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:: ‘Edith Piaf’

UNIVERSO PARALELO

ESSES MÚSICOS E SUAS BAQUETAS PERDIDAS

Ousarme Citoaian

Um site de negócios anuncia que está à venda uma baqueta usada pelo Guns N’ Roses no último Rock in Rio. Esse troféu (à disposição dos fãs por meros R$ 250,00) teria pertencido ao baterista Matt Sorum (se é assim que se escreve, pois o grupo me é inteiramente desconhecido, graças a Deus!). Não atino como teria esse acessório ido parar no mercado, considerando que os músicos costumam ser muito ciumentos com suas coisas. Provavelmente o baterista o perdeu por acidente de trabalho, pois tais coisas acontecem mais do que nós, pobres mortais, possamos imaginar. O jornalista Ruy Castro (Tempestade de Ritmos/2007) tem uma boa história a respeito.

LIONEL HAMPTON: REGENTE E MALABARISTA

Se não conheço Matt Sorum, sei quem é Lionel Hampton (foto), o inventor do vibrafone no jazz, mas também baterista, pianista, regente e… malabarista. Hamp, como era chamado,  fazia  do palco uma espécie de picadeiro, e dos seus músicos, artistas de circo – sem prejuízo para o ritmo, a afinação ou a elegância: coreografia complicada (criada por ele), interação com o público, baquetas voando, band-leader dando pulos (o pernambucano Severino Araújo é um seguidor, com sua Orquestra Tabajara), a orquestra tocando alto, forte e certo. O objetivo de Hamp era que, num raio de 500 metros, ninguém permanecesse estático ao ouvir sua música.

DE CICATRIZES SE FAZ A HISTÓRIA DO JAZZ

Em São Paulo, Hampton fazia um longo solo com várias baquetas trocando de mãos, como num show de magia. De repente, uma delas lhe escapou (tão rápido que quase ninguém viu) e escorregou para debaixo da mesa de Ruy Castro. Este, também como um mágico (de paletó) a pôs imediatamente debaixo do braço, ficando imóvel pelo resto da noite. Na saída, soube que o músico estava furioso com a perda da baqueta, e se fez de inocente. “Ao saber da morte de Lionel Hampton, afaguei aquela baqueta cheia de arranhões, sulcos e machucaduras – cicatrizes das muitas noites em que ele a usou para escrever tantas páginas empolgantes da história do jazz”, depõe o jornalista|.

PARA NEOLOGISMO, PUXAVANTES DE ORELHAS

A gramática formal condena os neologismos.  A Estilística tem os neologismos na lista dos “defeitos” do bom estilo de escrever e falar. No entanto, eles resistem, se sobrepõem à oposição, adentram o vocabulário, consagram-se, vão em frente – passam de novidades (neo = novo) a formas consagradas. Meu professor de redação puxaria as orelhas de quem escrevesse homenagear (isto em tempos imemoriais!). Hoje, escreve-se (e se diz) homenagear e ninguém vira Van Gogh (foto) por causa disso (até porque, em nossos dias, as orelhas postas em perigo são as do mestre, não as do aluno). Prestar homenagem era a forma “certa”. Já o uso do verbo aniversariar constituía crime inafiançável.

RUI, PRECISANDO, USAVA, “SEM VACILAR”

Mas, convenhamos, dizer (a exemplo de Machado de Assis) “Ele faz anos” soa meio estranho à língua “brasileira”.  Chico Buarque já em 1966 aderiu a este neologismo (“Todo mundo homenageia/Januária na janela…”), mas poeta… pode. Mais estranho ainda ficaria se ele seguisse a norma clássica (“Todo mundo presta homenagem…/A Januária na janela…”). Rui Barbosa deu o caminho: na Réplica ao professor Carneiro Ribeiro, disse ser contra o neologismo “desnecessário”, mas que, nos outros casos, “não vacilo até em lhe assumir a iniciativa”. Acho que é isto que eu queria dizer: a linguagem, além de suas próprias regras, há de também submeter-se às regras do bom senso.

