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:: ‘Freud’

CORPO, O QUE QUERES DE MIM?

Bárbara Andrade | barbarpsi@gmail.com

Os transtornos alimentares não são meramente desvios de conduta alimentar. Eles mostram o quanto comer e ser são inseparáveis. A recusa da relação com o alimento e via de consequência com o vínculo afetivo com o outro (anorexia nervosa), a relação ambivalente com o alimento e com afeto (bulimia nervosa), são todas modalidades de existir.

Antes de iniciar meu texto, gostaria de pontuar que o conceito de corpo aqui explanado vai além do conceito de corpo físico. Ele se conjuntura no conceito dado pela psicanálise – como sendo corpo psíquico que faz linguagem, de identificação, identidade, comunica-se e estabelece enlace com o social. Na origem do psiquismo encontra-se o corpo, como afirmou Freud em 1923. Desse conceito, veio o meu título a que a pergunta não se faz ao corpo físico, mas ao corpo psíquico, esse corpo do inconsciente em que o sujeito transforma suas angústias sufocadas no corpo psíquico em ‘forma de falar’ para corpo físico.

O corpo carrega em sua apresentação a marca de uma época, de uma cultura, de um social. Nos dias atuais, o corpo reduz o valor do Eu à pura aparência, em que o “prazer” é instantâneo, descartável e efêmero. A mídia, por exemplo, exibe exaustivamente o padrão atual de beleza, de corpo perfeito. Esta busca seria um dos pontos que podem vir a gerar consequências sérias e contribuir para o desenvolvimento de transtornos alimentares.

Um dos pontos característicos dos processos de subjetivação atuais é a sua consequência em termos de corporificação do mal-estar psíquico. Esses ‘novos sintomas’ (aqui me deterei apenas em pacientes com transtornos alimentares), emergem como patologias do ato. Para estes pacientes, o corpo funciona como uma forma de simbolização, de poder falar de suas angústias.

Os sintomas corporais falam pelo sujeito, espelhando sua necessidade, por vezes, de se utilizar dos desconfortos corporais para se sentir vivo, seja por viés da fome (anoréxica) ou pela vontade de comer e logo vomitar (bulimia). As pessoas com estes transtornos só conseguem contar a própria história e atravessar os conflitos sob a forma de marcas no corpo.

A anorexia é caracterizada por uma perda intensa de peso decorrente de uma dieta alimentar rígida, proporcionando um corpo sempre extremamente magro. As pessoas que possuem esse transtorno chegam a ficar muito abaixo do peso. Porém, diante do espelho se veem de forma dismórfica. Ou seja, acima do peso. O corpo anoréxico é marcado por um emagrecimento infinito, sem limites. Essas pessoas se alternam entre jejuar e comer compulsivamente, provocando vômitos logo em seguida.

É interessante notar que as crises bulímicas ocorrem nas caladas da noite, quando ninguém as (os) olha. O controle da fome e da forma é o recurso encontrado na anorexia para fazer barreira a um excesso do outro. Estes pacientes se alienam de seu próprio corpo e o admira silenciando seus desejos – de sede, de fome, de cuidados, de sexo, de amor, além de não enxergar o transtorno como um problema e, sim, como uma solução, o que torna difícil a adesão dessas pessoas às terapias psicológicas e psiquiátricas.

Na bulimia, a pessoa transita no universo da vergonha, também recebe sua marca de excesso, uma vez que os métodos compensatórios são marcadores desse descontrole, de um corpo onde o sujeito não se sente com seu corpo. O excesso, marca da compulsão, é o retrato dos limites vacilantes do corpo na bulimia. O vai e vem do engorda e emagrece desse transtorno mostra o aprisionamento do corpo bulímico num ritmo de alternância que marca, por meio do corpo, o que o corpo psíquico não deu conta de inscrever, de elaborar. Assim, o corpo se enche tentando preencher uma falta e depois se esvazia numa mostra física da busca pelo limite corporal.

Cada um desses transtornos apresenta particularidades inerentes à maneira como esses indivíduos foram constituídos. Há que se olhar para a história de cada um – e para os respectivos processos de subjetivação. Em comum a todos, a compulsão, a dificuldade com os limites e a marca do excesso.

Os transtornos alimentares não são meramente desvios de conduta alimentar. Eles mostram o quanto comer e ser são inseparáveis. A recusa da relação com o alimento e via de consequência com o vínculo afetivo com o outro (anorexia nervosa), a relação ambivalente com o alimento e com afeto (bulimia nervosa), são todas modalidades de existir. O funcionamento imediatista de satisfação e de tamponamento de uma realidade que causa desconforto faz da comida, ou da falta dela, um alívio, de um prazer, de uma fuga.

