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:: ‘Graciliano Ramos’

COLUNISTA SE DIZ “LAVADEIRA CUIDADOSA”

Ao responder a um comentário, Ousarme Citoaian (signatário do UNIVERSO PARALELO, publicado semanalmente pelo Pimenta) afirmou não ser “uma hábil lavadeira”, como dissera o leitor (empregando uma expressão de Graciliano Ramos), mas “uma lavadeira cuidadosa”, no trabalho com o texto. “Se percebo uma mancha, lavo de novo, querendo que minha frase ´saia da oficina sem um defeito´”, a conhecida receita de Olavo Bilac para o verso parnasiano.

Ele acrescenta que o erro por imperícia é perdoável no profissional, mas o erro por preguiça, não. Sobre a conceituação “literalmente fantástica” de um mundo paralelo, apresentada por uma leitora, O. C. classificou como “genial” a ideia de “um grupo de baratas correndo e gritando, com medo das mulheres”.

Para ver a coluna mais recente e os comentários, clique aqui.

FALANDO DE PRESUNÇÃO, COLUNISTA DIZ QUE “NO CEMITÉRIO TODOS SE IGUALAM”

Ao responder a uma leitora sobre as incertezas da vida, o colunista Ousarme Citoaian (que assina a coluna UNIVERSO PARALELO aqui no Pimenta) disse que também ele emprega expressões do tipo “penso”, “parece” e semelhantes, por não ter “propriedade sobre as tais certezas certas”. O jornalista “pensa” que quem não duvida de si mesmo se transforma em morada da presunção – sendo esta “irmã siamesa da arrogância e da empáfia, e inimiga inconciliável da humildade”.

O titular do UP repete o conselho que um amigo seu ouviu do pai: “ao se sentir cheio de afetação e superioridade, visite o cemitério, para ver como, no final das contas, ali todos se igualam” – e lembra um curioso diálogo de José Lins do Rego e Graciliano Ramos, sobre o pessimismo deste.

Para ver a coluna desta semana e o total do comentário, clique aqui.

EM LIVRO, A VINGANÇA DE GRACILIANO RAMOS

Maurício Dias | Carta Capital

Nas comemorações de 120 anos de nascimento de Graciliano Ramos, a editora Boitempo relança o livro O Velho Graça: Uma biografia de Graciliano Ramos, de Dênis de Moraes.

A nova edição, revista e ampliada, tem um texto exemplar de Alfredo Bosi, embora mantenha o prefácio original de Carlos Nelson Coutinho. Destaco uma história inédita, integrante dessa nova edição.

Graciliano cruzou casualmente com Getúlio Vargas meses depois de sair da cadeia. Era 1937. Ainda morava em modestíssima pensão na Rua Corrêa Dutra, próximo ao Palácio do Catete.

Como sempre, à noite, ele fazia um passeio pela Praia do Flamengo. Certa vez, mais ou menos às 22 horas, entrou na deserta Rua Barão do Flamengo. Em direção contrária vinha um homem baixinho, gorducho, de paletó e gravata, sozinho. Reconheceu-o. Era Getúlio, que tinha, também, o hábito do passeio após o jantar.

“Boa noite”, disse o ditador. Graciliano não respondeu.

Vingou com o silêncio os dez meses e dez dias, entre 1935 e 1936, que ficou encarcerado, sem processo ou culpa formada, como ocorre nas ditaduras.

UNIVERSO PARALELO

GRAMÁTICA NÃO É INSTRUMENTO DE JUSTIÇA

Ousarme Citoaian
Declarou-se no Brasil uma guerra injusta contra o adjetivo (dirão que as guerras são assim mesmo e que o espaço da justiça não é a gramática, mas o tribunal): uns o execram sem qualquer vezo de compaixão, reduzindo a zero sua presença no texto; outros o aspergem na página, atrelando-o a substantivos suspeitos. Talvez seja possível encontrar-lhe o meio termo, que é o uso quando necessário. Graciliano, o mais “descarnado” dos escritores brasileiros, pasmem os matadores de adjetivos, usava esse penduricalho em lugar certo e momento aprazado. Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes, diz ele, abrindo magistralmente Vidas secas (citado em coluna anterior). Na mesma frase, dois adjetivos necessários e certeiros.

ESTILO QUE DEIXA AS CARÊNCIAS À MOSTRA

Convém não confundir texto econômico com texto pobre. O econômico é rico sem ser perdulário, tem tudo de que precisa, sem nada lhe sobrar; o pobre deixa à vista carências básicas, até de grafia. Mesmo com risco de vida, digo que a internet é o túmulo da linguagem – cada vez mais descuidada, maltratada e “econômica”, transforma “que” em “q”, ”também” em “tb”, e por aí vai a carruagem. “Acabou-se o nosso carnaval” – o verso de Vinícius, numa canção com Carlos Lyra, serve como ícone do fim da alegria na construção do texto, o enterro do metafórico, o império do estereótipo da cultura pequeno-burguesa apressada e “pragmática”. Quase não mais se escreve com purpurina, lantejoulas, serpentinas, confetes, paetês, sangue, coração e alma.

A BOA LINGUAGEM EXIGE COR, RITMO E SOM

Ensinam os mestres da estilística esquecida que “escrever bem” inclui preocupações que ultrapassam o saber primário da gramática: pensar em ritmo, sonoridade, criatividade, não temer a palavra desusada, correr do pedantismo e do lugar comum. Le mot juste (o termo que não só define o pensamento como o emoldura com cores e sons) há de ser buscado, e essa busca às vezes é penosa. A tarefa de escrever, para quem o faz com responsabilidade, é estafante. O texto é areia movediça, terreno cheio de armadilhas, há o autor de locomover-se com cuidado, velho marinheiro conduzindo o barco em noite de temporal. Mas é trabalho compensador. Imagino até que o prazer, mais do que a obrigação de escrever, seja o dínamo do profissional dessa atividade.

EDITORIAL É TEXTO DE PALETO E GRAVATA

Só para quem é de outro ramo, que não jornalismo: o editorial é o espaço mais nobre do veículo. É texto analítico, opinativo, afirmativo, que representa o ponto de vista da empresa, em geral sobre notícia do momento. Faz-se editorial, por exemplo, a respeito do Porto Sul ou da ponte Ilhéus-Pontal, nunca sobre as capitanias hereditárias ou as pirâmides do Egito. Diz-se nas redações que o editorial (também chamado “artigo de fundo” e – quando muito pequeno – “suelto”) é o texto de paletó e gravata, grave, circunspecto e, obviamente, lavrado em linguagem formal. Não é à toa que os veículos escolhem para fazê-lo, via de regra, um jornalista de cabelos brancos.

NÃO SOU LINGUISTA, SOU APENAS LEITOR

Daí o espanto ao ler um jornal de Ilhéus e tropeçar, no seu espaço mais nobre, com uma linguagem absolutamente fora do lugar. O título, Informações vaciladas, é algo inesperado, exigindo esforço para saber o que o autor pretende dizer. Vacilar, todos sabem, é hesitar, cambalear, tremer, estar incerto, irresoluto etc. Logo, uma informação “vacilada” é uma invenção carente de sentido. Concedamos que “vacilante” seria bem aceita no texto – mas que “vacilada” é uma ousadia gramatical que só a corrente linguista excessivamente bem humorada acataria. Não sou linguista, mas leitor de jornais, e meu bom humor, graças ao bom Deus, está esgotado para esse tipo de coisa.

LEITURA PARA SABER COMO NÃO ESCREVER

Mesmo assim, por mera curiosidade, leio, em busca da solução do mistério. A primeira frase (“Palavra dita é palavra que não volta atrás”) introduz um pleonasmo “defensável” (ah, os linguistas!) que me deixa em expectativa nada positiva. A segunda “explica” a primeira: “Pelo menos é isso o que aprendemos desde pequeno”.  Como é mesmo? Aprendemos desde pequeno”? Ih!.. Em seguida, doutoral, o artigo cita que “um homem deve ter palavra” e que “isso é o que costuma nos afirmar nossos pais…”. Chega. Curioso, sim, masoquista, não, suspendi a leitura. Mas a recomendo a todos quantos quiserem saber como não escrever. Por certo, o editorial não é mais o mesmo.