NEOLOGISMO “VELHO” É NEOLOGISMO ACEITO

O mal (ou o bem?) do neologismo é que ele envelhece. E se envelhece é porque foi aceito na linguagem, deixando de ser neologismo. Quando, há poucos anos, alguém emitiu a palavra “aidético” criou alguma comoção. Passou-se o tempo, o termo incorporou-se ao Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), já ninguém o estranha. “Espiritismo” (categoria criada pelo francês Allan Kardec) foi neologismo combatido pela língua formal… no século XIX.  Há termos que, ao contrário, aparecem e desaparecem, não “pegam”, talvez por nada acrescentarem à comunicação. No fundo, os falantes sabem, ainda que de maneira empírica, quando novos valores linguísticos devem ser aceitos ou descartados.

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EDITH PIAF: ENTRE A HISTÓRIA E A LENDA

Situada entre a história e a lenda, a vida de Edith Piaf (foto) nunca foi fácil. Conta-se que sua mãe, na miséria, deu à luz sob um poste.  Abandonada pela mãe, criada pela avó, dona de um bordel na Normandia, ficou cega dos três aos sete anos. A doença (ceratite) teve o prognóstico esperado (a cura com o tempo), mas as “meninas” de Madame Louise achavam que foi um milagre de Santa Teresa de Lisieux. Aos 15 anos (depois do bordel e de morar com o pai alcoólatra), canta nas ruas de Paris, quando, em 1935, é descoberta por um dono de boate e grava, ainda naquele ano, seu primeiro disco. Sucesso, fama e dinheiro vieram, mas o sofrimento permaneceu.

A VOZ QUE FEZ O MUNDO CANTAR O AMOR

O mundo inteiro cantou os temas de amor divulgados pela voz inconfundível de Edith Piaf: Hymne à l’amour, La vie em rose, Non, je ne regrette rien e Milord são dos mais conhecidos. É a maior chanteuse popular de todos os tempos. O grande Maurice Chevalier (foto), encantado, afirmou: “Ela canta como se estivesse se oferecendo em holocausto”. Teve vida amorosa conturbada, pela qual passaram Yves Montand e o cantor Jacques Phill, até conhecer o pugilista Marcel Cerdan, a grande paixão – e também sua maior tragédia amorosa. Quando ela se encontrava num estado de felicidade nunca experimentado, ele morreu, num desastre de avião.

MESMO NA DOR, O SHOW TEM QUE CONTINUAR

Aqui, uma cena de Piaf – Um Hino ao Amor, o momento em que a cantora descobre a morte de Marcel, e se desespera. Ele vem visitá-la no quarto, como um aviso, uma despedida, mas tudo não passa de um truque do diretor Olivier Dahan, criando um ambiente de misticismo. Marcel já está morto. Quando Piaf (Marion Cottilard) sai do quarto (vai pegar um presente para ele) a realidade a atropela: descobre que o avião do amante caíra e que a visita dele ao quarto nunca existiu. Angústia e tristeza marcam esta cena, antológica pela fusão da casa para o palco – mostrando como a arte é capaz de superar a dor. Ou… o show tem que continuar.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

UMA IRRESISTÍVEL ATRAÇÃO PELO INUSITADO

Ousarme Citoaian

A “inteligência” brasileira, é incrível, ainda discute se o termo “certo” é presidente ou presidenta, quando se trata de mulher. E se retomamos o tema é porque esta coluna sofre de irresistível atração pelo inusitado. Há dias, espantou-me uma declaração do escritor Antônio Risério, em artigo n´A Tarde.  “Ninguém vai me obrigar a escrever ´presidenta´. É forma dicionarizada e correta, sei. Mas dói nos meus ouvidos. E não coloco norma ideológica alguma acima da estética da língua. Nem resisto em repetir a brincadeira do nosso querido João Ubaldo: daqui a pouco, vamos acabar falando do ´motoristo´ do táxi ou das ´adolescentas´ que adoram baladas”, disse o autor de Adorável comunista (biografia de Fernando Sant´Anna).

RISÉRIO: PROSADOR, POETA E “SANGUE BOM”

A estranheza é que esse equívoco sobre “norma ideológica” parta de quem partiu. Antônio Risério, sangue bom, além de prosador e poeta, é doutor em Sociologia e dono de respeitável trabalho de pesquisa que incorpora ao português elementos de linguagem africana. E pena ainda é que ele embarque nesse sem-gracismo de João Ubaldo, grande escritor, que tem apresentado ultimamente estranha semelhança com Diogo Mainardi (a lista de baboseiras dos que se opõem a presidenta inclui ainda representanta, dirigenta, eleganta, sorridenta e outras – uma forçação de barra com gêneros femininos que, simplesmente, nunca existiram na língua. Risério, ao menos, manteve a velha decência, ao afirmar que presidenta “é forma dicionarizada e correta”.

