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:: ‘Assembleia Geral da ONU’

JOVEM BAIANA É 1ª BRASILEIRA A GANHAR PRÊMIO GLOBAL DA ONU SOBRE MEIO AMBIENTE

Anna Luisa Beserra espera expandir tecnologia para África e América Latina || Foto ONU

 

 

Ricardo Senra || BBC Brasil

A baiana Anna Luisa Beserra, de 21 anos, acaba se tornar a primeira brasileira a vencer o prêmio Jovens Campeões da Terra, principal premiação ambiental das Nações Unidas para jovens entre 18 e 30 anos.

A homenagem acontecerá em um baile de gala marcado para o dia 26, durante a Assembleia Geral da ONU, em Nova York.

Acostumada a laboratórios químicos e termos científicos desde a adolescência, Beserra explica com simplicidade a invenção para aqueles que nunca viram um tubo de ensaio na vida.

“A gente passa protetor quando vai à praia justamente para nos protegermos contra a radiação ultravioleta. Em humanos, ela causa câncer de pele. Mas, para vírus e bactérias, ela é letal. A gente aproveita a mesma radiação ultravioleta para fazer o tratamento na água, que passa a ser potável”, diz.

Nascida em Salvador, Beserra começou a desenvolver a tecnologia aos 15 anos, em 2013, depois de ganhar uma bolsa para jovens cientistas oferecida pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), do governo federal.

De lá para cá, ela criou 10 versões distintas até chegar à tecnologia atual, que purifica água não-potável usando a luz solar, sem produtos químicos ou filtros descartáveis.

Segundo a ONU, 1,8 bilhão de pessoas bebem água imprópria ao consumo humano no mundo. No Brasil, segundo dados divulgados neste ano pelo Instituto Trata Brasil, cerca de 35 milhões de pessoas não têm acesso a redes de água potável.

Batizado de Aqualuz, o dispositivo foi acoplado em fase de testes a cisternas na região do semiárido do Nordeste brasileiro e já garante acesso a água limpa para 265 pessoas.

“Até o fim do ano chegaremos a mais 700”, afirma. “É uma metodologia muito fácil e viável para estas regiões. O dispositivo dura 20 anos, em média, e só precisa ser limpo com água e sabão”.

“DEMOCRATIZAR O ACESSO À ÁGUA POTÁVEL”

Vencedora da categoria América Latina e Caribe da premiação oferecida pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Beserra quer agora expandir a tecnologia para fora do Brasil.

“A gente não esperava (o prêmio), foi uma grande surpresa. Agora, sabemos que não só vamos ter o retorno financeiro para investir no projeto, como também estamos abrindo portas para expandir a tecnologia para África, Ásia e outros países da América Latina”, diz.

“A meta é democratizar o acesso a água potável”, prossegue a criadora do Aqualuz, que é capaz de limpar até 10 litros de água em 4 horas.

Agora elevada a uma das “ideias mais inovadoras e arrojadas para solucionar os desafios ambientais mais urgentes do nosso tempo”, segundo a ONU, a solução criada pela jovem brasileira pode frear os impactos devastadores da nona principal causa de mortes em todo o mundo.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, só em 2016, 1,4 milhão de pessoas morreram em decorrência de doenças diarreicas contraídas pelo consumo de água contaminada.

A ONU aponta que estas mortes estão “diretamente ligadas à falta de água potável e à falta de saneamento e de acesso à higiene” e que os problemas atingem principalmente “populações jovens, vulneráveis ou que vivem em zonas rurais remotas”.

JOVEM PEDE A BOLSONARO QUE
“NÃO DESESTIMULE A CIÊNCIA”

Sobre a repercussão negativa da politica ambiental brasileira no exterior, criticada por especialistas e líderes mundiais em meio ao avanço do desmatamento e das queimadas, a jovem diz ver oportunidades.

“É triste, mas ao mesmo tempo isso gera uma visibilidade para o Brasil e a gente pode aproveitá-la de forma positiva”, diz.

