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:: ‘IME’

MORRE O ESCRITOR MARCOS SANTARRITA

O jornalista, escritor e tradutor Marcos Santarrita, nascido em Aracaju e criado em Itajuípe, morreu na madrugada de quarta-feira (5), em seu apartamento, na avenida Nossa Senhora de Copacabana, Rio de Janeiro, vítima de complicações pulmonares. O escritor, que publicou mais de uma dezena de títulos, entre contos e romances, morreu após completar 70 anos (nasceu a 16 de agosto de 1941).

Marcos Santarrita começou a carreira com publicações de contos n´ATarde, Jornal da Bahia e Diário de Notícias, em Salvador. A vocação para a literatura, segundo ele conta em O que tinha de ser (Imago-Fundação Cultural do Estado da Bahia/2000), fora “descoberta” anos antes pelo professor de português Pedro Lima, no Instituto Municipal de Educação (IME), de Ilhéus, onde o escritor fez o curso científico.

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UNIVERSO PARALELO

SEBASTIÃO NERY ASSINA COLUNA EM ITABUNA

Ousarme Citoaian

Suponho que a notícia deva ser comemorada: um jornal diário de Itabuna passou a abrigar a coluna de um dos mais brilhantes, cultos e experientes jornalistas brasileiros – Sebastião Nery. Autor de mais de quinze livros, principalmente sobre a política partidária (dentre eles, Pais e padrastos da pátria, Crepúsculo caiado, Socialismo com liberdade e Folclore político), Nery sabe, como os melhores de sua geração, contar histórias deliciosas, em estilo leve e cativante. Alguns dos textos publicados em jornal vêm dos livros. E vice-versa. Nas colunas reproduzidas no jornal de Itabuna ele tem usado passagens do seu excelente A Nuvem/2009, livro de memórias que só li no ano passado.

A LEITORA SABE ONDE FICA A TAPROBANA

De A Nuvem, esta história, passada no Seminário de Amargosa, quando Nery e outros analisavam, em aula, Os Lusíadas (“As armas e os barões assinalados/Que da ocidental praia lusitana/Por mares nunca d´antes navegados/Passaram muito além da Taprobana”). “Onde fica a Taprobana?” – vai perguntando o exigente e quase surdo Padre Correia, sem resposta. Até chegar à última fila de carteiras, onde está um tímido seminarista recém-chegado de Jequiriçá: “Sei não, professor”. O velho mestre esfrega a resposta na cara dos alunos. “Muito bem! Ceilão! Vocês, seus marmanjos, há anos aqui, não sabem. E o tabareuzinho de Jequiriçá já sabia”. Conta Sebastião Nery: “Nenhum de nós dedurou o tabareuzinho de Jequiriça”.

NABUCODONOSOR “VISITA” JOAQUIM NABUCO

Eu também não saberia onde fica a Taprobana – e aproveito para contar um caso, da forma como me foi contado. Era o lendário Instituto Municipal de Educação (I.M.E.,na foto de Mendonça), Ilhéus, no fim dos anos cinquenta. Durante uma prova oral de História do Brasil, o professor Leopoldo Campos Monteiro pergunta a um aluno meio “curto” o nome do diplomata famoso, autor de O estadista do Império. Como o rapaz não sabia, o mestre, bondoso, tentava ajudar, mas a resposta não saía. Já esgotados os “argumentos”, o professor dá a pista definitiva: “Nabuco, meu filho, Nabuco…” O mau aluno, achando que tinha captado a dica, sai-se com esta pérola, em voz alta: “Nabuco…donosor”! O bom professor Leopoldo quase desmaia de susto e frustração, diante da risadaria geral.