POLÍTICOS NÃO DECIDEM SOBRE A LINGUAGEM

A tal “norma ideológica” não está em chamar mulher de presidenta, mas em não fazê-lo.  A forma “a presidente” (comparável a “o salsicha”) é discriminatória da mulher – que quando assume um cargo “de homem” é obrigada pelo machismo vigente a assumir também a forma masculina – segundo o filólogo Marcos de Castro. Dizer, como o fazem certos setores mais reacionários da sociedade, que “isto é coisa do PT” – a dita norma ideológica a que se referiu, equivocadamente, o escritor – é rematada tolice: políticos não decidem sobre a linguagem. E presidenta tem abono dos clássicos (Risério sabe mais do que eu): está, por exemplo, no luso Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875) e no contemporâneo brasileiro Ariano Suassuna (1927-…).

EVITEMOS O PERIGO DOS SONS SIBILANTES

O ”s” é inimigo da comunicação oral, pois sua presença torna a pronúncia mais difícil. Importante semanário de Itabuna tascou: “Carnes ainda são vendidas a ´céu aberto´”; enquanto outro importante diário de Itabuna criava uma coluna chamada Músicas. Há um truque de que se valem os redatores mais competentes: empregar a forma singular, sempre que a plural não seja indispensável.  É preferível “a chuva que caiu esta semana…” – a “as chuvas que caíram esta semana…”. Ao ler em voz alta as duas frases, percebemos que dizer “a chuva” é algo bem mais simples do que “as chuvas”, uma armadilha de sons sibilantes. E mesmo que tenha chovido por vários dias, não há erro em generalizar tudo como “chuva”.

A FORMA SINGULAR É SEMPRE MAIS SIMPLES

Já ouvi coisas piores. Em rede nacional, uma emissora de tevê informa que a polícia, em ação num morro do Rio, apreendeu “mais de mil munições”. Isto é bobagem da grossa, pois “munição” está entre as palavras que raramente são empregadas no plural (ao contrário de juro/juros). Na verdade, a polícia apreendeu balas. Parêntesis para dizer que acho ótima a frase “munição de boca”, gíria da caserna para comida (“rancho”). Aliás, “comida” está na nossa lista de plurais “evitáveis”: alguém que conhece o básico da língua portuguesa jamais dirá “as comidas daquele restaurante são muito boas” – mas “a comida daquele restaurante…”. No singular é bem mais simples.

SEM “GEOMETRIA” NÃO SE VAI AO ESPAÇO

Chuva e munição. Lembro ainda orientação e coreografia. Com irritante freqüência ouço repórteres falarem das “orientações” dadas pelo técnico à equipe e das “coreografias” de tal peça de teatro. Façamos uma campanha para economizar os “esses”: basta “orientação” (pouco importa se repetida) e “coreografia (nem que a peça tenha 300 atos!). No mais, é filosofar: só terão acesso ao paraíso os redatores que sabem ser a reta o caminho mais curto entre dois pontos. Dia desses, na sujíssima Central de Abastecimento de Ilhéus, ouvi um senhor dizer que era de “Itabunas”. Ele pode, pois é feirante, não jornalista, “formador de opinião”.

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SARAH VAUGHAN: A GRAVAÇÃO “DEFINITIVA”

Por fim, o terceiro vídeo mais visitado da coluna: Someone to watch over me, a bela canção de Gershwin, teve 1.882 visualizações. A estatística do Youtube, para mim incompreensivelmente, não inclui a audiência no Brasil, mas a do exterior. O vídeo foi acessado (por ordem de quantidade) nos Estados Unidos, Japão, Israel, Filipinas, Espanha, Itália, Reino Unido, Alemanha, Argentina e Grécia. Someone… já teve todo tipo de gravação, de Ella Fitzgerald a Emílio Santiago, Frank Sinatra e Amy Winehouse (com entonações de Billie Holiday), de Hilary Duff  e Barbra Streisand à surpreendente Susan Boyle.  Mas, como tudo que Sarah Vaughan faz, esta é definitiva.

