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:: ‘Caetano Veloso’

POLÍCIA RECUPERA CONTRABAIXO DE CAETANO VELOSO EM IBIRAPITANGA

Contrabaixo elétrico é apontado como de Caetano Veloso

O contrabaixo elétrico utilizado na turnê do cantor Caetano Veloso e filhos foi recuperado pelas polícias Civil e Militar, nesta quinta (22), no município de Ibirapitanga, no sul da Bahia, segundo a polícia. O instrumento musical estava dentre os itens que foram roubados durante assalto, no trecho de Maraú da BR-101, em 14 de janeiro passado.

Seis dias depois, vários itens e o carro, um VW Gol, foram localizados pela polícia. Na ação de hoje, participaram a Polícia Civil e a Cipe Cacaueira, tropa especializada da PM. Há um mês, Caetano havia feito apelo, nas redes sociais, para recuperar o restante dos equipamentos e instrumentos. Ainda faltam outros 18 itens do que foi roubado em janeiro.

MARAÚ: BANDIDOS ROUBAM CARRO E EQUIPAMENTOS DE SHOW DE CAETANO VELOSO

Equipamentos e carro do cantor foram roubados em Maraú, no baixo-sul baiano

Um carro e equipamentos de show do cantor Caetano Veloso foram roubados, na noite deste domingo (14), em Maraú. De acordo com mensagem do artista no Twitter e no Instagram, o assalto ocorreu por volta das 19 horas, no município do baixo-sul da Bahia.

Segundo o artista, os ladrões levaram a carreta acoplada a um VW Gol preto. Na carreta (trailer), estavam cenário, figurino, equipamentos técnicos e instrumentos musicais de Caetano Veloso.

Ainda de acordo com o músico, o veículo roubado é um Gol preto, modelo 2009, placa LRN-3352. O trailer acoplado ao Gol é da cor cinza escuro, placa KXS-8383.

Atualização à 00h11min – De acordo com o motorista do Gol, de prenome Adriano, o assalto ocorreu em Travessão, na BR-101, próximo ao Casarão de Pedras, em trecho que é identificado como território de Maraú. Além dos equipamentos e do veículo, os ladrões, que estavam em um Fiat Uno, também roubaram o celular do motorista, conforme informação obtida pelo PIMENTA. Ele foi atendido pela Polícia Militar, já em Ubaitaba, e por funcionários do Grupo Brasileiro. Adriano deverá aguardar até a manhã desta segunda (15) para registrar o Boletim de Ocorrência.

RIACHÃO

Marival Guedes | marivalguedes@gmail.com

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Cada compositor apresentava um samba. Quando Riachão cantou Cada Macaco no seu galho, os empresários gritaram “é essa a música, malandro. É essa”, conta Riachão sorrindo. A música estourou. Porém, teve um detalhe: o compositor não foi convidado para a festa de lançamento.

 

 

Passando na última sexta pela Cantina da Lua, no Terreiro de Jesus, avisto um senhor com boina branca, lenço no ombro e sorriso largo sambando ao som de um grupo de choro. Fui conferir. Era Riachão comemorando 94 anos de vida completados no dia seguinte, sábado 14 de novembro.

Clementino Rodrigues nasceu no Garcia, em Salvador. Precocemente compôs seu primeiro samba aos 12 anos e não parou. Tem mais de 500, maioria inspirados no dia a dia da cidade, das pessoas. Crônicas.

Ele conta que quando criança brigava muito. “E aí chegavam os mais velhos para apartar, empregando aquele ditado popular: você é algum riachão que não se possa atravessar?”. Nasceu seu apelido.

Em 2008 foi atingido por uma tragédia. Num acidente automobilístico morreram sua mulher, um filha, um filho, nora e genro. Destroçado, se isolou parecendo que jamais se recuperaria.

Riachão se apresentando na Cantina da Lua, no Terreiro de Jesus, na sexta (Foto Marival Guedes).

Riachão na Cantina da Lua, no Terreiro de Jesus, na sexta (Foto Marival Guedes).

Mas, quase um ano depois, conseguiu dar a volta por cima aceitando, após muita insistência da produção, um convite para se apresentar no projeto Bahia de Todos os Sambas, no Sesc Pompeia em São Paulo, ao lado de outros grandes nomes a exemplo Nelson Rufino, Mariene de Castro e Roberto Mendes.

Um dos seus sucessos tem uma história diferente. Diretores de uma gravadora do Rio queriam um samba de um compositor baiano para marcar o retorno de Gil e Caetano do exílio em Londres. Vieram à Salvador e convidaram vários sambistas. Os amigos não lhe avisaram.

Mas o Sr.Gadelha, pai de Dedé e Sandra, respectivamente à época, mulheres de Caetano e Gil, era chefe numa agência bancária onde Riachão trabalhava de contínuo. Não apenas o avisou como também lhe forneceu o endereço.

Cada compositor apresentava um samba. Quando Riachão cantou Cada Macaco no seu galho, os empresários gritaram “é essa a música, malandro. É essa”, conta Riachão sorrindo. A música estourou.

Porém, teve um detalhe: o compositor não foi convidado para a festa de lançamento. “Acho que eles esqueceram”, lamenta Riachão complementando que assistiu tudo pela tevê e ficou emocionado.

Marival Guedes é jornalista e escreve crônicas aos domingos no Pimenta.

INSPIRAÇÕES QUE GERARAM POLÊMICAS

marivalguedesMarival Guedes | marivalguedes@gmail.com

Como dizia minha mãe, “dois bodes de chifres não bebem água na mesma cumbuca” e tanto o compositor quanto a atriz não têm papas na língua.

Chico Buarque, utilizando o pseudônimo/heterônimo Julinho da Adelaide, compôs Jorge Maravilha “(Mais vale uma filha na mão/Do que dois pais voando/Você não gosta de mim/mas sua filha gosta)”.

A canção foi dedicada à filha do general Geisel, Amália Lucy, que já havia confessado admiração pelo artista, divulgaram os veículos de comunicação. Chico negou e falou que compôs inspirado na sua detenção por agentes do Dops. No elevador, o agente pediu autógrafo para a filha.

Injuriado foi outro samba que rendeu notas nas colunas políticas (“Você nada está me devendo/Por isso, meu bem, não entendo/Porque anda agora falando de mim.)”

Afirmaram que foi composto para Fernando Henrique. O ex-presidente havia criticado Chico afirmando que o compositor é elitista e repetitivo. O músico negou e, pra não deixar dúvida, falou que “jamais chamaria FHC de meu bem.”

Polêmica maior foi entre Caetano Veloso e Luana Piovani. Afinal, diz minha mãe, “dois bodes de chifres não bebem água na mesma cumbuca” e tanto o compositor quanto a atriz não têm papas na língua.

Quando Caetano compôs Um Sonho, com seus versos eróticos “(olho-água, vermelho da calha nua/ tua ilharga lhana/mamilos de rosa-fagulha )”, Luana publicou que foi pra ela, sendo imediatamente desmentida pelo artista. Revoltada, disparou: “Era um Deus e descobri que era um banana de pijama. Para mim, ele morreu, está sepultado.”

Dias depois num show, Caetano, coerente com o bordão “Ou não”, confirmou: “Pela primeira vez vou dedicar essa música a Luana. Eu não a desmenti, como disseram. Quando compus, disse a ela que foi parcialmente inspirada nela. Mas Luana se precipitou e contou antes de me consultar”.

Já Paulinho Pedra Azul, compôs Jardim da Fantasia “(Onde estás?/Voei por esse céu azul/ Andei estrada do além/Onde estará meu bem?)” e comentam que foi dedicada a uma noiva que morreu.

Fantasia das pessoas, o músico afirma que fez para a primeira namorada. O boato ganhou tamanha dimensão que ele já se conformou: “Tento explicar, mas não tem jeito. A força do povo é maior”.

Marival Guedes é jornalista e escreve crônicas aos domingos no Pimenta.

