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:: ‘Capitães da Areia’

JORGE AMADO: UM ETERNO IMORTAL PARA ALÉM DE SUL-BAIANO

Efson Lima || efsonlima@gmail.com

 

 

 

O escritor pertence ao mundo. É símbolo de nossa terra, nascido em Ferradas, em Itabuna, não só se imortalizou, mas imortalizou-nos na literatura universal.

 

O nosso autor sul-baiano mais destacado da literatura nacional completou 107 anos em 10 de agosto de 2019. Imortalizado na Academia de Letras de Ilhéus, Academia de Letras da Bahia e Academia Brasileira de Letras permanece vivo. Certamente continuará povoando nossas cabeças, nosso imaginário e seduzindo milhares de pessoas para a literatura, assim como eu fui atraído por Capitães da Areia e Gabriela, Cravo e Canela, entre outros clássicos. Em Ilhéus. Somou-se a Abel Pereira e a Nelson Schaun, Wilde Oliveira Lima e Plínio de Almeida, os quatro últimos membros da Comissão de Iniciativa, para fundar a Academia de Letras de Ilhéus, em 1959, que vivencia o ano diamante.

Na Academia de Letras de Ilhéus pertenceu a cadeira de n° 13, cujo patrono, Castro Alves, o influenciou na produção de suas obras. Por sinal, neste ano, a Literária Internacional do Pelourinho homenageou o poeta abolicionista, cuja FliPelô, organizada pela Fundação Jorge Amado, presta homenagem ao escritor das terras do cacau, terras essas que conferem identidade à Nação Grapiúna e ao seu povo. A cadeira de n° 13 acolheu sua esposa, Zélia Gattai, e, agora, acolhe nosso escritor Pawlo Cidade, que tem prestado significativos serviços ao campo da gestão cultural no Estado da Bahia, assim como tem construído significativamente uma vasta obra literária, cuja preocupação ambiental aparece em seus livros. Tema que se tornou hodiernamente tão emblemático, especialmente com a atual gestão federal no país, que parece não ter preocupação com as gerações do presente e muito menos com as futuras.

Na Academia Brasileira de Letras, foi eleito, em 6 de abril de 1961, para a cadeira n° 23, que tem como patrono José de Alencar e por primeiro ocupante, Machado de Assis. Jorge Amado, um crítico das academias, na fase adulta, reverá seus posicionamentos, como assinalou em seu discurso de posse na ABL: “Chego à vossa ilustre companhia com a tranquila satisfação de ter sido intransigente adversário dessa instituição, naquela fase da vida, um que devemos ser, necessária e obrigatoriamente, contra o assentado e o definitivo, quando a nossa ânsia de construir encontra sua melhor aplicação na tentativa de liquidar, sem dó nem piedade, o que as gerações anteriores conceberam e construíram.” O tempo é senhor de nossas razões. E como é!

No início deste texto, disse “nosso autor”, só mesmo para ressaltar a origem. O escritor pertence ao mundo. É símbolo de nossa terra, nascido em Ferradas, em Itabuna, não só se imortalizou, mas imortalizou-nos na literatura universal. As suas obras de cunho regionalista conseguiram ter sentido no Chile, na França, em Portugal, na Itália, na antiga URSS. Conseguiu-nos orgulhar. Jorge Amado, que recebeu diversas críticas, marginalizado pela crítica do sul, continua vivo em nossas memórias e provocando críticas de diversos movimentos. Sempre que posso, pergunto-me: será que o escritor deve agradar ao seu leitor? Eu, como sou aprendiz, ainda não consigo ter clareza, mas o tempo será senhor das futuras razões.

Efson Lima é doutor em Direito pela UFBA, coordenador-geral da Pós-graduação, Pesquisa e Extensão da Faculdade 2 de Julho, das terras de Itapé (BA) e eterno ilheense adotivo.

“O BRASIL NÃO MUDOU PORRA NENHUMA, A COISA CONTINUA FEIA”, DIZ PASQUALE

Pasquale relacionado "Capitães da Areia" com o Brasil de hoje || Divulgação Flipelô

Pasquale relacionado “Capitães da Areia” com o Brasil de hoje || Divulgação Flipelô

Rodrigo Casarin || Blog do Página Cinco

A mesa da qual Pasquale Cipro Neto, o Professor Pasquale, provavelmente o educador de língua portuguesa mais conhecido do país, participou há pouco na Flipelô, em Salvador, se transformou em uma declaração de amor do mestre à Bahia. O ponto alto da conversa, mediada pelo compositor e secretário estadual de cultura Jorge Portugal, deu-se quando Pasquale comparou “Capitães da Areia”, um dos maiores clássicos do baiano Jorge Amado, publicado em 1937, ao país que temos hoje:

“O Brasil não mudou porra nenhuma, a coisa continua feia, o preconceito, a estupidez…”, disse o Professor, mostrando que, mesmo para quem tem um vasto repertório linguístico, é mesmo difícil falar de nossa realidade sem apelar aos palavrões. “Lá se vão 80 anos e não acontece nada, as coisas não mudam. Temos uma sociedade que continua sendo absolutamente encastelada”, completou Pasquale, que ainda citou como exemplo dessa sociedade estanque e bárbara o caso do jovem que teve sua testa tatuada após roubar uma bicicleta.
Leia a íntegra clicando aqui

UNIVERSO PARALELO / ESPECIAL JORGE

JORGE AMADO E OS REQUINTES DA ESTUPIDEZ

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

Jorge Amado folheia edição em dinamarquês de Tocaia Grande.

