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:: ‘Jânio Quadros’

SEDE NO PODER

Afonso DantasAfonso Dantas | afonso.dantas@camaracomunicacao.com.br

 

 

O Temer, o que bebe o Temer? Não foi comprovado seu gosto vampiresco por sangue, embora milhões de brasileiros pensem o contrário com a série de denúncias sobre seu governo pululando na imprensa e nas redes sociais.

 

Analisando o perfil dos nossos presidentes, observo a relação destes com as bebidas. Não lembro se o Sarney apreciava alguma “branquinha” daquelas com infusão de maribondos e devidamente flambada, para fazer alusão ao seu tão famoso livro de poemas, nem dos gostos dos sisudos militares ou do querido Tancredo. O mais famoso, sem dúvida, nesse setor foi o Jânio Quadros, que disse “Bebo porque é líquido, Se sólido fosse, come-lo-ia.”…Mas vamos lá!

Collor era apaixonado pelo Logan, um whisky escocês de 12 anos – e por causa disso, as importações desse bom whisky dispararam no Brasil. (Há quem suspeite até de sociedade com a destilaria. Pura fofoca.)

Itamar não demonstrava preferência por nenhuma bebida, embora no episódio da modelo Lílian, sem calcinha, no camarote oficial da presidência, durante o carnaval, alguns aleguem que não seria possível ele não estar em um estado um pouco alterado. Ficará sempre a dúvida.

Uma pausa nos presidentes da república para lembrar de outro presidente, o Ulisses Guimarães, eterno presidente do PMDB, que lançou moda ao revelar seu gosto por um aguardente de pêssego, que inclusive vinha com uma pera dentro. A garrafa do Poire Williams, caríssima, era sinônimo de intimidade com o poder e ostentá-la na mesa do Piantella, restaurante preferido da fauna política da Capital Federal, era requisito para atrair a atenção do Doutor Ulisses.

Fernando Henrique Cardoso, era colecionador de cachaças, embora alguns afirmem que isso era para tentar ser um pouco mais “pé na cozinha”, frase que disse e que o acompanhou até o fim do mandato como um presidente que “forçava” seu lado popular. Sua coleção de cachaças foi “socialmente compartilhada” – seria esse o termo politicamente correto? – pelos companheiros do MST, Movimento dos Sem-Terra, que invadiram sua fazenda e degustaram sem cerimônia a sua tão estimada coleção.

Lula, presidente extremamente popular, nos tempos do sindicato adorava uma cachacinha e uma cervejinha gelada. A marca? Gelada! No poder, ainda curtiu uns licores de jenipapo e quentões em uma festa junina palaciana, mas, encantado com as benesses do poder, foi conquistado pelo mundo do vinho, estimulado pelo seu marqueteiro Duda Mendonça – esse influenciado pelo ex-governador de São Paulo Paulo Maluf – e fez uma adega de fazer inveja aos Rothschild. Uma boa garrafa de Romanée-Conti, devidamente “decantada”, sonho de consumo de enólogos pelo mundo todo, passou a fazer parte de sua degustação diária. Um luxo.

Dilma Rousseff em matéria de bebidas não se destacou, embora afirmem que não seriam normais suas declarações e discursos em estado de sobriedade. Mas, por via das dúvidas, vamos deixar esse assunto para lá, pois fora a farra de vinhos bem acima da média na escala em Lisboa, de uma viagem internacional, com fotos um pouco comprometedoras em termos de falta de sobriedade, nada temos a comentar muito. Melhor ficar de bico calado, para não sermos acusados de machismo. Tempos difíceis.

O Temer. O que bebe o Temer? Não foi comprovado seu gosto vampiresco por sangue, embora milhões de brasileiros pensem o contrário, com a série de denúncias sobre seu governo pululando na imprensa e nas redes sociais. A bebida predileta do atual mandatário do Palácio do Jaburu (não quis o Alvorada, pois, dizem, tinha muita luz…) é um mistério, embora haja suspeita de que exista um estoque reforçado de uma bebida escura, a base de catuaba, feita por um raizeiro de origem libanesa, que é melhor do que muita pílula azul famosa que existe por aí.

Um brinde ao poder.

Afonso Dantas é administrador de empresas e especialista em Gestão Cultural pela Uesc, além de sócio e diretor de criação da Camará Comunicação Total.