MASSAGISTA SE APAIXONA POR “SINÔNIMO

Tempos antes de ganhar o nome de Zito Bolinha, o futuro massagista do Itabuna, apaixonou-se por uma palavra nova e bonita: sinônimo. Assim, tudo que o espantava, divertia ou preocupava, ele definia como… “um sinônimo!” – para a total perplexidade dos que o ouviam. A gripe asiática era um sinônimo, Leo, entortador de zagueiros, era outro sinônimo, e que sinônimo era a louríssima arrasa-quarteirão Marylin Monroe (foto), incendiando telas e a imaginações! Até que, interrogado a respeito, Zito explicou que ouviu a palavra no filme Absolutamente certo: Anselmo Duarte (1920-2009), a certa altura da narrativa, afirma: “Isto é um fenômeno!”. O bom Zito Bolinha, que nunca teve oportunidade de ir à escola, confundiu fenômeno com sinônimo.

CUIDADO: ATLETA “FINALIZA” ADVERSÁRIO

Com pessoas iletradas eu sou todo boa vontade, mas não consigo reeditar esse comportamento com os que se dão ao ofício de escrever para o público. Estes (às vezes com pose que supera a competência) não têm justificativa para erros palmares, resultantes de indolência, descuido, desatenção, desleixo. “Jornalistas têm que escrever tão bem…” (vocês já sabem). Com tal espírito, leio em importante diário de Itabuna este título enigmático: “Itabunense finaliza adversário em 15 segundos de luta”. Ora, como será que esse lutador de maus bofes ”finalizou” seu infeliz desafeto? Um furo na jugular do pobre coitado? Vitimou-o a tiros de escopeta ou o forçou a uma overdose de droga.

APENAS A LINGUAGEM FICOU COM HEMATOMAS

Decido-me pela leitura do texto e respiro aliviado, pois – ao contrário da expectativa criada pela manchete – a notícia não revela nenhuma agressão com sangue derramado, apenas a linguagem sofreu hematomas: um atleta de Itabuna aplicou uma chave de braço no seu adversário e o venceu, tornando-se campeão de um torneio de luta livre, em Jequié. Fico sem saber o porquê de certos redatores buscarem complicações, quando deveriam manter-se no simples. A estilística não vê a simplicidade como defeito a evitar, mas qualidade a perseguir. Se Zito Bolinha tinha o direito falar “bonito”, jornalistas não o têm. Aliás, o falecido massagista certamente diria que o título referido é… um sinônimo!

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O ERRO “ESPECIAL” DE NELSON GONÇALVES

Já nos referimos aos erros gravados na MPB, voltamos a eles hoje e, por certo, tão cedo não esgotaremos o tema. Há erros menores, facilmente absorvíveis, e erros notáveis, que transformaram em definitivo a letra original. Mas há um deles que tem características diferentes, por ter sido “corrigido” no ar, coisa nunca vista. O registro em disco tornou-se antológico, devido ao erro e a imediata correção. Trata-se da canção Maria Betânia, de Capiba (Lourenço Fonseca Barbosa), cuja letra foi “atacada” por ninguém menos do que Nelson Gonçalves, e “defendida” por Jessé, uma espécie de concorrente. A gravação, ao vivo, ganhou esse quê de especial, pela importância de Nelson Gonçalves.

LUTA DE GIGANTES, RENHIDA, EQUILIBRADA

Depois de Jessé cantar metade da letra, Nelson exibe aquele grave que o caracterizava, com Jessé num contracanto emocionado. Aí Nelson (que é “dono e senhor” de Maria Betânia desde 1944!) confunde o texto, enfia um “esplendor” no lugar errado, Jessé percebe o erro, diz “data vênia, mestre!” e, de peito escancarado, corrige: “hoje confesso, com dissabor”. Gosto de imaginar que foi assim. Ou então penso numa luta de gigantes, equilibrada, renhida, sem prognóstico e, quando menos se espera, um deles escorrega numa casca de banana. Maria Betânia (então, Bethânia) foi feita em 1943, quando Capiba (1904-1997), musicou a opereta “Senhora de Engenho”.

