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:: ‘Guimarães Rosa’

UNIVERSO PARALELO

FORMIGAS EXPLORADAS E MENTIRAS A ESMO

Ousarme Citoaian | [email protected]

Não tenho o hábito de encher a caixa de e-mails de ninguém com campanhas contra o excesso de trabalho das formigas, bandeira disso e daquilo, argumentos em defesa de grupos políticos ou religiosos. O que não quer dizer que a minha não sofra tal pressão, embora eu descarte a maioria dessas mensagens, tão logo lhes identifico a fonte do conteúdo: Instituto Milenium, determinados colunistas ou artistas globais a serviço de ideologias que combato. Sem contar que há muita mentira em trânsito, quem duvidar se lembre da última eleição presidencial, quando as tentativas de desqualificar uma candidata não respeitaram limites morais. Mas recebi há dias uma informação que me parece verdadeira e digna de atenção: é sobre sacolas plásticas.

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2Sacolas plásticas“No mar, tanta tormenta e tanto dano”

De acordo com a National Geographic, aquelas “inocentes” sacolas plásticas são uma verdadeira praga a se multiplicar, pois elas não podem ser (como as garrafas pet) recicladas, tendo sempre seu estoque renovado. Quer dizer, são recicláveis, mas isso não é economicamente viável: uma tonelada de sacolas recicladas custa mais de 100 vezes o valor da mesma quantidade de sacolas novas. Elas chegam ao mar (4 milhões de quilos por ano!), aos rios e às matas. Nas nossas ruas, impedem o escoamento da água. Engolidas como se fossem comida, matam cerca de 200 tipos de vida marinha (baleias, focas, peixes, tartarugas), com risco de voltar ao nosso prato, já em forma de polímero tóxico de petróleo.

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Sabe alguém onde posso comprar um aió?

A China, Bangladesh, Israel, Rwanda, parte da Índia, Quênia, Tanzânia, Singapura,Taiwan são lugares onde as sacolas plásticas foram abolidas ou estão em vias de sê-lo. São Francisco (aquela onde I left my heart!) foi a primeira cidade americana a proibir as sacolas, o que depois se estendeu a Oakland (também na Califórnia) e Boston. No Brasil, houve uma tentativa em São Paulo, mas frustrou-se, em nome do “direito costumeiro do consumidor”. Por aqui, talvez as sacolas tenham mais defensores do que acusadores, o que lhes garante vida longa. Eu, convencido, já estou à procura de um bocapiu ou, talvez – pois tenho sob controle meu consumismo – um aió. Saberia a gentil leitora onde posso adquirir um bom e honesto… aió?

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“ASSEMBLEIA CAUDEJANTE E RUMINATIVA”

4João Guimarães RosaNa novela “Minha gente”, Guimarães Rosa (foto), do fundamental Sagarana/1946, chama a atenção este diálogo, entre um homem da cidade e José Malvino, trabalhador rural, que é “um camarada analfabeto mas, no seu tempo e para seu gasto, pensa esperto”. Diante de “uma assembleia, caudejante e ruminativa, de bois e vacas”, sobre que pairam interesseiros carcarás, “com elegância decadente e complicada pintura de roupagens”, o cara da cidade resolve pôr à prova a sagacidade do caipira: “– O que você acha de mais bonito neles? – pergunta. José Malvino ensaia um sorriso sem graça, pensando que querem fazê-lo de bobo, mas responde, dentro de seu entendimento das coisas”.
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5CarcaráGente talentosa, de sangue envenenado

“– Se o senhor doutor está achando alguma boniteza nesses pássaros, eu cá é que não vou dizer que eles são feios… Mas, pra mim, seu doutor não leve a mal, pra mim, coisa que não presta não pode ter nenhuma beleza”. Gosto dessa passagem, por achá-la ilustrativa do pensamento idealista, a compreensão de que o belo é bom, o feio é mau. Mesmo “vacinado”, já me deixei levar por essa filosofia atravessada, confundindo talento e competência com moral e ética. Intelectuais não são, necessariamente, boa gente; são, às vezes, gente talentosa, de sangue envenenado. O cinema já foi assim, formado por vilão feio e mocinho bonito. Muitas vezes, as aparências enganam, na tela e na vida.

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Almas secas, sofridas e atormentadas

Carlos Lacerda era ótimo exemplo da combinação de talento com ruindade. Certa vez, falando do ditador Castelo Branco, que lhe contrariara o plano de ser presidente da República, disse (citação de memória, sujeita a chuvas e trovoadas): “ – Vocês acham que ele é feio por fora? Pois eu lhes afirmo que ele é mais feio ainda por dentro. Eu vi!…” Era só uma grande “tirada” retórica, mas bem que seria interessante sabermos o que vai no íntimo das pessoas, olhá-las por dentro e ver que, em muitos casos, o corpo bonito é apenas abrigo de uma alma seca, sofrida e atormentada, se não morta e esquecida entre nós. Como um livro de bela capa, mas de asqueroso conteúdo…

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ELIS, A QUE CANTAVA SAMBA… “ASSIM”

