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:: ‘Pelé’

O REI DA AMÉRICA QUER O MUNDO

DanielThameDaniel Thame | danielthame@gmail.com

A Seleção Brasileira pratica, indiscutivelmente, o melhor futebol da América.

Classificou-se para a Copa da Rússia com quatro rodadas de antecedência e vem de inéditas 8 vitórias nas Eliminatórias, uma trajetória mágica que incluiu shows de bola contra Argentina (3×0), Uruguai (4×1) e Paraguai (3×0).

Mais do que os resultados expressivos, vem jogando um futebol que resgatou a paixão pela Seleção, fazendo inclusive com que o exigente torcedor paulista (de vaias memoráveis e atitudes incivilizadas como atirar bandeiras do Brasil no gramado do Morumbi num jogo horrendo contra a Colômbia), se rendesse ao time de Neymar e Cia.

titeAo time de `seu` Adenor, mais conhecido como Tite.

O que se viu na Arena Corinthians foi uma verdadeira lua de mel entre time e torcida, com direito a um “olê, olê, olê, Tite, Tite…” no final do jogo.

Consagrador.

O Brasil voltou o ser o Rei da América.

Ponto.

Parágrafo.

Como quase tudo nesse paraíso tropical bipolar (há controvérsias quanto ao paraíso) vai-se do inferno ao céu e vice-versa num piscar de olhos.

A Seleção, com praticamente os mesmos jogadores, era um quase-Ibis há menos de um ano atrás. Agora é o suprassumo do suprassumo do mundo da bola.

A maravilha da galáxia.

Neymar que era um craque mascarado e individualista, que pipocava na Seleção, agora já é melhor do que Messi e Cristiano Ronaldo juntos, um quase-Pelé.

E por aí vai…

Galvão Bueno puxa o coro da louvação, seguido pelos colegas da imprensa, numa unanimidade em que se ouvem poucas vozes sensatas.

E é preciso mesmo um pouco se sensatez.

Se é verdade que Tite fez da Seleção uma equipe respeitada, que pratica um futebol de primeiro nível, transformou Neymar num craque que joga para o time, letal e as vezes genial, não é menos verdade que a conquista do mundo em 2018 não é algo líquido e certo, como se a gente fosse lá pra Russia, tomasse umas vodcas, dançasse umas balalaicas na praça Vermelha, comprasse umas matrioskas pra agradar as filhas e a patroa, pegasse a taça e voltasse pra casa.

Seria ótimo se fosse assim, mas não é.

Falta combinar com os russos, como diria o saudoso Mané Garrincha. Agora literalmente.

O time está bem, Neymar joga cada dia melhor, Casemiro, Paulinho e Phillipe Coutinho tem se revelado gratas surpresas, mas é preciso manter o foco, saber que tem que evoluir sempre e não cair na tentação do `já ganhou`.

A história está repleta – e Tite sabe disso- de times e seleções que ganharam de véspera e na hora na oncinha beber água ficaram de bico seco.

Ou engoliram um 7×1 ainda não devidamente digerido.

Portanto, é de bom alvitre deixar a torcida e a mídia com os pés nas alturas e manter as chuteiras com pés no chão.

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É PÊNALTI – A FIFA e seu espírito de Máfia. A punição a Lionel Messi é absolutamente desproporcional e pode custar a vaga da Argentina na Copa. Verdadeira vinditta contra Maradona e sua coragem de denunciar os ´santinhos` da entidade.

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É GOL – Tite para Presidente? Então tá! E Neymar, seria o quê? Ministro da Fazenda ou superintendente da Receita Federal?

Fora Temer (ops!), quem mais se candidata?

Daniel Thame é jornalista e editor do Blog do Thame.

OS GOLPES NAS DECISÕES DAS COPAS DO MUNDO

marivalguedesMarival Guedes | marivalguedes@gmail.com

Garrincha joga, o Brasil detona os tchecos e é bicampeão. Um mês depois Esteban, é convidado pela CBD, antecessora da CBF, para passar um mês de férias no Brasil, com familiares.

Sempre desconfiei que as grandes decisões do futebol não saem dos pés dos jogadores. Os maiores dribles são dos cartolas que divertem o povo e enchem os bolsos de dinheiro. Sem conhecimento suficiente sobre o assunto, conversei com quem entende: o jornalista Daniel Thame que, além de passar informações pelo celular, me enviou um texto.

