiva) para Emílio Santiago “masculinizou” o texto:  man foi traduzido por “mulher” e, mais chocante, I’m a little lamb/who’s lost in the wood transformou-se em “Não sou mais que um cordeirinho/perdido, arrependido e oferecido”. Estranho.

 O GRAVE PRIVILEGIADO DE SARAH VAUGHAN

As três grandes divas negras do jazz, por ordem de nascimento, são Billie Holiday (1915-1959), Ella Fitzgerald (1917-1996) e Sarah Vaughan (1924-1990). Eu levaria pilhas de CDs de todas elas para a tal ilha deserta.  Mas minha preferida é Sarah Vaughan, pela versatilidade, a presença cênica e o grave privilegiado. Sei que Billie (foto) é a tristeza do blues associada à história de sofrimento pessoal (algo próximo a Edith Piaf). É pioneira – como se toda cantora negra do mundo buscasse um pouco do seu “patos”.  E sei que Ella, segundo os críticos, bateu as duas. Ella é “a dama do jazz”. Eu, que não tenho técnica, tenho só emoção, elegi Sarah.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

MUNDO VISTO POR SAPO NO FUNDO DO POÇO

Ousarme Citoaian
Circula na internet um texto de ataque grosseiro aos que adotam a forma presidenta. É um monte de sandices que a direita ora desempregada chama de “aula de português”, misturando presidenta, adolescenta, pacienta e eleganta no mesmo pacote grotesco, etiquetado como “linguagem do PT e seus sequazes”. Trata-se de estultice travestida de erudição, somada a falta do que fazer e preconceito – nascido nas mesmas fontes que se opunham a Lula por ele ser “analfabeto” e beber cachaça. O ex-presidente chamou isso de “pequenez da oposição”. Disse-o bem, pois parte do seu enorme prestígio pode ser creditada justamente a opositores que têm do mundo essa visão de sapo no fundo do poço.

O TERMO “PRESIDENTA” É ANTERIOR AO PT

A palavra presidenta é muito mais velha do que o grupo político hoje no poder em Brasília. O português Castilho (Antônio Feliciano de), nascido em1800 (e lá se vão dois séculos e pico!), a empregou – citado por Mário Barreto (Novos Estudos da Língua Portuguesa). Ariano Suassuna também grafa presidenta várias vezes na sua obra maior, O Romance d´A Pedra do Reino/1971. Numa busca rápida (minha edição – a 5ª da José Olympio – tem mais de 750 páginas!), encontro duas referências (pág. 304 e 391): ele trata Dona Carmem Gutierrez Torres Martins como “presidenta perpétua” da enigmática entidade As virtuosas damas do cálice sagrado de Taperoá.

GROTESCA “AULA” DE PRECONCEITO E MÁ-FÉ

A prometida “aula de português” se frustra, sufocada por despreparo, preconceito e má-fé. A analogia de  presidente (gênero masculino) com adolescente, paciente e elegante (comuns de dois) é fraudulenta – e ninguém precisa ser linguista para saber dessas coisas primárias. Eu sempre advoguei presidenta, mas tenho como aceitáveis as duas formas (presidente, consagrada pelo uso, e presidenta, por ser gramaticalmente correta). Mas há controvérsias. Para Marcos de Castro (A Imprensa e o Caos na Ortografia) só existe uma forma: “mulher sempre será a presidenta”, diz ele, “não só como reivindicação feminista, mas também por questão linguística”.

AFINAL, QUAL É A PIOR FALA BRASILEIRA?

Perguntaram ao professor Pasquale Cipro Neto (famoso comentador de questões de língua portuguesa na mídia) onde se falava o pior português do Brasil e ele insinuou que era São Paulo, exemplificando com “dois pastel” e “acabou as ficha” (esqueceu “um chopes, mano”). Para ele, influência italiana. Mas não há unanimidade quanto a isso. Linguistas outros alertam que suprimir o “s” do plural não é “privilégio” de paulistas, mas uma prática comum nas camadas ditas incultas, do Oiapoque ao Chuí (ou ao Caburaí, se preferem). Nas nossas feiras, por exemplo, ouve-se que a dúzia de banana-maçã custa “dois real”.

SÃO PAULO EXPORTA PARA TODO BRASIL

Há expressões de paulistês que incomodam ouvidos habituados à pronúncia “nacional”, o padrão Rio de Janeiro (de acordo com Antenor Nascentes). É mal falado o português que chama a letra E (aberto) de Ê (fechado) – ou apelida o O de Ô. Sotaques de gente como Sabrina Sato (tenho um Asterix e os Vikings dublado por ela, uma tragédia) e Neto (aquele que comenta futebol na tevê) agridem ouvidos não paulistas. Mas o filólogo Marcos de Castro (obra citada) destaca como a pior coisa que se faz em São Paulo a frase do tipo “Nós estamos em cinco”, que ele diz ter ouvido até do carioca Jô Soares. Exportação de São Paulo, para o Rio.