NÃO MAIS QUE UM “CORDEIRINHO OFERECIDO”

 A letra é feminina (Ira Gershwin não era da tribo!), com coisas do tipo “Eu vou procurar/um certo rapaz/que eu tenho em mente” (I’m going to seek/a certain lad/I’ve had in mind), ou “Ele é o grande caso/que eu não consigo esquecer/o único homem em que penso/com arrependimento” (He’s the big affair/I cannot forget,/only man I ever think/of with regret). Isto não impediu a gravação de Frank Sinatra, mas a versão (Zé Rodrix-Miguel Paiva) para Emílio Santiago “masculinizou” o texto:  man foi traduzido por “mulher” e, mais chocante, I’m a little lamb/who’s lost in the wood transformou-se em “Não sou mais que um cordeirinho/perdido, arrependido e oferecido”. Estranho.

 O GRAVE PRIVILEGIADO DE SARAH VAUGHAN

As três grandes divas negras do jazz, por ordem de nascimento, são Billie Holiday (1915-1959), Ella Fitzgerald (1917-1996) e Sarah Vaughan (1924-1990). Eu levaria pilhas de CDs de todas elas para a tal ilha deserta.  Mas minha preferida é Sarah Vaughan, pela versatilidade, a presença cênica e o grave privilegiado. Sei que Billie (foto) é a tristeza do blues associada à história de sofrimento pessoal (algo próximo a Edith Piaf). É pioneira – como se toda cantora negra do mundo buscasse um pouco do seu “patos”.  E sei que Ella, segundo os críticos, bateu as duas. Ella é “a dama do jazz”. Eu, que não tenho técnica, tenho só emoção, elegi Sarah.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

NUM SÓ DIA, DUAS PEDRADAS NOS JORNAIS

Ousarme Citoaian

No mesmo fim de semana, recebo duas pedradas, vindas de veículos diferentes, mas igualados no mesmo desleixo com a linguagem. Um dos principais diários de Itabuna estampa no alto da página: “Gisnática Laboral em alta no setor empresarial”; e o dito mais importante jornal do Nordeste, de Salvador, saiu-se com esta pérola, também num título: “O medo não é só da mulher. Não tem haver com gênero”. Um caso, além dessa incômoda gisnática, tem o agravante da rima (“laboral-empresarial”), o que já condenaria o título. O outro (pela relevância do jornal) é ainda mais grave.

OS ERROS NOS ESPREITAM TODO O TEMPO

Quem conhece, mesmo sem aprofundar-se, a rotina de uma redação sabe que os erros nos espreitam todo o tempo. Mas há erros e erros (até já abordamos aqui os famosos erros de digitação, outrora chamados erros de imprensa). Escrever gisnática (em vez de ginástica) é erro de digitação, ao levar o “s” para um lugar estranho. É acidente de trabalho que precisa ser atendido pelo próprio redator, o editor ou por um profissional em extinção, chamado revisor). Nada justifica (principalmente em letras grandes) que chutes na canela cheguem às bancas e atinjam leitores incautos.

DIFERENÇA ENTRE ACIDENTE E IGNORÂNCIA

Mais difícil ainda é aceitar como “normal” que um redator (muito provavelmente com formação universitária) grafe tem haver em lugar de tem a ver, pois aqui não se trata de simples derrapagem a que todos temos direito, mas de ignorância crassa de princípios elementares de língua portuguesa. Como disse um cínico, “herrar é umano”, mas se a gente usa mais a borracha do que o lápis, é preciso desconfiar. Não entendo que um grande jornal tenha o direito de cometer erros desse nível. Em qualquer boa escola de segundo grau essa construção receberia um zero bem grande e redondo.

A LEI DE LAVOISIER NO TEXTO LITERÁRIO

O crítico Hélio Pólvora compara a literatura a uma olimpíada, afirmando que “na boa literatura a lanterna de Diógenes passa de mão em mão, como tocha olímpica”. O autor de Itinerários do conto acrescenta que as consequências desse caminhar da tocha “são as aparentes imitações, que, na verdade, aproximam temperamentos, sensibilidades, experiências comuns”. Passando de uns para outros, a arte recebe acréscimos que a engrandecem, de sorte que nada é propriamente novo, mas transformado, uma espécie de Lei de Lavoisier. Por mais criativo que pareça o autor (foi assim que entendi), sempre há alguém que o inspirou e motivou.

