WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia






secom bahia








maio 2019
D S T Q Q S S
« abr    
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031  

editorias






:: ‘Machado de Assis’

UNIVERSO PARALELO

TRABALHAR SERIA CASTIGO VINDO DO ÉDEN

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

1Trabalho

Adianto ao respeitável público, sem que ninguém me haja interrogado, que me sinto um sujeito intrinsecamente pobre de imaginação, desses que se divertem trabalhando. Tivesse eu algum apreço pelo exagero e os anglicanismos, me identificaria como workaholic. Dizem que trabalho e diversão não se misturam, que isto é um desvio patológico, com o doente, isto é, o indivíduo usando o labor como refúgio do mundo, forma de estar confortável, protegido, com sentimentos afogados – sei lá, esse papo de psicólogo. Minha intenção não é discutir doenças da cuca, mas especular sobre os motivos de tanta aversão ao trabalho. Círculos religiosos o explicam como castigo para “pecado” de longínquos ancestrais.

________________

Sentença dúbia: “comer pão com suor”

Com aquela não bem explicada trapalhada no Paraíso (homem chamado Adão, mulher chamada Eva e Cobra anônima), a divindade, que nesta parte do Livro não é muito chegada a perdoar, os condenou, sem direito a apelação: a mulher às dores do parto, a serpente à mudez (para nunca mais dar ideia de jerico à mulher) e o homem ao trabalho. “Vais trabalhar, vagabundo!” – teria pensado o Senhor, mas decidiu dar elegância ao texto, ornou-o com os devidos eufemismos e chegou a “Comerás o teu pão com o suor do teu rosto”. Sentença bonita, mas merecedora de embargo, por ser dúbia: o crente pode ser levado a comer pão embebido em suor. Enfim, esta seria uma das origens da má fama do trabalho.

______________

Por aqui, trabalho era “coisa de pobre”

3EscravidãoHá explicações mais eruditas: trabalho viria do latim antiquíssimo tripalium, um instrumento de tortura (três paus, formando uma estranha canga no pescoço do infeliz). De tripalium nasceu o verbo tripaliare (pôr no tripalium) e desse meio macabro veio… trabalhar! Portanto, trabalho e tortura têm a mesma origem suspeita. Mais tarde, com a escravidão (não ainda a nossa, mas a greco-romana), solidificou-se a ideia de que pegar no pesado não é negócio pra gente socialmente “bem”. Ao contrário, é atividade imoral, indecente, coisa de pobre, no mínimo. No Brasil, a escravidão manteve esse olhar – e o coronelato do cacau também, para cujos filhos, em geral, trabalhar era desonra.

COMENTE! » |

OS SAPATOS DE SOFIA DESCERAM A ESCADA

Dentre os contos de Machado de Assis (todos sabem que ele foi um mágico criador de estórias) destaco aqui “Capítulo dos chapéus”, pela habilidade com que o autor emprega certa figura de estilo (seria prosopopeia, metonímia, quem souber que o afirme). Primeiro, ele nos avisa que “os tacões de Sofia desceram a escala, compassadamente” – um toque de mestre: um aprendiz diria que Sofia desceu a escada; para Machado, “os saltos” desceram a escada, e com isso ele deixa claro que surgiu uma Sofia arrumada, produzida. Fala do chapéu, “que lhe dava um ar senhoril”, e arremata: “um diabo de vestido de seda preta, arredondando-lhe as formas do busto, fazia-a ainda mais vistosa”.
______________
Da rua, chapéus estão de olho na moça
5ChapéusEis Sofia encantadora, “vistosa”, descrita com economia de palavras. Mas o melhor vem quando ele explica que “os chapéus, de senhora ou de homem, abundavam àquela hora na Rua do Ouvidor”. Depois de substituir Sofia por tacões, ele troca homens e mulheres por chapéus. Mariana, a outra personagem do conto, está confusa “naqueles mares” da Ouvidor, com tanta gente, onde “os demônios dos chapéus, femininos ou masculinos, sucediam-se como um caleidoscópio”.  Mais tarde, no dentista, a pobre Mariana, tenta umas três vezes ir à janela, “mas os chapéus eram tantos e tão curiosos, que ela voltava a sentar-se”. Nenhuma frase grosseira, apenas “chapéus” que espreitavam a moça. Isto é Machado de Assis!

SONHOS SOLTOS NO AZUL DA ADOLESCÊNCIA

Valioso recurso de linguagem (“figura”, diz a gramática) é a comparação, de que muito gosto. Raimundo Correa usou-a, ao confrontar as pombas – que levantam voo quando “apenas raia sanguínea e fresca a madrugada”, mas, à tarde, retornam ao pombal – e os sonhos da juventude – que “no azul da adolescência as asas soltam”, mas, ao contrário das pombas, “não voltam mais”. E que a gentil leitora não me surpreenda, dizendo que não conhece As pombas (sem trocadilho infame). Manuel Bandeira se vale do mesmo recurso em poema famoso, que mereceu de Jorge Medauar, poeta uruçuquense (ele preferia água-pretense), curiosa e bela “resposta”.
_______________

Medauar: verso é instrumento de luta

7MedauarEm Desencanto, com postura que sabe a depressão (o que, aliás, lhe é comum), Bandeira escreve na primeira quadra: “Eu faço versos como quem chora/ De desalento… de desencanto…/ Fecha o meu livro, se por agora/ Não tens motivo nenhum de pranto”. Poeta socialista, engajado no processo de transformação, Medauar (foto) “responde” com Esperança: “Eu faço versos como quem luta/ De armas em punho… de armas nas mãos…/ Forma ao meu lado, pois na labuta/ Os companheiros são como irmãos”. Ao último verso de Bandeira (“Eu faço versos como quem morre”), Medauar contrapõe “Eu faço versos como quem vive”. Touché!

______________

Rio de passagem de menina para mulher

Em O xote da meninas, o pernambucano Zé Dantas (1921-1962), segundo grande letrista de Luiz Gonzaga (o primeiro foi o cearense Humberto Teixeira), compara, liricamente, o mandacaru e o rito de passagem para a adolescência. Quando o cacto floresce, vem a chuva; quando a menina “enjoa da boneca”, desabrocha em moça. Gosto de pensar que Zé Dantas, médico, bebeu no consultório esse conhecimento da psicologia da menina que parece “adoentada”, mas que, de verdade, tem dentro de si o grito da natureza forçando a saída. Se almas sem poesia não percebem quão bonita é a mudança da menina em mulher adulta, não será culpa deste outonal colunista.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

“SE A MONTANHA NÃO VAI A MAOMÉ…”

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

001BilacPor e-mail, questionam-me sobre a diferença entre plágio e citação, dúvida que para mim tem quase a idade do ovo e da galinha. Fazendo árbitro o dicionário, fica fácil: plágio é cópia ilegal, apropriação indébita da produção de outra pessoa, coisa sorrateira, sub-reptícia; já a citação exige remessa à fonte, creditando-se a autoria, tudo dito e feito às claras. Mas essa abordagem lexicográfica não satisfaz à consulente (ops!), e a mim muito menos: no escrever, é frequente a referência a outros autores, sem citação de fonte, e que não é plágio, mas homenagem. Certas expressões se tornam de domínio público, a exemplo de “ajuda luxuosa”, “se a montanha não vai a Maomé…”, “última flor do Lácio”…

________________

“Sou apenas um pobre homem de Itabuna”

No belo poema “Cacau, canto, clamor”, do livro Poesia reunida e inéditos, Florisvaldo Mattos escreve sobre a ascensão e queda da agricultura regional: “…livres de turbantes, burkas e sandálias,/ outros mais, mais outros, enfim dezenas,/ vieram, por desejo de erguer e construir/ o que a alma na carne gravara como dívida”.  É evidente a citação de “As pombas”, de Raimundo Correia (em itálico) – e eu, de propósito, citei Ascensão e queda do terceiro reich, de William Shirer. Hélio Pólvora, um dos poucos para quem vale o lugar-comum “dispensa apresentação”, costuma autointitular-se “apenas um pobre homem de Itabuna” – Eça de Queirós (1845-1900) se disse “apenas um pobre homem de Póvoa de Varzim”.

_______________

Voltaire é citado em diário de Itabuna

003CândidoEm artigo recente em importante jornal diário, o autor diz que o povo de Itabuna não vive “no melhor dos mundos” – empregando, bem, uma expressão tirada de Voltaire (1694-1778), em Cândido ou O otimismo. Machado de Assis, com sua vasta cultura, usou muito a citação, às vezes em língua estrangeira: Et nunc et semper (do latim, “nunca e sempre”), no conto O anel de Polícrates, é de São Mateus, 5:9; “… como a esposa que desce do Líbano”, no conto Último capítulo, vem do Cântico dos Cânticos. E é impossível não lembrar que Hemingway tirou do livro de Salomão um dos títulos mais importantes da literatura mundial: O sol também se levanta. A citação, sobre ser prova de conhecimento e bom gosto, é homenagem ao citado e ao leitor perspicaz.

COMENTE! » |

(ENTRE PARÊNTESES)

É impenetrável o raciocínio da chamada nova direita brasileira: enquanto cerca de 96% dos crimes são cometidos por bandidos adultos, ela se preocupa com o potencial de 3-4% representado pelos menores. Daí, prega que, ao reduzir a maioridade penal (e fechar os olhos aos criminosos engravatados, fardados, togados, nomeados ou concursados), reduz a criminalidade. Combater o crime tornando adultos os marginais infanto-juvenis me lembra a anedota sobre o cara que encontrou a mulher (lá dele!) no sofá, em intimidades com Ricardão. A gentil leitora e o atento leitor sabem como ele resolveu o problema: vendeu o sofá.

ALIENAÇÃO E CONCEITOS POR EMPRÉSTIMO

005VenezuelaNo ano passado, um deputado inglês, em palestra na Universidade de Oxford, chamou a atenção sobre “como ter pouco conhecimento é perigoso”. Isto não quer dizer que nos devemos transformar todos em sábios, como num passe de mágica, o que seria impossível; mas que precisamos aprofundar um pouco mais nossas informações, se queremos sair por aí dando opinião. Sobre Hugo Chávez, por exemplo (o tema da palestra do parlamentar), se um indivíduo disser  “não sei quem foi”, será um alienado; se disser “foi um ditador da Venezuela”, entrará para a lista dos que alardeiam conceitos tomados de empréstimo, talvez ouvidos em algum telejornal.
_______________

Como o “inocente útil” se faz perigoso

O alienado não influi nem contribui, é um inocente inútil; o outro, também inocente (mas útil), é perigoso, pois anda a espalhar “verdades” sob encomenda. É por esse caminho do “pouco conhecimento” que elegemos candidatos inadequados (para empregar um eufemismo) ou transformamos em herói qualquer pessoa que, a exemplo do jurista Joaquim Barbosa, desempenhe razoavelmente bem suas funções. Tentei evitar Brecht, mas não pude: “Triste do povo que precisa de heróis”. A ideia de fazer de JB presidente da República seria hilariante, se não fosse infeliz. Mas eu confesso que gostei quando ele disse que os três maiores jornais brasileiros são “mais ou menos” de direita. É óbvio, mas me fez bem ouvir.