“MELHORES DO ANO” BOMBA NO FACEBOOK

face faustão

“Meme” bomba no Facebook. Palavras prêmio e música aparecem com erro.

O Domingão do Faustão (Rede Globo) entregou premiação aos melhores do ano em categorias como teledramaturgia, jornalismo e música. A premiação para esta última área gerou montagem (meme) que bombou no Facebook.

Na montagem, aparecem Caetano Veloso e Chico Buarque ironizando as escolhas para melhor música (Show das Poderosas, com Anitta) e melhor cantor (Luan Santana). O “meme” foi compartilhado mais de 26,4 mil vezes em menos de um dia.

Para chegar à escolha, o programa do Fausto Silva informa que são contabilizados votos dos artistas e do público.

UNIVERSO PARALELO

DA IMPENSADA VANTAGEM DE NASCER ADULTO

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

Volto à leitora não atendida. Afinal, quem é Ousarme Citoaian? – ela pergunta. E eu riposto: sou uma criação meio insana de jornalista desempregado, uma inutilidade que deu certo. Feito personagem de ficção, já nasci adulto, de barba na cara, o que foi um golpe de sorte, pois não sofri os achaques típicos: sarampo, catapora, acne juvenil, adolescência e outras mazelas, como bilu-bilu de senhoras ociosas. A criação não recebeu incenso e mirra (que querem?), mas ganhou tantos elogios que quase fica irremediavelmente estragada. O criador teve de puxar-lhe as orelhas (em sentido figurado, é óbvio, que a Lei da Palmada não é graça!), a fim de lhe dar uma pitada de juízo e modéstia.

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Para os realistas, a Fênix é só um mito

Você saiu de um hino… Deve ser a prova provada da doce insanidade do meu “pai”, que se gaba de umas tinturas francesas. Sou a pronúncia figurada de Aux armes, citoyens! (Às armas, cidadãos!) – grito de guerra tirado d´A Marselhesa. Quer dizer que seu criador é um guerreiro, um incendiário? Menos, menos. Ele se define como um cangaceiro domesticado, mas é, aqui pra nós, um romântico. Tanto isso é verdade que, às vezes, deseja tocar fogo no mundo, na doce ilusão de que das cinzas será possível nascer algo que preste. Eu, mais realista, sei que a Fênix é só um mito. Afinal, Ousarme Citoaian é pseudônimo ou heterônimo? Até parece que eu mergulho a profundidades tais…

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Duas escritas e uma só crítica no mundo

Mas creio que minha escrita é outra: também crítica do mundo, porém mais cuidada, mais “erudita”, mais (se posso dizê-lo) elegante. Visto assim, sou um heterônimo, pois faço uma “literatura” diferente dele. Como eu disse, sou seu “outro eu”, um tantinho metido a gato mestre, sem esconderijo de falso nome, o que, de resto, não é novidade. Vasta é a linhagem de pseudônimos/heterônimos identificados: Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto), Aloísio de Carvalho (Lulu Parola), Alberto Hoisel (Zé… ferino e outros), Alceu Amoroso Lima (Tristão de Ataíde), Aurore Dupin (George Sand) e, encerrando minhas lembranças, Fernando Pessoa (Ricardo Reis, Álvaro de Campos e vários outros).

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TITULAR É REUNIR TERMOS INCOMPATÍVEIS

Falamos aqui há dias da “arte” de combinar palavras para obter o efeito desejado. Mas deixamos de mostrar exemplos, o que fazemos agora, lembrando alguns títulos de livros. Bons títulos parecem, na maioria das vezes, associações de termos incompatíveis à primeira vista – e talvez por isso causem belo efeito. Aqui está uma listinha modesta, a que a gentil leitora e o atento leitor (se cultivam essa já quase extinta paixão pelos livros) acrescentarão os de sua preferência. Vamos à “mistura”: Telmo Padilha denominou sua primeira publicação (1956) de Girassol do espanto; Jorge de Souza Araújo ganhou importante prêmio nacional com Floração de imaginários, Cyro de Matos é autor de O mar na rua Chile.

“As luas obscenas” de Hélio Pólvora

Titulação é arte. Euclides Neto, bom escritor, titulava mal – o que explica um romance chamado Machombongo. Marcos Santarrita fez Danação dos justos (vale citar também A solidão do cavaleiro no horizonte), Hélio Pólvora estreou em romance com Inúteis luas obscenas. O “gringo” Raduan Nassar escreveu poucos livros, mas é mestre em títulos: Lavoura arcaica e Um copo de cólera. Um estudo de Monique Le Moing sobre as deliciosas memórias de Pedro Nava chamou-se A solidão povoada, o espanhol Carlos Ruiz Zafón escreveu o best-seller A sombra do vento, e os leitores desta coluna, todos, leram Cem anos de solidão, de Garcia Márquez. Penso que estas poucas referências são suficientes para chegar ao nosso cqd.

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GUIMARÃES ROSA E SUA INFLUÊNCIA NA MPB

Descobri Luiz Cláudio, cantor, compositor e pesquisador das coisas de Minas, lá pelos anos setenta e fiquei abismado com a “parceria” dele e Guimarães Rosa:
“O galo cantou na serra/ da meia-noite pro dia/ o touro berrou na vargem/ no meio da vacaria/ coração se amanheceu/ de saudade que doía”. O galo cantou na serra só era novidade para minha ignorância. Em 2008, a historiadora Heloísa Starling (da Universidade Federal de Minas Gerais), após longa pesquisa, afirmou que o autor de Sagarana talvez seja o escritor de maior influência sobre a canção brasileira. “Há música espalhada por toda a obra de Rosa”, diz a professora.

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“O capeta tocando viola rio abaixo”

Para Heloísa Starling, essa musicalidade de JGR vem do próprio sertão, dos sons da natureza, do silêncio “e até do capeta tocando viola rio abaixo”, além do uso que ele faz da linguagem. Em Rosa, as palavras não têm apenas significado, mas sons e ritmos. Canções com influência roseana são muitas, nem sempre explícitas à primeira audição. Heloísa cita, além de O galo cantou…, Assentamento (de Chico Buarque para o MST), Travessia (Milton Nascimento-Fernando Brant), A terceira margem do rio (Caetano Veloso-Milton Nascimento), Sagarana (João de Aquino-Paulo César Pinheiro), Língua (Caetano Veloso) e Matita perê (Tom Jobim-Paulo César Pinheiro).

Um sujeito bom como cheiro de cerveja

Não encontrei menção da pesquisadora a Desenredo, a minha preferida nessa “parceria” de Rosa com a MPB. É letra do grande Paulo César Pinheiro, com melodia de Dori Caymmi, baseada no conto revolucionário, renovador do gênero, que tem este nome (está em Tutameia – Terceiras estórias). É a história de amor de Jó Joaquim, um sujeito “quieto, respeitado, bom como o cheiro de cerveja”. No vídeo, não sei o que mais me umedece os olhos: o ousado arranjo vocal (como sempre) do Boca Livre, a beleza suave, doce e dolorosamente jovem de Roberta Sá em harmonia com os “velhinhos” do grupo, os lindos versos ou a melodia compatível. Talvez, o conjunto da obra.

(O.C.)

CAETANO CONDICIONA APOIO A ACM NETO À MUDANÇA DE NOME DO AEROPORTO DE SALVADOR

O cantor Caetano Veloso voltou a falar de possível apoio ao candidato a prefeito de Salvador pelo DEM, ACM Neto. Numa entrevista à Folha de São Paulo, o músico que é baiano e vota no Rio de Janeiro disse que teria dificuldade de votar em Neto por causa do nome do candidato.

– Para ter um voto (apoio) meu, ele precisaria declarar que o aeroporto de Salvador deve retirar o nome do seu tio. Detesto que ele se chame Aeroporto Luís Eduardo Magalhães – disse Caetano.

O aeroporto era batizado como 2 de Julho, numa homenagem à data da Independência da Bahia, e mudou para Luís Eduardo Magalhães, tio de Neto, após a morte do deputado em 1998.