CAETANO VELOSO GOSTOU DE MARIA BETHÂNIA

Em visita ao Recife, Nelson resolveu gravar a canção, o que fez em 1944, popularizando o nome. Maria Bethânia era ouvida também nos alto-falantes de Santo Amaro, pela família Veloso, tanto que Maria Bethânia, a cantora, chama-se Maria Bethânia por causa de Maria Bethânia, a canção. Se alguém aí vive no mundo da lua e ainda não sabe dessa história, vá lá: quem deu o nome à festejada cantora foi seu criativo mano Caetano. Outra curiosidade, menos óbvia: a pequena Surubim (foto) –  pouco mais de 58 mil habitantes, pelo censo de 2010), no agreste pernambucano – deu, além do compositor Capiba, o animador Chacrinha. Veja/ouça o “duelo” de dois grandes da MPB: Jessé e Nelson Gonçalves.

(O.C.)

PREMIAÇÃO

Ator participa da premiação

Será realizada logo mais, às 9 horas, no auditório do Instituto Municipal de Educação, centro de Ilhéus, a premiação do concurso literário com foco no desenvolvimento sustentável. A competição foi uma iniciativa do Comitê de Entidades Sociais em Defesa dos Interesses de Ilhéus e Região (Coeso), que contou com o apoio da Secretaria Municipal da Educação e da empresa Bamin.

Uma comissão de educadores analisou trabalhos nas categorias redação, frases e desenhos, sendo que os três primeiros colocados em cada uma delas receberão o prêmio do concurso. O evento faz parte da programação da Semana do Meio Ambiente.

O ator ilheense Fábio Lago, que também estimulou a iniciativa, estará presente na cerimônia de premiação.

A COMISSÃO PRIMEIRO

A cena aconteceu em frente ao IME, no centro de Ilhéus, um dos locais de provas do concurso público que deveria ocorrer hoje.

Repórter experimentado, mais de 20 anos de estrada, se dirige a um dos candidatos revoltados com a desorganização e falta de informação do concurso. Pede uma entrevista. O homem vira, de imediato. Sem se importar com os concorrentes, ar sério, solta:

– Vai pagar quanto de comissão?

O repórter capta o espírito da (ou do) coisa, e responde:

– Rapaz, tomara que você não faça o concurso. E, se fizer, que perca. A sociedade vai ficar mais tranquila.

UNIVERSO PARALELO

O CACOETE, ANTIGO INIMIGO DA LINGUAGEM”

Ousarme Citoaian

Dentre os vícios que nossa linguagem oral adquire, um dos mais incomodativos é o cacoete – o uso repetitivo de palavra ou expressão. Conheci um prefeito de Itabuna que era incapaz de fazer uma frase sem antecedê-la de um “realmente”. Criava-se uma situação esdrúxula nas entrevistas. Por exemplo, se algum puxa-saco lhe perguntava  como estava passando de saúde, a resposta vinha mais ou menos neste formato: Realmente, eu estou… E este nem é dos piores. Ruim mesmo é quando o cacoeteiro usa perguntas (sabe, entendeu, percebe?). O ex-jogador Pelé termina 99,99% das frases com uma amolante interrogação: entende?

UMA EXECUÇÃO “TREMENDAMENTE DOLOROSA”

Em Ilhéus, famoso professor de História do lendário I. M. E. (na foto de Mendonça) tinha, apesar de sua riqueza vocabular, predileção pelos termos “tremendo” e “doloroso”. Toda ocorrência incomum, chocante, era para ele “uma coisa tremenda” (ou “dolorosa”). “Certos” alunos anotavam as vezes em que ele dizia tais palavras e, ao fim da aula, não raro discutiam: “quatro tremendos e dois dolorosos”, dizia um; “foram quatro tremendos e três dolorosos”,  contestava o outro. Certo dia, o mestre, emocionado ao descrever, em cores vivas, a execução de Tiradentes, disse ter sido aquilo um ato… “tremendamente doloroso”. Foi difícil conter nosso entusiasmo.

ILUSTRE, ELEGANTE, PREPARADO E ÍNTEGRO

A referência, se parece jocosa, não teve essa intenção. Ao contrário, registra, com respeito e saudade, a ausência “dolorosa” (se me permitem) de um ilustre, preparado e dedicado educador, homem público reto, decente, elegante no trato, íntegro como poucos (foi secretário da Educação de Ilhéus), morto em 2008, em Brasília: Leopoldo Campos Monteiro, sergipano de nascimento e ilheense por escolha – e que nos faz hoje uma falta “tremenda”. Autoridade em História (o Palácio Paranaguá é nome sugerido por ele), também sabia muito de economia municipal, heráldica e numismática. O brasão de Ilhéus, criado em 1954, é de sua autoria.