No tratamento psicanalítico, a atualização dos processos primários exalta o lugar da oralidade alimentar e da imagem. É a constituição de um espaço interior que, finalmente, vem assegurar as condições de uma nova imagem narcísica. É pelo viés terapêutico psicológico que o sujeito com transtornos alimentares pode se deleitar em suas angústias e sofrimentos, assim os elaborando e ressignificando.

Bárbara Andrade é psicóloga e atua nas áreas social, clínica e de saúde, e edita o Descortine-se.

UNIVERSO PARALELO

JORGE, QUEM DIRIA, ACABOU NA TELONA

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

1Jorge AraujoO curta Ofuscado, de Elisa Araújo, nos guarda uma surpresa muito grata: o professor Jorge de Souza Araújo, ele mesmo, encabeça o elenco, fazendo o personagem Seu Malaquias. Ofuscado, rodado em Xique-Xique, procura refletir a realidade dos sertões da Bahia, o sofrimento de sua gente. A história se passa na fictícia Januário da Serra Vermelha. Do lado de cá da tela, na vida de verdade, Jorge, atrás de sua barba famosa, guarda muito de ficção, de tipo inventado em página de livro: sertanejo de Baixa Grande, família pobre assolada pela inclemência do sol, pôs às costas seu bocapiu de sonhos e perspectivas e partiu para a região do cacau.

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Coleção de amigos e prêmios literários

Em terras do sem fim, estudou, virou professor, doutorou-se em literatura no Rio de Janeiro, fez política, foi engraxate, trabalhou em jornais que mal lhe pagavam o almoço frugal, escreveu montes de livros (bem contados e medidos, chegam aos 35!), outro monte dorme na gaveta, à espera de editora. Coleciona amigos e prêmios literários. Entre estes estão o Jorge Amado, o Anchieta, o Graciliano Ramos, todos da Academia de Letras da Bahia. Raro exemplo de intelectual que não rompeu os vínculos com sua terra e seu povo, Jorge Araújo nunca permitiu que saberes, premiações, confetes e lantejoulas o fizessem arrogante. Contados os prêmios, resta dizer que é incerto e não sabido o número de amigos de Jorge.

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A FALA DO TRONO, SEM ÓDIO E SEM MEDO

3DilmaO discurso da presidenta Dilma, no Dia Internacional da Mulher, teve na mídia em geral boa repercussão. Em meios que não se afinam com o conservadorismo ainda resistente no País feito doença crônica, o efeito foi maior: valeu por nos lavar a alma. Setores da mídia enxergaram ali um aviso aos homens que perpetram violência contra as mulheres; outros, entre os quais me incluo, entendem que o “recado” de Dilma transpõe as fronteiras do feminismo, vai muito além das comemorações do oito de março: limitar a fala presidencial, emitida sem ódio e sem medo, apenas à defesa da mulher, seria reduzir-lhe efeitos e intenções.
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“Enfrentar os injustos e a injustiça”

Para lembrar, vai aqui o fecho da fala do trono, a palavra destemerosa da presidenta: “Faço um especial apelo e um alerta àqueles homens que, a despeito de tudo, ainda insistem em agredir suas mulheres. Se é por falta de amor e compaixão que vocês agem assim, peço que pensem no amor, no sacrifício e na dedicação que receberam de suas queridas mães. Mas se vocês agem assim por falta de respeito ou por falta de temor, não esqueçam jamais que a maior autoridade deste país é uma mulher, uma mulher que não tem medo de enfrentar os injustos nem a injustiça, estejam onde estiverem”. É discurso não apenas para ser publicado, mas cumprido.

