Palavra-chave ‘música’
PAUL MCCARTNEY EM ITACARÉ
O ex-Beatle Paul McCartney desembarcará no Aeroporto Jorge Amado, em Ilhéus, nesta terça, 7, às 11h35min, e segue para descansar em um hotel de luxo em Itacaré, informa o Blog do Tom, do apresentador Tom Ribeiro.
Segundo o blog, Paul chega ao sul da Bahia com a esposa e músicos de sua banda em uma aeronave com capacidade para 14 pessoas. O músico deve ficar em Itacaré até a quarta-feira, 8, quando segue para Fortaleza, onde se apresenta no Estádio Castelão, dia 9.
LUTO NA MÚSICA SUL-BAIANA
Um dos fundadores da Banda Lordão, Clemides Pereira, Mimide, faleceu nesta madrugada de segunda-feira, 6, em Itabuna, após lutar contra o câncer. O corpo do músico de 73 anos está sendo velado no Santa Fé, ao lado do cemitério Campo Santo, onde será enterrado às 16 horas de hoje.
Ainda durante a madrugada, o vocalista da banda Lordão, Kocó, lamentou a perda. “É com grande pesar e comoção que o nosso querido Mimide, guitarrista fundador do Lord Ritmos – Lordão, faleceu nessa madrugada em Itabuna. Aos amigos, parentes e fãs o nosso momento de tristeza com os papos e risadas!!! Deus conforte a família”.
Mimide estava afastado da banda e, eventualmente, se apresentava tocando violão, segundo amigos, fragilizado pelo avanço da idade e pela doença.
TRIO DA HUANNA
Luto também numa das bandas mais famosas do arrocha na região. Ontem, Noelson Santos de Oliveira, Careca, faleceu após se sentir mal e sofrer duas paradas cardíacas. O corpo do funcionário da banda está sendo velado no SAF, próximo ao Grapiúna Tênis Clube, em Itabuna.
UNIVERSO PARALELO
DE LIVROS, EMPRÉSTIMOS E APROPRIAÇÕES
É curioso o comportamento das pessoas a respeito de livros. Não falo de lê-los, mas de tê-los. Conheço um professor, culto e gentil, íntimo de preciosismos como grego e latim, de quem tomar um livro emprestado torna-se quase uma violência. Apegado à sua biblioteca, em lhe sendo possível negar, não deixa jamais que lhe saia de sob as vistas uma unidade sequer, com receio de que ela não volte mais ao aconchego do lar. A justificá-lo ficam na outra ponta os leitores que não devolvem livros emprestados. Eduardo Anunciação (que Deus o acolha!) era do tipo: livro que a suas mãos chegasse mudava de dono, pois o bom Eduardo sofria de amnésia quanto a este assunto. Mas essa categoria é variada.
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Em nova casa, protegido contra traças
Dois exemplos: jornalista e escritor (dois títulos publicados), Daniel Thame gosta muito de livros, comprados ou não. Mas a quem lhe quiser emprestar algum eu sugiro ser generoso e o fazer com dedicatória, isto é, não emprestar, doar. Tenha a certeza de que o livro que outrora lhe pertenceu será lido e cuidado, mas não retornará, pois é pra frente que se anda. Por fim, o mais, digamos assim, sofisticado desse grupo, o professor de Direito e ex-roqueiro Adylson Machado: não devolve livro e ainda disserta sobre os motivos de não fazê-lo. Dá ao volume lugar de destaque em sua larga estante, espana-o, protege-o contra traças e outros malefícios, e questiona: “O primitivo dono faria tanto?”
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Não faltam bibliotecas, mas leitores
Não tenho ciúmes dos meus livros. Poderia emprestá-los todos, se encontrasse quem os lesse e os devolvesse intactos (para servir a outros leitores). Mas não quero doá-los a bibliotecas que vivem às moscas. O brasileiro acostumou-se a dizer que nos faltam bibliotecas públicas, o que é uma questão de senso comum: aprende-se a repetir isso, sem atentar para o fato constrangedor de que as bibliotecas existentes (poucas, é verdade, muito poucas, se nos comparamos com a mal falada Argentina) são ociosas. Voltando ao tema central, atribui-se a Bernard Shaw (ou seria Oscar Wilde?) esta frase: “Idiota é o homem que empresta um livro; mais idiota é o homem que o devolve”.
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ENTRE PARÊNTESES
Há tempos, esta coluna lamentou que certos redatores tenham posto a prêmio a cabeça do “se”: já não grafam “aluga-se”, mas “aluga” (e, em igual desvario, “vende”, em vez de “vende-se”, e “inicia”, em lugar de “inicia-se”. Seria, imagino, a Lei do Menor Esforço, aquela que festeja a preguiça e agride a boa linguagem. Pois lhes digo que acabo de surpreender um “se” inteiramente fora do lugar: entrou em moda, ficou bonitinho dizer coisas como “ele quer se aparecer”. Seja gentil com a língua portuguesa, não empregando tão despautério. Há verbos que nasceram pronominais e pronominais vão morrer. Não é o caso de aparecer, sabidamente inimigo do “se”.O MICROCONTO, DE HEMINGWAY A TREVISAN
A literatura brasileira registra, ao lado do romance, do conto/novela e da crônica, um segmento ainda um tanto enjeitado, o microconto. Mesmo não sendo novo (Hemingway já o praticou), ele não é aceito como gênero literário. O paranaense e mal-humorado Dalton Trevisan é um dos expoentes do que os americanos chamam microfiction (no Brasil há quem chame isso de microrrelato). Se acaso o microconto é uma competição para ver quem o faz menor, Trevisan está longe de ser o campeão, mas está no jogo: ele começou com o “conto curto” (40 linhas, 150 palavras) e fica cada vez mais econômico. Falemos de dois autores notáveis desse modelo, que parece irmão do haicai._______________
A tragédia em apenas sete palavras
Augusto Monterroso (1921-2003), premiado escritor guatemalteco é autor de um miniconto famoso, com apenas trinta e sete letras e sete palavras (O dinossauro): “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”. Antes dele, o americano Ernest Hemingway (1899-1961) gastou também sete termos, mas apenas vinte e seis caracteres, para fazer sua, digamos, narrativa: “Vende-se: sapatos de bebê, sem uso”. O dinossauro integra antologias em vários países, com muitos estudos de suas faces literária e política; o texto de Hemingway “fala” de uma tragédia familiar, uma criança que não chegou a nascer, ou que logo morreu. O trágico não é explícito, mas sugerido.