PINTURA COM SOBRAS DE TINTA ROXO-TERRA

Por falar em Instituto Municipal de Educação (I. M. E.), ele acaba de receber mais um desserviço do poder público: uma pintura ao belo estilo “mistura de tintas”, indigna do prédio que foi modelo de cartão postal de Ilhéus. Essa intervenção – ao que parece, feita com sobras de material – agride o olhar e traumatiza a história, sugerindo obra de quem não tem sequer noção do que o I.M. E. significa para a cultura local. O tempora, o mores! (“Oh tempos, oh costumes!”), diria o cônego Mário, latinista da casa, que deve estar – tanto quanto Leopoldo, Mário Pessoa, Eusínio Lavigne, Heitor Dias e outros – dando pulos no túmulo.

ABRIL DESPEDAÇADO QUE NUNCA TERMINOU

Não pretendo perder de vista que há 47 anos, naquele abril despedaçado de 1964, ocorreu no Brasil um golpe militar de consequências desastrosas.  E no conjunto da burrice que se institucionalizou no país – quando algumas das maiores inteligências nacionais foram engessadas – aparece com destaque a tentativa de prisão de famoso teatrólogo, que, felizmente para as nossas relações diplomáticas com a Grécia, não aconteceu. Aliás, tal prisão seria uma absoluta impossibilidade histórica, só admissível por um governo que não tinha cabeça. Aconteceu no Teatro Jovem, no Rio de Janeiro, no fim dos anos 60.

MULHER MORRE POR CONTESTAR LEI INJUSTA

Levava-se a tragédia Antígona, de Sófocles, peça escrita há mais de quatro séculos a.C. Recorde-se que Antígona é irmã de Etéocles e Polinice, e os três são filhos de Édipo (aquele mesmo!), que morrera tragicamente. Os dois irmãos morrem em luta (um contra, outro a favor de Tebas). Creonte, o governador, determina que um dos mortos, o que era “amigo” da cidade, tivesse honras fúnebres e ao outro, “traidor”, tudo fosse negado – e seria também traidor quem não cumprisse esse édito. Antígona se insurge contra a decisão e o governador, seu cunhado, a condena à morte.  Creonte acha que todos são iguais perante a lei.

“AI DE MIM!”, O GRITO DOS TORTURADOS

Um bando de agentes do governo invadiu o Teatro Jovem, de pergunta em punho: “Onde está o Sr. Sófocles? Temos ordens de levá-lo para interrogar”. Como fazer aquela gente perversa entender que o autor morrera há 406 anos antes de Jesus? Mas milagres acontecem. Eles entenderam,desistiram da “prisão” e se contentaram em tirar a peça de cartaz, alegando que a mesma era subversiva. O grito secular de Antígona, feito por Anecy Rocha, irmã mais nova de Glauber (Ai de mim, zombam da minha desgraça!) prenunciava a noite sem luz que viria. Este registro é em homenagem aos que tiveram as unhas arrancadas a alicate. Sófocles escapou.

CARNE FRITA, A LENDA, PASSOU POR AQUI

A citação do livro Malagueta, Perus e Bacanaço, há dias, trouxe à baila o nome de Carne Frita (Walfrido Rodrigues dos Santos), a maior lenda da sinuca no Brasil. Sua fama foi feita no boca a boca, num tempo em que a mídia não divulgava o joguinho, considerado coisa de vagabundo. Mesmo assim, terminou na televisão e no cinema. Alagoano de Penedo (há quem diga que ele nasceu em Propriá/SE), viajou muito pelo Brasil. Em Itabuna, teria perdido para Rui Falcão (provavelmente o maior jogador que o Sul da Bahia já teve), num match memorável travado no Elite Bar. Ganhou poucos títulos: quando a sinuca foi organizada como esporte ele teve a visão prejudicada por um acidente. Mora em São Paulo, e joga raramente.