Creio que a crítica dedicou pouco espaço e tempo à especial técnica de Elis Regina como cantora de samba, talvez porque ela mesma não gostasse de rótulos limitantes. É seu lado menos visível. Sem preocupações de disputar com as “donas” desse segmento (Clara Nunes, Beth Carvalho, Alcione), Elis encontrou uma forma própria de expressão, com um cantar suave, suingado, envolvente, a caminho do jazz. Ela gravou o LP Samba eu canto assim (1965), mas, nessa linha, eu acho ainda melhor a seleção A arte maior de Elis Regina, de 1983. Lá estão, pelo menos, três sambas maravilhosamente vividos: Triste, Folhas secas e Alô, alô, taí, Carmem Miranda.
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A marca Elis Regina em tudo que tocava

Seja tema contemporâneo, como Triste (Tom Jobim), enredo (Alô, alô…/Império Serrano, 1972) clássicos – É com esse que eu vou (Pedro Caetano/1948) e Saudosa maloca (Adoniran Barbosa/1955) – a tudo a cantora dava seu toque pessoal, tudo submetia à marca Elis Regina. O livro Guerreira da utopia, de Wagner Fernandes, sobre Clara Nunes, causou mal-estar entre Alcione e Beth Carvalho (Beth questionou o repertório de Clara, Alcione disse que a mineira era tão “inatacável” quanto a própria Beth). Elis ficou fora da “briga”, por motivos óbvios. Aqui, a temos ao vivo, no saudoso Ensaio da TV Cultura/1973, com César Camargo Mariano ao piano: É com esse que eu vou.

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(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

KIND OF BLUE ATRAVESSOU MEIO SÉCULO

1Kind of blueOusarme Citoaian | [email protected]

Estilo, lenda, escola, inovação, marcante, clássico, definidor de um gênero, divisor de águas – são expressões que o mundo do jazz tem repetido a propósito do disco Kind of blue, de Miles Davis, gravado em 1959.  Ruy Castro (Tempestade de ritmos) prefere o adjetivo “insuperável”. Passando ao largo dos especialistas, que não é minha praia (sou apenas alguém que “gosta” de jazz), resta a fria verdade: a gravação já atravessou meio século, vendeu mais de 3 milhões de cópias (só eu comprei umas seis!), sendo um dos três discos mais vendidos dentre os que foram gravados nos anos cinquenta, em qualquer gênero. Demais, para um disco de jazz instrumental.

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Mil dólares e cinco pontos na cabeça

À gravação de Kind of blue seguiram-se alguns problemas com Miles Davis. Este, por exemplo: no intervalo de um show no Birdland (famoso clube de jazz em Nova Iorque) ele acompanhou uma garota branca até um táxi e ficou tomando ar na calçada, quando foi abordado por um policial. Este perguntou o que ele fazia ali e o mandou embora. O trompetista explicou que estava trabalhando na casa de shows, mas o policial, rispidamente, disse-lhe que iria prendê-lo, se não saísse logo do local. Enquanto o músico argumentava, foi atacado por outro policial, por trás, tendo a cabeça acertada com um cassetete. Miles passou a noite na cadeia, perdeu o show, gastou mil dólares de fiança e recebeu cinco pontos na cabeça.

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3Mil e um discosUm presente para quem gosta do Pimenta

Kind of blue (registrado no livro 1.001 discos para ouvir antes de morrer) consumiu nove horas de gravação, muito pouco tempo, considerando-se que os liderados de Davis não conheciam as partituras. Reza a lenda que o Divino usava esse truque para manter seus músicos “acesos”, absolutamente concentrados. Este grande momento do jazz está à disposição dos leitores. Os três primeiros que enviarem ao nosso e-mail (acima, à direita) um comentário qualquer que contenha a expressão “eu gosto do Pimenta” receberão um Kind of blue novinho em folha, não pirata. É indispensável oferecer um nome (mesmo fictício) e endereço completo (no Brasil!) para o envio. A divulgação dos sorteados não será feita sem autorização.

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1964, O ANO QUE SÓ TERMINARIA EM 1985

4O coronel e o lobisomemAprendi com Telmo Padilha que um mau livro é aquele do qual saímos, ao final da leitura, sem sofrer nenhum impacto. O bom livro, logicamente, é o que tem efeito contrário. Se tivesse que escolher um só livro de ficção que me marcou muito seria O coronel e o lobisomem – que li em 1964 (o ano que só terminaria em 1985). Em meio a Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Jorge Amado e semelhantes, José Cândido de Carvalho foi uma descoberta: a linguagem renovada, as invenções, o humor, o misticismo brasileiro, aquele jeito de Barão de Münchausen que tem o coronel Ponciano de Azeredo Furtado. Mais tarde eu conheceria a teoria da lanterna de Diógenes, coisa do crítico Hélio Pólvora.

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Deliciosa síndrome de tocha olímpica

É mais ou menos assim: a literatura, feito tocha olímpica, passa de mão em mão, levada por pessoas diversas. Assim, ela se movimenta, visita autores com variados padrões estéticos, sofre influências desses indivíduos. Por trás de todo grande escritor identificam-se (desde que haja arte e engenho bastantes para isso) presenças marcantes. Um gera o outro, que gera o outro, que gera o outro, nessa deliciosa síndrome de tocha olímpica. Assim, raramente se encontra um “inventor” em literatura, mas um continuador, renovador, transformador, adaptador. De Guimarães Rosa veio José Cândido de Carvalho, que gerou Dias Gomes e O bem-amado (uma caricatura que funcionou bem na tevê).