Até agora, ACM Neto não respondeu ao cantor. O músico, que sempre foi oposição ao avô do candidato, o ex-senador Antônio Carlos Magalhães, também fez críticas ao governador Jaques Wagner (PT) e ao prefeito João Henrique (PP), que apoia ACM Neto. Disse que Salvador encontra-se em péssimo estado.

FESTIVAL AMAR AMADO ATÉ 2017

Família Caymmi foi uma das atrações do festival deste ano.

André Guimarães, dirigente da Maná Produções, disse que o Festival Amar Amado reúne condições para ocorrer anualmente, pelo menos, até 2017. Agora em 2012, o evento de homenagem ao escritor grapiúna Jorge Amado atraiu milhares de pessoas e atrações nas áreas gastronômica, literária e musical, a exemplo de Caetano Veloso, Margareth Menezes e Família Caymmi.

A Maná obteve do município uma carta de cessão de espaço para os próximos cinco anos, segundo Guimarães. “Um evento desse porte, realizado anualmente na cidade de Ilhéus, vai consolidar a imagem da cidade como Capital Baiana da Cultura”, acredita.

O diretor da Maná Produções afirmou que a ideia é agregar outros símbolos e personagens ao festival. Em 2013, revela, o Amar Amado renderá homenagens ao centenário de Vinícius de Moraes. E em 2014, o alvo seria o cantor baiano Dorival Caymmi.

CAETANO, JORGE E UM VÍDEO HISTÓRICO

6 de agosto de 2001. Caetano Veloso se apresentava na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador, quando recebe a notícia da morte do escritor Jorge Amado. O músico, que faz aniversário no dia 7 de agosto, ouvia “parabéns” entoados pelo público. Caetano planejava cantar três outras músicas, mas, em homenagem ao menino grapiúna, retorna e canta Milagres do povo. “Essa é a festa do meu aniversário e é a festa da vida de Jorge Amado”, disse para o público. Confira:

Caetano se apresenta hoje, em Ilhéus, no dia do centenário de nascimento de Jorge Amado. O show gratuito será na praça da Catedral de São Sebastião, no centro histórico, às 22h.

Confira a programação de hoje do Festival Amar Amado. Clique no “leia mais”, abaixo.

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CAETANO VELOSO E O SONHO DE NATIVA

Internautas torcem pelo encontro de Caetano e Nativa.

Internautas iniciaram uma campanha nas redes sociais para que uma fã de Caetano Veloso possa ser recebida pelo astro da MPB na próxima sexta-feira, 10, em Ilhéus. De origem humilde e semianalfabeta, Nativa enfrenta uma doença que atinge o nervo trigêmeo e a debilita a ponto de ter dificuldades para enxergar e andar.

Quem a conhece sabe que as fortes dores cedem espaço à alegria quando Nativa ouve ou canta músicas do ídolo. Ísis Sampaio foi quem iniciou a campanha pela internet. No Facebook, a iniciativa conta com mais de 400 compartilhamentos para que Caetano receba Nativa, que reside em Coaraci, a 60 quilômetros de Ilhéus (clique aqui para compartilhar ou curtir a iniciativa).

Isis diz que a fã conhece – e canta – todas as músicas de Caetano, embora a doença afete também a voz. Confira “Tiva” cantando Podres Poderes.

 

Em tempo: André Guimarães, da Maná Produções, disse ao PIMENTA que o show de Caetano Veloso está confirmado. Até a semana passada, havia dúvidas devido a questões contratuais com o Governo Baiano. Problema contornado, pois.

CINCO DÉCADAS SOB O OLHAR DE CAETANO

Um dos maiores nomes da MPB, Caetano Veloso “setentou” hoje. O leitor pode pescar muito da discografia e da própria história do músico baiano. No Youtube, estão disponíveis vídeos em que Cae aborda as décadas de 40 a 80. No vídeo abaixo, o músico baiano fala da década de 50. Confira:

FESTIVAL AMAR AMADO PODE FICAR SEM OS GRANDES SHOWS

Show de Caetano no festival pode ser cancelado.

Bomba em Ilhéus. O Festival Amar Amado pode ficar sem os prometidos shows de Caetano Veloso, Família Caymmi, Margareth Menezes e Moraes Moreira, nas homenagens ao centenário de nascimento de Jorge Amado.

E, ao que se sabe, por culpa do Governo Baiano. A empresa responsável pela captação de recursos na iniciativa privada, a Maná, fez a parte dela. Captou R$ 1 milhão para a realização do festival. O Governo Baiano assegurou que colocaria igual valor no evento. 

Só que, a menos de dois dias do evento, o governo estadual não pagou a parte que lhe caberia no latifúndio. Se o governo não pagar os cachês até amanhã, 3, os shows prometidos para este e o próximo final de semana serão cancelados. 

O prefeito Newton Lima vai a Salvador, na manhã desta sexta, para cobrar do governo baiano a parte prometida – e até agora não honrada.

DIVULGADA PROGRAMAÇÃO COMPLETA DO FESTIVAL AMAR AMADO

– FESTIVAL TERÁ CAETANO, MORAES MOREIRA E FAMÍLIA CAYMMI
—- LITERATURA, POESIA E MÚSICA NAS HOMENAGENS A JORGE, AMADO

Homenagens ao escritor Jorge Amado começam no próximo sábado, 4.

Finalmente saiu a programação completa do Festival Amar Amado, de homenagem ao centenário de nascimento do escritor itabunense Jorge Amado.

A programação será aberta no sábado, 4, com sarau, exposição fotográfica e workshop, além de show com o cantor Moraes Moreira, na praça Dom Eduardo (praça da Catedral), às 22h, em Ilhéus. Todos os eventos são gratuitos.

CONFIRA PROGRAMAÇÃO COMPLETA

No domingo, 5, será aberta a Feira Literária Amar Amado, no Centro de Convenções Luís Eduardo Magalhães, na avenida Soares Lopes, centro, às 10h. A feira terá participações de escritores e debatedores do Brasil e de outros países.

A feira vai até o dia 11, sempre das 10h às 22h. A programação da feira contará com visitas de estudantes, o terreiro de poesia – unindo poesia e música – e o cabaré literário.

O Festival Amar Amado, ao contrário do informado no domingo, também reunirá feras da música nacional. Além de Moraes Moreira, estão confirmados shows de Margareth Menezes (dia 9), Caetano Veloso (10) e família Caymmi (11), sempre no palco instalado na praça Dom Eduardo. A apresentação de Caetano ocorreu justamente no dia de aniversário de nascimento de Jorge.

PROFESSOR CONFIRMA QUE DANIELA DEFINIU GIL E CAETANO COMO “DO PASSADO”

O portal Terra revelou diálogos ocorridos nos bastidores da gravação do Aprovado, da TV Bahia, em janeiro deste ano, e que trazem a cantora Daniela Mercury afirmando que Caetano Veloso e Gilberto Gil “são do passado”. Daniela não gostou do “presente” de carnaval e partiu pro ataque em plena avenida (confira o vídeo abaixo).

Logo depois, o site publicou entrevista com uma das pessoas que participaram da gravação do programa, o professor Paulo Miguez, da Universidade Federal da Bahia e ex-secretário de Políticas Culturais do Ministério da Cultura.

Fala professor: – Confirmo todos os diálogos, confirmo as minhas respostas, a interlocução foi exatamente aquela. Agora, só foram suprimidos alguns palavrões que ela disse, que vocês não publicaram porque certamente não ficaria bem serem publicados pelo Terra (confira a entrevista).

