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:: ‘Paulo Vanzolini’

UNIVERSO PARALELO

COMO DEUS AMOU A JACÓ E ODIOU A ESAÚ?

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

1Esaú e JacóA forma preposicionada do verbo amar, aqui referida há dias, possui uma exceção muito nobre, que não foi citada. É que o Livro Sagrado dos católicos (no qual se esperava o respeito à regra de amar a Deus) abriga, em Romanos 9:13, esta joia de tradução: “Amei a Jacó, e odiei a Esaú”, palavra de Deus. A expressão, incompatível com um ser de infinita bondade, incapaz de abrigar o ódio (segundo os que Nele creem e O explicam), suscitou variadas interpretações. Destaca-se entre elas a do respeitado teólogo John Murray, no livro Romanos, resumida a seguir.

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“Sem malícia, perversidade ou vingança”

Para o exegeta (nascido na Escócia, em 1898), não se pode dar a esse ódio divino as mesmas características do ódio exercido pelo homem mau. “No ódio de Deus não existe qualquer malícia, perversidade, vingança, rancor ou amargura profanos”, diz o estudioso. Ele acrescenta que “o tipo de ódio assim caracterizado é condenado nas Escrituras, e seria uma blasfêmia atribuí-lo ao próprio de Deus.” E assim vão os crentes tentando explicar as profundas contradições do seu livro-texto, nem sempre com êxito. Voltemos, então, ao verbo, sem intenção de trocadilho.

Noel: “Jurei nunca mais amar ninguém”

Se Cartola escreveu “Não quero mais amar a ninguém”, ferindo a regra, e Pixinguinha foi pelo mesmo caminho, com “Amar a uma só mulher/ deixando as outras todas”, há exemplos do emprego “certo” do verbo: Noel Rosa (na charge de Pedro Thiago) grafou “Jurei nunca mais amar ninguém” e Dora Lopes (na voz de Noite Ilustrada) quase repete o Poeta da Vila, com “Jurei não amar ninguém”. Na poesia, abramos ala para a lusitana Florbela Espanca, que cultua a forma “clássica”: “Eu quero amar, amar perdidamente!/ Amar só por amar: aqui… além…/ Mais este e aquele, o outro e toda a gente…/Amar!  Amar!  E não amar ninguém!”

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ESPUMA RAIVOSA CAINDO SOBRE A GRAVATA

Eu que (quem acompanha esta coluninha sabe) não sou chegado a tevê, recebi de uma gentil leitora a sugestão de dar uma olhada no comentário de Arnaldo Jabor (Jornal da Globo, 12 de junho). Encontrei a preciosidade nos arquivos do Google. Trata-se, todos sabem, de um cineasta (ou ex-cineasta) que se fez popular na última campanha presidencial, pelo uso que a direita faz do seu discurso raivoso. Desta vez, falando sobre as manifestações de rua, ele se superou. Juro a vocês que lhe vi a espuma a escorrer pela a gravata. Felicitando-me por ainda considerar a tevê uma “máquina de fazer doido”, anotei umas frases da fala do homem.
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“Revoltosos não valem nem 20 centavos”
Protesto passagem em Itabuna foto Pimenta www.pimenta.blog.brÓdio puro: “No fundo, tudo é uma imensa ignorância política, burrice misturada a um rancor sem rumo”. Falso desconhecimento: “Se vingam de quê?” Brincando de ser inteligente: “A causa deve ser a ausência de causa”. Em defesa do interesse da Globo: “Por que não lutam contra a PEC 37?” A face da direita: “Esses caras vivem no passado de uma ilusão. Eles são a caricatura violenta da caricatura de um socialismo dos anos 50, que a velha esquerda ainda defende aqui”. A explosão final: “Realmente, esses revoltosos classe média não valem nem 20 centavos”. Depois perguntam por que a Globo estava na lista dos protestos.

ENTRE PARÊNTESES, OU…

Pra não dizer que só falo de espinhos
Aos que me acusam de muito falar mal da mídia – alguns afirmam que caço erros, uma injusta inversão, pois são os erros que me perseguem – vai aqui o que pode ser uma surpresa: o signatário desta coluna é leitor de cabresto de um certo Ricardo Ribeiro, que no Pimenta publica, volta e meia, análises sobre o nosso conturbado viver quotidiano. O defeito do estilo de Ricardo está em não publicar com a frequência que eu gostaria. Ou não. Talvez essa falta de vocação para arroz de festa contribua para fazê-lo avis rara, ou vinho de safra incomum, trigo que se sobressai ao joio. Importa é que a linguagem clara, a lucidez do texto e a visão crítica do autor o levantam ao nível dos “clássicos” do jornalismo regional.

