Tempo de leitura: < 1minutoAstro da música, Bob Dylan recebe Nobel de Literatura (Foto Keyston/Agência Lusa).
O prêmio Nobel de Literatura 2016 foi atribuído a Bob Dylan, por ter criado novas formas de expressão poéticas no quadro da grande tradição da música americana, anunciou hoje (13) a Academia Sueca. Bob Dylan é o nome artístico de Robert Allen Zimmerman, nascido em 24 de maio de 1941 – compositor, cantor, pintor, ator e escritor norte-americano.
Nascido no estado de Minnesota, neto de imigrantes judeus russos, aos 10 anos Dylan escreveu seus primeiros poemas e, ainda adolescente, aprendeu piano e guitarra sozinho. Começou cantando em grupos de rock, imitando Little Richard e Buddy Holly, mas quando foi para a Universidade de Minnesota em 1959, voltou-se para a folk music, impressionado com a obra musical do lendário cantor folk Woody Guthrie, a quem foi visitar em Nova York em 1961.
Em 2004, foi eleito pela revista Rolling Stone o sétimo maior cantor de todos os tempos e, pela mesma revista, o segundo melhor artista da música de todos os tempos, ficando atrás somente dos Beatles. Uma de suas principais canções, Like a Rolling Stones, foi escolhida como uma das melhores de todos os tempos.
Em 2012, Dylan foi condecorado com a Medalha da Liberdade pelo presidente dos Estados Unidos Barack Obama. Com informações da Agência Lusa.
De leituras muito antigas, lembro do pensador espanhol Ortega y Gasset (foto), nascido em 1883 e falecido em 1955, que cunhou a expressão “mal dos dicionários”: é quando as pessoas, por maldade das piores, dão àquilo que os outros dizem um sentido diverso, autoritário e interesseiro. Por exemplo: reclamar da violência policial é ser defensor de bandidos; querer punição para os torturadores da ditadura militar é revanchismo, quem não se mostra solidário com exibições públicas de homossexualidade é execrado como portador de homofobia, e por aí vai. O falante precisa adotar cuidados com a língua (nos dois sentidos), para que não seja pendurado no mais próximo poste da Coelba.
VIVEMOS A PLENA ERA DO EUFEMISMO
Por essas e outras, o eufemismo se mantém em moda, gerando formulações até curiosas. Pobre já deixou de sê-lo há muito tempo, sendo promovido a carente; deficiente físico agora é PNE (Pessoa com necessidades especiais); aquele pobre (ops!) que morria esquecido no hospital, então classificado como indigente, ainda morre do mesmo jeito, mas agora é PNP (Paciente não pagante); negro, que em tempos imemoriais era preto (ai, meu Deus!), hoje é afrodescendente, e miserável é excluído social. Atenção: chamar alguém de “bambi”, ou equivalente, é crime. E esqueça o arcaísmo “pederasta”, pois além de mostrar que você é do tempo do Onça, ele o envolve em crime hediondo e imprescritível.
CAPITÃO ONÇA, A VIRGEM DO BORDEL
Aproveito e dou a explicação mais corrente (sei de duas) para “tempo do Onça”. A expressão, que indica algo muito antigo, vem da época do capitão Luís Vahia Monteiro (governador do Rio de Janeiro de 1725 a 1732), apelidado Onça. Esse Onça era tido como ranzina, austero, exigente, uma mala, avant la lettre. Em carta a D. João V, rei de Portugal, afirmou: “Nesta terra todos roubam; só eu não roubo”. O governador Onça passou à história como pregador de uma seriedade que não se via mais em sua época (há mais de dois séculos e meio) e, provavelmente, não se viu jamais. Não é à toa que em certo período, a população do Rio de Janeiro o chamava, carinhosamente, de Virgem no bordel.