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“PAU DE ARARA”: DA TRAGÉDIA À COMÉDIA

A vida dura de um retirante nordestino visto em Copacabana inspirou Vinícius de Morais a fazer (com Carlos Lyra) Pau de arara, na linha da música engagée, em moda naqueles anos sessenta. Mas a canção, na voz de Ary Toledo, ganhou vida própria, e o que tinha ares trágicos transformou-se em comédia: era de fazer chorar, arrancou risos da plateia. Não sei se a mensagem política – com crítica às desigualdades sociais, em particular no caso do Nordeste – perdeu força. O fato é que Pau de arara foi o momento que consolidou a carreira de Ary Toledo, um artista que ainda não havia encontrado o caminho a seguir.

RISADAS “ESTRIPITOSAS” DE ELIS REGINA

Na peça Pobre menina rica (texto de Vinícius e música de Carlinhos Lyra), Ary pediu aos dois que o deixassem cantar Pau de arara “ao seu estilo”, no que foi atendido, e não deu outra: o público caiu na risada. Lançada num compacto simples, a saga do “paraíba” não alcançou grande êxito, até que Ary fez uma gravação ao vivo no Teatro Record (programa “O Fino da bossa”), arrancando gargalhadas estrepitosas do público e da apresentadora, chamada Elis Regina. Era 1965. Vinícius e Elis aconselharam o jovem Ary Toledo (nascido em Martinópolis-SP/1937) a seguir a carreira de humorista, no que foram atendidos.

NÃO HÁ LUGAR MELHOR DO QUE NOSSA CASA

A canção desfia as desventuras do pobre homem, a comer em praça pública, mediante pagamento vil, lâminas de barbear e cacos de vidro. A canção do retirante, portanto, não era engraçada, mas trágica, denunciadora do modo de vida que se impõe ao povo, o acúmulo de riquezas tantas para uns poucos e da miséria para milhões. Após desfilar seu rosário de sofrimentos e humilhações, o personagem conclui ser mais sensato retornar à terrinha: “Vou-me embora pro meu Ceará/ porque lá tenho um nome/ e aqui não sou nada, sou só Zé Com Fome/ sou só pau de arara/ Não sei nem cantá”. Não existe lugar como nossa casa.


O.C.

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UNIVERSO PARALELO

UM ENTRAVE DE NOME ESQUISITO: ANACOLUTO

Ousarme Citoaian
Falamos aqui de termos que aparecem nas frases sem que nada de bom a elas acrescentem – aos quais os gramáticos chamam de anacolutos, ou nome parecido. No caminho de quem persegue a “linguagem econômica” (apanágio de poucos redatores) emergem os tais anacolutos como um dos mais sérios obstáculos a transpor. Observo, na leitura das mídias regionais escritas, que entre nós abunda (além da preposição “de”, penduricalho que muito me irrita) uma profusão de artigos, indefinidos, sobretudo. É tamanho o festival de “um” e “uma” que até parece epidemia, caso de saúde pública.Vejamos alguns exemplos, colhidos aleatoriamente.

EMPREGAR MUITO ARTIGO LEVA AO DESASTRE

“Não é por um acaso que Itabuna ficou sendo a cidade mas (sic!) violenta do país”, diz um blog; “Quero deixar claro que se por um acaso inaceitável…”,  escreve colunista de Ilhéus, comentando a ideia gaiata de  anexar o  Salobrinho a Itabuna. Outro articulista, de Itabuna, titula seu arrazoado como “O direito de se ter uma opinião”. Mais curioso é que “O direito de se ter uma opinião” poderia, com lucro para o estilo, ser reduzido a “Direito de opinião”. Sobre os artigos definidos, falaremos num dia desses – mas adiantemos que tal categoria tem um quê de bebida alcoólica: se usar muito, o desastre é certo.

HÉLIO PÓLVORA E A LINGUAGEM ECONÔMICA

O texto econômico, de um mestre, da linha direta de Graciliano Ramos: “O coronel sacou o relógio da algibeira, em gesto maquinal. Sol a pino, de meio-dia. Ao longe, além das pastagens, os cacaueiros tinham um jeito tristonho de árvores murchas. O coronel cumprimentou o Surdo com um aceno de cabeça, depois de franzir a testa na tentativa de reconhecer-lhe a fisionomia e o nome. Inútil, eles se viam pela primeira vez. O Surdo desejou-lhe boas-tardes – e o coronel, devolvido o relógio chapeado de ouro à algibeira do colete de casimira inglesa, caminhou para o armazém, seguido por um pequeno séquito de curiosos” (Hélio Pólvora – Inúteis luas obscenas/2010).

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A LITERATURA ESTÁ PRESENTE NO DIA A DIA

A literatura, muitas vezes desdenhada, está presente na vida brasileira, bem mais do que admite nossa vã filosofia. Há frases que integram o imaginário nacional, muitas vezes citadas sem referência a origem e autoria. Exemplos que me vêm à mente: “Vai-se a primeira pomba despertada”, verso que já utilizei, emprestado de As pombas, de Raimundo Correa (foto) – que, contam, detestava este soneto, de tanto que o ouviu recitado; volta e meia alguém, falando de nossa língua a chama de “Última flor do Lácio” – sem pagar direitos autorais a Bilac; “A mão que afaga é a mesma que apedreja” é lembrança de Augusto dos Anjos, empregada à larga.

MÁRQUEZ, QUEM DIRIA, VIROU LUGAR COMUM

O repetido “mudaria o Carnaval ou mudei eu?” é Machado de Assis, que também popularizou o círculo vicioso; Gabriel García Márquez teve seu título Crônica de uma morte anunciada /1981 transformado em lugar-comum pela mídia pouco pensante, a ponto de não aguentarmos mais a expressão “tragédia anunciada”, apresentada como novidade.  O então ministro da Saúde (até tu, Tinhorão?), escolheu aproximar-se mais do título, ao comentar uma epidemia de dengue em Itabuna. “O que houve ali foi uma crônica da morte anunciada”, disse o lusitano. Em alguns veículos encontramos, em tempo de dengue exacerbada, verdadeiras pérolas do gênero.

NUNCA SE VIU TANTA “TRAGÉDIA ANUNCIADA”

“De acordo com os representantes do Ministério Público, o problema que atinge na região (sic!) foi uma tragédia anunciada”, diz um blog; “O que está acontecendo em Ilhéus é uma tragédia anunciada, proclama outro; de bem antes (2008), n´O Globo: “Essa tragédia porque passa o Rio foi muito anunciada”; a Veja (outrora modelo de linguagem jornalística),  na mesma data e trilha: “A situação do Rio é, nada menos, do que uma tragédia anunciada” e, adiante,  empolada: “quando a tragédia anunciada enfim se impõe como realidade…”. O governador, para não ficar atrás, também definiu a enchente no Rio como uma tragédia anunciada.

VINÍCIUS, SHAKESPEARE, ROMEU E JULIETA

Como se vê, nossa mídia tem mais tragédia do que o antigo teatro grego – e eu, sem pensar, me vali de uma expressão também clássica, numa paródia de  “Até tu, Brutus!”, atribuída a Júlio César (ano de  44 a. C.) e popularizada no teatro de Shakespeare. Aliás, o bardo inglês é responsável pela apelido de sujeito apaixonado:  Romeu (referência ao protagonista de Romeu e Julieta). “Depois de um longo e tenebroso inverno” é verso de Luis Guimarães Jr. que já nos incomoda, de tão recidivante; e “De repente, não mais que de repente” é da lavra de Vinícius, muito lembrado, mas que perde feio para “que seja infinito enquanto dure”.

JOIA RARA: ELLA CANTANDO EM PORTUGUÊS

O LP duplo (alguém ainda sabe do que estou falando?)  Ella abraça Jobim foi a grande surpresa fonográfica de 1981. Não é o melhor Ella Fitzgerald que já se ouviu, mas é um buquê de 19 canções de Tom, selecionadas por Norman Granz  (que o chamou de The Antônio Carlos Jobim songbook), na voz de uma das maiores cantoras de jazz de qualquer tempo, segundo a melhor crítica. Apesar de as letras vertidas para o inglês, chama a atenção o esforço que a grande diva faz para cantar alguns trechos em língua portuguesa, o que torna ainda mais singular a homenagem a Tom Jobim.

COM RISOS INOCENTES, SONOROS PALAVRÕES

E é Tom quem explica ter ouvido da cantora que ela teve um padrasto português, homem desinibido, que, como bom lusitano, “costumava desabafar em baixo calão”. Como prova de “conhecimento”, a cantora recitou, na maior inocência, e para a vermelhidão do maestro brasileiro (ou Brasileiro!), todos os palavrões de que ainda se lembrava (que não eram poucos!), enquanto “ria, com seus olhinhos inocentes”. É ainda o pai da Bossa Nova quem depõe: ”Percebi que Ella não sabia o significado daqueles tão sonoros palavrões, mas, de qualquer forma, eles devem tê-la ajudado para cantar em Português”.

