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:: ‘linguagem’

UNIVERSO PARALELO

O RECORRENTE MACHISMO DA LINGUAGEM

1Posso ajudá-loOusarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

Num grande supermercado de Itabuna, encontro a mocinha em cuja blusa se estampa, em letras garrafais, a pergunta: “Posso ajudá-lo?” Não creio que possa, enquanto eu não souber qual é, de verdade, meu problema – mas tal questão de ordem metafísica pode ficar para mais tarde. Por enquanto, o que me desperta o interesse é a recorrente tendência machista da linguagem brasileira, lamentavelmente incentivada até por quem deveria combatê-la a ferro e fogo. “Ajudá-lo” supõe que a clientela seja masculina, quando esta, nos locais de compras em geral, constitui (segundo observo), minoria. “Posso ajudar?” é a fórmula correta que um banco utiliza há muitos anos, sem discriminar ou prestigiar gêneros.

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Discriminação apoiada pelas mulheres

O modelo de que se valeu o supermercado foi bolado por alguém sem sensibilidade ou conhecimento da língua portuguesa. Ou os dois. Não deve ser cômodo a nenhuma mulher dirigir-se a pessoa que pretende “ajudá-lo”, como se macho ela fosse. Mas parece que é moda a que as mulheres não reagem (mesmo que a presidenta Dilma tenha trabalhado em sentido contrário, feminizando os cargos femininos). Até no meio universitário, mais conservador do que se imagina, é comum dizer-se que a professora Fulana é “mestre” em tal disciplina. Um horror: mulher é mestra, reitora, vereadora, presidenta, generala, bacharela, coronela – o diabo (aliás, a diaba!). O resto é discriminação, ainda que apoiada pela ala feminina.

O BANCO RASO NUNCA FOI SÃO CAETANO

3Princesa Isabel

Dizem, mesmo sem pesquisa científica, tese ou dissertação acadêmica a tal respeito, que o Banco Raso possui o maior número de botequins por metro quadrado do território itabunense. Adiante-se que às vezes ele é confundido com o São Caetano, mas São Caetano não é, pois o Banco Raso nunca foi santo. E voltemos, rapidamente, ao que interessa, os botequins, na intimidade ditos “botecos”. Minha surpresa é ver num almanaque (o que seria desta coluna, se não fossem os almanaques?) que o termo vem do italiano botteghino, uma espécie de mercearia e que entre nós ganhou outro significado, bem distante daquele original. 

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Filosofia, futebol e sexo dos anjos

Aqui, botequim vende, especialmente, álcool, nos seus diversos perfis. É lugar de encontrar pessoas, trocar ideias, jogar conversa fora, consertar o Brasil. Com mesas às vezes mal-ajambradas, costuma ser o ambiente ideal para curtir dores de cotovelo, começar novas amizades, avaliar a cultura nacional, discutir filosofia, futebol e o sexo dos anjos.  “Refúgio barato dos fracassados do amor” (conforme a canção de gosto, este sim, barato), o boteco tem atraído as atenções da literatura: Jaguar fez Confesso que bebi , 2001, e Moacyr Luz, em 2005, publicou Manual de sobrevivência nos botequins mais vagabundos.

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5Rubem BragaVinícius: tempos ruins, uísque barato

No Villarino, Rio, 1956, copo de cerveja à mão, Tom Jobim foi apresentado a Vinícius de Morais, pelo jornalista Lúcio Rangel;  o Anjo azul, em Salvador, abrigou a primeira exposição do argentino Carybé no Brasil (gostou tanto que ficou baiano!); em São Paulo, o Nick Bar, espécie de extensão do TBC (Teatro Brasileiro de Comédia) virou samba-canção, cantado por Dick Farney; Rubem Braga (foto), Heitor dos Prazeres, João Cabral de Melo Neto e Vinícius, em tempos difíceis, consumiam uísque barato no Vermelhinho, Rio; Paulo Leminski chegava ao Stuart, em Curitiba, às 10 horas, e começava a beber vodca e escrever, tendo ali criado famosa frase: “O Rio é o mar; Curitiba, o bar”. Histórias de botecos.

ORESTES E SEU QUASE MARTELO AGALOPADO

A questão é tão antiga quanto o poema e o canto: letra de música é poesia? Para mim, é; para os que, de fato, entendem do assunto, não é. Manuel Bandeira (poeta que, desencantado com este mundo vasto e real, decidiu mudar-se para a imaginária Pasárgada) tinha “Tu pisavas nos astros, distraída” como o mais belo verso da língua portuguesa. E agora? O texto de Chão de estrelas, de Orestes Barbosa, poderia ser inscrito em qualquer seleção de poesia – desde que Sílvio Caldas não fizesse a “bobagem” de lhe pôr melodia. É um poema romântico, todo versado em decassílabos, acentuação quase sempre na 3ª, 6ª e 10ª – algo parecido com um martelo agalopado.
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7OrestesBarbosaLetras de MPB: do simples ao barroco

Muitos outros autores da MPB atingem o mesmo grau de excelência de Orestes Barbosa: Noel, Tom, Vinícius, Belchior, Caetano, Antônio Maria, Gil, Paulo César Pinheiro, Dolores Duran, Cândido das Neves, Aldir Blanc, Chico Buarque – não há como esgotar a relação, pois riquíssima é a letra de nossa canção. Da simplicidade de Caymmi (“Marina, você já é bonita com o que Deus lhe deu”) ao barroco do misterioso Otávio de Sousa (com aquele coração “pregado e crucificado sobre a rosa e a cruz do arfante peito teu”), cada um pode fazer sua escolha, em meio a diferentes estilos e idades. Para mim, isso é poesia, pois tem o impacto estético da poesia.

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Versos que assustaram Sílvio Caldas

A letra de Chão de estrelas, apresentada a Sílvio Caldas em 1941, assustou o músico. Ele achou que era impossível o público aprovar versos tão sofisticados, decassilábicos, acadêmicos, coisa mais pra ser lida em livro do que ser cantada em serenata de balcão, janela e sacada. Mas foi convencido por Orestes a musicar tais versos e gravá-los. Fê-lo com tal competência que Chão de estrelas entrou para a história da MPB como o “Hino nacional dos seresteiros”, com mais de 40 regravações de artistas de variada estirpe, de Elizeth Cardoso a Roberto Carlos, de Nelson Gonçalves a Baden Powell, Carlos Alberto, Maurici Moura (acabou o espaço, voltaremos ao tema)… No vídeo, Maysa, pondo a alma em cada sílaba, como sempre.

 

O.C.

UNIVERSO PARALELO

MOCHILEIRO CHEIO DE VOCAÇÃO REPRIMIDA

01 On the roadOusarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

Amigos me olham atravessado (aquele olhar tipo “coitado, pirou de vez!”) quando descobrem minha mania de andarilho nunca concretizada. Tentei ir a pé de Ilhéus a Recife, mas desisti, por não conseguir montar uma estrutura compatível com a empresa; imaginei ir de Fortaleza/CE a Jaguarão/RS, pela BR 116 – missão que se tornou impossível, pelo mesmo motivo. Sou um mochileiro cada dia mais teórico e mais frustrado, pois, além das outras dificuldades, as pernas já não aguentam tais aventuras. Fico a imaginar de onde vem essa sufocada vocação de vagabond que quase me dá insônia, e imagino que ela tenha origem em Jack Kerouac e seu Na estrada, um dos livros mais impressionantes que já (re) li, talvez pelo grito de liberdade que salta de suas páginas.

