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:: ‘Dante’

BRASIL TERÁ DE SUPERAR AUSÊNCIAS – E A ALEMANHA

Neymar, artilheiro do Brasil, deixou selecionado após sofrer séria contusão (Foto Getty Images/Fifa).

Neymar é a ausência mais sentida em jogo decisivo (Foto Getty Images/Fifa).

A seleção brasileira busca hoje (8), em jogo contra a Alemanha, às 17h (horário de Brasília), no Estádio Mineirão, em Belo Horizonte, voltar a uma final de Copa, o que não ocorre desde 2002. Nesse ano, o Brasil foi campeão em cima da Alemanha.

O time brasileiro terá que superar a ausência de Neymar, que sofreu uma lesão nas costas no último jogo e está fora da Copa. Também terá que superar o desfalque do capitão Thiago Silva, que recebeu o segundo cartão amarelo no torneio e cumpre suspensão.

Superar a ausência do astro do time pode ser o grande desafio do técnico Felipão na preparação para o jogo. Ele faz mistério sobre o substituto de Neymar. Uma opção é a volta de Luiz Gustavo. O volante voltaria após cumprir suspensão contra a Colômbia, e Paulinho, seu substituto no jogo, continuaria entre os titulares para deixar o meio-campo brasileiro mais combativo.

A outra possibilidade é a entrada de William no lugar de Neymar, mantendo as características atuais do time. O técnico precisa optar entre reforçar o meio-campo para medir forças com os alemães, fortes nesse setor, ou manter o time veloz no ataque contra a lenta defesa adversária.

Na defesa, as dúvidas são menores. O zagueiro Dante é nome praticamente certo para substituir Thiago Silva. Dante é jogador do principal time da Alemanha, o Bayern de Munique, e tem como companheiros de clube nada menos do que sete jogadores da seleção alemã.

A Alemanha vem de uma vitória simples contra a França. O jogo não foi bonito, mas a vaga veio de forma incontestável. O técnico Joachim Löw tem à disposição seus principais jogadores. Os meias Schweinsteiger, Özil e Kroos são os principais articuladores no meio-campo e costumam dominar esse setor nas partidas. No ataque, Thomas Müller e André Schürrle podem ser titulares e dar muito trabalho à defesa brasileira.

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UNIVERSO PARALELO

DE LIVROS E GENERALIZAÇÕES MENTIROSAS

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

1LivroMuita gente dá o mesmo conselho: “leia, leia, leia”, mas não dizem a suas vítimas o que elas devem ler. A leitura, como toda nova experiência, tem potencial de nos realizar ou frustrar. Creio, sem ser especialista no tema, que há textos adequados à idade, ao nível de saber e à sensibilidade de cada um de nós. Com livros, assim como com crianças, precisamos nos munir de isenção e coragem. “Adoro crianças!” – ouço com frequência esta generalização, mentirosa como todas as generalizações. Eu também gosto muito de crianças, mas reconheço que algumas delas são profundamente irritantes. Livros também são adoráveis, mas haveremos de admitir que muitos deles são intransponíveis.

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Umberto eco e a erudição que machuca

Alguns livros de difícil leitura para não iniciados: Os sertões (Euclides da Cunha), A divina comédia (Dante Alighieri), Os lusíadas (Camões), A montanha mágica (Thomas Mann), O pêndulo de Foucault (Umberto Eco). Não digo que são livros “ruins”, mas que não se destinam a leitores inexperientes. João Ubaldo Ribeiro diz que Os sertões é de fácil leitura, mas eu considero a primeira parte, A terra, “desestimulante”, para quem não é engenheiro, geólogo, ou coisa do gênero. Há quem liste Machado de Assis entre os “difíceis”, eu não. Já O pêndulo de Foucault, confesso, sob o peso da erudição de Umberto Eco, abandonei em meio à leitura, há muitos anos, e nunca mais o retomei.

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ENTRE PARÊNTESES, ou

3BrasilUsar apelido gera esquecimento do nome
Dia desses, José Serra errou, numa entrevista de tevê, o nome do País. “O Brasil chama-se Estados Unidos do Brasil”, disse o eterno candidato. A gafe seria desculpável, não fosse o status de quem a cometeu, pois é regra não escrita chamarmos nossa pátria mãe gentil pelo apelido, o que nos leva ao esquecimento do nome completo (o Brasil já foi “Estados Unidos”, hoje é “República Federativa”). A lembrança me veio ao ler afirmação do professor Arléo Barbosa, dando conta de que Ilhéus é também uma simplificação. O título São Jorge dos Ilhéus, que vem dos tempos coloniais, nunca foi mudado – e eu não sabia. Creio que estamos todos condenados à Lei do Menor Esforço.

