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:: ‘Karoline Vital’

NOSSO FABULOSO MUNDO AZUL

Karoline VitalKaroline Vital | karolinevital@gmail.com

 

Com paciência, sensibilidade e técnica, conseguimos desenvolver “conversores” entre as linguagens dos autistas e dos neurotípicos (os supostos normais).

 

Achei legal que vários programas da TV aberta investiram na abordagem do Dia Mundial de Conscientização do Autismo, neste 2 de abril. Porém, uma coisa me incomoda muito quando falam sobre Transtornos do Espectro Autista (TEA), como são tecnicamente classificados os casos de autismo: o autista vive como se tivesse seu próprio mundo. É uma leitura tão superficial quanto as matérias miojo dos jornalísticos que, em três minutos, têm a missão de nos alimentar sobre um tema tão complexo.

A cor azul escolhida para o Dia Mundial de Conscientização do Autismo é porque a síndrome é quatro vezes mais comum entre meninos que meninas. Mas no meu caso, meu mundo foi colorido de azul por uma garotinha: minha filha. E, seguindo a inspiração para seu nome, Amélie tem mostrado quanto esse mundo é fabuloso!

Gente não nasce com manual de instruções. Mesmo assim, tentamos encontrar padrões no comportamento para pregar um rótulo na criatura. Fulano é inteligente, sicrano é preguiçoso e beltrano é esforçado. E assim, como um dom concedido pelas fadinhas boas ou a maldição lançada pela bruxa Malévola, ficamos estigmatizados por uma característica que se manifesta diante de uma determinada situação. Por isso, o modo que as pessoas com TEA reagem ao mundo é incompreendido pela maioria da população. Não é que se tranquem ou se isolem num universo privado, mas sim o jeito que encontram para responder aos estímulos que recebem.

Geralmente, em casos não tão severos, é possível perceber sinais de autismo por volta dos dois anos e foi assim com Amélie. Percebi que ela falava, mas não conversava. Às vezes agia como se fosse surda, pois nem sempre respondia aos nossos chamados. Era inquieta e resistia a seguir convenções sociais. Mas Amélie nos olhava nos olhos, brincava com os brinquedos como qualquer outra criança, era carinhosa e muito curiosa. Nunca convulsionou, não era agressiva e nem se machucava de propósito.

Apesar de não conversar, seu vocabulário era amplo, surpreendendo a fonoaudióloga numa consulta. É que os Transtornos do Espectro Autista possuem diversas intensidades, podendo ser leves, moderados ou severos. Mas, depois de uma real avaliação psicológica, tivemos o diagnóstico, que não foi grudado como um rótulo eterno, mas como uma condição que pode ser trabalhada. E esse trabalho não é para “normalizar” ela e sim para melhorar sua qualidade de vida, a fim de que ela se faça entender e desenvolva mecanismos para compreender os outros.

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SILÊNCIO PERMISSIVO

Karoline VitalKaroline Vital | karolinevital@gmail.com

Esse silêncio deu lugar a cristalização de uma cultura em que a execução da virilidade masculina diante da mulher não possui limites claros. E o conceito do que é violência também parece não estar muito bem definido.

Após a escola, entrei no ônibus, encostei a cabeça na janela e fiquei olhando a rua. Um ponto à frente, um homem já chegou perguntando onde estava a minha mãe e se sentou ao meu lado. Ele usava um broche de plano de saúde preso e, como minha mãe trabalhava em dois hospitais, deduzi que deveria ser algum conhecido dela.

Como eu estava usando o uniforme da escola, ele começou a me fazer perguntas sobre qual série eu cursava, se estava indo bem nos estudos e pediu o número do meu telefone. Eu dei, afinal, como ele perguntou por minha mãe, deveria querer falar com ela. Depois, quis saber se eu estava namorando e se meus pais me deixavam namorar. Comecei a achar o rumo da conversa meio esquisito. Então, ele disse que eu era muito bonita e poderia namorar escondido.

Os galanteios que ele me fazia não soavam como elogios. Ao invés de me enaltecer, eu ficava ainda mais constrangida. Então, foi a vez de eu perguntar ao estranho de onde ele conhecia minha mãe. Ele me perguntou o nome dela e respondeu que não a conhecia. Só aí eu me toquei que ele estava me assediando, puramente.  O homem me deu seu cartão e desceu alguns pontos antes do meu.

Apavorada e já em casa, passei logo a ocorrência à minha mãe. Ela me perguntou se ele tinha me tocado e eu respondi que não. Entreguei-lhe o cartão e informei que tinha dado o meu nome e telefone a ele, pensando que se tratava de algum conhecido dela. Fiquei sem saber o que fazer para passar o medo de ele acabar me perseguindo e sabe-se lá podendo fazer o que comigo.