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O livro que mudou a vida de Bob Dylan

02 Mochileiro

Acabo de ler a nova versão desse clássico e experimentei a mesma inquietação de tempos passados. O lançamento da L&PM, de 2008 (já com duas reedições), traz os nomes reais dos personagens e, na capa, um elogio nada pequeno, de Bob Dylan: “Este livro mudou minha vida”. Teria mudado a minha, se o lesse aos 18 anos – mas só o descobri quando estava irrecuperável para as aventuras de verdade, já mortos alguns sonhos, a cabeça cheia de juízo, abafada a vocação para a doidice. O livro, publicado no fim dos anos 50, é a descoberta do jazz, dos malucos beats, de um jeito novo de viver e sentir. Mesmo hoje, já doídas as articulações, Kerouac me injeta uma inquietante vontade de jogar tudo pra cima e pegar a estrada, mochila às costas e cata-piolho apontando o caminho.

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Benzedrina, café, Parker e Gillespie

On the road é cercado pela mitologia. Foi escrito em três semanas, de uma tacada só, enquanto o autor ingeria doses cavalares de café “adoçado” com benzedrina (uma substância que dá efeito de euforia e estímulo). Kerouac emendou várias folhas de papel e obteve um rolo de 36 metros (há quem fale em 40), no qual deixou jorrar sua história, em que há um único parágrafo. Enquanto escrevia, como em transe, JK mantinha o rádio ligado num programa de jazz e era embalado pelo bebop, o estilo frenético de improvisação em que eram mestres Charlie “Bird” Parker e Dizzie Gillespie. Desta versão original emerge o tipo (real) mais doidão que já se viu em letra de forma: Neal Cassady. É livro perigoso, desses que escaparam de ser queimados em praça pública, com direito a missa de réquiem.

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UM TÉCNICO DE LINGUAGEM ACIMA DA MÉDIA

04 CoutinhoEsporte nacional, o futebol, fonte de graves agressões à língua portuguesa, guarda casos de puro sabor brasileiro. Conheço, modéstia à parte, muitos deles, alguns já nem sei em que fonte obtive – leituras esparsas, conversa de bar, audiência de transmissões pelo rádio. Cláudio Coutinho, que fracassou na seleção brasileira e depois seria um dos maiores técnicos da história do Flamengo, era um militar (capitão do Exército) de alto nível, até acusado de não ser entendido pelos jogadores, devido a seu falar sofisticado. Coutinho, “culturalmente”, situava-se bem acima da média: até introduziu nos gramados e arquibancadas expressões como overlapping e ponto futuro.
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Se fala várias línguas é… troglodita!

Gaúcho de Dom Pedrito, Cláudio Coutinho trabalhou com Kenneth Cooper, o americano que revolucionou a avaliação física, e falava várias línguas, o que era um verdadeiro assombro no mundo do futebol, conhecido naqueles tempos como o império da ignorância. Soneca, que por longo tempo foi roupeiro no Botafogo, vendo um dia o treinador dando entrevistas em inglês, francês e alemão, expressou seu espanto ao médico Lídio Toledo, responsável pela saúde na seleção brasileira: “– Doutor, eu vi! O homem fala tudo quanto é língua. É um troglodita perfeito!”.  O episódio foi registrado pelo cronista esportivo Sandro Moreyra – Histórias de futebol (Coleção O Dia Livros/1998).

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BADEN POWELL ENTRE OS GRANDES DO JAZZ

Dizer que o violonista Baden Powell (de Aquino) é parente do jornalista Ramiro Aquino seria revelar uma grande curiosidade, o que não faço, por desamor à mentira. Mas há outras curiosidades: ele é primo de João de Aquino (autor de Viagem, com Paulo César Pinheiro), nasceu numa cidade chamada Varre-e-Sai (Rio de Janeiro) e teve esse nome graças ao pai escoteiro – o velho quis prestar uma homenagem ao general Robert Stephenson Smyth Baden Powell, criador do escotismo. E mais: Baden (o músico, não o general) é pai do pianista Philippe Baden Powell e do violonista Louis Marcel Powell. Por último, mas não menos importante, críticos americanos listam Baden Powell (1937-2000) entre os grandes do jazz, com estilo influenciado pelo guitarrista Django Reinhardt.
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Cyro: “um abraço em toda a humanidade”
Cyro Monteiro era sobrinho do pianista Nonô (Romualdo Peixoto, chamado “O Chopin do Samba”) e parente de Cauby Peixoto, creio que primo. Tinha oito irmãos (todos com nome iniciado pela letra C), e com um deles, Careno, começou sua experiência, cantando em dupla. Torcedor do Flamengo, quando nasceu Sílvia, filha do pó-de-arroz Chico Buarque (com Marieta Severo), mandou para o bebê uma camisa rubro-negra; Chico, em “represália” fez o samba Ilmo. Sr. Cyro Monteiro ou Receita para virar casaca de neném. Vinícius disse ser o cantor uma criatura tão extraordinária, a ponto de o poetinha achar “deplorável qualquer de seus amigos não se haver dito, num dia de humildade, que gostaria de ser Cyro Monteiro”. Cyro, segundo Vinícius, “é um grande abraço em toda a humanidade”.  
_______________07 Ciro Monteiro
A Constituição e o direito de cantar
Mais do que uma frase, Vinícius e Baden deram a Cyro todo um disco, o De Vinícius e Baden especialmente para Cyro Monteiro, gravado em Paris, em 1965. O disco citado, hoje peça de colecionador, tem dez faixas, das quais me lembro bem de Tempo feliz, Deixa, Amei tanto e Formosa – todas na voz do  homenageado. Baden, num show no Teatro de Ilhéus, transpirava bom humor, quando disse que cantava porque a Constituição Federal lhe garantia esse direito. Sabia o grande violonista não ser nenhum Sílvio Caldas. Neste vídeo, ele canta (viva a Constituição!) Formosa, uma das faixas daquele disco com que Cyro Monteiro mais se identificava. Vocês podem se queixar do cantor (que até tenta uma espécie de scat singing), mas, certamente, não vão reclamar do acompanhante. Vale pela curiosidade.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

NÃO COMO BADÊJO NEM CARNE GRÊLHADA

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

É incrível como a mania das vogais fechadas, típica de paulistas mal informados, invade a mídia eletrônica, lá faz morada e termina sendo defendida por linguistas descuidados, em nome de um vago “dinamismo” da língua portuguesa. Há dias, com o “gancho” do jogo da seleção brasileira de futebol, cansei-me de ouvir narradores de tevê chamarem a capital da Suécia de Estocôlmo. Outros afirmam os milagres de uma tal vitamina Ê (dizem que, como afrodisíaco, é tiro e… queda!), assam carne na grêlha, fazem moqueca de badêjo, falam de um lugar longínquo da Grécia dito Peloponêso – e por aí vai.

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O regionalismo identifica certos locais

E não é difícil encontrar até gente “culta” que defenda tais prosódias despropositadas, como “regionalismos”. Deixemos em paz os regionalismos, que são perfeitamente defensáveis como parte da identidade de determinados lugares. Regionalismo é chamar tangerina de bergamota, laranja-cravo, poncã, mimosa etc. – mas chamar Estocólmo de Estocôlmo é ignorância mesmo. Lembro-me que, certa vez, ao avaliar um texto gravado para tevê, topei com a expressão “quadra pôliesportíva” : chamei a repórter e lhe pedi que gravasse outra vez. Ela, que devia me agradecer, ficou ressabiada por ter-lhe estragado a pronúncia “bonita”.

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A língua é viva, mas não exageremos

Entre os novidadeiros e os meramente ignorantes vamos mudando o que não é para ser mudado, introduzindo “novos” vocábulos e contribuindo para deseducar as atuais e futuras gerações. Que a língua é viva e dinâmica, não há dúvida; mas de que tudo demais é sobra também tenho certeza. A pessoas que escrevem (ou falam) nas mídias (aí incluídos os blogs, por que não?) há de ser imposta a dita norma culta – não lhes cabendo o direito a sair por aí chutando a sintaxe, dando pescoções na prosódia e matando de raiva a concordância e a regência.

