WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia


alba

workshop










setembro 2019
D S T Q Q S S
« ago    
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
2930  

editorias






:: ‘John Wayne’

UNIVERSO PARALELO

ITABUNA E O NÓ GÓRDIO NA SAÚDE PÚBLICA

Ousarme Citoaian
Em artigo que comenta a situação da saúde pública de Itabuna, um diário local afirma haver nas relações da prefeitura com o estado um nó górdio a ser desatado. Bela expressão, dessas que integram o falar brasileiro – e cujo emprego tanto temos defendido. Essas aquisições parecem dar ao texto sabor erudito, “culto” – o que é verdade, pois quem não tem boa base de leitura raramente recorre a tais adornos estilísticos. Mesmo quando utilizadas por pessoa que delas apenas ouviu falar, tais “frases feitas” oferecem ao texto encanto e formosura. Como nem todos sabem a origem do termo, valho-me do Google e atualizo minha informação, que passo adiante.

O NÓ SÓ FOI DESFEITO DEPOIS DE 500 ANOS

Górdio foi um camponês que se tornou rei da Frígia, na Ásia Menor (lá pelo século VIII a.C.) e, para não esquecer sua origem humilde, botou dentro do templo de Zeus a carroça em que chegou à cidade.  E a amarrou com um nó tão danado que gerou uma profecia: quem o desatasse tornar-se-ia rei de toda a região. Mesmo com tão grande prêmio, o Nó de Górdio ficou intato durante cinco séculos. Até que Alexandre da Macedônia parou em Frígia para o repouso de suas tropas e, sabendo da profecia, resolveu tirar a história a limpo. Pôs-se em silêncio em frente ao nó, analisou-o e, com um golpe de espada forte e certeiro, o cortou, tornando-se assim o rei do pedaço, isto é, o líder da Ásia Menor.

O REI MIDAS FOI ATENDIDO AO PÉ DA LETRA

Moral da história: diante de problemas, precisamos – com o emprego do capital intelectual de que dispomos – pensar, analisar e encontrar alternativas. Mas é pertinente  referir que esse rei Górdio fazedor de nós era pai do rei Midas, fazedor de ouro, outro nome caro à mitologia grega. Midas era rico, ganancioso, orgulhoso, enfim, se achava. Foi vítima da ganância e da má interpretação de suas palavras: pediu a Dionísio (a quem prestara um favor) o poder de transformar em ouro tudo o que tocasse e, a partir daquele dia, sua vida ficou um inferno dourado, pois tudo que ele tocava (água, comida, gente, coisas e bichos) virava ouro. Pediu em sentido figurado, recebeu ao pé da letra.

COMENTE >>

A MEMÓRIA FAZ O PASSADO SEMPRE PRESENTE

Há de se perceber nestas provocações semanais um quê de memória, de passado, nem sempre aprovado pelo apetite dos obsessivos do imediato. “Quem gosta de passado é museu”, repete-se o adágio indigente de bom gosto, graça ou criatividade. É tempo de lembrar, sem rodeios ou firulas, que, ao contrário desse discurso equivocado, o passado sempre está presente. Não há intenção de trocadilho, mas a constatação de que nosso ontem não nos abandona – e isso é tão fundamental, que o homem nasceu com memória, faculdade de guardar, registrar e lembrar. Não sei de alguém que diga isto melhor do que o historiador francês Jules Michelet: “Memória é ressurreição”.

REMÉDIO CONTRA AS FISSURAS DO PASSADO

A relação tempo-memória foi muito bem analisada no discurso de posse do escritor mineiro Antônio Olinto (foto), na Academia Brasileira de Letras. Baseio-me na lembrança (não disponho, no momento, do livro em que está o discurso) e destaco a essência: não se vive sem passado, o passado sempre está presente em nossa vida, e a memória vence o tempo. A memória é o anti-tempo, a panaceia para traumas e fissuras que ele causa. E Olinto encerra com este fecho de ouro: “Só na memória palpita uma possível imortalidade”. Um fato ocorrido ontem pode estar esquecido hoje; outro, há séculos, pode permanecer atual. O que os diferencia não é o tempo, é a memória.

EM ITABUNA, O EXAGERO HÁ DE SER LOUVADO

Itabuna acaba de criar duas academias de letras. À parte o exagero de dois sodalícios de uma tacada só, a iniciativa há de ser louvada. Afinal, o que é uma academia de letras, se não um grande e nobre mergulho no passado literário da região? Só por ter levantado o assunto, a cidade já fala, quando nada à boca pequena, em Adonias Filho, Firmino Rocha (foto), Manuel Lins, Telmo Padilha, Gil Nunesmaia, José Bastos, Jorge Medauar, Euclides Neto, Plínio de Almeida, Afrânio Peixoto e tantos outros patronos da novel instituição (todos mortos, comme il fault) – a  lista, conforme o modelo francês da Academia Brasileira de Letras, é de 40 nomes. É a possível imortalidade literária palpitando, como quis Antônio Olinto.