Minha mãe também não sabia como resolver a situação, como garantir minha segurança. Apenas ligou para o “conquistador” e pediu que nunca me procurasse. Ao questionar a diferença de idade, já que ele tinha 32 anos e eu 14, ele respondeu que não pôde resistir à minha beleza e que só me fez elogios, nada “sério”.

Realmente, ele não cometeu crime algum. Não me tocou, não me forçou a fazer nada. Só que o que ele viu como galanteio, não me deixou lisonjeada. Soou como uma ameaça, fez com que eu andasse com medo de ser ainda mais violentada por semanas. Afinal, quando ele se aproximou de mim, eu nem o tinha visto. Qual direito ele tinha de achar que o terreno estava aberto para “investidas”?

Essa “impulsividade” masculina, de não frear seus desejos e instintos, de mostrar que sempre está “pronto para o ataque” pode soar como sinônimo de status social entre os machos. Mas, entre as mulheres, é uma desvalorização e até uma forma de estupro. Mas o que seria estupro? Só a penetração forçada? Para a mulher, sua intimidade e dignidade são violadas a partir de quando é tratada como um pedaço de carne com orifícios recreativos.

O constrangimento e o medo de uma reação ainda mais violenta são expressos com o silêncio. E esse silêncio deu lugar a cristalização de uma cultura em que a execução da virilidade masculina diante da mulher não possui limites claros. E o conceito do que é violência também parece não estar muito bem definido.

Na era da informação e do conhecimento, já passou da hora de os homens aprenderem a não serem estupradores. A cada 12 segundos, uma mulher é estuprada no Brasil. São números oficiais, dos crimes concretizados e denunciados. Os feitos em silêncio, não estão incluídos na soma. É preciso discutir o assunto abertamente, de maneira franca e racional, pois enquanto o silêncio durar, a cultura do estupro será ainda mais fortalecida e o número de vítimas não tenderá a baixar.

Karoline Vital é jornalista.

RÊMORAS, URUBUS, HIENAS E BABÕES

Karoline VitalKaroline Vital | karolinevital@gmail.com

Em época de campanha, os babões ostentam a praguinha do candidato no peito como uma medalha de honra. Saem colando adesivos nas janelas de casa, no carro, na moto, na agenda, naquela pasta cheia de papéis velhos que ninguém sabe a serventia.

Eu não me lembro de quando aprendi sobre relações ecológicas, na escola. Aquele lance dos modos de relacionamento entre seres vivos de diferentes espécies: comensalismo, mutualismo, inquilinismo, parasitismo, etc. Em que série foi eu não sei, mas tenho certeza absoluta de que faz muito tempo!

Há alguns dias, assistindo à série prematuramente cancelada The Crazy Ones (assim como a vida de seu protagonista, Robin Williams), fui lembrada do relacionamento entre as rêmoras e os tubarões, chamado comensalismo. Como os pequenos peixes se grudam com ventosas para se alimentar dos alimentos que caem da bocarra dos grandões e ainda viajam longas distâncias. Outras relações – que a Wikipedia me ajudou a recordar – são entre os seres humanos e os urubus, as hienas e os leões.

Em tempos de campanha eleitoral, podemos incluir a relação ecológica entre os políticos e os babões. Funciona bem parecido com o papel desempenhado pelas rêmoras, urubus e hienas. Arrumam um “poderoso” para colar e beliscar alguma coisinha que o grandão não faça muita questão. Como se trata de alguém insignificante para o provedor, não causa incômodo ou prejuízo.

puxa-sacoMuitos comensais políticos se orgulham de sua condição. Afinal, além de alimento, ainda ganham proteção e passeios gratuitos. Ser babão é seu meio de vida, pois não sabem fazer muita coisa útil. Pelo seu papel na relação, não abocanham nada grandioso. Se muito, uma boca-livre em um restaurante devidamente paga com dinheiro público, uma gasolina, um vale em um supermercado, ingressos para eventos, e até, quem sabe, algum cargo comissionado de pequeno porte, cuja função não seja muito específica e nem exija qualificação profissional.

Os babões não acrescentam em nada na vida do político provedor. Uns fazem questão de valorizar os seus feitos dispensáveis e as vantagens que conseguiu para si e os seus chegados, principalmente quando estão entre pessoas de fora do seu ambiente “profissional”. Porque entre os “peixes maiores”, se muito, são motivo de piada, do quanto mostram os fundilhos ao se abaixar catando os restos.

Cômicos de verdade são os babões que sofrem de mania de perseguição. Mas os motivos reais e concretos do desespero se perdem entre achismos e fofocas ilógicas. Apesar da aparente falta de noção, eles sabem que seu papel insignificante torna-os facilmente descartáveis. Por isso, sustentam o sentimento constante de uma conspiração que coloca suas migalhas em xeque.