NÃO MAIS SE ROUBA: MALVERSA-SE O DINHEIRO
Conta-se que Onça era muito severo quanto a seus deveres, cumpria a lei e exigia que, ao seu redor, todos a cumprissem. Sua defenestração do cargo (o governador era nomeado, não eleito, e, portando, demitido) deixou muita gente saudosa, que, diante da bagunça então reinante, suspirava: “Ah, no tempo do Onça, isso não existia”. Com o passar dos anos, a expressão começou a designar não só o que era bom, mas o que fosse velho. Esse registro nos mostra que a falta de cidadania, a má educação, o desleixo e o roubo são, como diria o carioca Noel Rosa, coisas nossas, das antigas. Mas isso também merece hoje um eufemismo, pois não é de bom tom afirmar que os governos roubam: atualmente, esse mau hábito intitula-se “malversação do dinheiro público”. Ah, o Onça!…
Minha cidade estendeu-sealargou suas redondezasmultiplicada em distâncias.Insatisfeitasubiubuscando mais horizontes e perdeu-sedentro dela. Volto hoje a procurá-la.Transfiguram-se os jardinse os encantos do seu riotomaram novas feições.Até o céu era outroou eram outros os meus olhos?Sob a ação de tanto tempoanoiteceu em si mesmae confundiu seus vestígiosentre as formas de mais gritos.–Agora é só pensamento– minha cidade de outrora.
AMARGA, TRISTE, INSONE E SOFRIDA
“A Itabuna”, acima, é um poema publicado pelo itabunense Walker Luna no livro Um ângulo entre montanhas, de 1985. Foi colhido em Assis Brasil, na antologia A poesia baiana no século XX. Telmo Padilha disse sobre Walker Luna (nascido em 1925): “Seus poemas, de elevadíssima tessitura, são personalíssimos e possuem uma ductilidade rara entre seus contemporâneos”. Para Cyro de Mattos (que selecionou o poeta para Itabuna, chão de minhas raízes, de 1996), a produção de Walker Luna é ”vazada numa experiência humana vivida com intensidade, ora triste, ora amarga, de insônia e sofrimento cúmplices entre o transitório e o inevitável”.
Em 17 de março de 1970, João Saldanha (na foto, a estátua dele, no Maracanã), técnico da seleção brasileira, teve seu último encontro com a CBD. Havelange, o presidente, lhe comunicou que a comissão técnica estava “dissolvida”. Saldanha o enfrentou: “Não sou sorvete para ser dissolvido. O senhor quer dizer que estou demitido?”. Havelange, espumando: “O senhor está demitido”. Saldanha: “Boa noite. Vou pra casa dormir”. Dunga, 40 anos depois, é demitido de forma humilhante. Ao saber que ele fez uma carta à CBF, esfreguei as mãos: “Vai bater!”. Não bateu. Baixou a cabeça e agradeceu “pela confiança, respaldo e autonomia concedida”. Moral: quem nasce para ser Dunga nunca chega a João Saldanha.
É interessante notar como termos bem prosaicos, outrora empregados à mancheia, entraram em processo de decadência e extinção. É o caso da simpática palavra “repórter”: já não encontramos mais um só repórter, nem pra remédio. De algum tempo para cá, eles se transformaram em “jornalistas”. Antes, as autoridades falavam com os repórteres, contestavam os repórteres e, principalmente, xingavam os repórteres. Agora, elas convocam os jornalistas, discutem e agridem os jornalistas – e, dia desses, absurdo dos absurdos, um jornalista chamado Pimenta Neves assassinou a jornalista Sandra Gomide, segundo noticiaram os… jornalistas. Nem em assassinato aparece repórter.
O TERMO “JORNALISTA” É GENÉRICO
Pimenta Neves está em liberdade, mesmo tendo confessado o crime, o que também não é novidade, pois a Justiça tem grande dificuldade em alcançar os ricos, mas disso todos já sabemos… De volta: jornalista é termo abrangente, que engloba as funções de editor, redator, editorialista, copidesque, diagramador, pessoal de artes, revisor (praticamente extinta) e… repórter. Dizer “Os jornalistas aguardam que o técnico Dunga (se não estiver nos azeites) venha falar com eles” é pouco claro. Melhor seria “Os repórteres aguardam…”, pois as outras funções de jornalista são exercidas na redação e, graças ao bom Deus, ficam livres de levar chutes nas canelas, confundidas com a própria jabulani.
JORNALISTA AGORA É… “COMUNICÓLOGO”
Talvez seja útil, apenas para quem não tem intimidade com o meio, explicar que, esquematicamente, repórter é quem vai à rua, “farejar” notícias. Deve ser por isso que o repórter novo (no tempo em que havia repórteres, claro!) era chamado de “foca” – aquele bichinho simpático, que vive com o nariz pra cima. O bom “foca” tinha faro apurado ou, pelo menos, sadias ambições: sonhava com a grande notícia, o “furo” que um dia levaria à redação. Mas a mudança não para no sumiço da palavra “repórter”, pois jornalista também está ficando démodé. Tenho observado uma tendência de trocar o termo “jornalista” pela mais nova forma de presunção: “comunicólogo”… Aí, desculpem a gíria jurássica, peço meu boné.