ITABUNA JÁ PRODUZIU UM GRANDE CAMPEÃO

O itabunense Rui Matos de Amorim, o Rui Chapéu (foto), foi motorista de caminhão até os anos 70, quando largou a atividade para viver do seu talento, a sinuca. Conta que não fez isso antes devido ao preconceito que tinha de enfrentar (o jogo era tido como coisa de malandro). Embora tenha uma penca de títulos, Rui não gostava de competir no Brasil, pois os prêmios são pagos em troféus. “Os campeonatos não rendem prêmio em dinheiro, e eu precisava levar dinheiro para casa. Nós não íamos comer as taças”, brinca. Da segunda metade dos 80 até 1992, deu aulas de sinuca na Rede Bandeirantes, transmitidas aos domingos. Seu maior feito foi, em1981, vencer o inglês Steve Davis, campeão mundial.

NOEL “FECHA”, NA MAIOR TACADA POSSÍVEL

Noel Rodrigues Moreira, o Noel, 39 anos, é de Roncador (área rural do Paraná), e um dos mais temidos tacos da nova geração. Desde os sete anos se interessava pelo joguinho (próximo à casa dele havia um boteco, com uma velha mesa, sua primeira experiência). Aos 18, já em Curitiba, deslumbrou-se com o estilo do goiano Roberto Carlos, intensificou os treinamentos e se profissionalizou. Dentre os títulos conquistados, estão os de campeão estadual (várias vezes), campeão brasileiro (duas vezes) e campeão sul-americano. Aqui, ele dá uma demonstração de como “fechar” o jogo, com a maior tacada possível: 112 pontos (observe que ele faz a proeza de encestar a bola sete treze vezes).

(O.C. )

UNIVERSO PARALELO

ENTERRAMOS O SÍMBOLO DE UMA GERAÇÃO

Ousarme Citoaian
A última edição do UP estava sendo blogada quando Nelito Carvalho era enterrado (e eu, vítima do mecanismo da repetição, quase escrevi “o corpo de Nelito Carvalho”) no cemitério da Santa Casa de Itabuna. “Foi-se uma era, o marco de uma geração” –  recitei para o jornalista Marival Guedes, nós dois ao lado do caixão aberto. Minutos depois, admiti que se Nelito pudesse pular dali, viria, de dedo em riste, me chamar de piegas ou, pior ainda, esgrimir seu adjetivo preferido: imbecil (que ele estenderia aos circunstantes, pelo pecado de me ouvirem). Nelito era assim: pão, pão; queijo, queijo – e mesmo com os amigos seu nível de hipocrisia era zero.

UM HOMEM QUE ERA BOM E NÃO SABIA

Nelito era bom e não sabia, talvez porque seu credo de comunista nunca teve como ponto focal a bondade, mas a justiça. No entanto, que homem bom ele foi! O seu SB – Informações e Negócios (antes, fez o Jornal de Notícias, com Manuel Leal) foi laboratório que projetou muita gente no jornalismo regional. Por ali passaram Paulo Afonso, Jorge Araujo, Kleber Torres, Cyro de Mattos, Mário de Queiroz, Alberto Nunes, Plínio Aguiar, Raimundo Galvão, Marival Guedes, Eduardo Anunciação, Chiquinho Briglia, Pedro Ivo, Antônio Lopes, Helena Mendes, Roberto Junquilho, Manuel Lins e vários e outros. Mesmo que dela retiremos os ingratos, os que chutaram o prato em que comeram, ainda assim a relação está longe de ficar completa.

RICO, TEVE A GENEROSIDADE EXPLORADA

Se alguém afirmar que Nelito foi um mecenas ele não resistirá à ofensa: ressurgirá dos mortos para protestar contra a infâmia (de dedo na cara do difamador “imbecil”, é claro). Mas, me dói dizer, ele estaria sendo injusto: quando rico (teve lá sua fase de pobreza intensa, criada pelo romantismo), custeou todo tipo de maluquice que lhe foi apresentada, na exploração de sua generosidade, a todos deu a mão. Este registro é feito na suposição de que muitos “alunos” de Nelito gostariam de fazê-lo, mas não encontram espaço. E com a certeza de que, em vida dele, este texto jamais poderia ser publicado. Ele me chamaria de piegas, no mínimo.