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6Francisco DantasA lanterna com o azeite renovado

Lembro dessas coisas (já ditas aqui), a propósito de Os desvalidos (Francisco J. C. Dantas), cuja leitura apressei, por sugestão do leitor Ricardo Seixas. Abre parênteses: se escrever é sugestionar pessoas, e eu me deixo levar pelos leitores, parece que algo está fora dos eixos – mas quem estaria interessado em eixos? – fecha parênteses. O escritor sergipano é soberbo. Sua linguagem é revolucionária, nos reportando a Guimarães Rosa, Rachel de Queirós, Graciliano e, sobretudo, José Cândido de Carvalho (nunca Dias Gomes!). Não lembro de nenhum autor brasileiro, depois de JCC, que me tenha causado tão positiva impressão. A lanterna de Diógenes está acesa e de azeite renovado.

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O QUASE IMPOSSÍVEL DIÁLOGO DE 40 ANOS

Blue Christmas é uma canção bobinha que fala da solidão no Natal, um tema country (a música “sertaneja” deles) do fim dos anos quarenta. Foi regravado por Elvis Presley em 1957 (e, num repeteco, em 1968), obtendo inesperado sucesso em 2008, quando foi uma das músicas mais tocadas nos EUA: só que numa montagem de computador, em que o Rei do Rock está em dueto com Martina McBride, estrela do gênero “caipira”. Para quem é vidrado em tecnologia digital, um prato cheio: os dois artistas cantando “juntos”, embora 40 anos os separem: Elvis canta em 1968; Martina, em 2008.

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É Natal, e os flocos de neves vão cair

Essa “mistura” de cantores e épocas não é nova (Nat King Cole já cantou Unforgettable com a filha, Natalie), Celine Dion com Elvis, e por aí vai – mesmo assim, juntar Elvis Presley e Martina McBride despertou a curiosidade do pessoal que gosta de mexer com as máquinas modernas, além de causar certo frisson no mercado discográfico. Vamos à canção, mesmo que a letra nos soe estranha, com coisas do tipo “lembranças tristes começarem a clamar” (blue memories start calling). Estamos no Nordeste, mas o tempo é de Natal, e a imaginação sem rédeas admite coisas do tipo “e quando aqueles melancólicos flocos de neve começarem a cair” (and when those blue snowflakes start falling).

 (O.C.)

COLUNISTA FAZ DEFESA DE “BEST-SELLERS”

Na contramão da crítica literária convencional (que costuma torcer o nariz a todo autor que vende muito), o colunista Ousarme Citoaian, do UNIVERSO PARALELO, disse nada ter contra os “best-sellers”. Ele destacou, entre estes, Os sete minutos, de Irving Wallace (grande êxito de vendas nos anos setenta), tratando da liberdade de expressão, em torno de um livro proibido por ser obsceno.

Para O. C., ninguém tem de prender-se à lista oficial dos críticos (da mesma forma com a lista dosmais vendidos), mas permitir-se o prazer da própria descoberta. Ao Pimenta, o colunista disse já ter lido “quase tudo” de Agatha Cristie, muito Connan Doyle (Sherlock Holmes), Raymond Chander, Ross Macdonnald e outros. “Nem só de Hemingway, Sthendal, Guimarães Rosa, Dostoiévski e Machado de Assis se faz o prazer da leitura”, brincou.

Para ver a coluna desta semana e o inteiro teor do comentário, clique aqui.

UNIVERSO PARALELO

DA IMPENSADA VANTAGEM DE NASCER ADULTO

Ousarme Citoaian | [email protected]

Volto à leitora não atendida. Afinal, quem é Ousarme Citoaian? – ela pergunta. E eu riposto: sou uma criação meio insana de jornalista desempregado, uma inutilidade que deu certo. Feito personagem de ficção, já nasci adulto, de barba na cara, o que foi um golpe de sorte, pois não sofri os achaques típicos: sarampo, catapora, acne juvenil, adolescência e outras mazelas, como bilu-bilu de senhoras ociosas. A criação não recebeu incenso e mirra (que querem?), mas ganhou tantos elogios que quase fica irremediavelmente estragada. O criador teve de puxar-lhe as orelhas (em sentido figurado, é óbvio, que a Lei da Palmada não é graça!), a fim de lhe dar uma pitada de juízo e modéstia.

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Para os realistas, a Fênix é só um mito

Você saiu de um hino… Deve ser a prova provada da doce insanidade do meu “pai”, que se gaba de umas tinturas francesas. Sou a pronúncia figurada de Aux armes, citoyens! (Às armas, cidadãos!) – grito de guerra tirado d´A Marselhesa. Quer dizer que seu criador é um guerreiro, um incendiário? Menos, menos. Ele se define como um cangaceiro domesticado, mas é, aqui pra nós, um romântico. Tanto isso é verdade que, às vezes, deseja tocar fogo no mundo, na doce ilusão de que das cinzas será possível nascer algo que preste. Eu, mais realista, sei que a Fênix é só um mito. Afinal, Ousarme Citoaian é pseudônimo ou heterônimo? Até parece que eu mergulho a profundidades tais…

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Duas escritas e uma só crítica no mundo