Daniel lembra da Copa do Mundo de 1962 no Chile. O Brasil vence a seleção da casa por 4×2 na semifinal e está na decisão contra a Tchecoslováquia. Garrincha é expulso e não poderá jogar. O Brasil, que já não tinha Pelé, ficaria sem o craque que estava carregando o time nas costas. Era o cara do Mundial.

Mas, em plena Guerra Fria, a FIFA não iria permitir que um país comunista ganhasse a Copa. E acontece a mágica: o bandeirinha uruguaio Esteban Marinho, que viu a agressão que gerou a expulsão de Garrincha, volta repentinamente para casa. Na verdade, foge sem dar o testemunho para o juiz escrever a súmula com a expulsão.

Garricha joga, o Brasil detona os tchecos e é bicampeão. Um mês depois Esteban, é convidado pela CBD, antecessora da CBF, para passar um mês de férias no Brasil, com familiares.

Copa do Mundo de 1994, Estados Unidos. Entressafra no futebol e sem craques para chamar a atenção, num país onde o futebol nunca foi preferência nacional, Maradona, semiaposentado, mergulhado no drama da dependência de cocaína, mas ainda um nome estelar, entra em cena blindado pela FIFA.

Era pra ser apenas uma estrela, mas resolveu jogar seu futebol genial e transformou a limitada Argentina em favorito. Isso não estava no script, como também não estava no script o fato de Maradona ter dito, bem ao seu estilo, que a FIFA era dirigida por um bando de ladrões.

O método para alijar Maradona da Copa foi digno da Máfia: um nebuloso caso de doping que tirou El Dies da Copa e destroçou a Argentina. Brasil campeão numa insossa disputa de pênaltis com a Itália.

Final da Copa do Mundo de 1998, França, ou o dia em que o Brasil chorou. Horas antes do jogo, contra a seleção francesa, Ronaldo Fenômeno, tem uma convulsão e vai parar no hospital. Os alto-falantes do Stade de France anunciam a escalação do Brasil com Edmundo substituindo a estrela.

Meia hora antes do jogo, Ronaldo aparece e diz que vai jogar. Zagalo cede. Em campo, Ronaldo é um fantasma dele mesmo e o time não sabe o que fazer: joga ou se preocupa com seu atacante? Não joga. A França passeia, vence por 3×0 e é campeã do Mundo. O que de fato aconteceu com Ronaldo, porque ele insistiu em jogar e porque Zagalo cedeu? Mistério que a ´omertá` ainda não permitiu vir à luz.

Daniel Thame recomenda as seguintes leituras: Como eles roubaram o jogo, de David Yallop; O jogo sujo da FIFA e O Jogo cada vez mais sujo da FIFA, de Andrew Jennings.

Marival Guedes escreve crônicas às sextas, no Pimenta.

PELÉ RECEBE ALTA

Pelé recebe alta (Foto Marcello Casal Jr/ABr).

Pelé recebe alta (Foto Marcello Casal Jr/ABr).

O ex-jogador Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, 74 anos, recebeu alta no início da tarde de hoje (9) do Hospital Israelita Albert Einstein, na zona sul da capital paulista, informa a Agência Brasil. Pelé foi internado no dia 24 de novembro, quando os médicos constaram que ele estava com infecção urinária.

No dia 13 de novembro, foi submetido, no mesmo hospital, a uma cirurgia para retirada de cálculos renais. No dia anterior, havia sido internado após passar mal. Durante os exames, constatou-se que o problema era causado por cálculos renais, ureterais e vesicais, o que causa obstrução do fluxo urinário. Ele teve alta no dia 15, dois dias depois da operação.

Em 2012, o ex-jogador também internou-se no Albert Einstein para uma cirurgia no quadril. No procedimento, foi retirada parte do osso e colocada uma prótese de titânio e cerâmica. Antes da operação, Pelé sentia dores constantes no quadril.