A LÓGICA EM OPOSIÇÃO AO ROMANTISMO

Restou dizer que chamá-lo de “romântico” seria outro motivo para uma fulminante resposta desaforada: comunista confesso, perseguido, mas nunca renunciante da doutrina que abraçou desde cedo, Nelito Carvalho – como é próprio dos marxista – cultivava a lógica, em detrimento do romantismo, e o materialismo em oposição ao idealismo. Creio ser mais justo retirar o termo anterior e afirmar que se ele não foi mais longe como empresário foi devido à sua absoluta falta de habilidade para sobreviver como homem de negócios no mundo capitalista hostil que ele tanto combatia. E, claro, à sua imensa generosidade que muitos exploraram sem nem lhe dizer “obrigado”.

OS GOLEIROS E O CAVALO DE ÁTILA

Talvez a literatura sobre futebol, para me deixar mal, não seja assim tão árida quanto eu disse aqui – e mais árida terá sido minha ignorância. No site do jornalista Flávio Araújo encontro dois livros que eu não conhecia e que falam, especificamente, de… goleiros. São trabalhos que, por certo, merecem ser lidos por quem se interessa pelo famoso esporte bretão. No primeiro, Goleiros – heróis e anti-heróis da camisa 1, do jornalista Paulo Guilherme, descobre-se que aquela posição digna do cavalo de Átila (“Onde goleiro pisa, não nasce grama”, diz o folclore) já foi ocupada por ilustres personagens (ao menos ilustres fora do campo).

O FRANGO AO ALCANCE DE TODOS

Para exemplificar, anotem que a meta foi defendida por figuras como o papa João Paulo II, o escritor francês Albert Camus (autor de A peste), o inglês “sir” Arthur Conan Doyle (criador de Sherlock Holmes), o cantor espanhol Julio Iglesias e o revolucionário argentino Ernesto Che Guevara. Como se vê, o lugar, antes chamado de “debaixo dos três paus”, é um espaço democrático, tendo sido habitado (com os frangos que a inabilidade chama), por tipos faceiros e de filosofias muito diferenciadas. Já o outro livro, de Roberto Muylaert, tira de campo os amadores e fala de um goleiro de verdade, numa história real e muito pouco engraçada.

DÍVIDA QUE ZAGALLO NUNCA PAGARÁ

Em Barbosa – um gol faz cinqüenta anos Muylaert narra o drama do grande goleiro Moacyr Barbosa, sempre estigmatizado por ter levado aquela bola de Gighia na Copa do Mundo de 1950, que deu a vitória aos uruguaios. O evento, já citado nesta coluna, passou à história com o nome de Maracanazo, o dia em que o Brasil estava prontinho para comemorar o primeiro título de campeão mundial e, subitamente, calou-se e caiu no choro convulsivo. Em tempos recentes, o técnico Zagallo proibiu a entrada de Barbosa na concentração do Brasil, alegando que o goleiro era pé-frio. A atitude inqualificável do ex-técnico gerou uma dívida que ele morrerá devendo.

O SILÊNCIO DO POETA SOB A CHUVA

Certa vez, num restaurante,
Dentro do espaço e do tempo,
Eu vi Padilha, o poeta,
Que vinha de estar infeliz
Pois trazia, contraídas,
Palavras, não de beijo, mas de fúria,
Esmagada no silêncio dos seus lábios.

Não quis sentar à mesa nem provar
Uma gota sequer do Johannesberg:
Foi-se embora em silêncio
Sem dizer a que veio, sob a chuva,
Como Pessoa,
Que nada encontrou, jamais,
Vindo de Beja  para o meio de Lisboa..