Mas creio que minha escrita é outra: também crítica do mundo, porém mais cuidada, mais “erudita”, mais (se posso dizê-lo) elegante. Visto assim, sou um heterônimo, pois faço uma “literatura” diferente dele. Como eu disse, sou seu “outro eu”, um tantinho metido a gato mestre, sem esconderijo de falso nome, o que, de resto, não é novidade. Vasta é a linhagem de pseudônimos/heterônimos identificados: Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto), Aloísio de Carvalho (Lulu Parola), Alberto Hoisel (Zé… ferino e outros), Alceu Amoroso Lima (Tristão de Ataíde), Aurore Dupin (George Sand) e, encerrando minhas lembranças, Fernando Pessoa (Ricardo Reis, Álvaro de Campos e vários outros).

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TITULAR É REUNIR TERMOS INCOMPATÍVEIS

Falamos aqui há dias da “arte” de combinar palavras para obter o efeito desejado. Mas deixamos de mostrar exemplos, o que fazemos agora, lembrando alguns títulos de livros. Bons títulos parecem, na maioria das vezes, associações de termos incompatíveis à primeira vista – e talvez por isso causem belo efeito. Aqui está uma listinha modesta, a que a gentil leitora e o atento leitor (se cultivam essa já quase extinta paixão pelos livros) acrescentarão os de sua preferência. Vamos à “mistura”: Telmo Padilha denominou sua primeira publicação (1956) de Girassol do espanto; Jorge de Souza Araújo ganhou importante prêmio nacional com Floração de imaginários, Cyro de Matos é autor de O mar na rua Chile.

“As luas obscenas” de Hélio Pólvora

Titulação é arte. Euclides Neto, bom escritor, titulava mal – o que explica um romance chamado Machombongo. Marcos Santarrita fez Danação dos justos (vale citar também A solidão do cavaleiro no horizonte), Hélio Pólvora estreou em romance com Inúteis luas obscenas. O “gringo” Raduan Nassar escreveu poucos livros, mas é mestre em títulos: Lavoura arcaica e Um copo de cólera. Um estudo de Monique Le Moing sobre as deliciosas memórias de Pedro Nava chamou-se A solidão povoada, o espanhol Carlos Ruiz Zafón escreveu o best-seller A sombra do vento, e os leitores desta coluna, todos, leram Cem anos de solidão, de Garcia Márquez. Penso que estas poucas referências são suficientes para chegar ao nosso cqd.

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GUIMARÃES ROSA E SUA INFLUÊNCIA NA MPB

Descobri Luiz Cláudio, cantor, compositor e pesquisador das coisas de Minas, lá pelos anos setenta e fiquei abismado com a “parceria” dele e Guimarães Rosa:
“O galo cantou na serra/ da meia-noite pro dia/ o touro berrou na vargem/ no meio da vacaria/ coração se amanheceu/ de saudade que doía”. O galo cantou na serra só era novidade para minha ignorância. Em 2008, a historiadora Heloísa Starling (da Universidade Federal de Minas Gerais), após longa pesquisa, afirmou que o autor de Sagarana talvez seja o escritor de maior influência sobre a canção brasileira. “Há música espalhada por toda a obra de Rosa”, diz a professora.

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“O capeta tocando viola rio abaixo”

Para Heloísa Starling, essa musicalidade de JGR vem do próprio sertão, dos sons da natureza, do silêncio “e até do capeta tocando viola rio abaixo”, além do uso que ele faz da linguagem. Em Rosa, as palavras não têm apenas significado, mas sons e ritmos. Canções com influência roseana são muitas, nem sempre explícitas à primeira audição. Heloísa cita, além de O galo cantou…, Assentamento (de Chico Buarque para o MST), Travessia (Milton Nascimento-Fernando Brant), A terceira margem do rio (Caetano Veloso-Milton Nascimento), Sagarana (João de Aquino-Paulo César Pinheiro), Língua (Caetano Veloso) e Matita perê (Tom Jobim-Paulo César Pinheiro).

Um sujeito bom como cheiro de cerveja

Não encontrei menção da pesquisadora a Desenredo, a minha preferida nessa “parceria” de Rosa com a MPB. É letra do grande Paulo César Pinheiro, com melodia de Dori Caymmi, baseada no conto revolucionário, renovador do gênero, que tem este nome (está em Tutameia – Terceiras estórias). É a história de amor de Jó Joaquim, um sujeito “quieto, respeitado, bom como o cheiro de cerveja”. No vídeo, não sei o que mais me umedece os olhos: o ousado arranjo vocal (como sempre) do Boca Livre, a beleza suave, doce e dolorosamente jovem de Roberta Sá em harmonia com os “velhinhos” do grupo, os lindos versos ou a melodia compatível. Talvez, o conjunto da obra.

(O.C.)

PARA COLUNISTA, VEREADORA DEVE-SE IMPOR COMO MULHER E SOLDADA, “SEM DECEPÇÕES”

No centro de uma discussão cheia de mal-entendidos a respeito da vereadora soldada Valéria Morais, Ousarme Citoiaian (que assina a coluna UNIVERSO PARALELO aqui no Pimenta) não perdeu o bom humor. No tom irônico de sempre, disse que os reacionários  representam uma linha “filosófica” que não justifica o tempo gasto em polemizar. Chamando “para o que, de fato, é relevante”, ele se confessa envaidecido de seus leitores, com esta pergunta: “que coluna vocês conhecem que provoque remissões a Guimarães Rosa, Rubem Fonseca e outros grandes autores e grandes temas?”.