Nas muito justas louvações a Jorge Amado (cujo centenário de nascimento ocorre nesta sexta-feira, 10), detenho-me sobre um documento que se agiganta diante de toda a obra vasta do grande romancista. Trata-se de uma surpreendente “Ata de Incineração” produzida pela Sexta Região Militar em 19 de novembro de 1937 – e publicada pelo jornal Estado da Bahia em 17 de dezembro daquele ano. É de estarrecer, ou como gostaria de dizer a própria vítima, “de espantar”. A notícia da queima de 1.694 livros de Jorge Amado é narrada com detalhes (melhor seria chamá-los de requintes de estupidez), começando por nomear os “senhores membros da comissão de buscas e apreensões de livros” (três trogloditas do Exército, Marinha e Polícia do Estado).

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MONUMENTO À BESTIALIDADE

A ordem de incinerar “os livros apreendidos e julgados como simpatizantes do credo comunista” partiu do Cel. Antônio Fernandes Dantas, comandante da 6ª RM, e incluiu pequena quantidade de outras obras. O integralista José Lins do Rego teve queimados 82 volumes de seus romances Doidinho, Pureza, Banguê, Moleque Ricardo e Menino de Engenho – prova de que as ditaduras distribuem “democraticamente” suas patadas sem olhar a quem. Mas o grande perseguido era, de fato, Jorge Amado, visto pelo sistema como “perigoso agitador”: dos seus livros levados à fogueira, o de menor quantidade (Cacau, 89 exemplares) ultrapassa os cinco de Zé Lins. A bestialidade do Estado Novo seria, com ligeiras adaptações, reeditada pela ditadura militar de 1964.

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O CAVALEIRO DA ESPERANÇA

Jorge Amado não foi só o escritor picaresco, de humor tipicamente brasileiro (em oposição ao humour britânico de Machado de Assis) vulgarizado pela tevê. Foi, sim, um lutador pelo seu povo, defensor da miscigenação, antirracista. Denunciou o trabalho semi-escravo na região cacaueira, defendeu a liberdade de culto e todas as liberdades. Várias vezes preso no Brasil, exilado na Argentina, no Uruguai, em Paris e na Tchecoslováquia, ele manteve a militância também fora de sua terra: em 1950, foi expulso da França, devido à atividade política com Camus, Sartre, Picasso e outros. Em 1941, durante o exílio na Argentina escreveu O cavaleiro da esperança: a vida de Luís Carlos Prestes, pungente defesa do líder comunista preso desde 1936.

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LIVRO CONTRABANDEADO

É um livro notável, pelo conteúdo explosivo (a denúncia candente da tortura, da perseguição aos comunistas, da violação dos direitos humanos no Estado Novo) e pelas circunstâncias especiais que o cercaram: proibido no Brasil, O cavaleiro… (em espanhol) era vendido clandestinamente, às vezes por preços absurdos. Também apareciam cópias datilografadas e em fac-símile, que passavam de mão em mão, sem dono certo. O livro ganhou nomes carinhosos, como Vida de são Luís, Vida do rei Luís e Travessuras de Luisinho. No governo Perón, O cavaleiro… foi proibido também na Argentina e queimados os exemplares encontrados, valorizando ainda mais os que circulavam no Brasil. “Houve quem vivesse do aluguel de exemplares”, contou Jorge Amado.

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O SORRISO AMARELO DA SOCIEDADE

A pena de Jorge Amado nunca esteve a serviço da literatura dita “o sorriso da sociedade” (expressão cunhada por Afrânio Peixoto) e que Graciliano Ramos bem definiu como “uma literatura antipática e insincera que só usa expressões corretas, só se ocupa de coisas agradáveis, não se molha em dias de inverno e por isso ignora que há pessoas que não podem comprar capas de borracha”. É a literatura dos saraus, da poesia tatibitate e bem comportada, que não incomoda. “Foi ela que, em horas de amargura, receitou o sorriso como excelente remédio para a crise”, resume o mestre de Quebrangulo. Jorge Amado trouxe para o romance brasileiro os negros, os pobres, os trabalhadores do cacau, as prostitutas e, avant la lettre, os meninos de rua.

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PREMONIÇÃO SOBRE MENORES INFRATORES

Capitães da areia (808 exemplares queimados), uma premonição sobre os menores infratores de hoje, saiu do prélio em 1937 e logo foi para o fogo. Não valeu esse “sacrifício” do governo: quando veio a anistia, em 1945, Capitães… vendeu feito pão quente, sendo até hoje uma das obras mais lidas do autor. Os demais romances levados à fogueira são Jubiabá (267 exemplares), O país do carnaval (214), Suor (93) e Cacau (89). Jorge Amado retomaria as questões sociais, dentre outros títulos, em Terras do sem fim (1943), São Jorge dos Ilhéus (1944), Os subterrâneos da liberdade (1954) e, principalmente, em Seara vermelha (1946), que, por óbvios motivos, não viraram cinza. Faltou dizer que 223 exemplares de Mar morto também foram queimados.