Agora, o vídeo de Daniela tentando livrar-se do “pepino”:

UNIVERSO PARALELO

MC DONALD´S COMO SÍMBOLO DA DECADÊNCIA

Ousarme Citoaian

Em viagem recente, conversei com uma senhora parisiense sobre a decadência da cultura francesa, que influenciou o Brasil e o mundo (até o início do século XX, pelo menos). Acordamos em que o espaço da língua culta foi muito reduzido – salvo na área diplomática, em que ainda é exigida. Mas tínhamos preocupações diferentes: eu, perfunctório, o geral (língua, música, cinema, literatura); ela, de olhar profundo, incluía a mesa. Enquanto eu lamento que já pouco se estude francês (língua “irmã” do português) ou se ouçam canções francesas, a gentil senhora deplorava a presença do Mc Donald´s a popularizar hambúrgueres malcheirosos – uma agressão à cuisine (pouco importa se nouvelle ou classique). É a obesidade chegando.

AO LADO DE ROBESPIERRE, MARAT E DANTON

Sou dos tempos em que Hugo, Flaubert, La Fontaine e Voltaire eram traduzidos na escola. Cantava-se, mesmo desafinado, La marseilleise (lá fui pescar este grito de Aux armes, citoyens!), ouvia-se Bécaud, Piaf, Aznavour, Mireille Mathieu,Yves Montand e Juliette Gréco. No cinema, Alain Resnais, Clouzot, Simone Signoret, Alain Delon, Louis Malle, Charles Vanel e Anouk  Aimée-Jean-Louis Trintignant (na foto). Certo menino, durante a aula de história, muitas vezes atravessou a velha Paris do fim do século XVIII em companhia de Robespierre, Danton e Marat. Derrubei bastilhas e monarquias, nenhuma piedade pelas cabeças coroadas que rolavam. Na França ensanguentada, imaginei a reação no meu País – e ainda imagino: às urnas, cidadãos!

O NOVO SEMPRE VEM, QUEIRAMOS OU NÃO

As coisas mudam, o novo sempre vem. Mas nem todo velho é ruim, nem todo novo é bom, nem tudo que parece novo é novo. Com a companheira de viagem fiz apreensões da realidade e externei preocupações com a expansão do império norte-americano – entendendo que tal império outrora foi francês, e que La mère África sofre com isso até hoje. C´est la vie, dissemos em coro. E, para comemorar, comemos talvez nossa última refeição ritual: um pavê de morue à l´huile d´olive, et ratatouille, que vem a ser (se acaso o vinho e aqueles olhos insondáveis não me embotaram a memória) um lombo de bacalhau nadando em azeite, cercado de legumes por todos os lados, menos o de cima. Não era uma sessão de saudosismo. Se saudade tive foi do menino que já teima em não mais habitar em mim.

COISA É MACONHA E MUITAS OUTRAS COISAS

Circulam na internet curiosidades sobre a palavra “coisa”, entre elas que pode ser substantivo, adjetivo, advérbio e, como derivado, o verbo “coisar” – usado em substituição a verbo esquecido. No Nordeste (e em Portugal) significa praticar o ato sexual, enquanto “coisas” seriam os órgãos genitais. Tirem as crianças da sala que lá vai José Lins do Rego, num trechinho didático de Riacho doce: “E deixava-se possuir pelo amante, que lhe beijava os pés, as coisas, os seios”. Fred Navarro (Dicionário do Nordeste) informa que, na região, “coisa” é um dos nomes da maconha, hoje coisa de passeata. O abono vem de um time que sabe das coisas: Bráulio Tavares, Zé Vicente da Paraíba e Passarinho do Norte, num martelo agalopado.

“VIAGEM” COM SUOR, VERTIGEM E FRAQUEZA

“Tem um verso que fala da maconha/Uma erva que dá no meio do mato/Se fumada provoca o tal barato/A maior emoção que a gente sonha/A viagem às vezes é medonha/Dá suor, dá vertigem, dá fraqueza/Porém quase sempre é uma beleza/Eu por mim experimento todo dia/Se tivesse um agora eu bem queria/Pois a coisa é da santa natureza”. Pausa para dizer uma coisa: martelo agalopado é uma dentre as muitas modalidades da composição poética popular, conforme o modelo acima: dez versos de dez sílabas poéticas, com rimas do tipo ABBAACCDDC, isto é, o primeiro verso rima com o quarto e o quinto, o segundo com o terceiro, o sexto com o sétimo etc. Já se vê que produzir esse pacote de rimas de improviso não é coisa para amador.

CARNAVAL: SEGURA A COISA E A COISINHA!

Caetano Veloso usou a palavra em Qualquer coisa (“esse papo seu tá qualquer coisa” e em Sampa (“Alguma coisa acontece no meu coração”). Noel disse que o samba, a malandragem, a mulata e outras bossas “são coisas nossas”. O carnaval de Olinda tem o bloco adulto Segura a coisa (no estandarte, um baseado tamanho família) e o infantil Segura a coisinha. O grito de Alceu Valença ecoa pelas ladeiras seculares: “Segura a coisa, que eu estou chegando”. A MPB, às vezes, trata a coisa com certo exagero: Gonzaguinha fala em “coisinhas miúdas” e Jorge Aragão-Almir Guineto-Luís Carlos criaram a tatibitate “coisinha tão bonitinha do pai”, que virou trilha sonora da Nasa. Do maestro Moacir Santos (e seu Coisas) falaremos depois.

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FILME QUE NÃO CHEIRA A NOVELA DAS OITO

Sem esperar muito da Globo Filmes e suas produções com cheiro de novela das oito, fui ver Tempos de paz (Daniel Filho/2009) e tive uma surpresa agradável. É abril de 1945. Após muita tortura pelo Estado Novo de Getúlio Vargas, vários presos políticos ganham a liberdade, devido à pressão externa decorrente do fim da segunda guerra mundial. Um ex-torturador (Tony Ramos), agora chefe da seção de imigração na Alfândega do Rio de Janeiro, teme que suas vítimas resolvam se vingar. Em meio a essa paranóia, surge um imigrante polonês (Dan Stulbach) que se diz agricultor, mas tem mãos finas e recita Drummond (“Não serei o poeta de um mundo caduco”). Isto é muito suspeito.

ATORES VIVEM “DUELO” DE INTERPRETAÇÃO

O ex-torturador é chamado a investigar o caso, com poder de decidir se o polonês entra no Brasil. A alternativa é a volta, pelo mesmo navio em que chegara, e que já apita no cais, anunciando a saída. O fugitivo da Polônia tem contra ele, além da má vontade, o tempo. O que se vê aqui é uma espécie de duelo de interpretação de dois grandes artistas: Tony Ramos, consagrado pelo público, e Dan Stulbach, um bicho de teatro, com raras aparições na tevê. Depois de esgotar todos as justificativas para seu ingresso no Brasil, o polonês não dissipa as suspeitas do ex-policial. Este, como se espera, é um homem frio, capaz de contar detalhes do seu “trabalho”, sem mostrar emoção.

O TEATRO JAMAIS GANHOU HOMENAGEM MAIOR

E é em cima dessa frieza que o imigrante é chamado a defender sua permanência no Brasil ou ser repatriado (no porto, o navio apita mais uma vez).  Com um estranho senso de humor (talvez próprio dos torturadores), é proposto ao imigrante um desafio: se este contar algo que faça o agente chorar, poderá entrar no País; se não, embarcará no navio que zarpa em poucos minutos. É o ápice do filme. O polonês (que não é lavrador, mas ator) declama Monólogo de Segismundo – da peça A vida é sonho (Calderón de la Barca/1635). Tempos de paz é a maior homenagem que o teatro já recebeu do cinema.  Ah, sim. O torturador chorou – e eu também. Clique e veja que só o bom texto nos redime.

(O.C.)

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MUSAS INSPIRADORAS

Marival Guedes | marivalguedes@yahoo.com.br

Sem coragem pra falar, Lupicínio decidiu revelar o caso através da música. Heitor compreendeu o recado, considerou a composição obra-prima e manteve a amizade.

Perdoem-me a redundância do título, já que musa é o mito que inspira.Mas assim fica melhor. Os artistas sempre têm suas musas. Caetano, várias.Ao contrário de Chico e Djavan, ele garante que “todas as suas músicas são  autobiográficas”. E filosofa: até as que não são, são. Poderia acrescentar: ou não.