UNIVERSO PARALELO

TÁBUA DE GRAXA GERA PESADELO EM ILHÉUS

Ousarme Citoaian

O afastamento do prefeito de Ilhéus nos rendeu um comentário sobre expressões idiomáticas: alguém escreveu que o substituto do prefeito estava “com o prato e o queijo nas mãos”, quando a fórmula secular é “com a faca e o queijo nas mãos (ou na mão)”. Pois o assunto rende. Em texto do Pimenta (“Ilhéus: governo por mais dez dias com Marão”), o redator usa falares de outras áreas, sobretudo do  futebol (houve um presidente da República que adorava fazer isto!) com inteira propriedade. A nota diz que os secretários tiveram pesadelo, com a possibilidade de descer na tábua de graxa. Em seguida, o futebol.

CHUTEIRAS PENDURADAS, POR POUCO TEMPO

O prefeito anunciou que ficará com as chuteiras penduradas por mais dez dias, mas deixa claro que o vice não deve eliminar o Bahia (referência ao secretário deste nome) nem dar cartão vermelho ao atacante Carlinhos Freitas (então, polêmico auxiliar do prefeito titular). A notícia ainda diz que o prefeito afastado espera que seja mantido o mesmo esquema de jogo e que o comando do time seja devolvido ao seu capitão da forma como foi recebido pelo vice. Perfeito (sem intenção de trocadilho). O folclórico Jânio Quadros (que, dentre outras esquisitices, era gramático!) se permitiu algumas formulações desse tipo.

JÂNIO QUADROS E A “METAMETALINGUAGEM”

No seu último mandato (prefeito de São Paulo, pela segunda vez), JQ pendurou uma chuteira na porta do gabinete (um recado aos que especulavam seu futuro  político (eu chamaria isto de “metametalinguagem”). Também proibiu o uso de sunga e biquínis fio-dental no Parque do Ibirapuera, obrigou o Teatro Municipal a expulsar os alunos tidos como homossexuais, multou pessoalmente motorista infratores, fechou os oito cinemas que iriam exibir o filme A última tentação de Cristo e recusou-se a dar posse à substituta, Luiza Erundina (dez dias antes, viajou para Londres, sua grande paixão). JQ era mais perigoso do que engraçado.

O GÊNERO NEUTRO QUE TANTA FALTA FAZ

Identificar a diferença entre masculino e feminino parece ser uma informação elementar para nos exprimirmos corretamente. Mas algumas palavras teimam em ficar na coluna do meio, como se indecisas, em cima do muro do gênero.  A língua portuguesa não possui o gênero neutro (embora este exista no latim, de onde viemos). As línguas neolatinas (português, francês, espanhol) não admitem meio termo: ou é uma coisa ou outra, ou está de um lado ou de outro.  Nada de terceira via. Entre parêntesis, uma observação de Stanislaw Ponte Preta, de muitos anos: “Do jeito que está crescendo, o terceiro sexo vai terminar sendo o primeiro”. Uma amiga desta coluna afirma que, de acordo com sua estatística, o terceiro sexo já é o segundo. Viu só?

A TERMINAÇÃO “FEMININA” É UMA ARAPUCA

Voltemos, enquanto é tempo, à gramática. Se tivéssemos herdado o neutro latino, muitas dúvidas estariam resolvidas. Por exemplo, telefonema, que gerou boas confusões: vi muita gente boa referir-se à telefonema (no feminino), quando o termo é masculino, macho – e disso não abre mão. Convenhamos que a palavra, com essa terminação sugestiva de feminino, é uma armadilha. Mas a dúvida foi sanada pelo tempo, de sorte que já não se ouve ninguém dizer “vou dar uma telefonema”. Que bom. Baianos ensaiaram, por motivos etimológicos que desconheço, “uma acarajé”. É raro, mas ainda possível ouvir-se em Salvador essa estranha formulação. Porém, a dúvida mais notória que me ocorre é com a palavra alface, volta e meia apelidada o alface.