O TEXTO RESULTA DE TRABALHO COLETIVO

Para Hélio, nada acontece por acaso em literatura, sendo esta uma obra de arte coletiva. “Para cada grande escritor que surge (…) em língua portuguesa, haverá sempre uma geração ou mais de escritores diversos que prepararam alicerces às suas descobertas”, afirmou o crítico em 1985, em palestra na Universidade Federal da Bahia. Por ser a literatura um trabalho “de equipe”, matéria que se transforma ao longo da existência, ao agregar autores diversos, ela cria dificuldades extras para os não iniciados, como eu. É muitas vezes torna-se difícil separar a homenagem e a deslealdade: citação e pastiche, referência e plágio .

A OLAVO BILAC O QUE É DE OLAVO BILAC

Tenho consciência de que a citação possa, diante de leitores menos atentos, soar como apropriação indébita, mesmo assim a uso. Há pouco, empreguei aqui, sem aspas nem nada, a expressão “nasceu pequeninho, como todo mundo nasceu”, uma referência (tomara que) óbvia a Caymmi; também reproduzi, aspeado, o verso “[Em que Camões] chorou no exílio amargo, o gênio sem ventura e o amor sem brilho”, citação intencional clara do soneto “Língua portuguesa”, de Olavo Bilac. Não me apropriei de produção alheia, apenas considerei que os leitores não exigem bula, e precisam ter sua inteligência respeitada. Mas vou tomar mais cuidado.

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE ANTÔNIO OLINTO

O jornalista João Lins de Albuquerque (foto), ex-chefe da Divisão de Língua Portuguesa da Rádio das Nações Unidas (ONU) em Nova York, tem na praça o livro Antônio Olinto – memórias póstumas de um imortal. É uma entrevista com o mineiro Antônio Olyntho Marques da Rocha (Ubá/MG 1919-Rio/RJ 2009), de quem extraiu histórias magníficas. Intelectual dos mais aparelhados que o Brasil produziu, Olinto (vejam que ele “consertou” o pernóstico Olyntho) brilhou em várias atividades, sobretudo a de professor: latim, português, história da literatura, francês, inglês e história da civilização. Seu livro Jornalismo e Literatura foi adotado em diversos cursos de jornalismo..

NOME QUE DISPENSA APRESENTAÇÕES

Antônio Olinto (foto) é uma das melhores justificativas para o lugar-comum “dispensa apresentações”. Como “apresentar” alguém que foi, com invulgar entusiasmo, professor, jornalista, crítico literário, autor de dicionários e de gramática, ensaísta, autor de literatura infantil, acadêmico (ocupou a Cadeira nº 8 da Academia Brasileira de Letras), contista, romancista, poeta – e ainda encontrou horas vagas para se dedicar às artes plásticas? É melhor não identificá-lo por nenhuma dessas habilidades, pois qualquer delas nos levaria ao pecado da omissão. Chamemo-lo, simplesmente, de Antônio Olinto. Para quem o conhece deve ser suficiente.

MURUCUTUTU, SAFADO, LUPANAR E SAUDADE

Em matéria para O Globo, Olinto perguntou a dez escritores, por telefone, qual era a palavra mais bela da língua portuguesa. Guimarães Rosa escolheu murucututu, segundo ele, uma corujinha amazônica, afirmando que “nenhum país tem uma palavra tão bonita quanto esta, cinco ´us´ numa palavra só”. Jorge Amado (foto), provocador, preferiu safado (de Safo, a poeta grega), mas Roberto Marinho vetou a publicação, o que levou o escritor a escolher outra: lupanar. “Pior ainda!”, lamentou Olinto, pois esta é que não seria publicada mesmo. Ele disse que lupanar é uma palavra bonita, mas que safado era de “um mau gosto atroz”. A vitoriosa no concurso de Globo foi… saudade.