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Célio Nunes: drama em poucas palavras
Célio Nunes (1938-2009), contista sergipano de fortes ligações com Itabuna, teve lançado postumamente em 2001 seu livro Microcontos, com 62 narrativas curtas. Experimentado – publicou o primeiro livro em 1963, o último em 2005 – Célio não adentra os caminhos de Hemingway e Monterroso: é econômico em suas histórias, a maioria com menos de 200 palavras, mas a todas dota de princípio, meio e fim – conforme o modelo clássico, com finais, quase sempre, surpreendentes. Os personagens, conforme faz notar o poeta itabunense Plínio de Aguiar, na apresentação, “transitam por histórias marcadas pela dramaticidade da sobrevivência, por histórias que não raro terminam no pênalti da tragédia humana”.
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MANSO, SERENO, TRANQUILO, VOZ AFINADA
“Solidão é lava/ que cobre tudo (…)/ Solidão, palavra/ cavada no coração/ resignado e mudo…”. São versos de um artista reconhecido na MPB, sambista, chorão, cantor de voz pequena, porém afinada e segura – Paulinho da Viola. Homem manso, tranquilo, sereno, ele abriu um caminho pessoal na selva que é o meio artístico, impôs uma marca, criou um estilo de compor e de cantar. De 1968 (Paulino da Viola, Odeon) até nossos dias, são, pelo menos, oito discos fundamentais, entre eles (já disse ser o meu preferido) Bebadosamba (1996), o único de inéditos que ele gravou até hoje, parece-me. No vídeo, o grande Paulinho coadjuva Marisa Monte em Dança da solidão (do LP do mesmo nome, Odeon/1972).BANDA ILHEENSE OQUADRO FAZ SHOWS EM LONDRES
Sucesso em 2012 e donos de álbum incluído entre os 100 melhores discos entre os músicos baianos, os ilheenses d´OQuadro se preparam para um novo desafio. Em maio, eles desembarcam em Londres para três apresentações no Festival Bass Culture Clash: Bahia vs Londres, de 16 a 18 de maio.
O festival é resultado de parceria da British Underground com a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia e a Fundação Cultural da Bahia. Além dos meninos d´OQuadro, a banda Os Nelsons, de Paulo Afonso, também participam do festival, que reunirá os ingleses The Heatwave, MC Lady Chann e Natty.
O projeto também conta com oficinas, workshops e apresentações na Tenda do Teatro Popular, em Ilhéus, no dia 10 de maio, e no Largo do Pelourinho, em Salvador, no dia 11. Logo após, Os Nelsons e OQuadro partem para a turnê.
SEXTA DO FUXICO – E DA MÚSICA
A Confraria do Alto Beco do Fuxico vai adicionar mais um ingrediente aos casos e causos: a música. Hoje, a partir das 19 horas, os bares Confraria, Artigos para Beber e Sheik Quibes inauguram a “Sexta do Fuxico”. Os músicos Lilian Casas e Alex Félix vão soltar a voz no Alto Beco.
“ESTAMOS NOS SENTINDO MAIS LIVRES”, DIZ DANIELA APÓS REVELAR UNIÃO COM JORNALISTA
A cantora Daniela Mercury concedeu entrevista ao portal G1 para falar da decisão de revelar seu casamento com a jornalista Malu Verçosa, da Rede Bahia, e da reação da sociedade às fotos compartilhadas no Instagram.
- A repercussão foi muito positiva, de muito apoio, de integridade das pessoas.
Acompanhe o vídeo em que ela fala da escolha, repercussão e como está se sentindo com a sua relação homoafetiva. Ela diz compreender que deva se tornar ícone das ações contra a homofobia.
UNIVERSO PARALELO
ENTREVISTA QUE PARECE FRATURA EXPOSTA
Um programa de tevê usou (é literal o termo) uma criança para entrevistar, comprometer e constranger o deputado José Genoíno – criando uma grande polêmica sobre se houve ou não arranhões ao direito da criança, definido em lei. Como este espaço fala de jornalismo, mesmo que ninguém haja pedido minha opinião, dou-a, ainda assim. Deixo a criança ao juizado competente e atenho-me à outra face, o “entrevistado”, para dizer que “arranhão” é muito pouco: o que percebi foi a ética gravemente traumatizada, algo comparável a uma fratura exposta. Genoíno, condenado pelo Supremo Tribunal, não é santo, mas não cabe à mídia fazer-se de carrasco e executar penas.
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Chegaremos à tortura de entrevistados?
Diria aos jovens repórteres que o recurso da câmera escondida, comum nas tevês, me cheira a jornalismo policialesco, um segmento que me ocorreu inventar agora, e que nada tem de bom: tapeia-se o entrevistado para lhe “arrancar” o que ele não quer dizer. Se todos os meios são válidos para obter declarações (até explorar a inocência de crianças), daqui a pouco teremos “repórteres” torturando entrevistados, só para saber o que estes têm a declarar. Se o entrevistado não quer falar, precisamos respeitar seu direito (lembrem-se de que os tribunais, que têm a força, respeitam essa prerrogativa). Se Genoíno não quer falar à imprensa, está no direito dele.