Nem bem saiu de nossos tímpanos o som de irritantes vuvuzelas e aquele já é um tempo de lembranças. E entre elas está Mick Jagger (foto), que ganhou o título de pé-frio, em mais uma das injustiças que o futebol comete. Se as seleções da Inglaterra e Brasil perderam não foi devido ao imponderável, mas à lógica – pois ela, embora digam que “não tem” no futebol, às vezes fica perceptível. Como não falo inglês, não sei o que houve com o time da Rainha, mas querer que o nosso chegasse muito longe seria alimentar improváveis sonhos e ilusões. Portanto, deixemos a velha “titia” dos Rolling Stones fora do mundo jabulânico e vamos ao que motivou as considerações acima. Você sabe de onde saiu a expressão rolling stones?
MICK JAGGER E AS “PEDRAS QUE ROLAM”
Que rolling stones significa, literalmente, “pedras rolando”, todos sabem. Mas o bluesman Muddy Waters (literalmente, “Águas Lamacentas”) usou a expressão com outro sentido, algo próximo a vagabundo, alguém que não fica no mesmo lugar (“pedra que rola não cria limo”, diz o provérbio). O velho BW (1915-1983) é a fonte onde Jagger, Keith Richards e outros beberam o nome do grupo. Em “Rollin´ stone blues”, Muddy (foto) fala de sua mãe dizendo ao pai “Vou dar à luz um menino,/ ele será um rolling stone (I got a boy child’s comin,/ he’s gonna be a rollin´ stone). Salvo melhor tradução, é isto. E Bob Dylan também se valeu da mesma informação em “Like a rolling stone”.
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REI DO RITMO NASCEU NA PARAÍBA
Dylan fala de uma mulher que está sem direção alguma, uma completa estranha, como uma pedra rolando (like a rolling stone), mais ou menos isto. É curioso que na Bahia uma banda usou processo semelhante na escolha do nome: foi buscá-lo em “Chiclete com banana”, composição de Gordurinha e Almira, gravada em 1959 por Jackson do Pandeiro (Almira Castilho era mulher de Jackson). Esse JP, paraibano de Campina Grande, tinha uma noção de ritmo única no Brasil, considerado um verdadeiro mestre da divisão. A banda referida que disse ter tirado seu nome de sonhos, aviso de extra-terrestes e outras baboseiras, faria uma ação ética admitindo sua origem honrada: Jackson do Pandeiro (foto), Gordurinha e Almira. Clique e ouça os “pais” das bandas referidas, Muddy Waters e Jackson do Pandeiro, respectivamente.
É incerta a origem do clássico folk A casa do sol nascente, que teria chegado à América via colonos ingleses. The house of the rising sun é gravada desde 1933, por diversos artistas. O mais famoso arranjo, cantado por Eric Burdon, do The Animals, foi inspirado num show de Nina Simone (festejada vocalista de jazz), que cantou a The house antes de Bob Dylan (foto).
Os fãs de Dylan o acusaram de plagiar a versão do The Animals e ele, na moral, retirou a canção do repertório (aqui, uma contradição que não explico: ao que me consta, a gravação de Bob Dylan é anterior à do The Animals – o que torna o plágio uma impossibilidade. Aliás, o velho Bob anda com uma urucubaca danada: dia desses, passou pelo constrangimento de ter o clássico Blowin’ in the wind “interpretado” em pleno parlamento brasileiro pelo senador Eduardo Suplicy.
“(…) The house of the rising sun, com todos aqueles acordes dançantes, saltou do aparelho de som e invadiu meus ouvidos, trouxe de volta os anos da dance e humilhou minhas articulações, lembrando a vítima que fui de mim mesmo, por culpa de um comportamento intolerante e esnobe.