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O DIA EM QUE ALCEU RECEBEU UM FORA DE SAFO

A poetisa Safo, nascida na ilha grega de Lesbos, por volta de 612 a. C., foi revolucionária, em vários aspectos. Diga-se que com cerca de 19 anos (já morando na capital, Mitilene), junto com outros militantes, conspirava contra Pitacos. Foi exilada na cidade de Pirra, de onde o ditador, temendo-lhe a escrita, mandou-a para local mais ermo: Pirra, na Sicília. Em Pirra, certo Alceu, apaixonado, mandou-lhe um convite amoroso: “Oh! pura Safo, de violetas coroada e de suave sorriso, queria dizer-te algo, mas a vergonha me impede.” Safo resistiu à cantada. Talvez porque Alceu pesou nas plumas e paetês, quando ela queria mais firmeza e menos frescura.

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A elegância que impressionou Sócrates

Durona e rápida no verso, Safo mandou Alceu pastar: “Se teus desejos fossem decentes e nobres e tua língua incapaz de proferir baixezas, não permitirias que a vergonha te nublasse os olhos – dirias claramente aquilo que desejasses”. Depois deste fora, o bom Alceu dedicou à amada muitas composições (odes e sertenatas) – mas se houve ou se não houve alguma coisa entre eles dois, ninguém soube até hoje explicar… Conta o professor e poeta mato-grossense (de Campo Grande) Ricardo Sérgio que Safo estava fora do padrão de beleza grega, por ser baixinha e magricela. Mas era de tão refinada elegância que ganhou do velho Sócrates, aquele mesmo, o título de “A bela”.

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A poesia sublime foi para a fogueira

Tida como grande poetisa, Safo nunca foi santa:  montou em Metilene uma escola para moças (até onde sei, ensinava-lhes só poesia, música e dança), em que as estudantes eram chamadas de amigas, não de alunas. Ela se apaixona por algumas das “amigas”, particularmente Átis, mas esta se envolve com um rapaz: Safo, louca de ciúmes, escreve o poema À Amada, com versos líricos que até hoje apaixonam a crítica. Líricos e quentes como chumbo derretido: “É minha alma um labirinto/ Expira-me a voz nos lábios/ Nas veias um fogo sinto…” A respeito de Safo, há mais lendas do que fatos. Sabe-se que sua poesia, tida como sublime (em nove volumes), foi queimada pela Igreja. Dizem que, já madura, a poetisa desencantou-se com as “amigas” e passou a gostar de homens – mas disso não encontrei prova.

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COM A INJUSTIÇA PREGADA NA BIOGRAFIA

Coautor de Desafinado (e também Samba de uma nota só e Meditação) Newton Mendonça, o primeiro parceiro de Tom Jobim, morreu muito cedo, aos 33 anos. Há quem o coloque ao lado de Tom e João Gilberto, no mesmo pedestal da Bossa-Nova. Mas a história o tem como uma figura desconhecida, sombra de Tom Jobim – e ainda com a injustiça pregada na biografia (talvez maldosamente): a de que ele era apenas  letrista. Segundo Ruy Castro, Newton não era letrista de Tom (como foi Vinícius), mesmo que, ocasionalmente, fizesse versos, e que tocavam de igual pra igual. Pior: na primeira gravação de Desafinado, seu nome foi creditado como Milton Mendonça!

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Coleman Hawkins não soube da polêmica

Autor da única biografia sobre o músico, o escritor potiguar Marcelo Câmara é bem claro quanto ao peso de Newton: “Foi ele quem revolucionou a música da época”. E mais esta, que me fez segurar o queixo: “Tom só é vanguarda com Newton. Sem ele é apenas samba-canção”. Tom, que circulava fácil na mídia, ajudou a consolidar o mito do letrista, e este (que deu raras entrevistas) disse: “Muita gente acredita que eu faço as letras, enquanto Tom faz as músicas – mas não é esta a verdade. Música e letra vão sendo feitas ao mesmo tempo”. Coleman Hawkins nunca soube da polêmica, e dá um banho com Desafinado, sem perguntar de quem é. Aperte o play e… bon voyage!.

(O.C.)

HOJE NÃO TEM UNIVERSO PARALELO

O PIMENTA publicou no dia 11 de dezembro a última edição da coluna Universo Paralelo, que este site levou ao ar, semanalmente e sem interrupções, ao longo de dois anos. A coluna era assinada por um misterioso Ousarme Citoaian, pseudônimo – ou heterônimo – do jornalista e escritor Antônio Lopes. Hoje, em vez da coluna, apresentamos aos leitores a verdadeira identidade do colunista que dava um molho cultural ao PIMENTA todos os domingos.

Nesse bate-papo, Lopes conta como surgiu o UP e porque ele decidiu encerrar as atividades na coluna. Fala também sobre sua trajetória, que começou no interior de Pernambuco, passou por Buerarema, Ilhéus, Rio de Janeiro e Itabuna. Sobre si mesmo, Ousarme Citoaian – ou melhor Antônio Lopes – afirma o seguinte: “sou um cangaceiro domesticado”.

Confira:

PIMENTA – Como surgiu o Universo Paralelo?
LOPES – O PIMENTA havia me pedido para fazer uma coluna sobre cultura e não tinha um formato definido para ela. A partir daí eu pensei em fazer uma coisa que ficasse um pouco destoante da imprensa de todos os dias. O fato é que a coluna foi se formatando com o tempo. Se a gente pegar a primeira e a última, vai perceber que são bem diferentes.

PIMENTA – A coluna sempre mesclou informações sobre música, história, literatura e aquilo que Odilon Pinto chama de “usos do português”. Como você chegou a essa fórmula?
LOPES – Odilon Pinto às vezes usa uma expressão mais cortante, que é pronto-socorro da língua portuguesa. Eu nunca quis ser isso, mas é uma tendência que a gente tem de achar que o jornalismo é um guardião da boa linguagem, embora não possa negar que a mídia às vezes não é muito correta com relação a isso. Não há muita novidade nisso, mas eu sempre quis produzir uma espécie de crítica, porém sempre me resguardei porque isso levaria a um confronto com colegas e eu não gosto disso. De qualquer modo, penso que encontramos um meio de dizer essas coisas.

PIMENTA – Já que falamos em Odilon, qual é sua opinião sobre os linguistas de modo geral?
LOPES – Há linguistas e linguistas. O que me desagrada é que tenho uma formação clássica, apesar de parecer meio presunçoso dizer isso. O que eu quero dizer é que sou de um tempo em que mulher bonita, mulher sensual, a gente chamava de mulher bonita, mulher sensual. Não chamava de gata, de pitéu, galeto nem filé. A boa linguagem precisa prevalecer e o que às vezes me preocupa é a existência de uma corrente que vê as coisas assim: “se você entendeu, está certo”. Se a gente vai à escola, o professor quebrou a cabeça para ensinar como devem ser as coisas, a gente tem uma responsabilidade com isso. Não é na base do “tudo está certo”. Tudo está certo para o homem que lastimavelmente não foi à escola, mas o jornalista foi e tem obrigação de zelar pela linguagem chamada culta.

 

É melhor parar com a coluna num momento em que imagino que ela deu o recado.

 

 

PIMENTA – Sem medo de parecer cabotino, eu gostaria que você falasse sobre a contribuição que a coluna deu à imprensa regional.
LOPES – Na verdade, a coluna me surpreendeu porque eu não imaginava que as pessoas estivessem muito interessadas em saber, por exemplo, sobre uma modinha de Villa Lobos. E de repente você posta isso e surgem comentários. Ou que alguém esteja preocupado com essas filigranas sobre a melhor forma de dizer as coisas. Os muitos comentários que a coluna gerou provam que ela acordou pessoas que eu imaginava não estarem afinadas com essa moderna linguagem dos blogs. Elas me deram uma responsabilidade muito grande, na medida em que passaram a participar e a cobrar. Essa participação já foi um grande prêmio que a coluna teve.