Caetano compôs Avarandado para Dedé, sua então esposa. Estava em São Paulo e sentiu saudade. Pra ela, compôs também Este amor, Queixa, a belíssima Itapuã e Ela e Eu: “(…) Lágrimas encharcam minha cara/Vivo a força rara desta dor/Clara como o sol que tudo anima/Como a própria perfeição da rima para amor (…)”.

Numa entrevista, Caetano explicou: “[Ela e eu] Foi composta quando apareceram os primeiros problemas que levaram ao fim do meu casamento com Dedé”.” Caetano confessa que chorou muito no dia em que fez essa música”.

Branquinha para Paula Lavigne, Da maior importância foi sobre uma cena entre ele e Gal na praia. Rapte-me camaleoa, para a amiga Regina Casé e o sucesso Você é Linda foi dedicada à Cristina, uma menina que ele “gostou muito” e que morava defronte à sua casa em Ondina.

Tim Maia costumava dizer que “esta molecada jovem precisa é de receber um corno para compor boas músicas”. A frase nos remete a vários compositores. Lupicínio Rodrigues (1914-1974) é um dos mais famosos neste aspecto. A ele á atribuida a expressão “dor de cotovelo”, que siginifica o ato de colocar os cotovelos no balcão ou na mesa de um bar, “encher a cara” e chorar a perda da pessoa amada ou a “chifrada recebida”.

Lupe era constantemente abandonado pelas mulheres e buscava inspiração nos seus fracassos amorosos. Talvez Tim Maia tenha baseado sua “tese” neste gaúcho, já que ele compôs lindíssimas músicas gravadas por várias estrelas, inclusive a maioral Elis Regina.

Podemos citar Vingança, Cadeira vazia, Esses moços, Nervos de aço (de partir o coração) e Foi assim: “(…) Se todos no mundo encontram seu par/Por que só eu vivo trocando/Se deixo de alguém/Por falta de carinho/Por brigas e outras coisas mais/Quem aparece no meu caminho/Tem os defeitos iguais(…).

Mas Lupicínio nem sempre foi vítima. A famosa Se Acaso Você Chegasse foi feita quando ele “roubou” a namorada do amigo Heitor de Barros. Pra não perder o companheiro, resolveu contar a verdade. Sem coragem pra falar, decidiu revelar o caso através da música. Heitor compreendeu o recado, considerou a composição obra-prima e manteve a amizade.

“Se acaso você chegasse/No meu chateau e encontrasse/Aquela mulher que você gostou/Será que tinha coragem/De trocar nossa amizade/Por ela que já lhe abandonou? (…)”

Nota: As informações sobre Caetano são extraídas, principalmente, do livro Sobre as Letras, do poeta e professor universitário Eucanaã Ferraz.

Marival Guedes é jornalista e escreve às sextas no PIMENTA.

UNIVERSO PARALELO

A MOCINHA, AO ESBARRAR, FALA “DESCULPA”

Ousarme Citoaian

Em Lisboa, a mocinha brasileira esbarra numa senhora carregada de pacotes, criando natural constrangimento. Avoada, porém com relativa educação, ela balbucia um “desculpa”… e entorna de vez o caldo! A senhora lisboeta ficou mais irritada com o “desculpa” do que com o encontrão. É que em boa linguagem se diz “desculpe”, segundo o professor Cipro Neto, aquele da tevê. Eu falo “desculpe”, mas nunca fui às fuças de ninguém (menos ainda duma rapariga avoada) que tropeçasse em mim e dissesse “desculpa”. Também serve, ao esbarrar, dizer, com ar angelical: “Você (a senhora, o senhor) me desculpa?”

TUDO DEPENDE DO TOM DE VOZ E DA ATITUDE

“Desculpa” irrita os lusitanos porque tem um tom imperativo, mandatório, como se ordenasse à vítima que desculpasse a grosseria que lhe fizemos. Já “desculpe” parece mais humilde, o pedido de alguém que, de verdade, lamenta o que fez. É assim que eu penso, na companhia de alguns gramáticos. Mas não creio que haja unanimidade quanto a isso, além do que “desculpa” ou “desculpe” terão valores muito próximos, a depender do tom de voz e da expressão facial de quem as pronuncia. Sugere-se que, ao pisar no calo de alguém, mostre-se sentido com o ato – e a palavra será secundária.

AS DUAS FORMAS SÃO ENCONTRADAS NA MPB

Padre Zezinho escreveu em Desculpa, mãe: “Desculpa minha mãe/ por não saber te agradecer/ desculpa pelas faltas de respeito/ desculpa este teu filho que cresceu”. Enock Figueiredo, em sequência a Trem das onze, de Adoniran Barbosa, compôs Desculpe, mãe – quando optou pelo emprego do verbo na chamada norma culta: “Desculpe, mãe/ não é por isso que eu vou lhe esquecer/ perdi o trem das onze hora/ sei que irá compreender/ papai também amou a você”. Não preciso explicar que, das duas formas, peço desculpa a quem não concordar, mas prefiro desculpe.

O TOM IMPERATIVO É BOM… PRA CACHORRO

Um anúncio da Caixa Econômica Federal, atualmente na televisão, está em total desacordo com a regra: “Passa na lotérica e faz um X-Cap”, diz a garota, cujo sorriso aberto não reduz o tom ordenatório que me chega. Não é “passa e faz”, mas “passe e faça”. Em geral, “passa”, “entra”, ”sai”, ”deita” são formas recomendadas para usar com nosso cachorro. Mas nem tudo são espinhos: “Quero fazer deste Café um ponto de encontro entre mim e o povo brasileiro”, afirmou a presidenta Dilma, ao estrear o programa de rádio Café com a Presidenta. “Entre mim…” – nestes tempos bicudos, são flores gramaticais.

SPADE: CINISMO E FRIEZA CONTRA O CRIME

“Se for uma boa menina, sairá em 20 anos e eu estarei esperando. Mas se pegar a forca, sempre me lembrarei de você” (Humphrey Bogart para Mary Astor, em Relíquia Macabra/1941, de John Huston).  Bogart é Sam Spade (na foto, o primeiro à esquerda), o detetive mais cínico que a literatura já criou. Suas frases, a exemplo desta, são deliciosas. “Não acreditamos na sua história; acreditamos nos seus 200 dólares”, afirma à cliente. Quando Astor, derretida, diz que ele “caiu do céu”, a resposta é fria como gelo: “Não exagere”. Terno, ele “afaga” a secretária: “Você é um anjo… com coração de cascavel”. Durão, explica ao bandido pé de chinelo: “Se eu lhe der um tapa, vai ter de gostar”.

ENTRE SPADE-HAMMETT E MARLOWE-CHANDLER

O Falcão maltês, livro de Dashiell Hammett (1894-1961), que inspirou o filme, é um clássico noir dos mais cultuados. O detetive Sam Spade, que só aparece nesse romance (além de uns poucos contos que não li), é tido como um dos personagens responsáveis pela consolidação do gênero. Hammett e Spade têm muito a ver, segundo os críticos, com Raymond Chandler (1888-1959) e seu investigador particular Philip Marlowe. A propósito, recebi e (re) li, em fevereiro, uma caixa de cinco volumes de Chandler-Marlowe. Outra confidência: tive uma cadela chamada Asta, como a do ex-detetive Nick Charles, de A Ceia dos acusados (Hammett). Sou fã do romance negro, já se vê.

SÓ “25 DÓLARES POR DIA, MAIS DESPESAS”

Mero leitor, tenho cá os meus indicadores do romain noir, sujeito, é claro, a reprimendas dos exegetas do gênero: narração na primeira pessoa, um crime, a femme fatale (mulher capaz de levar um bom homem à ruína) e o conflito policial-detetive, além das marcas clássicas deste: frieza, cinismo e incorruptibilidade (nem a mulher fatal o tira do sério). Outro clichê muito presente: ele é solitário, tem complexo de culpa e drama de consciência, bebe feito uma raposa e cobra “25 dólares por dia, mais despesas”. Para Marlowe (Chandler), creio que em A dama do lago, esse dinheiro é, basicamente, para gasolina e uísque, não exatamente nesta ordem. Ele não quer enriquecer; quer apenas beber e consertar o mundo.