COMPLICAÇÕES CRIADAS PELA HIDROPONIA


Alface é feminino, mas as coisas ficaram um tanto complexas, após a popularização de um processo chamado hidroponia – alguma coisa do grego hidro (água) e ponos (trabalho). No caso da alface é mais ou menos isto: o cultivo na água (não na terra). Por isso, é comum encontrarmos nas feiras alguém oferecendo “alface hidropônico”, aparentemente uma agressão ao gênero dessa folha, que deveria ser chamada, no caso, de “alface hidropônica”, o que não ocorre. Está errado? Assim é, se lhe parece (isto é Pirandello, creio): alface hidropônica está certo, porque alface é feminina; mas alface.hidropônico também, por conter, oculta por elipse, a ideia de processo, método, jeito (como foi cultivada a folha), palavras masculinas. É só escolher.

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“CARINHOSO”: CANÇÃO ROMÂNTICA PERFEITA

Há tempos (a rigor, faz muitos anos!), a Rede Globo, num desses concursos de regras pouco claras, levou o público a escolher “a música do milênio”, ou título semelhante. Torci por Carinhoso (Pixinguinha-João de Barro/1937), deu Aquarela do Brasil (Ari Barroso/1939). Acho que Carinhoso, com aquele “meu coração,/não sei por que,/bate feliz/quando te vê”, é perfeito como canção romântica . Os demais versos também são de uma simplicidade que muitos procuram e raros alcançam: “Vem matar esta paixão/que me devora o coração/e só assim, então, serei feliz,/bem feliz”. Braguinha, clássico, é simples, sem ser rasteiro.

MORENA SESTROSA E COQUEIRO QUE DÁ COCO

Aquarela do Brasil (por favor, ninguém precisa me lembrar da enorme importância do autor) não me atinge muito. Dirão que “o mundo inteiro” aprovou a canção – o próprio Ari, numa caricatura famosa do comediante José Vasconcelos, disse que “na Inglaterra, qualquer criança sabe quem é o autor de Aquarela do Brasil”. Eu respondo feito o cara da piada: “Não falo inglês…” Gracinhas à parte, a composição tem coisas demais de que não gosto: “coqueiro que dá coco”, “Brasil brasileiro”, “mulato inzoneiro”, “terra boa e gostosa”, “morena sestrosa” – são expressões vazias, em rimas forçadas.

“SAMBA-BAJULAÇÃO” À DITADURA GETULISTA

Sem contar que essa modalidade, conhecida como samba-exaltação, serviu como trilha sonora do Estado Novo (1937-1945). Era o ovo da serpente para coisas do tipo “Eu te amo, meu Brasil”, da última ditadura militar (aliás, Abreu Sodré, então governador de São Paulo – nomeado, obviamente – quis transformar essa excrescência de Dom e Ravel em Hino Nacional!). Voltando ao gênero “samba-bajulação” (ou “por-que-me-ufano-do –meu-País”), lembrar que, além de Aquarela do Brasil, o mais famoso é Canta Brasil (Alcyr Pires Vermelho-David Nasser/1941) e que a mim me parece de qualidade muito superior: os versos de David Nasser, quase sempre, impecáveis. Aqui, na interpretação do sempre impecável (sem quase) João Gilberto.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

JÂNIO QUADROS: DE PRONOMES E MINISTROS

Ousarme Citoaian

Dizia-se, com boa dose de maldade, que o presidente Jânio Quadros era melhor para colocar pronomes do que ministros. O velho JQ, com as qualidades e defeitos inerentes ao ser humano, era professor de português, gramaticista à moda antiga e, em tal condição, sabia bem de pronomes. A famosa frase “Fi-lo porque o quis” (transformada na folclórica “Fi-lo porque qui-lo”, destituída de sentido lógico) dá bom exemplo do rebuscamento com que aquele político tratava a língua portuguesa. Ele jamais diria, nem sob tortura, “Vou procurar-lhe”, mas “Vou procurá-lo” – conforme preceitua a norma culta.

LEMBRANÇA QUE SAI DE CINZAS REVOLVIDAS

Estaria este hebdomático e fatigado colunista com algum tipo de nostalgia janista? Falemos sério: Jânio não faz meu gênero e sua lembrança apenas saiu das cinzas revolvidas com o anúncio do livro Minha Ilhéus, de José Nazal. Diz o texto que a editora deseja “convidar-lhe” para o lançamento – uma construção positivamente infeliz. Alguns verbos (e, na minha memória de ex-aluno do professor Chalupp, convidar encabeça a lista) são inimigos declarados do pronome “lhe”: abraçar, beijar, adorar, procurar, amar, encontrar, ameaçar e desejar estão entre os que não gostam do “lhe”.

