Palavra-chave ‘Dilson Araújo’

TRAGÉDIA INOMINÁVEL NAS TERRAS DO CACAU

Ricardo Ribeiro | ricardo.ribeiro10@gmail.com

É impossível assistir ao filme sem ficar permanentemente com um nó na garganta e um embrulho no estômago, além do sentimento de impotência diante da crueldade.

A dispersão da praga da vassoura-de-bruxa na região cacaueira não foi algo natural e isso ficou totalmente comprovado em inquérito conduzido pela Polícia Federal há alguns anos. As investigações não conseguiram apontar os autores, mas concluíram que a forma como a doença se instalou denuncia um “modus operandi” todo especial, um plano macabro e destruidor, um ato humano deliberado, como sugere o excelente e fundamentado documentário produzido por Dilson Araújo.

O filme traz uma série de depoimentos e documentos oficiais, além de histórias de perdas financeiras, familiares e humanas ocorridas nessas terras a partir do fim dos anos 80 do século passado. Foi o fim de uma era, e é impossível traduzir em palavras a tragédia que se deu nessa região, onde mais de 250 mil trabalhadores perderam seus empregos nas fazendas de cacau e o êxodo para as cidades chegou a 800 mil pessoas.

Pesquisadores ouvidos no documentário atestam que o inchaço das favelas e todos os problemas sociais que vieram a reboque, como a falta de infraestrutura e a violência, têm relação direta com a bruxa que assombrou a região. Suas consequências foram também ambientais, com a destruição do sistema da cabruca em 600 mil hectares de fazendas. Muitas áreas onde a Mata Atlântica permanecia intacta, em uma convivência produtiva e ecológica de mais de dois séculos, foram transformadas em pastagens e a madeira nativa foi alimentar as serrarias.

Tragédia. Crime. Holocausto. Genocídio. Qual a palavra certa para descrever o que se deu nessa região? O Nó apresenta várias, sem deixar de mostrar que os cacauicultores foram vítimas duas vezes. Uma quando a vassoura se instalou, com galhos amarrados diligentemente por mãos assassinas; a outra quando a Ceplac recomendou providências equivocadas, que levaram os produtores a assumir dívidas que lhes atormentam até hoje. Os bancos exigem que eles paguem pelo que não surtiu efeito e o governo não assume o ônus pela falha.

É impossível assistir ao filme sem ficar permanentemente com um nó na garganta e um embrulho no estômago, além do sentimento de impotência diante da crueldade. São histórias destruídas, vidas destroçadas, uma cultura secular que deixou de existir por obra e graça de alguma ideia psicótica. De quem? A polícia diz que não sabe.

Não por acaso, O Nó é narrado quase num sussurro, por uma voz que parece ser de alguém que fala em meio a um velório. O tom é triste, o filme fala de morte.

Ricardo Ribeiro é editor do Cenabahiana.

DOCUMENTÁRIO GANHA ESPAÇO NA “CAROS AMIGOS”

O documentário O Nó – Ato humano deliberado, do cineasta baiano Dilson Araújo, que tenta resgatar passo-a-passo a introdução do fungo da vassoura-de-bruxa nas plantações de cacau do Sul da Bahia, ganhou espaço fora do eixo Ilhéus–Itabuna e do estado. O filme mereceu espaço na seção de Cultura, da revista de esquerda Caros Amigos, que chegou às bancas nesta semana.

Produzido a partir de depoimento de personagens públicas e produtores de cacau, o filme foi lançado no Festival de Cinema da Bahia (Feciba), em Ilhéus. A obra circula em circuito alternativo de cineclubes, destaca a publicação. Dilson Araújo é entrevistado e reafirma que o título faz referências à maneira como galhos contaminados foram amarrados em plantas saudáveis, disseminando o fungo.

Nas respostas, o diretor cita inquéritos inconclusos da Polícia Federal e Ministério da Agricultura. E também relata a omissão do governo em ajudar produtores a sair do buraco. “A doença reduziu de 320,5 mil toneladas/ano para 191,1 mil toneladas, enquanto a participação do Brasil no mercado internacional caiu de 14,8% para 4%, segundo dados de órgãos ligados à agricultura”, cita a publicação.

“O NÓ” SERÁ EXIBIDO AMANHÃ EM ITABUNA

O documentário O nó: ato humano deliberado, do produtor e cineasta Dilson Araújo, será exibido pela primeira vez em Itabuna nesta quinta-feira, 26, às 19h, no plenário da Câmara de Vereadores de Itabuna. A exibição do documentário é patrocinada pelo Instituto Pensar Cacau (IPC).

O documentário fez sucesso na segunda edição do Festival de Cinema Baiano (Feciba), em Ilhéus, e retrata os efeitos devastadores da vassoura-de-bruxa na lavoura cacaueira sul-baiana. O relato é enriquecido com depoimentos de vítimas da vassoura e de pesquisadores.

Calcula-se que a tragédia ambiental e socioeconômica ocorrida na região tenha desempregado em torno de 250 mil trabalhadores rurais. Até hoje, ninguém foi preso pela introdução criminosa da vassoura no sul do Estado. Um réu confesso, Luiz Franco Timóteo, diz que a introdução foi planejada por um grupo de petistas sob a liderança do deputado federal e ex-prefeito itabunense Geraldo Simões.

As investigações da Polícia Federal não reuniram provas que apontassem a participação do parlamentar petista  e o inquérito foi arquivado.

DOCUMENTÁRIO “O NÓ” É DESTAQUE NO FESTIVAL DE CINEMA BAIANO EM ILHÉUS

Abordagem do fato histórico a partir dos relatos dos depoentes e do conteúdo de documentos oficiais, o documentário O Nó: Ato humano deliberado, do diretor Dilson Araújo, promete esquentar de vez a 2ª edição do Festival de Cinema Baiano (FECIBA). Com 1h08min de duração, a obra será exibida às 20h30min desta quarta-feira, 4, no Teatro Municipal de Ilhéus.

Em entrevista publicada ontem em jornal de Salvador, o diretor que também é servidor público, designer e pesquisador nega que a obra cinematográfica contenha algum juízo valor, mas apenas registraria o fato histórico com todas as implicações sociais, econômicas e políticas que a doença causou no Sul da Bahia. Araújo diz que mostra relatório final do inquérito aberto pela Polícia Federal concluído em 2006, onde afirma houve crime, mas não aponta culpados.

O documentário fala ainda do fracasso do Programa de Recuperação da Lavoura Cacaueira Baiana que teria ampliado o desastre socioeconômico e ecológico sem precedentes na Região Cacaueira. E também aborda a destruição de 600 mil hectares de cacaueiros e dos sonhos de milhares de famílias de cacauicultores, trabalhadores rurais e de comerciantes e exportadores de cacau. Após a exibição haverá bate-papo com o diretor Dilson Araújo.