HERANÇA: CAMARÁ, CAMARADA, CAMARADINHO

Camará é termo largamente empregado nas rodas de capoeira, sem o sentido registrado nos dicionários. Creio que seja uma apócope (“perda de sílaba final”) de “camarada”, mas o termo tem assento em documentos de cultura afro que não a capoeira. Os Tincoãs, extraordinário grupo vocal do Recôncavo, lembra uma estranha forma do falar afro-baiano, em A força da jurema: “Meus camarada, meus camaradinho,/ meus camarada, meus camaradinho,/ se quer que eu dance/ toque um pouquinho!” – enfim, são os surpreendentes caminhos da indomável língua brasileira. Clique e veja como Ella se sai nesse meio: Água de beber (Tom-Vinícius).

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

IMPRENSA, CRISE E SALTO DE QUALIDADE

Ousarme Citoaian

Esta coluna está no ar há um ano, o que possibilita a quem a acompanha saber que temos alguma tendência a meter a mão em cumbuca, cutucar onça com vara curta e mexer em casa de abelhas africanizadas. Então, mexamos, como disse a dançarina: o signatário deste espaço tem, com mais freqüência do que devia, sido chamado a opinar sobre o futuro da imprensa, hoje chamada mídia impressa – e dado uma resposta provocadora: esse segmento não está necessariamente em extinção, como muitos apregoam, mas vivendo uma crise que o mostra maduro para o salto qualitativo que precisa ser dado.

O FIM PRÓXIMO, MELANCÓLICO E INGLÓRIO

Temos dito (e ainda não mudamos de pensar) que parte dos jornais sobreviverá e parte está condenada a um final melancólico. No Sul da Bahia, onde o setor não tem recebido nenhuma espécie de investimento – ao contrário, vê seu capital de giro escapar pelo ralo da irresponsabilidade – a morte da comunicação impressa parece iminente, implacável, inexorável e irreversível. Sem atualização das linhas editoriais, sem investimentos em tecnologia e, sobretudo, em pessoal, o fim se aproxima, e estamos destinados a engrossar as estatísticas dos mortos sem glória na guerra contra a internet.

NOTÍCIA COM QUALIDADE DE PÃO DORMIDO

Nossos jornais se erguem sobre uma estratégia pouco resistente: acreditam que seu público está disposto a comprar notícia como se fosse pão mofado; que esse público não se incomoda de ver a mesma matéria (em geral produzida por órgãos públicos) em todos os jornais; e que os leitores gostam de publicações que se fazem de boletins partidários à direita ou à esquerda, quando deveriam fornecer análises mais ou menos isentas das campanhas políticas. Logo, faz-se uma aposta suicida na falta de inteligência do leitor, quando a lógica recomenda o contrário. Que isso vai dar errado, todo mundo faz que não sabe.

CIDADÃOS CUMPREM A LEI; BANDIDOS, NÃO

Dia desses, em tom aberto de desafio que aceitei de bom grado, me perguntaram se eu era cidadão. Respondi que me esforçava para sê-lo. “E o que é ser cidadão?” – insistiram, agora com uma pergunta de resposta mais difícil. Improvisei algo que, a meu juízo, diferencia cidadãos e bandidos (sejam estes do morro ou da cidade, descalços ou de colarinho engomado, andando de buzu ou em carro de luxo): o cumprimento da lei. É a lei que iguala as pessoas, dá a todas elas os mesmos direitos e deveres, não é feita para servir uns e prejudicar outros. O dito cidadão que não cumpre a lei, bandido é, pois a ele se equipara em comportamento. O substantivo “fora-da-lei” lhe cai muito bem.

VIVEMOS EM BAIXO NÍVEL DE CIDADANIA

Tentei me explicar, com uma espécie de decálogo do cidadão, que vai aqui repetida, não exatamente na ordem em que foi apresentada naquele momento. Cidadão, dentre outras coisas, 1) paga seus impostos, 2) não dirige alcoolizado, 3) não compra CD/DVD pirata, 4) usa cinto de segurança, 5) não joga no bicho, 6) não faz “gato” (serviços de água e/ou energia elétrica), 7) não ultrapassa em faixa dupla, 8 ) não contrabandeia drogas, armas, bebidas ou soja transgênica, 9) respeita a faixa de pedestres e 10) não ”invade” sinal vermelho. Se acaso você disser que não conhece muita gente que proceda assim, estará atestando o indigente grau de cidadania em que vivemos. Mas não me culpe.

O QUE CONTA É LEVAR VANTAGEM EM TUDO

É claro que há outros metros para avaliar o comportamento cidadão (jogar lixo na rua, e dirigir falando ao celular, por exemplo) e também é preciso consciência sobre os direitos, cobrar os compromissos do governo, a clareza de que os serviços públicos não constituem doação de governante bonzinho, mas obrigação do cargo ocupado. Nesta parte, entretanto, estamos bem: mesmo àqueles que não cumprem nenhum item do “decálogo” acima, não falta disposição para criticar todo tipo de atitude oficial. Embora use abertamente a lei da vantagem, o crítico exige pureza do governo. Nesse quesito, o brasileiro costuma valer-se de uma fórmula velha e calhorda: “Faça o que eu mando, não faça o que eu faço”.

O ADJETIVO EM BUSCA DE UM LUGAR AO SOL

Os que escrevem habitualmente dividem preferências quanto ao adjetivo: uns o execram sem o menor sinal de compaixão, pregando reduzir a zero sua presença no texto; outros o aspergem aleatoriamente na página, atrelando-o a qualquer substantivo descuidado. Talvez seja possível encontrar-lhe um lugar, o meio termo, o uso quando necessário. Graciliano Ramos, escritor de estilo “descarnado”, usava esse penduricalho no lugar certo, no momento aprazado. “Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes”, diz ele abrindo magistralmente Vidas secas (citado aqui há poucos dias). Na mesma frase, dois adjetivos certeiros e indispensáveis.

O TROPEL DA BOIADA TOCADA  A ADJETIVOS

Ao descrever a marcha dos bois em “O burrinho pedrês” (Sagarana), Guimarães Rosa (foto) constroi um período cheio de adjetivos relativos ao gado: Galhudos, gaiolos, estrelos, espécios, combucos, cubetos, lobunos, lompardos, caldeiros, sambraias, chamurros, churriados, corombos, coruetos bocaleos, borralhos, chumbados, chitados, vareiros, silveiros… E os toscos da testa do mocho macheado, e as rugas antigas do boi corualão… Uma fartura de dez aliterações, em catorze versos pentassilábicos, se não errei a contagem. Mas o autor ainda não esgotou sua riqueza vocabular para essa impressionante descrição da boiada em movimento.

“DEFEITO” RECEBE ELOGIOS DE GRACILIANO

Algumas páginas à frente, voltamos a ouvir o rumor dos cascos no chão, agora marcado por mais dezesseis versos de cinco sílabas: As ancas balançam, e as vagas de dorsos das vacas e touros, batendo com as caudas, mugindo no meio, na massa embolada, com atritos de couros, estratos de guampas, estrondos e baques, e o berro queixoso do gado junqueira, de chifres imensos, com muita tristeza, saudade dos campos, querência dos pastos de lá do sertão… Comentando estes trechos, Graciliano Ramos, tido como inimigo dos adjetivos, percebeu em Rosa “certa dissipação naturalista”, mas ressaltou: “Se isto é defeito, confesso que o defeito me agrada”.

MULHERES DE NOEL, OU O AMOR EM VERSOS

Já falamos de Três apitos, samba que Noel Rosa fez para Josefina (a Fina), operária de uma fábrica de botões de madrepérola, que o poeta entendeu ser a fiação Confiança. Mas Fina (foto) é apenas uma das chamadas mulheres de Noel, as musas imortalizadas em versos. Antes dela, Clara Correa Neto, namorico dos tempos de colégio, ganhara Não deixe morrer; mais tarde, Júlia Bernardes (Julinha), diferente de Clara e Fina, maquiagem pesada, bebida idem, sem recatos, anti-romântica: é a musa das mentiras e falsidades nas regras baixas do jogo do amor. Com ela o poeta exercita a ironia e externa seu sofrimento em Vai para casa depressa, Meu barracão, Pra esquecer, Cor de cinza e Feitio de oração.