LEITORA: NÃO PERMITA QUE ELE “LHE” AME

Recomendamos a eventuais leitoras incautas que, se acaso um sujeito manifestar intenções de amar-lhe, desejar-lhe, adorar-lhe, abraçar-lhe (ou outras agressões freudianas e gramaticais) corra, pois ele é menos inteligente do que romântico. Livre-se do tipo, antes que ele passe a tratá-la com a mesma grosseria com que trata a gramática. Prefira alguém que lhe diga “Eu a adoro”, “Eu a amo”, “Eu a abraço”, “Eu a beijo”, “Eu a amasso” e por aí vai. E em caso de a moça declarar-se ao maluco, a regra é a mesma. Se ela grafar “Eu lhe desejo” (em vez do civilizado “Eu o desejo”) é provável que o romance dê com os burros n´água, mais cedo do que o habitual.

ANÚNCIO DE LIVRO EXIGE LÍNGUA FORMAL

No coloquial do dia-a-dia ninguém liga para o uso correto de pronomes (as exceções eram o citado Jânio Quadros e o jurista Josaphat Marinho). Mas é diferente com a língua padrão, que precisa seguir as normas gramaticais. E não me venha a CLMH (Comunidade dos Linguistas Mal-Humorados) justificar isto como linguagem do povo: o texto referido tem os nomes de um escritor, uma editora e uma academia de letras, portanto, o informal nada tem a ver com isto. O anúncio há de ser vazado em língua culta: “… alegria de convidá-lo” (ou convidá-la, é óbvio). Jamais “convidar-lhe”. Houve transgressão, sem dúvida.

NÃO É POSSÍVEL COMER O QUE É LÍQUIDO

Já acaba o espaço, mas não resisto a outra anedota sobre o ex-presidente, provavelmente inventada, e que o folclore tornou mais poderosa do que a realidade.  Então, vamos a uma das versões circulantes. Admirador das destilarias da Escócia, Jânio Quadros enfrentou o preconceito da sociedade brasileira e a bisbilhotice de um jornalista, que lhe perguntou, acintosamente: Por que o senhor bebe tanto? E JQ, com ar de compaixão diante de tamanha ignorância, foi didático no exercício do seu senso de humor absolutamente britânico: Bebo porque o uísque é líquido; se fosse sólido, comê-lo-ia, com garfo e faca.

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NINGUÉM GOSTA DE PROVOCAR COMPAIXÃO

De repente, me lembro de uma situação recorrente na MPB, abordada por vários autores.  É o tema de “não dar o braço a torcer”, não demonstrar o que o poeta sente de fato, não permitir que seu sofrimento seja partilhado pelos outros. Entre a carência da solidariedade e o desdém (talvez vingança) que essa necessidade provoca, é melhor não arriscar: então, fazemos aquela cara de que está tudo bem, e quem pensava que iria rir do nosso padecer, errou. Ardemos por dentro, é verdade, mas os inimigos não terão o gostinho de saber disso. Eles só nos verão limpos, cheirosos e com um amplo sorriso no rosto. Aqui pra eles!

QUEM É BOM SOFREDOR NÃO DÁ BANDEIRA

Noel Rosa tinha uma “filosofia” que o ajudava com esse problema: “Nesta prontidão sem fim/ Vou fingindo que sou rico/ Pra ninguém zombar de mim” (Filosofia, com André Filho/1933). Pausa para lembrar que “prontidão” é gíria da época: estado de quem está sem dinheiro, pronto, duro, liso. Não quero abusar, apesar do centenário que, como fã (hoje chamam tiete!), continuo nas comemorações, mas isto aqui também é Noel (na caricatura de Luquefar): “Quem é que já sofreu mais do que eu?/ Quem é que já me viu chorar?/ Sofrer foi o prazer que Deus me deu/ Eu sei sofrer sem reclamar” (Eu sei sofrer/1937). A fórmula geral é não dar bandeira.

AS LÁGRIMAS DO POETA NINGUÉM VÊ CAIR

De Zé com Fome e Ataulpho Alves, Orlando Silva cantava: “Pra ninguém zombar,/ Pra ninguém sorrir/ É só no coração que eu sei chorar/ O pranto meu ninguém vê cair” (Meu pranto ninguém vê/1938). A dupla Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga também comparece: “Mas ninguém pode dizer/ Que me viu triste a chorar/ Saudade, o meu remédio é cantar” (Qui nem jiló/1949). Candeia (Pintura sem arte/1978), fala de sua cruel prisão à cadeira de rodas: “Mas se é pra chorar, choro cantando/ Pra ninguém me ver sofrendo/ E dizer que estou pagando” (Alcione, com aquela categoria que o mundo aplaude, regravou este samba em 1981).