CONTEÚDO É PRECISO; NOME NÃO É PRECISO

A cantora Joyce (foto) atende também por Joyce Moreno, devido ao nome do marido, o baterista Tutty Moreno. Mas não costumo aderir a tais “novidades” (eles são casados há apenas 34 anos!): ainda chamo Jorge Benjor de Jorge Ben, Baby do Brasil de Baby Consuelo e Joyce Moreno de Joyce, pois não ligo muito pra nomes. Ulisses Guimarães chamava o PMDB de MDB, sendo fiel à sua saudade.  Conteúdo é preciso; nome não é preciso. Até pensei em mudar o meu para Formê vô  Bataion, mas fui desaconselhado: Mercúrio e Vênus estão em Áries e Plutão está em Capricórnio, tornando a mudança positivamente desastrosa. Mas voltemos a Joyce Moreno.

UMA MULHER E SUA COLEÇÃO DE ADJETIVOS

Conheci a artista, por imposição profissional, nos anos noventa. Causou-me impressão bem diferente de alguns falsos valores que pululam por aí, montados numa empáfia de fazer pena, talvez para disfarçar o vazio de que são possuídos. Na época, consegui que ela cantasse Clareana (feita para suas filhas Clara e Ana, mais de dez anos antes, em 1980). Adoro essa música, meio berceuse, meio canção de ninar, uma cantiga de mãe-coruja, se me permitem a invenção. Pois eis que há poucos dias, em seu artigo semanal em rede de jornais, Caetano disse estar ouvindo Clareana e pôs Joyce nas alturas.

CANTORA AFINADA E “MÚSICO” EXCEPCIONAL

Para o filho de Dona Canô, Joyce é uma violonista excepcional, da estatura de João Gilberto, Dori Caymmi, Gilberto Gil e João Bosco, “cantando com afinação precisa, compondo com imaginação harmônico-melódica original”. Comparando Joyce e Elis Regina, Caetano afirma que “Elis é a cantora mais músico que chegou ao estrelato no Brasil e Joyce é o maior músico entre as cantoras que vieram depois”. Não é pouco, vindo de quem vem. Gosto de ver assim atestada como verdadeira minha impressão de Joyce e partilhada a sensação que tenho ao ouvir Clareana – aqui num clipe do Fantástico/1980, mostrando a cantora, Clara e Ana.

(O.C)

 

UNIVERSO PARALELO

CAETANO VELOSO TEM OUVIDO PRIVILEGIADO

Ousarme Citoaian
Que João Gilberto “fala muito bonito” é avaliação de Caetano Veloso, feita há algum tempo.  “E João Gilberto fala?” – perguntei a meus botões, de forma retórica. Eles nada responderam (que querem?), nem precisava, pois João não fala, apenas exala da vitrola “aquele seu jeito encantado de cantar (…), com sua inconfundível divisão”, assim falou Rosa Passos. Talvez o mano Cae seja um desses privilegiados que têm ouvidos de ouvir a voz falada do cantor juazeirense. Ou não. Para mim, quem “fala bonito” de me deixar extasiado é outro baiano: Gilberto Gil.  Encontrei-o na revista Muito (grupo A Tarde), discorrendo sobre a velhice e outras doenças (ele tem 68 anos).

A SUBSTITUIÇÃO DA CRENÇA PELA DESCRENÇA

Ouçamo-lo: “Você passa a ter que responder a si próprio de maneira diferente, a dizer sim de maneira diferente, a dizer não mais severo, com mais intensidade, mais frequência. Passa a aceitar o sentimento da renúncia com mais resignação (…). A velhice é uma nova infância, no mesmo sentido dos cuidados específicos.” Invertendo os polos: “A juventude para mim, agora, é outra história, ela tem que se dá no sentido espiritual, da disposição para o encontro permanente com as instâncias de bem-estar, com a resignação, a capacidade de renúncia”. Interrogado sobre sua “transformação em agnóstico” disse que substituiu “a crença pela descrença”. Isto é falar bonito.

A VELHICE VISTA COM BELEZA E SABEDORIA

Ainda a propósito da questão religiosa, ele diz: “Hoje eu não creio nem descreio, não sinto necessidade da eleição dos objetos da crença, o Deus, os entes externos que habitam este mundo da transcendência. Nem preciso deles nem preciso do ateísmo. E não preciso achar, como eu achava antes, que quem acredita é melhor do que o incréu. Ou achar hoje que o incrédulo é melhor. Quem escolhe uma polaridade tende a achar que o outro não está certo, que ele é menor. É isso que autoriza o processo catequético, e eu não quero ter essa necessidade, me tornar missionário, discriminatório, juiz de nada”. Dizer que “a velhice é uma nova infância” – me soa pra lá de bonito: profundo.

OSCAR DECIDIDO ENTRE O VELHO E O NOVO

O Oscar de 2011, polêmica premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, já com mais de 80 anos, mostra neste domingo a velha dicotomia.  Os filmes favoritos – O discurso do rei e A rede social, na opinião do crítico Rubens Ewald Filho (foto) – são antagônicos em sua feitura e propostas. “O discurso… é um antiquado e muito bem feito filme inglês, com tudo direitinho, no lugar certo e com grandes interpretações; A rede social é um filme moderno, de um assunto pertinente, e tem a originalidade de o herói ser um filho da mãe, ou seja, um sacana que ganha US$ 4 bilhões. Não deixa de ser um retrato do nosso tempo” – resume o crítico.

FAROESTE PODE TER OUTRO OSCAR DE ATOR

Fã do faroeste (o gênero é a essência do cinema americano), aposto em Bravura indômita. É a saga de uma menina de 14 anos em busca de justiça, com a ajuda de um pistoleiro caolho, beberrão e mau humorado. A história é de 1969, filmada por Henry Hathaway, tendo John Wayne (Oscar de melhor ator daquele ano) e Kim Darby nos papéis principais. Agora, a direção é dos irmãos Joel e Ethan Coen, o pistoleiro é Jeff Bridges e a mocinha é a estreante Hailee Steinfeld (foto). Bravura… recebeu dez indicações, entre elas de filme, direção, ator e atriz coadjuvante (Steinfeld). Rubens Ewald Filho não gostou, é claro – disse que é “deprimente”.

BROKEBACK… OFENDEU O PALADAR CLÁSSICO

Se Bravura indômita ganhar algum Oscar (as dez indicações nada lhe garantem), junta-se à pequena relação de faroestes para os quais a Academia já se dignou de olhar. Sem pretensão de esgotar a lista, lembro: No tempo das diligências/1939 (dois), Matar ou morrer/1952 (quatro, com melhor ator para Gary Cooper), Os brutos também amam/1953 (um), Dívida de sangue/1965 (ator para Lee Marvin), Dança com lobos/1991 (o campeão, com sete prêmios) e Os imperdoáveis/1992 (filme, diretor, ator e atriz coadjuvantes). O único premiado antes dos anos noventa foi o pouco conhecido Cimarron/1931. Em 2006, Brokeback mountain, que os fãs do bangue-bangue consideram uma ofensa ao gênero, levou três estatuetas (incluindo diretor). O discurso… e A rede… são os cavalos de Rubens Ewald; Bravura…, minha zebra.