PIMENTA – O fato de estar publicado na internet foi essencial para a repercussão que o Universo Paralelo conquistou? Aproveitando, nós gostaríamos que você desse sua opinião sobre esse fenômeno dos blogs, avaliando o papel que eles exercem.
LOPES – Eu não sou exatamente um entusiasta das chamadas novas tecnologias, mas isso não me impede de reconhecer que a coluna não daria tão certo se fosse impressa. Essa resposta rápida só a internet permite. Foi surpreendente a aceitação e concordo que a mídia escolhida, particularmente o blog Pimenta na Muqueca, pela audiência e prestígio que tem, foi o melhor lugar onde a coluna poderia ter sido abrigada.

PIMENTA – E por que parou?
LOPES – Parei porque tenho a convicção de que as coisas não são eternas. Dois anos são o bastante e aqui tem um pouco da “síndrome” de Pelé. É melhor parar com a coluna num momento em que imagino que ela deu o recado, do que esperar chegar o ponto em que as pessoas não queiram mais. Se ela deixar alguma saudade, e tomara que deixe, eu terei cumprido meu objetivo. Tive sempre um tratamento muito cortês no blog, mas acho que é tempo de parar. Na vida a gente faz estágios e esse foi um estágio. Se você me perguntar qual é o próximo, não sei lhe dizer.

PIMENTA – Você nasceu em Pernambuco, viveu em Buerarema, estudou em Ilhéus, trabalhou no jornal Última Hora no período da ditadura militar, escreveu livros…
LOPES – Eu nasci no município de Triunfo, em Pernambuco, numa família de pequenos agricultores, aquela gente que planta, colhe e se sobrar vende. Meus antepassados continuam lá, num lugar chamado Lagoinha, em Pajeú de Flores, terra de xique-xique, bode, Lampião, de cangaceiro. Eu mesmo costumo me classificar como um cangaceiro domesticado. Mas apenas nasci lá. Meus pais morreram muito cedo, então foi meu irmão quem me criou em Buerarema.

PIMENTA – Buerarema é sua maior referência…
LOPES – A minha “mitologia” mesmo é a de Buerarema. Foi sobre este lugar que eu publiquei três livros (“Buerarema falando para o mundo”, “Luz sobre a memória” e “História de Facão e Chuva”), sobre gente que mora lá, alguns até hoje. Na verdade, “ Buerarema falando para o mundo”, apesar do título, não é só Buerarema. Os livros sobre Buerarema são Luz sobre a memória e História de Facão e Chuva. Tive a sorte de ter um deles editado pela Uesc, além de outro livro, “Solo de Trombone”, sobre o satírico Alberto Hoisel. Em Ilhéus, estudei no IME (Instituto Municipal e Educação Eusínio Lavigne), conheci Milton Santos, José Cândido de Carvalho, Leopoldo Campos Monteiro, Washington Landulfo, Horizontina Conceição, Pedro Lima, enfim, os nomes que as velhas gerações de Ilhéus têm como grandes professores. Eu os conheci todos e foi um período muito bom. Depois disso, eu me meti nessa coisa de jornalismo, fiz estágio no jornal Última Hora, em São Paulo, voltei para o sul da Bahia nos anos 60, justamente no período do golpe militar, que me obrigou a retornar um pouco antes do planejado. Foi a época em que surgiu o jornal Tribuna do Cacau, com Telmo Padilha, Milton Rosário, Artur Brandão. E fui ficando. Casei, tive duas filhas, cinco netos, e vai por aí a vida.

UNIVERSO PARALELO

SEBASTIÃO NERY ASSINA COLUNA EM ITABUNA

Ousarme Citoaian

Suponho que a notícia deva ser comemorada: um jornal diário de Itabuna passou a abrigar a coluna de um dos mais brilhantes, cultos e experientes jornalistas brasileiros – Sebastião Nery. Autor de mais de quinze livros, principalmente sobre a política partidária (dentre eles, Pais e padrastos da pátria, Crepúsculo caiado, Socialismo com liberdade e Folclore político), Nery sabe, como os melhores de sua geração, contar histórias deliciosas, em estilo leve e cativante. Alguns dos textos publicados em jornal vêm dos livros. E vice-versa. Nas colunas reproduzidas no jornal de Itabuna ele tem usado passagens do seu excelente A Nuvem/2009, livro de memórias que só li no ano passado.

A LEITORA SABE ONDE FICA A TAPROBANA

De A Nuvem, esta história, passada no Seminário de Amargosa, quando Nery e outros analisavam, em aula, Os Lusíadas (“As armas e os barões assinalados/Que da ocidental praia lusitana/Por mares nunca d´antes navegados/Passaram muito além da Taprobana”). “Onde fica a Taprobana?” – vai perguntando o exigente e quase surdo Padre Correia, sem resposta. Até chegar à última fila de carteiras, onde está um tímido seminarista recém-chegado de Jequiriçá: “Sei não, professor”. O velho mestre esfrega a resposta na cara dos alunos. “Muito bem! Ceilão! Vocês, seus marmanjos, há anos aqui, não sabem. E o tabareuzinho de Jequiriçá já sabia”. Conta Sebastião Nery: “Nenhum de nós dedurou o tabareuzinho de Jequiriça”.

NABUCODONOSOR “VISITA” JOAQUIM NABUCO

Eu também não saberia onde fica a Taprobana – e aproveito para contar um caso, da forma como me foi contado. Era o lendário Instituto Municipal de Educação (I.M.E.,na foto de Mendonça), Ilhéus, no fim dos anos cinquenta. Durante uma prova oral de História do Brasil, o professor Leopoldo Campos Monteiro pergunta a um aluno meio “curto” o nome do diplomata famoso, autor de O estadista do Império. Como o rapaz não sabia, o mestre, bondoso, tentava ajudar, mas a resposta não saía. Já esgotados os “argumentos”, o professor dá a pista definitiva: “Nabuco, meu filho, Nabuco…” O mau aluno, achando que tinha captado a dica, sai-se com esta pérola, em voz alta: “Nabuco…donosor”! O bom professor Leopoldo quase desmaia de susto e frustração, diante da risadaria geral.

MASSAGISTA SE APAIXONA POR “SINÔNIMO

Tempos antes de ganhar o nome de Zito Bolinha, o futuro massagista do Itabuna, apaixonou-se por uma palavra nova e bonita: sinônimo. Assim, tudo que o espantava, divertia ou preocupava, ele definia como… “um sinônimo!” – para a total perplexidade dos que o ouviam. A gripe asiática era um sinônimo, Leo, entortador de zagueiros, era outro sinônimo, e que sinônimo era a louríssima arrasa-quarteirão Marylin Monroe (foto), incendiando telas e a imaginações! Até que, interrogado a respeito, Zito explicou que ouviu a palavra no filme Absolutamente certo: Anselmo Duarte (1920-2009), a certa altura da narrativa, afirma: “Isto é um fenômeno!”. O bom Zito Bolinha, que nunca teve oportunidade de ir à escola, confundiu fenômeno com sinônimo.

CUIDADO: ATLETA “FINALIZA” ADVERSÁRIO

Com pessoas iletradas eu sou todo boa vontade, mas não consigo reeditar esse comportamento com os que se dão ao ofício de escrever para o público. Estes (às vezes com pose que supera a competência) não têm justificativa para erros palmares, resultantes de indolência, descuido, desatenção, desleixo. “Jornalistas têm que escrever tão bem…” (vocês já sabem). Com tal espírito, leio em importante diário de Itabuna este título enigmático: “Itabunense finaliza adversário em 15 segundos de luta”. Ora, como será que esse lutador de maus bofes ”finalizou” seu infeliz desafeto? Um furo na jugular do pobre coitado? Vitimou-o a tiros de escopeta ou o forçou a uma overdose de droga.