DON FERNANDO PEREIRA LEITE, O GROSSO

Em outros tempos, dizia-se que o Maranhão, berço de Gonçalves Dias (foto), Raimundo Correia, Ferreira Gullar, Alcione e Humberto de Campos, falava o melhor português do Brasil. São Luís era então cidade “culta”, a Atenas brasileira. Noutro momento, por “contaminação” da cultura francesa, o maranhense estranhava se alguma pessoa se dirigia a outra de forma descortês. Conta o acadêmico José Sarney que lá pelo século XIX governava a província um certo D. Fernando Pereira Leite de Foyos, que destoava dos bons modos vigentes na área, por isso foi vitimado pela impiedade do povo: devido à sua escassa fineza de trato com os maranhnses, ganhou o sugestivo epíteto de Cavalo Velho.

VIVEMOS NOS TEMPOS DE CAVALO VELHO

Parece que vivemos aqui tempos daquele Cavalo Velho, como se a Bahia fosse um imenso curral (ou um presépio de bestas, como suspeitava Gregório de Mattos). O tempo passou, os bons modos e a linguagem foram jogados no mesmo saco de lixo da “globalização”, e hoje expressar-se deselegantemente é uma lei a ser seguida. Ser grosso é ser pop, e o que era regra virou exceção. Quanto ao sotaque, dizem os linguistas, há de  se preservá-lo, pois é uma forma de ligar o indivíduo e sua aldeia, responder à “pasteurização” da linguagem e valorizar os falares locais. Então, defendamos o direito de Sabrina (foto) e Neto, apesar da estranheza a nossos ouvidos nordestinos.

A PARAÍBA, APESAR DA FAMA, É FEMININA

“Paraíba masculina, mulher macho, sim senhor!” – diz o verso de Humberto Teixeira, gravado por Luiz Gonzaga, e que tanto constrangimento causou à mulher paraibana. O pior de tudo é que a “maldade” foi feita a um dos, se bem me lembro, dois únicos estados brasileiros “femininos”. O outro é a Bahia. Há predominância de nomes “masculinos” (Amazonas, Rio de Janeiro, Amapá, Rio Grande do Sul, Espírito Santo e outros) e “neutros” (Goiás, Santa Catarina, São Paulo e Sergipe, por exemplo). “Eu vim da Bahia/ e algum dia eu volto pra lá”, diz a canção de Gil. Fala-se “Vim do Rio (ou do Pará e do Tocantins) e “Vim de São Paulo (de Brasília, de Goiânia, de Macuco).

OS ESTRANHOS POENTES DE TELMO PADILHA

Imagino (e tomara que os linguistas não me vejam como gafanhoto na seara que lhes pertence) que se trata, nos casos de São Paulo, Minas, Goiânia, Sambaituba e semelhantes (que não aceitam o  artigo ”o” ou “a”), de vestígio do gênero neutro latino. Mas deixo a explicação para quem dispuser de melhor engenho e arte do que eu. “Que artista é este que pinta/ estranhos poentes em Ilhéus?”, interroga Telmo Padilha, abonando nossa tese: o poeta não poderia dizer no ou na Ilhéus (a palavra, para este efeito, não é masculina nem feminina). Mas essa forma “neutra” também sofre pressão de escolhas regionais. O exemplo que me ocorre é Recife. Ou… o Recife.

ANTÔNIO MARIA TINHA SAUDADE DO RECIFE

“Eu nasci em Recife” seria a construção a nos tentar, pois a cidade, aparentemente, está no grupo dos neutros. Mas os recifenses fizeram sua própria regra: vou ao Recife, moro no Recife, gosto do Recife, pretendo passar o carnaval no Recife. Esse falar é típico local, para quem Recife é masculino, sim senhor. Gilberto Freire (foto) escreveu Assombrações do Recife Velho e Roberto Beltrão, no rastro, O Recife assombrado. “Sou do Recife/ com orgulho e com saudade” – chora o grandalhão Antônio Maria, no Frevo nº 3 do Recife. Observe-se a “masculinização” da palavra, a partir do título da música, cantada aqui por Geraldo Maia (ousei um incidental de Frevo nº 1 do Recife, do mesmo autor, com Betânia).

(O.C)








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