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O HOMEM QUE CONVERSOU COM A ÁRVORE

Ou o caso é de prosopopeia (também dita personificação) ou a figura tem nome que não alcanço. A mim me importa, mais do que nomenclatura, conteúdo: o sujeito conversa com uma árvore, a ela conta suas mágoas sentimentais (“Juazeiro, juazeiro,/ me arresponda por favor/ Juazeiro, velho amigo,/ onde anda meu amor?”) e ainda lembra ao pé de juá que ele tem responsabilidade no caso (“Juazeiro, meu destino/ tá ligado junto ao teu/ no teu tronco tem dois nomes/ ela mesmo é que escreveu”). E assim vai a confissão de amor ferido, num crescendo de emoção. Talvez por ser mais sensibilidade do que razão, se me eriça a pele cada vez que escuto Juazeiro (Humberto Teixeira-Luiz Gonzaga/1948).

A ESPERANÇA AMOROSA CEDE AO SOFRIMENTO

Há ali a humana dúvida (“Juazeiro, seja franco/ ela tem um novo amor?), a desconfiança (“Se não tem por que tu choras/ solidário à minha dor?”) e, com a cruel descoberta, a queda, a vitória do sofrimento sobre a esperança (“Ai, Juazeiro/eu não guento mais roer/ ai, juazeiro/ eu prefiro inté morrer”). Obra-prima de MPB romântica. Para quem se interessa por essas filigranas do falar brasileiro, digo que roer significa, em “pernambucanês”, sofrer por amor, curtir dor-de-cotovelo. Humberto Teixeira repetiria o regionalismo em Qui nem jiló/1949: “Saudade assim faz roer/ amarga qui nem jiló”. A matéria-prima do verbo roer é a ausência do ser amado, o amor não correspondido e cardiopatias semelhantes.

CULTURA NORDESTINA INTOCADA PELO JAZZ

Juazeiro é um tema adaptado por Luiz Gonzaga, a exemplo de Asa Branca. A melodia, de tristeza intensa, se aproxima do blues (não foi por acaso que a cantora Peggy Lee a gravou – com outra letra e sem os nomes dos autores). Em 2001, Dominguinhos reuniu mais de vinte artistas e com eles gravou dois CDs em homenagem ao Rei do Baião. O guitarrista Heraldo do Monte (foto) fez um arranjo primoroso para Juazeiro, retomando aquele “nhã-nhã-nhã” típico dos violeiros de feira que Gonzaga adaptou em Asa Branca. Autor e executante extraordinário, além de profundo conhecedor da cultura musical de sua terra (que não foi afetada pelo tempo em que tocou jazz nos Estados Unidos) HM nos dá, com seu arranjo, um Juazeiro novo .

A DILACERANTE TRISTEZA DE JANE DUBOC

A leitura de Dominguinhos para o texto de Humberto Teixeira mostra um homem de coração despedaçado; Jane Duboc (foto), na segunda parte, é de uma tristeza comovente – e quando diz “eu prefiro inté morrer”, eu sinto a garganta apertada (o clipe é especial para esta coluna).

(O.C.)

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JÂNIO QUADROS: DE PRONOMES E MINISTROS

Ousarme Citoaian

Dizia-se, com boa dose de maldade, que o presidente Jânio Quadros era melhor para colocar pronomes do que ministros. O velho JQ, com as qualidades e defeitos inerentes ao ser humano, era professor de português, gramaticista à moda antiga e, em tal condição, sabia bem de pronomes. A famosa frase “Fi-lo porque o quis” (transformada na folclórica “Fi-lo porque qui-lo”, destituída de sentido lógico) dá bom exemplo do rebuscamento com que aquele político tratava a língua portuguesa. Ele jamais diria, nem sob tortura, “Vou procurar-lhe”, mas “Vou procurá-lo” – conforme preceitua a norma culta.

LEMBRANÇA QUE SAI DE CINZAS REVOLVIDAS

Estaria este hebdomático e fatigado colunista com algum tipo de nostalgia janista? Falemos sério: Jânio não faz meu gênero e sua lembrança apenas saiu das cinzas revolvidas com o anúncio do livro Minha Ilhéus, de José Nazal. Diz o texto que a editora deseja “convidar-lhe” para o lançamento – uma construção positivamente infeliz. Alguns verbos (e, na minha memória de ex-aluno do professor Chalupp, convidar encabeça a lista) são inimigos declarados do pronome “lhe”: abraçar, beijar, adorar, procurar, amar, encontrar, ameaçar e desejar estão entre os que não gostam do “lhe”.

LEITORA: NÃO PERMITA QUE ELE “LHE” AME

Recomendamos a eventuais leitoras incautas que, se acaso um sujeito manifestar intenções de amar-lhe, desejar-lhe, adorar-lhe, abraçar-lhe (ou outras agressões freudianas e gramaticais) corra, pois ele é menos inteligente do que romântico. Livre-se do tipo, antes que ele passe a tratá-la com a mesma grosseria com que trata a gramática. Prefira alguém que lhe diga “Eu a adoro”, “Eu a amo”, “Eu a abraço”, “Eu a beijo”, “Eu a amasso” e por aí vai. E em caso de a moça declarar-se ao maluco, a regra é a mesma. Se ela grafar “Eu lhe desejo” (em vez do civilizado “Eu o desejo”) é provável que o romance dê com os burros n´água, mais cedo do que o habitual.

ANÚNCIO DE LIVRO EXIGE LÍNGUA FORMAL

No coloquial do dia-a-dia ninguém liga para o uso correto de pronomes (as exceções eram o citado Jânio Quadros e o jurista Josaphat Marinho). Mas é diferente com a língua padrão, que precisa seguir as normas gramaticais. E não me venha a CLMH (Comunidade dos Linguistas Mal-Humorados) justificar isto como linguagem do povo: o texto referido tem os nomes de um escritor, uma editora e uma academia de letras, portanto, o informal nada tem a ver com isto. O anúncio há de ser vazado em língua culta: “… alegria de convidá-lo” (ou convidá-la, é óbvio). Jamais “convidar-lhe”. Houve transgressão, sem dúvida.

NÃO É POSSÍVEL COMER O QUE É LÍQUIDO

Já acaba o espaço, mas não resisto a outra anedota sobre o ex-presidente, provavelmente inventada, e que o folclore tornou mais poderosa do que a realidade.  Então, vamos a uma das versões circulantes. Admirador das destilarias da Escócia, Jânio Quadros enfrentou o preconceito da sociedade brasileira e a bisbilhotice de um jornalista, que lhe perguntou, acintosamente: Por que o senhor bebe tanto? E JQ, com ar de compaixão diante de tamanha ignorância, foi didático no exercício do seu senso de humor absolutamente britânico: Bebo porque o uísque é líquido; se fosse sólido, comê-lo-ia, com garfo e faca.

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NINGUÉM GOSTA DE PROVOCAR COMPAIXÃO

De repente, me lembro de uma situação recorrente na MPB, abordada por vários autores.  É o tema de “não dar o braço a torcer”, não demonstrar o que o poeta sente de fato, não permitir que seu sofrimento seja partilhado pelos outros. Entre a carência da solidariedade e o desdém (talvez vingança) que essa necessidade provoca, é melhor não arriscar: então, fazemos aquela cara de que está tudo bem, e quem pensava que iria rir do nosso padecer, errou. Ardemos por dentro, é verdade, mas os inimigos não terão o gostinho de saber disso. Eles só nos verão limpos, cheirosos e com um amplo sorriso no rosto. Aqui pra eles!

QUEM É BOM SOFREDOR NÃO DÁ BANDEIRA

Noel Rosa tinha uma “filosofia” que o ajudava com esse problema: “Nesta prontidão sem fim/ Vou fingindo que sou rico/ Pra ninguém zombar de mim” (Filosofia, com André Filho/1933). Pausa para lembrar que “prontidão” é gíria da época: estado de quem está sem dinheiro, pronto, duro, liso. Não quero abusar, apesar do centenário que, como fã (hoje chamam tiete!), continuo nas comemorações, mas isto aqui também é Noel (na caricatura de Luquefar): “Quem é que já sofreu mais do que eu?/ Quem é que já me viu chorar?/ Sofrer foi o prazer que Deus me deu/ Eu sei sofrer sem reclamar” (Eu sei sofrer/1937). A fórmula geral é não dar bandeira.