APENAS A LINGUAGEM FICOU COM HEMATOMAS

Decido-me pela leitura do texto e respiro aliviado, pois – ao contrário da expectativa criada pela manchete – a notícia não revela nenhuma agressão com sangue derramado, apenas a linguagem sofreu hematomas: um atleta de Itabuna aplicou uma chave de braço no seu adversário e o venceu, tornando-se campeão de um torneio de luta livre, em Jequié. Fico sem saber o porquê de certos redatores buscarem complicações, quando deveriam manter-se no simples. A estilística não vê a simplicidade como defeito a evitar, mas qualidade a perseguir. Se Zito Bolinha tinha o direito falar “bonito”, jornalistas não o têm. Aliás, o falecido massagista certamente diria que o título referido é… um sinônimo!

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O ERRO “ESPECIAL” DE NELSON GONÇALVES

Já nos referimos aos erros gravados na MPB, voltamos a eles hoje e, por certo, tão cedo não esgotaremos o tema. Há erros menores, facilmente absorvíveis, e erros notáveis, que transformaram em definitivo a letra original. Mas há um deles que tem características diferentes, por ter sido “corrigido” no ar, coisa nunca vista. O registro em disco tornou-se antológico, devido ao erro e a imediata correção. Trata-se da canção Maria Betânia, de Capiba (Lourenço Fonseca Barbosa), cuja letra foi “atacada” por ninguém menos do que Nelson Gonçalves, e “defendida” por Jessé, uma espécie de concorrente. A gravação, ao vivo, ganhou esse quê de especial, pela importância de Nelson Gonçalves.

LUTA DE GIGANTES, RENHIDA, EQUILIBRADA

Depois de Jessé cantar metade da letra, Nelson exibe aquele grave que o caracterizava, com Jessé num contracanto emocionado. Aí Nelson (que é “dono e senhor” de Maria Betânia desde 1944!) confunde o texto, enfia um “esplendor” no lugar errado, Jessé percebe o erro, diz “data vênia, mestre!” e, de peito escancarado, corrige: “hoje confesso, com dissabor”. Gosto de imaginar que foi assim. Ou então penso numa luta de gigantes, equilibrada, renhida, sem prognóstico e, quando menos se espera, um deles escorrega numa casca de banana. Maria Betânia (então, Bethânia) foi feita em 1943, quando Capiba (1904-1997), musicou a opereta “Senhora de Engenho”.

CAETANO VELOSO GOSTOU DE MARIA BETHÂNIA

Em visita ao Recife, Nelson resolveu gravar a canção, o que fez em 1944, popularizando o nome. Maria Bethânia era ouvida também nos alto-falantes de Santo Amaro, pela família Veloso, tanto que Maria Bethânia, a cantora, chama-se Maria Bethânia por causa de Maria Bethânia, a canção. Se alguém aí vive no mundo da lua e ainda não sabe dessa história, vá lá: quem deu o nome à festejada cantora foi seu criativo mano Caetano. Outra curiosidade, menos óbvia: a pequena Surubim (foto) –  pouco mais de 58 mil habitantes, pelo censo de 2010), no agreste pernambucano – deu, além do compositor Capiba, o animador Chacrinha. Veja/ouça o “duelo” de dois grandes da MPB: Jessé e Nelson Gonçalves.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

A TELEVISÃO E SUA LINGUAGEM RASTEIRA

Ousarme Citoaian

Do jeito que a coisa anda, terminaremos nos comunicando por sinais de fumaça. Escrever (ou falar) de acordo com o que a norma preceitua virou coisa arcaica, sem graça e de difícil entendimento. E a mídia (façamos aqui um mea culpa) tem muito a ver com isso, sobretudo a tevê, que defende como princípio uma linguagem cada vez mais rasteira, cooptando, lentamente, a sociedade: os folhetins (a que chamam novela), antes considerados “produto para domésticas analfabetas”, hoje são matéria de teses de doutoramento nas universidades (e quem empregar a frase aspeada será tido como preconceituoso e politicamente incorreto). São ásperos os tempos.

ANTÔNIO MARIA, A FRASE PARA A HISTÓRIA

O processo de erosão intelectual é bem antigo. Sérgio Porto (o Stanislaw Ponte Preta) nos conta esta: Antônio Maria (cronista, compositor, narrador de futebol, roteirista e apresentador de programas de rádio e televisão), foi solicitado por Péricles do Amaral, então diretor da TV Rio, a copidescar uma matéria. A ideia era tornar o texto mais simples, ao alcance do público menos escolarizado. O trabalho do autor de Ninguém me ama não satisfez o chefe, pois este achava que o texto ainda poderia ser mais simples. O bom Maria refez a tarefa, porém, ao entregar a nova adaptação, produziu uma frase para a história: “Pior do que isto eu não sei fazer”.

DE COMO TORNAR PERPÉTUA A IGNORÂNCIA

A tevê, em seu objetivo de atingir as camadas medianas da população, derrapa tanto em linguagem quanto em conteúdo. A linguagem (seja na tevê seja na literatura de ficção, por exemplo) precisa ser simples, sem ser indigente. Nunca é demais repetir que a simplicidade é uma qualidade do estilo. Portanto, ser simples, sem ser rasteiro, não é defeito, é virtude. Já a questão do conteúdo é mais difícil: William Bonner, editor do Jornal Nacional, comparou o telespectador médio a alguém simplório como o personagem Homer Simpson, “incapaz de entender notícias complexas” – daí o JN só divulgar o “simples”. Este, sim, é um argumento destinado a perpetuar a ignorância.

PROVA DE DESRESPEITO AO LEITOR/OUVINTE

Costumo dizer que jornalistas detêm, basicamente, o mesmo saber. Eles se diferenciam na ética, no comportamento moral e na (in) dependência com que atuam – mas se equivalem em domínio da linguagem (ou não são jornalistas, são enganadores). Todos eles sabem o que é sujeito e predicado, estudaram e apreenderam noções de concordância, regência e acentuação (se não estão seguros sobre o emprego do hífen, não os culpemos – afinal de contas, ninguém sabe usar esse sinalzinho nefasto, depois do último Acordo Ortográfico). Por que erram tanto? – perguntaria a leitora ingênua (ainda há leitoras ingênuas?), a quem eu diria: erram por falta de cuidado, desleixo e conseqüente desrespeito ao leitor/ouvinte.

CUIDADO COM O REBANHO BOVINO NAS RUAS

Em dias recuados, na aventura de assistir a um noticiário de tevê, dei de cara com uma reportagem do Extremo Sul da Bahia, alardeando o progresso econômico daquela região. Lá pras tantas, o repórter destacou que, além da agricultura, existe em Teixeira de Freitas um notável crescimento da pecuária. E saiu-me com esta pérola: “Tanto é assim que a cidade já possui o quarto rebanho bovino do estado”. Pálido de espanto, pensei no inferno que seria a cidade conviver com tantas vacas, bois, bezerros e touros nem sempre de bom humor, a atravancar ruas e amedrontar pessoas. Ao que me consta, nem a Índia (onde as vacas, por tradição religiosa, têm sagradas até as fezes e a urina) se viu igual pesadelo.

PARA UM BIFE, 15 MIL LITROS DE BOA ÁGUA

Devidamente traduzida e digerida a notícia, filosofei, a respeito do repórter: tão jovem, bem vestido, mas tão descuidado! Tudo ficaria simples e claro se ele dissesse que “o município” etc. etc., pois é regra conhecida que a pecuária não se pratica na cidade: é lá no campo que ela se exerce, sob protesto dos ambientalistas, que querem os bois extintos (um bovino, até que passe de bezerro a bife acebolado, bebeu milhões de litros de boa água – sendo que o tal bife acebolado “custa” cerca de 15 mil litros – mas esta é outra história). Voltando à pérola, é o que dizíamos na abertura deste tema: o repórter, por certo, está careca de saber que município e cidade são valores bem diferentes. Descuidou-se.

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DE TROPEIRO A ATOR, POETA E COMPOSITOR

Zé do Norte (por extenso, Alfredo Ricardo do Nascimento, em Cajazeiras/PB) trabalhou na enxada sob o sol do sertão nordestino, foi tropeiro e apanhador de algodão. Em 1921, alistado no Exército, foi servir no Rio de Janeiro e, a partir de um convite de Joracy Camargo, embrenhou-se no meio artístico e foi em frente: virou cantor, compositor, poeta, folclorista e ator. Jogava nas onze e chutava com as duas. Trabalhou nas principais emissoras de rádio da época, foi consultor do sotaque nordestino em O Cangaceiro (Lima Barreto) e, graças a esse filme, ficou conhecido mundialmente com Muié Rendera (ou Mulher Rendeira). Fez cerca de cem canções, algumas delas com revisitas modernas de Nana Caymmi, Raul Seixas, Maria Bethânia e Joan Baez. É tido como “descobridor” de Luiz Gonzaga.

CANGACEIRO-POETA OU POETA-CANGACEIRO?

O músico pernambucano (1926-2006) ensinou a arte a Baden Powell, Paulo Moura, Menescal, Sérgio Mendes, Nara Leão, João Donato. Não é pouca coisa. Dele, Vinícius disse (Samba da Bênção): “Moacir Santos/tu que não és um só, és tantos”. Sua estreia em gravação se deu com o álbum Coisas, “um dos melhores discos brasileiros de todos os tempos”, segundo a revista Rolling Stones. São dez faixas – Coisa nº 1, Coisa nº 2, Coisa nº 3 (e por aí vai), mas Coisa nº 1 não é a primeira faixa, é a 8ª, Coisa nº 8 é a 10ª e Coisa nº 5 é a 3ª. Coisa confusa, não? Coisa mais linda é Sônia Braga, que enfeita, acompanhada de figuras carimbadas da Globo em 1980, Coisas do mundo, minha nega, do elegante, fino, inteligente, discreto e terno Paulinho da Viola. Faltou alguma coisa? Então vá: genial.

LAMPIÃO: “TU ME ENSINA A FAZER RENDA”

Volta Seca e Zé do Norte foram contemporâneos (Zé do Norte era dez anos mais velho) e, ao que consta, chegaram a trabalhar juntos como consultores de O Cangaceiro. Mesmo assim, o ex-integrante do bando de Lampião não se mostrou incomodado com a Muié Rendera cantada pelo grupo paulistano Demônios da Garoa (a letra de Zé do Norte, não a dele). E não se pode ignorar a versão também corrente de que o autor não seria nenhum dos dois, mas o mítico Lampião, o Rei do Cangaço. Enfim, a autoria da letra simplória de Mulher Rendeira tem lá seus mistérios, mas a Zé do Norte cabe o mérito da adaptação conhecida por várias gerações de brasileiros, há quase 60 anos. A dupla Marco Pereira (violão) e Gabriel Grossi nos mostram o que a composição tem de melhor, a melodia.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

ENTRE A CONDENAÇÃO E A CURIOSIDADE

Ousarme Citoaian

Que meu olhar não seja de condenação, para evitar receber pedradas da CLMH (Comunidade dos Linguistas Mal Humorados), mas que possa ser de curiosidade. É que (assim como o “risco de vida”, aqui abordado recentemente), alguns neo-puristas decidiram que a expressão “entrega a domicílio” é ilegítima, de sorte que se algum infeliz a utilizar vai arder no fogo do inferno. O “certo” é “em domicílio”, proclamam os descobridores de novidades. Vamos acertar uma coisa: a língua portuguesa se alimenta do novo, mas mantém um pé na tradição, nas formas ditas consagradas, aquelas que os bons autores abonam.

EXPRESSÕES LEGITIMADAS PELO USO

“A domicílio” (condenada pelos puristas desvairados como abominável galicismo) é uma expressão enraizada na linguagem popular, que nossos avós já empregavam, e que, por ser consagrada, dispensa esses cuidados urgentes que lhe querem prestar. Os neologismos inúteis precisam ser evitados, e não aqueles se insinuam de forma natural e terminam integrantes “legítimos” da nossa fala. É o caso dos legitimados abajur (que já foi abat-jour) e piquenique (outrora, picnic). Atualmente, insiste-se em delivery de pizza (este, sim, um estrangeirismo dispensável). Contra ele temos o boa e velha “entrega a domicílio”.

INÚTIL ARTIFICIALISMO DE LINGUAGEM

A professora Maria Tereza Piacentini afirma que a regra purista manda usar “a domicílio” com palavras que indicam movimento (levar a roupa, a pizza etc.), e “em domicílio” quando sem movimento (dar aulas, cortar cabelo, fazer unhas e outros). Mas ela reconhece que “essa diferenciação está ultrapassada”, e que o uso prático recuperou (se alguma vez perdeu) a forma “a domicílio”, para ambos os casos. Portanto, vamos deixar de lado mais esse inútil e bobo artificialismo de linguagem que alguns redatores mal informados ajudam a difundir, e retomar a já brasileiríssima “a domicílio”, sem receios.

COPA DO MUNDO DE LUDOPÉDIO

Há estrangeirismos contra os quais a luta dos puristas é vã. Em certa época, tentou-se um termo “brasileiro” para piquenique, encontrando-se “convescote”. Não pegou, de sorte que os mais jovens (se não forem estudiosos de Gramática Histórica) desconhecem o termo. Só um sujeito irremediavelmente imbecil chamaria a colega de trabalho para “fazer um convescote” – e se arriscaria a um processo por assédio sexual: antigamente, moça de família só “convescoteava” depois do casamento. E tem ludopédio, do latim ludus (jogo) e pedis (pé) que quiseram pôr no lugar do anglicismo futebol. Não deu. Receio até que o Brasil, diante das patriotadas do “sargento” Dunga, jogue ludopédio, em vez de bola.

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“ARTIGO NOVIDADEIRO E INÚTIL”

Com o futebol no topo do noticiário, fortifica-se o festival de bobagens que habita o meio. Um dos itens mais notáveis é a inflação de artigos definidos que toma conta do noticiário. Em outros tempos, dizia-se que Zico ia vestir a camisa 10; atualmente, diz-se que quem vai vesti-la é o Kaká; no gol, informava-se que estaria, por exemplo, Tafarel; agora quem está é o Júlio César; a lateral direita, que em 1970 tinha Carlos Alberto Torres, agora tem como titular o Maicon – e por aí vai. “É de lamentar-se, mas todos os veículos de comunicação têm atrelado esse artigo novidadeiro e inútil em seus textos”, constata Marcos de Castro, em A imprensa e o caos na ortografia (Record – 5ª edição).

SEM CONCESSÕES AO MAU GOSTO

No começo, falar o Pelé ou o Luís Pereira (foto) era costume de algumas camadas das populações paulista e carioca, sempre em termos informais, quando ainda se mantinha maior respeito pela norma culta. Mais tarde, a televisão (a Globo, sobretudo, grande criadora de modismos) adotou algo semelhante como forma de comunicação: buscava-se uma linguagem capaz de ser entendida por todo o conjunto dos telespectadores, tendo como padrão de baixa escolaridade as pessoas de mais baixa escolaridade (se elas entendessem, todos entenderiam). Era o “coloquial bem escrito”: simples, claro e correto, sem preciosismos, mas igualmente sem concessões ao popularesco. Só que o controle se perdeu.