COMENTE! » |

A MELHOR “CAIPIRA” DE TODOS OS TEMPOS

007Jeca TatuNenhuma lista (relação, antologia ou coisa que o valha) é inquestionável, pois sempre reflete a opinião de quem a fez. Mas isto nunca foi obstáculo para quem gosta de listar os “melhores” (ou “maiores”) de qualquer coisa. Veículos de imprensa do mundo inteiro andam, às vezes, por esse caminho, e eu, confesso, gosto de ler tais seleções – que me dão o pensamento médio dos outros. Em 2009, a Folha de S. Paulo reuniu dezesseis críticos, pesquisadores e compositores, para escolher as melhores músicas caipiras de todos os tempos. No topo da lista, como melhor de todas, ficou Tristeza do Jeca, de Angelino de Oliveira (1888-1964) – compositor paulista nascido em Itaporanga.
_______________

Com 95 anos, parece novinha em folha

Tristeza no Jeca nasceu a 24 de maio de 1918, cantada em público pela primeira vez, pelo autor. Conta, portanto, 95 anos, e parece novinha em folha. Teve gravações de diversos artistas, antigos e novos, caipiras e “caipiras”, mas o registro fundamental é da dupla Tonico e Tinoco. A canção se baseia no livro de Monteiro Lobato, Urupês, que deu vida longa a Jeca Tatu, o tipo rural infeliz e doente, típico brasileiro excluído, morador dos grotões da Pátria. Aqui, a interpretação de Paula Fernandes, ao lado de Sérgio Reis e Renato Teixeira. A gentil leitora, exigente, questionará se a bela Paula já cursou ao menos um semestre de violão; o leitor, de olho rútilo, não questionará nada.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

PROFESSOR ILHEENSE VAI PRESIDIR A ABL

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

1ABL“A noite da última quinta-feira, 14, foi marcada pela retomada das atividades da Academia Brasileira de Letras e posse da nova diretoria, que será presidida pelo professor Josevandro Nascimento. Durante o evento, que contou com a presença do prefeito Jabes Ribeiro, foram prestadas homenagens póstumas ao poeta baiano Castro Alves, que nasceu na mesma data da solenidade”, dizia a notícia lida em respeitável blog. “Ora, vejam só!”, pensei de olho nos botões da blusa: “Um ilheense presidindo a Casa de Machado de Assis!” – e quase saí aos gritos e pulos, tomado dum agudo e justificado frenesi bairrístico.

________________

Castro Alves acaba de nascer, aleluia!

Mas, macaco antigo das redações, mantive minhas dúvidas e, como diriam os juristas, fui às provas: consultei dezesseis (!) blogs e dois importante jornais diários de Itabuna (os nomes não declino, mas adianto que o meu blog preferido, um que não gosta de molho agridoce, não está na lista). No entanto lhes digo, por ser rigorosamente verdadeiro, que os dezesseis veículos deram a notícia, fazendo do referido professor presidente da ABL – e criando uma barrigada monumental. Solidário, esperei uma semana pelo desmentido, que não veio; então, de alma lavada, enxaguada e embandeirada, comemoro publicamente o evento, pois não é toda hora que temos um ilheense a presidir o grande sodalício.

______________

O dia em que “mataram” Edivaldo Brito

E aquela parte que diz ter Castro Alves nascido “na mesma data da solenidade” me levou às lágrimas: é imenso privilégio ter aqui o Poeta dos Escravos bebezinho, em fraldas, nascido no dia 14 de março deste ano – mudando o curso da história. Falemos sério: a mídia contribui para a desinformação (e neste caso, o ridículo), ao publicar notinhas de assessoria sem submetê-las a copidesque, revisão e edição. O lastimável texto da prefeitura de Ilhéus foi replicado ipsis litteris, com erros gritantes, a ponto de dar o palestrante Edivaldo Brito como patrono da ABL – o que significa estar o mesmo morto e sepultado há, no barato, 120 anos. É demais pra minha paciência.

COMENTE |

COMILANÇA, OU O CASO DOS 3.600 PRATOS

4Comilança
Conhecido restaurante de Itabuna faz uma divulgação em que oferece “mais de 60 variedades de pratos”, num claro atentado à boa linguagem. O texto só pode ser salvo pelo cinismo daqueles para quem o importante é que a mensagem seja entendida. Eu entendi que a casa oferece “uma diversidade superior a 60 pratos”, só que isto não está dito em língua portuguesa. Como foi posto, o reclame gastronômico põe à disposição (há quem prefira “disponibiza”, argh!) 60 variedades multiplicadas por 60 pratos: 3.600 ofertas. Quer dizer: se o cliente quiser um churrasquinho de gato, por exemplo, será chamado a optar entre 60 tipos diferentes. Mesmo com o exagero a que a publicidade se dá direito, contenhamo-nos.
________________

Estupidez elevada à quarta potência

Tautologias à parte, a indigência vocabular da mídia tem mostrado disparates a todo momento, a ponto de sepultar termos consagrados pelo uso, em benefício de “novidades”. Vejam que, no noticiário policial, não mais existe a palavra “bala”, trocada por “munição”. Troca malsã: bala é munição, mas munição nem sempre é bala: um é termo genérico; o outro, específico. O pior é quando um repórter mais ignorante pouquinha coisa, diz que “a polícia apreendeu várias munições”. Esta palavra, se lhe cabe o uso, fica bem no singular; quando empregada no plural, em lugar de “balas”, temos um estranho caso de estupidez elevada à quarta potência. Ou, para quem prefere a medicina à matemática, um quadro de asnice recidivante.

COMENTE |

(ENTRE PARÊNTESES)

6Estória de facão e chuvaPermitam-me o pequeno anúncio: o livrinho Estória de facão e chuva (de 2005), esgotado, acaba de ter sua 2ª edição, por nímia gentileza da Editus (Editora da Universidade Estadual de Santa Cruz), tendo Rita Virgínia Argolo à frente. O pequeno volume (184 páginas) reúne 35 crônicas e dois discursos, sendo um deles de Hélio Pólvora, na Academia de Letras de Ilhéus, em 2001. A professora Maria Luiza Nora, na apresentação de Estória… diz que o autor “com sua escrita, nos descomplica, nos tira aquela pose que pode estar querendo se instalar, nos humaniza a ponto de darmos boas risadas de nós mesmos, e risadas de deboche, o que é melhor”. O autor, cativo, agradece.

BARDOT E DENEUVE – REALIDADE  E LENDA

7Catherine DeneuveCanções com uma história real a sustentá-las são corriqueiras. Mas algumas conseguem se debater entre a realidade e a lenda, sem que nós, ouvintes distantes da cena da gênese, saibamos a verdade. É o caso de Belle de jour (sic), momento romântico de Alceu Valença, que é cercado por essa magia do sim e do talvez. Dizem que Alceu estava num café, em Paris (mas já pra lá de Bagdá), quando lhe surgiu à frente Catherine Deneuve e, com ela a lembrança do filme Belle du jour: ali mesmo ele escreveu a canção, para depois descobrir que não vira La Deneuve, mas Brigitte Bardot! Outros falam de incerta moça que caminhava todas as tardes na praia da Boa Viagem, no Recife, e que se afogou…
_______________

O sotaque de Alceu nem a Sorbonne tira

Claro que a versão de que a letra foi inspirada no filme de Buñuel não interessa, por ser muito óbvia, pouco instigante. E também não faltam os psicólogos de mesa de bar, a explicar que “azul” é referência a heroína (a bela estaria, nesta visão, chapada!), enquanto a Boa Viagem teria duplo sentido: não seria apenas a praia, mas também aquela “boa viagem” patrocinada pela droga (“A belle de jour no azul viajava…”). O artista não esclareceu a dúvida, preferindo reforçar o mito de que a canção foi feita num bar parisiense, quando ele, doidão da silva, teve um delírio e viu… sabe Deus quem! Eu gosto mesmo é do francês de Alceu: o accent pernambucano de São Bento do Una nem a Sorbonne tira. Graças a Deus.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

O RISO E O CÔMICO NA LINGUAGEM DE JCC

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

1 O coronelAs críticas favoráveis a O coronel e o lobisomem são muitas, disponíveis na internet. Por isso, cito especialmente uma, por ser difícil de encontrar. Trata-se do ensaio Língua hílare língua (1999), do professor, poeta e músico José Afonso de Sousa Camboim, da Universidade de Brasília. Com rara erudição, mas sem chatice, Camboim disserta sobre o riso e o cômico na obra de José Cândido de Carvalho, sobretudo em O coronel… É livro importante para o completo entendimento e a total fruição da linguagem do autor fluminense – até mesmo com aproximações de Machado de Assis (Memórias póstumas de Brás Cubas): o ensaísta chama a atenção para a possível morte do Coronel Ponciano – sem que este evento interrompa a narrativa.

________________

2Rachel de QueirósPalavras usadas com sentido imprevisto

Assim falou Rachel de Queirós: “Não sei de ninguém, no momento, que renove o idioma como o renova ele. Vira e revira a língua, arrevesa as palavras, bota-lhes rabo e chifre de sufixos e prefixos, todos funcionando para uma complementação especial de sentidos, sendo, porém, que nenhuma provém de fonte erudita, ou não falada: nenhuma é pedante ou difícil, tudo correntio, tudo gostoso, nascido de parto natural, diferente só para maior boniteza ou acuidade específica. No léxico de Zé Cândido não aparece uma palavra que não seja possível; se ela não havia até aqui, estava fazendo falta. No mais, o que ele faz principalmente é usar a palavra no sentido novo, ou imprevisto, ou desacostumado”.

 ________________

Lobisomem mordendo os autos do fórum

De O coronel… : “Jogaram os fundilhos de um suspeitoso no banco dos réus. A demanda do julgamento, é-lobisomem, não-é-lobisomem, afundou pela noite, que era sexta-feira. Pois foi a lua aparecer na vidraça da casa do Fórum e o tal suspeitoso soltar aquele ganido de cachorro acuado, num desrespeito nunca visto em recinto de lei. E sem pedir licença, como é dever em tais ocasiões, o suspeitado largou o dente na peça dos autos e demais papéis adjuntos. Sobreveio então um corre-corre de arruaça. Caiu desembargador, caiu mesa, caiu cadeira e cadeirinha. E o lobisomem, dono da sala, fuçando as gavetas e tudo mais que calhou de encontrar no caminho. E, no deboche, bebeu a tinta toda dos tinteiros e borrifou com ela portas e paredes”.