O COLUNISTA PERDEU SUA APOSTA TEMEROSA

Os leitores foram generosos quanto à minha aposta (um tanto temerosa, sei) em Bravura indômita como ganhador do Oscar. O filme ficou no zero, mesmo com dez indicações, perdendo feio para O discurso do rei. Rubens Ewald Filho tinha razão – e este episódio deixa clara a distância entre palpites de amador e de profissional: um opina apoiado em aspectos técnicos, mercadológicos e políticos; outro baseia-se em preferências pessoais. Rubens Ewald sabia; eu queria. Mas continuo a ver o faroeste como a essência do cinema norte-americano. E, por favor, sejam gentis comigo: não me falem em faroeste spaghetti.

JOHN WAYNE, OU A ARTE IMITANDO A VIDA

Alguns westerns abordaram a decadência do gênero, sempre com uma visão romântico-nostálgica sobre o ocaso desse ciclo. À memória me vem, sem muito esforço, O último pistoleiro (Don Siegel/1976), em que o velho Marion Robert Morrison, mais conhecido como John Wayne (1907-1979), faz papel dele mesmo: com câncer de pulmão (era fumante), Wayne representa John Bernard Books, famoso pistoleiro corroído pela doença – e que procura um lugar tranqüilo para morrer em paz. Com mão segura, Siegel (Perseguidor implacável/1971 e mais de 30 outros títulos) conduz a história a um final digno dos clássicos, depois de diálogos (e silêncios!) muito inteligentes.

PISTOLEIRO CHORA PELOS “VELHOS TEMPOS”

Mas nenhum faroeste tem tanta graça e leveza quanto Dívida de sangue/1965, de Elliot Silvestein (Um homem chamado cavalo/1970) – que deu o Oscar a Lee Marvin. O filme, além de Marvin em plena forma, tem a plena beleza de Jane Fonda (“Oh! que saudades que eu tenho!”) e, para arrematar, Nat King Cole e Stubby Kaye, os menestréis que, no formato de coro do teatro grego, fazem o contraponto da narrativa. A cena em que o pistoleiro pé de cana toma uma talagada “para firmar a mão” é antológica. E tocante é seu discurso saudosista sobre a perda de poder dos caubóis. Um vídeo especial para esta coluna, aqui.

COMENTE>>

O.C.

UNIVERSO PARALELO

CAETANO VELOSO TEM OUVIDO PRIVILEGIADO

Ousarme Citoaian
Que João Gilberto “fala muito bonito” é avaliação de Caetano Veloso, feita há algum tempo.  “E João Gilberto fala?” – perguntei a meus botões, de forma retórica. Eles nada responderam (que querem?), nem precisava, pois João não fala, apenas exala da vitrola “aquele seu jeito encantado de cantar (…), com sua inconfundível divisão”, assim falou Rosa Passos. Talvez o mano Cae seja um desses privilegiados que têm ouvidos de ouvir a voz falada do cantor juazeirense. Ou não. Para mim, quem “fala bonito” de me deixar extasiado é outro baiano: Gilberto Gil.  Encontrei-o na revista Muito (grupo A Tarde), discorrendo sobre a velhice e outras doenças (ele tem 68 anos).

A SUBSTITUIÇÃO DA CRENÇA PELA DESCRENÇA

Ouçamo-lo: “Você passa a ter que responder a si próprio de maneira diferente, a dizer sim de maneira diferente, a dizer não mais severo, com mais intensidade, mais frequência. Passa a aceitar o sentimento da renúncia com mais resignação (…). A velhice é uma nova infância, no mesmo sentido dos cuidados específicos.” Invertendo os polos: “A juventude para mim, agora, é outra história, ela tem que se dá no sentido espiritual, da disposição para o encontro permanente com as instâncias de bem-estar, com a resignação, a capacidade de renúncia”. Interrogado sobre sua “transformação em agnóstico” disse que substituiu “a crença pela descrença”. Isto é falar bonito.

A VELHICE VISTA COM BELEZA E SABEDORIA

Ainda a propósito da questão religiosa, ele diz: “Hoje eu não creio nem descreio, não sinto necessidade da eleição dos objetos da crença, o Deus, os entes externos que habitam este mundo da transcendência. Nem preciso deles nem preciso do ateísmo. E não preciso achar, como eu achava antes, que quem acredita é melhor do que o incréu. Ou achar hoje que o incrédulo é melhor. Quem escolhe uma polaridade tende a achar que o outro não está certo, que ele é menor. É isso que autoriza o processo catequético, e eu não quero ter essa necessidade, me tornar missionário, discriminatório, juiz de nada”. Dizer que “a velhice é uma nova infância” – me soa pra lá de bonito: profundo.

OSCAR DECIDIDO ENTRE O VELHO E O NOVO

O Oscar de 2011, polêmica premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, já com mais de 80 anos, mostra neste domingo a velha dicotomia.  Os filmes favoritos – O discurso do rei e A rede social, na opinião do crítico Rubens Ewald Filho (foto) – são antagônicos em sua feitura e propostas. “O discurso… é um antiquado e muito bem feito filme inglês, com tudo direitinho, no lugar certo e com grandes interpretações; A rede social é um filme moderno, de um assunto pertinente, e tem a originalidade de o herói ser um filho da mãe, ou seja, um sacana que ganha US$ 4 bilhões. Não deixa de ser um retrato do nosso tempo” – resume o crítico.