O MITO GRECO-LATINO EM NOSSA LINGUAGEM

Certa vez, cometi uma resenha de interessante livro de poemas, Tear de aracnídeos, do professor Jorge de Souza Araújo. Destaquei que o autor me surpreendeu com sua densa erudição a respeito desses artrópodes, definindo-os, apontando-os como anteriores ao homem e mapeando-os por lugares nunca dantes imaginados. Lembro desse episódio, antigo de quase oito anos, ao me deparar com texto que fala da presença do mito greco-latino em nossa linguagem do dia a dia – e entre os verbetes me deparo com este mesmo que a gentil leitora imaginou: aracnídeo, isto é, a aranha e a teia que lhe desgraçou a vida, bem ao jeito da tragédia grega.
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5AracnePequena e triste estória de uma aranha

A primeira aranha do mundo era uma mocinha chamada Aracne, não garanto que bonita, mas prendada, pois era famosa pela qualidade dos tecidos que fazia. Um tanto metidinha, ela se gabou de que tecia melhor do que Atena (deusa da guerra, da sabedoria e dos ofícios), que se irritou ao ser comparada com uma mortal. Aracne achou pouco e ainda desafiou a deusa para um concurso, a medir quem era melhor tecelã. Aracne, que não se emenda, produziu uma obra que zombava dos deuses, mostrando que eles também erravam, mas um trabalho “tecnicamente” impecável. Vencida em seu próprio campo, Atena ficou tiririca – e decidiu se vingar da mocinha audaciosa.

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Uma deusa muito irritada com o marido

Suspense para lembrar que a grega Atena é conhecida na mitologia latina por Minerva. Ela é filha de Júpiter (Zeus, entre os gregos), espécie de rei dos deuses, associado com o céu e o trovão (entidade próxima ao Xangô do candomblé, segundo Verger, que vocês conhecem). A mãe de Atena/Minerva é Hera/Juno, rainha dos deuses, deusa das mulheres e do casamento, esposa de Zeus/Júpiter, uma mulher muito irritada com o marido, que é dado a pular a cerca. Já se vê que pedigree não falta à deusa Atena. Ah, sim: para se vingar da desfeita de Aracne, ela transformou a mocinha em aranha, condenada a tecer até o fim dos tempos.

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BILL EVANS E A VOLTA DO FUNDO DO POÇO

O pianista Bill Evans, que críticos e músicos aplaudiram a valer, viveu uma carreira irregular, com problemas não diferentes daqueles de Charles Parker, Ray Charles e outros: muita droga e, após, saída de cena para desintoxicar-se. Em 1961, quando Scott La Faro, seu baterista favorito, morre num acidente de carro (aos 25 anos!), Evans decide que o jazz perdera o significado. Mergulhou na droga, mais do que nunca, e ninguém imaginava como terminaria se, certa noite, Chuck Israels não surgisse em sua vida. Evans foi tocado pela vontade que Israels demonstrou de tocar com ele, diz o crítico Bruno Schiozzi. “Essa proposta me levou a recomeçar”, completa Evans.
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Influenciado pelos grandes do piano

Com Israels, Evans sai da crise, passando a tocar também com feras como Freddie Hubbard, Stan Getz, Tony Bennett e Claus Ogerman (este, uma das admirações de Tom Jobim).  Para o crítico Joachim Berendt, “o fraseado elegante e as harmonias sofisticadas de Bill Evans atestam influências de Debussy, Ravel e, voltando no tempo, Chopin”. Sua carreira, igual à de tantos no jazz, foi encurtada devido às drogas, que minaram sua saúde: morreu (aos 51 anos) de insuficiência hepática e hemorragia interna provocadas pelo uso de heroína e cocaína. Este Summertime (1965) é uma mostra dos vários temas gravados pelo “novo” trio: Evans (piano), Israels (contrabaixo) e Paul Motian (bateria).

O.C.

UNIVERSO PARALELO

EDUARDO, VIDA, MORTE, LÁGRIMAS INÚTEIS

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

Eduardo Anunciação, Duda, Bacurau de Terraço, Gaguinho, subiu no telhado, e contra isso nossas lágrimas são inúteis. C´est la vie. Ou a morte. Meu amigo, sim, mas tivemos, em priscas eras, divergências, que sepultamos em nome do mútuo descobrir de nossas humanas fraquezas. Eu o dizia um colunista com estilo – contraponto à expressão consagrada por Millôr Fernandes (“Enfim, um escritor sem estilo”) e quando o chamava de “Meu Carlinhos Oliveira preferido” ele apenasmente sorria seu sorriso de homem modesto, operário raso do jornalismo. Manuela Berbert, em inteligente texto aqui no Pimenta, já chorou em meu nome. Ainda assim, reedito, descoberta a poder de óculos e binóculos, uma notinha, espécie de flores em vida, publicada neste UP. A seguir.