Em época de campanha, os babões ostentam a praguinha do candidato no peito como uma medalha de honra. Saem colando adesivos nas janelas de casa, no carro, na moto, na agenda, naquela pasta cheia de papéis velhos que ninguém sabe a serventia. Ligam para os programas de rádio defendendo o seu candidato, postam ofensas em blogs ou perfis de adversários. Em caminhadas, conferências e qualquer tipo de reunião onde seu político esteja, urram o nome do seu provedor e batem palmas tão alto até esfolar as mãos, se assim for preciso. Afinal, não é o político que estão defendendo, e sim a própria sobrevivência.

Karoline Vital é jornalista.

CULTURA: CARTÃO TPI OFERECERÁ ATÉ 15% DE DESCONTO EM LIVRARIA ILHEENSE

Karoline Vital, do TPI, e Bruno Vita, da Papirus, exibem termo de parceria.

Karoline Vital, do TPI, e Bruno Vita, da Papirus, exibem termo de parceria.

Quem possui Cartão do Teatro Popular de Ilhéus (TPI) terá 10% de descontos em livros e 15% de descontos nos demais produtos da Papirus Livraria, em Ilhéus, que se tornou a mais nova parceira do programa de descontos e de incentivo à cultura.

– Nossa intenção é aumentar a rede de parceiros para oferecer ainda mais benefícios aos nossos associados, que já têm direito a pagar meia-entrada durante um ano em todos os espetáculos da Tenda, além de abatimento nas mensalidades de cursos e oficinas – disse o coordenador administrativo do TPI, Antônio Melo.

O Cartão TPI tem, ainda, como parceiros a Pizzaria Pinocchio e a Lanchonete Praça do Mestre, que concedem desconto de 5% em refeições e lanches a titulares do cartão. O benefício é garantido com a apresentação do cartão e de documento de identidade com foto.

O termo de parceria do Teatro Popular de Ilhéus com a Papirus foi assinado pelo gerente da loja, Bruno Vita, e a coordenadora de comunicação do TPI, Karoline Vital. A loja fica no Shopping It´Art, no calçadão da Dom Pedro II, no centro histórico de Ilhéus.

Para ter direito ao benefício, o associado deverá apresentar o Cartão TPI e um documento de identidade com foto. Para se associar, é preciso preencher um cadastro e pagar a taxa anual de R$ 25,00.

Karoline explica que as empresas parceiras do Cartão TPI ganham espaço para expor suas marcas no espaço cultural, além do nome do estabelecimento ser incluído na mensagem de serviço, antes dos espetáculos. Em contrapartida, podem oferecer descontos ou brindes para os titulares do Cartão TPI. Informações pelo telefone (73) 4102-0580.

PELO AMOR É PELA DOR?

Karoline VitalKaroline Vital | karolinevital@gmail.com

Se até cães podem ser adestrados com reforços positivos, por que os seres humanos, com cérebro tão avantajado e evoluído, precisariam de castigos físicos para entender o é errado e fazer o que é certo?

Parei a alguns centímetros da garrafa que passou rolando à minha frente, caindo da calçada em uma poça de lama. Olhei para o lado e vi um garotinho, de aproximadamente dois anos, observando o trajeto da tal garrafa. Em segundos, apareceu uma mulher irada, puxando-o pelo braço. Enquanto chacoalhava e xingava o menino – que nada respondia em sua defesa, além do olhar assustado – ela cerrou o punho e simulou um soco no queixo dele, empurrando sua cabeça para trás.

Segui meu caminho com aquele episódio lamentável na minha mente. A mulher não tinha aparência de miserável para que, no máximo, dois reais fizessem falta para sua existência. Ela não o machucou fisicamente, mas não deixou de ser violenta. Aí, logo me veio à cabeça toda discussão sobre a famigerada Lei da Palmada ou Lei Menino Bernardo.

Fiquei imaginando como aquela mulher tratava o menino quando tinha sua privacidade garantida. Afinal, não se constrangeu em humilhar em público aquele ser pequenino, que ainda está descobrindo e entendendo o mundo. Aparentava ser a mãe, o que lhe dá autoridade para fazer o que julga melhor pela boa educação do filho. Mas, o que seria “melhor” em seu conceito? Quais seriam suas atitudes para fazer com que o guri ande na linha?

Em nossa cultura, criança pouco ou nada tem direito sobre o próprio corpo. O reconhecimento de sua individualidade só vem quando atinge a idade adulta e olhe lá! Muita gente afirma categoricamente que o castigo físico é a solução para frear a rebeldia, que a “palmada educativa” não mata e ainda nutre um enorme sentimento de gratidão aos pais por cada tabefe que levou, etc.