QUARTETO CHEIRA A FERNANDO PESSOA

Carlos Roberto Santos Araujo, autor de “Telmo Padilha II”, nasceu em Ibirapitanga (1952), mas “estourou” em São Paulo: ganhou lá o Concurso Governador do Estado, com a coletânea de poemas. Foi juiz de Direito em Itabuna e hoje é desembargador do Tribunal de Justiça da Bahia. Publicou os seguintes livros de poesia:  Nave submersa (1986), Lira destemperada (2003), Sonetos da luz matinal (2004) e Viola ferida (2008). Cultor de variadas forma de expressão poética (em particular, o soneto)  CRSA, em Soneto da noite escura, lembra outro grande nome da poesia em língua portuguesa: “A chuva toca piano/ Nos tímpanos da tarde nua,/ Dedilha com dedos lânguidos/ O teclado das lentas ruas”. Fernando Pessoa bem que poderia assinar este quarteto.

O DUPLO ALFABETO DOS BRASILEIROS

A coluna não emite regras de português (apenas sugestões e preferências) e não é o que o professor Odilon Pinto chamaria “Pronto-Socorro gramatical” (aliás, muita gente ficaria espantada com meu desconhecimento de gramática). Mesmo assim, volta e meia nos vêm consultas sobre determinadas questões. Exemplo: recentemente nos sugeriram “explicar”  o porquê de as pessoas  pronunciarem o nome de famoso político baiano (isola: toc! toc! toc!) como a-cê-eme e não a-cê-mê (do jeito nordestino). E antes que alguém ache isso natural, vamos lembrar que quem fala a-cê-eme fala também  a-fê-i (para Ação Fraternal de Itabuna) e não a-efe-i. Haveria contradição nesse comportamento?

O “FÊ-GUÊ-LÊ-MÊ” SUMIU DOS DICIONÁRIOS

Salvo melhor juízo, não existe aqui nenhuma incoerência. A pronúncia do “fê-guê-lê-mê”  é legitimada  pelo Aurélio,  o Michaelis a identifica como  regional (Nordeste), enquanto o Priberam (Portugal) sequer a menciona. No caso da AFI (a-fê-i) trata-se de consagração pelo uso, e dizer-se a-efe-i soaria absolutamente pernóstico, além de quase ofensivo às gerações de alunas que passaram pela escola de Dona Amélia Amado. Em Ilhéus, o Instituto Municipal de Educação (I. M. E.) é tratado como i-mê-é, igualmente por tradição de uso: por certo, chamar de i-eme-é o venerando “Ginásio Eusínio Lavigne”, de tanta história, não o identificaria perante os seus mestres e ex-alunos.

A IDENTIDADE NORDESTINA ESTÁ EM PERIGO

Acima da escolha de eme ou , está a questão da cultura nordestina, que vem sendo minada pela “globalização da linguagem” (fenômeno que chamo assim por falta de nome mais adequado), num  processo em que a mídia eletrônica é fundamental.  A antena parabólica liga o brasileiro do interior a um mundo que não é o dele, integrando-o, via novelas e telejornalismo, a uma “realidade de ficção” (se é que posso assim me expressar). Parece que já nos falta coragem para defender os valores regionais, enquanto sobra vergonha do nosso sotaque – e assim se esvai nossa identidade de povo nordestino. A propósito do citado dirigente, chamá-lo a-cê-eme ou a-ce-mê daria no mesmo mané luiz.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

DO NORDESTE PARA O MERCADO NACIONAL

Zé Dantas, médico, poeta e folclorista pernambucano (Carnaíba, 1921 – Rio, 1962) ajudou muito a “nacionalizar” a música popular nordestina em geral. Fez mais de 50 composições (a grande maioria com Luiz Gonzaga), sendo que pelo menos uma dúzia delas é de clássicos que todo mundo conhece: Vozes da seca, Cintura fina, A volta da asa branca, Xote das meninasRiacho do navio, Sabiá, A dança da moda, Farinhada, Imbalança, Vem morena, Forró de Mané Vito, Letra I. Dantas (na foto, com Luiz Gonzaga), que não quis seu nome nas primeiras letras que foram gravadas – para que o pai não lhe cortasse a mesada de estudante, fez também a letra de ABC do sertão, ilustrativa do que queríamos dizer. Clique, veja e ouça.
(O.C.)

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