À BEIRA DE UM ATAQUE DE… URTICÁRIA

Leio, em texto da prefeitura de Ilhéus, que “Prazo para renovação de alvará de casas comerciais encerra 31 de janeiro” – e quase tenho um ataque de urticária. É que ainda não me convenci (graças ao bom Deus!) dessa acepção estranha em que empregam o verbo encerrar. Fui ao Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, meu preferido, e achei nada menos do que 11 sentidos para este verbo, alguns desconhecidos para mim. Em ordem alfabética: abrigar, compreender, conter, encobrir, fechar, guardar, incluir, lacrar, limitar, rematar e resumir – mas nenhum que sirva ao caso em tela. Por quê? Porque encerrar, como posto acima, é pronominal. E escrever “encerra 31 de janeiro” é ir do erro ao abuso.
___________________

5BovespaA vaca ainda não está, de todo, atolada

O mesmo Priberam traz os vários sentidos desse verbo, na forma pronominal – é claro que alguns deles me escapam. Uma vista d´olhos na internet mostra que a vaca ainda não está inteiramente no brejo: “MPE encerra inscrições no dia 31”, “Bovespa encerra dia em queda”, “Wall Street encerra dia no verde” – são formas corretas do verbo encerrar, na sua regência de transitivo direto. Na mesma busca, encontro esta joia da G1 (globo.com): “Encerra dia 31 de janeiro o prazo para os sindicatos ficarem em dia com as contribuições” – uma espécie de disputa com o texto oficial acima referido. Mas a prefeitura de Ilhéus ganha, devido ao seu encerra 31 – não a 31 (ou dia 31), como seria em português.

ROMANTISMO, CIVILIDADE E HISTÓRIA

6RousseauEscritores, pintores, músicos, artistas em geral, todos passaram por Paris. Nas ruas, aspira-se romantismo, civilidade, história. Perrault, Michelet, Voltaire, Hugo, Richelieu, Molière, Coligny, Bréton, saltam das placas de ruas e instituições, como a nos saudar. É impossível “flanar” por Paris, sem sofrer a emoção de estar num dos berços do mundo, da cultura e da arte, palco de alguns dos maiores eventos da humanidade, lugar onde viveram mentes ilustres e questionadoras da presença do homem sobre a terra. Aqui se fez a Revolução Francesa, aquela que cortou cabeças coroadas e mudou o mundo. Mas não falo das ruas de Paris, o que já foi (bem) feito por grande nomes, até Voltaire – também porque isto aqui não é guia turístico.

 __________________

O dia em que Napoleão empenhou o chapéu

Para os do ramo etílico-poético, é imperioso visitar o café mais antigo do mundo, o Le Procope, muito chique e muito caro, como tudo em Paris. Mas se não der pra beber uma coisinha, sempre se pode tirar foto, que o pessoal permite. Reza a lenda que certa vez Napoleão deixou lá empenhado seu chapéu de dois bicos, pois não tinha luíses bastantes para pagar a conta. O lugar foi frequentado também por Diderot, Verlaine, Rousseau, Voltaire e Benjamin Franklin. Situado na rua da Antiga Comédia (rue de l´Éncienne Comédie), o restaurante dá fundos para a sede do jornal O amigo do povo (L´amie du peuple), com que Marat infernizava a vida dos inimigos da Revolução (isto não está nos guias). Mais histórico, impossível.

 __________________

Saxofonista e professor universitário

Archie Shepp (1937…) é um dos músicos de melhor formação intelectual da história do jazz. Além de saxofonista e cantor, é professor e dramaturgo, com estudos de literatura dramática na Faculdade de Goddard, na Califórnia. Começou no sax-alto, em bandas de segunda expressão, em New York; depois, sob a influência de John Coltrane, assumiu o sax tenor, passando a tocá-lo em vários grupos. Shepp foi professor de faculdade em Buffalo, no departamento de estudos sobre os negros, e depois na Universidade de Massachusetts. Na sua formação, além de Coltrane, está Duke Ellington. Apesar da reconhecida “erudição”, Shepp nunca desdenhou as canções simples. Dito o que, vamos a seu solo de Sob o céu de Paris.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

SEM OLHAR DE CIMA OS NOVOS ESCRITORES

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

Jorge Amado tinha entre suas famas a da bonomia, da humildade com que tratava as pessoas. Grande, paparicado em todo o mundo, nunca esqueceu sua aldeia (Ilhéus, onde viveu dias da infância), jamais foi mesquinho ou arrogante, não olhou de cima os novos escritores, não torceu o nariz aos emergentes. Ao saudar Adonias Filho na Academia Brasileira de Letras, deu, mais uma vez, mostras de sua generosidade, referindo-se a vários nomes das letras regionais (Hélio Pólvora, James Amado, Jorge Medauar, Emo Duarte, Elvira Foeppel), e até a um intelectual sobre quem reina incompreensível silêncio: Sadala Maron, citado para “nele saudar todos os demais jovens trabalhadores das letras do Sul da Bahia”.

________________

Nelson Schaun e Abel Pereira na ABL

Mais adiante, ele afirma que deveria lembrar de outros nomes, “para dar a medida justa do que vai acontecendo nessas terras grapiúnas como fermentação de ideias, como trabalho intelectual, como devotamento à cultura e ao esforço de criação”. E cita dois: Nelson Schaun (“o irredutível jornalista foi o símbolo vivo das letras e do estudo, de valor intelectual e de esforço cultural”) e Abel Pereira (“que tem buscado, com persistência e entusiasmo, valorizar a civilização do cacau e fazer da região um centro de permanente interesse artístico e constante inquietação literária”). Em 1965, o reconhecimento de Jorge Amado, no panteão das letras brasileiras, a dois intelectuais que a região pouco conhece.

COMENTE » |

AUTORES PARA A MATURIDADE INTELECTUAL

Dentre meus espantos está o ensino de literatura em nossas escolas. Costumo dizer, do alto do meu desconhecimento da didática, que fazer o estudante, ainda muito jovem e sem vivência com as letras, enfrentar Machado de Assis, Camões e Euclides da Cunha, é convidá-lo a ficar inimigo da leitura.  Estaria eu (outra vez no topo da minha ignorância) a atirar pedras nesses fundadores da cultura lusófona? Sabe o inteligente leitor que não. Apenas digo que não se deve pular etapas, pois cada coisa tem seu tempo – e o tempo dos autores citados é o tempo da maturidade intelectual (vejam bem que não falo de maturidade cronológica, que é outro assunto). Penso que, como está na maioria dos casos, a escola não ajuda a formar leitores.

____________

Como alguém que falasse para não morrer

Mas confio nas exceções. No Colégio da Bahia, há séculos, fui a uma prova oral de literatura, “tirei o ponto” (pergunte a seu avô o que isto quer dizer!), saiu Emílio de Menezes. A professora (uma desconhecida que foi lá apenas fazer as provas) perguntou-me se eu sabia “alguma coisa” do assunto. Disse-lhe, trêmulo (já me sentindo reprovado e, portanto, com a ousadia dos que nada não têm a perder), que “sabia alguma coisa”, sim, mas não o conteúdo do curso. E ela, sem considerar minha heresia, mandou-me falar do que eu soubesse sobre Emílio de Menezes. Com O último boêmio na ponta da língua (Raymundo de Menezes/1949), deitei e rolei, falei, falei como nunca falara antes – fiz como se cantasse para não morrer.

_________________

Um estranho papel de Xerazade cabocla

Nesse estranho papel de Xerazade cabocla fora de época e espaço, citei trocadilhos (não os impublicáveis, que eu não queria abusar da sorte), casos, chistes, maldades, piadas (não as cabeludas – que querem?), fiz a professora sorrir, sorrimos juntos e fui aprovado, com sobras. Vejam que eu não sabia a data de nascimento do poeta, que escola frequentou, o nome de sua parteira, essas bobagens que os lentes tradicionais tanto valorizavam. Se a mesma prova fosse feita pelo meu sisudo professor do primeiro semestre (no Instituto Municipal de Educação, em Ilhéus) eu seria sumariamente reprovado. O que, para alguns, seria bem empregado, pois não estaria agora a pregar princípios didáticos de que nada entendo.

COMENTE » |

CANTORA DE JAZZ NASCEU EM AMSTERDAM!

Laura Fygi não é alemã, mas holandesa. “E daí?” – perguntará, com uma ruguinha na testa, a gentil leitora. “E eu com isso? – dirá o impaciente leitor. Eu explico, como faria o velho Freud. Trata-se de uma cantora de jazz que mencionei aqui como sendo alemã – erro bem inferior aos que cometem os prefeitos, mas, ainda assim, erro, que precisa ser corrigido: a moça é holandesa, também  prova viva e cantante de que em Amsterdam, quem diria, nascem cantoras de jazz. Ela morou em Montevidéu, canta em vários idiomas (incluindo português e chinês), já esteve no Brasil várias vezes e gosta de MPB,  mais ainda de Tom Jobim. Gosta tanto que gravou Dindi, Insensatez e outras (no North Sea Jazz Festival de 2003 cantou Corcovado).

_____________

A banda muito pop que vestia lingerie

Laura Fygi tem tamanho prestígio na Europa que ganhou de presente uma canção de Michel Legrand, um dos mais respeitados músicos da França, vocês sabem. No começo ela se comportava de acordo com o preceito dos jovens liberados de sua Amsterdam: entre 1987 e 1991 participou de um grupo que se apresentava com o mínimo de roupas (a turma vestia aquilo que se chama, genericamente… lingerie). A banda era, naturalmente, bem popular. Mais tarde, ela muda de banda, veste roupas compatíveis e, assim, os produtores puderam ouvir-lhe a voz jazzística – sendo logo convidada a fazer um disco solo. Daí em diante, colocou a voz suave a serviço de canções consagradas, cantando o que bem merece e deixando o que é ruim de lado.

______________

“Não me importo em procurar novidades”

Vai longe o tempo da banda Centerfold (aquela da lingerie!). Laura Fygi é agora uma vocalista bem comportada, e que não gosta de invenções. “Há tantas canções bonitas para se cantar que não me importo em procurar novidades”, diz ela, como a fazer eco a meu humilde pensamento. E por achar que “a música feita hoje não é tão melódica, tão poética quanto as antigas”, ela escolheu a grande canção francesa, o jazz, a bossa-nova, os “clássicos” latinos. Aqui, uma mostra do que ela é capaz. Aos pouco iniciados, pedimos observar, além da leitura de La Fygi, a qualidade da “cozinha” (piano-baixo-bateria) e o solo de sax. Les feuilles mortes é da mesma sessão em que ela cantou Corcovado, no referido festival.