PALAVRAS COM SEDUÇÃO E ENCANTO

Para Antônio Olinto, alegria era a palavra mais bonita da língua portuguesa. Ele conta que, em Londres, viu uma casa em cuja fachada estava escrito: “Alegria”. Sem pensar duas vezes, tocou a campainha, ouvindo de um inglês meio atônito a explicação: “Eu morei no Brasil um bom tempo e achava a palavra alegria tão bonita que, quando voltei, resolvi decorar a entrada da minha casa com ela!”. Eu tenho cá comigo algumas palavras que acho muito bonitas: encanto e sedução, por exemplo. E você, quer entrar no jogo e dizer quais as duas palavras que mais o seduzem ou encantam na língua portuguesa? Parece que cometi um trocadilho…

“FASCINANTE” CANÇÃO QUE VIROU MANIA

Fascinação enraizou-se na MPB a ponto de a gente nem lembrar que ela é francesa. De 1905, a canção só chegou à língua portuguesa em 1943, na versão de Armando Louzada, gravada por Carlos Galhardo. Foi mania nacional, aliás, mundial: teve registros de Dinah Shore, Nat King Cole, Jane Morgan (para o filme Amor na tarde, de 1957), Connie Francis, Dean Martin, Edith Piaf, Pat Boone, Demis Roussous. Entre nós, foi entoada, além de Galhardo, por Nana Caymmi, Agnaldo Rayol, Francisco Petrônio, José Augusto, Agnaldo Timóteo, Jorge Vercillo e até por uma dupla chamada Sandy e Júnior .
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

A GRANDE VOZ DA NOVELA “O CASARÃO”

Em 1976, quando ninguém mais queria saber de Fascinação, a música foi incluída no álbum Falso Brilhante, de Elis Regina, e daquele momento em diante tornou-se um dos temas românticos mais presentes no repertório da cantora – com a luxuosa ajuda das novelas O Casarão/1976 e O profeta/2006, ambas da Globo, de que fazia parte da trilha sonora. Mais tarde, com sua reconhecida criatividade, o SBT também teve Fascinação como tema (e título) de novela, só que na voz de Nana Caymmi. Tem mais: em 2007, com a letra em francês, o tema foi usado em Piaf – um hino ao amor, filme baseado na vida de Edith Piaf.

VERSÃO CORRIGIU FRAQUEZAS LITERÁRIAS

Canção de amor desesperado, bem ao feitio das escolhas de Piaf, a versão brasileira é “leve”, e poeticamente mais consistente, no estilo dos nossos letristas românticos. (curiosidade: nos mais de 30 versos de  Fascination não há esta palavra nem uma vez). As fraquezas literárias saltam logo nos primeiros versos: Je t’ai rencontrée simplement/ Et tu n’as rien fait pour chercher à me plaire (algo como “Eu lhe encontrei simplesmente/ E você nada fez para tentar me agradar”). Louzada corrigiu isto, com o lirismo de “Os sonhos mais lindos sonhei/ De quimeras mil um castelo ergui”. Com (letrista) brasileiro não há quem possa. Clique e veja/ouça.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

RICARDINO, O QUE SE RECUSOU A MORRER

Ousarme Citoaian
Ricardino Batista dos Anjos, justamente homenageado com seu nome no Prêmio de Imprensa da Prefeitura de Itabuna, contava uma história de grande interesse humano. Menino ainda, cavando a vida em Itabuna, foi acometido de doença grave, que o fez submeter-se a tratamento especializado. Depois de algumas tentativas, o médico (dos quadros do INPS, uma espécie de SUS daquela época) chegou à conclusão de que a moléstia era incurável. Recomendou ao doente que fosse “morrer em casa”, numa prova de que não devotava maior apreço à vida dos pacientes.

ALBERTO SEIXAS MUDA O RUMO DA HISTÓRIA

Negro, pobre, só e abalado pela doença, estava prestes a aceitar esse diagnóstico cruel, quando o instinto de sobrevivência falou mais alto (aliás, gritou): a caminho da pensão onde morava, Ricardino (foto) mudou de rota e procurou outro médico. Este o atendeu “por caridade”, jogou fora os remédios até então utilizados e impôs novo esquema de tratamento. “Riscadinho” (como o chamava Jorge Araujo) sobreviveu, fortificou-se e decidiu que só morreria dali a muitos anos, no longínquo 2005. No intervalo, casou-se, teve dois filhos e se fez radialista, jornalista, advogado e pedagogo.