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O DETETIVE QUE INVESTIGAVA A SI MESMO

5Edipo ReiA mim me intriga o que faz autores e obras se eternizarem pelas noites dos tempos ou serem olvidados logo depois que surgem. Édipo Rei é um desses enigmas. Mito que influenciou Freud e até hoje dá camisa nova aos psicanalistas de todo o mundo (ao explicar certos conflitos familiares), o livro aceita, pelo menos, duas leituras: a de um rei que caminha em direção à própria desgraça, sem remédio; e uma espécie de história policial, em que um “detetive” caça o criminoso para, ao fim de tudo, descobrir que caçava a si próprio. As duas leituras têm um viés igualmente trágico: o leitor, impotente, vê o protagonista, impelido por deuses sem piedade, se aproximar do abismo inevitável.
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Na alma infantil, amor, ódio e ciúme

A quem, por milagre, não saiba disso, eu digo que Complexo de Édipo, um embrulho de amor, ódio, ciúme e outros pecados da alma infantil, é criação de Freud: o menino cria esses sentimentos em relação à mãe lá pelos 2 a 5 anos. Mais tarde se identifica com o pai e o problema está resolvido. Claro que não é assim tão simples – nada é simples no velho Sigmund, nem nosso tema é a psique das pessoas, mas a literatura. Não pretendemos deslindar aqui o motivo de Édipo Rei estar nas livrarias até hoje. Acho que a provocação foi apenas por estar com saudades do jovem texto de Sófocles, de 15 séculos. Ah, sim, que a gentil leitora não se sinta discriminada: sei, sim, do Complexo de Eletra, que vem a ser o Édipo das meninas.

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MANCHAS ROXAS, PÓ-DE-ARROZ E ORGULHO

7Billie HolidayPermiti- me a conclusão meio autoritária de que a gentil leitora e o atento leitor gostem dessa instituição nacional chamada… fofoca: o saxofonista Ben Webster (1909-1973) foi um dos muitos casos de Billie Holiday, cantora assentada em lugar de honra no panteão do jazz, colecionou amantes, sucessos e infortúnios – e que tinha uma mente capaz de revirar pelo avesso a alma do próprio Freud, aquele que tudo explicava. Webster era bem seu modelo: negro, bonito e de caráter explosivo, inclinado à garrafa, e que se tornava violento ao entornar uns copinhos a mais. No dia seguinte às sessões de amor (?) do casal, Billie, orgulhosa do seu homem, disfarçava as manchas roxas no rosto com espessa camada de pó-de-arroz.
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Suave e agressivo, no palco e na vida

Não me acusem de mau gosto, pois isto não é fofoca, é história – se omitida, não faria diferença na qualidade dos dois músicos, mas, ainda assim, é história. Um autor, já não me lembra quem, disse que o jeito de Ben Webster tocar reflete um tipo (bipolar, avant la lettre), terno e irascível: arrebatou fãs tanto para a agressividade do blues quanto para as baladas – gênero que, no fim da vida, adotou com mais frequência. Depois de várias turnês pela Europa, onde se tornou popular, radicou-se na Dinamarca, partir de 1964, e tocou muito, até apagar-se a velha chama, aos 64 anos. Aqui, para quem, por acaso, não conheça, uma visão do sopro lânguido de Webster: Over the rainbow, um tema que não me sai da cabeça.



(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

SE POSSÍVEL, TRADUZA OS NOMES PRÓPRIOS

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

Acabo de revisar as memórias de competente professor (aposentado), em que troquei o nome Michelangelo por Miguel Ângelo. É provável que o autor não concorde (revisores têm poder de sugerir, não de mudar o texto) e mantenha a forma italiana, um erro evidente, pois nomes próprios, quando isto é possível, devem ser traduzidos. Se perguntarmos a qualquer pessoa, mesmo pouquíssimo letrada, o nome de um rei da França ela dirá um Luís qualquer (eles foram tantos!), talvez aquele que inventou o salto de sapato Luís XV; se inquirirmos sobre a rainha que teve o lindo pescoço cortado, ouviremos: Maria Antonieta. “Qualquer pessoa” está certo.

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A dama das camélias e os mosqueteiros

Seria muito pernosticismo alguém no Brasil chamar a dupla de reis decapitados de Louis XVI (algo como luí dissiziême) e Marie-Antoinette (marri antoanéte, para os menos avisados) – um “francesismo” evidentemente dispensável. Ainda nesta linha, Alexandre Dumas (fils) passou a Alexandre Dumas Filho, enquanto son père é apenas Alexandre Dumas. O pai escreveu Os três mosqueteiros e o filho criou A dama das camélias, título que (nunca em público) dou a famoso colunista social de Itabuna. Por fim, uma gracinha com mais de um século de idade: os três mosqueteiros eram quatro! E dizer que Luís XV inventou o salto alto foi só uma boutade…

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Os dicionários não registram “boutade”

A gentil leitora e o paciente leitor, se, por acaso, não sabem o que é boutade, não percam tempo com dicionários, pois eles (os dois que possuo, pelo menos) não registram o termo, embora seja o mesmo de uso corrente em língua portuguesa há muitos anos. Mas eu explico, à maneira de Freud: trata-se de dito espirituoso, brincadeira verbal, gracejo – e, de acordo com o professor (também romancista, cronista, contista, da Academia Brasileira de Filologia, autor de Orelhas de aluguel e vários outros títulos) Deonísio da Silva, vem do verbo francês bouter, empurrar, ora veja.  Sobre o sapato Luís XV e os Dumas, depois eu conto.