O BALTAZAR, O GASPAR E O BELCHIOR

“Qualquer palmeirense lembra, com saudades, de Leão, Luís Pereira, Dudu, Ademir da Guia e Leivinha. Já o bom marcador Zeca não foi tão marcante. E o Internacional de Rubens Minelli, bicampeão brasileiro? Ali fizeram história Manga, Figueroa, Falcão, Valdomiro e o lendário Dadá Maravilha. Mas ali também jogou o discreto Vacaria”, anota José Roberto Torero (Os cabeças-de-bagre também merecem o paraíso/Editora Objetiva). Em texto contemporâneo, o cronista manda sua mensagem sem gastar o estoque de artigos definidos – mostrando que não se trata de época, mas da competência de quem escreve. Há redatores por aí querendo “modernizar” o texto bíblico, dizendo que o Jesus, ao nascer, foi anunciado pelo Baltazar, o Gaspar e o Belchior.

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CHUMBO QUENTE E TEXTO REFINADO

E cá estamos, outra vez, a de western, como gênero de cinema uma paixão. John Ford, em Paixão de fortes nos faz bela surpresa, ao introduzir, quem diria, uma citação de Shakespeare, nada menos do que a cena 5 do ato III de (a tragédia de) Hamlet. Num saloon esfumaçado, um artista meio bêbado declama o To be, or not to be. Os vapores etílicos lhe atacam a memória e ele se vale de um pistoleiro “erudito” (o lendário Doc Holiday, aqui vivido por Victor Mature) para recitar o resto do texto, sob o olhar perplexo de Wyatt Earp/Henri Fonda. Improvável? Sim, mas criativo e de bom gosto.

EDGAR ALLAN POE EM PLENA PRADARIA

Howard Hawkins gostou tanto de Onde começa o inferno/1958 que fez uma refilmagem (esse hábito não estava em moda, como hoje, quando os filmes terminam dando a deixa para o próximo): é Eldorado, outra vez com John Wayne, agora liderando novo elenco (com destaque para Robert Mitchum, o xerife bêbado). Pois é nesse incrível ambiente que Hawkins introduz o poema “Eldorado” de Poe – no qual o autor ironiza a irracional corrida do ouro e dá aos versos, em Inglês, uma forma tal que o ritmo simula cavalos correndo. No filme de Hawkins, quem declama “Eldorado” é James Caan (à esquerda, na foto), um jovem e desajeitado pistoleiro de nome impronunciável.

O HOMEM EM SUA BUSCA SEM FIM

“Sozinho e errante/ um cavaleiro galante/ no sol e na sombra/ longamente viajara/ cantando, em busca do Eldorado”, recita Caan. O poema fala da eterna andança que o cavaleiro galante (noutra tradução é “elegante”) empreende em direção, talvez, à felicidade. Ele cavalga até ficar velho, sem encontrar “nenhum pedaço de chão parecido com Eldorado”. Quando está à beira da desistência, “caiu-lhe no peito uma sombra”, a quem ele, quase vencido pelo desânimo, interroga: “Onde estará essa terra/ chamada Eldorado?” – e a sombra responde: “Cavalgue, cavalgue corajosamente/ se você quer encontrar Eldorado” (combinei a tradução do filme com a de Rodrigo Garcia Lopes).

EM LETRAS, SOMOS OS BAMBAMBÃS

Do pouquíssimo que sei, acho que nossa música é a melhor do mundo, ao menos em termos de letra. O europeu é bom letrista, mas o brasileiro é melhor. Os americanos não são grande coisa. Mesmo o jazz, se cantado, não diz muito. Os europeus (sobretudo franceses, italianos e portugueses) ganham dos ianques, mas o Brasil ganha fácil deles todos. Yes, nós temos Braguinha (foto), Noel, Tom, Vinícius, Edu, Caetano, Gil, Chico Buarque, Paulo César Pinheiro, Cartola, Dolores Duran, Orestes Barbosa – citemos poucos, para não humilhar os gringos e criar problemas diplomáticos. Orestes escreveu “Tu pisavas nos astros, distraída”, o mais belo verso da língua portuguesa, segundo Manuel Bandeira.

LANCEADO, PREGADO, CRUCIFICADO

Há uma letra que me impressiona sobre as outras: Rosa, de Otávio de Sousa, que tem coisas assim: “Se Deus/ me fora tão clemente/ aqui neste ambiente/ de luz, formada numa tela/ deslumbrante e bela…/Teu coração/ junto ao meu lanceado/ pregado e crucificado/ sobre a rósea cruz/ do arfante peito teu”. Romantismo derramado, tangenciando o barroco, de autor praticamente anônimo. O público, injustamente, identifica a canção como “Rosa de Pixinguinha”. E o grande Pixinguinha (foto), autor da melodia, não ajudou a esclarecer o mistério. Interrogado, disse que Otávio de Sousa “era um mecânico que morava no Engenho de dentro, muito inteligente e que morreu novo”.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

O MECÂNICO QUE NÃO DEIXOU RASTRO

Fazer esta letra e sumir sem deixar outro rastro na MPB é impossível. Minha versão preferida é outra: Otávio de Sousa nunca existiu, e Rosa seria de Cândido das Neves, o Índio (na verdade, negro!). O autor de Última estrofe (que todo seresteiro de respeito conhece) teria vendido os versos de Rosa a Pixinguinha e este “inventou” o mecânico. É coisa para pesquisador com P caixa alta. Os vídeos na internet estão cheios de erros na letra. Há até uma anta que canta (anta canta?) “vozes tão dormentes como um sonho em flor”, quando o poeta (seja quem for) escreveu dolentes.

ARROCHA PARA OS CAÇADORES DE ERROS

Luciana Mello comete “só” três erros. Se você descobrir algum deles, reclame no Pimenta o CD O melhor do arrocha, com a faixa-bônus “Rebolation”, na voz do Mano Cae. Mas, melhor do que caçar erros é relaxar e apreciar esse banho de romantismo, típico da MPB que se fazia no meado do século XX  – Orlando Silva (foto) lançou Rosa em 1937.


(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

RICARDINO, O QUE SE RECUSOU A MORRER

Ousarme Citoaian
Ricardino Batista dos Anjos, justamente homenageado com seu nome no Prêmio de Imprensa da Prefeitura de Itabuna, contava uma história de grande interesse humano. Menino ainda, cavando a vida em Itabuna, foi acometido de doença grave, que o fez submeter-se a tratamento especializado. Depois de algumas tentativas, o médico (dos quadros do INPS, uma espécie de SUS daquela época) chegou à conclusão de que a moléstia era incurável. Recomendou ao doente que fosse “morrer em casa”, numa prova de que não devotava maior apreço à vida dos pacientes.

ALBERTO SEIXAS MUDA O RUMO DA HISTÓRIA

Negro, pobre, só e abalado pela doença, estava prestes a aceitar esse diagnóstico cruel, quando o instinto de sobrevivência falou mais alto (aliás, gritou): a caminho da pensão onde morava, Ricardino (foto) mudou de rota e procurou outro médico. Este o atendeu “por caridade”, jogou fora os remédios até então utilizados e impôs novo esquema de tratamento. “Riscadinho” (como o chamava Jorge Araujo) sobreviveu, fortificou-se e decidiu que só morreria dali a muitos anos, no longínquo 2005. No intervalo, casou-se, teve dois filhos e se fez radialista, jornalista, advogado e pedagogo.

CLARK GABLE “DE PAPO” NA CINQUENTENÁRIO

O nome do médico que o desenganou, não sei; o que o salvou chamava-se Alberto Seixas. Bom de clínica e de conversa, esse Seixas era um homem alto, forte, risonho e bonitão, aproximado ao melhor Clark Gable (… E o vento levou). Mais do que isso, era humano (este caso parece exemplar), fino, cortês, fidalgo, um gentilhomme raro entre médicos ou qualquer categoria, não importa o tempo ou lugar. Seu modelo sobrevive no oftalmologista Carlos Ernane Andrade (foto), que tem mestrado em civilização e gentileza. Quanto a Ricardino Batista, hoje é, mais que foi em vida, dos Anjos.