 

(O.C.)

COLUNISTA FAZ DEFESA DE “BEST-SELLERS”

Na contramão da crítica literária convencional (que costuma torcer o nariz a todo autor que vende muito), o colunista Ousarme Citoaian, do UNIVERSO PARALELO, disse nada ter contra os “best-sellers”. Ele destacou, entre estes, Os sete minutos, de Irving Wallace (grande êxito de vendas nos anos setenta), tratando da liberdade de expressão, em torno de um livro proibido por ser obsceno.

Para O. C., ninguém tem de prender-se à lista oficial dos críticos (da mesma forma com a lista dosmais vendidos), mas permitir-se o prazer da própria descoberta. Ao Pimenta, o colunista disse já ter lido “quase tudo” de Agatha Cristie, muito Connan Doyle (Sherlock Holmes), Raymond Chander, Ross Macdonnald e outros. “Nem só de Hemingway, Sthendal, Guimarães Rosa, Dostoiévski e Machado de Assis se faz o prazer da leitura”, brincou.

Para ver a coluna desta semana e o inteiro teor do comentário, clique aqui.

UNIVERSO PARALELO

ESSES MÚSICOS E SUAS BAQUETAS PERDIDAS

Ousarme Citoaian

Um site de negócios anuncia que está à venda uma baqueta usada pelo Guns N’ Roses no último Rock in Rio. Esse troféu (à disposição dos fãs por meros R$ 250,00) teria pertencido ao baterista Matt Sorum (se é assim que se escreve, pois o grupo me é inteiramente desconhecido, graças a Deus!). Não atino como teria esse acessório ido parar no mercado, considerando que os músicos costumam ser muito ciumentos com suas coisas. Provavelmente o baterista o perdeu por acidente de trabalho, pois tais coisas acontecem mais do que nós, pobres mortais, possamos imaginar. O jornalista Ruy Castro (Tempestade de Ritmos/2007) tem uma boa história a respeito.

LIONEL HAMPTON: REGENTE E MALABARISTA

Se não conheço Matt Sorum, sei quem é Lionel Hampton (foto), o inventor do vibrafone no jazz, mas também baterista, pianista, regente e… malabarista. Hamp, como era chamado,  fazia  do palco uma espécie de picadeiro, e dos seus músicos, artistas de circo – sem prejuízo para o ritmo, a afinação ou a elegância: coreografia complicada (criada por ele), interação com o público, baquetas voando, band-leader dando pulos (o pernambucano Severino Araújo é um seguidor, com sua Orquestra Tabajara), a orquestra tocando alto, forte e certo. O objetivo de Hamp era que, num raio de 500 metros, ninguém permanecesse estático ao ouvir sua música.

DE CICATRIZES SE FAZ A HISTÓRIA DO JAZZ

Em São Paulo, Hampton fazia um longo solo com várias baquetas trocando de mãos, como num show de magia. De repente, uma delas lhe escapou (tão rápido que quase ninguém viu) e escorregou para debaixo da mesa de Ruy Castro. Este, também como um mágico (de paletó) a pôs imediatamente debaixo do braço, ficando imóvel pelo resto da noite. Na saída, soube que o músico estava furioso com a perda da baqueta, e se fez de inocente. “Ao saber da morte de Lionel Hampton, afaguei aquela baqueta cheia de arranhões, sulcos e machucaduras – cicatrizes das muitas noites em que ele a usou para escrever tantas páginas empolgantes da história do jazz”, depõe o jornalista|.

PARA NEOLOGISMO, PUXAVANTES DE ORELHAS

A gramática formal condena os neologismos.  A Estilística tem os neologismos na lista dos “defeitos” do bom estilo de escrever e falar. No entanto, eles resistem, se sobrepõem à oposição, adentram o vocabulário, consagram-se, vão em frente – passam de novidades (neo = novo) a formas consagradas. Meu professor de redação puxaria as orelhas de quem escrevesse homenagear (isto em tempos imemoriais!). Hoje, escreve-se (e se diz) homenagear e ninguém vira Van Gogh (foto) por causa disso (até porque, em nossos dias, as orelhas postas em perigo são as do mestre, não as do aluno). Prestar homenagem era a forma “certa”. Já o uso do verbo aniversariar constituía crime inafiançável.

RUI, PRECISANDO, USAVA, “SEM VACILAR”

Mas, convenhamos, dizer (a exemplo de Machado de Assis) “Ele faz anos” soa meio estranho à língua “brasileira”.  Chico Buarque já em 1966 aderiu a este neologismo (“Todo mundo homenageia/Januária na janela…”), mas poeta… pode. Mais estranho ainda ficaria se ele seguisse a norma clássica (“Todo mundo presta homenagem…/A Januária na janela…”). Rui Barbosa deu o caminho: na Réplica ao professor Carneiro Ribeiro, disse ser contra o neologismo “desnecessário”, mas que, nos outros casos, “não vacilo até em lhe assumir a iniciativa”. Acho que é isto que eu queria dizer: a linguagem, além de suas próprias regras, há de também submeter-se às regras do bom senso.

NEOLOGISMO “VELHO” É NEOLOGISMO ACEITO

O mal (ou o bem?) do neologismo é que ele envelhece. E se envelhece é porque foi aceito na linguagem, deixando de ser neologismo. Quando, há poucos anos, alguém emitiu a palavra “aidético” criou alguma comoção. Passou-se o tempo, o termo incorporou-se ao Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), já ninguém o estranha. “Espiritismo” (categoria criada pelo francês Allan Kardec) foi neologismo combatido pela língua formal… no século XIX.  Há termos que, ao contrário, aparecem e desaparecem, não “pegam”, talvez por nada acrescentarem à comunicação. No fundo, os falantes sabem, ainda que de maneira empírica, quando novos valores linguísticos devem ser aceitos ou descartados.

| COMENTE! »

EDITH PIAF: ENTRE A HISTÓRIA E A LENDA

Situada entre a história e a lenda, a vida de Edith Piaf (foto) nunca foi fácil. Conta-se que sua mãe, na miséria, deu à luz sob um poste.  Abandonada pela mãe, criada pela avó, dona de um bordel na Normandia, ficou cega dos três aos sete anos. A doença (ceratite) teve o prognóstico esperado (a cura com o tempo), mas as “meninas” de Madame Louise achavam que foi um milagre de Santa Teresa de Lisieux. Aos 15 anos (depois do bordel e de morar com o pai alcoólatra), canta nas ruas de Paris, quando, em 1935, é descoberta por um dono de boate e grava, ainda naquele ano, seu primeiro disco. Sucesso, fama e dinheiro vieram, mas o sofrimento permaneceu.

A VOZ QUE FEZ O MUNDO CANTAR O AMOR

O mundo inteiro cantou os temas de amor divulgados pela voz inconfundível de Edith Piaf: Hymne à l’amour, La vie em rose, Non, je ne regrette rien e Milord são dos mais conhecidos. É a maior chanteuse popular de todos os tempos. O grande Maurice Chevalier (foto), encantado, afirmou: “Ela canta como se estivesse se oferecendo em holocausto”. Teve vida amorosa conturbada, pela qual passaram Yves Montand e o cantor Jacques Phill, até conhecer o pugilista Marcel Cerdan, a grande paixão – e também sua maior tragédia amorosa. Quando ela se encontrava num estado de felicidade nunca experimentado, ele morreu, num desastre de avião.

MESMO NA DOR, O SHOW TEM QUE CONTINUAR

Aqui, uma cena de Piaf – Um Hino ao Amor, o momento em que a cantora descobre a morte de Marcel, e se desespera. Ele vem visitá-la no quarto, como um aviso, uma despedida, mas tudo não passa de um truque do diretor Olivier Dahan, criando um ambiente de misticismo. Marcel já está morto. Quando Piaf (Marion Cottilard) sai do quarto (vai pegar um presente para ele) a realidade a atropela: descobre que o avião do amante caíra e que a visita dele ao quarto nunca existiu. Angústia e tristeza marcam esta cena, antológica pela fusão da casa para o palco – mostrando como a arte é capaz de superar a dor. Ou… o show tem que continuar.

(O.C.)

MACHADO DE ASSIS “BRANCO” SAI DO AR

A Caixa Economica Federal suspendeu a veiculação de uma campanha publicitária sobre os 150 anos do banco que retrata o escritor Machado de Assis como um homem branco (confira o vídeo abaixo). A decisão veio após protestos na Internet e um pedido formal da Seppir (Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial), órgão do governo federal com status de ministério.

O comercial criado pela agência Borghierh/Lowe viaja no tempo para mostrar que até os “imortais” foram correntistas do banco público. O problema é que o ator que representa o fundador da Academia Brasileira de Letras e autor de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” é branco, sendo que o escritor era mulato.

Na nota oficial em que anuncia a interrupção da propaganda, a Caixa “pede desculpas a toda a população e, em especial, aos movimentos ligados às causas raciais, por não ter caracterizado o escritor, que era afro-brasileiro, com a sua origem racial”. William Maia, do Última Instância.

UNIVERSO PARALELO

UM ENTRAVE DE NOME ESQUISITO: ANACOLUTO

Ousarme Citoaian
Falamos aqui de termos que aparecem nas frases sem que nada de bom a elas acrescentem – aos quais os gramáticos chamam de anacolutos, ou nome parecido. No caminho de quem persegue a “linguagem econômica” (apanágio de poucos redatores) emergem os tais anacolutos como um dos mais sérios obstáculos a transpor. Observo, na leitura das mídias regionais escritas, que entre nós abunda (além da preposição “de”, penduricalho que muito me irrita) uma profusão de artigos, indefinidos, sobretudo. É tamanho o festival de “um” e “uma” que até parece epidemia, caso de saúde pública.Vejamos alguns exemplos, colhidos aleatoriamente.

EMPREGAR MUITO ARTIGO LEVA AO DESASTRE

“Não é por um acaso que Itabuna ficou sendo a cidade mas (sic!) violenta do país”, diz um blog; “Quero deixar claro que se por um acaso inaceitável…”,  escreve colunista de Ilhéus, comentando a ideia gaiata de  anexar o  Salobrinho a Itabuna. Outro articulista, de Itabuna, titula seu arrazoado como “O direito de se ter uma opinião”. Mais curioso é que “O direito de se ter uma opinião” poderia, com lucro para o estilo, ser reduzido a “Direito de opinião”. Sobre os artigos definidos, falaremos num dia desses – mas adiantemos que tal categoria tem um quê de bebida alcoólica: se usar muito, o desastre é certo.