Sobre a vereadora-policial, o colunista lembra que ela foi citada porque estava muito visível na mídia, como vítima desse já antigo processo de “masculinização” pela linguagem.  E, ao contrário do que entenderam os “reacionários”, vê com simpatia este caso de ascensão social. “Quero que ela tenha vida longa, mandato público profícuo, sem decepções a seus eleitores, e, para dar exemplo, imponha ser tratada como mulher, vereadora e soldada”, disse O.C.

Para conferir a coluna e comentários desta semana, clique aqui.

UNIVERSO PARALELO

O TEXTO SOBREVIVERÁ AO MUNDO

Ousarme Citoaian

Em jornal e revista (a dita mídia impressa), o texto fala por si, enquanto a foto é fundamental como ajuda. Por isso disseram por aí que quando o mundo se acabar será necessário um jornalista para dar a notícia. Sobrando fotógrafo, melhor ainda. Se o the end da “civilização cacaueira” chegou mesmo, montado na vassoura-de-bruxa, há controvérsia – alimentada pelos laboratórios, que tentam parir cacaueiros resistentes à doença. Enquanto isso, Daniel Thame (foto), pelo sim, pelo não, apresenta-se como o cronista que o assunto exige. Seu Vassoura (Via Litterarum) está na praça, para agitar, provocar e cutucar cérebros anestesiados. Só o bom texto nos redime.

COMBINAÇÃO DE MITO E REALIDADE

O livro, com 23 histórias curtas (média de 2,5 páginas), situa-se, conforme destaca o editor Agenor Gasparetto, no lugar que separa os gêneros crônica e conto, classificação que, de resto, não deve tirar o sono de ninguém. Fiquemos com Mário de Andrade, que simplificou a questão: “Conto é tudo aquilo que o autor chama de conto”. Ou então, que se reconheça em Vassoura as duas facetas: na medida em que registra fatos, seria crônica histórica; já a parte com pitadas (melhor dizendo, generosas porções) de ficção, identificaríamos como conto, pois o livro é, claramente, essa combinação de realidade vivida e mito imaginado.

A ESPERANÇA AINDA ESTÁ VIVA

Daniel Thame introduz a vassoura-de-bruxa na literatura regional, e o faz com textos bem escritos, de feitura concisa e leitura agradável, sem descambar para o mero entretenimento. Ao contrário, sua ficção (surpreendente em alguém forjado no factual das redações) convida a pensar – talvez a mais nobre função da literatura. Se alguém achar que ele pesa no dramático, no humor negro ou na tragédia de seus anti-heróis, poderá estar certo. De minha parte, sinto nesse Vassoura um produto perpassado pela sensibilidade do autor, animal político aristotélico, que, sem disfarce no olhar de compaixão com nossa gente, nos diz que a esperança ainda resiste.

DITADOR É “IMORTALIZADO” EM ESCOLA

“Em sociedade, tudo se sabe” era um bordão do colunista social Ibrahim Sued (1924-1995). Pois, em conversa, fico sabendo que Itabuna possui uma escola chamada Garrastazu Médici (foto). E me ponho a pensar como a sociedade se curva aos interesses do poder, desdenhando sua própria dignidade. A escola, apesar de não estar poupada nestes tempos de violência, é um lugar sagrado. Sua identificação há de ser alvo de respeito, reverência e orgulho para a comunidade que ela se insere. Nomeia-se uma escola com pessoas que representaram bons exemplos a seguir.

ESCOLA FERNANDINHO BEIRA-MAR

“Eu estudo na escola Anísio Teixeira”; “Eu, na Paulo Freire”; “E eu sou do colégio Eusínio Lavigne”  – seria uma conversa esperada entre estudantes que se orgulham dos seus “patronos”. Já “Centro Educacional Jack, o estripador” ou “Escola Fernandinho Beira-Mar” seriam batismos infelizes. Então, por que coube a Itabuna a “honra” de ter um lugar (sagrado, repita-se) com o nome de tal indivíduo?  Submeter presos políticos a tortura, com choque elétricos e pau-de-arara (o que o general não fez pessoalmente, mas aprovou) não é pré-requisito para homenagem. Ao contrário.

NÃO QUEREMOS ABRIGAR A DESONRA

Ainda tenho esperanças de que fui mal informado, e que o sanguinário ditador dos anos setenta não identifica nenhuma escola entre nós. Mas, se abrigamos tal desonra, é tempo de professores, autoridades municipais e a comunidade em geral se levantarem num movimento que defenda a honra e a “limpeza” do nobre espaço de formação. É um crime coletivo permitirmos que esses jovens, mais tarde, se envergonhem de mencionar o nome da escola onde estudaram. E estarão certos, pois o lugar do general Garrastazu Médici não é a educação, mas a lata de lixo da história.

