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:: ‘Lisa Ono’

UNIVERSO PARALELO

BARBA RENDE MAIS DO QUE OURO E POUPANÇA

Ousarme Citoaian
Raspar a barba, quem diria, é o último “grito” do mercado. Possuir tal apêndice capilar, que o digam um cantor de trio elétrico da Bahia e o governador da dita cuja, significa ter amealhado capital de rendimento superior a poupança, dólar, ouro, CDB e outros investimentos convencionais. Veja-se Wagner (foto): meio milhão de reais para deixar a cara lisa feito bumbum de bebê. Segundo se comenta, a barba wagneriana tem apenas 34 anos, me pergunto “que investimento zero renderia tanto em tão pouco tempo” e eu mesmo respondo: “Nenhum”.

BIGODE E COSTELETAS RASPADOS DE GRAÇA

É dinheiro que este colunista, por mais generosos que sejam seus patrões no Pimenta, aguardará  muitos anos (é só fazer as contas!) até pôr-lhe o olhos em cima. Em épocas que distantes vão, administrei vasto bigode, modelo a meio caminho de Belchior e Pancho Vila. Um moustache, digamos, de respeito – acompanhado de um par de costeletas. Raspei-os, de graça, costeletas e bigode, sem saudade ou remorso, no dia em que um sujeito metido a debochado me chamou de Rivelino (foto). Mas de barba, nunca fui, e disso me arrependo, pois elas, quando seguidas de sorte do proprietário, são garantia de gorda renda.

BARBA AO ESTILO KARL MARX VALE MILHÕES

Pretendo, com a notoriedade que me tem dado esta coluna, cultivar essa cobertura capilar sobre a face, por motivos estéticos ou ideológicos, mas financeiros: em dez anos, espero ter barba fechada e grisalha, a corrigir minha aposentadoria pelo INSS. Mais sorte tem o professor Jorge Araujo: barbaça consagrada, antiga e famosa, tem a valorizá-la a parecença com a de uma figura das mais importantes de todo o pensamento mundial: Karl Marx. Jorge está em fase de colheita; eu, no plantio. Que o mercado de barba nos seja receptivo, amém.

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A MÃO QUE DEMOLE É A MESMA QUE PREMIA

Em 1867, o químico sueco Alfred Nobel, para reduzir o risco de acidentes com a nitroglicerina (explosivo muito sensível ao calor), juntou, na proporção devida, essa substância com um tipo especial de terra, acondicionando a mistura em cilindros de papel, chamados “banana”. Assim, criou a dinamite, que não é nitroglicerina pura, mas uma mistura explosiva, segura, inerte, não facilmente acionada. Aqui, faço duas observações, sob o perigo de ser chamado de almanaque ou poço de cultura inútil: 1) o demolidor Alfred Nobel é o mesmo do Prêmio Nobel de todos os anos, que o Brasil jamais recebeu, e 2) Nobel é palavra oxítona (não se trata de opinião minha, mas dos filólogos): pronuncia-se Nobél.

MONTAND, NITROGLICERINA E FOLHAS MORTAS

Não resisto a uma terceira informação (pois nada há de novo nas duas acima): O salário do medo é um notável filme francês (de Henri-Georges Clouzot/1953), a partir do excelente título (fiel ao original Le salaire de la peur).Um drama de alto impacto, sobre o transporte de nitroglicerina em caminhões e a exploração dos motoristas nesse trabalho, tendo final imprevisto. O salário… tem Yves Montand como protagonista – e é oportuno lembrar que Montand é uma espécie de padrinho da coluna: ilustrou nossa primeira edição (em 17.12.2009), cantando Les feuilles mortes. O filme (disponível em DVD) e a canção são lembranças do tempo em que a cultura francesa ainda não tinha sido sufocada com a invasão dos bárbaros.

A TEVÊ INVENTA OS “BASTÕES DE DINAMITE

Eu queria dizer outra coisa: há dias, mostrei-me abespinhado com o uso da expressão ociosa “bandeira a meio mastro”, criada na tevê, contra a clássica “bandeira a meio pau”. Pois parece que tudo está perdido. Recentemente, uma graciosa repórter da maquininha de fazer doido, descrevendo uma intervenção da polícia, relacionou entre as coisas apreendidas, “vários bastões de dinamite”. Jamais se viu tamanha besteira. Dinamite, desde o século passado, é apresentada em “banana” (há quem diga que a invenção de Nobel lembrava essa fruta tropical). Bastão (parente próximo da bengala) tem significados em medicina, comércio, esporte, química, informática e outros, até o prosaico bastão de cola. Mas bastão de dinamite é demais pro meu anseio.

BANANAS DE DINAMITE E BONÉ DA POLÍCIA

No noticiário do dia a dia, sem salamaleques, feito por quem conhece a boa linguagem, colho estes exemplos: “Um carregamento com bananas de dinamite foi apreendido em Iacanga, na região de Bauru/SP”. Um jornal paranaense “abusa” da expressão: diz que a polícia apreendeu na segunda-feira, próximo ao Teatro Paiol, no Rebouças, uns caras “com 66 bananas de dinamite e estopins”, informa que eles “venderiam cada banana de dinamite por R$ 80,00” e destaca que, para mostrar o perigo, os policiais “explodiram cinco bananas de dinamite”. De João Pessoa, vem esta: “Um homem foi preso com 31 bananas de dinamite, espoletas, armas e um boné da polícia da Paraíba”. “Bastão de dinamite” parece devaneio de redator ocioso.

NISSEI É “ESPECIALISTA” EM BOSSA NOVA

À lista de ilustres desconhecidas cantoras brasileiras que vivem (e gravam!) no exterior (Rosa Passos, Clécia Queiroz, Virgínia Rodrigues, Leny Andrade) há de juntar-se Lisa Ono, uma “japonezinha” que (em português, francês, inglês, italiano, japonês e espanhol) canta qualquer coisa (de romântico latino a pop americano, soul e jazz), embora seja “especialista”, quem diria, em samba e Bossa Nova. Seu primeiro CD (Catupiry/1989) tem participações de Tom Jobim, Sivuca, Paulo Moura e Danilo Caymmi. Nada mau para quem começa. Diga-se logo, a bem da verdade: Lisa Ono (nada a ver com Yoko Ono, aquela) não é japonesa, mas nissei, nascida em São Paulo, em 1962.

PISTOLEIRO CHORA PELOS “VELHOS TEMPOS”

O último CD de Lisa Ono a que tive acesso é de 2009, uma coleção de standards de jazz, cujo título, Cheek to cheek, é o da canção famosa lançada por Fred Astaire (foto), em O Picolino/1935). Lá estão também All of me, I got rhythm, Caravan, Hello Dolly! – enfim, temas que todo fã de jazz conhece de cor e salteado. Mas meu preferido, dos CDs feitos em língua estrangeira, é Dans mon île/2004, canções francesas clássicas (C´est si bon, La vie en rose, La dernière valse, Dans mon île e a mencionada lá atrás, que iniciou esta coluna: Les feuilles mortes. Clique e (re) veja a imortal canção francesa, na leitura bossa-novista da brasileira Lisa Ono.

O.C.






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