HÉLIO PÓLVORA E A LINGUAGEM ECONÔMICA

O texto econômico, de um mestre, da linha direta de Graciliano Ramos: “O coronel sacou o relógio da algibeira, em gesto maquinal. Sol a pino, de meio-dia. Ao longe, além das pastagens, os cacaueiros tinham um jeito tristonho de árvores murchas. O coronel cumprimentou o Surdo com um aceno de cabeça, depois de franzir a testa na tentativa de reconhecer-lhe a fisionomia e o nome. Inútil, eles se viam pela primeira vez. O Surdo desejou-lhe boas-tardes – e o coronel, devolvido o relógio chapeado de ouro à algibeira do colete de casimira inglesa, caminhou para o armazém, seguido por um pequeno séquito de curiosos” (Hélio Pólvora – Inúteis luas obscenas/2010).

COMENTE! » |

A LITERATURA ESTÁ PRESENTE NO DIA A DIA

A literatura, muitas vezes desdenhada, está presente na vida brasileira, bem mais do que admite nossa vã filosofia. Há frases que integram o imaginário nacional, muitas vezes citadas sem referência a origem e autoria. Exemplos que me vêm à mente: “Vai-se a primeira pomba despertada”, verso que já utilizei, emprestado de As pombas, de Raimundo Correa (foto) – que, contam, detestava este soneto, de tanto que o ouviu recitado; volta e meia alguém, falando de nossa língua a chama de “Última flor do Lácio” – sem pagar direitos autorais a Bilac; “A mão que afaga é a mesma que apedreja” é lembrança de Augusto dos Anjos, empregada à larga.

MÁRQUEZ, QUEM DIRIA, VIROU LUGAR COMUM

O repetido “mudaria o Carnaval ou mudei eu?” é Machado de Assis, que também popularizou o círculo vicioso; Gabriel García Márquez teve seu título Crônica de uma morte anunciada /1981 transformado em lugar-comum pela mídia pouco pensante, a ponto de não aguentarmos mais a expressão “tragédia anunciada”, apresentada como novidade.  O então ministro da Saúde (até tu, Tinhorão?), escolheu aproximar-se mais do título, ao comentar uma epidemia de dengue em Itabuna. “O que houve ali foi uma crônica da morte anunciada”, disse o lusitano. Em alguns veículos encontramos, em tempo de dengue exacerbada, verdadeiras pérolas do gênero.

NUNCA SE VIU TANTA “TRAGÉDIA ANUNCIADA”

“De acordo com os representantes do Ministério Público, o problema que atinge na região (sic!) foi uma tragédia anunciada”, diz um blog; “O que está acontecendo em Ilhéus é uma tragédia anunciada, proclama outro; de bem antes (2008), n´O Globo: “Essa tragédia porque passa o Rio foi muito anunciada”; a Veja (outrora modelo de linguagem jornalística),  na mesma data e trilha: “A situação do Rio é, nada menos, do que uma tragédia anunciada” e, adiante,  empolada: “quando a tragédia anunciada enfim se impõe como realidade…”. O governador, para não ficar atrás, também definiu a enchente no Rio como uma tragédia anunciada.

VINÍCIUS, SHAKESPEARE, ROMEU E JULIETA

Como se vê, nossa mídia tem mais tragédia do que o antigo teatro grego – e eu, sem pensar, me vali de uma expressão também clássica, numa paródia de  “Até tu, Brutus!”, atribuída a Júlio César (ano de  44 a. C.) e popularizada no teatro de Shakespeare. Aliás, o bardo inglês é responsável pela apelido de sujeito apaixonado:  Romeu (referência ao protagonista de Romeu e Julieta). “Depois de um longo e tenebroso inverno” é verso de Luis Guimarães Jr. que já nos incomoda, de tão recidivante; e “De repente, não mais que de repente” é da lavra de Vinícius, muito lembrado, mas que perde feio para “que seja infinito enquanto dure”.

JOIA RARA: ELLA CANTANDO EM PORTUGUÊS

O LP duplo (alguém ainda sabe do que estou falando?)  Ella abraça Jobim foi a grande surpresa fonográfica de 1981. Não é o melhor Ella Fitzgerald que já se ouviu, mas é um buquê de 19 canções de Tom, selecionadas por Norman Granz  (que o chamou de The Antônio Carlos Jobim songbook), na voz de uma das maiores cantoras de jazz de qualquer tempo, segundo a melhor crítica. Apesar de as letras vertidas para o inglês, chama a atenção o esforço que a grande diva faz para cantar alguns trechos em língua portuguesa, o que torna ainda mais singular a homenagem a Tom Jobim.

COM RISOS INOCENTES, SONOROS PALAVRÕES

E é Tom quem explica ter ouvido da cantora que ela teve um padrasto português, homem desinibido, que, como bom lusitano, “costumava desabafar em baixo calão”. Como prova de “conhecimento”, a cantora recitou, na maior inocência, e para a vermelhidão do maestro brasileiro (ou Brasileiro!), todos os palavrões de que ainda se lembrava (que não eram poucos!), enquanto “ria, com seus olhinhos inocentes”. É ainda o pai da Bossa Nova quem depõe: ”Percebi que Ella não sabia o significado daqueles tão sonoros palavrões, mas, de qualquer forma, eles devem tê-la ajudado para cantar em Português”.

HERANÇA: CAMARÁ, CAMARADA, CAMARADINHO

Camará é termo largamente empregado nas rodas de capoeira, sem o sentido registrado nos dicionários. Creio que seja uma apócope (“perda de sílaba final”) de “camarada”, mas o termo tem assento em documentos de cultura afro que não a capoeira. Os Tincoãs, extraordinário grupo vocal do Recôncavo, lembra uma estranha forma do falar afro-baiano, em A força da jurema: “Meus camarada, meus camaradinho,/ meus camarada, meus camaradinho,/ se quer que eu dance/ toque um pouquinho!” – enfim, são os surpreendentes caminhos da indomável língua brasileira. Clique e veja como Ella se sai nesse meio: Água de beber (Tom-Vinícius).

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

NÃO FALTA DEFENSOR PARA A ARTOCARPUS

Ousarme Citoaian
A jaca volta às manchetes, saída de onde menos se esperava, o Fórum Rui Barbosa, de Itabuna. E avisamos a quem interessar possa que se esta construção parece pleonástica, não o é, entretanto, pois há fóruns Rui Barbosa em todas as esquinas da Bahia – e com picilone na grafia, obviamente). Dito o que, vamos à jaca, propriamente dita. Volta e meia, a expressão papa-jaca (que é antônima de papa-caranguejo) ressurge, sempre em tom de ofensa, talvez pelo preconceito existente em torno dessa fruta. Mas a artocarpus integra, se bem me lembro, teve dois importantes defensores públicos (antes de Marival Guedes, há dias, aqui no Pimenta): Euclides Neto e Paulo Kruschewsky, que nos fazem muita falta.

NA JAQUEIRA, A RIMA DE NOBREZA E REALEZA

Euclides (foto), advogado e político engajado no compromisso da ascensão social de sua gente, prefeito de Ipiaú, cassado e preso pela ditadura militar, defendeu jaca e jaqueira – o fruto como alimento, a árvore como matéria de marcenaria, principalmente na fabricação de móveis em que nobreza rima com beleza.  Paulo, para quem a criatividade era uma espécie de segunda natureza, pregou, ao microfone, que jaqueiras fossem plantadas pelo prefeito ao longo das ruas de Itabuna, tornando nossa urbe verde e cheirosa. Antônio Lopes, papa-jaca lá das bandas de Macuco, viu com humor a opinião do ilheense Paulo Kruschewsky e a reproduziu no livro de crônicas Luz sobre a memória (Agora Editoria Gráfica/1999).

“JAQUEIRIZAR” É PRECISO, SEGUNDO PAULO

“Acredita o inventivo Paulo que com esse procedimento inesperado, o prefeito recuperaria a marca ´papa-jaca´, muito cara a todos nós, jogaria um bocado de oxigênio sobre esta paróquia irrespirável, faria as pazes com o Ibama em particular e com os ambientalistas em geral, ofereceria sombra e comida a caminhantes, viajantes e pedintes.”  – diz o cronista, e segue:  “É bem verdade que Paulo não explicou como fazer com as jacas imensas, maduras e cheirosas que vão despencar sobre os carros, quebrar para-brisas e atrair mosquitos, transformando a Cinquentenário num estranho lamaçal e a vida de algumas pessoas num inferno. Mas quem lá se preocupa com esse pequeno custo, diante de tantos benefícios?”

DISTÂNCIA ENTRE HÁBITO E PRECONCEITO

Leitor (a) nos recomenda cuidado quanto ao emprego da expressão língua culta (ou semelhante), que tangencia o preconceito. Nos arquivos implacáveis do Pimenta encontrei, em pouco mais de um ano desta coluna, oito menções: língua culta, linguagem culta, norma culta etc. Não se trata, no caso, de preconceito, mas da forma habitual de dizer as coisas. Em certo momento, escrevi, por minha conta e risco, “cultura livresca”, também sem preconceito contra quem lê. Os linguistas criaram a expressão “norma culta” sem querer humilhar ninguém (veja o incontestável Celso Luft!).  Mas concordo que a expressão dá o que pensar.

CONCEITO DE CULTURA PARA A SÉTIMA SÉRIE

Cultura – se me permitem um pouco de marxismo para crianças inteligentes da 7ª série – é o antagonismo entre o homem e a natureza. Tudo aquilo que acrescentamos ao ambiente é “cultura”. Assim, uma árvore não é elemento cultural (talvez seja agricultural!), mas um banco que é feito dessa árvore, sim. Da mesma forma que um berimbau ou uma palmatória. Aliás, usei muito o exemplo do berimbau, como elemento de cultura: nas casas da dita elite branca ele é pendurado na parede, como uma exótica peça de decoração; já entre pobres e negros tem forte valor histórico e até financeiro. Penso que um colar indígena guarde o mesmo duplo significado.

EIS AQUI O TIPO FACEIRO E DARWINIANO

Foram as práticas, tensões e rupturas com a natureza que formaram esse tipo faceiro e darwiniano que desfila pela ruas e becos, uns engravatados, outros sem camisa, mulheres e homens se rebolando ao som contagiante do arrocha, outros achando que depois de Mozart e Beethoven não se fez música que valesse o preço da pauta em que foi registrada. E há os que (a piada é anciã) consideram Brahms e Chopin apenas mal pronunciados nomes de bebida, sendo Bach o local onde as consomem. É a fauna um tanto patética chamada homo sapiens. O analfabeto tem cultura, sim, mas num sentido em que me é difícil fazer entender por alguns leitores.