AS LÁGRIMAS DO POETA NINGUÉM VÊ CAIR

De Zé com Fome e Ataulpho Alves, Orlando Silva cantava: “Pra ninguém zombar,/ Pra ninguém sorrir/ É só no coração que eu sei chorar/ O pranto meu ninguém vê cair” (Meu pranto ninguém vê/1938). A dupla Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga também comparece: “Mas ninguém pode dizer/ Que me viu triste a chorar/ Saudade, o meu remédio é cantar” (Qui nem jiló/1949). Candeia (Pintura sem arte/1978), fala de sua cruel prisão à cadeira de rodas: “Mas se é pra chorar, choro cantando/ Pra ninguém me ver sofrendo/ E dizer que estou pagando” (Alcione, com aquela categoria que o mundo aplaude, regravou este samba em 1981).

AONDE A SAUDADE VAI A DOR VAI ATRÁS

Se alguém pensou que esta conversa desaguaria em Fernando Pessoa (1888-1935), tudo bem.  Aqui vai, com desculpas pela previsibilidade, a primeira quadra de Autopsicografia/1930: “O poeta é um fingidor:/ Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente”. Claro. Fingir é fugir (ops!) a certos gêneros de padecimentos morais. E, para finalizar, Noel (é o centenário, gente!), com uma saída muito engenhosa em Tenho um novo amor/1932 (com Cartola): “Se acaso algum dia se apagar/ do teu pensamento o meu amor/ para não chorar e não mais penar/ mando embora a saudade/ prá livrar-me da dor”.

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GILBERTO GIL E O SAMBA DA “DESPEDIDA”

Os mais jovens (eventualmente, é uma grande falta de sorte ser jovem) não viram o que significou Aquele abraço, canção que Gilberto Gil fez em 1969, para se despedir do Brasil. Ele e Caetano, depois de presos e com as cabeças raspadas, foram “autorizados” a deixar o País. A música, que virou mania nacional, é rica em símbolos e sugestões: de saída, Gil louva sua aldeia, ao dedicar Aquele abraço “a Dorival Caymmi, João Gilberto e Caetano Veloso”, para mais tarde mandar um desaforo à ditadura: “Meu caminho pelo mundo/ Eu mesmo traço/ A Bahia já me deu/ Régua e compasso/ Quem sabe de mim sou eu/Aquele abraço”. Perca-se tudo, mas salve-se a dignidade.

NO FLAMENGO GIL ACHOU RIMA E SOLUÇÃO

Há outras mensagens nem sempre explícitas: Realengo não é mencionado por acaso, mas para debochar do arbítrio – foi no quartel do Exército naquele subúrbio que Gil e Caetano ficaram presos. O Flamengo é outra entrada nada casual, marca da ironia do artista com a chamada nação rubro-negra: o Fluminense havia conquistado o título carioca, ao vencer o Flamengo por 3 x 2, Gil era um dos 171 mil torcedores no Maracanã e viu a tristeza da massa. Com seu “abraço” ele está dizendo aos derrotados que “o importante é competir” (ou “consolo” semelhante). Torcedor do Fluminense, Gil encontrou no Flamengo rima (para Realengo) e solução (para tirar sarro do rival).

CHACRINHA, A ANTÍTESE DO POSITIVISMO

Depois de exaltar o dolce far niente (carnaval, futebol, banda de Ipanema) do Rio de Janeiro, que (apesar de tudo) “continua lindo”, o baiano elege para ícone e ápice da ironia o pernambucano Abelardo Barbosa, Chacrinha. O apresentador, que “continua balançando a pança”, é a outra face do positivismo pregado pela ditadura, a anarquia organizada (“Eu vim para confundir, não para explicar”), o anti-Ordem e Progresso, a bagunça, a geléia geral brasileira. Se a ditadura é a tese, Chacrinha é a antítese – e o menino Gilberto Gil (27 anos na época) é o arauto, exegeta, explicador do processo. As mensagens se sucedem, sempre com a expressão “continua”.

AOS 27 ANOS GILBERTO GIL JÁ LEVITAVA

A vida, mesmo com a violência dos que tomaram o poder à força, segue, escrachada, fora do figurino oficial verde-oliva: além de balançar a pança politicamente incorreta, o Velho Guerreiro (na charge) continua “buzinando a moça” (um duplo sentido de indiscutível bom gosto), “comandando a massa” e “dando as ordens no terreiro” – não importa o que digam, que falem, que pensem ou queiram os usurpadores, o povo parece ter outra regra e compasso. No vídeo raro, feito em 1979, Gilberto Gil em estado de graça, zen, sideral, elevado, celeste, quase levitando, puro, de uma forma que os recursos eletrônicos não mais nos permitem ver (e com um ótimo improviso no final). O eterno Gil.

(O.C.)

LETRAS DE MÚSICAS QUE NUNCA ENTENDI

Marival Guedes

Algumas músicas a gente ouve, repete e não consegue entender a letra, por se tratar, muitas vezes, de histórias pessoais. Não dá pra adivinhar. É o caso de “Chão de Giz”, do paraibano Zé Ramalho. Durante anos ouvi, sem saber o que significava:

“Eu desço dessa solidão/Espalho coisas sobre/Um Chão de Giz/Há meros devaneios tolos/A me torturar/Fotografias recortadas/ Em jornais de folhas/Amiúde! Eu vou te jogar/Num pano de guardar confetes”.

Tive acesso à “tradução” lendo uma entrevista do autor na, lamentavelmente, extinta revista “Bundas”. Zé Ramalho revela que o giz foi pra disfarçar . Na verdade, se refere à Giza,uma paraibana rica,socialite e casada, com quem teve um caso aos 18 anos, quando também já era casado. Ele pegou uma fotografia dela publicada num jornal, recortou e pregou na parede. “A descrição que aparece em Chão de Giz é dos livros que eu estava lendo, das pessoas que me rodeavam , do psicodelismo daquele período”, explica.

Aproveitando o embalo, os entrevistadores perguntam sobre “Garoto de Aluguel:

“ Baby!/Dê-me seu dinheiro/Que eu quero viver/Dê-me seu relógio/Que eu quero saber/Quanto tempo falta/Para lhe esquecer/Quanto vale um homem/Para amar você…”

Esta é mais clara, próxima da realidade. Ele recorda que quando chegou ao Rio com outros artistas nordestinos, eram várias as dificuldades. Dormiam em casas de amigos, sofás de teatros e bancos das praças. Conheceram algumas meninas na porta do teatro e tornaram-se amigos.

Elas curtiam o amor- livre,o flower power e sabiam da situação do grupo. Então, iam ao motel e quando saíam diziam pra eles: “toma aí este troco pra passar o dia, pegar um PF…”

O cantor justifica que não ficava jogando anzol no Alaska – galeria frequequentada por garotos de programa. Era uma coisa amigável e espontânea. “Isso inspirou a música porque eu via por um lado mais radical,tentava me colocar na situação de uma pessoa que vivia disso,passei a prestar atenção a isso”.

De Zé Ramalho a Fernando Pessoa- O jornalista Ricardo Ribeiro,integrante deste blog, lembra da frase de um general romano: “navegar é preciso,viver não é preciso”, utilizada pelo poeta português em “Navegar é Preciso” e por Caetano Veloso em “ Os Argonautas”. Na primeira citação, preciso se refere à necessidade. Na segunda, nos remete à inexatidão, imprecisão, às surpresas que a vida nos traz.

Pra terminar, cito Álibi (Djavan), outra música que até hoje não compreendo, principalmente estes versos: “Quando se tem o álibi/De ter nascido ávido/E convivido inválido/Mesmo sem ter havido”.

Pra eu não ficar esperando por uma entrevista do autor, alguém que comprerendeu, por favor, mande-me a “tradução”.

Marival Guedes é jornalista e escreve no Pimenta às sextas-feiras.






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