MATEMÁTICA E COMUNICAÇÃO

Dia desses, opinamos sobre a influência que a matemática exerce na minha forma de expressão, e causei surpresa. Recorramos aos exemplos: “Havia na praia gente de todas as idades”, diz a repórter da tevê, numa matéria de domingo. Essa linguagem é condenável, por imprecisa (é impossível que pessoas de todas as idades estejam na praia). É preferível “de idades variadas” ou coisa parecida. Também comum é a fórmula “toda a diretoria compareceu”. Cuidado para ver se não faltou alguém, o que poria a perder a precisão do relato. Outro: “O investimento do Estado será de R$ 42 milhões” – atenção, que talvez não seja exatamente isto. Melhor é “cerca de R$ 42 milhões”.

RIGOR QUE MELHORA O ESTILO

Devido a seu rigor típico, a matemática auxilia na precisão da linguagem. Voltada para a exatidão e a lógica, quando ela diz “todas as idades” está dizendo “todas as idades”, do recém-nascido ao ancião, com intervalos pequeníssimos. Já se vê que é impossível reunir um grupo de pessoas nesta condição. Talvez seja um conjunto infinito, conforme Cantor (matemático russo) e sua teoria. Da mesma forma, estaria “errada” a informação de R$ 42 milhões, se acaso, na prática, a despesa for ultrapassada (ou reduzida) em qualquer valor, R$ 0,01 (um centavo) que seja. Que importância tem isso para a comunicação? Talvez nenhuma.

A CURVA QUE ALONGA O CAMINHO

“Itabuna perde o título de campeão baiano de Juniores”, diz o jornal, na primeira página (parêntesis para lembrar que a primeira página tem sido chamada, inapropriadamente, de capa). Procuro o fundo do mistério e descubro que o Itabuna Juniores enfrentou o Bahia Idem e perdeu o jogo. Ora, por que cargas d´água o redator não disse logo isso?  O Itabuna perdeu o jogo, não o título, pois não se perde o que não se tem. Deixar de ganhar não é perder. Ainda me surpreendo com esse festival de formas “elípticas” de escrita, quando a reta é a menor distância entre dois pontos.

CAPA É CAPA, NÃO É PRIMEIRA PÁGINA

Falemos em capa, espero que sem levar pedradas dos coleguinhas mais novos. As trocas são naturais numa redação (por exemplo, a máquina de escrever pelo computador), como de resto, em todos os setores da vida: o velho, queira ou não, dará lugar ao novo. Mas capa é capa e primeira página é primeira página (ou, para ficar no modismo partidário, água e óleo que não se misturam). Revistas e livros têm capa – uma proteção com material de maior resistência, diferente das páginas, o miolo do livro ou revista. E o método de trabalho de quem faz capa de revista ou livro é diverso do método de quem “fecha” uma primeira página de jornal.

DA ARTE DE ESCREVER BEM

É provável que Canto de amor e ódio a Itabuna não seja a coletânea ideal do poeta Telmo Padilha. Talvez seja a coletânea possível, neste momento. Vale pela iniciativa da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania (FICC) que resolveu fazer uma coisa quase inédita por estas bandas: prestar homenagem a um autor regional. Na verdade, as boas intenções já começam na gênese do livro, com os textos selecionados por José Haroldo Castro Vieira, amigo de Telmo, mas não crítico literário. A Editus/Uesc, que encampou o projeto de edição, tem também grande mérito na homenagem.

O DÉBITO COM TELMO CONTINUA

Adiante-se que tudo isso valeu a pena, pois se não fosse esse livro não seria nenhum outro – e o aniversário do poeta passaria em branco. Mas a cidade continua em débito com Telmo (foto). Sua produção, sobretudo a poesia, ainda tem muita coisa à deriva, anotada às pressas, em papéis inadequados (até canhotos de talões de cheques), já maduras para servir de alimento às traças. Se a FICC, com mais tempo e recursos, tiver condições de sonhar sonho maior, poderia contratar Jorge de Souza Araujo, este, sim, crítico e pesquisador, para a seleção e notas dos inéditos de Telmo Padilha.

FALTA DINHEIRO, SOBRAM PROBLEMAS

O presidente da FICC, escritor Cyro de Mattos (foto), também faria eficientemente esse trabalho, pois tem longa experiência em selecionar textos, tendo coordenado antologias várias, incluindo duas de autores regionais (Ilhéus de poetas e prosadores e Itabuna, chão de minhas raízes). Conhece muito bem as literaturas daqui e de alhures, em prosa e poesia, e por várias vezes antologiou Telmo Padilha. Mas não tem tempo, e a FICC, sem dinheiro e eivada de problemas, já o molesta suficientemente. Jorge Araujo, portanto, é a melhor escolha.

CRÉDITO DE “PROFESSOR” DA UESC

Louvada a iniciativa do presidente da FICC, vamos lembrar que a Editus/Uesc já deu contribuição fundamental às letras regionais, ao editar dois volumes de alta qualidade, com capa dura e papel especial: Expressão poética de Valdelice Soares Pinheiro/2002 e (melhor ainda) Jorge Medauar em prosa e verso/2006. Seria o caso de a FICC chamar aquela editora para o resgate de um dos grandes poetas brasileiros. E é pertinente salientar que Telmo Padilha, autor de mais de 35 títulos, com 16 traduzidos, tem crédito para tanto: era professor Honoris Causa da Uesc.

AZNAVOUR E O “REALISMO” NA CANÇÃO

Charles Aznavour se sentia infeliz com as canções que interpretava, por isso resolveu compor, com a intenção de dizer “coisas que o público não estava acostumado a ouvir”. Seus temas são desamor e conflitos interpessoais, numa espécie de realismo que conquistou milhares de ouvintes. Os jornais eram sua fonte de inspiração. Filho de imigrantes armênios que escaparam do genocídio feito pelos turcos em 1914, ele trabalhou oito anos com Edith Piaf (foto), seguindo-a por toda parte, e foram amigos até a morte da chansonière. “Com ela aprendi que não devia fingir ser outra pessoa no palco, que devia ser eu mesmo, uma pessoa real”, reconhece.

VEIO DUAS VEZES AO BRASIL

Charles Aznavour, nascido Shahnour Vaghinagh Aznavourian (foto),  fez, no mínimo, 600 canções (há quem fale em 850), incluindo 150 em inglês, 100 em italiano, 70 em espanhol e 50 em alemão. Vendeu mais de 100 milhões de discos e apareceu, como ator, em mais de 60 filmes, entre eles, Atirem no pianista, O caso dos dez negrinhos e O tambor. Em 2008, obteve a cidadania armênia e já no início de 2009 se tornou embaixador da Armênia na Suíça. O franco-armênio, que completa 86 anos no dia em que esta coluna é postada (22 de maio), visitou o Brasil duas vezes em 2008, cantando em dez capitais.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

“AVENTAL TODO SUJO DE OVO”

La mamma vendeu 1,5 milhão cópias, com uma letra de mau gosto atroz, só perdendo, no tema, para aquela da mãe rainha do lar com o chinelo na mão e o avental todo sujo de ovo. Ray Charles a gravou como For mamma e Agnaldo Timóteo (foto), Mamãe, é claro. O tema: a velha matriarca está nas últimas, e a família vem assistir ao desenlace. “Eles vieram, eles estão todos lá/Desde que entenderam este grito/Ela vai morrer, a mamma” (Ils sont venus,ils sont tous là/ Dès qu’ils ont entendu ce cri/ Elle va mourir, la mamma). Nazareno de Brito (para o vozeirão de Timóteo) põe lirismo nessa morte: “O véu da noite vai chegar/E docemente vai nublar/ Os olhos meigos de mamãe”. Bombou. Com brasileiro não há quem possa.

CARISMA QUE ATRAVESSOU O ATLÂNTICO

A melodia e o carisma de Charles Aznavour somados ao êxito dessa canção nos dois lados do Atlântico justificam a presença de La mamma na coluna. É quase como se estivéssemos respondendo ao clamor das ruas.

(O.C.)









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