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:: ‘Carneiro Ribeiro’

UNIVERSO PARALELO

ESSES MÚSICOS E SUAS BAQUETAS PERDIDAS

Ousarme Citoaian

Um site de negócios anuncia que está à venda uma baqueta usada pelo Guns N’ Roses no último Rock in Rio. Esse troféu (à disposição dos fãs por meros R$ 250,00) teria pertencido ao baterista Matt Sorum (se é assim que se escreve, pois o grupo me é inteiramente desconhecido, graças a Deus!). Não atino como teria esse acessório ido parar no mercado, considerando que os músicos costumam ser muito ciumentos com suas coisas. Provavelmente o baterista o perdeu por acidente de trabalho, pois tais coisas acontecem mais do que nós, pobres mortais, possamos imaginar. O jornalista Ruy Castro (Tempestade de Ritmos/2007) tem uma boa história a respeito.

LIONEL HAMPTON: REGENTE E MALABARISTA

Se não conheço Matt Sorum, sei quem é Lionel Hampton (foto), o inventor do vibrafone no jazz, mas também baterista, pianista, regente e… malabarista. Hamp, como era chamado,  fazia  do palco uma espécie de picadeiro, e dos seus músicos, artistas de circo – sem prejuízo para o ritmo, a afinação ou a elegância: coreografia complicada (criada por ele), interação com o público, baquetas voando, band-leader dando pulos (o pernambucano Severino Araújo é um seguidor, com sua Orquestra Tabajara), a orquestra tocando alto, forte e certo. O objetivo de Hamp era que, num raio de 500 metros, ninguém permanecesse estático ao ouvir sua música.

DE CICATRIZES SE FAZ A HISTÓRIA DO JAZZ

Em São Paulo, Hampton fazia um longo solo com várias baquetas trocando de mãos, como num show de magia. De repente, uma delas lhe escapou (tão rápido que quase ninguém viu) e escorregou para debaixo da mesa de Ruy Castro. Este, também como um mágico (de paletó) a pôs imediatamente debaixo do braço, ficando imóvel pelo resto da noite. Na saída, soube que o músico estava furioso com a perda da baqueta, e se fez de inocente. “Ao saber da morte de Lionel Hampton, afaguei aquela baqueta cheia de arranhões, sulcos e machucaduras – cicatrizes das muitas noites em que ele a usou para escrever tantas páginas empolgantes da história do jazz”, depõe o jornalista|.

PARA NEOLOGISMO, PUXAVANTES DE ORELHAS

A gramática formal condena os neologismos.  A Estilística tem os neologismos na lista dos “defeitos” do bom estilo de escrever e falar. No entanto, eles resistem, se sobrepõem à oposição, adentram o vocabulário, consagram-se, vão em frente – passam de novidades (neo = novo) a formas consagradas. Meu professor de redação puxaria as orelhas de quem escrevesse homenagear (isto em tempos imemoriais!). Hoje, escreve-se (e se diz) homenagear e ninguém vira Van Gogh (foto) por causa disso (até porque, em nossos dias, as orelhas postas em perigo são as do mestre, não as do aluno). Prestar homenagem era a forma “certa”. Já o uso do verbo aniversariar constituía crime inafiançável.

RUI, PRECISANDO, USAVA, “SEM VACILAR”

Mas, convenhamos, dizer (a exemplo de Machado de Assis) “Ele faz anos” soa meio estranho à língua “brasileira”.  Chico Buarque já em 1966 aderiu a este neologismo (“Todo mundo homenageia/Januária na janela…”), mas poeta… pode. Mais estranho ainda ficaria se ele seguisse a norma clássica (“Todo mundo presta homenagem…/A Januária na janela…”). Rui Barbosa deu o caminho: na Réplica ao professor Carneiro Ribeiro, disse ser contra o neologismo “desnecessário”, mas que, nos outros casos, “não vacilo até em lhe assumir a iniciativa”. Acho que é isto que eu queria dizer: a linguagem, além de suas próprias regras, há de também submeter-se às regras do bom senso.

NEOLOGISMO “VELHO” É NEOLOGISMO ACEITO

O mal (ou o bem?) do neologismo é que ele envelhece. E se envelhece é porque foi aceito na linguagem, deixando de ser neologismo. Quando, há poucos anos, alguém emitiu a palavra “aidético” criou alguma comoção. Passou-se o tempo, o termo incorporou-se ao Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), já ninguém o estranha. “Espiritismo” (categoria criada pelo francês Allan Kardec) foi neologismo combatido pela língua formal… no século XIX.  Há termos que, ao contrário, aparecem e desaparecem, não “pegam”, talvez por nada acrescentarem à comunicação. No fundo, os falantes sabem, ainda que de maneira empírica, quando novos valores linguísticos devem ser aceitos ou descartados.

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EDITH PIAF: ENTRE A HISTÓRIA E A LENDA

Situada entre a história e a lenda, a vida de Edith Piaf (foto) nunca foi fácil. Conta-se que sua mãe, na miséria, deu à luz sob um poste.  Abandonada pela mãe, criada pela avó, dona de um bordel na Normandia, ficou cega dos três aos sete anos. A doença (ceratite) teve o prognóstico esperado (a cura com o tempo), mas as “meninas” de Madame Louise achavam que foi um milagre de Santa Teresa de Lisieux. Aos 15 anos (depois do bordel e de morar com o pai alcoólatra), canta nas ruas de Paris, quando, em 1935, é descoberta por um dono de boate e grava, ainda naquele ano, seu primeiro disco. Sucesso, fama e dinheiro vieram, mas o sofrimento permaneceu.

A VOZ QUE FEZ O MUNDO CANTAR O AMOR

O mundo inteiro cantou os temas de amor divulgados pela voz inconfundível de Edith Piaf: Hymne à l’amour, La vie em rose, Non, je ne regrette rien e Milord são dos mais conhecidos. É a maior chanteuse popular de todos os tempos. O grande Maurice Chevalier (foto), encantado, afirmou: “Ela canta como se estivesse se oferecendo em holocausto”. Teve vida amorosa conturbada, pela qual passaram Yves Montand e o cantor Jacques Phill, até conhecer o pugilista Marcel Cerdan, a grande paixão – e também sua maior tragédia amorosa. Quando ela se encontrava num estado de felicidade nunca experimentado, ele morreu, num desastre de avião.

MESMO NA DOR, O SHOW TEM QUE CONTINUAR

Aqui, uma cena de Piaf – Um Hino ao Amor, o momento em que a cantora descobre a morte de Marcel, e se desespera. Ele vem visitá-la no quarto, como um aviso, uma despedida, mas tudo não passa de um truque do diretor Olivier Dahan, criando um ambiente de misticismo. Marcel já está morto. Quando Piaf (Marion Cottilard) sai do quarto (vai pegar um presente para ele) a realidade a atropela: descobre que o avião do amante caíra e que a visita dele ao quarto nunca existiu. Angústia e tristeza marcam esta cena, antológica pela fusão da casa para o palco – mostrando como a arte é capaz de superar a dor. Ou… o show tem que continuar.

(O.C.)



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