Repetimos as brutalidades sofridas na infância sem questionarmos sua real eficácia. Dando uma busca rápida pela internet, é fácil encontrar vários artigos e pesquisas de autoridades científicas mostrando que somos inteligentes o suficiente para aprendermos sem pancada e que crianças agredidas tendem a se tornar adultos agressores. Se até cães podem ser adestrados com reforços positivos, por que os seres humanos, com cérebro tão avantajado e evoluído, precisariam de castigos físicos para entender o é errado e fazer o que é certo?

Criança é um ser meio selvagem, um desafio à maturidade, paciência e equilíbrio emocional de qualquer um. Por isso, a seguinte frase atribuída a Platão faz sentido: “Não deverão gerar filhos quem não quer dar-se ao trabalho de criá-los e educá-los”. Pois, acima de tudo, criança também é gente, com direitos que devem ser garantidos e, efetivamente, cumpridos.

Karoline Vital é jornalista.

CULTURA SEM PIRES NA MÃO

Karoline Vital | karolinevital@gmail.com

 

Já faz parte do senso comum, virou até ladainha,  que o povo precisa de mais cultura. Mas que tipo? A do cair na gandaia, encher a cara e esquecer os problemas?

 

Aí o patrocinador, seja ele público ou privado, enche o peito para mostrar que investiu trocentos mil ou milhões na cultura. Mas como? Da maneira mais óbvia: eventos! Carnaval, Micareta, São João, Festa do Padroeiro (a parte profana, claro!), e por aí vai. Tudo com a logomarca do governo ou da empresa para aparecer bem bonito na televisão e nos anúncios em jornais e internet. Tudo colorido, estampado em tamanho generoso!

Infelizmente, a realidade dos investimentos no setor cultural é a política dos eventos. Não há política organizada como um conjunto de ações voltadas para a promoção dos segmentos culturais. Muitas vezes, impera a politicagem míope do pão e circo. Os artistas e grupos por mais organizados que estejam ainda são vistos pelos possíveis patrocinadores como pedintes indesejáveis. Afinal, o que vale mesmo para promover a imagem é disponibilizar os recursos na mão de quem já tem dinheiro, como grandes astros industrializados.

Por mais que os agentes culturais arquitetem projetos permanentes, possíveis de serem executados a um custo relativamente baixo, quando tentam apresentar os planos a potenciais investidores, ganham o mesmo tratamento de uma criança ao mostrar seu desenho para o pai que assiste futebol:

– Que lindo, muito bom! Agora chega pra lá que eu estou muito ocupado! – diz, educadamente, dando um tapinha na cabeça e um discreto empurrão nas costas para o incômodo sumir logo de sua frente.

Já faz parte do senso comum, virou até ladainha,  que o povo precisa de mais cultura. Mas que tipo? A do cair na gandaia, encher a cara e esquecer os problemas? Às vezes, dão a entender de que os artistas (não as mega-estrelas!) fizeram voto de pobreza. E um maná divino desce dos céus para produzir CD, filmar, montar espetáculo, organizar exposições, publicar livros, ministrar cursos e oficinas artísticas, pesquisar e registrar manifestações populares, manter um espaço cultural como cinema, biblioteca, museu, teatro ou galeria.

Confiar em bilheteria não paga conta alguma. É impossível se manter com a venda de ingressos, ainda mais com tantas pessoas exigindo cortesias e convites por achar um absurdo pagar para ver “gente daqui”. Talvez uma grande estreia, bem produzida, divulgada, em um local de alto nível… Só que tudo isso depende do que? Do “vil metal”, oras!

É inegável que, nos últimos anos, os governos federal e estadual, ampliaram o acesso a recursos para diversos segmentos culturais, através de leis de incentivo e abertura de editais. Algumas empresas também seguem a mesma linha, realizando seleções para projetos que se enquadrem em seus parâmetros e objetivos. Mas ainda é muito pouco diante da vasta produção cultural.

Claro que os grandes eventos merecem patrocínios. Porém, por que despejar um enorme montante em algo sazonal? É preciso empregar recursos pensando nos benefícios para a sociedade como um todo. Os investimentos devem ser contínuos, contemplando diferentes segmentos culturais, uma vez que a criatividade é perene. Não é empregar dinheiro com a intenção de ajudar os artistas. Afinal, eles são trabalhadores, como arquitetos e engenheiros voltados para construção do pensamento crítico.

Karoline Vital é jornalista.

MATERIAL DESCARTÁVEL

Karoline VitalKaroline Vital | karolinevital@gmail.com

Com toda propaganda ostensiva do FIES – inclusive no boleto das mensalidades – a instituição demonstra total desinteresse em manter os alunos.