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SÓFOCLES ESCAPOU DO PAU-DE-ARARA

Mar morto? – perguntaria a atônita leitora; Mar morto? – ecoaria o atônito leitor (desde que cultuem este objeto em extinção chamado livro), e concluiriam que este velho O. C. perdeu de vez o juízo ou bebeu em má fonte. Mar morto, sim, insisto, lembrando-lhes que nas ditaduras a burrice é uma segunda natureza. E afianço ainda que esse mal é contagioso e longevo: em1965, esbirros da ditadura militar (“herdeiros” da fogueira de 1937) invadiram um teatro no Rio de Janeiro, para prender o autor da peça em cartaz, um certo Sófocles, e submetê-lo ao pau-de-arara, choque elétrico nas partes baixas e outros mimos. Pois saibam todos que destas linhas tomarem conhecimento que Sófocles escapou – tinha-se dado ao luxo de morrer há 565 anos.

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JORGE AMADO É MELHOR DO QUE VICTOR HUGO

Faltou dizer que Mar morto, leitura de infância em Buerarema, a história de Lívia e Guma, é um dos mais belos textos de Jorge Amado. Para mim, foi o contato com o que se chamava de “poesia em prosa”: o cotidiano dos trabalhadores do mar em permanente risco, a vida árdua, mas narrada com surpreendente lirismo. Penso que só alguém doente da cabeça ou do pé (talvez dos dois) seria capaz de ver ali obra de ameaça ao regime, livro “simpatizante do credo comunista”. A quem não percebeu a citação, informo que “trabalhadores do mar” é o título de festejado livro de Victor Hugo (traduzido por Machado de Assis), que não chega aos pés de Mar morto.

O lirismo de Jorge Amado chegou também à MPB, numa parceria de Jorge Amado e Dorival Caymmi. 

O.C.

PRÊMIO PARA “CAPITÃES DA AREIA”

Do Blog do Thame

O filme “Capitães da Areia”, dirigido por Cecilia Amado e Guy Golçalves, ganhou o Prêmio do Pùblico do Festival Internacional de Cine de Punta del Este, Uruguai.

Baseado na obra de Jorge Amado, o filme conta a história de Pedro Bala, Professor, Gato, Sem-Pernas, Boa Vida e Dora, personagens que Jorge Amado um dia criou para mostrar o drama de crianças e adolescentes abandonados na Bahia da primeira metade do século passado, mas que permanece atual.

“ Capitães da Areia”, teve o apoio cultural da Bahiagás é uma homenagem de Cecília, neta de Jorge, ao centenário do escritor grapiuna.

DIRETORA DE “CAPITÃES DA AREIA”, NETA DE JORGE AMADO LAMENTA FALTA DE CINEMA EM ITABUNA

Cecília ladeada pelos jovens que fazem o papel de Professor, Dora e Pedro Bala (Foto Pimenta).

A cineasta Cecília Amado lamentou ontem (7) o fato da centenária Itabuna, do escritor Jorge Amado, seu avô, não contar com sequer uma sala de projeção. A diretora de Capitães da Areia veio ao município participar de uma sessão especial do filme, para convidados no Centro de Cultura Adonias Filho, numa promoção da patrocinadora Bahiagás.

“Não há sala de cinema aqui [em Itabuna], mas no que eu puder, vou estar junto com o poder público para que isso se reverta”, disse, diante do presidente da Bahiagás, o itabunense Davidson Magalhães. O último cinema de Itabuna, o Starplex, fechou em 2010 com as obras de expansão do Shopping Jequitibá. A promessa do centro de compras é que novas salas serão inauguradas ao final do primeiro semestre de 2012.

“Deixar a cultura viva e ativa é a minha missão como herdeira de Jorge Amado”. E foi nessa linha que a diretora e a Bahiagás – principal patrocinadora do filme no estado – definiram pela sessão especial em Itabuna. “Vamos, mesmo improvisando [um espaço de exibição de Capitães…], levar o filme que é um novo olhar sobre Jorge e sua obra e, mais que tudo, estimular jovens artistas em qualquer área e em qualquer lugar da Bahia, principalmente aqui em Itabuna, terra de Jorge, a criar e a olhar o povo da sua terra com o olhar que ele tinha”.

Cecília diz que a diferença não está nas histórias, mas na forma como ela é contada pelo escritor itabunense. “Ele tinha um olhar generoso com o seu povo. Que esse filme e os projetos que virão para homenagear Jorge Amado sirvam para mexer e estimular os jovens a criar e religar as suas origens”.

Foi a primeira vez que Cecília esteve em Itabuna. Emocionada, falou das origens da família Amado, do centenário do escritor itabunense e avô e do processo de seleção dos atores de Capitães da Areia. O elenco foi escolhido entre 1.200 jovens de 22 projetos sociais tocados na região metropolitana de Salvador.






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