PESSIMISMO QUE LEMBRA MACHADO DE ASSIS

Esta é a fase mais amarga do poeta: em Vai para casa depressa (com Francisco Matoso) ele fala da disputa de Julinha por “dois malandros de fibra”, dizendo que tal mulher não merece um duelo, e que “Só há uma solução:/ Pra que brigar à-toa?/Basta tirar cara ou coroa/ Com um níquel de tostão”. O otimismo não é recuperado em Cor de cinza: “Com seu aparecimento/ Todo o céu ficou cinzento / E São Pedro zangado”, e muito menos em Pra esquecer, em que se vislumbra um traço de pessimismo à moda de outro famoso carioca: “Prá esquecer a desgraça/ Tiro mais uma fumaça/ Do cigarro que filei/ De um ex-amigo/ Que outrora sustentei”. De toda forma, é pouco provável que Noel tenha lido Machado de Assis.

NOEL DESCOBRE O NOVO CAMINHO DO SAMBA

A produção de Noel em 1933 é fantástica. Todos conhecem umas dez canções desse período, algumas gravadas na cabeça do público interessado em MPB: Três apitos (já resenhada aqui), Onde está a honestidade?, Não tem tradução, Quando o samba acabou, Rapaz folgado (resposta a Wilson Batista) e Feitio de oração. A conturbada fase Julinha teve um intervalo, quando Noel se adoça, abandona a ironia cruel, deixa de ser o amante ferido e volta a ser apenas o poeta genial: nasce Feitio de Oração (sobre melodia pré-existente de Vadico). Sociólogos e musicólogos têm-se debruçado sobre Feitio, exaltando o novo caminho aberto ao samba brasileiro, o feliz casamento da poesia com a música.

“ÚLTIMO DESEJO”: O TESTAMENTO DO POETA

Em 1937, aos 26 anos, tuberculoso, magro e frágil, Noel está morrendo em casa, ao lado de Lindaura, sua mulher (foto, de 1987), e outros familiares. Às portas da morte, ele não esquecera sua grande paixão, Ceci – que levará pela vida afora o testamento cruel do poeta (“Se alguma pessoa amiga/ pedir que você lhe diga/ se você me quer ou não…”), Último Desejo. São também desses derradeiros dias Eu sei sofrer e Pra que mentir (outro “recado” à amada). Às 16h30 daquele 4 de maio, Noel falou qualquer coisa com seu irmão Hélio, fechou os olhos e morreu, aos 26 anos, quatro meses e 23 dias. Na casa ao lado (do músico Vicente Sabonete), cantava-se o partido-alto De babado (Noel-João Mina). Aqui, Último desejo, com Nelson Gonçalves.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

ARMANDO E O CUIDADO COM AS PALAVRAS

Ousarme Citoaian

O caso eu conto como o caso me foi contado: perguntaram a Armando Oliveira (foto), que ganhara várias vezes consecutivas o troféu Bola de Ouro como melhor cronista esportivo, se ele era melhor do que os outros colegas. A provocação não tirou do sério o elegante jornalista, que nunca pisava na bola. “Não é que eu seja melhor do que ninguém. É que sou muito cuidadoso com o que digo”, respondeu – deixando uma lição para todos nós profissionais do ramo. Em termos de qualidade do texto não me parece que o “saber” diferencie os jornalistas, pois todos conhecem as mesmas regras de estilística; o que os diferencia é o cuidado com o que fazem.

ESTULTICE LEONINA QUE A TODOS DRIBLOU

Leio em edição recente do bom caderno Esporte Clube (A Tarde), no alto da página, um título absolutamente inusitado: “Por renda três vezes maior, Leão luta pela sua salvação”. Depois de nada entender, pus-me a cismar sobre o que levaria um profissional a escrever tamanha estultice, como tamanha estultice logrou driblar o editor da página e chegar às bancas e se quem produziu tamanha estultice sabe que produziu tamanha estultice. Só encontro resposta para esta última: sabe, sim. Escreveu dessa forma por não ter captado a lição de Armando (atenção: entendi que o Leão do título infeliz é o infeliz Vitória).

POR AQUI, NÃO GANHOU NEM NOME EM BECO

Armando Oliveira nasceu em Água Preta/Uruçuca e fez carreira em Ilhéus (Banco do Brasil e Rádio Cultura), transferindo-se já maduro para a Rádio Sociedade da Bahia, na capital. Cobriu cinco Copas do Mundo como comentarista e recebeu oito vezes o Bola de Ouro. Camaçari batizou de Armando Oliveira seu estádio, os melhores de cada temporada do futebol baiano recebem o troféu Armando Oliveira e a sala de imprensa do Carnaval de Salvador, montada em 2005 pela prefeitura, chama-se Sala de Imprensa Armando Oliveira. Ali em Ilhéus ele não é nem nome de beco, e em Uruçuca é um desconhecido ilustre. Coisas nossas, como diria Noel.

UM ANIMAL EM EXTINÇÃO CHAMADO LEITOR

O escritor Flávio Moreira da Costa dá a receita em Modelo para morrer (Record/1999), com o personagem Wallace Jones, que ensina a regra de ouro do ofício de escrever: “envolver e não chatear esse animal desconhecido e em extinção chamado leitor”. Detalhista, Jones, autor de livros policiais, acrescenta que “é importante pegar o leitor pelo colarinho logo de início e levá-lo a acompanhar o livro até o final”. Quem encontra um leitor encontra um tesouro, disso sei eu. Mas como pegá-lo pelo colarinho e levá-lo ao final do texto é que é o “x” do problema” (outra referência proposital a Noel centenário). Na escrita também parece viger o preceito bíblico de que muitos são chamados e poucos escolhidos, ou, como diria o mano Cae: quem lê tanta notícia?

JUAZEIROS VERDES NA PLANÍCIE VERMELHA

O texto frouxo, cheio de circunlóquios, evasivas, negaças, lugares-comuns e obviedades serve apenas a leitores ociosos, quando os aeroportos estão em crise. Econômico, direto, despojado, Graciliano Ramos começa Vidas secas assim: “Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos”. Pronto. Pegou o leitor. Outros exemplos: “A síndica cheirava muitíssimo bem. Foi a primeira coisa que percebi ao entrar no edifício” (Flávio Moreira da Costa, obra citada); “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo” (Gabriel García Márquez, Cem anos de solidão).

BURRINHO PEDRÊS VINDO DE NÃO SEI ONDE

“Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando legítima defesa – e qual defesa seria mais legítima? – logrei ser absolvido por cinco votos contra dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris” (Campos de Carvalho, A lua vem da Ásia); Guimarães Rosa, abrindo Grande sertão: veredas: “Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja”; outra, de O burrinho pedrês: “Era um burrinho pedrês, miúdo e resignado, vindo de Passa-Tempo, Conceição do Serro, ou não sei onde no sertão”; e mais uma, da novela Duelo: “Turíbio Todo, nascido à beira do Borrachudo, era seleiro de profissão, tinha pelos compridos nas narinas, e chorava sem fazer caretas; palavra por palavra: papudo, vagabundo, vingativo e mau”.

O LEITOR NÃO TEM PIEDADE DO MAU TEXTO

Não resisto a mais referências, colhidas ao acaso: “Os primeiros dragões que apareceram na cidade muito sofreram com o atraso dos nossos costumes” (Murilo Rubião, Os dragões); ou Ruy Castro, em Tempestade de ritmos: “Agora que Miles Davis está morto, quem reclamará seu corpo? “Ainda me lembro daquele amanhecer em que meu pai me levou pela primeira vez para visitar o Cemitério dos Livros Esquecidos” (Carlos Ruiz Zafón, A sombra do vento). Para encerrar a pequena mostra, Monteiro Lobato, em O colocador de pronomes: “Aldrovando Cantagalo veio ao mundo em virtude dum erro de gramática”. Está certo Wallace Jones: se as frases iniciais não segurarem o animal em extinção chamado leitor, o texto será abandonado, sem piedade.

DIPLOMA, MELINDRES, MÁGOAS E RANCORES

Sinto que uma discussão estéril e rasteira tenha nascido de um comentário desta coluna (na semana passada), a propósito da atividade jornalística no Sul da Bahia. Não tratamos dessa cretina dicotomia entre ter ou não ter diploma (ser contra o diploma de qualquer curso é uma estupidez a cujo luxo não nos damos): deploramos que a Fenaj casse a pedradas os profissionais não diplomados, quando estes exercem honestamente (nem sempre, é verdade!) sua atividade e que os veículos abriguem “colunistas” (bissextos ou não) a quem não remuneram – sugerindo que eles recebem “por fora”, numa moeda podre, não publicável. Não é nossa intenção servir de canal para suspeitos melindres, mágoas adormecidas e rancores mal resolvidos.