O setor era um grande vão, organizado por divisórias de MDF. A maior parte dos funcionários pareciam clones das cunhadas gêmeas do Homer Simpson, mas sem os cigarros pendendo no canto da boca. Olhar vitrificado, expressão facial de como se tivessem acabado de engolir um remédio amargo.  A fala no ambiente era baixa, com poucas inflexões. E, ao redor, o contraste de toda alegria dos jovens estampados nos cartazes, na celebração de terem alcançado o grande triunfo do nível superior, pagando os juros colossais do Financiamento Estudantil.

Aguardava na fila a minha vez de pegar o reembolso da minha matrícula. Tinha sido aprovada em primeiro lugar para o curso de psicologia. Quando prestei o vestibular, fui criticada por familiares e amigos, que julgavam bobagem eu enfrentar outra graduação. “Você deve tentar um mestrado ou um concurso público”, ouvi de alguns. Mas psicologia era algo que sempre me empolgou. Sou fascinada pelo comportamento humano, como somos bichinhos pretensiosamente mais espertos que os outros, mas primitivamente tão previsíveis.

A gente faz planos para a vida, mas o destino às vezes disponibiliza rumos totalmente diferentes dos idealizados, acabei não tendo condições para arcar com os compromissos financeiros para entrar no curso logo no primeiro semestre. Assim, na primeira semana do ano, procurei a secretaria acadêmica para solicitar a manutenção da minha vaga para o segundo semestre, explicando todas as minhas razões.

As moças que me atenderam até foram simpáticas e me deram o prazo de 72 horas para uma resposta via email. O tempo passou e nada. Eu ligava para pedir algum posicionamento e nada. Fui à faculdade duas vezes e nada. Passaram-se duas semanas e a única resposta que obtive é que meu requerimento estava sendo analisado. E mais nada.

Com a proximidade do início das aulas próximas e a falta de qualquer parecer, decidi cancelar minha matrícula. Foi algo dolorido, contudo o mais racional. Pedi outro requerimento e fui ao setor financeiro. Quando entreguei o papel, o funcionário sequer me perguntou o motivo pelo qual eu pedia o meu desligamento prematuro. Explicou-me os procedimentos com naturalidade e, no prazo estabelecido, enviou-me um email comunicando que o meu reembolso já estava disponível.

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EDUCAÇÃO À MESA

Karoline VitalKaroline Vital | karolinevital@gmail.com

Deu para ver a marra se derretendo no rosto dela, de onde brotou um sorriso amarelo. E assim, com a minha educação doméstica, investi em refeições menos tensas no futuro.

Minha educação para o momento das refeições foi além dos princípios básicos de etiqueta, como não falar de boca cheia e não apoiar os cotovelos sobre a mesa. Com minha família, aprendi a norma básica na hora de comer: trate bem quem te alimenta! Tenho dois tios garçons e sempre contaram as barbaridades causadas pela falta de civilidade de clientes e o espírito vingativo dos funcionários da cozinha e afins. Humilhações e reclamações em tom esnobe muitas vezes são revidadas com cuspe na comida, canudos previamente inseridos no nariz e ouvidos, bifes bem passados pelo chão e demais nojeiras arquitetadas por mentes criativas e sentimentos feridos.

Antes que sua arrogância deseje lembrar àquele que te serve sobre quem está pagando pela comida, é preciso avaliar os possíveis riscos que você pode se submeter. E não adianta querer se blindar falando de profissionalismo e apelar para ameaças ao gerente ou dono do estabelecimento. E por mais que Seu Madruga tenha ensinado que “a vingança nunca é plena, mata a alma e envenena”, gente é um bicho rancoroso e perverso.

Tratar bem quem prepara sua comida deve seguir os princípios básicos da convivência humana, acrescidos do instinto de autopreservação. E foi a estratégia de sobrevivência à mesa deu origem a um ato de celebração muito comum: o brinde. Pesquisadores contam que o hábito de brindar surgiu na Grécia, 400 anos antes de Cristo. Ao bater os copos, misturava-se a bebida servida e o convidado se assegurava de que seu anfitrião não tinha intenções de envenená-lo.

Partindo das lições familiares, sempre segui à risca o princípio de jamais destratar quem lidava com minha refeição. Uma vez, quando prestava serviço a certa Prefeitura, recebi um vale para almoçar no restaurante parceiro do governo municipal. O evento que cobri durante a manhã se estendeu além do horário. O restaurante era pequeno, funcionava na residência da proprietária. Só consegui chegar ao estabelecimento perto das 14 horas e as funcionárias, que pensavam estar livres do seu turno, receberam-me com uma enorme tromba. Faziam questão de demonstrar explicitamente toda sua contrariedade. Uma delas se queixava de dor de cabeça e pressão alta.

– Senhora, já que está se sentindo mal, é melhor procurar um posto de saúde, pois hipertensão é um perigo – aconselhei, cautelosamente.