Refresco minhas memórias esmaecidas: esta era, no longínquo 1965, a faixa de trabalho da banda The Animals, um grupo que disputava o gosto de quem amava os Beatles e os Rolling Stones, e que foi revivida no fim dos setenta pelos ciganos da Santa Esmeralda, provocando verdadeiro “estouro” nacional. Entre aprender a música e derrubar a ditadura militar, minha geração preferiu a segunda escolha e fracassou rotundamente nas duas.
A história, impiedosa como é do seu costume, sepultou a ditadura e os Beatles (estes, apenas fisicamente, apresso-me a dizer, diante da previsível ira dos beatlemaníacos), fez dos Stones inesperados sobreviventes, com suas “titias” aí dando o maior banho na mesmice, enquanto do The Animals tudo que restou, ao menos para minha tribo, foi The house…
O que não é pouco. Quando Eric Burdon (ele era “o cara”), apoiado pelas guitarras do grupo, berra “There is a house in New Orleans/They call the rising sun…” é, como dizem alguns criativos redatores de tevê, “pra não deixar ninguém parado”. O mundo balança, as lembranças acordam, a vontade proustiana é de regressar a tempos de antanho e, não importa de que modo, recuperá-los, mesmo os sabendo irremediavelmente perdidos (…)”.
(LOPES, Antônio. “Caçador de mim”, in Estória de facão e chuva. Ilhéus: Editus/Editora da Uesc, 2005).
E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!
No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as versões, a letra em português (de Fred Jorge) nada tem a ver com a americana, aliás, bem chinfrim. A original fala de uma casa de tolerância, ambiente barra pesada, um lugar impróprio para menores; já Fred Jorge, pelo vozeirão de Timóteo, diz: “A casa dos meus sonhos/ é feita de ilusão/ e vive sempre cheia de amor/ amor e solidão…”. O texto poético é pífio, mas, pelo menos, não chega a tirar o sono do juiz de menores. E vendeu feito pão quente em fim de tarde.
Fred Jorge (nascido em Tietê-SP) foi letrista de música, jornalista, escritor e, acima de tudo, o grande versionista (era este o termo) do rock americano, nos tempos da Jovem Guarda. Entre seus maiores êxitos (além de A casa do sol nascente) dá para citar, de memória, Estúpido cupido, Banho de lua e Lacinhos cor de rosa – três músicas que garantiram à cantora Celly Campello (foto) o título de Rainha do Rock Brasileiro, graças ao trabalho do versionista. Mas também houve Diana e Oh, Carol! (Carlos Gonzaga) e A noiva (Agnaldo Timóteo). Fred Jorge morreu em 1994, em sua cidade natal, na mesma casa em que nascera, e em estado de pobreza, sobrevivendo da aposentadoria do INSS, sem receber nenhum direito autoral.
Por fidelidade ao clássico, revivemos aqui o registro do The Animals, com vocal de Eric Burdon.
CAMÕES E A LÍNGUA TORTURADA
A língua de Camões tem cerca de 370 mil palavras, segundo o último Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp), da Academia Brasileira de Letras (ABL).
Por que as pessoas teimam em torturá-la, ao repetir termos e frases, se ela, riquíssima, oferece tantas possibilidades? A reincidência em não olhar para os lados, não explorar o amplo horizonte linguístico, é o caminho para aliar-se ao pior inimigo da comunicação: o lugar-comum (o locus comunis do latim, também identificado como chapa, chavão, frase feita e outros), uma praga com presente brilhante e futuro promissor na nossa língua.
Claro que entre esses 370 mil vocábulos estão arcaísmos, neologismos, palavrões, calões, gírias e termos que revelam pedantismo, portanto, de menor interesse para a comunicação. Mas, se ficarmos somente com as categorias mais utilizáveis (substantivos, verbos, adjetivos e advérbios), ainda teremos umas 150 mil unidades para, devidamente combinadas, nos “traduzir” perante o mundo (este cálculo arbitrado, é da coluna, não da ABL).
Conta-se que um editor de jornal americano, cansado das repetições do seu jovem redator, lhe disse: “Filho, a língua inglesa tem mais de 60 mil palavras disponíveis. Use-as”.