PALAVRAS DORMEM, MAS NÃO MORREM

Penso haver dito neste espaço que as palavras nascem, vivem e morrem. Mesmo que tal afirmação me tenha dado alguma sobrevida com a CLMH (Comunidade dos Linguistas Mal Humorados), preciso pedir perdão pela bobagem. Fui mal. As palavras só morrem se nós, que com elas lutamos mal rompe a manhã (na feliz expressão do poeta), assim o desejarmos. Digamos que os sem sensibilidade as condenam ao sono quase eterno, à  forçada hibernação, à troca por neologismos ainda recendentes a vinho novo. As palavras apenas se cansam e tiram férias compulsórias, até que sejam outra vez trazidas à lida.

RECUPERAÇÃO DO BRILHO ANTIGO

João Guimarães Rosa não me deixa mentir. O autor de Sagarana “acordou” centenas de vocábulos que a língua portuguesa pensava ter abolido. Muitos tão “mortos” estavam que não são encontrados em nenhum dicionário em moda no fim dos anos 50 (quando foi publicado Grande sertão: veredas). Alguns termos até foram, apressadamente, dados como “inventados” por JGR – quando uma análise menos perfunctória mostra que ele os recolheu, nas conversas com o povo nos sertões das geraes ou mesmo em textos antigos. O escritor tirou-lhes a poeira, restituiu-lhes o brilho anterior.

DO MANDU À MADRINHA DA TROPA

A beleza de algumas formas ditas arcaicas de nos expressarmos justifica sua ressurreição. O escritor Adylson Machado (Amendoeiras de outono/Via Litterarum) recuperou, dentre várias palavras e expressões curiosas, “mais enfeitado que madrinha de tropa” (referência à mula que “comandava” a tropa, cheia de guizos e enfeites), “mandu” (encrenca, problema, gente ruim, inconveniente) e “abistunta” (forma aleatória de acertar o preço de mercadorias de valores variados). Se esses termos não têm sido usados, isto não quer dizer que estejam mortos. Apenas dormem, à espera de quem os desperte.

SUJEITO CHEIO DE NÓS PELAS COSTAS

Os alagoanos designam uma coisa muito velha com a deliciosa expressão “do tempo em que candeeiro dava choque” (Dicionário do Nordeste, de Fred Navarro). Aqui na terra do mandu e da abistunta, um sujeito arrogante é dito cheio de nove horas, metido a sebo, cheio de nós pelas costas, podendo meter-se em camisa de onze varas num arranca-rabo, se acaso não tiver as costas quentes. Os pobres vestem roupa porta-de-loja, comem sobe-e-desce (às vezes, com o pão que o diabo amassou) e carregam seus poucos pertences num panacum. Ou bocapiu. Que, aliás, inexplicavelmente, não consta do Dicionareco das roças de cacau e arredores, de Euclides Neto.

BRASIL PÕE FRANK SINATRA NO GUINESS

Peças que a ignorância me prega. Só há poucos anos fiquei sabendo que uma das canções mais “americanas”, gravação famosa de Frank Sinatra, é… francesa. Trata-se de My way, que ao nascer chamava-se Comme d´habitude (de Thibault, Revaux e Claude François). Paul Anka (foto) comprou os direitos autorais da música, fez a versão para o inglês (dando-lhe o título de My way), em 1967, e a mostrou a Frank Sinatra. The Voice fez a gravação dois dias depois e prosseguiu cantando esse tema, quase obrigatório nos seus shows. No Maracanã, cantou My way para o maior público de sua carreira, 175 mil pessoas (o show entrou para o Guiness).

ALGUÉM JÁ OUVIU COMME D´HABITUDE?

O modelo “canção-francesa-que-vira-americana” já foi referido  aqui, com Les feulles mortes, mas não é a mesma coisa. Todo mundo conhece Les feuilles (ou Autunm leaves). Mas você já ouviu Comme d´habitude? Eu também não. A propósito, quem tiver essa música reclame na redação do Pimenta o prêmio a que faz jus (a coletânea O melhor do arrocha, com a faixa bônus “Rebolation”, na voz do Mano Cae). O mais interessante é que Frank Sinatra, após anos e anos cantando My way, revelou que não gostava dessa letra. Disse que quando a cantava se sentia “um gabola” diante da platéia, coisa que detestava.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

UMA ENORME CARGA DE GABOLICE

De outra vez, acentuou, sobre o assunto: “Eu odeio falta de modéstia, e é assim que eu me sinto com esta música”. A letra não é grande coisa: os americanos são bons melodistas, mas, para nossa sorte, Vinícius (foto), Chico Buarque, Caetano, Paulo César Pinheiro, Humberto Teixeira, Gilberto Gil, Noel Rosa e outros grandes letristas nasceram no Brasil. Mas bem olhada, My way revela enorme carga de arrogância, mostrando o cantor como todo-poderoso, acima dos mortais, dando a Sinatra razão para se sentir incomodado. É um hino ao cabotinismo, com som de caixa registradora: inesgotável fonte de renda para ele e, mais ainda, para Paul Anka.