CLARK GABLE “DE PAPO” NA CINQUENTENÁRIO

O nome do médico que o desenganou, não sei; o que o salvou chamava-se Alberto Seixas. Bom de clínica e de conversa, esse Seixas era um homem alto, forte, risonho e bonitão, aproximado ao melhor Clark Gable (… E o vento levou). Mais do que isso, era humano (este caso parece exemplar), fino, cortês, fidalgo, um gentilhomme raro entre médicos ou qualquer categoria, não importa o tempo ou lugar. Seu modelo sobrevive no oftalmologista Carlos Ernane Andrade (foto), que tem mestrado em civilização e gentileza. Quanto a Ricardino Batista, hoje é, mais que foi em vida, dos Anjos.

MATEMÁTICA E COMUNICAÇÃO

Dia desses, opinamos sobre a influência que a matemática exerce na minha forma de expressão, e causei surpresa. Recorramos aos exemplos: “Havia na praia gente de todas as idades”, diz a repórter da tevê, numa matéria de domingo. Essa linguagem é condenável, por imprecisa (é impossível que pessoas de todas as idades estejam na praia). É preferível “de idades variadas” ou coisa parecida. Também comum é a fórmula “toda a diretoria compareceu”. Cuidado para ver se não faltou alguém, o que poria a perder a precisão do relato. Outro: “O investimento do Estado será de R$ 42 milhões” – atenção, que talvez não seja exatamente isto. Melhor é “cerca de R$ 42 milhões”.

RIGOR QUE MELHORA O ESTILO

Devido a seu rigor típico, a matemática auxilia na precisão da linguagem. Voltada para a exatidão e a lógica, quando ela diz “todas as idades” está dizendo “todas as idades”, do recém-nascido ao ancião, com intervalos pequeníssimos. Já se vê que é impossível reunir um grupo de pessoas nesta condição. Talvez seja um conjunto infinito, conforme Cantor (matemático russo) e sua teoria. Da mesma forma, estaria “errada” a informação de R$ 42 milhões, se acaso, na prática, a despesa for ultrapassada (ou reduzida) em qualquer valor, R$ 0,01 (um centavo) que seja. Que importância tem isso para a comunicação? Talvez nenhuma.

A CURVA QUE ALONGA O CAMINHO

“Itabuna perde o título de campeão baiano de Juniores”, diz o jornal, na primeira página (parêntesis para lembrar que a primeira página tem sido chamada, inapropriadamente, de capa). Procuro o fundo do mistério e descubro que o Itabuna Juniores enfrentou o Bahia Idem e perdeu o jogo. Ora, por que cargas d´água o redator não disse logo isso?  O Itabuna perdeu o jogo, não o título, pois não se perde o que não se tem. Deixar de ganhar não é perder. Ainda me surpreendo com esse festival de formas “elípticas” de escrita, quando a reta é a menor distância entre dois pontos.

CAPA É CAPA, NÃO É PRIMEIRA PÁGINA

Falemos em capa, espero que sem levar pedradas dos coleguinhas mais novos. As trocas são naturais numa redação (por exemplo, a máquina de escrever pelo computador), como de resto, em todos os setores da vida: o velho, queira ou não, dará lugar ao novo. Mas capa é capa e primeira página é primeira página (ou, para ficar no modismo partidário, água e óleo que não se misturam). Revistas e livros têm capa – uma proteção com material de maior resistência, diferente das páginas, o miolo do livro ou revista. E o método de trabalho de quem faz capa de revista ou livro é diverso do método de quem “fecha” uma primeira página de jornal.

DA ARTE DE ESCREVER BEM

É provável que Canto de amor e ódio a Itabuna não seja a coletânea ideal do poeta Telmo Padilha. Talvez seja a coletânea possível, neste momento. Vale pela iniciativa da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania (FICC) que resolveu fazer uma coisa quase inédita por estas bandas: prestar homenagem a um autor regional. Na verdade, as boas intenções já começam na gênese do livro, com os textos selecionados por José Haroldo Castro Vieira, amigo de Telmo, mas não crítico literário. A Editus/Uesc, que encampou o projeto de edição, tem também grande mérito na homenagem.

O DÉBITO COM TELMO CONTINUA

Adiante-se que tudo isso valeu a pena, pois se não fosse esse livro não seria nenhum outro – e o aniversário do poeta passaria em branco. Mas a cidade continua em débito com Telmo (foto). Sua produção, sobretudo a poesia, ainda tem muita coisa à deriva, anotada às pressas, em papéis inadequados (até canhotos de talões de cheques), já maduras para servir de alimento às traças. Se a FICC, com mais tempo e recursos, tiver condições de sonhar sonho maior, poderia contratar Jorge de Souza Araujo, este, sim, crítico e pesquisador, para a seleção e notas dos inéditos de Telmo Padilha.