– Por mim, eu morro! – respondeu-me com aspereza.

Depois de escolher o meu prato, perguntei o que tinha para beber.

– Se quiser, tem água – informou-me a funcionária com desdém.

– Está ótimo! – exclamei com um sorriso no rosto, numa tentativa desesperada de criar alguma empatia. Não sei se a tática funcionou, mas fui surpreendida com uma limonada.

O clima no restaurante era tenso. O lugar era minúsculo e dava para ouvir todas as pragas rogadas da cozinha. Mas, como meu estômago estava colando nas costas, tive que me submeter ao risco, pedindo proteção divina.

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A SEMENTE DA CORRUPÇÃO

Karoline VitalKaroline Vital | karolinevital@gmail.com

O “gosto” pelo benefício próprio é a semente das pequenas corrupções, que crescem proporcionalmente ao nível de poder alcançado.

Os praticantes da Lei de Gérson são tão fiéis ao que acreditam quanto homens-bomba fundamentalistas. A máxima de levar vantagem em tudo é defendida com unhas e dentes, passando por cima até da valorização de entes queridos. Os exemplos são sortidos. Mas citarei o que acontece nas portarias de casas de espetáculos. Não vou nem falar de gente que vai a shows caros de artistas famosos, mas de pessoas que se recusam a coçar o bolso para colaborar com eventos em que familiares e amigos participam ou organizam.

A mesquinhez dos gersonianos é sinistra. Com arrogância, empinam o nariz, inflam o peito e saem rebocando quem ou o que estiver impedindo sua entrada.

– Minha filha vai se apresentar!

– A senhora tem convite?

– Olhe o meu nome. Deve estar na lista! – a gersoniana responde arrogantemente, sem olhar nos olhos do funcionário.

Ao ser informada de que não existe lista, a criatura avarenta sai bufando, puxando o celular da bolsa a fim de mobilizar não sei quem de não sei de onde para ordenar sua entrada gratuita. Enquanto o ser de comportamento ético duvidoso contorce sua tromba de insatisfação, chega à bilheteria uma menina vestindo a camiseta de um dos grupos que vai se apresentar.

– Quero uma meia-entrada, por favor – disse, enquanto puxava a carteira estudantil.

Ela não precisava pagar pelo show que iria oferecer ao público. Mas sua consciência de que o evento de pequeno porte precisa do maior número de colaborações possíveis não deu espaço para a vaidade ou sovinice. A mocinha pegou seu tíquete, entregou ao porteiro e adentrou no espaço.

A discípula de Gérson continuava firme e forte em sua luta pela xepa. Depois de conseguir falar com a autoridade máxima que a salvaria da iminente bancarrota, passa pela portaria mais inchada que um baiacu.

– A pessoa que vai liberar minha entrada já está chegando… – fala ao porteiro com altivez e deboche.

No tempo que a aprendiz de Tio Patinhas esperava seu salvo-conduto, chega uma família vinda de um bairro periférico. Os três fizeram questão de se dirigir o quanto antes à bilheteria e ter o orgulho de pagar para ver a filha e neta subir ao palco. Com humildade no olhar e falar, entraram tranquilamente e, com calma, escolheram o lugar com melhor ângulo, entrando antes da seguidora da Lei de Gérson.

O ser pão-duro estava irredutível. Cansada de ficar em pé no mesmo lugar, esperando pelo convite, a mulher andava de um lado para o outro, demonstrando angústia e ódio. Finalmente, depois de o segundo sinal ter soado, chega a autoridade máxima capaz de liberar a entrada da velhaca. De baiacu de cara feia, a pavão imponente. E ela ainda fez questão de cochichar no ouvido de seu salvador os maus-tratos que recebera do porteiro, enquanto passava pela catraca. Por alguns segundos, pensei até que fosse mostrar língua para o rapaz. Mas, sua pose de dondoca permitiu apenas que desse de ombro.

E essa não foi a única cena patética da noite. Não é e nem será a única do mundo. Os defensores da Lei de Gérson estão pouco se lixando para os outros. Eles só pensam o quão espertos são pela vantagem que estão levando. Não ligam em colaborar com a organização do evento, em valorizar quem está se apresentando, ou quem fez aquilo que está sendo consumido… O “gosto” pelo benefício próprio é a semente das pequenas corrupções, que crescem proporcionalmente ao nível de poder alcançado.

Karoline Vital é jornalista.

PORQUE SIM NÃO É RESPOSTA

Karoline VitalKaroline Vital | karolinevital@gmail.com

A evolução tecnológica acabou causando uma grande revolução no quanto as pessoas se contentam com explicações, já que é possível divergir com embasamento de qualquer resposta insatisfatória.