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2Eduardo Anunciação“Ganharás o pão com o suor do texto

A região tem muitos (e bons) jornalistas não diplomados, e me arrisco a citar apenas um, na tentativa de síntese do que quero dizer. Refiro-me a Eduardo Anunciação, um “bicho de jornal”, com mais tempo de redação do que urubu de voo (às vezes penso que ele, por essa escrita em linhas tortas própria dos deuses, teria nascido num ambiente de jornal – e, para completar a quimera, bebeu tinta de impressão, em vez de leite materno. Nunca foi balconista de loja, não trabalhou em banco, não sabe botar meia-sola em sapato, não é pedreiro nem médico. É jornalista. Daqueles que lutam com as palavras todos os dias, mal rompe a manhã – e pagam o supermercado com o suor do seu texto”.
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O GENERAL, DANTE E OS PRESOS POLÍTICOS

No fim de 1964, o general Ernesto Geisel visitou o Quartel de Amaralina, em Salvador, em nome da Comissão Geral de Inquéritos, para verificar denúncias da imprensa sobre maus tratos a presos políticos.  Estes souberam da vista e fizeram um cartaz com a frase da Divina Comédia, à porta do inferno: “Deixem fora toda esperança os que aqui entrarem” – e colocaram o cartaz de forma que Geisel não pudesse deixar de vê-lo ao chegar à cela. Era a maneira que os presos incomunicáveis encontraram para expressar sua revolta. Geisel chegou, viu o cartaz e perguntou, com ar severo: “– Quem colocou isso aí?” “– Eu”, respondeu Othon Jambeiro. O general mostrou ter verniz literário: “– Isso não é de Dante Alighieri?”
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4Camilo de Jesus LimaO centenário que passou em branco

E emendou, nada amistoso: “– Vejo que há algum intelectual aqui”. Sereno e firme, um preso adiantou-se e disse: “– General, intelectuais somos todos os que aqui estamos presos. E intelectuais a serviço do povo, dedicados à libertação do Brasil e à liberdade de todos os brasileiros. Somos intelectuais, sim, lutando por uma causa justa”. Os fotógrafos que acompanhavam a comitiva, quando viram o preso se adiantar e começar o discurso, postaram-se para fotografá-lo, mas foram impedidos pelos militares. O preso era o poeta Camilo de Jesus Lima (cujo centenário passou praticamente em branco no ano passado) – e a informação está em Lembranças do mar cinzento, obra fundamental do político baiano Emiliano José.

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Um autor a clamar contra a injustiça

Camilo de Jesus Lima (1912-1975) é o que se chamava de engagé, autor com a pena a serviço de uma causa, sem esse negócio de arte pela arte: seus livros (As trevas da noite estão passando, Cantigas da tarde nevoenta, Novos poemas, A mão nevada e fria da saudade, Viola quebrada e outros) clamam contra a injustiça, denotando um escritor de acentuada influência marxista. Diz-se que ele era íntimo do núcleo duro do PCB de Prestes, mas há controvérsias. Quanto à simpatia pelo socialismo, não há dúvida. Morreu aos 63 anos, atropelado, por acidente. Ou “acidente”: diz-se que foi assassinado pela ditadura militar, na operação de “limpeza” que nos levou, na mesma época, Anísio Teixeira – mas prova disto não há, é claro.

(ENTRE PARÊNTESES)

6Sonny StittConta-se que o saxofonista Sonny Stitt, mostrado aqui na semana passada, bebia “bem”, por isso estava preocupado, tentando afastar-se da garrafa. Durante temporada em famoso clube de Londres, soube de um hipnotizador que curara vários músicos do vício da bebida e resolveu tentar a sorte. O grande terapeuta iniciou uma série de sessões com Stitt, para subtrair-lhe a compulsão de esvaziar copos, mas o músico desistiu do tratamento, após duas semanas. E explicou porque o esquema do hipnotizador não estava dando certo: “– Depois desse tempo, eu não parei de beber e, pior ainda, o homem passou a beber comigo….”  (a história foi ouvida do especialista em jazz José Domingos Raffaelli).

MENINAS CHEIAS DE TALENTO E FORMOSURA

Não me espanta se a gentil leitora e o exigente leitor não conhecerem Dedé do Cantinho, sanfoneiro pé-de-bode que teve seus dias de glória em Itaporanga, no vale do Piancó paraibano. Relevante é saber que esse pé-de-bodista é a raiz de um grupo musical que me deixou extasiado, encantado, emocionado, embevecido, enlevado, seduzido, ébrio, preso, arrebatado – e se mais não digo é por desgostar de repetir sinônimos, o que significa jogar água em terreno já encharcado. O grupo chama-se Clã Brasil e é integrado por parentes do velho forrozeiro, entre as quais umas bisnetas jovenzinhas, competentes e bonitas de fazer chorar. Permito-me o luxo de um arcaísmo, ao afirmar que elas são cheinhas de talento e formosura.
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Grupo tem o apoio luxuoso de Sivuca”>
Clã Brasil, com oito anos de estrada (já se apresentou em Portugal e na Itália, além de ganhar a Comenda Ariano Suassuna, “por serviços prestados à Paraíba”), é formado por Lucyane (sanfona e líder), Laryssa (violino e zabumba), Lizete (flauta e pífano), Fabiane (cavaquinho e violão de 12 cordas), Badu (violão de 7), Maria José (triângulo) e Francisco Filho (percussão). Grandes nomes da música nordestina aprovaram o grupo: Dominguinhos, Marinês, Elba Ramalho, Pinto do Acordeon, Oswaldinho e Sivuca. Aqui, uma mostra do Clã, com o apoio luxuoso de Sivuca, o músico que levou a sanfona às salas de concerto: Feira de Mangaio, com o bônus de um improviso do grande sanfoneiro de Itabaiana
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(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

A ARTE E SUA INFLUÊNCIA NO NOSSO FALAR

Ousarme Citoaian

A arte, mormente a literatura, nos invade e transforma. Já falamos de expressões citadas à mancheia, por indivíduos que, talvez em maioria, jamais leram o texto de onde elas provêm: Machado de Assis (“Círculo vicioso”), Bilac (“Última flor do Lácio…”), Vinícius (“Que seja eterno enquanto dure”), Noel Rosa (“O x do problema”), Augusto dos Anjos (“A mão que afaga é a mesma que apedreja”), o indefectível Luiz Guimarães (“Depois de um longo e tenebroso inverno”) e o pegajoso Conde de Afonso Celso (“Por que me ufano do meu país”). Ultimamente está em moda surreal, mesmo para pessoas sem noção do que seja o Surrealismo, de onde vem a palavra.

SURREAL E KAFKIANO: PARA ALÉM DO REAL

Trata-se de algo absurdo, bizarro, estranho, que está numa dimensão “para além do real” (as aspas são do dicionário Priberam da Língua Portuguesa). Onde está surreal, pode-se dizer, sem prejuízo, kafkiano – e agora a influência não é mais francesa, do Surrealismo, mas alemã, da literatura do pouco lido e muito citado Franz Kafka (1883-1924). Kafka, aliás, não era alemão, mas tcheco.  E era “kafkiano”, com certeza: O Processo (meu primeiro contato foi com o filme, não com o livro), A Metamorfose e O Castelo são prova disso. Gostei de A Metamorfose, adorei O Processo (depois que li o crítico de cinema Maurice Capovilla) e fui ao fim de O Castelo só por implicância.

DITADURAS VÃO DO ESTÚPIDO AO KAFKIANO

Não se pode esquecer de dantesco, adjetivo que identifica cenas de horror semelhantes àquelas que Dante (1265-1321) descreve em A Divina Comédia (ao lado, “O Inferno”).  Mas fiquemos com kafkiano/a e este belo exemplo contado por Álvaro Almeida, do Instituto Cultural Brasil-Alemanha, em Salvador: “Na ditadura de Getúlio Vargas (1930-1945) só se podia entrar na Secretaria da Segurança apresentando a carteira de identidade. O problema é que só se tirava esse documento na Secretaria da Segurança – na qual não se poderia entrar, por falta da carteira de identidade”. Evidência de que as ditaduras costumam chafurdar entre o kafkiano e o meramente estúpido.

ENTRE A SIMPLICIDADE E AS “INVENÇÕES”

Lembram do verbo que ama a preposição? Pois é. Dizem os que entendem do assunto que tais verbos, ditos transitivos indiretos, não admitem a voz passiva. Demos o exemplo de abusar, que “geraria” abusado/abusada: “Criança era abusada sexualmente pelos dois irmãos” – diz blog de Itabuna. E nem precisa dizer qual, pois a imensa maioria dos veículos de comunicação se vale dessa forma equivocada. No caso, era muito simples trocar abusada por molestada e estaríamos em segurança. Mas a simplicidade já foi trocada, faz tempo, por “invenções” agressivas à linguagem, como esta. E há outra que está crescendo – portanto, precisa que se lhe corte a cabeça.

LÍNGUA VILIPENDIADA EM SUA ESSÊNCIA

O verbo perguntar também é chegado a uma preposição. E é verbo de muita utilidade: o repórter pergunta, o padre pergunta, perguntamo-nos (“Às vezes me pergunto…”, cantava-se no bolero antigo) e o poeta, atônito, pergunta “E agora, José?”. Nos últimos dias, mídias regionais (incluindo, ai de mim!, o Pimenta) escreveram que “o prefeito foi perguntado…”, “o deputado foi perguntado…”, o bispo foi perguntado…” – enfim, Deus, os botões e o mundo foram perguntados sobre os assuntos mais estapafúrdios. E a língua de Camões, pobrezinha, tratada a socos e pontapés, vilipendiada em sua essência, molestada em suas partes íntimas (eu quase disse abusada!).

TODOS PERGUNTAM, NINGUÉM É PERGUNTADO

Bob Dylan (foto), em canção muito cultuada, pergunta a esmo e repete que “a resposta está soprando no vento”, seja lá o que isto signifique (The answer is blowin’ in the wind). Eu gostaria de entender a frase  como “o vento está soprando a resposta”, mas quem sou eu para me aventurar nessa língua de bárbaros? Vasculho o Google e só encontro as formas “soprada” ou “soprando” (no vento), donde concluo que minha tradução não se sustenta. Voltando ao que interessa, perguntar só admite a voz ativa: qualquer um pergunta, mas ninguém é perguntado. É interrogado, inquirido, indagado, interpelado – e por aí vai. Abusado é adjetivo; perguntado não é coisa alguma.

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OS VERSOS ATINGIAM O CORAÇÃO DAS MOÇAS

Num tempo que acabou há meio século, a poesia dita rimada era muito popular. Castro Alves, Olavo Bilac, Fagundes Varela, Casimiro de Abreu e Raimundo Correia eram recitados na escola, nas festas, em casa e nos bares (então chamados botequins). Nenhum rapaz alfabetizado deixava de ter ao alcance da mão um ou outro texto de emergência, capaz de atingir corações femininos aparentemente inexpugnáveis. Hoje não mais se recita nada em canto nenhum – e o que antes arrancava suspiros de amor agora provocaria risadas de escárnio ou sorrisos anêmicos. Há muitas mulheres mais sensíveis ao batidão do arrocha e ao chamamento de vadias e cachorras do que a versos parnasianos.

A POESIA COMO “DESCANSO” DA REALIDADE

Sinais dos tempos. Posso dizer, com a frase célebre de Cícero, O tempora, o mores (ó tempos, ó costumes), ou, parodiando Shakespeare em Ricardo III, “Um soneto! Meu reino por um soneto!” Mesmo que não me considere grande leitor de poesia, volta e meia revisito uma antiga coletânea do crítico José Lino Grünewald (Grandes sonetos da nossa língua/1987), como forma de não perder o rumo da estética. Do século XVI (Sá de Miranda e Camões) até os nossos dias (Ferreira Gullar, Jorge de Sena, Vinícius, Drummond) são séculos de canto amoroso, aprisionados em 220 páginas. Ler poesia é refúgio sentimental para a dura realidade da vida. Romantismo tem tudo a ver com escapismo.

NELSON: DITADURA, SOFRIMENTO E POESIA

Nelson Schaun (1901-1968) era comunista forjado na luta contra a ditadura Vargas. Professor de português e latim, seus recursos de autodidata abrangiam ainda a sociologia e a filologia. Perseguido, refugiado, muitos dias no mato, foi preso e exibido nas ruas de Ilhéus, amarrado feito bicho feroz, espancado na via pública,como “exemplo”. Sobrevivente da iniqüidade, sepultou os ressentimentos,sendo apenas um homem que cumpriu o dever cívico. Em aulas e conversas, mostrava Meus Oito Anos (Casimiro de Abreu) como típico exemplo de poesia romântica: simples, saudosa, fugindo da realidade. Com um dos maiores do teatro brasileiro, Paulo Autran, um trecho de Meus Oito Anos – homenagem a Nelson, presente a nós todos!

(O.C.)







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