FALTA DINHEIRO, SOBRAM PROBLEMAS

O presidente da FICC, escritor Cyro de Mattos (foto), também faria eficientemente esse trabalho, pois tem longa experiência em selecionar textos, tendo coordenado antologias várias, incluindo duas de autores regionais (Ilhéus de poetas e prosadores e Itabuna, chão de minhas raízes). Conhece muito bem as literaturas daqui e de alhures, em prosa e poesia, e por várias vezes antologiou Telmo Padilha. Mas não tem tempo, e a FICC, sem dinheiro e eivada de problemas, já o molesta suficientemente. Jorge Araujo, portanto, é a melhor escolha.

CRÉDITO DE “PROFESSOR” DA UESC

Louvada a iniciativa do presidente da FICC, vamos lembrar que a Editus/Uesc já deu contribuição fundamental às letras regionais, ao editar dois volumes de alta qualidade, com capa dura e papel especial: Expressão poética de Valdelice Soares Pinheiro/2002 e (melhor ainda) Jorge Medauar em prosa e verso/2006. Seria o caso de a FICC chamar aquela editora para o resgate de um dos grandes poetas brasileiros. E é pertinente salientar que Telmo Padilha, autor de mais de 35 títulos, com 16 traduzidos, tem crédito para tanto: era professor Honoris Causa da Uesc.

AZNAVOUR E O “REALISMO” NA CANÇÃO

Charles Aznavour se sentia infeliz com as canções que interpretava, por isso resolveu compor, com a intenção de dizer “coisas que o público não estava acostumado a ouvir”. Seus temas são desamor e conflitos interpessoais, numa espécie de realismo que conquistou milhares de ouvintes. Os jornais eram sua fonte de inspiração. Filho de imigrantes armênios que escaparam do genocídio feito pelos turcos em 1914, ele trabalhou oito anos com Edith Piaf (foto), seguindo-a por toda parte, e foram amigos até a morte da chansonière. “Com ela aprendi que não devia fingir ser outra pessoa no palco, que devia ser eu mesmo, uma pessoa real”, reconhece.

VEIO DUAS VEZES AO BRASIL

Charles Aznavour, nascido Shahnour Vaghinagh Aznavourian (foto),  fez, no mínimo, 600 canções (há quem fale em 850), incluindo 150 em inglês, 100 em italiano, 70 em espanhol e 50 em alemão. Vendeu mais de 100 milhões de discos e apareceu, como ator, em mais de 60 filmes, entre eles, Atirem no pianista, O caso dos dez negrinhos e O tambor. Em 2008, obteve a cidadania armênia e já no início de 2009 se tornou embaixador da Armênia na Suíça. O franco-armênio, que completa 86 anos no dia em que esta coluna é postada (22 de maio), visitou o Brasil duas vezes em 2008, cantando em dez capitais.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

“AVENTAL TODO SUJO DE OVO”

La mamma vendeu 1,5 milhão cópias, com uma letra de mau gosto atroz, só perdendo, no tema, para aquela da mãe rainha do lar com o chinelo na mão e o avental todo sujo de ovo. Ray Charles a gravou como For mamma e Agnaldo Timóteo (foto), Mamãe, é claro. O tema: a velha matriarca está nas últimas, e a família vem assistir ao desenlace. “Eles vieram, eles estão todos lá/Desde que entenderam este grito/Ela vai morrer, a mamma” (Ils sont venus,ils sont tous là/ Dès qu’ils ont entendu ce cri/ Elle va mourir, la mamma). Nazareno de Brito (para o vozeirão de Timóteo) põe lirismo nessa morte: “O véu da noite vai chegar/E docemente vai nublar/ Os olhos meigos de mamãe”. Bombou. Com brasileiro não há quem possa.

CARISMA QUE ATRAVESSOU O ATLÂNTICO

A melodia e o carisma de Charles Aznavour somados ao êxito dessa canção nos dois lados do Atlântico justificam a presença de La mamma na coluna. É quase como se estivéssemos respondendo ao clamor das ruas.

(O.C.)







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