O AMOR NÃO NOS AVISA, APENAS ACONTECE

“Aconteceu um novo amor”, cantou Caymmi, em Não tem solução/1952 (com Carlos Guinle), também ouvido com Nana, Betânia, Dick Farney (foto), Zizi Possi e outras vozes. O amor surgiu, emergiu do nada, em momento talvez inoportuno. Aconteceu. Feito uma virose, que pega de surpresa o infeliz portador. “Concurso de professor da rede estadual acontece hoje”, equivoca-se em manchete mais de meio século depois, o maior jornal da Bahia. Só “acontece” o que não está planejado, não se espera, vem atrapalhar nossos planos, como está no velho baiano: “Eu que esperava nunca mais amar/ não sei o que faça com este amor demais”. Grande Dorival.

SÓ “ACONTECE” O QUE NÃO FOI PLANEJADO

Redatores que tratam bem a língua costumam usar o verbo acontecer com o sentido principal registrado pelo dicionário Aurélio (“suceder ou realizar-se inopinadamente”). Machado de Assis, em Várias histórias, abona a definição: “Aconteceume uma aventura extraordinária”. Entre nós, um exemplo simples, porém recidivante, até que as autoridades policiem nossas estradas: ”Grave acidente aconteceu na Ilhéus-Itabuna”. Neste caso, o Caldas Aulete tem entendimento semelhante ao Aurélio – acontecer é “realizar-se algum fato inesperadamente”. Logo, como o concurso estava programado, ele não acontece. Mas “acidentes acontecem”, diz o adágio.

COLUNA SOCIAL COM CRIATIVDADE E GRAÇA

“Estou acontecendo no café soçaite”, brincava Miguel Gustavo, na voz fanhosa de Jorge Veiga (Betânia regravou Café soçaite/1953 no começo dos anos setenta). Era só uma sátira bem-humorada ao colunismo social da época, um tempo em que por lá existiam Ibrahim Sued, Jacintho de Thormes, criatividade e graça. Mais tarde, a indigência vocabular dos redatores fez com que o verbo acontecer fosse utilizado a torto e a direito, nos lugares mais escusos, sem nem sombra do charme que lhe dera o jornalista carioca Maneco Müller, famoso como o colunista mundano Jacintho de Thormes.

JORNALISMO GOSTA DE VERBOS NO PRESENTE

Na acepção que encontramos por aí, o maltratado acontecer se refere a algum evento que “ocorre”, ou que “se realiza”. Há dias, uma instituição cultural distribuiu convite para uma solenidade que acontecerá no dia tal, a horas tantas. Bobagem. Solenidades não acontecem, mas se realizam, ocorrem etc. E no caso da manchete citada lá em cima, como ficamos? Ficamos no bom senso, que recomenda o mais simples: em vez de dizer que  ”… o concurso acontece hoje”, diga-se “… será hoje” ou, como a linguagem jornalística gosta do tempo presente, “… é hoje”. Voltaremos ao tema. Antes, Nana Caymmi e Não tem solução.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

MEA CULPA, MEA MAXIMA CULPA

Ousarme Citoaian
Que estas primeiras palavras sejam um sincero pedido de desculpas. Na semana passada, ao citar um verso de canção popular (“Paraíba masculina, mulher macho, sim senhor”), o atribuí ao pernambucano Zé Dantas (1921-1962), quando seu autor é o cearense Humberto Teixeira (1916-1979). Há várias “explicações” para este erro, sendo mais verossímil a de que me vali da memória – e esta, como a maioria dos políticos, não merece confiança. Mas não quero tal expediente, igualmente fácil de usar e difícil de ser acreditado. A troca de nomes dos autores foi erro sem justificativa, do qual me penitencio. Cabeça não é arquivo.

UMA PITADA DE TRISTEZA, OUTRA DE TÉDIO

Quem se isola voluntariamente dos alaridos do mundo é definido com uma palavra pouco bonita: misantropo. É alguém com uma doença chamada misantropia, sem gosto pela vida social, um tanto melancólico, com uma pitada de tristeza, um quase tédio ao gênero humano. Sua divisa poderia ser a frase que Machado de Assis se esqueceu de fazer: “Quanto mais conheço a espécie humana, mais gosto do meu cachorro”. O pior é que os outros (eles são o inferno!) se metem a interpretar esses indivíduos, chegando a resultados deploráveis, pois lhes dão qualidades e defeitos inexistentes.  Eles querem apenas se isolar.  E, convenhamos, não é querer muito.

MEDO DE FICAR FRENTE A FRENTE CONSIGO

“Mãe, não quero ficar sozinha comigo” – disse, para espanto geral, a filhinha de uma velha amiga. Criança diz cada uma! Eu sou o contrário daquela menininha. Não tenho medo de mim, me enfrento, vivo em paz com meus fantasmas: tiro-os do armário e com eles converso (“Ora! – direis!…) numa boa, não sou dado a rapapés sociais, tento ser arroz-de-festa, mas (ai de mim!) falta-me talento para tanto. Às vezes me tranco com meus livros, discos, filmes e pensamentos, desligado o celular. E não sou único. Sei de outras gentes que preferem o silêncio ao barulho, o isolamento ao burburinho, o jazz ao arrocha, a conversa ao comício, a solidão à má companhia.

SEM RAZÕES PARA VIVER “EM SOCIEDADE”

O poeta português Herberto Helder (no retrato) é misantropo da pesada: não recebe ninguém, recusa honrarias (não foi receber o cobiçado Prêmio Pessoa), tem endereço pouco conhecido e quanto a dar entrevista, nem pensar. A família diz que ele “não morde”, conversa bem e é dotado de bom humor, mas que não vê motivo para viver “em sociedade”. De um escritor só  importa sua obra, ele diz . No Brasil, se salientam como portadores desse distanciamento da humanidade os prosadores Dalton Trevisan, Rubem Fonseca e outros (parece-me que, entre eles, Raduan Nassar, aquele de A lavoura arcaica). Porém o caso mais notável é o de famoso cantor baiano.

O GATO QUE NÃO AGUENTOU JOÃO GILBERTO

João é dado ao isolamento. Tranca-se no quarto do hotel e ali passa dias distante do mundo, sem contato, sequer, com o garçom que lhe leva as refeições (dizem que a comida é colocada à porta e, mais tarde, o cantor a pega, sorrateiramente). Sua única companhia é o violão, que, todos sabem, não faz perguntas. Reza o folclore que João teve um gato, mas o bichinho se suicidou, coitado – depois de ouvir o músico repetir o mesmo acorde durante dois dias seguidos, até altas horas da madrugada. No terceiro dia, quando João sacou a viola, o gatinho tomou a decisão radicalíssima. A quem interessar possa: não toco violão nem tenho gato.

COMENTE »

BOM, MAU, MAL, BEM, MARAFONA, MARATONA

Há pessoas que confundem marafona com maratona. Ou habeas corpus com corpus Christi e mal com mau. Para fugir à ultima armadilha, é simples: lembrar que mal é o contrário de bem, e  mau é o contrário de bom. Bem educado, mal educado; bom caráter, mau caráter. Bem educado é quem tem bons modos, diz “por favor”, “com licença”, “obrigado”, “desculpe”; mal educado é aquele grosso, que anda por aí sem camisa, exibindo a pança e, não raro, o pigostílio (dicionário, pra que te quero?) e ainda diz que ser educado é ser fresco. Para o tipo, grossura é prova de macheza.

POLUÍDO, O RIO BOM VAI MAL DAS PERNAS

 É fácil seguir essas regrinhas, mas às vezes a gente fica mareado. Foi o caso do redator de um jornal diário de Itabuna: indignado com a situação do Cachoeira, ele proclamou que o velho rio, dentre outros males, está “mal cheiroso”. Acertou no atacado, errou no varejo: poluído e esquecido pelos governos, o rio cheira mal (não cheira bem), tem mau cheiro (cheiro ruim) e, vítima de maus tratos, está malcheiroso. Ligado assim. O bom rio vai bem mal das pernas, se me permitem trocadilho e prosopopeia. Diga-se, entretanto, que o erro não reduz o mérito da denúncia.

UMA FAMOSA FRASE JAMAIS PRONUNCIADA

 

Mesmo que sua experiência em cinema se resuma a Tropa de Elite 2 (que, ouvi dizer, é superior a Tropa de Elite 1 e inferior a Tropa de Elite 10, que sairá em 2013), já ouviu falar em Casablanca. E conhece a frase mais repetida do filme, quando Ingrid Bergman (Ilsa) vira-se para Doley Wilson (Sam) e diz: “Toque outra vez, Sam” (em língua de bárbaros, Play it again, Sam). Mentira. A frase famosa jamais foi pronunciada. E, para estragar de vez essa anedota, Wilson (na foto, com Bergman) não poderia tocar mesmo, pois não era pianista (o som que se ouve foi posto sobre a voz, no estúdio). Mesmo assim, a fala se tornou das mais conhecidas do cinema. É sem nunca ter sido.

O PERIGO DE NUNCA TER VISTO CASABLANCA

Era Montmartre, 2009. Após jantar no Le Ceni com uma senhora brasileira mais generosa do que inteligente, nos despedimos, às primeiras horas da madrugada (ela seguia para a Espanha; eu, findos os euros, retornava ao Brasil). Vali-me de uma frase de Casablanca: em macarrônico francês que o vinho só fez piorar, lhe recitei “Nós sempre teremos Paris” (algo como Nous aurons toujours Paris). Ruborizada e feliz, ela não poupou elogios ao meu estro romântico, certamente por desconhecer o filme. Àquela altura, explicar seria bem mais difícil do que manter a humanitária petite fraude. Fiz um Bogart deplorável; mas ela também não era nenhuma Ingrid Bergman.

MAGIA E ROMANTISMO, MAS SEM PIEGUICE

Resta dizer que Casablanca aparece em 3º lugar na lista de 2010 do Instituto Americano do Filme – perde para O poderoso chefão e o imbatível Cidadão Kane, que encabeça todas as listas dos críticos, em todos os tempos. O filme é de Michael Curtiz, um diretor distante da propalada genialidade de Orson Welles (Cidadão Kane). A ideia de Casablanca era a de um melodrama como outro qualquer, sem maiores ambições, feito em cima da perna, com um roteiro que era emendado enquanto a claquete batia. Quase 70 anos depois, quando Humphey Bogart diz a Ingrid Bergman “Nós sempre teremos Paris” o espectador chega à beira das lágrimas. Mágico, romântico, não piegas.

