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:: ‘dignidade’

A OUSADIA DE SONHAR

Vinícius Alcântara

 

A ideia de alfabetizar alguém parecia fácil no começo. Bastava mostrar as letrinhas que o milagre aconteceria. Só me esqueci de considerar os problemas de visão, de dicção por falta dos dentes, do cansaço de um dia inteiro de trabalhos braçais, de fome (pasmem!) e dos vícios que impediam alguns de permanecer no desafio de conhecer um novo mundo de possibilidades.

 

A ousadia de sonhar com uma escola do campo instalada na delegacia da Polícia Rodoviária Federal (PRF) de Itabuna começou no final de 2017.

Antes disso, eu só “sabia” que nossos vizinhos haviam “invadido” a faixa de domínio para morar, há mais de 40 anos. Desconhecia a condição de extrema pobreza e as tragédias pessoais que os obrigaram a viver em condições tão desumanas, por tanto tempo.

Excluídos da dinâmica econômica e invisíveis às políticas públicas, levantar barracos à beira da rodovia era a única e desesperadora solução para aquelas famílias.

Ainda hoje, algumas dessas habitações não têm energia elétrica. Quase todas não têm água encanada. Acesso à saúde? Imagine… Escola? Pais analfabetos e crianças que andam quatro quilômetros, todos os dias, no sol do meio dia.

Quem aguenta?

Só quem tem a fome batendo na porta e não tem outra alternativa de alimentação, senão a merenda escolar. Sem falar nas desavenças mortais originadas de fatos incrivelmente fúteis dentro da comunidade.

Divididos, abandonados, esfomeados e desinformados. Que realidade absurda era aquela e quais suas consequências?! E o que dava para fazer?

A ideia de alfabetizar alguém parecia fácil no começo. Bastava mostrar as letrinhas que o milagre aconteceria. Só me esqueci de considerar os problemas de visão, de dicção por falta dos dentes, do cansaço de um dia inteiro de trabalhos braçais, de fome (pasmem!) e dos vícios que impediam alguns de permanecer no desafio de conhecer um novo mundo de possibilidades.

Assim, foram as 50 primeiras aulas e nossos 13 primeiros alunos. Mas poderíamos fazer mais por eles, muito mais.

Com a ajuda do chefe da delegacia, Marcus Vinícius Rodrigues, foi estabelecida uma parceria com a Prefeitura de Itabuna, através da Secretaria Municipal da Educação de Itabuna; e no dia 16 de maio de 2019 deu-se início às aulas da turma infantil e adulta na Escola Municipal do Campo João Café, na sede da delegacia.

Nossa estrutura completamente à disposição: auditório climatizado, cadeiras acolchoadas, acesso à internet, data show, armários, banheiro, cozinha e pátio. Por sua vez, a prefeitura disponibilizou a competentíssima professora Sílvia, o material didático e a alimentação para mais de 30 matriculados.

Estamos só começando e teremos mais vitórias. Levar dignidade a quem precisa também é uma forma de SALVAR VIDAS! PRF, BAHIA, BRASIL!

Vinícius Alcântara é inspetor da delegacia da Polícia Rodoviária Federal (PRF) em Itabuna (BA).

POXA, LUCIANO HUCK!

Manuela Berbert | [email protected]

O tal do Luciano Huck salva as tardes preguiçosas e extensas dos sábados. Ele sabe prender a nossa atenção. Eu, que tantas vezes sou contra a política do assistencialismo em troca de voto e/ou audiência, verto lágrimas com a fórmula batida e cansada dos quadros Lar Doce Lar, Lata Velha etc. Luciano transforma homens e mulheres comuns em grandes personagens. E o Brasil todo se comove facilmente, até mesmo quando não há mérito para tal.

Porém, neste sábado, 18 de junho, o contador de histórias se superou: apresentou ao Brasil uma mãe que cria duas filhas em São Paulo com R$ 300,00 por mês. A grande surpresa foi a dignidade com que aquelas meninas foram criadas. Huck, embasbacado com a delicadeza dos gestos, com a grandiosidade dos hábitos e o vocabulário delas, perguntou o que não deveria: “E o que é miséria para você?” Com um sorriso sincero no rosto, a mãe respondeu que miséria era falta de saúde para trabalhar. “Sou pobre, não miserável!”. E, sutilmente, provou o que disse.

A verdade é que, enquanto acompanhamos a luta de pais de classe média e classe média alta, com filhos cada vez menos interessados nos estudos, as duas filhas daquela senhora dão um show na escola e ainda fazem cursos almejando aumentar a renda familiar, como o de confeitaria. Enquanto presenciamos casos de adolescentes abastados envolvidos com álcool e drogas, elas fazem curso de música clássica com um violino emprestado, cantam e sabem inglês. E, ainda falando do lado material da coisa, enquanto queremos sempre ter os melhores aparelhos celulares, notebooks, ipads, etc, aquelas duas meninas nunca tiveram o prazer de comprar uma blusa sequer, vivendo de doações. Mas, elas têm uma pequena biblioteca em casa.

Devo ainda lembrar que, enquanto vemos famílias sendo destruídas por falta de respeito e amor ao próximo, o Brasil conheceu a intimidade de três pessoas que residiam em dois cômodos, sem privacidade alguma, e que dividiam um único colchão. Porém, elas tinham metas espalhadas pela casa que diziam assim: “ser mais calma e tranquila”, “ser pontual”, “ser ação e fazer doação”, dentre outras. Em pleno sábado à tarde, um tapa na minha cara e na cara de metade da população brasileira. Miseráveis, elas, Luciano?! Não mesmo!

Manuela Berbert é jornalista e colunista da Revista Contudo.






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