ÂNGELA E A LUZ DIFUSA DO ABAJUR LILÁS

7Ângela MariaO nome é Abelin Maria da Cunha, apelido Ângela Maria, ex-vocalista de coro de igreja que, escondida da família, se apresentava em shows de MPB. Cantou durante quase 70 anos, de 1945 até hoje. E cantou tudo o que lhe caiu às mãos: o verso clássico de Ari Barroso e Noel Rosa, rimas ricas e indigentes, dores de amores derramados ou contidos, a deliciosa cafonice da “luz difusa do abajur lilás que nunca mais irá iluminar outras noites iguais”. Cantou famosos e anônimos, transformou desconhecidos em clássicos, foi de Capiba a Chico Buarque, de Dolores Duran a Paulo Vanzolini. Cauby Peixoto disse que com ela aprendeu a cantar os “finais” das canções. Elis Regina diz que deve a Ângela Maria ser cantora.
Vítima de roubo, agressão e humilhação
Discreta, Ângela não alardeia seus nove casamentos e que seus maridos a submeteram a humilhações, agressões físicas e prejuízos financeiros, quase a levando ao suicídio. No fim dos anos 60, em desespero, mudou-se do Rio para São Paulo, mas continuou sendo roubada, caindo ao estado de grande pobreza. Deu a volta por cima, com uma nova união, a décima (conviveu por 33 anos e casou-se em maio último). Diz que seu melhor amigo sempre foi Cauby Peixoto (ele já confessou ser apaixonado por ela – e que só não se casaram porque ele chegou “atrasado”, Ângela já estava casada). No vídeo, o depoimento de Elis Regina e o canto inconfundível da Sapoti (show da TV Globo, em 1980).

(O.C.)

A VOLTA POR CIMA E A VOLTA DO BOÊMIO

Ousarme Citoiaian (que assina o UNIVERSO PARALELO aqui no Pimenta) considera o emprego de expressões idiomáticas e frases feitas uma forma de “colorir, enriquecer e embelezar a linguagem”. A propósito, ele menciona, com louvores, dois jornais – um que noticiou a intenção do prefeito de Itabuna de “dar a volta por cima”, e outro que usou o título “A volta do boêmio”, referindo-se ao retorno do jogador Adriano ao Brasil. “Isto mostra que existe vida inteligente nas redações”, brinca o colunista.

Ainda mais feliz ele se sentiu porque uma leitora “ressuscitou” a canção Praça Clóvis (“um primor de ironia”), de Paulo Vanzolini, justamente o autor do samba Volta por cima. O. C. (conforme faz todas as terças-feiras) respondeu aos comentários desta semana – e agradeceu aos leitores que os fizeram. Para rever a última coluna, clique aqui.

UNIVERSO PARALELO

A ROTINA É AMEAÇA AO AMOR E À LINGUAGEM

Ousarme Citoaian
Um dos perigos que rondam o texto jornalístico é a mecanização da linguagem – expressão cunhada aqui e agora, creio.  Expliquemos, como Freud o faria: de tão repetido, o ato de redigir passa a ser feito sob fórmula, com quase as mesmas palavras. A linguagem, da mesma forma que o amor, detesta a rotina. Quem lê notícias com olhos críticos já observou com que freqüência determinados veículos repisam termos iguais (não confundir com estilo, que é coisa bem diversa de indigência vocabular). Um exemplo que grita é o verbo garantir. Atire a primeira pedra quem leu um noticiário hoje e não topou com esse verbo mal empregado.

O CRUEL ABANDONO DO SIMPLES E DO LÓGICO

Há poucos dias, em mais uma podridão exposta de dirigentes públicos, um ex-governador acusou um deputado baiano com nobre pedigree de ter sido “ajudado” durante a campanha eleitoral, recebendo dinheiro indevido. Um dos maiores jornais da Bahia não deixou por menos e tascou em manchete a reposta do acusado: “ACM Neto garante que Arruda mente sobre doações”. Caso típico de emprego abusivo do verbo. Não se pode “garantir” que uma pessoa mente, embora se possa “dizer”, “afirmar”, ou algo semelhante. “ACM disse que…” é o caminho simples e lógico que a mídia parece ter abandonado. É a tal mecanização da linguagem.

GESTORES GARANTEM, GARANTEM, GARANTEM…

Pra não dizer que não falei de flores regionais, recolhi algumas por aqui – e confesso que foi tarefa das mais fáceis. Um semanário, falando do prefeito de Itabuna: “Ele garante que fará um governo de união”; esta, do noticiário oficial: “Capitão Azevedo garante reforma de praças”; outra, de um blog: “Azevedo é candidato à reeleição – Burgos é quem garante”. Na mesma linha andou o alcaide de Ilhéus: “Newton Lima garante apoio à reeleição de Ângela Souza”; ainda de Ilhéus: “Parceria garante transporte escolar para alunos do ensino médio da zona rural”. Em nenhum caso existe garantia efetiva do que se afirma.

CONSTRUÇÕES QUE CONSAGRAM… A SANDICE

Se gostam dos exemplos, vamos ao governador – compreensivelmente o maior “garantidor” de todos – com amplo direito de aparecer mal no texto. Aqui, uns poucos exemplos desse abuso: “Wagner garante qualidade da educação”, “Wagner garante Mundial de Judô em 2012, aqui na Bahia”, “Wagner garante apoio ao Polo de Informática de Ilhéus”. E mais uma, para não perder a mão (desta vez não o governador ou o prefeito, mas uma entidade pouco mais impalpável): “Estado garante a construção da nova ponte Ilhéus-Pontal”. Não há de faltar quem defenda esta linguagem como “consagrada”. Só se for a consagração da sandice.