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A lição que toda mãe pode transmitir
Encerrando, uma observação para os repórteres que ainda raciocinam fora dos padrões em voga: todo entrevistado tem o sagrado direito de, em frente à mídia, saber com quem está falando e a que veículo pertence quem o entrevista. Se esse contato não for feito às claras, estaremos empregando truques e artimanhas que não pertencem à profissão, e tampouco a engrandecem. No mais, se alguém achar que esta coluna defendeu o deputado não terá entendido nada. Aproveitando, uma “lição” sobre ética, que qualquer mãe é capaz de transmitir ao filho (e que serve não só para o jornalismo, mas para a vida): trate os outros da forma como gostaria de ser tratado.
(ENTRE PARÊNTESES)
AUTOR “BRITÂNICA” DIVULGA OBRA DE MARX
Leio, com alguma surpresa, este título de primeira página (os inventores de desnecessidades agora chamam primeira página de… “capa”!) num dos principais jornais de Salvador (um que antigamente se gabava de só “dar” verdades): Britânica explica obra de Marx. “Britânica”? – me interrogo, olhando a cara barbadíssima e nada feminina do geógrafo britânico David Harvey, especialista no pensador alemão que remexeu o mundo e até hoje provoca insônia e urticária na sociedade capitalista. E retornei à antiga dúvida: as razões que levam a mídia a erros tão grosseiros (no caso, uma expressão com cinco palavras, que passou pelas vistas de várias pessoas na redação).WILSON SIMONAL E O TEMPO DAS CINZAS
Um jovem cantor negro brasileiro dialoga com uma das divas do jazz, tratam-se como iguais e ele até a leva a pronunciar, em português, bobagens como “vou deixar cair” (uma gíria da época). O cantor é Wilson Simonal, aos 30 anos; a diva é Sarah Vaughan, com 45; o ano, 1970. Em outro momento, no Maracanãzinho lotado, ele transformou o público num imenso coral e pôs todos a cantar Meu limão, meu limoeiro em duas vozes, afinados, no tempo certo. Era o “Coro dos 30 mil”, regido por Simonal, que estava com tudo e não estava prosa, até vendia “Para, Pedro!” na França (alguém se lembra?), rivalizava em popularidade com Roberto Carlos. Mas como não há bem que seja eterno, veio o tempo cinzento._______________
A queda tão rápida quanto a ascensão
Simonal sumiu das paradas, deixou de fazer shows, ninguém queria gravá-lo mais. Seu crime? Divulgou-se que ele era dedo-duro do DOPS, a entidade que investigava, prendia, torturava e matava os inimigos da ditadura militar. A queda foi rápida como a subida: em 1975, na RCA Victor, a todo vapor, em 1980 grava na Copacabana e vende pouco, em seguida o mesmo resultado na Ariola, vai de déu em déu, até seu último registro, na Happy Sound (?) em 1998. Em 2000, esquecido e execrado, morreu de cirrose, provocada pelo alcoolismo em que mergulhou. Calava-se uma das mais esmeradas vozes da MPB. A familiares, o cantor dissera, pouco antes: “Eu não existo na história da música brasileira”. No vídeo, Simonal antes da queda, durante show em Lisboa.
(O.C.)
DE VOLTA, FORRÓ DO KAROÁ LANÇA “XOTE DO BOM” NESTE SÁBADO
No início dos anos 2000, o Forró do Karoá estourou regionalmente com uma mistura autêntica de xote e baião. Refrões como “Vem amor/ vem comigo/ vem dançar// vem amor/ é o Forró do Karoá” arrebanhavam público (cativo) no sul da Bahia. Após uma parada de sete anos, a banda retornou em 2012 com a mesma pegada. Amanhã, Vidal, Paulinho e Zelitinho celebram o retorno com o lançamento de um novo CD, Xote do bom, o terceiro da banda itabunense que difunde o autêntico som nordestino.
O show será neste sábado, 6, às 22 horas, na House Music Bar, na Avenida J.S.Pinheiro. Xote… é o nome da música que “puxa” o terceiro CD do trio do Forró do Karoá. Serão 12 canções, entre novas e regravações, como O livre-atirador e a pegadora, de Gilberto Gil.
COMPARTILHAMENTO GRATUITO DE CD
Todas as música de Xote do bom estão disponíveis para serem baixadas pela internet no Sendspace ou no site Palco MP3. “Este ano, decidimos não comercializar o CD, acreditando na força que as redes sociais têm para compartilhamento”, diz Vidal.
Vidal deixa claro o compromisso da banda em manter o nível de qualidade dos trabalhos. “Trabalhamos a sensualidade do forró, mas com a sutileza de quem faz arte e com a delicadeza própria da música de bom gosto”.
SERVIÇO
Quem: Forró do Karoá
Onde: House Music Bar
Quando: Sábado, 6, às 22h
MORRE COMPOSITOR DE “CIDADÃO COMUM”
Artista conhecido da cidade de Itapetinga, Dom Fontinelle, 56 anos, sofreu um infarto na madrugada desta terça-feira (26), em sua residência.
O artista estava acompanhado do filho, que pediu socorro. O Samu 192 chegou ao local, mas não conseguiu reanimar a vítima, que acabou falecendo ali mesmo.
Da obra do artista destacamos a canção Cidadão Comum, regravada por Flávio José, Gilberto Gil, Targino Gondim, Adelmário Coelho.
Seu trabalho mais recente foi um show humorístico, com piadas que se popularizaram e eram reproduzidas em todos os recantos de Itapetinga, resultado de uma das características de Fontinelle, que era o fino humor, com tiradas e causos. Informações do blog do Fábio Sena.
Abaixo, confira, Cidadão comum na voz de Flávio José.
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UNIVERSO PARALELO
PROFESSOR ILHEENSE VAI PRESIDIR A ABL
“A noite da última quinta-feira, 14, foi marcada pela retomada das atividades da Academia Brasileira de Letras e posse da nova diretoria, que será presidida pelo professor Josevandro Nascimento. Durante o evento, que contou com a presença do prefeito Jabes Ribeiro, foram prestadas homenagens póstumas ao poeta baiano Castro Alves, que nasceu na mesma data da solenidade”, dizia a notícia lida em respeitável blog. “Ora, vejam só!”, pensei de olho nos botões da blusa: “Um ilheense presidindo a Casa de Machado de Assis!” – e quase saí aos gritos e pulos, tomado dum agudo e justificado frenesi bairrístico.
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Castro Alves acaba de nascer, aleluia!
Mas, macaco antigo das redações, mantive minhas dúvidas e, como diriam os juristas, fui às provas: consultei dezesseis (!) blogs e dois importante jornais diários de Itabuna (os nomes não declino, mas adianto que o meu blog preferido, um que não gosta de molho agridoce, não está na lista). No entanto lhes digo, por ser rigorosamente verdadeiro, que os dezesseis veículos deram a notícia, fazendo do referido professor presidente da ABL – e criando uma barrigada monumental. Solidário, esperei uma semana pelo desmentido, que não veio; então, de alma lavada, enxaguada e embandeirada, comemoro publicamente o evento, pois não é toda hora que temos um ilheense a presidir o grande sodalício.
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O dia em que “mataram” Edivaldo Brito
E aquela parte que diz ter Castro Alves nascido “na mesma data da solenidade” me levou às lágrimas: é imenso privilégio ter aqui o Poeta dos Escravos bebezinho, em fraldas, nascido no dia 14 de março deste ano – mudando o curso da história. Falemos sério: a mídia contribui para a desinformação (e neste caso, o ridículo), ao publicar notinhas de assessoria sem submetê-las a copidesque, revisão e edição. O lastimável texto da prefeitura de Ilhéus foi replicado ipsis litteris, com erros gritantes, a ponto de dar o palestrante Edivaldo Brito como patrono da ABL – o que significa estar o mesmo morto e sepultado há, no barato, 120 anos. É demais pra minha paciência.
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COMILANÇA, OU O CASO DOS 3.600 PRATOS
Estupidez elevada à quarta potência
Tautologias à parte, a indigência vocabular da mídia tem mostrado disparates a todo momento, a ponto de sepultar termos consagrados pelo uso, em benefício de “novidades”. Vejam que, no noticiário policial, não mais existe a palavra “bala”, trocada por “munição”. Troca malsã: bala é munição, mas munição nem sempre é bala: um é termo genérico; o outro, específico. O pior é quando um repórter mais ignorante pouquinha coisa, diz que “a polícia apreendeu várias munições”. Esta palavra, se lhe cabe o uso, fica bem no singular; quando empregada no plural, em lugar de “balas”, temos um estranho caso de estupidez elevada à quarta potência. Ou, para quem prefere a medicina à matemática, um quadro de asnice recidivante.
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(ENTRE PARÊNTESES)
Permitam-me o pequeno anúncio: o livrinho Estória de facão e chuva (de 2005), esgotado, acaba de ter sua 2ª edição, por nímia gentileza da Editus (Editora da Universidade Estadual de Santa Cruz), tendo Rita Virgínia Argolo à frente. O pequeno volume (184 páginas) reúne 35 crônicas e dois discursos, sendo um deles de Hélio Pólvora, na Academia de Letras de Ilhéus, em 2001. A professora Maria Luiza Nora, na apresentação de Estória… diz que o autor “com sua escrita, nos descomplica, nos tira aquela pose que pode estar querendo se instalar, nos humaniza a ponto de darmos boas risadas de nós mesmos, e risadas de deboche, o que é melhor”. O autor, cativo, agradece.BARDOT E DENEUVE – REALIDADE E LENDA
Canções com uma história real a sustentá-las são corriqueiras. Mas algumas conseguem se debater entre a realidade e a lenda, sem que nós, ouvintes distantes da cena da gênese, saibamos a verdade. É o caso de Belle de jour (sic), momento romântico de Alceu Valença, que é cercado por essa magia do sim e do talvez. Dizem que Alceu estava num café, em Paris (mas já pra lá de Bagdá), quando lhe surgiu à frente Catherine Deneuve e, com ela a lembrança do filme Belle du jour: ali mesmo ele escreveu a canção, para depois descobrir que não vira La Deneuve, mas Brigitte Bardot! Outros falam de incerta moça que caminhava todas as tardes na praia da Boa Viagem, no Recife, e que se afogou…_______________
O sotaque de Alceu nem a Sorbonne tira
Claro que a versão de que a letra foi inspirada no filme de Buñuel não interessa, por ser muito óbvia, pouco instigante. E também não faltam os psicólogos de mesa de bar, a explicar que “azul” é referência a heroína (a bela estaria, nesta visão, chapada!), enquanto a Boa Viagem teria duplo sentido: não seria apenas a praia, mas também aquela “boa viagem” patrocinada pela droga (“A belle de jour no azul viajava…”). O artista não esclareceu a dúvida, preferindo reforçar o mito de que a canção foi feita num bar parisiense, quando ele, doidão da silva, teve um delírio e viu… sabe Deus quem! Eu gosto mesmo é do francês de Alceu: o accent pernambucano de São Bento do Una nem a Sorbonne tira. Graças a Deus.
(O.C.)
CANTOR EMÍLIO SANTIAGO MORRE AOS 66 ANOS
Emílio Santiago, uma das vozes mais marcantes da música brasileira, morreu nesta quarta-feira, 20, após 13 dias internado no Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro, vítima de acidente vascular cerebral (AVC).
Ainda não foram divulgados a causa da morte nem onde o corpo será velado. O cantor carioca nasceu em 1946 e era formado em Direito. Brilhou na música. Abaixo, ouça a interpretação de Emílio Santiago para Saigon.