ALÉM DE DESATENTO, ANALFABETO EM POESIA

Já disseram que eu sofro de uma tal “síndrome da falta de atenção” (SFA). Maldade, só porque às vezes esqueço onde deixo o carro, noutras tento abrir o carro alheio (até abri alguns, mas, felizmente, ninguém viu), chego a entrar, por engano, no apartamento do vizinho – essas bobagens. Mas cometi um exagero de SFA, aqui, há dias: atribuí a Geir Campos um verso de Vinícius de Morais, propiciando a oportunidade de ser visto como, além de desatento, analfabeto em poesia (aliás, um leitor teve a bondade de lembrar que, num livro, citei Lolita como de Pasternak, quando é de Nabokov – e isto foi em 2006, o que mostra ser antiga essa “doença”).  Se fumasse, seria capaz de jogar o cigarro na cama e me deitar no cinzeiro.

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A vagareza dos minutos adoça o outono

Li muito Geir Campos na juventude. Participante da luta política, comunista, ele integrou a Geração de 45, então dizer que era engajado é beirar o pleonasmo. No lendário I. M. E. de Ilhéus, pus no mural do grêmio um poema dele que começava assim: “Aos que acreditam em metempsicose e outras formas de imortalidade da alma…” – por pouco não fui expulso, devido à “ofensa”. Em Alba, outro exemplo da força revolucionária que Geir imprimiu à sua poética: “Não faz mal que amanheça devagar,/ as flores não têm pressa, nem os frutos:/ sabem que a vagareza dos minutos/ adoça mais o outono por chegar./ Portanto não faz mal que devagar/ o dia vença a noite em seus redutos/ de leste – o que nos cabe é ter enxutos/ os olhos e a intenção de madrugar”.

JORGE AMADO E OS NÃO LEMBRADOS EM 2012

O centenário de Jorge Amado foi festejado na Bahia inteira (até nesta modesta coluna), o que contribuiu para o esquecimento de outros nomes. Fernando Leite Mendes (nascido em 1932) teria agora 80 anos, idade “redonda”, boa para ser comemorada; Os sertões, livro fundador do Brasil do lado de cá, parece esquecido (junto com Euclides da Cunha), nos seus 110 anos – foi lançado em 1902. Já o professor, jornalista, cronista e sonetista parnasiano, Plínio de Almeida, educador de gerações (que completaria 108 anos em setembro), ganhou da Academia de Letras de Itabuna – Alita um concorrido recital de poesia em praça pública. Ainda bem.

FERNANDO LEITE MENDES, 80 ANOS

Fernando Leite Mendes era advogado, mas sua maior atuação se deu na imprensa. Trabalhou em grandes veículos do Rio, a exemplo de Última Hora, Correio da Manhã e Diário de Notícias, e produziu crônicas de intenso lirismo. Livro, apenas um, publicado post mortem: Os olhos azuis de dona Alina e algumas crônicas. Com dona Alina, que dirigiu a Escola Afonso de Carvalho (ao lado do Palácio Paranaguá), FLM aprendeu a ler. Generoso, deixou imortalizados em Os olhos azuis… personagens ilustres de Ilhéus, como Otávio Moura, Carlos Pereira Filho, Demosthenes Berbert de Castro, Emo Duarte e, claro, dona Alina. O espaço acabou; FLM, não.

UM PARCO SABER “DE EXPERIÊNCIAS FEITO”

Dia desses, sem querer, entrei numa discussão, ao cunhar a frase “se ela [a memória] fosse boa não perdia palavras” – e alguém, com carradas de razões, informou ser perderia. O meu parco saber é “de experiências feito”, na expressão de Camões (valho-me de leituras e exemplos vividos, não da gramática, que desconheço). Mas deixemos claro que isto aqui não é defesa (nem acusado fui), mas somente combustível para nossas conversas semanais. Tanto que, de imediato, me pareceu, e ainda parece, que o “não perderia palavras” do leitor é a melhor escolha – embora ache defensável, para o caso, a forma coloquial que usei.

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Sem beliscões e sem “vossa excelência”

Tenho o hábito (vício, diriam) de misturar tempos de verbos, como forma “direta” de comunicação com o leitor. Se alguém tiver a bondade de me incluir em algum tipo de literatura, será na crônica – algo que fica a igual distância da prosa, da poesia e da conversa de bar. A crônica literária – se duvidam de mim, creiam em Fernando Sabino, Rubem Braga e Hélio Pólvora, para citar poucos entre os grandes – não é o locus das formas “pesadas” do estilo. Cronista não dá beliscões no bumbum da gramática, mas também não a trata por “vossa excelência”. Na semana passada, escrevi aqui “nunca ia saber…” e, felizmente, passei despercebido. Não acho grave, mas a discussão está aberta.

De Garcia Márquez a Monsueto Menezes

“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”. É a abertura de Cem anos de solidão, que todos conhecem. Eric Nepomuceno, o tradutor brasileiro, quis trocar havia por haveria, mas Garcia Márquez insistiu no “erro”. Sílvio Alexandre e Ednei Procópio, especialistas em literatura fantástica (em comentário à abertura de Cem anos…), grafam “haveria de recordar”, à revelia do autor, já se vê. Mais perto de minha “cultura” ficou o gramático Monsueto, em Me deixa em paz (acho que armei esse fuzuê todo para justificar a presença na coluna da excelente e esquecida Alaíde Costa).

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

SHERLOCK HOLMES, BEATLES E JESUS CRISTO

Ousarme Citoaian

Não entro nessa especulação sobre se Os Beatles eram mais populares do que Jesus Cristo. Mas estou certo de que Sherlock Holmes rivaliza com todos eles. É difícil, em qualquer literatura, encontrar alguém tão conhecido quanto o personagem criado pelo oftalmologista desempregado Arthur Conan Doyle. “Nascido” na novela Um estudo em vermelho/1887, cujo título é um achado, seu endereço (221B, Baker Street) – que agora abriga o museu Sherlock Holmes – até hoje recebe cartas de pessoas buscando a ajuda do detetive famoso para solucionar crimes verdadeiros. Mas eu queria falar de frases, não de literatura de mistério.

A FAMOSA FRASE QUE DOYLE NUNCA ESCREVEU

Todos conhecem a frase que o investigador de Doyle repetia, dirigindo-se de forma irônica ao médico John Hamish Watson, companheiro de pensão e narrador das aventuras de Holmes. Elementar, minha cara leitora: a frase é um embuste que o mundo assimilou. Tanto quanto o cachimbo de cabo curvo, a expressão “Elementar, meu caro Watson” foi criada no teatro, não no consultório ocioso do médico. Há críticos a sustentar que ela foi pronunciada uma vez, em Um estudo… – o que é desmentido pela tradução brasileira, ao menos nas duas edições que conheço. Mas mitos do nível de Holmes não ficam isentos dessas atribuições.

DE GAULLE, MAU HUMOR, QUEIJOS E VINHOS

Ao presidente Charles André Joseph Pierre-Marie De Gaulle (1890/1970) é atribuída a frase “O Brasil não é um país sério” (Le Brésil n’est pas un pays sérieux). De Gaulle morreu negando o dito, e o diplomata brasileiro Carlos Alves de Souza afirma no livro Um embaixador em tempos de crise/1979 que o presidente francês nunca falou isso. A cientista política francesa Annick T. Melsan vasculhou os escaninhos da diplomacia de Paris e nada viu que confirmasse essa grosseria do velho militar. A boutade de mau gosto foi divulgada pelo correspondente Luís Edgar de Andrade, do Jornal do Brasil, e nunca mais nos abandonou.

A FRASE SERVIU PARA CRITICAR A DITADURA

O Brasil adotou o lema na ditadura militar, e ainda o conserva. De acordo com Mme. Melsan, isto “foi importante por ajudar na crítica ao sistema”, e a expressão “poderia ser de De Gaulle ou de outro europeu qualquer, devido à visão que se tinha do Brasil, como país do carnaval e do samba”. Certa vez, o presidente Chirac abriu uma coletiva com jornalistas brasileiros, brincando: “O Brasil é um país sério”. E é, diz La Melsan, mas “o problema é fazer os brasileiros acreditarem nisso”. De De Gaulle, prefiro outra frase: “Como se pode governar um país que tem 246 espécies de queijo?” Ele se esqueceu das centenas de tipos de vinho.

ESTRANHAS OPINIÕES A QUE TEMOS DIREITO

Uma espécie de enquete na tevê, quando um casal quase troca tapas, na dúvida sobre quem deveria sair do BBB, me desperta para os estranhos critérios que as pessoas usam para julgar o mundo. Perguntaram a Rubem Braga se ele acreditava em disco voador: “Não”, disse prontamente o cronista. “Por que não?” – insistiu a repórter. “Porque até hoje só vi dois”. Tenho um amigo que questiona as pesquisas em geral e as do Ibope em particular, dizendo que elas são “armadas”, sem exceção.  E tem o que considera uma justificativa irretocável: “Eu nunca fui entrevistado”.

DO BBB AO ASSASSINATO DE ODETE ROITMAN

Eu também não, mas em vez de lamentar, comemoro.  Tenho verdadeira paranoia de pagar mico diante da pergunta do entrevistador. Por exemplo, responder a esta profunda indagação filosófica que a Globo propõe semanalmente aos brasileiros nas ruas: “Quem deve ser eliminado do BBB?” Como diabos hei de saber a resposta disto, se nunca me foi dado assistir a um BBB que fosse? É mico, na certa.  Uma vez topei com uma equipe de tevê e uma repórter que andava em minha direção, com jeito de quem vira uma vítima, perdão, um potencial entrevistado. Desguiei, escafedi-me. À francesa.

CANDIDATO AO APEDREJAMENTO “CULTURAL”

Nada contra a bonita repórter regional, mas é que temi, devido à moda em vigor, que ela me perguntasse quem matou Odete Roitman.  Se milhões de pessoas assistiram à novela (é o que dizia o Ibope!), se o País inteiro parou para descobrir quem matara dona Odete, minha ignorância do tema era totalmente inadmissível, ofensiva à cultura nacional, talvez uma forma de esnobismo. Dar minha (falta de) opinião seria me oferecer ao apedrejamento “cultural” ou à exibição em feira, como um ET senil. Acho que fiz bem em fugir. E, pasmem, até hoje não sei (nem quero saber!) quem matou Odete Roitman.

EMBELEZAR O TEXTO NÃO É FAVOR, É DEVER

Por certo, revelar algum deslumbramento com o ”falar bonito” (referimo-nos, especificamente, a Gilberto Gil) não será do agrado de ponderável corrente de linguistas. Esta, em defesa de uma suposta clareza da comunicação, defende como fundamental apenas que a mensagem saída do emissor seja entendida pelo receptor. É a valorização única do conteúdo, em detrimento da forma – ou, num jeito muito surrado de simplificar, “se você entendeu, está certo”. No meu modesto modo de ver, embelezar o texto não é favor, mas dever de quem utiliza a chamada linguagem culta, pois beleza é qualidade de estilo, definida nos manuais: conteúdo é preciso, beleza também é preciso.

A IMAGEM QUE VALE MIL PALAVRAS: BOBAGEM

Atribuída ao poeta chinês Lin Yu-Tang, a frase “uma imagem vale mais do que mil palavras” entrou para o domínio público, de tão repetida. É uma bobagem que Millôr Fernandes (foto) já desmontou, ao questionar: “Se uma imagem vale mais do que mil palavras, diga isto com uma imagem”. Palavras são palavras, valores insubstituíveis. No jornalismo, imagens têm grande peso, mas são coadjuvantes. O texto, sim – com ritmo e som adequados, novo sem ser pedante – é protagonista. Creio na busca por le mot juste,  não apenas para melhor definir uma coisa, ação, sentimento ou conceito, mas como o termo que melhor soa, o mais bonito, o mais colorido, o que emoldura nosso pensamento.

TEXTO AGONIZANTE, SUFOCADO EM PURPURINA

Perdoem-me se, amparado em Lacan-Barthes, já disse isto: para algumas pessoas, a língua materna é objeto de prazer, ainda que elas tenham, como eu, musa calada e talento estreito. O indivíduo que escreve brinca com o corpo da mãe: ele o glorifica, embeleza, endeusa, avilta ou despedaça – mas não me intimem a aprofundar a discussão, pois me falecem condições para tanto. Sugiro que se queixem a Lacan (foto), Freud e seguidores, pois o papel a mim reservado é tão só o de agente provocador. Entre nós, o texto agoniza entre fotos de purpurina em colunas sociais, clamando por justiça, enodoada a memória dos clássicos. Balbucio virou fala; texto tatibitate, jornalismo.

Clique e veja/ouça Gil “falando bonito” de Vinícius de Morais.

(O.C.)








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