A reportagem pergunta o que Beserra diria ao presidente Jair Bolsonaro — que estará em Nova York quando a jovem for premiada, caso a viagem presidencial à Assembleia Geral da ONU se confirme.

“Eu diria ao presidente que, por favor, não desestimule a ciência e o empreendedorismo local. Se não houver estímulo, as pessoas vão se desmotivar.”

No início do mês, o CNPq anunciou que não pode garantir verbas para o pagamento de quase 80 mil bolsistas brasileiros a partir de setembro. Clique e confira a íntegra na BBC Brasil.

UNIVERSO PARALELO

TODA LÍNGUA TEM EXPRESSÕES IDIOMÁTICAS

Ousarme Citoaian

O vice-prefeito de Ilhéus, ao assumir o governo “fica com o prato e o queijo nas mãos”, diz prestigiado colunista político de Itabuna, num evidente equívoco. As expressões idiomáticas, imagéticas ou parabólicas são ótimos adornos da linguagem não formal (o ex-presidente Lula, excelente comunicador, as emprega em qualquer situação, mas ele não é regra). São recursos de todos os países, línguas e culturas, que dão um sabor muito especial aos dizeres e escreveres de cada povo.  De acordo com os entendidos (ops!), só domina uma língua quem for capaz de identificar tais facetas próprias dessa língua. O colunista, de boas intenções, quis dizer “fica com a faca e o queijo nas mãos”.

SOLECISMO GENERALIZADO: “CAIR NO GOSTO”

Citadas erradamente, tais expressões perdem seu vigor tradicional, histórico, de origem às vezes perdida na noite dos tempos. Estar com a faca e o queijo na mão (ou nas mãos) significa ter o comando das decisões.  Quando se diz “o prato e o queijo” incorre-se em solecismo, ao menos por enquanto (não aposto que, em futuro longínquo, não seja correto dizer-se “o prato e o queijo”). Um caso interessante é cair no goto (conquistar a simpatia de, ser do agrado de, etc.), que já se transmudou em “cair no gosto”, que a gramática histórica considera uma ofensa – mas que parece irreversível, de tanto que é repetida, sobretudo na tevê. A língua, já se disse aqui muitas vezes, é dinâmica.

CUIDADO PARA NÃO RECEBER UM “VÁ PASTAR”

Cito idiomatismos, que não “traduzo” porque esta coluna não é feita para gregos nem troianos: estar feito barata tonta, abrir o jogo, bater as botas, comprar gato por lebre, arrancar os cabelos, pegar com unhas e dentes, tomar chá de cadeira, engolir sapos, pendurar as chuteiras, arregaçar as mangas… Mas cuidado ao utilizá-los. Se o leitor estiver num boteco e anunciar aos amigos que vai tirar água do joelho, tudo bem; mas estando com uma senhora, não faça tal grosseria.  Você se arrisca a, na volta do sanitário, encontrar um bilhete no guardanapo, com esta justa expressão: ”Vá pastar”. A não ser que sua convidada tenha incorporado o status de vadia ou cachorra, lastimavelmente em moda.

USAR O HÍFEN NÃO É COISA PARA AMADORES

Como qualquer brasileiro sensato que exerce a perigosa função de escrever, vivo às voltas com o dicionário. O escritor sergipano Gilberto Amado (1887-1969) – irmão de Gileno, que viveu em terras grapiúnas, e tio do Jorge famoso – já clamava: “não escrevo sem dicionário”. Eu também não (já o disse aqui), mais ainda depois que se publicou o último Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que, a propósito de unificar a escrita das nações lusófonas, embananou tudo de vez. O emprego correto do hífen, que nunca foi fácil, virou coisa de especialista. É até provável que tenhamos, dentro em pouco, alguma tese de doutoramento sobre o tema. Então, dicionário, urgente.