Talvez a observação valha para todos nós, que lutamos com as palavras, “mal rompe a manhã”. Ler frequentemente, policiar a própria linguagem, ser implacável com os erros – enfim, fazer o melhor que possa ser feito, pois é isso que o redator deve ao seu público. Errar por ignorância é ser humano; errar por preguiça e desleixo é ser irresponsável. Embora o conselho de “ler, ler, ler” nunca seja seguido, é permitido dizer que há coisas que a gente só aprende com a leitura. O correto é casa… ou “caza”? É casa, segundo tenho lido nos bons autores. Como não existe regra que imponha a grafia, eu bem poderia grafar “caza”. Mas não grafo, porque a forma eleita por quem sabe escrever é casa (com “s”, não com “z”). Ler vale a pena.
O escritor Hélio Pólvora (foto), faz tempo, já chamava a atenção para a diferença entre falar e dizer: muitos falam (ou escrevem), mas poucos dizem. E Hélio, bem aparelhado ensaísta, cronista e contista/novelista tem a crítica literária nacional a atestar que ele sabe… dizer – e o disse em muitos livros e artigos de jornal.
Expressões vazias de conteúdo (nos ensina o mestre itabunense) falam, mas não dizem. Prestam homenagem à banalidade, preenchem espaços no jornal (ou tempo de rádio e tevê), mas não comunicam, ou, ao menos, não exaltam a beleza da língua. Ao contrário, a atiram no abismo da anti-estética.
SEM ARROGÂNCIA OU PRECONCEITO
“Um jornalista tem que escrever tão bem quanto um romancista”, prega a filóloga Dad Squarisi. Obviamente, jornalistas não precisam ter a desenvoltura dos ficcionistas (há quem diga que o jornalismo é só uma forma de subliteratura), mas são, igualmente, guardiões da linguagem: precisam perder a arrogância, o preconceito contra a gramática e, mais do que isso, ler os bons autores. Fazer isso não é ser sofisticado, mas reconhecer que tem responsabilidades com o leitor e com a língua em que se comunica.
Pensemos nisso, enquanto vemos uma listinha de lugares-comuns dos quais precisamos correr tanto quanto o capeta corre da cruz – isto também um lugar-comum, mas que me pareceu adequado, além de engraçadinho. Antes, não resisto a lhes passar esta frase de um anúncio do Sebrae, que está no ar, na tevê: “seu envolvimento faz toda a diferença”. Alguém ainda aguenta essa coisa de “fazer toda a diferença”? Vamos à lista:
No aniversário, quem ganha o presente é você; com certeza; fazer a diferença, não deixa ninguém parado, gente bonita, a sala ficou pequena, fazer o dever de casa, com pompa e circunstância, para se ter uma ideia, tragédia anunciada, deixa muito a desejar, gerar emprego e renda… E, para encerrar, este, mais recente e não menos detestável: “Um beijo no coração” (argh!)!
O GOVERNADOR E O LUGAR-COMUM
Luiz Viana Filho era intelectual e político, filho de intelectual e político. Em 1968 (plena ditadura militar a que, aliás, ele serviu com denodo), estava – como governador “biônico” da Bahia – para assinar um decreto sobre o abastecimento de água, quando se deparou com a expressão “precioso líquido”. Recusou-se a assinar, sublinhou a heresia, escreveu ao lado “isto é mau português!” e devolveu o documento ao secretário. Biógrafo de Rui Barbosa e membro da Academia Brasileira de Letras, Luiz Viana Filho detestava lugares-comuns. “Mas gostava da ditadura”, diriam os maldosos.
Parece-me que tais expressões batidas não cabem em códigos, leis, matérias jornalísticas, crônicas, contos, enfim, qualquer coisa que exija comprometimento com a língua culta. São bem-vindas, no entanto, quando se proponhem ao picaresco, à ironia, ao gracejo – como nesta quadrinha do trovador Agulhão Filho, publicada aqui no Pimenta (a propósito da água de Itabuna):
Nosso líquido precioso
ganhou valor agregado:
está deveras gostoso,
depois que ficou salgado!…
(Uma curiosidade sobre Luiz Viana Filho: foi o único político brasileiro que nasceu em… Paris!).
PRECIOSO LÍQUIDO, SEM SAL
Em tempo: Jararaca Ensaboada, que não lê nem bula de remédio, e por isso escreve num dialeto que parece (mas não é) língua portuguesa, usa aquela expressão execrável, quando pede água. A fala da hipertensa criatura ao atônito garçom soa mais ou menos assim: “Quero uma taça com o precioso líquido, sem sal!”.
(O.C.)
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<h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3>
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