UNIVERSO PARALELO
JORGE, QUEM DIRIA, ACABOU NA TELONA
O curta Ofuscado, de Elisa Araújo, nos guarda uma surpresa muito grata: o professor Jorge de Souza Araújo, ele mesmo, encabeça o elenco, fazendo o personagem Seu Malaquias. Ofuscado, rodado em Xique-Xique, procura refletir a realidade dos sertões da Bahia, o sofrimento de sua gente. A história se passa na fictícia Januário da Serra Vermelha. Do lado de cá da tela, na vida de verdade, Jorge, atrás de sua barba famosa, guarda muito de ficção, de tipo inventado em página de livro: sertanejo de Baixa Grande, família pobre assolada pela inclemência do sol, pôs às costas seu bocapiu de sonhos e perspectivas e partiu para a região do cacau.
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Coleção de amigos e prêmios literários
Em terras do sem fim, estudou, virou professor, doutorou-se em literatura no Rio de Janeiro, fez política, foi engraxate, trabalhou em jornais que mal lhe pagavam o almoço frugal, escreveu montes de livros (bem contados e medidos, chegam aos 35!), outro monte dorme na gaveta, à espera de editora. Coleciona amigos e prêmios literários. Entre estes estão o Jorge Amado, o Anchieta, o Graciliano Ramos, todos da Academia de Letras da Bahia. Raro exemplo de intelectual que não rompeu os vínculos com sua terra e seu povo, Jorge Araújo nunca permitiu que saberes, premiações, confetes e lantejoulas o fizessem arrogante. Contados os prêmios, resta dizer que é incerto e não sabido o número de amigos de Jorge.
A FALA DO TRONO, SEM ÓDIO E SEM MEDO
O discurso da presidenta Dilma, no Dia Internacional da Mulher, teve na mídia em geral boa repercussão. Em meios que não se afinam com o conservadorismo ainda resistente no País feito doença crônica, o efeito foi maior: valeu por nos lavar a alma. Setores da mídia enxergaram ali um aviso aos homens que perpetram violência contra as mulheres; outros, entre os quais me incluo, entendem que o “recado” de Dilma transpõe as fronteiras do feminismo, vai muito além das comemorações do oito de março: limitar a fala presidencial, emitida sem ódio e sem medo, apenas à defesa da mulher, seria reduzir-lhe efeitos e intenções.“Enfrentar os injustos e a injustiça”
Para lembrar, vai aqui o fecho da fala do trono, a palavra destemerosa da presidenta: “Faço um especial apelo e um alerta àqueles homens que, a despeito de tudo, ainda insistem em agredir suas mulheres. Se é por falta de amor e compaixão que vocês agem assim, peço que pensem no amor, no sacrifício e na dedicação que receberam de suas queridas mães. Mas se vocês agem assim por falta de respeito ou por falta de temor, não esqueçam jamais que a maior autoridade deste país é uma mulher, uma mulher que não tem medo de enfrentar os injustos nem a injustiça, estejam onde estiverem”. É discurso não apenas para ser publicado, mas cumprido.
O DETETIVE QUE INVESTIGAVA A SI MESMO
A mim me intriga o que faz autores e obras se eternizarem pelas noites dos tempos ou serem olvidados logo depois que surgem. Édipo Rei é um desses enigmas. Mito que influenciou Freud e até hoje dá camisa nova aos psicanalistas de todo o mundo (ao explicar certos conflitos familiares), o livro aceita, pelo menos, duas leituras: a de um rei que caminha em direção à própria desgraça, sem remédio; e uma espécie de história policial, em que um “detetive” caça o criminoso para, ao fim de tudo, descobrir que caçava a si próprio. As duas leituras têm um viés igualmente trágico: o leitor, impotente, vê o protagonista, impelido por deuses sem piedade, se aproximar do abismo inevitável._________________
Na alma infantil, amor, ódio e ciúme
A quem, por milagre, não saiba disso, eu digo que Complexo de Édipo, um embrulho de amor, ódio, ciúme e outros pecados da alma infantil, é criação de Freud: o menino cria esses sentimentos em relação à mãe lá pelos 2 a 5 anos. Mais tarde se identifica com o pai e o problema está resolvido. Claro que não é assim tão simples – nada é simples no velho Sigmund, nem nosso tema é a psique das pessoas, mas a literatura. Não pretendemos deslindar aqui o motivo de Édipo Rei estar nas livrarias até hoje. Acho que a provocação foi apenas por estar com saudades do jovem texto de Sófocles, de 15 séculos. Ah, sim, que a gentil leitora não se sinta discriminada: sei, sim, do Complexo de Eletra, que vem a ser o Édipo das meninas.
MANCHAS ROXAS, PÓ-DE-ARROZ E ORGULHO
Permiti- me a conclusão meio autoritária de que a gentil leitora e o atento leitor gostem dessa instituição nacional chamada… fofoca: o saxofonista Ben Webster (1909-1973) foi um dos muitos casos de Billie Holiday, cantora assentada em lugar de honra no panteão do jazz, colecionou amantes, sucessos e infortúnios – e que tinha uma mente capaz de revirar pelo avesso a alma do próprio Freud, aquele que tudo explicava. Webster era bem seu modelo: negro, bonito e de caráter explosivo, inclinado à garrafa, e que se tornava violento ao entornar uns copinhos a mais. No dia seguinte às sessões de amor (?) do casal, Billie, orgulhosa do seu homem, disfarçava as manchas roxas no rosto com espessa camada de pó-de-arroz._______________
Suave e agressivo, no palco e na vida
Não me acusem de mau gosto, pois isto não é fofoca, é história – se omitida, não faria diferença na qualidade dos dois músicos, mas, ainda assim, é história. Um autor, já não me lembra quem, disse que o jeito de Ben Webster tocar reflete um tipo (bipolar, avant la lettre), terno e irascível: arrebatou fãs tanto para a agressividade do blues quanto para as baladas – gênero que, no fim da vida, adotou com mais frequência. Depois de várias turnês pela Europa, onde se tornou popular, radicou-se na Dinamarca, partir de 1964, e tocou muito, até apagar-se a velha chama, aos 64 anos. Aqui, para quem, por acaso, não conheça, uma visão do sopro lânguido de Webster: Over the rainbow, um tema que não me sai da cabeça.
(O.C.)
AROLDINHO, GODÓ E OSCAR NA PRÉ-LAVAGEM
Se Armandinho com sua indefctível guitarra baiana será a principal atração da Lavagem do Beco do Fuxico, em Itabuna, neste sábado, 9, a “pré-lavagem” não ficará atrás.
Acima do beco, na travessa Ithiel Xavier, também conhecida como Alto Beco do Fuxico, um grupo de boêmios participa da inauguração da Confraria, refinado estabelecimento que se dedicará ao comércio de variedades etílicas selecionadas, com destaque para cachaças das melhores regiões produtoras do Brasil.
A inauguração da Confraria começa às 18 horas desta sexta-feira, 8, e as grandes atrações serão o trio Arnaldinho, Godó e Oscar e o grupo Amor a Dois. O jornalista Walmir Rosário, confrade de primeira hora, já reservou lugar no evento.
VOCALISTA DO CHARLIE BROWN JR. É ENCONTRADO MORTO
Alexandre Magno Brandão, o Chorão, que era vocalista do Charlie Brown Jr., foi encontrado morto pelo motorista da banda na madrugada desta quarta-feira, 6. Chorão estava em seu apartamento no bairro paulista de Pinheiros, onde neste momento a polícia civil realiza perícia. A causa da morte ainda não foi determinada.
O vocalista faria 43 anos em abril. Ao longo de 20 anos de carreira, o Charlie Brown Jr. vendeu 5 milhões de discos. Com informações de agências.
Veja abaixo o clipe da música “Só os loucos sabem”, sucesso do grupo.
UNIVERSO PARALELO
A “BARRIGADA” É O TERROR DAS REDAÇÕES
Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.brO sentido mais comum para barrigada é o de bater com a barriga (no samba de roda, umbigada), mergulhar de mau jeito, se o indivíduo, em vez de entrar na água de cabeça, cai de barriga. Com outro significado (divulgar notícia que não aconteceu), a barrigada é o terror das redações. Quando o veículo “torce” a matéria, em benefício de interesse que não o dos leitores, diz-se que ele é tendencioso, manipulador. Também se pode, com essa intenção desonesta, publicar algo não acontecido, para beneficiar ou prejudicar pessoas ou instituições – mas aí também não é barrigada. Esta é um erro involuntário – causado pela paranoia de dar um “furo” ou pela pressão do deadline (se não der a notícia agora, vai esperar a próxima edição).
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Jornalistas devem “parecer” isentos
Neste começo de ano, barrigadas monumentais, em dois veículos famosos do Brasil e da Espanha. El País divulgou, com o destaque “merecido” também na edição online, como sendo do presidente Hugo Chávez a foto de um sujeito entubado, agonizante, se não morto; O Estadão deu em primeira página que o ex-presidente Lula seria investigado pelo Ministério Público Federal (MPF). No primeiro caso, o jornal logo admitiu o erro e recolheu a edição; no caso brasileiro, foi o MPF que desmentiu o boato.Como ambas são noticias políticas, é de se especular se outros fatores, além dos que citamos, não contribuíram, lá e cá, para o “mico”. Jornais e jornalistas não são isentos, mas devem se esforçar para conter seus interesses pessoais.
(ENTRE PARÊNTESES)
Leio coisas como “o comunista Fulano”, o “socialista Sicrano” – em referência a pessoas que militam em certos partidos, e me sinto incomodado. Tais grêmios não têm uma gota de ideologia, um cêntimo de marxismo, uma pitada de teoria política, um grama, sequer, de solidariedade humana. Seus membros, festejados na mídia, nada fazem ou dizem que denunciem já terem lido, pelo menos, as orelhas de Marx, Engels, Rosa Luxemburgo ou Gramsci. Penso até que estes autores, indignados, se sacodiriam em suas tumbas, se acaso pudessem perceber o comportamento dos “camaradas” de nossos dias. Indago, à Machado de Assis: mudariam os comunistas ou mudei eu?JOÃO SALDANHA, O BOTAFOGO E O CHOPE
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UM POUCO LEMBRADO SAXOFONE “DA PESADA”
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(O.C.)
A POLÊMICA “ZIRIGUIDUM”
Internautas criaram polêmica em torno da música candidata a “mais tocada” do carnaval de Salvador: Ziriguidum, dos Filhos de Jorge. O “pomo da discórdia” é a canção Yiri yiri bom, sucesso na voz do cubano Beny Moré e de autoria de Mendez Lopez. Mas o próprio grupo baiano assume que Ziriguidum se trata de versão da música cubana. Abaixo, confira o original e a versão baiana, com o devido crédito.
Aqui, o vídeo dos Filhos de Jorge, com Ziriguidum:
UNIVERSO PARALELO
MÚSICA, PODEROSO INSTRUMENTO DIDÁTICO
A música é tão poderoso instrumento didático que com as professoras de antanho (em geral, leigas, mas dedicadas), aprendia-se aritmética cantando: “Dois e dois, quatro; quatro e dois, seis…” (se a gentil leitora duvida, pergunte a seu bisavô – e ele cantará, mesmo desafinado). Ressalte-se que quando o sujeito errava, quem “cantava” era a palmatória! Os masoquista diriam, com ar saudoso e olhar perdido no passado: “Bons tempos, aqueles!” Fiz um introito pra dizer que certos versos de mau gosto grudam na gente, sobretudo quando são cantados. E os exemplos são muitos. Lembram-se do “Melhoral, melhoral, é melhor e não faz mal”? Ridículo, como texto, mas grudento feito goma arábica (atenção avós!).
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Os demônios dentro de nós adormecidos
“Mamãe eu quero” (Jararaca-Vicente Paiva) nasceu nos anos trinta e é ouvida até hoje, no seu abobalhado “Mamãe eu quero mamar”– e seria fácil citar outras. Uma de minhas preferidas é a patética Que será?, de Marino Pinto e Mauro Rossi, criada por Dalva de Oliveira (e com uma regravação dispensável de uma cantora chamada Ana Carolina). A canção carrega no seu mau gosto um questionamento eterno: “Que será/da luz difusa do abajur lilás/se nunca mais vier a iluminar/outras noites iguais?”. Ah, aquela “luz difusa do abajur lilás”!… É verso suficientemente eficaz em sua breguice para despertar demônios dentro de nós adormecidos em épocas que (feliz ou infelizmente) jamais voltarão. Não haverá noites iguais àquelas.
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(ENTRE PARÊNTESES)
QUEM ALISOU OS BANCOS ESCOLARES SABE
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Compromisso da mídia com a norma culta
Entende-se que chover “pede” advérbio, não adjetivo; por isso, “Choveu fortemente…” seria a forma adequada, em língua portuguesa, deixando-se o “Choveu forte…” para esse dialeto que falam por aí. Pelo mesmo raciocínio, “treinar fortemente”, “investir fortemente” (e “trabalhar arduamente”, “estudar incansavelmente”) etc. Não há de faltar quem esgrima o manjado argumento do dinamismo da língua. E eu lhes direi, no entanto, que esses fenômenos são muito bem-vindos ao coloquial, mas inaceitáveis na chamada norma culta – e é com esta o compromisso da (boa) mídia, pouco importa que seja jornal, rádio, tevê ou blog.
QUATRO MÚSICOS QUE SE FORMARAM EM CASA
Wynton Marshalis é de 1961, por isso é menino em relação à corrente mais festejada (mainstream) do trompete de jazz (Armstrong, Davis, Chet Baker, Clifford Brown, Gillespie, Fred Hubbard, Arturo Sandoval), mas é um dos mais festejados pela crítica, que o considera responsável pelo retorno do jazz ao lugar merecido. Filho de um músico que mais ensinava do que tocava, ele voltou-se para a arte desde criança, em sua terra natal, Nova Orleans, e mais tarde estudou regularmente numa sofisticada escola de Nova Iorque. Aplicado aluno de primeiro ano, impressionou o baterista Art Blakey e logo foi tocar no celeiro de estrelas que era o Jazz Messengers daquele. Mr. Marshalis, le père, era professor de verdade, tendo formado em casa quatro músicos: Wynton (trompete), Branford (sax), Delfeayo (trombone) e Jason (bateria)._______________
Um abraço no jazz, outro no clássico
Aos vinte anos, Wynton já tinha seu próprio quinteto e excursionava pelos EUA, tocando em clubes de jazz, festivais e concertos. Seu grupo participou, na época, de homenagem prestada ao pianista Thelonious Monk, em Nova Iorque. Após essa experiência, “faz” a Europa e o Japão, depois regressa a Londres, para gravar seu primeiro disco, de peças clássicas, incluindo Haydn. Wynton Marshalis se manteve fiel à fórmula jazz e clássicos: aos 24 anos torna-se o primeiro músico instrumental a receber dois Grammy ao mesmo tempo – um na categoria jazz e outra na categoria de música erudita, nos dois casos, como melhor solista. Em 1997 tornou-se o primeiro músico de jazz a receber o Pulitzer, pela autoria de Blood on the fields, sobre a vida dos escravos norte-americanos. Foi eleito membro honorário da England´s Royal Academy of Music.
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Violinos: estranhos no ninho ao jazz
Em 1984, Wynton Marshalis e a não menos famosa Boston Pops Orchestra acompanham a diva Sarah Vaughan na gravação de alguns standards, entre eles o inebriante Autumn leaves, Body and soul e September song. Observe-se na faixa que selecionamos (September song) a discrição com que Wynton se comporta. Arrisco-me a dizer que ele faz suas intervenções com extremo cuidado, evitando que o trompete se saliente. O músico premiado meio que se rende à grandeza da estrela, sem nenhum acorde que nos faça suspeitar de que ele quer roubar a cena. Mas não resisto a dizer, mesmo sujeito a pedradas, que a Boston Pops é, para este caso, inteiramente dispensável: cordas não fazem falta no ninho do jazz, a quem bastam piano, baixo e bateria e um metal de responsabilidade.
(O.C.)
UNIVERSO PARALELO
LUIZ GONZAGA FAZIA ACORDES, NÃO VERSOS
Findo 2012, quando foi comemorado o centenário de Luiz Gonzaga, saltou-me aos olhos certo equívoco, perpetrado pela mídia. No afã de prestigiar o Rei, salientaram-lhe qualidades que ele nunca teve. Numa muito criativa matéria de tevê (creio que na Globo) esmiuçou-se a asa branca (uma espécie de pomba, em extinção) e que deu título à música famosa. Lá pras tantas, a repórter danou-se a louvar a “literatura” de Luiz Gonzaga, os “poderosos versos” sobre o sertão, o nordestino, o vaqueiro, a seca e por aí vai, esbanjando um desconhecimento que não se permite a nenhum profissional do gênero: para ser grande (e por ser grande), o Rei nunca se apropriou da qualidade de seus letristas. Ele não fazia “literatura”, fazia acordes.
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Os grandes letristas quase esquecidos
“Era excelente musicista”, atesta o respeitável especialista em Direito Municipal (e ex-roqueiro de igual respeito) Adylson Machado. As comemorações deixaram Humberto Teixeira em quase completo esquecimento, o que me pareceu grande injustiça com quem escreveu um monte de “clássicos” cantados pelo Rei. Cito de memória (além de Asa branca) várias outras, algumas delas obras-primas do gênero, no meu modesto entender: Juazeiro, Qui nem jiló, Estrada de Canindé, Paraíba, Assum preto, Respeita Januário, Mangaratiba, No meu pé de serra, Lorota boa… De Zé Dantas falei em outras colunas: Vozes da seca, A volta da asa branca, Letra i, Riacho do Navio, Cintura fina, Paulo Afonso. A ignorância vigente na mídia é de espantar.
SEM MISÉRIA, NÃO HÁ JAZZ “DE VERDADE”
Promessa é dívida. Voltamos aos best-sellers do jazz, em que seus integrantes, tal qual os escritores, são acusados de vender muito e… ganhar dinheiro. As listas que todos conhecem são integradas por meia dúzia de grandes artistas negros, mas não incluem Nat King Cole, Frank Sinatra, Doris Day, Fred Astaire. Óbvio: além de serem quase todos brancos, esses venderam muito e, consequentemente, fizeram “concessões”, ficando marcados como “comerciais”. O senso comum diz que lhes falta desgraça e miséria suficientes para sentir o blues na própria pele – sem o que não se canta o jazz autêntico. Quem é jazzman (ou jazzwoman) de verdade morre com o estômago pregado às costas, mas concessões ao mercado, jamais.
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“Num quarto sujo, cheio de percevejos”
Este raciocínio, segundo Ruy Castro (no livro Tempestade de ritmos), foi montado pelos franceses, lá pelos anos trinta/quarenta, e de forma eficiente, “porque até hoje há quem acredite nele”. A teoria tenta preservar o músico de jazz como o tipo “bom selvagem” de Rousseau: negro, pobre, injustiçado, escravo do jazz, do álcool e da heroína, mas firme e incorruptível. Diante das “concessões” que levam à boa vida, escolhe vegetar num quarto sujo, cheio de percevejos (vide os filmes ´Round midnight e Bird, já referidos nesta coluna). “Duke Ellington, a caminho do seu alfaiate, tremia de medo dessa teoria”, ironiza Ruy Castro. Confesso que esse tipo me fascina – creio que fui formado nessa escola romântica.
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No fim, boleros derramados, em espanhol
Para ficar apenas num nome (que o espaço é tão pequeno para tanto amor), citemos o velho Nathaniel Adams Coles (1919-1965): pianista, tornou clássica a formação piano-guitarra-baixo, era cultuado pelo seu trio de jazz “autêntico”. Foi assim até resolver cantar canções “comerciais”, quando passou a ser execrado pela crítica. Esta jamais o perdoou por gravar e vender Mona Lisa, Unforgettable, Blue Gardenia e (aí nem eu aguentei!) uma enxurrada de boleros derramados, em espanhol. De ternos bem cortados, e dono de muitos dólares, Nat King Cole era discriminado no bairro rico onde residia. A gorda conta bancária não foi bastante para ofuscar o racismo, contra o qual ele era combatente.
(ENTRE PARÊNTESES)
Quase destruída física e moralmente, Itabuna aguarda ansiosa as ações do seu novo Messias. Nunca se viu um prefeito com tantas sugestões de nomes. Seu sobrenome é Renascer, mas ele poderia, sem desdouro, chamar-se Reconstruir, Reformar, Refazer, Remontar, Recuperar, tais são as expectativas criadas. É aceitável também, Salvador da Pátria, Fada Madrinha, Salvação da Lavoura, Houdini, Magoo e, se queremos algo mais abrangente, Panaceia. Mas que não seja o Mágico de Oz, pois de impostores já andamos cheios. A frase batida (do filme O fabuloso destino de Amélie Poulain) cabe aqui: “São tempos difíceis para os sonhadores”.
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EU VOLTAREI TÃO LOGO A NOITE ACABE
“Meu amor, eu não esqueço,/ não se esqueça, por favor,/ que eu voltarei depressa,/ tão logo a noite acabe,/ tão logo esse tempo passe,/para beijar você” – são versos de Para um amor no Recife, de Paulinho da Viola. A música foi feita para Dedé (Maria José Aureliano), uma professora pernambucana que hospedou Paulinho no Recife em 1971, quando ele foi lá apresentar-se durante três dias e ficou (graças à acolhida calorosa) quase um mês. No fim, Dedé chamava o cantor de filho (para isso, pedira e obtivera “autorização” da verdadeira mãe dele, no Rio). Mas Para um amor…, um grito contra a ditadura militar, esconde outra história menos “família”, menos lírica, menos divulgada.
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Feridas abertas e sangue derramado
Em A vida quer é coragem (do jornalista Ricardo Amaral), biografia da presidenta Dilma, surge a uruguaia Maria Cristina no capítulo intitulado “Tão logo a noite acabe”. Amaral conta que Cristina ligou-se à guerrilha no Brasil, devido à paixão que tinha pelo militante Tarzan de Castro, do PCdoB, preso em 1969, e amigo do ex-marido de Dilma, Carlos Araújo. As duas dividiram a mesma cela, em São Paulo, por oito meses. Quando a uruguaia, levada para as sessões de tortura, retornava, Dilma tratava das dores e lhe chamava a atenção para a letra de Paulinho, como uma espécie de bálsamo, ao cantar “Fechar a ferida e estancar o sangue”. Sentiam-se menos sós e desamparadas: lá fora, uma voz lírica dizia que a iniquidade não era eterna.
(O.C.)
LUIZ GONZAGA: O REI NORDESTINO E NEGRO (OU PARDO) QUE O POVO DO BRASIL ELEGEU
Em sua conversa semanal com os leitores, Ousarme Citoaian (que assina a coluna UNIVERSO PARALELO aqui no Pimenta) diz que, na questão do preconceito, “o Brasil esteve bem à frente dos EUA”, pois “elegeu um Rei do Baião, negro (ou pardo) e nordestino chamado Luiz Gonzaga”. O colunista se referia às relações históricas entre Elvis Presley e Chuck Berry – para muitos críticos, o verdadeiro “pai” do rock. Só que o mercado fez o gênero “fugir das mãos de Chuck Berry e ir parar no colo de Elvis Presley, feito Rei do Rock”.
Especialistas apostam que Berry perdeu a parada por ser negro, enquanto Elvis,“bem apessoado”, tinha o perfil “adequado” para subir os degraus da glória. Entre nós, para felicidade geral da Nação, Luiz Gonzaga – apesar de muita gente torcer o nariz para pardos e nordestinos, foi em frente e construiu fama.
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