AONDE A SAUDADE VAI A DOR VAI ATRÁS

Se alguém pensou que esta conversa desaguaria em Fernando Pessoa (1888-1935), tudo bem.  Aqui vai, com desculpas pela previsibilidade, a primeira quadra de Autopsicografia/1930: “O poeta é um fingidor:/ Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente”. Claro. Fingir é fugir (ops!) a certos gêneros de padecimentos morais. E, para finalizar, Noel (é o centenário, gente!), com uma saída muito engenhosa em Tenho um novo amor/1932 (com Cartola): “Se acaso algum dia se apagar/ do teu pensamento o meu amor/ para não chorar e não mais penar/ mando embora a saudade/ prá livrar-me da dor”.

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GILBERTO GIL E O SAMBA DA “DESPEDIDA”

Os mais jovens (eventualmente, é uma grande falta de sorte ser jovem) não viram o que significou Aquele abraço, canção que Gilberto Gil fez em 1969, para se despedir do Brasil. Ele e Caetano, depois de presos e com as cabeças raspadas, foram “autorizados” a deixar o País. A música, que virou mania nacional, é rica em símbolos e sugestões: de saída, Gil louva sua aldeia, ao dedicar Aquele abraço “a Dorival Caymmi, João Gilberto e Caetano Veloso”, para mais tarde mandar um desaforo à ditadura: “Meu caminho pelo mundo/ Eu mesmo traço/ A Bahia já me deu/ Régua e compasso/ Quem sabe de mim sou eu/Aquele abraço”. Perca-se tudo, mas salve-se a dignidade.

NO FLAMENGO GIL ACHOU RIMA E SOLUÇÃO

Há outras mensagens nem sempre explícitas: Realengo não é mencionado por acaso, mas para debochar do arbítrio – foi no quartel do Exército naquele subúrbio que Gil e Caetano ficaram presos. O Flamengo é outra entrada nada casual, marca da ironia do artista com a chamada nação rubro-negra: o Fluminense havia conquistado o título carioca, ao vencer o Flamengo por 3 x 2, Gil era um dos 171 mil torcedores no Maracanã e viu a tristeza da massa. Com seu “abraço” ele está dizendo aos derrotados que “o importante é competir” (ou “consolo” semelhante). Torcedor do Fluminense, Gil encontrou no Flamengo rima (para Realengo) e solução (para tirar sarro do rival).

CHACRINHA, A ANTÍTESE DO POSITIVISMO

Depois de exaltar o dolce far niente (carnaval, futebol, banda de Ipanema) do Rio de Janeiro, que (apesar de tudo) “continua lindo”, o baiano elege para ícone e ápice da ironia o pernambucano Abelardo Barbosa, Chacrinha. O apresentador, que “continua balançando a pança”, é a outra face do positivismo pregado pela ditadura, a anarquia organizada (“Eu vim para confundir, não para explicar”), o anti-Ordem e Progresso, a bagunça, a geléia geral brasileira. Se a ditadura é a tese, Chacrinha é a antítese – e o menino Gilberto Gil (27 anos na época) é o arauto, exegeta, explicador do processo. As mensagens se sucedem, sempre com a expressão “continua”.

AOS 27 ANOS GILBERTO GIL JÁ LEVITAVA

A vida, mesmo com a violência dos que tomaram o poder à força, segue, escrachada, fora do figurino oficial verde-oliva: além de balançar a pança politicamente incorreta, o Velho Guerreiro (na charge) continua “buzinando a moça” (um duplo sentido de indiscutível bom gosto), “comandando a massa” e “dando as ordens no terreiro” – não importa o que digam, que falem, que pensem ou queiram os usurpadores, o povo parece ter outra regra e compasso. No vídeo raro, feito em 1979, Gilberto Gil em estado de graça, zen, sideral, elevado, celeste, quase levitando, puro, de uma forma que os recursos eletrônicos não mais nos permitem ver (e com um ótimo improviso no final). O eterno Gil.

(O.C.)






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