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NOEL É VÍTIMA DE CANTORES DESLEIXADOS

Fizemos referência a erros da cantora Elizeth Cardoso na interpretação de Três apitos, e parece chegado o tempo de retomar o assunto, para que não fiquemos no campo da difamação. Antes, é conveniente dizer que erros em letras da MPB não são tema para uma notinha nesta coluna, mas motivo para livro, e livro grande, alentado, livrão (ou livralhão, como preferem os eruditos lusitanos). São muitos os exemplos, em várias épocas, com os mais diversos letristas. Por ser Noel um dos autores que mais “visitei”, o aponto como a maior vítima desse desleixo dos intérpretes. Mas vamos, por enquanto, à acusação contra a extraordinária Elizeth, o que faço sem nenhum prazer.

MESMO COM OS ERROS, UM MOMENTO ÚNICO

O poeta escreveu “Mas você anda/ sem dúvida bem zangada/ ou está interessada/ em fingir que não me vê” e Elizeth leu “… sem dúvidas bem zangada/ E está interessada…”; mais adiante, um erro na rima famosa: “Mas você não sabe/ que enquanto você faz pano/ faço junto do piano/ estes versos pra você” foi gravado como “Mas só não sabe/ que enquanto você faz pano/ Faço junto de um piano/ esses versos pra você”; para encerrar, “Nos meus olhos você lê/ como eu sofro cruelmente” saiu “Nos meus olhos você vê/ que eu sofro cruelmente”. Apesar das derrapagens (lembrar que era um show ao vivo) esta gravação de Três apitos, com Elizeth e Jacob (ao bandolim), é um momento apoteótico da MPB.

DE COMO ARACI DE ALMEIDA PISOU NA BOLA

Ao que me consta, Noel não ouviu Último desejo em disco: ele morreu em maio de 1937 e Araci de Almeida só fez a gravação em junho. Mas isso é da minha memória, informação sujeita àquelas já famosas chuvas e trovoadas desta coluna, não tive como conferir. “Araci de Almeida é, na minha opinião, a pessoa que interpreta com exatidão o que eu produzo”, disse Noel  em 1936,  numa entrevista. Gosto de pensar que ele nunca ouviu o erro de Araci, que passou a ser repetido por futuros intérpretes: o poeta escreveu “Às pessoas que eu detesto/ diga sempre que eu não presto/ e que meu lar é o botequim” e Araci, cabeça de vento, gravou “… e que o meu lar é um botequim”.

NOEL MORREU INOCENTE DO ERRO FAMOSO

Olívia Byington fez em 1997 um CD antológico, A dama do Encantado, reeditando gravações de Araci, com muito Noel, é óbvio (das vinte faixas, dez são dele). Preocupada em ser fiel ao texto, Olívia chama a atenção para o famigerado erro e explica, didaticamente, a distância entre o botequim (conforme escreveu Noel) e um botequim (como Araci tornou “oficial”): se eu digo que minha casa é o botequim, digo que “moro” no bar; se falo que minha casa é um botequim, estou dizendo que minha casa é uma zona… Ainda bem que Noel, também cantor, morreu sem saber o que sua cantora preferida aprontou. Voltaremos ao tema. Por enquanto, ouçamos Maria Betânia, com Feitio de oração (com erros, é claro).


(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

QUEM TEM FÉ EM DEUS VAI “À CALIFÓRNIA”

Ousarme Citoaian

“Carro despenca de barranco na Califórnia” – diz uma manchete do Pimenta, em edição recente. E eu festejo a construção da frase, pois ela vai de encontro a uma tendência de chamar aquele bairro de o Califórnia, assim como certas pessoas têm coragem de escrever o Fátima. Eu sei que vocês vão dizer que é tudo mentira, que não pode ser, mas já li o texto de um redator (aliás, redatora, o que vai deixar mais alegre os guerreiros da igualdade gramatical) em que o Instituto Nossa Senhora da Piedade era tratado como o Piedade! É uma escrita novidadeira, elitista, que nada tem a ver com a evolução da língua, pois não nasce no povo, mas nas redações, com gente mal informada.

AGRESSÃO À ESPONTANEIDADE DAS RUAS

Quem já teve contato com o falar espontâneo das ruas, praticado pelas camadas mais simples da população, aquelas que se valem do nosso precaríssimo transporte urbano (para se ter um metro comparativo), sabe que nenhum indivíduo temente a Deus chamaria a Califórnia de o Califórnia.  “A Califórnia está com as ruas esburacadas”, denuncia o crítico; “O ônibus da Califórnia já passou?”, pergunta o distraído. Quanto a o Piedade, é sandice estratosférica. Há anos e anos fala-se em ir à Piedade, estudar na Piedade, as irmãs (ursulinas) da Piedade e outras coisas. A propósito, o jornalista Maurício Maron foi o primeiro homem que teve a matrícula aceita pela Piedade (até então, o instituto era exclusivamente feminino).

TRÊS VERSOS E UM ABALO ÍNTIMO

Na edição passada, parece que no frenesi de criticar a prosódia de haicai, esqueci-me do principal: a referência a esse tipo de poesia – ainda que a voo de pássaro, como costumamos tratar os assuntos. Vá lá: o haicai é um poema de origem japonesa, sóbrio e minimalista, formado por três versos, respectivamente de cinco, sete e cinco sílabas poéticas. Comparando com o soneto, como este tem 14 versos (em geral de dez ou doze sílabas), nele caberiam, sem superpopulação, quatro haicais e meio. O exercício consiste exatamente em aprisionar em tão poucas palavras uma mensagem, em geral profunda, que nos faz pensar. Creio que, ao ler um (bom) haicai, sofremos um abalo íntimo.

MODELO QUE VEM DO SÉCULO XVII

Há quem o adote sem rimas (primeiro e terceiro versos), como um dos desbravadores do gênero no Brasil, Afrânio Peixoto (nasceu em Lençois e morou em Canavieiras). Eu os prefiro rimados, à moda de Guilherme de Almeida, mas minha opinião vale muito pouco.  Na origem do haicai está o poeta Bashô, no século XVII, para quem o poema era uma prática espiritual, ligada ao zen-budismo. Na região, há haicaístas bissextos e pelo menos um que cultuou o gênero como principal manifestação artística. Entre os primeiros estão Gil Nunesmaia e Cyro de Mattos (de Itabuna) e Paulo Lopes (de Ilhéus). Mas o grande “profissional” entre nós é o ilheense Abel Pereira (1908-2006).

“GEMAS RARAS DA POESIA ORIENTAL”

Abel, com Colheita, de 1957, foi (simplesmente) o terceiro autor brasileiro a publicar livro de haicais, seguindo-se ao também baiano Oldegar Vieira e ao carioca Osório Dutra. A acolhida foi entusiástica, por parte de Manuel Bandeira, Cassiano Ricardo, Abigar Renault, Octávio de Faria, Ledo Ivo e o português Fernando Namora, dentre outros. Malba Tahan destacou que “nas páginas de Colheita cintilam as gemas raras da poesia oriental”, e Francisco de Assis Barbosa, da Academia Brasileira de Letras, sentenciou: “Ninguém pode disputar a primazia da arte de composição de haicais ao baiano Abel Pereira”. O poeta publicou ainda Poesia até ontem, Mármore partido e Haicais vagaluminosos .

BAR DE ITABUNA NA NOITE DE SÁBADO

Baco adora quando desço a praça
Adami, caminho do Elite Bar
Lá (no Bar de Emetério), busco o morno
canto, próximo às mesas de sinuca;
observo os jogadores do apostado,
os azes das tacadas. O maior,
Zito Maleiro, já tuberculoso,
captura a solidão da bola-sete:
o infinito resvala sobre o verde
espaço de luz acabando o jogo (…)

Sorvo o vinho do Porto, calmamente.
Atento o ouvido para o andar de cima,
ouço o ruído abafado da roleta,
na sensação das coisas clandestinas.
Chegaram os amigos. Planejamos
o que faremos no frescor da noite.
Saímos.  Vamos pela rua da Lama,
em direção à zona, ao bar de Juca (…).

DOMÍNIO DE METÁFORAS E IMAGENS

Florisvaldo Mattos  (foto)evoca no poema “Itabuna, 1950” (ilustrado por quadro de Walter Moreira) um tempo ido e vivido na cidade hoje centenária. O texto é de A caligrafia do soluço & poesia anterior, de 1996. Nesse livro, o poeta é saudado por João Carlos Teixeira Gomes como num autor de completo domínio das estruturas formais e da construção rigorosa, “que refletem a eficácia da sua linguagem poética, plena de poderosas metáforas e imagens dinâmicas”. Além da literatura, Forisvaldo, nascido em Uruçuca (Água Preta do Mocambo, 1932), milita no jornalismo, tendo começado as duas atividades na região cacaueira, com trabalhos publicados em A voz de Itabuna e no Diário da Tarde, de Ilhéus.