“MAIOR CANTOR POPULAR DO MUNDO”

No vídeo será possível conferir essa opinião sobre o pedantismo da letra de My Way e identificar muita gente famosa, incluindo Dean Martin e Sammy Davis Jr. (na foto, nesta ordem, com Sinatra), amigos inseparáveis do artista. E também será fácil saber por que uma legião de críticos e fãs apontava Francis Albert Sinatra como o maior cantor popular do mundo.
Dê uma conferida.
(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

CAMACÃ E SEU FEITIO MATRIARCAL

Ousarme Citoaian

Causou inquietações mudar o nome de Camacã para Camacan (foto), dizem que por obra e graça de autoridades municipais. A palavra pertence a uma família enorme, todos os membros com nomes terminados em “ã”. Aqui estão alguns deles, citados de memória: chã, lã, terçã, arapuã, louçã, irmã, cortesã, romã, Camaquã/RS afã, itapuã, Canaã/MG, sã, xamã, fã, temporã, vilã, escrivã, tantã (doido), tantã (tambor), Aquidabã/SE, Pã, rã… Percebe-se que são poucos os indivíduos masculinos (itapuã, Pã, arapuã, tantã – no sentido de tambor), alguns são de dois gêneros (xamã, fã, tantã – significando amalucado) e a maioria é de termos femininos. Infere-se, portanto, que a palavra Camacã é de família matriarcal.

CORRUPÇÃO ATINGE A GRAMÁTICA

Estranhíssimo esse Camacan isolado, ovelha negra da família, numa solidão que emociona. A propósito, um grupo, cuja especialidade era se rebolar na boca da garrafa, batizou-se como É o tchan! – coisa igualmente canhestra, pois a grafia que encontro no Aurélio, sem me surpreender, é tchã. Parece que essa humanitária tentativa de conseguir uma companhia para Camacan falhou. Tchan, considerando o meio onde nasceu, é desculpável; Camacan, não. Agrediram as fortes raízes históricas (que reportam à extinta nação indígena camacã), quando impuseram esse Camacan – contrariando toda a família do “ã”, como vimos. É um caso raríssimo de corrupção… gramatical!

UMA VIOLÊNCIA FILOLÓGICA

Os organismos oficiais (IBGE, Detran e outros, além da Prefeitura de Camacã, é óbvio) aceitaram a grafia com a absurda invenção do  final “an”. Os jornais também. O Agora, de Itabuna, é a única exceção: parece ter-se insurgido contra o estupro filológico perpetrado contra o município e grafa Camacã, a forma historicamente correta.  Se erra, erra em ótima companhia: o citado dicionário Aurélio desconhece os filólogos municipais e registra o verbete  camacãense como sendo “de, ou pertencente ou relativo a Camacã (BA)”. Os poderes locais têm direito até de mudar o nome do município (após consulta popular, o chamado plebiscito), mas alterar a língua portuguesa, não.

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A MOÇA QUE FICOU “MEGATRISTE”

Na tevê, em matéria sobre a volta ao horário habitual, este disparate de uma jovem: “Estou megatriste, pois adoro o horário de verão” (O. C. grifou). Zonzo com a pedrada, vou ao Aurélio e confiro: mega é prefixo que, junto a uma unidade de medida a multiplica por 1 milhão. Na fala razoavelmente culta, mega substitui “grande”, não “muito”, por isso se liga a substantivos, não a adjetivos: megaempresário, megajogador, megatraficante etc. De megafeio, megatriste, megachato e semelhantes, que o bom Deus nos livre.  Se digo grande empresário todos sabem do que falo; se digo grande feio, ou grande triste, apenas puxo as orelhas da gramática. Caso a moça se dissesse “muito triste” seria comovente. Ao dizer-se megatriste, foi ridícula. O bom jornalismo evita publicar besteiras desse jaez, que nada nos trazem, além de irritação.

PARA CRIAR É PRECISO AUTORIDADE

Palavras e expressões novas, para que sejam aceitas, dependem muito da origem, do pedigree de quem as divulga. Certa feita, o sindicalista e então ministro Luiz Rogério Magri (foto), iletrado, mas com diploma de pelego, criou a palavra imexível – e virou chacota nacional pelo resto da vida. No entanto, que me perdoem os linguistas, creio que, se exposta à luz da etimologia, imexível é perfeitamente defensável, por analogia com indizível (de dizer), elegível (eleger) e incontível (conter) – para ficar em limitados exemplos. Logo, por que a celeuma? Porque quem criou o termo não tinha “autoridade” para fazê-lo e, em sendo assim, não inventou uma palavra: inventou um constrangimento.

NONADA É BROGÚNCIA E MEXINFLÓRIO

A língua portuguesa foi praticamente reescrita por João Guimarães Rosa (foto), o maior criador de neologismos e rejuvenescedor de arcaísmos da nossa ficção. É isso que eu queria dizer: se fosse o autor de  Sagarana quem grafasse um imexível, críticos, gramáticos, filólogos e linguistas estariam todos esfalfados de tanto bater palmas.  Há dias, citamos (à espera de protestos indignados, que não vieram) uma invenção roseana: nonada. É um arcaísmo recuperado (a primeira palavra de Grande sertão: veredas). Imagino alguém perguntando a JGR o que é nonada e ouvindo dele, divertido, que “nonada é tutaméia” (assim mesmo, com acento agudo), termo por ele criado a partir de tuta-e-meia, com origem no quimbundo.