MUITOS DISSERAM “NÃO” A ESTE CLÁSSICO

O número de estudos sobre Casablanca é espantoso, revelando muitas curiosidades: William Wyler, com o prestígio nas alturas, recusou a direção; Hedy Lamarr (foto) não quis fazer Ilsa Lund; George Raft não aceitou o papel de Rick Blaine; e Paul Henreid relutou em ser Victor Laszlo, líder da resistência, por ser o papel “menor”. Em meio a esses acasos Bogart e Bergman se transformaram no mais apaixonante casal do cinema. O filme tem humor, romantismo e política na dose certa, com o cinismo de Rick encobrindo sua ideologia anti-nazista. E naquela Casablanca sob a bota dos alemães o Rick´s Bar é o centro de tudo. Clique e veja o trailer (a Warner nos proibiu de divulgar a cena que escolhemos).
(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

IMPRENSA, CRISE E SALTO DE QUALIDADE

Ousarme Citoaian

Esta coluna está no ar há um ano, o que possibilita a quem a acompanha saber que temos alguma tendência a meter a mão em cumbuca, cutucar onça com vara curta e mexer em casa de abelhas africanizadas. Então, mexamos, como disse a dançarina: o signatário deste espaço tem, com mais freqüência do que devia, sido chamado a opinar sobre o futuro da imprensa, hoje chamada mídia impressa – e dado uma resposta provocadora: esse segmento não está necessariamente em extinção, como muitos apregoam, mas vivendo uma crise que o mostra maduro para o salto qualitativo que precisa ser dado.

O FIM PRÓXIMO, MELANCÓLICO E INGLÓRIO

Temos dito (e ainda não mudamos de pensar) que parte dos jornais sobreviverá e parte está condenada a um final melancólico. No Sul da Bahia, onde o setor não tem recebido nenhuma espécie de investimento – ao contrário, vê seu capital de giro escapar pelo ralo da irresponsabilidade – a morte da comunicação impressa parece iminente, implacável, inexorável e irreversível. Sem atualização das linhas editoriais, sem investimentos em tecnologia e, sobretudo, em pessoal, o fim se aproxima, e estamos destinados a engrossar as estatísticas dos mortos sem glória na guerra contra a internet.

NOTÍCIA COM QUALIDADE DE PÃO DORMIDO

Nossos jornais se erguem sobre uma estratégia pouco resistente: acreditam que seu público está disposto a comprar notícia como se fosse pão mofado; que esse público não se incomoda de ver a mesma matéria (em geral produzida por órgãos públicos) em todos os jornais; e que os leitores gostam de publicações que se fazem de boletins partidários à direita ou à esquerda, quando deveriam fornecer análises mais ou menos isentas das campanhas políticas. Logo, faz-se uma aposta suicida na falta de inteligência do leitor, quando a lógica recomenda o contrário. Que isso vai dar errado, todo mundo faz que não sabe.

CIDADÃOS CUMPREM A LEI; BANDIDOS, NÃO

Dia desses, em tom aberto de desafio que aceitei de bom grado, me perguntaram se eu era cidadão. Respondi que me esforçava para sê-lo. “E o que é ser cidadão?” – insistiram, agora com uma pergunta de resposta mais difícil. Improvisei algo que, a meu juízo, diferencia cidadãos e bandidos (sejam estes do morro ou da cidade, descalços ou de colarinho engomado, andando de buzu ou em carro de luxo): o cumprimento da lei. É a lei que iguala as pessoas, dá a todas elas os mesmos direitos e deveres, não é feita para servir uns e prejudicar outros. O dito cidadão que não cumpre a lei, bandido é, pois a ele se equipara em comportamento. O substantivo “fora-da-lei” lhe cai muito bem.

VIVEMOS EM BAIXO NÍVEL DE CIDADANIA

Tentei me explicar, com uma espécie de decálogo do cidadão, que vai aqui repetida, não exatamente na ordem em que foi apresentada naquele momento. Cidadão, dentre outras coisas, 1) paga seus impostos, 2) não dirige alcoolizado, 3) não compra CD/DVD pirata, 4) usa cinto de segurança, 5) não joga no bicho, 6) não faz “gato” (serviços de água e/ou energia elétrica), 7) não ultrapassa em faixa dupla, 8 ) não contrabandeia drogas, armas, bebidas ou soja transgênica, 9) respeita a faixa de pedestres e 10) não ”invade” sinal vermelho. Se acaso você disser que não conhece muita gente que proceda assim, estará atestando o indigente grau de cidadania em que vivemos. Mas não me culpe.

O QUE CONTA É LEVAR VANTAGEM EM TUDO

É claro que há outros metros para avaliar o comportamento cidadão (jogar lixo na rua, e dirigir falando ao celular, por exemplo) e também é preciso consciência sobre os direitos, cobrar os compromissos do governo, a clareza de que os serviços públicos não constituem doação de governante bonzinho, mas obrigação do cargo ocupado. Nesta parte, entretanto, estamos bem: mesmo àqueles que não cumprem nenhum item do “decálogo” acima, não falta disposição para criticar todo tipo de atitude oficial. Embora use abertamente a lei da vantagem, o crítico exige pureza do governo. Nesse quesito, o brasileiro costuma valer-se de uma fórmula velha e calhorda: “Faça o que eu mando, não faça o que eu faço”.

O ADJETIVO EM BUSCA DE UM LUGAR AO SOL

Os que escrevem habitualmente dividem preferências quanto ao adjetivo: uns o execram sem o menor sinal de compaixão, pregando reduzir a zero sua presença no texto; outros o aspergem aleatoriamente na página, atrelando-o a qualquer substantivo descuidado. Talvez seja possível encontrar-lhe um lugar, o meio termo, o uso quando necessário. Graciliano Ramos, escritor de estilo “descarnado”, usava esse penduricalho no lugar certo, no momento aprazado. “Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes”, diz ele abrindo magistralmente Vidas secas (citado aqui há poucos dias). Na mesma frase, dois adjetivos certeiros e indispensáveis.

O TROPEL DA BOIADA TOCADA  A ADJETIVOS

Ao descrever a marcha dos bois em “O burrinho pedrês” (Sagarana), Guimarães Rosa (foto) constroi um período cheio de adjetivos relativos ao gado: Galhudos, gaiolos, estrelos, espécios, combucos, cubetos, lobunos, lompardos, caldeiros, sambraias, chamurros, churriados, corombos, coruetos bocaleos, borralhos, chumbados, chitados, vareiros, silveiros… E os toscos da testa do mocho macheado, e as rugas antigas do boi corualão… Uma fartura de dez aliterações, em catorze versos pentassilábicos, se não errei a contagem. Mas o autor ainda não esgotou sua riqueza vocabular para essa impressionante descrição da boiada em movimento.

“DEFEITO” RECEBE ELOGIOS DE GRACILIANO

Algumas páginas à frente, voltamos a ouvir o rumor dos cascos no chão, agora marcado por mais dezesseis versos de cinco sílabas: As ancas balançam, e as vagas de dorsos das vacas e touros, batendo com as caudas, mugindo no meio, na massa embolada, com atritos de couros, estratos de guampas, estrondos e baques, e o berro queixoso do gado junqueira, de chifres imensos, com muita tristeza, saudade dos campos, querência dos pastos de lá do sertão… Comentando estes trechos, Graciliano Ramos, tido como inimigo dos adjetivos, percebeu em Rosa “certa dissipação naturalista”, mas ressaltou: “Se isto é defeito, confesso que o defeito me agrada”.

MULHERES DE NOEL, OU O AMOR EM VERSOS

Já falamos de Três apitos, samba que Noel Rosa fez para Josefina (a Fina), operária de uma fábrica de botões de madrepérola, que o poeta entendeu ser a fiação Confiança. Mas Fina (foto) é apenas uma das chamadas mulheres de Noel, as musas imortalizadas em versos. Antes dela, Clara Correa Neto, namorico dos tempos de colégio, ganhara Não deixe morrer; mais tarde, Júlia Bernardes (Julinha), diferente de Clara e Fina, maquiagem pesada, bebida idem, sem recatos, anti-romântica: é a musa das mentiras e falsidades nas regras baixas do jogo do amor. Com ela o poeta exercita a ironia e externa seu sofrimento em Vai para casa depressa, Meu barracão, Pra esquecer, Cor de cinza e Feitio de oração.

PESSIMISMO QUE LEMBRA MACHADO DE ASSIS

Esta é a fase mais amarga do poeta: em Vai para casa depressa (com Francisco Matoso) ele fala da disputa de Julinha por “dois malandros de fibra”, dizendo que tal mulher não merece um duelo, e que “Só há uma solução:/ Pra que brigar à-toa?/Basta tirar cara ou coroa/ Com um níquel de tostão”. O otimismo não é recuperado em Cor de cinza: “Com seu aparecimento/ Todo o céu ficou cinzento / E São Pedro zangado”, e muito menos em Pra esquecer, em que se vislumbra um traço de pessimismo à moda de outro famoso carioca: “Prá esquecer a desgraça/ Tiro mais uma fumaça/ Do cigarro que filei/ De um ex-amigo/ Que outrora sustentei”. De toda forma, é pouco provável que Noel tenha lido Machado de Assis.

NOEL DESCOBRE O NOVO CAMINHO DO SAMBA

A produção de Noel em 1933 é fantástica. Todos conhecem umas dez canções desse período, algumas gravadas na cabeça do público interessado em MPB: Três apitos (já resenhada aqui), Onde está a honestidade?, Não tem tradução, Quando o samba acabou, Rapaz folgado (resposta a Wilson Batista) e Feitio de oração. A conturbada fase Julinha teve um intervalo, quando Noel se adoça, abandona a ironia cruel, deixa de ser o amante ferido e volta a ser apenas o poeta genial: nasce Feitio de Oração (sobre melodia pré-existente de Vadico). Sociólogos e musicólogos têm-se debruçado sobre Feitio, exaltando o novo caminho aberto ao samba brasileiro, o feliz casamento da poesia com a música.