Quem assistiu ou ainda assiste o programa infantil Castelo Rá-Tim-Bum, imediatamente sabe o que acontece quando respondiam uma pergunta com “Porque sim!”. Imediatamente, surge o Telekid, personagem vivido por Marcelo Tas, para dar explicações a perguntas que muita gente tem preguiça ou não sabe responder como: por que as pessoas falam idiomas diferentes ou por que a cidade é cheia de gente?  E, usando o seu controle remoto avô do Google, o Telekid respondia as questões de maneira simples e ilustrativa.

Hoje em dia, responder algum questionamento com “porque sim” ficou cada vez mais complicado. Com a facilidade de acesso às informações, qualquer criança minimamente alfabetizada e com acesso à internet tem todas as suas dúvidas sanadas em instantes.

Quando eu estava na sétima série, a professora de geografia pediu uma pesquisa sobre chuva ácida. Fui à biblioteca da escola vasculhar as enciclopédias, desatualizadas ano a ano. Estávamos em 1995 e o exemplar disponível mais novo era de 1992. Folheei o pesado livro bolorento e achei a definição de chuva ácida: pouco mais de 15 linhas espremidas numa estreita coluna e ilustrada por uma diminuta foto preto e branca de uma estátua corroída.

Era pouquíssima informação, uma breve noção do assunto. Aí, era o jeito garimpar na Biblioteca Municipal. Se a pesquisa fosse pedida hoje, o Google me disponibiliza 415 mil resultados em 0,20 segundo. Sem sair de casa, sem ficar com as mãos grossas de poeira ou desafiar minha rinite alérgica.

Se, nos primórdios da humanidade, o povo criou mitos e lendas para explicar a vida e o mundo, atualmente, ninguém acredita facilmente em histórias fantásticas. Todos querem provas, imagens, documentos que certifiquem ao máximo as afirmações. São poucos os que engolem um “porque sim”.  A evolução tecnológica acabou causando uma grande revolução no quanto as pessoas se contentam com explicações, já que é possível divergir com embasamento de qualquer resposta insatisfatória.

Está cada vez mais complicado manter símbolos e dogmas religiosos ou políticos. As crenças, sejam elas no que ou em quem for, são cada vez mais questionadas, conflitadas. Se uma mãe diz para o filho que assistir TV de perto faz mal, em dois tempos ele acha a explicação de um oftalmologista afirmando o contrário e contraria o argumento materno com fundamentação científica.

A passividade em aceitar cegamente determinações está sofrendo um enfraquecimento progressivo.  Afinal, o “porque sim” não tem mais o poder de calar a dúvida por maior que seja a autoridade de quem o diz. Com o acesso a tanta informação, o que está valendo mais é o poder de argumentação. Ser vaquinha de presépio virou opção ou mera conveniência.

Karoline Vital é jornalista.

UMA DIETA MAIS CULTURAL

Karoline VitalKaroline Vital | karolinevital@gmail.com

Ouço muito discurso demagógico de gente que diz saber do potencial artístico grapiúna, mas nunca viu coisa alguma. É o mesmo tipo de gente que assiste programa matutino e dá conselhos sobre dietas naturais, exercícios e decora meia dúzia de chavões de livros de autoajuda.

Mais um ano vai chegando ao fim e a turma não perde tempo de fazer suas promessas para os próximos 12 meses. Uma clássica é regular o peso através de hábitos mais saudáveis. Uns querem emagrecer, outros ganhar massa muscular, alguns apenas gostariam de gozar de mais saúde para ter a possibilidade de viverem muitos outros anos e fazer mais promessas. Todo mundo sabe o que precisa fazer e o quanto sua saúde agradecerá, mas são poucos os que realmente se arriscam.

Geralmente, para regular o peso se começa pela reeducação alimentar. Fugir das delícias pouco nutritivas às quais estamos acostumados para encarar pratos que nem sempre são atraentes logo de cara é duro, torturante. Por mais que a circunferência das nossas cinturas peça clemência, são raros aqueles que facilmente trocam o velho e gordo bife com batatas fritas por um peixe grelhado com ervas finas e uma salada crua. É difícil e sofrível acostumar com o cardápio mais leve e sadio.

E, assim como acontece com a necessidade de hábitos alimentares mais saudáveis, também é preciso investir na boa forma de nossas mentes, melhorando nossas dietas culturais. Estamos acostumados a consumir tanta tranqueira que estranhamos ao encararmos uma opção mais refinada. Existem uns e outros que adoram visitar restaurantes chiques de vez em quando para posarem de gourmets, assim como aqueles que viram tietes repentinas de figuras da MPB para tirarem onda de intelectuais. Mas para apreciar cultura de verdade é questão de hábito, refinamento gradativo do paladar.

Meio mundo reclama que na televisão só passa porcaria e emburrece, que na internet só tem baboseira, etc. Têm consciência que há alternativas melhores e engrandecedoras, têm livre acesso a elas, mas não largam os maus hábitos. São os mesmos que, ao chegar numa praça de alimentação, atacam logo os sanduíches com gosto de plástico.

Os meios de comunicação também não ajudam muito a incentivar melhores hábitos culturais. Adoram escândalos e fofocas políticas, ficam em êxtase com tragédias (se envolverem criancinhas melhor ainda) e vão ao delírio com a violência, estampando fotos dos defuntos ensanguentados e tudo mais. A parte destinada à cultura é ínfima. É um terço de bloco de um telejornal, uma notinha em um programa de rádio e uma postagem por semana num site (isso se o evento não estiver pagando pelo espaço, um banner bem dinâmico com a foto dos artistas globais).

Fica mais do que complicado tentar colocar na cabeça do povo de que ser culto não é ter lido apenas os clássicos da literatura universal ou conhecer a discografia de gênios da música. Ser culto é estar aberto a novas experiências culturais, é se permitir experimentar novos sons, imagens e sabores.

A região sulbaiana tem uma vida cultural riquíssima, com artistas que não devem nada aos importados das regiões sul e sudeste do país. E não adianta vir apenas compartilhar links em seus perfis nas redes sociais de eventos culturais locais e nem se dar ao trabalho de experimentar. :: LEIA MAIS »

ASSEMBLEIA DOS RATOS

Karoline Vital | karolinevital@gmail.com

Na mesma hora, liguei a lição aprendida ao meu cotidiano. Neste período de campanha eleitoral aparecem pretensos cientistas políticos a torto e a direito trazendo soluções infalíveis para tirar a cidade da barafunda

Fábulas são modos divertidos de ensinar regras de convivência. Sempre me diverti com as historinhas despretensiosas tentando ilustrar a melhor maneira de nos comportarmos para tornar a vida mais suportável.

Ultimamente, tenho me deparado com imagens de uma fábula moderna nas redes sociais. A cara que o He-Man fazia explicando a lição de moral passada ao final dos episódios. O pior é que os argumentos até faziam sentido, apesar de não passarem de falácias. Ah, anos 1980, quando o politicamente correto era coisa de hippie! Brinquedos com rebarbas cortantes e pintados com tintas à base de chumbo, cigarrinhos de chocolate e um desenho animado cheio de monstros e musculosos em modelitos homoeróticos, com um tentando matar o outro, ostentando a pretensão de ter alguma autoridade para promover a moral e os bons costumes.

Apesar de não concordar com a fórmula usada por He-Man, eu acho a tentativa válida. Em uma época em que as famílias estão cada vez mais desmanteladas, sem núcleos sólidos, qualquer meio de passar normas de comportamento vale a pena. O legal é que, mesmo com o povão e a mídia classificando os desenhos animados contemporâneos de violentos e vazios, há muita coisa de qualidade e com mensagens boas sendo produzidas.

Infelizmente, grande parte fica restrita aos canais educativos que têm audiência proporcional à massa pensante do país. Ou então, só quem tem o privilégio de pagar uma TV por assinatura com canais infantis de conteúdo criteriosamente selecionado e classificado para cada fase da infância. Dia desses, deparei-me com um programete bem legal no canal Rá-tim-bum, “O papel das histórias”. São bonecos de recortes de papel cartão que contam fábulas clássicas do grego Esopo e do francês La Fontaine.

Assistindo com minha filha de dois anos “O papel das histórias”, pude refletir sobre a fábula “Assembleia dos Ratos”, de Esopo. É a história de uma colônia de ratos que não suporta mais o terror ditado por um gato e se reúne para discutir uma solução para o pesadelo.

Cada rato dá sua sugestão até que um vem com a melhor de todas: colocar um sino no pescoço do felino. Assim, todos ouviriam ele se aproximar e poderiam fugir antecipadamente. O ratinho foi aplaudido pela brilhante ideia. Até que um rato mais velho fez o sábio questionamento: “Quem colocará o sino no pescoço do gato?” Os ratos se entreolharam e foram saindo um a um. Moral da história: falar é fácil, fazer é que é difícil.

Eu não conhecia esta fábula e, na mesma hora, liguei a lição aprendida ao meu cotidiano. Neste período de campanha eleitoral aparecem pretensos cientistas políticos a torto e a direito trazendo soluções infalíveis para tirar a cidade da barafunda. Eles não se limitam a dar opiniões. Já traçam todo o percurso para a salvação da lavoura com uma propriedade tirada sabe Deus de onde. Muitas vezes são sugestões coerentes, plausíveis, perfeitamente realizáveis. Todavia, eu me pergunto: Quem está realmente disposto a amarrar o sino no pescoço do gato?

Karoline Vital é jornalista.



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