EUCLIDES DA CUNHA E A PONTE QUE CAIU

Um site encontrado ao acaso me lembra de umas curiosidades sobre escritores e me informa de outras, que eu não conhecia. Ei-las, para quem gosta de detalhes da vida alheia: Goethe escrevia de pé, para isso mantendo em sua casa uma escrivaninha alta; Pedro Nava (foto), o memorialista mineiro, parafusava sua mesa, para que ninguém a tirasse do lugar; Gilberto Freyre não se dava bem com aparelhos eletrônicos – dizem que não sabia sequer ligar a televisão; Euclides da Cunha levou três anos construindo uma ponte em São José do Rio Pardo (SP), e a ponte ruiu, alguns meses depois de inaugurada. Ele a refez e, por via das dúvidas, abandonou a carreira de engenheiro.

GRACILIANO RAMOS E O LIVRO DE CABECEIRA

Machado de Assis (pobre, mulato, gago, míope, epiléptico e gênio), quando escrevia Memórias póstumas de Brás Cubas teve uma crise intestinal, complicando sua visão (que já não era boa). Sem poder ler nem escrever, ele ditou grande parte do romance para sua mulher, Carolina. Graciliano Ramos, comunista e ateu, tinha na Bíblia uma de suas leituras favoritas, para observar os ensinamentos e os elementos de retórica ali contidos. Carlos Drummond (foto) tinha, entre outras manias, a de picotar papel e tecidos. Certa vez, estraçalhou uma camisa nova em folha do neto, tendo de comprar outra. “Se não fizer isso, saio matando gente pela rua”, disse, com um sorriso.

UM LONGO SILÊNCIO DE PAI E FILHO

Érico Veríssimo era quase tão introspectivo quanto o filho Luís Fernando, também escritor. Numa viagem de trem a Cruz Alta, Érico fez uma pergunta que Luis Fernando respondeu quatro horas depois, quando chegavam à estação. Monteiro Lobato adorava café com farinha de milho e tanajura torrada (argh!). Manuel Bandeira (foto) contava que teve um encontro com Machado de Assis, aos dez anos, numa viagem de trem. Puxou conversa e ouviu que Machado gostava de Camões. Bandeira recitou uma oitava de Os Lusíadas que o mestre não lembrava. Na velhice, confessou: era mentira. Tinha inventado aquela história para impressionar os amigos.

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A CANÇÃO COM 38 INTERPRETAÇÕES

“Summertime” é um clássico do jazz que nasceu na ópera Porgy and Bess (os dois personagens principais do libreto de Ira Gershwin, sobre texto original de DuBose Heyward). Não falo da peça de trajetória polêmica, mas da curiosidade do confronto entre o canto erudito e jazzístico na mesma canção. O tema é pouco encontrado como peça “erudita”, ao contrário de sua versão jazz ou pop. Conheço gravações de Janis Joplin, Ella Fitzgerald, Armstrong, Sarah Vaughan, Frank Sinatra e outras. Soube que há também um registro de Cazuza (foto), mas nunca o ouvi. Críticos falam que o mercado dispõe de 38 gravações diferentes de “Summertime”.

ENCONTRO DO JAZZ COM O “ERUDITO”

Pouco afeito ao “erudito”, só agora descobri a versão de Charlotte Church para “Summertime”. Eu não sabia que a jovem soprano inglesa esteve na trilha sonora de Terra Nostra (possuo até uma gravação de “Tormento d´amore”, dela com o brasileiro Agnaldo Rayol, que, parece-me, é cantada na novela). Desculpem minha ignorância, mas eu não vejo telenovelas, nem sob tortura – daí não saber se “Summertime” fez parte da trilha. Vamos aproveitar para comparar duas das muitas leituras dessa famosa canção, nas vozes de Charlotte Church e Sarah Vaughan (uma de cada vez!), sem que eu me dê ao trabalho de declinar minha preferência.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

A SOPRANO QUE GOSTA DE ROCK

Aos noveleiros, o que talvez seja uma curiosidade: Charlotte Church (foto), com todo seu vozeirão, é uma (linda) moça de 24 anos, que canta desde os 11. É “normal” para sua idade: gosta de Alanis Morissette, Madonna, Marcv Anthony, Lauryn Hill e outros desconhecidos para mim, sem a veneração ao repertório “sério”, que se poderia supor. “Raramente ouço música clássica, gosto mesmo é de rock”, diz ela, para minha surpresa – e explica que canta clássico devido a seu timbre de voz. Charlotte se descobriu por acaso, quando foi convidada, a participar de um programa de auditório, no País de Gales, onde nasceu e vive. Bombou, é claro. Já se apresentou até numa festa de Natal do Vaticano, sob João Paulo II, em 1998. Se lhe apraz, veja/ouça as duas versões de “Summertime”.


(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

ALFABETIZADO QUE NÃO LÊ, ANALFABETO É

Ousarme Citoaian
Há algum tempo, em Itabuna, uma professora de alfabetização infantil, na solenidade de “licenciatura” de seus alunos, recomendou aos mesmos que lessem. “A gente se alfabetiza para ler, pois, se não fosse assim, não valeria a pena o meu esforço, nem dos pais de vocês, nem de vocês”. O discurso me emocionou. Se não o aplaudi de pé, solitário, solidário e esperançoso, foi com receio de ser internado com urgência em nosocômio psiquiátrico credenciado pelo SUS. Está certíssima a professora: se não leio, para quê me alfabetizei? A alfabetização é irmã siamesa da leitura e prima carnal da escrita.

A MENOR DISTÂNCIA ENTRE DOIS PONTOS

Tenho dificuldade para explicar o assunto. Mas imagino que o alfabetizado que não lê é como aquele indivíduo que cursa a faculdade, licencia-se, por exemplo, em Direito e, depois, monta uma loja de calçados. Com todo respeito, para ter êxito com uma empresa comercial necessita-se de alguma técnica (que pode ser apreendida na prática da observação) e talento para os negócios. Então, ir à escola para ser comerciante é dissipar inteligência, perder tempo importante a estudar o que não interessa, usar a linha curva para ir de um ponto a outro, quando a reta é a menor distância.

CAMINHO PARA A TRANSFORMAÇÃO

A propósito de professores, aproveito para registrar dois textinhos, com sugestão de que pensemos a respeito deles: “Não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo, torná-lo sério, com adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor. Se a educação sozinha não transformar a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”. Falou e disse o educador brasileiro Paulo Freire (foto); “O professor medíocre conta; o bom professor explica; o professor superior demonstra; o grande professor inspira”, sentenciou Arthur Ward, administrador americano.

HOJE É DIA DO PROFESSOR

Conservadora e preconceituosa (isto está comprovado em vários estudos), a sociedade brasileira tem ojeriza ao novo. Certos setores sofrem ataques agudos de urticária tão logo entram em contato com alguma coisa fora da mesmice. Isto é perceptível também quanto ao conhecimento. Todos nós já ouvimos a expressão calhorda “quem sabe faz; quem não sabe, ensina”. Uma grosseria contra o professor. Se é possível graduar as profissões, esta fica ao lado ou à frente do que há de mais importante. Vá o comentário por conta do Dia do Professor. É 15 de outubro? E daí? Façamos de conta que é hoje também.

COISAS DE MARSHAL MCLUHAN

Ligo a tevê e, num lance de má sorte, dou de cara com um ilustre especialista em nutrição, explicando as excelências da vitamina Ê. Assim mesmo: vitamina Ê. “A vitamina Ê faz, a vitamina Ê acontece”, e por aí segue. As vitaminas são identificadas por letras (A, B, C, D, E e K, com ligeiras variações) – e não existe em língua portuguesa a letra Ê. Interligada pela tecnologia – veja conceito de aldeia global de McLuhan (foto) –, a sociedade brasileira parece condenada a repetir bobagens linguísticas que, dicionarizadas mais tarde, adquirem status de consagração. Mas continuam sendo o que são: bobagens.

DIFERENÇA ENTRE LETRA E FONEMA

Dizem os conhecedores da língua (aqueles que não têm disposição para “consagrar” babaquices) que esse Ê não é letra, mas fonema. A quinta letra do nosso alfabeto (também segunda vogal) chama-se E (com som aberto). Não se trata de implicância nem de regionalismo nordestino, mas da pronúncia correta. Vale para qualquer canto do Brasil. Quem fala Ê é paulista mal informado ou quem repete a televisão, como se ela fosse, mal comparando, a Bíblia. Assim, vamos chamar IBGÊ e não IBGÉ, sendo que aquele famoso colégio de Ilhéus (o I.M.E., na foto de Mendonça), baianamente dito IMÊÉ, passa a se chamar IMÊÊ. Lá ele!

PRECONCEITO ATINGE NOMES DE  MULHER

Marcos de Castro, aqui várias vezes referido, nos chama a atenção para o imenso preconceito que a gramática alimenta contra as mulheres. E destaca a questão dos nomes próprios, que me passara despercebida: “Boa parte deles nasce de nomes masculinos e só se tornam nomes de mulher quando recebem desinência feminina”. O jornalista e filólogo aponta uma exceção, aliás nome muito bonito, de sonoridade cristalina e origem “nobilíssima”: Mariana. Trata-se da justaposição de Maria e Ana (Nossa Senhora e sua mãe). De Mariana nasceu Mariano, uma formação rara.

EM CASA DE JOÃO, MULHER ERA JOÃOZINHO

Entre os romanos, as mulheres eram tão sem importância (tanto em casa quanto na sociedade) que muitos dos seus nomes eram somente diminutivos dos nomes masculinos. Agripina (de Agripa) e Messalina (de Messala) são os exemplos citados por mestre João Ribeiro. É algo que soa hoje tão ridículo quanto se a um homem chamado João correspondesse uma mulher batizada como Joãozinho. Ao acaso, alguns nomes que nasceram do masculino: Manuela, Getúlia, Paula, Lúcia, Júlia, Maura, Antônia, Célia, Fernanda, Márcia e Patrícia.

PATRÍCIA AMORIM É PRESIDENTA DO FLA

Patrícios eram os nobres romanos, a elite à qual se conferia alta dignidade, em determinado período. Mais tarde, o substantivo comum transformou-se em próprio, e de Patrício veio Patrícia (que nada tem a ver com as atuais patricinhas). Por falar nisso, Marcos de Castro sugere que a nadadora Patrícia Amorim reaja às tentativas de chamá-la de presidente, dizendo aos repórteres: “Por favor, sou mulher e mãe, e tenho o direito de ser tratada por uma forma feminina. Sou presidenta do Flamengo, não sou presidente”. Dá neles, Patrícia!

DA ARTE DE ESCREVER BEM

O pesquisador Jorge de Souza Araujo me espanta a cada página. Num dos seus livros mais recentes, Graciliano Ramos e o desgosto de ser criatura, vejo que Quebrangulo, onde nasceu o Velho Graça, significa “matador de porcos”, em quimbundo. Jorge aponta forte semelhança entre o autor de Vidas secas e o escritor e ativista italiano Antonio Gramsci (foto): os dois foram criticados pelos seus partidos comunistas (PCB e PCI) por “falta de vigor revolucionário”, estiveram presos, adoeceram na cadeia e voltaram à liberdade no mesmo ano (1937). Gramsci, vítima do fascismo de Mussolini; Graciliano, do de Getúlio. O brasileiro escreveu Memórias do cárcere; o italiano, Cartas do cárcere.

GRACILIANO RAMOS EPIGRAMISTA

Graciliano Ramos, o que surpreende quem lê sua prosa descarnada, fez incursões na poesia.  Ele disse que compunha sonetos “para adquirir ritmo”, sem nunca ter pretendido ser poeta. “Aprendi isso para chegar à prosa, que sempre achei muito difícil”, afirmou. E o estoque de inusitados nesse Graciliano Ramos de Jorge Araujo (ganhador do Concurso Nacional de Literatura da Academia Alagoana de Letras) ainda guardava um inesperado Velho Graça epigramista: “De sífilis terciária, um dia, enfim, morreu/Este de alcoice imundo ignóbil filho espúrio/E a terra que o comeu/Entrou logo a tomar injeções de mercúrio”, escreveu ele contra desafeto anônimo.

ROBERTO DAMATTA E AS BALAS PERDIDAS

Sou um raro brasileiro que nunca viu (nem pretende ver) Tropa de elite. Também não quero ler Elite da tropa. Fico com a opinião de Roberto DaMatta, quando diz que “o cinema brasileiro é uma deprimente, com as exceções de praxe: só mostra pobreza, miséria, sofrimento, prostituição e bandidagem”. Prefiro o faroeste, a violência lá longe, antiga e vingada. Para ver polícia e bandido trocando tiros, basta estar na rua de uma grande cidade. Bom pra quem gosta de emoções fortes. No faroeste há justiça; no dia-a-dia das balas perdidas, não (e quando digo faroeste, me refiro aos americanos). A ficção não supera a realidade.

ITALIANO EM TEMPO DE TELENOVELA

 Faroeste italiano é como acarajé feito por baiana branca, se vocês me entendem. Já se vê, sou seletivo: Sergio Leone, o grande nome do spaghetti western, não entra em minha lista. Seu Era uma vez no Oeste, por exemplo, não me agrada, porque tem timing de telenovela (e eu detesto telenovela). Se a crítica adora Era uma vez, azar da crítica. Vamos fazer uma lista de dez ou vinte? Eu dou a saída com Matar ou morrer (Fred Zinnemann), Onde começa o inferno (Howard Hawkins), Os Brutos também amam (George Stevens), O homem que matou o facínora (John Ford), El Dorado (refilmagem de Onde começa) e Paixão de fortes (Ford).
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

ESTRANHA FORMA DE DIZER “I LOVE YOU”

Filmes de caubói (como se dizia antigamente), às vezes, têm referências surpreendentes. Em Onde começa o inferno, Angie Dickson ameaça vestir uma roupa que deixa as pernas à mostra e ouve do desajeitado xerife John Wayne: “Se você usar isso em público, eu vou prendê-la”. E ela, chorando de felicidade: “Até que enfim! Pensei que você nunca ia dizer que me ama”. Ele, espantado: “Eu disse que ia prendê-la. Ela: “É a mesma coisa”. Em Paixão de fortes, Henri Fonda, caído por Cathy Downs, busca ajuda no velho Farrell Mac Donald: “Você já esteve apaixonado?”. Resposta: “Não. Sempre fui barman”. Filme americano com humor inglês…

O HOMEM, O RIFLE E O CAVALO

Outro recurso recorrente no cauboi é a música. High noon (Matar ou morrer), My Darling Clementine (Paixão de fortes) são bons exemplos. Em Onde começa o inferno, há um intervalo na tensão de quatro homens à espera de uma quadrilha inteira, quando Dean Martin e Rick Nelson cantam um tema country (My rifle, my pony and me), com a ajuda do “doidinho” Walter Brennan, tendo John Wayne como plateia. É a síntese do gênero: o vaqueiro, a arma, o cavalo e a mulher amada. Confira em vídeo:
 
 

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

  

MÁQUINA DE FAZER DOIDOS 

Ousarme Citoaian
A televisão já foi chamada de máquina de fazer doidos. Em outra época, psicólogos previram que ela criaria uma geração de oligofrênicos – tipos que se dedicariam a comer pipocas diante da telinha, praticamente renunciando à análise e à crítica. Não seria difícil encontrar, ainda hoje, quem se disponha a, se não prová-la, ao menos argumentar em favor dessa tese: a tevê, se não robotizou o público e estimulou o retardamento mental, muito contribuiu para a redução do pensamento crítico. O seu imenso poder de convencimento, montado sobre uma programação socialmente descompromissada (em que abunda a dramaturgia de baixa extração), implanta hábitos nem sempre saudáveis. A linguagem é uma dessas contribuições deletérias.  

FUTEBOL QUE FERE OS OUVIDOS

Não falemos do insistente récorde, que virou moda. Mas é notável a forma como a principal rede de tevê do País “recria”, nas chamadas de esporte, a palavra futebol: o locutor pronuncia futé-ból (é impossível reproduzi-lo à perfeição), numa fórmula absolutamente estranha à nossa fala – salvo o regionalismo paulista. Qualquer brasileiro normal diz futibol, pois, segundo os foneticistas, esse “e” é uma vogal reduzida (tanto quanto o segundo “a” de cara ou o “o” de pato. Todos sabem que a expressão vem de football, sendo curioso que a pronúncia, se seguisse o original (como a Globo faz com record), ficaria mais próxima da nossa prosódia. Também é curioso que na tevê não se diga, como seria coerente, futêssál nem futêvôlei. Então, por que esse alienígena futé-ból, tão estranho aos nossos ouvidos?

A FEIJOADA NÃO NASCEU NA BAHIA

O Aleijadinho é um personagem de ficção (pelo menos como o conhecemos, com seu perfil inspirado em Quasímodo, de Victor Hugo), Zumbi tinha escravos, a feijoada não foi criada na Bahia, mas na França, e Santos Dumont não inventou o avião. Essas, dentre outras, são revelações do livro Guia politicamente incorreto da História do Brasil (Editora Leya), do jornalista Leandro Marlock (ex-Veja e Superinteressante). O autor pesquisou temas “sedimentados” pela historiografia oficial, concluindo que as coisas nem sempre são como nos ensinaram na escola. Chamou-me a atenção a forma como, na crônica Traços a esmo, Graciliano Ramos (1892-1953) afirma que o futebol, imaginem, não daria certo no Brasil..  

FUTEBOL: UM “COSTUME INTRUSO” 

Lima Barreto (1881-1922), acrescento, também era ferrenho opositor do futebol, que acusava de ser “simples importação artificial e elitista”. O velho Graça (foto) achava que esse esporte era um “costume intruso”, querendo tomar o lugar de um (estranho) jogo então existente. Segundo o autor de Vidas secas, para que um costume se estabeleça “é preciso não só que se harmonize com a índole do povo que o vai receber, mas que o lugar a ocupar não esteja tomado por outro mais antigo, de cunho indígena”. E conclui: “O [costume] do futebol não preenche coisa nenhuma, pois já temos a muito conhecida bola de palha de milho, que nossos amadores mambembes jogam com uma perícia que deixaria o mais experimentado sportman britânico de queixo caído”.

POR UM PUNHADO DE DÓLARES

É curioso que João Saldanha, mais de meio século depois, afirmou que o profissionalismo representava o fim do futebol brasileiro, devido à perda de vínculo do jogador com o clube. O grande João errou no atacado, mas acertou no varejo: o esporte se fortaleceu como negócio, mas o vínculo se perdeu, irremediavelmente: hoje, um jogador beija o escudo do time que o paga e na semana seguinte, por uns dólares a mais, vai beijar o escudo do adversário. Mas quem de nós nunca fez uma previsão desastrada? No começo dos anos 60, vaticinei que Roberto Carlos, com aquele romantismo piegas exarado nas tardes da tevê paulista, não duraria 15 dias. Errei, confesso.  

INCULTA, BELA E NOBRE

No bar de Eduardo, aqui no Beco, a placa, escrita no estilo jogo de palavras de Gilberto Gil (sem jamais cair na grosseria), anuncia, com um bem posto trocadilho, tratar-se de uma casa de Artigos para beber; no Café Pomar, avenida do Cinquentenário (onde mato minha sede e o vício do cafezinho), os clientes são recebidos com um aviso de notória sabedoria gramatical, antigo, dos tempos de seu Mariano, que inaugurou a casa: Atendimento com fichas. Compre-as no caixa. Dois belos exemplos, um moderno outro clássico, do bom manejo da língua portuguesa, que, em assim sendo tratada, se mostra bela e nobre, sem esnobismos.

LINGUISTA DE MAU HUMOR 

Há quem defenda uma espécie de fiscalização da linguagem, para os anúncios afixados na via pública. Parece-me que Fortaleza/CE possui um programa municipal nesse sentido: se alguém, no seu comunicado, agride a já maltratada língua portuguesa, o fiscal vai lá e fornece a orientação necessária. A ideia é defensável, embora possa haver algum linguista de mau humor a apoiar a tese de que “se as pessoas entenderem a mensagem, está bom” – e então, porque “a língua é viva”, que se deixe cada um meter os pés pelas mãos. Embora não houvesse, até agora, pensado no assunto, eu tendo pela fiscalização. Seria uma espécie de escola peripatética.

DA ARTE DE ESCREVER BEM

Recentemente, num comentário, tangenciamos aqui a questão do hino La marseillaise, referência que nos despertou para um conto engraçadíssimo de João Ubaldo Ribeiro, Alandelão de la patrie, em torno do mesmo tema. No estilo picaresco em que é mestre o autor de Viva o povo brasileiro, não lembro de nada melhor do que essa short story que Cyro de Mattos (foto) selecionou para a antologia O conto em vinte e cinco baianos, publicada pela Editus/Uesc. Alandelão de la patrie é um touro francês, usado como reprodutor na fazenda, mas que só trabalha “indiretamente”, por inseminação artificial. Essa crueldade desperta a compaixão do narrador.

ALANDELÃO E A VACA FLOR DE MEL 

João Ubaldo (foto): “Foi assim que tivemos o plano de fazer um benefício a Alandelão, benefício este com a vaca Flor de Mel, pé-duro porém forte de ancas, boa envergadura e vaca já com muita experiência de vida, inclusive havendo sido, segundo muitos, amante de Nonô de Bombaim, e diz o povo que os dois comiam uns pezinhos de liamba, conhecida por outros como fumo-de-angola, aliás maconha – o que é que estamos escondendo – que aqui nasce feito mato e não deixa de haver quem faça um fumeirozinho. Enfim, diz o povo que os dois comiam uns pezinhos e ficavam na maior safadagem, isto antes de Nonô ter pegado aftosa numa farra e ter morrido velho e aftoso e desestimado por todos em geral”.

PROSA E POESIA ENCADEADAS 

Cyro de Mattos, organizador de O conto em vinte e cinco baianos, é um itabunense que honra sua terra. Jornalista e escritor, tanto navega no conto/novela, quando nada de braçada na poesia e na crônica, além de investidas de muito êxito na literatura infantil. Dono de grande fortuna crítica, ouviu de Eduardo Portela (foto), ex-ministro da Educação, este juízo: “Em Cyro de Mattos o poema e a narrativa se entrelaçam engenhosamente. Quando escreve o poema, narra; quando narra, jamais se afasta do sopro vital da poesia”. Cyro tem vários prêmios literários, além de textos publicados em outros países. Atualmente, mesmo com danos à sua atividade intelectual, dirige a Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania.

JAZZ, DROGAS, TRISTEZA E POESIA

Tangenciei, há dias, Bird (1988), o filme de Clint Eastwood sobre o saxofonista Charlie Parker (1920-1955). O filme, por ser fiel à vida real do astro, é um tanto sombrio. Mas é bem feito, premiado e aplaudido por um público específico, os amantes do jazz. E é também (o que se convencionou chamar de “trabalho autoral”) a cara de Eastwood, um apaixonado pela grande música negra e fascinado por Parker. O tema de fundo, já falamos, é a droga, que caiu no jazz como uma doença contagiosa, destruindo muitas estrelas. O que emerge da tela é um duplo Parker – tão altamente construtivo com o seu instrumento (o sax tenor) quanto autodestrutivo, devido ao intenso uso de drogas, a partir do álcool.

O SAX QUE GANHOU O OSCAR

Eastwood (foto) traça o retrato quase sem retoques de um artista brilhante e frágil, que vai buscar nas drogas a solução de problemas pessoais. O diretor levantou a discografia do seu ídolo e produziu uma ótima trilha sonora, partindo de discos originais de Parker. E tudo valeu a pena: Forest Withaker (Charlie Parker) ficou com o prêmio de melhor ator em Cannes; Diane Verona (Chan Parker, mulher do músico) foi a melhor atriz coadjuvante, segundo o New York Film Critics; a trilha sonora ganhou o Oscar de melhor som e Clint Eastwood ficou com o Globo de Ouro de melhor diretor. Logo, homenageado e homenageante se deram muito bem.

POESIA PARA ATENUAR A TRISTEZA 

O estrago que as drogas fizeram em Charlie “Bird” Parker (foto) não foram pequenos: contratos rompidos, a beira da sarjeta, o envelhecimento precoce. Ao morrer de infarto na casa de uma “protetora”, o músico foi descrito pelo médico, preliminarmente, como “Charlie Christopher Parker Junior, negro, forte, cerca de 65 anos”. Ele ainda não tinha 35. Ao menos na aparência, as drogas lhe tiraram quase metade da vida, antecipando-lhe o fim. Aliás, a cena de sua morte, quando o diretor e jazzófilo Clint Eastwood consegue atenuar com poesia a nossa tristeza, é um extraordinário momento do filme. Se quiser, veja/ouça Lover man, um clássico que, em Bird, mostra o tenorista Charlie Parker no último degrau.
 
(O.C.)
 
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