FAROESTE PODE TER OUTRO OSCAR DE ATOR

Fã do faroeste (o gênero é a essência do cinema americano), aposto em Bravura indômita. É a saga de uma menina de 14 anos em busca de justiça, com a ajuda de um pistoleiro caolho, beberrão e mau humorado. A história é de 1969, filmada por Henry Hathaway, tendo John Wayne (Oscar de melhor ator daquele ano) e Kim Darby nos papéis principais. Agora, a direção é dos irmãos Joel e Ethan Coen, o pistoleiro é Jeff Bridges e a mocinha é a estreante Hailee Steinfeld (foto). Bravura… recebeu dez indicações, entre elas de filme, direção, ator e atriz coadjuvante (Steinfeld). Rubens Ewald Filho não gostou, é claro – disse que é “deprimente”.

BROKEBACK… OFENDEU O PALADAR CLÁSSICO

Se Bravura indômita ganhar algum Oscar (as dez indicações nada lhe garantem), junta-se à pequena relação de faroestes para os quais a Academia já se dignou de olhar. Sem pretensão de esgotar a lista, lembro: No tempo das diligências/1939 (dois), Matar ou morrer/1952 (quatro, com melhor ator para Gary Cooper), Os brutos também amam/1953 (um), Dívida de sangue/1965 (ator para Lee Marvin), Dança com lobos/1991 (o campeão, com sete prêmios) e Os imperdoáveis/1992 (filme, diretor, ator e atriz coadjuvantes). O único premiado antes dos anos noventa foi o pouco conhecido Cimarron/1931. Em 2006, Brokeback mountain, que os fãs do bangue-bangue consideram uma ofensa ao gênero, levou três estatuetas (incluindo diretor). O discurso… e A rede… são os cavalos de Rubens Ewald; Bravura…, minha zebra.

COMENTE! »

O HOMEM QUE CONVERSOU COM A ÁRVORE

Ou o caso é de prosopopeia (também dita personificação) ou a figura tem nome que não alcanço. A mim me importa, mais do que nomenclatura, conteúdo: o sujeito conversa com uma árvore, a ela conta suas mágoas sentimentais (“Juazeiro, juazeiro,/ me arresponda por favor/ Juazeiro, velho amigo,/ onde anda meu amor?”) e ainda lembra ao pé de juá que ele tem responsabilidade no caso (“Juazeiro, meu destino/ tá ligado junto ao teu/ no teu tronco tem dois nomes/ ela mesmo é que escreveu”). E assim vai a confissão de amor ferido, num crescendo de emoção. Talvez por ser mais sensibilidade do que razão, se me eriça a pele cada vez que escuto Juazeiro (Humberto Teixeira-Luiz Gonzaga/1948).

A ESPERANÇA AMOROSA CEDE AO SOFRIMENTO

Há ali a humana dúvida (“Juazeiro, seja franco/ ela tem um novo amor?), a desconfiança (“Se não tem por que tu choras/ solidário à minha dor?”) e, com a cruel descoberta, a queda, a vitória do sofrimento sobre a esperança (“Ai, Juazeiro/eu não guento mais roer/ ai, juazeiro/ eu prefiro inté morrer”). Obra-prima de MPB romântica. Para quem se interessa por essas filigranas do falar brasileiro, digo que roer significa, em “pernambucanês”, sofrer por amor, curtir dor-de-cotovelo. Humberto Teixeira repetiria o regionalismo em Qui nem jiló/1949: “Saudade assim faz roer/ amarga qui nem jiló”. A matéria-prima do verbo roer é a ausência do ser amado, o amor não correspondido e cardiopatias semelhantes.

CULTURA NORDESTINA INTOCADA PELO JAZZ

Juazeiro é um tema adaptado por Luiz Gonzaga, a exemplo de Asa Branca. A melodia, de tristeza intensa, se aproxima do blues (não foi por acaso que a cantora Peggy Lee a gravou – com outra letra e sem os nomes dos autores). Em 2001, Dominguinhos reuniu mais de vinte artistas e com eles gravou dois CDs em homenagem ao Rei do Baião. O guitarrista Heraldo do Monte (foto) fez um arranjo primoroso para Juazeiro, retomando aquele “nhã-nhã-nhã” típico dos violeiros de feira que Gonzaga adaptou em Asa Branca. Autor e executante extraordinário, além de profundo conhecedor da cultura musical de sua terra (que não foi afetada pelo tempo em que tocou jazz nos Estados Unidos) HM nos dá, com seu arranjo, um Juazeiro novo .

A DILACERANTE TRISTEZA DE JANE DUBOC

A leitura de Dominguinhos para o texto de Humberto Teixeira mostra um homem de coração despedaçado; Jane Duboc (foto), na segunda parte, é de uma tristeza comovente – e quando diz “eu prefiro inté morrer”, eu sinto a garganta apertada (o clipe é especial para esta coluna).

(O.C.)






WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia