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:: ‘Nina Simone’

UNIVERSO PARALELO

“A BAHIA GANHOU ATÉ DE JESUS CRISTO”

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

1Escola BahianaAntigamente nossa língua abrigava certas formas de grafia com “h” medial que hoje parecem esquisitas. Escrevia-se, “em bom português”, Christo, pharmácia, Nitheroy, athético, e por aí vai. Em Itabuna, era muito conhecido um senhor chamado Anfilófio Rebouças, vejam só. Se Anfilófio já é nome que causa estranheza, imaginem que a grafia, de que o dono certamente se orgulhava, era… Amphilophio! Em 1942, houve uma das tantas reformas a que submetem a língua portuguesa e o “h interno” caiu. Manteve-se uma exceção – Bahia, que virou piada para os despeitados: diziam que a Bahia ganhara até de Jesus Cristo: o filho de Deus perdeu o “h”; a Bahia, não.

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Em defesa do formato “original”

Em 2012 contam-se 70 anos desde aquela reforma ortográfica, mas ela nunca foi assimilada por alguns setores deste Estado, que perpetuaram o uso do “h” em palavras da família Bahia: bahiano (baiano) e derivados. É claro que tal uso é inteiramente indevido, nada havendo que o justifique. A regra possui somente uma exceção: Bahia. O abuso é visto em geral com o nome de entidades: Federação Bahiana disso & daquilo, e Escola Bahiana de Medicina etc. Os defensores desse formato esdrúxulo vão argumentar que esta era a grafia “original”, mas não importa: o verbete bahiano não existe em língua portuguesa (note-se este termo estranhíssimo:  corinthians).

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(ENTRE PARÊNTESES)

3MaiasAgora é oficial: “por enquanto”, o planeta não vai cerrar as portas. O astrônomo do Vaticano, que, suponho, tem informações privilegiadas, assegurou que as profecias marcando data para o fim dos tempos “são, obviamente, falsas”. Elegante, o homem recusou-se a uma paródia bíblica esnobando os Maias (“Perdoai-os, eles não sabem o que dizem”), que teriam marcado como último de nossas vidas o dia 21. Portanto, gentil leitora e nervoso leitor, acalmai-vos: é preparar o peru (ops!) e os presentes, que Papai Noel ainda vai encontrar o Brasil no lugar de sempre e com a gente ouvindo Simone (o que me faz pensar se não seria melhor se os Maias estivessem certos).

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DE MARCELO REZENDE SOBRE SAMUEL WAINER

5PosteHá uns 300 anos, trabalhei na Última Hora, de Samuel Wainer. Grande jornalista (revelaria no livro Minha razão de viver alguns “malfeitos” como empresário), montou um império, enriqueceu, viveu bem, até que veio o golpe de 64. Perseguido, exilou-se em Paris, voltou ao Brasil, teve o patrimônio dilapidado pela ditadura. Morreu pobre, em São Paulo, assalariado do grupo Folhas. Reza o folclore que Wainer gostava de “testar” seus repórteres, como forma desafiá-los, incentivá-los, motivá-los para que atingissem nível de excelência. De Marcelo Rezende (então repórter da Globo) ouvi a história do poste, que talvez interesse à gentil leitora, candidata a jornalista.

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História do poste que virou personagem

Certa vez, SW chamou à sua sala um foca promissor. “ – Dizem que o senhor é bom… O senhor é capaz de fazer uma matéria sobre um poste? – provocou, ao tempo em que pegava o boquiaberto jovem pelo braço e apontava, da janela: “ – Faça uma reportagem sobre aquele poste ali. Para amanhã”. O rapaz descobriu tudo sobre o bendito poste: quando e como chegou ao local, que peso e tamanho tinha, quanto custou, falou com os operários da Light (conta o bom Marcelo Rezende que até os cachorros que faziam xixi no poste foram fotografados). Dia seguinte, a matéria estava sobre a mesa do chefe. Que a aplaudiu, mas não publicou, por falta de gancho (a história não guardou o nome do repórter). A propósito, o exigente leitor saberia o que é gancho, no jargão das redações?).

NINA SIMONE: O TALENTO E A GROSSERIA

Eunice Waymon era precoce. Começou a estudar piano aos três anos e aos quatro já tocava feito gente grande. Queria ser pianista clássica, mas terminou na parada pop. Antes dos 20 anos, quando adotou o nome artístico de Nina Simone (em homenagem à atriz francesa Simone Signoret), já era profissional, apresentando-se no lendário Carnegie Hall e no Newport Jazz Festival. Geniosa, genial e belicosa, certa vez teria atacado um fã com uma garrafa. Zuza Homem de Melo, um especialista em jazz, disse que teve “o desprazer de trabalhar com Nina Simone”, pois a talentosa artista “cometia as maiores grosserias com os músicos e todos ao seu redor”.
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7Juca ChavesA militante negra engajada e perseguida

Cantora preferida de Juca Chaves, ela é a mais engagée das divas negras do jazz (certa vez, disse, bem ao seu estilo rápido e rasteiro, que era “a única diva do jazz”): cantou no enterro de Martin Luther King, e fez várias canções sobre os direitos civis – uma delas, Mississippi Goddamn, tornou-se hino da causa negra. Tida como pianista, cantora e compositora das mais dotadas da história, abraçou vários estilos como gospel, soul, blues, folk e jazz, é evidente. Muito perseguida nos EUA, Nina Simone abandonou o país e passou a morar na Europa, onde morreu em 2003. As cinzas, a seu pedido, foram espalhadas por diferentes países africanos.

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Versos dirigidos à mulher sem coração

Sobre Ne me quitte pas já se disse tudo (não de tudo, pelo amor de Deus!). É um soberbo canto de amor (uma cantada?) que Jacques Brel dirige a Suzanne Gabrielle, no momento da separação do casal. Ao contrário dos ianques, os franceses são bons letristas.  A mim me encantam os versos “Eu te darei pérolas de chuva/ Vindas de países onde nunca chove” (Moi je t’offrirai des perles de pluie/ Venues de pays où il ne pleut pas) – mas essa Suzanne tinha uma pedra de gelo sob o seio esquerdo…  É mais uma canção que todo mundo conhece, e da qual vale repetir uma curiosidade: o registro mais divulgado é o de Maysa (do filme A lei do desejo, de Almodóvar). Nina Simone… Ne me quitte pas.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

CHET BAKER: ENTRE A MÚSICA E O CHORO

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

Um jovem carteiro encontra uma bela mulher bêbada, caída num beco, e a leva para casa. Sob o chuveiro, a inusitada visita tenta espantar a carraspana, ao tempo em que solta “a voz mais linda do mundo” e, para a palidez de espanto do jovem, sai do banheiro para a sala nuinha dos pés à cabeça. A mulher, creiam, é Billie Holiday; Chet Baker, emocionado com sua própria música, confessa que quase encerra o show antes da hora, pois “ou bem a gente toca ou bem a gente chora”: era abril de 1988, a última apresentação do trompetista; um fã sai do show de John Coltrane assoviando Naima e, sozinho na rua, ao alongar a última nota da melodia, ouve aplausos entusiasmados, curva-se em agradecimento e entra em casa, sentindo-se “um homem feliz, totalmente realizado”.

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Contos de jazz, fúria dor e alegria

São ficções do jornalista mineiro Paulo Vilara no livro Jazz! Interpretações – Pequenas histórias de fúria, dor e alegria (Artes Gráficas Formato/2011), uma preciosa coleção de oito contos, tendo por tema o jazz. Vilara é o guia de um encontro emocionante, pondo-nos cara a cara com John Coltrane, Chet Baker, Thelonious Monk, Miles Davis, Lennie Tristano, Roland Kirk, Charles Mingus e Billie Holiday (nesta ordem), em textos literários de extraordinária economia de linguagem. A tendência ao minimalismo, entretanto, não nos deixa em falta: ele se dá ao luxo de acrescentar, a cada conto, valiosas notas sobre o artista, a canção e os lugares citados. Como apêndice, a discografia básica dos oito músicos. Livro raro, para ler e ler.

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Apresentação que paga o livro inteiro

Ao ler a introdução de Paulo Vilara para Jazz! Interpretações, ocorreu-me antiga expressão repetida nas arquibancadas após um cada vez mais raro lance de futebol arte: é preciso sair do estádio, comprar outro ingresso e entrar novamente, pois aquela jogada já pagara a entrada. No caso deste livro, fica o sentimento de que as 4,5 páginas da introdução justificam o preço da obra. No todo, uma emocionante celebração do jazz, vinda de um apaixonado cultor do gênero, mas, afora gostos musicais, uma obra literária com lugar em qualquer biblioteca. Faltou dizer que o livro (com prefácio de James Gavin, biógrafo de Chet Baker) é dedicado ao maestro Moacir Santos e à cantora Alaíde Costa, homenageados por esta coluna.

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NÓS SOMOS, MAS NÃO SABEMOS O QUE SOMOS

Gentil leitora, presa de curiosidade, pergunta quem é Ousarme Citoaian. Esta é uma angústia metafísica que nos pressiona, mais cedo ou mais tarde. Mesmo pensando que já tinha explicado a questão, eis que não sou poupado. A dúvida é tão velha quanto o homem, mas resiste ao tempo e às explicações. Shakespeare colocou a dicotomia do ser e do não ser como eterna indagação da humanidade: ser ou não ser é, no teatro, vingar-se ou não vingar-se, matar ou não matar – e para sair dessa prisão da dúvida, precisamos nos conhecer. Parece inquestionável ser. Nós somos. Mas o que somos e quem somos é a incógnita, ou, como queria Noel Rosa, filósofo, o “x” do problema.

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O que sou: reflexo, miragem, paisagem?

Nem só em Shakespeare vislumbramos essa fragilidade humana. Outras literaturas também oferecem instigantes exemplos da aflição que nos corrói. Conta o filólogo carioca Sérgio Pachá, da Academia Brasileira de Letras (não “imortal”, mas funcionário), que Antero de Quental (1842-1891), já noite velha, foi à casa de um amigo, com quem, certamente, pretendia dividir o sofrimento metafísico de que estava possuído. Ao bater à porta e ouvir a indagação “Quem é?”, teria retrucado, do fundo de sua angústia: “E eu lá sei quem sou?!” Florbela Espanca (1894-1930), num poema, meio século depois, diz algo parecido: “Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem/ Quem sou? Um fogo-fátuo, uma miragem…/

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“Quem cresce em saber, cresce em dor”

Sou um reflexo… um canto de paisagem/ Ou apenas cenário!  Um vaivém/ Como a sorte: hoje aqui, depois além!” José Régio (1901-1969), “brinca” com o poema de Florbela, acrescentando dois tercetos em que mostra a antiga questão: procuramos o saber como forma de libertação, mas será que o conhecer nos liberta dessa dúvida existencial? Parece que não: “Sei que sou a paródia de mim mesmo/ Sei tudo… E para quê? Por que sabê-lo?/ Viver é entrar no rol dos que não o sabem”, diz José Régio a Florbela Espanca. Resta ainda que o conhecimento parece uma condenação, se aceitarmos o que está no Eclesiastes: “Aquele que cresce em saber, cresce em dor”. O espaço acabou e não respondi à leitora…

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A CANÇÃO QUE REUNIU CINCO DIVAS DO JAZZ

Tenderly, de 1946, está entre as canções mais gravadas do mundo, registrada por, pelo menos, 80 artistas e grupos, de nomes consagrados a desconhecidos (por mim). Cito alguns que todo ouvinte de jazz conhece, começando pelas cinco divas negras (Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Billie Holiday, Nina Simone, Carmen McRae), seguidas de Armstrong, Tony Bennett, George Benson, Ray Anthony, Chet Baker, Clifford Brown, Pat Boone, Nat King Cole, Natalie Cole, Miles Davis, Billy Eckstine, Frank Sinatra, Duke Ellington, Percy Faith, Johnny Mathis, Errol Garner, Woody Herman, Etta James, Henri Mancine, Anita O´Day, Oscar Petterson, Buddy Powell e Artie Shaw.

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História que vem da alvorada dos tempos

Trata-se de um tema pop, de que o jazz se apropriou, como tantas vezes aconteceu. A letra não faz inveja aos autores românticos brasileiros: nas preliminares, a brisa da noite acaricia as árvores e as árvores abraçam a brisa com ternura, até que, nos finalmentes, “você tomou meus lábios, você tomou meu amor tão ternamente” (You took my lips/ you took my love so tenderly). História da alvorada dos tempos, já se vê, mas que funcionou até agora – e já lá se vão 66 anos. O brasileiro Dick Farney foi quem primeiro deu voz a  Tenderly (em junho de 1947), levando a canção ao topo das paradas americanas. Depois, vieram Sarah Vaughan, Nat King Cole e todo mundo.

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Sarah em estado de graça: a deusa canta

Creio que o show é de 1985, não aposto nisso. Aposto em que Sarah Vaughan (1924-1990) se encontra em absoluto estado de graça, em plena forma, alegre, fazendo caras e bocas para a plateia. Tenderly já foi cantada por ela (quase sai um trocadilho!) de várias formas diferentes, cada gravação com uma marca própria, a marca Divina Sarah (basta lembrar que este foi o primeiro sucesso da diva, em 1954). Aqui, ela “erra” o tempo da entrada e, em seguida, entra triunfalmente, com seu timbre inconfundível de diva do jazz que é. O público, é claro, se curva: uma deusa negra canta.

(O.C.)






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