POLÊMICA SOBRE OSSOS-DE-BORBOLETA

O escritor detalha sua cria como coisa pequena, sem importância, bobagem, asneira, quinquilharia, brogúncia, mexinflório, baga, chorumela, nica, quase-nada – em Tutaméia (José Olympio/1968). A língua culta não se enriquece com a mídia, quando esta tem como agentes alter egos de Rogério Magri, numa gazeta qualquer. Aí, ela, a mídia, torna-se estuário de banalidades. No texto dos bons jornalistas (Fernando Sabino, Machado de Assis, Jorge Araujo, Ruy Castro, Joaquim Nabuco, Hélio Pólvora, Florisvaldo Mattos…) nunca se viu disparate do tipo “tentar contra a vida”. Os dicionários (Aurélio, Michaelis) também não aceitam essa acepção. Logo, para que discutir ossos-de-borboleta?

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MORRE O GUARDIÃO DOS LIVROS

Cumpre-se o dever de informar que morreu José Midlin, o grande bibliófilo brasileiro. Mais do que leitor e colecionador de livros – reconhecem políticos de vários matizes – Midlin foi um grande cidadão do Brasil. Reagiu, como pôde, à ditadura militar e, particularmente, ao assassinato oficial do jornalista Wladmir Herzog. Seu acervo, cerca de 17 mil livros, foi doado à biblioteca da USP. Ele deixou claro, há tempos, que a biblioteca não lhe pertencia, era pública: “Sou o guardião dos livros”, dizia – nunca fui guardião de livros, ai de mim! O meus, bem poucos, voam livres e, ao contrário  das pombas de Raimundo Correa (que retornam ao pombal todas as tardes) não voltam mais às minhas mãos. Perdeu o Brasil um filho ilustre.

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DUQUE, REI, CONDE E PRESIDENTE

Por motivos nem sempre conhecidos, músicos americanos, sobretudo os ligados ao jazz, sempre ganharam apelidos “exagerados”. Ellington era duque (the duke), Ray Charles, gênio (the genius), Frank Sinatra era a voz (the voice), Stan Getz, o som (the sound); Basie era o conde (the count). Lester Young, trompetista preferido da grande  Billie Holiday, a Lady Day (foto),  ganhou dela o apelido de the president, que passou a  “assinar” de forma abreviada: Pres Lester Young;  Charlie Parker era the bird, Nat Cole chamava-se Nat King Cole, e Miles Davis se tornou lendário como Miles, o divino. Aliás, divina era também Sarah Vaughan e uma das mais festejadas cantoras brasileiras de todos os tempos: a divina Elizeth Cardoso.

POR VOLTA DA MEIA-NOITE

Mas há uma face trágica. O jazz formou um imenso mercado consumidor de drogas, levando muitas estrelas a ter suas careiras prejudicadas, ou a encerrá-las antes da hora, para atender ao prematuro chamado da morte. Charlie Parker, Dexter Gordon (foto), Billie Holiday, Jannis Joplin, John Coltrane, Miles Davis, Chet Baker e Coleman Hawkins, aqui referidos de memória, têm a ligá-los não só a genialidade (alguns críticos acham que Chet Baker é uma sombra de Miles Davis, mas esses detalhes técnicos escapam ao meu nível de mero ouvinte): todos, de alguma forma, tiveram a vida invadida pelo vício. O assunto permeia o ótimo filme Por volta da meia-noite (Bertrand Tavernier/2001). O tempo é 1959, na Blue Note, em Paris. Um jovem parisiense branco, do lado de fora da boate, ouve, encantado, o som eloquente do tenorista Dale Turner/Dexter Gordon – e a partir daí vai se construir entre eles uma amizade que se estenderá até a morte do músico.

TRABALHO DE FÃ PARA FÃS

Mais conhecido pelo seu título original, Round midnight (um dos temas de jazz mais gravados do mundo – já apresentado aqui), Por volta da meia-noite é filme de fã de jazz para fãs de jazz. Não me perguntem quantas vezes o vi (a resposta teria um número com dois dígitos). É a história de um gênio, já em fase terminal, com a vida em queda inapelável. Diante da fantástica trilha sonora de Herbie Hancock (ganhador do Oscar), Dexter Gordon se conduz como um veterano ator de cinema, com seu sax e seu surpreendente talento (indicado para o Oscar). Este, aliás, é um dos aspectos mais interessantes do filme: ter um músico como protagonista e com todos os números musicais feitos ao vivo. Na abertura, Bobby McFerrin executa Round midnight… com a garganta; depois, Gordon nos brinda com um memorável As time goes by. Arrepiante.

O GOGÓ AFINADÍSSIMO DE MCFERRIN

O grandalhão tenorista Dexter Gordon nos passa a sensação de ser uma insólita mistura de Charlie Parker, Chet Baker e Miles Davis – todos vítimas do vício. Parker, aliás, morreu com apenas 34 anos, e é tema de Bird, filme de Clint Eastwood que não coube na coluna hoje. Além de Gordon, Round midnight apresenta vários nomes conhecidos, sendo um prazer para o aficionado do jazz  identificá-los: Herbie Hancock (foto), John McLauglin, Wayne Shorter, Ron Carter e Fred Hubbard. Clique e ouça Round midnight, de Thelonious Monk, em solo de gogó de Bobby McFerrin (ao piano, Herbie Hancock; o cara do charuto, na bateria, é Tony Williams).


(O.C.)






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