NELSON RODRIGUES E A ALMA DE VIRA-LATA

As expressões auto-estima e vira-lata são grafadas com hífen (já o eram  assim antes do Acordo). Nelson Rodrigues dizia (falando de futebol) que nós temos alma de vira-lata, isto é, não possuímos auto-estima, vivemos ressabiados, de rabo entre as pernas. As coisas mudaram um pouco, já não se tem tanta vergonha de ser brasileiro, mas determinados setores, por preconceito, ignorância ou má-fé (olha o hífen!), parecem trabalhar contra a auto-estima do povo. Quando Coimbra deu a Lula o título de doutor honoris  causa (o que deveria ser motivo de júbilo para nós), esses setores chamaram o evento de “piada de português”; em relação a outros prêmios internacionais ganhos pelo barbudo aconteceu a mesma tentativa de esvaziamento.

CAFONA, PATRIOTEIRO, UFANISTA E PIEGAS

A presidenta Dilma (depois de apontada pela revista Forbes como a terceira mulher mais influente do mundo) abriu a Assembleia Geral da ONU, como a primeira mulher a fazer isto. Ela se disse “orgulhosa” desse feito. O Brasil também deveria orgulhar-se, mas certos segmentos parecem sentir-se ofendidos quando algo assim nos acontece. Eu, sob risco de ser classificado como cafona, patrioteiro, ufanista, piegas ou coisa impublicável em blog familiar, vibro com o que vem ocorrendo. Aliás, Lula acaba de receber um raro prêmio do Instituto de Estudos Políticos de Paris, mas ainda é necessário o mundo para fazer o brasileiro enxergar aquilo que, internamente, as almas de vira-lata (ou espírito de porco – sem hífen!) tentam minimizar.

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VÍDEO MAIS VISTO DO UP COMPLETA UM ANO

Registramos uma curiosidade, desde que esta coluna passou a editar seus próprios vídeos. É que os três clipes mais vistos são todos do mês de setembro (postados no Youtube nos dias 1, 7 e 15). Logo, acabam de fazer um ano. Dos três, o campeão foi Vozes da seca, o grito de Zé Dantas sobre o sofrimento dos nordestinos com a estiagem – na voz poderosa desse que talvez seja o maior cantor pop brasileiro, Luiz Gonzaga. Segundo a estatística do Youtube, nosso modesto clipe teve 5.623 visualizações, recebeu comentários elogiosos e atingiu comunidades (por ordem da quantidade de acessos) do Brasil, Portugal, Espanha, Austrália e Chile.

A MÚSICA TEM LETRA “INFELIZMENTE ATUAL”

O leitor/ouvinte que se assina samuel63867 registra que o vídeo “reproduz a primeiríssima gravação que Luiz Gonzaga fez desta sua toada-baião, feita em parceria com Zé Dantas, e com letra infelizmente atual. Seus lançadores foram os Quatro Ases e um Coringa, em maio de 1953, mas o sucesso foi mesmo de Gonzagão, que a gravou na RCA Victor em 2 de julho do mesmo ano, com lançamento em setembro seguinte (80-1193-B, matriz BE3VB-0196). Vídeo bem feito, som de ótima qualidade!” – e eu fico sabendo que o lançamento de Luiz Gonzaga se deu também num setembro (1954), há 57 anos (nosso videoclipe usa imagens do filme Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos/1963).

AS DITADURAS COMEM OS PRÓPRIOS AMIGOS

Por força do destino, Luiz Gonzaga, que apoiava os golpistas de 1964 (chegou a afirmar que não havia tortura no Brasil), foi uma das vítimas do golpe: os militares o proibiram de cantar (além desta “subversiva” Vozes da Seca) Paulo Afonso – também de Zé Dantas (por “ciúmes” dos ex-presidentes Café Filho e Getúlio Vargas, citados na letra) – e Asa Branca, de Humberto Teixeira (por motivos que a sensatez desconhece). Eram os ásperos tempos dos porões de Médici. Luiz Gonzaga foi mais uma prova de que as ditaduras, quando lhes falta melhor opção ao apetite destruidor, comem seus próprios amigos. Aqui, um grande momento da MPB (mostraremos outros “campeões”, depois).

(O.C.)






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