“ÚLTIMO DESEJO”: O TESTAMENTO DO POETA

Em 1937, aos 26 anos, tuberculoso, magro e frágil, Noel está morrendo em casa, ao lado de Lindaura, sua mulher (foto, de 1987), e outros familiares. Às portas da morte, ele não esquecera sua grande paixão, Ceci – que levará pela vida afora o testamento cruel do poeta (“Se alguma pessoa amiga/ pedir que você lhe diga/ se você me quer ou não…”), Último Desejo. São também desses derradeiros dias Eu sei sofrer e Pra que mentir (outro “recado” à amada). Às 16h30 daquele 4 de maio, Noel falou qualquer coisa com seu irmão Hélio, fechou os olhos e morreu, aos 26 anos, quatro meses e 23 dias. Na casa ao lado (do músico Vicente Sabonete), cantava-se o partido-alto De babado (Noel-João Mina). Aqui, Último desejo, com Nelson Gonçalves.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

INTELECTUAIS SÃO SENSÍVEIS A ELOGIOS

Ousarme Citoaian

Algum escritor (ou, para ser justo na provocação, algum profissional) é insensível ao elogio? Provavelmente não, mas alguns disfarçam bem essa humana fraqueza. Parece que tudo se resolve se tratarmos o assunto com certa dignidade, sem entregar o jogo, desfazendo-se em felicidade a propósito de qualquer referência encomiástica, feito donzela pudica que se ruboriza diante de um galanteio oblíquo. Quando Machado de Assis disse, a propósito da Academia, “Esta é a glória que fica, eleva, honra e consola”, denotou certo pendor para a vaidade. Mas, anos antes, ele foi mais específico: “Amo elogios. Eles fazem bem à alma e ao corpo”.

“UM ELOGIOZINHO, PELO AMOR DE DEUS”

Na crônica “Tudo são vaidades” Fernando Sabino fala de um intelectual que vivia de chapéu na mão, dizendo: “Um elogiozinho, pelo amor de Deus…”. Seria Jorge de Lima (foto) e a história foi uma maldade criada pelo genial Nelson Rodrigues: numa cafeteria, o poeta viu Clarice Lispector, aproximou-se dela e se apresentou: “Sou o poeta Jorge de Lima”, ficando à espera de algum elogio, que não veio. Clarice não tugiu nem mugiu e o escritor alagoano afastou-se tristonho, cabisbaixo, à beira da depressão. Dê-se à estória o desconto de ser da lavra de Nelson Rodrigues, um autor que se valia, como poucos, do exagero.

MÁRIO E AS SUAS “VAIDADES JUSTIFICÁVEIS”

Se o taciturno e contido Machado amava o elogio, Mário de Andrade (foto) não lhe ficou atrás, ao dizer que “são justificáveis certas vaidades, quando nascidas de um sadio desejo de ver o valor de sua obra reconhecido e aclamado”. No popular, circunlóquios à parte, vaidoso. Conta-se que Cyro dos Anjos, a exemplo do autor de Dom Casmurro, preferiu ser direto. Quando lhe perguntaram por que entrou para a ABL, respondeu: “Vaidade”. Se não estou enganado, é Marques Rebelo (citado por Hélio Pólvora) quem tem a receita para suprir a necessidade de elogios: “A única crítica que realmente interessa é a dos amigos”.

PONTO COMUM ENTRE FUTEBOL E NOVELA

Um jogo de futebol tem sua duração dividida em duas frações de 45 minutos, chamadas de primeiro e segundo tempos. Qualquer brasileiro sabe disso, pois futebol é o esporte nacional, de sorte que todos nós conhecemos um pouco dele, nem que seja por osmose. É como novela da Globo: somos tão bombardeados pela mídia que não há como não ter informações sobre o gênero, por mais que se o deteste. Voltando ao esporte bretão: na tevê, fico sabendo que o árbitro deu, na partida a que assisto, “três minutos de acréscimo”, e que “o jogo vai até os 48 minutos”. É mais uma bobagem dita por um comunicador e repetida por outros: a lei do futebol estabelece duas etapas de 45 minutos, num total de 90. Nada mais.

DESCONTO E ACRÉSCIMO SÃO INIMIGOS

O árbitro não acrescenta nada aos tempos definidos pela Fifa. Ele desconta o tempo em que o jogo, por qualquer motivo, esteve interrompido (substituições, atendimento médico, fenômenos meteorológicos, troca de sopapos, falta de bola, algum engraçadinho que invadiu o campo, e por aí vai). O árbitro (preferível a juiz!) controla com um cronômetro o tempo jogado, com outro as interrupções – que são os descontos do período de 45 minutos. Se o jogo foi parado durante cinco minutos, por hipótese, ele precisa dar esses cinco minutos de desconto, para atender à exigência legal. Se ele não der esse desconto das paralisações o tempo de 45 terá sido reduzido a 40, com flagrante trauma às normas da Fifa.

RIQUEZA QUE VEM DAS ARQUIBANCADAS

Nossa tese é de que as redações precisam ler mais e repetir menos, tendo zelo com a linguagem, não só no esporte. A renovação da língua não deve ser feita com invenções elitistas e agressivas, mas de forma natural, aquela que nasce nas ruas e, para o caso, nas arquibancadas. O português absorveu expressões que enriqueceram a linguagem do futebol: chapéu, meia-lua, comer a bola, freguês, chega-pra-lá, passeio, chocolate, cama-de-gato, ladrão (aquele que “rouba” a bola), bola quadrada, bola comprida e outras de agradável sabor brasileiro. Mas desconto e acréscimo são termos antagônicos – e se o árbitro acrescentar será demitido por justa causa: o jogo só tem 90 minutos – é a Fifa quem o diz.

NOME PRÓPRIO IMPOSTO PELO CARTÓRIO

Dia desses falávamos aqui de nomes próprios e as barbaridades que com eles são feitas nos cartórios brasileiros (brasileiros, sim, pois em Portugal não tem disso não – lá, ao que me consta, se observa a norma da língua!). Pois lembrei-me de uma prova de que, além de anotar nomes de grafias esdrúxulas (muitas vezes por sugestão dos pais), o cartório também impõe nomes, de acordo com o gosto do escrivão. Esta aconteceu em São Paulo, nos anos cinqüenta e está narrada em livro de grande êxito de vendas.

SEBASTIANA NÃO É NOME DE GENTE FINA

Ao procurar registrar a filha, a mãe disse o nome: Sebastiana (um bom nome português, com origem em São Sebastião). A escrivã foi direta: “Com este nome eu não registro, pois todo nortista que chega aqui quer botar o nome de Sebastião ou Sebastiana. Povo sem criatividade!” O argumento da mãe (“é um nome bonito”) não convenceu a escrivã: “Pode ser bonito, lá pras suas bandas” (…), mas que em SP ela teria que botar um nome de gente fina, “gente classificada”. E decidiu que a menina se chamaria Ruth.

E ASSIM TIANA FOI “PROMOVIDA” A RUTH

O episódio está bem contado no livro A história de Lula, o filho do Brasil (da jornalista Denise Paraná), mostrando como a irmã mais nova do futuro presidente da República (de nome Sebastiana e apelido Tiana), passou a se chamar Ruth (assim com TH, coisa fina, de gente classificada). O melhor dessa página de autoritarismo e desrespeito aos pobres Denise Paraná deixa por último: quando dona Lindu, a mãe de Lula e Tiana, perguntou o  nome da escrivã, esta respondeu: Ruth. Mulher classificada, já se vê.

COMENTE »

HAVIA UMA LUA BRANCA NAS PEDRAS NEGRAS

Havia céu e sol na correnteza,
Brilhinhos chuviscando a natureza.
Nos peraus e pedras negras havia
Uma lua, branca ave sem ser fria.

Não havia dúvida nem certeza
Apenas rioflor, risos de pureza.
Certamente, canção de noite e dia,
Certamente uma fábula que havia.
E olhos de outras águas, de lei renhida,
Rosto de sofrido sol, de sombria
Lua, decididamente haveria

Vendo vidrinho sem antiga dança,
Prata da noite em superfície mansa
Reinventando o mistério da vida.

SE “ELA” FALA, EU ME CALO E BATO PALMAS

“Soneto do rio Cachoeira” é de Cyro de Mattos, tirado de Vinte poemas do rio (na foto, a capa do livro em alemão). O tema é recorrente (basta ver o título do livro). “Cyro de Mattos é um dos grandes escritores da minha terra, da minha cidade, Itabuna. Portanto, um irmão das mesmas águas, das mesmas sombras dos cacauais”, assinala Margarida Fahel, dizendo da prosa de Cyro que “muitas de suas palavras falam por mim, falam de mim, também grapiúna”. E acrescenta que ler Cyro de Mattos é “participar da missão de eternizar em cada um a alma de um rio, de uma terra, de uma civilização”, além de “reconhecer um pouco que seja da verdade humana, pungente de dor e de mistérios”.  E quando Margarida Fahel se pronuncia, eu me calo e aplaudo.

ENCANTO ADORMECIDO HÁ MEIO SÉCULO

A marcha-rancho (que já foi conhecida como marcha de rancho) está tão demodé quanto o sapato de duas cores, o vestido tubinho, a calça boca de sino e a coqueluche. Tão surpreendente quanto o espartilho, a bengala, o chapéu palheta, o cabriolé e o fusca de quatro portas. Mas o gênero já teve seus dias de glória – e coleciona clássicos da MPB que embalaram gerações e, supõe-se, embora adormecido, ainda conserva seu encanto. Em épocas diferentes (talvez até os anos sessenta), uma marcha-rancho sempre esteve nas boas bocas do Brasil. Sem ameaçar os grandes hits da hora, mas sempre presente, graças a seu público fiel.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

PEQUENA RELAÇÃO DE OBRAS-PRIMAS

As pastorinhas/1934 (Noel Rosa-Braguinha); Estrela do mar/1952 (Marino Pinto-Paulo Soledade); Rancho das flores/1961 (Vinícius, sobre tema de J. S. Bach); Estão voltando as flores/1962 (Paulo Soledade); Rancho das namoradas/1962 (Vinícius-Ari Barroso);  Marcha da Quarta-Feira de Cinzas/1963 (Vinícius-Carlos Lyra); Porta-estandarte /1965 (Fernando Lona-Geraldo Vandré) – e  certamente outras grandes que me escapam da memória – são exemplos da importância da marcha-rancho. Vinícius de Morais (foto), mestre no gênero (há três dele na minha relação de sete!), mantinha, como todo intelectual que se preza, permanente diálogo com o passado, e a marcha-rancho era uma de suas pontes.

MUITA POESIA, POUCO RECONHECIMENTO

Biógrafos atribuem ao poeta carioca a afirmação de que a marcha-rancho fazia parte de um tempo em que música de carnaval era poesia.  Alguns deles citam também como do Poetinha uma frase que resume, numa expressão de gíria, o que ele pensava sobre o conteúdo poético desse gênero: “Marcha-Rancho é covardia!” Aqui, para retomar a intimidade com um estilo quase extinto (e aproveitando o gancho da primavera recém-chegada), Estão voltando as flores, de Paulo Soledade – gravada inicialmente por Helena de Lima e Dalva de Oliveira (foto) – em registro moderno da melhor voz masculina surgida na MPB dos últimos 37 anos: Emílio Santiago.

(O.C.)









WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia