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:: ‘Ousarme Citoien’

UNIVERSO PARALELO

ITABUNA E O NÓ GÓRDIO NA SAÚDE PÚBLICA

Ousarme Citoaian
Em artigo que comenta a situação da saúde pública de Itabuna, um diário local afirma haver nas relações da prefeitura com o estado um nó górdio a ser desatado. Bela expressão, dessas que integram o falar brasileiro – e cujo emprego tanto temos defendido. Essas aquisições parecem dar ao texto sabor erudito, “culto” – o que é verdade, pois quem não tem boa base de leitura raramente recorre a tais adornos estilísticos. Mesmo quando utilizadas por pessoa que delas apenas ouviu falar, tais “frases feitas” oferecem ao texto encanto e formosura. Como nem todos sabem a origem do termo, valho-me do Google e atualizo minha informação, que passo adiante.

O NÓ SÓ FOI DESFEITO DEPOIS DE 500 ANOS

Górdio foi um camponês que se tornou rei da Frígia, na Ásia Menor (lá pelo século VIII a.C.) e, para não esquecer sua origem humilde, botou dentro do templo de Zeus a carroça em que chegou à cidade.  E a amarrou com um nó tão danado que gerou uma profecia: quem o desatasse tornar-se-ia rei de toda a região. Mesmo com tão grande prêmio, o Nó de Górdio ficou intato durante cinco séculos. Até que Alexandre da Macedônia parou em Frígia para o repouso de suas tropas e, sabendo da profecia, resolveu tirar a história a limpo. Pôs-se em silêncio em frente ao nó, analisou-o e, com um golpe de espada forte e certeiro, o cortou, tornando-se assim o rei do pedaço, isto é, o líder da Ásia Menor.

O REI MIDAS FOI ATENDIDO AO PÉ DA LETRA

Moral da história: diante de problemas, precisamos – com o emprego do capital intelectual de que dispomos – pensar, analisar e encontrar alternativas. Mas é pertinente  referir que esse rei Górdio fazedor de nós era pai do rei Midas, fazedor de ouro, outro nome caro à mitologia grega. Midas era rico, ganancioso, orgulhoso, enfim, se achava. Foi vítima da ganância e da má interpretação de suas palavras: pediu a Dionísio (a quem prestara um favor) o poder de transformar em ouro tudo o que tocasse e, a partir daquele dia, sua vida ficou um inferno dourado, pois tudo que ele tocava (água, comida, gente, coisas e bichos) virava ouro. Pediu em sentido figurado, recebeu ao pé da letra.

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A MEMÓRIA FAZ O PASSADO SEMPRE PRESENTE

Há de se perceber nestas provocações semanais um quê de memória, de passado, nem sempre aprovado pelo apetite dos obsessivos do imediato. “Quem gosta de passado é museu”, repete-se o adágio indigente de bom gosto, graça ou criatividade. É tempo de lembrar, sem rodeios ou firulas, que, ao contrário desse discurso equivocado, o passado sempre está presente. Não há intenção de trocadilho, mas a constatação de que nosso ontem não nos abandona – e isso é tão fundamental, que o homem nasceu com memória, faculdade de guardar, registrar e lembrar. Não sei de alguém que diga isto melhor do que o historiador francês Jules Michelet: “Memória é ressurreição”.

REMÉDIO CONTRA AS FISSURAS DO PASSADO

A relação tempo-memória foi muito bem analisada no discurso de posse do escritor mineiro Antônio Olinto (foto), na Academia Brasileira de Letras. Baseio-me na lembrança (não disponho, no momento, do livro em que está o discurso) e destaco a essência: não se vive sem passado, o passado sempre está presente em nossa vida, e a memória vence o tempo. A memória é o anti-tempo, a panaceia para traumas e fissuras que ele causa. E Olinto encerra com este fecho de ouro: “Só na memória palpita uma possível imortalidade”. Um fato ocorrido ontem pode estar esquecido hoje; outro, há séculos, pode permanecer atual. O que os diferencia não é o tempo, é a memória.

EM ITABUNA, O EXAGERO HÁ DE SER LOUVADO

Itabuna acaba de criar duas academias de letras. À parte o exagero de dois sodalícios de uma tacada só, a iniciativa há de ser louvada. Afinal, o que é uma academia de letras, se não um grande e nobre mergulho no passado literário da região? Só por ter levantado o assunto, a cidade já fala, quando nada à boca pequena, em Adonias Filho, Firmino Rocha (foto), Manuel Lins, Telmo Padilha, Gil Nunesmaia, José Bastos, Jorge Medauar, Euclides Neto, Plínio de Almeida, Afrânio Peixoto e tantos outros patronos da novel instituição (todos mortos, comme il fault) – a  lista, conforme o modelo francês da Academia Brasileira de Letras, é de 40 nomes. É a possível imortalidade literária palpitando, como quis Antônio Olinto.

O COLUNISTA PERDEU SUA APOSTA TEMEROSA

Os leitores foram generosos quanto à minha aposta (um tanto temerosa, sei) em Bravura indômita como ganhador do Oscar. O filme ficou no zero, mesmo com dez indicações, perdendo feio para O discurso do rei. Rubens Ewald Filho tinha razão – e este episódio deixa clara a distância entre palpites de amador e de profissional: um opina apoiado em aspectos técnicos, mercadológicos e políticos; outro baseia-se em preferências pessoais. Rubens Ewald sabia; eu queria. Mas continuo a ver o faroeste como a essência do cinema norte-americano. E, por favor, sejam gentis comigo: não me falem em faroeste spaghetti.

JOHN WAYNE, OU A ARTE IMITANDO A VIDA

Alguns westerns abordaram a decadência do gênero, sempre com uma visão romântico-nostálgica sobre o ocaso desse ciclo. À memória me vem, sem muito esforço, O último pistoleiro (Don Siegel/1976), em que o velho Marion Robert Morrison, mais conhecido como John Wayne (1907-1979), faz papel dele mesmo: com câncer de pulmão (era fumante), Wayne representa John Bernard Books, famoso pistoleiro corroído pela doença – e que procura um lugar tranqüilo para morrer em paz. Com mão segura, Siegel (Perseguidor implacável/1971 e mais de 30 outros títulos) conduz a história a um final digno dos clássicos, depois de diálogos (e silêncios!) muito inteligentes.

PISTOLEIRO CHORA PELOS “VELHOS TEMPOS”

Mas nenhum faroeste tem tanta graça e leveza quanto Dívida de sangue/1965, de Elliot Silvestein (Um homem chamado cavalo/1970) – que deu o Oscar a Lee Marvin. O filme, além de Marvin em plena forma, tem a plena beleza de Jane Fonda (“Oh! que saudades que eu tenho!”) e, para arrematar, Nat King Cole e Stubby Kaye, os menestréis que, no formato de coro do teatro grego, fazem o contraponto da narrativa. A cena em que o pistoleiro pé de cana toma uma talagada “para firmar a mão” é antológica. E tocante é seu discurso saudosista sobre a perda de poder dos caubóis. Um vídeo especial para esta coluna, aqui.

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O.C.








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