A COLONIZAÇÃO E O “PLURAL APOSTROFADO”

Temos encontrado na mídia regional, mais vezes do que pode agüentar a nossa santa paciência, uma estranha forma de plural para CD (aquele disquinho de música), abuso que vale também para seu primo rico, o DVD, mesmo que ambos venham com o olho tapado que identifica os salteadores dos sete mares: CD´s e DVD´s – um plural apostrofado (vou registrar copirraite para esta expressão), fórmula que imagino vir do inglês – “colonização” que se exerce sobre dez entre dez brasileiros mal informados. É uma saída meio rodrigueana, se me permitem o lugar-comum: bonitinha, mas ordinária. Apóstrofo, sinal gráfico comum em inglês e francês, só empregamos em português em poucos casos.

CASTRO ALVES VIROU EXEMPLO DA EXCEÇÃO

Em tempos idos, era um festival de cinqüent´anos (então, com trema) su´alma, grand´homem, d´Oliveira,Sábado d´Aleluia e outros, sendo Castro Alves o campeão da modalidade. Tanto assim que sua poesia foi base para a exceção desse sinal gráfico, quando se quer beneficiar a métrica. Abro minha edição fac-similar da príncipe de Os escravos (Edições GRD/1983) e revejo “´Stamos em pleno mar!” – verso de O navio negreiro, que todos conhecem – e topo, ainda no primeiro canto, com “Bem feliz quem ali pode nest´hora/sentir d´este painel a majestade”. Como CD e DVD nada têm a ver com Castro Alves, deixe-se em paz o apóstrofo, grafando os plurais assim: CDs e DVDs. Sem descabidas concessões ao genitivo dos gringos.

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NO JORNAL, A RIQUEZA DAS FRASES FEITAS

Jornal de Itabuna, falando em mudanças de comportamento do prefeito do município, afirma em editorial: “Ele sente que chegou o momento de dar a volta por cima”. Congênere de Salvador, noticiando o retorno de Adriano ao Brasil, criou este título de ótimo gosto: “A volta do boêmio”. Essas frases feitas colorem, enriquecem e embelezam a linguagem. Consagradas, mas ainda fora da relação de lugares-comuns, facilitam o entendimento da mensagem, ao fortificar uma das qualidades fundamentais do estilo, a simplicidade. As duas, como tantas outras, nasceram da MPB: a primeira é de Paulo Vanzolini (1924); a outra, de Adelino Moreira (1918-2002).

A MPB CONSOLIDA A LÍNGUA “BRASILEIRA”

Noel Rosa imortalizou “com que roupa”, para resumir uma situação de impossibilidade; “palpite infeliz”, que nos acode à mente, diante de algumas bobagens ouvidas, e “o x do problema”, largamente empregada diante de uma questão a resolver, um nó a desatar. Chico Buarque nos deu “roda viva”, simbolizando a rotina o dia a dia; Zé Dantas criou a imagem de que a esmola ao homem são o envergonha ou vicia; e não são poucas as vezes em que alguém se refere ao País, em tom irônico, como “Meu Brasil brasileiro” – isto é Ari Barroso. Estas poucas expressões saídas da memória mostram a MPB como importante componente da nossa cultura.

DA “CENA DE SANGUE” À “VOLTA POR CIMA”

Paulo Vanzolini (foto) é de um nível cultural poucas vezes encontrado na MPB: além de médico (Universidade de São Paulo), é Doutor em Zoologia (Universidade de Harvard), sendo conhecido internacionalmente como especialista em répteis e em fauna da Amazônia, região que visitou várias vezes. Grande nome do samba de São Paulo (ao lado de Adoniran Barbosa), ele compôs cerca de 60 músicas, sendo que duas delas viraram clássicos: Ronda e Volta por cima. Esta última popularizou a expressão usada pelos brasileiros quando querem falar sobre a superação de uma crise: “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”.

OBRA-PRIMA DE REGIONALISMO BRASILEIRO

Redescobri recentemente, com Renato Braz (e Bré na percussão), um tema de Vanzolini de que gosto muito, e que tem uma história curiosa: em 1967, o artista plástico Arnaldo Pedroso Horta, observando a “baianidade” do argentino Carybé (foto), que divulgava a capoeira em São Paulo, desafiou Vanzolini, dizendo que ele estava perdendo para o “gringo”, pois nunca fizera uma música de capoeira. “Amanhã te trago uma”, respondeu o compositor. Naquela mesma noite, Vanzolini fez “Capoeira do Arnaldo”, a bem-humorada saga de um retirante em busca da cidade grande, obra-prima de regionalismo brasileiro, com um tom nordestino jamais visto num músico paulista.

(O.C.)

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