UNIVERSO PARALELO

CÉSAR E UMA CONFUSÃO DE DOIS SÉCULOS

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

Júlio César, aquele mesmo, morreu em 44 a.C., por falta de informação. Sem o Ibope, a Gasparetto Pesquisas ou o Vox Populi, não percebeu que, a exemplo de alguns prefeitos regionais, tinha a popularidade no chão. Enquanto o ditador estava “se achando”, um grupo de senadores tecia seu assassinato, com a ideia geral de que cada um dos ilustres parlamentares desse uma facada no homem, de modo que todos dividissem a culpa pela execução. À frente do complô estavam Marcus Brutus e Decimus Brutus, respectivamente filho (para alguns historiadores, apenas amigo) e companheiro de armas do general romano. E aqui começa uma confusão que já dura mais de dois séculos.

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2Júlio CésarUma frase inventada por Shakespeare

Já furado feito um queijo suíço, César vê Brutus (qual deles?) vindo em sua direção, de adaga em riste, e, surpreso, teria decidido deixar uma frase para a história. Pronunciou um Et tu, Brute? (Até tu, Brutus?), segurou na mão de Deus e foi-se. Há controvérsias. Diz-se que a frase foi dita em grego, Kai su, teknon? (Até tu, filho?), enquanto a latina teria sido inventada por Shakespeare, em Júlio César (Ato III, cena 1). Para o cientista político Michael Parenti (O assassinato de Júlio César – Record/2005), é tudo mentira, pois César nunca pensou em  Marcus Brutus como filho: se o general ficou mesmo consternado teria sido com o traiçoeiro Decimus Brutus, companheiro de guerras.

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Líder popular hostil aos privilégios

Segundo Parenti (na contramão da história oficial), César foi o último de uma linhagem de reformistas assassinados por conservadores, por abraçar a causa do povo, tido em Roma como uma turba interessada apenas em pão e circo. Por que um seleto grupo de senadores assassinou Júlio César, aristocrata como eles? – inquire o autor. E responde: mataram César porque viam nele um líder popular hostil a seus privilégios de classe. O assassinato teria sido mais um dos atos violentos que marcaram grande parte do século, “manifestação dramática da velha disputa entre conservadores ricos e reformistas apoiados pelo povo”. A morte de César é, vista assim, algo bem contemporâneo.

ENTRE PARÊNTESES, ou

4VelinhaE assim se passaram doze meses…
Parece que foi ontem. Em agosto de 2012, centenário de Jorge Amado, o UNIVERSO PARALELO voltou a “circular” aqui nas asas do Pimenta. Antes, ficáramos no ar durante dois anos, de 2009 a 2011. A coluna, se nos perdoam o que possa parecer cabotinismo, é aquilo que os publicitários chamam de case de sucesso: surpreendeu os leitores, o Pimenta e, sobretudo, a mim surpreendeu-me (adoro esta redundância!). Valho-me do humor e do talento de Aldir Blanc e digo como aquela Miss Suéter: “Dedico esse êxito ao Pimenta/ que tantos sacrifícios fez/ pra que eu chegasse aqui no apogeu/ com o auxílio de vocês”. Obrigado a todos.

AS PIORES VOZES JÁ GRAVADAS EM DISCO

Quem seria o maior vocalista do Brasil? Orlando Silva, Dick Farney, Cauby, Nelson Gonçalves, Agnaldo Timóteo, Sílvio Caldas, Emílio Santiago? E a melhor voz feminina? Elis Regina, Nana Caymmi, Gal Costa, Ângela Maria, Alcione, Marisa Monte, Elizeth Cardoso? Difícil dizer, pois toda opinião de valor porta em si o perigo da injustiça. E como música é arte e técnica, sequer me acho no direito de apontar os melhores, o que poderia ser feito, se muito, por alguém de grande saber musical – área de que, sem demagogia, estou muito distante. Mas abro uma exceção: creio ter, há muito tempo, identificado as duas piores vozes que já ouvi gravadas em disco: Xuxa e Pelé.
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Deus perdoa aos bêbados e aos  loucos

5Xuxa-PeléObservem que não falo de amadores, sambistas de mesa de bar, cantores de caraoquê (eu os detesto, mas Deus perdoa aos bêbados e aos loucos!) ou vocalistas de banheiro. Falo de profissionais, de gente que grava música, põe no mercado e ainda encontra colher de chá na mídia. Xuxa é, todos sabem, grande vendedora de discos, com o apoio da Globo/Som Livre; Pelé, em 1969, no auge da fama, teve o desplante de gravar com Elis Regina duas canções da autoria dele. Felizmente, ficou nessas duas, salvo uma ou outra investida pela publicidade. Se a gentil leitora nunca ouviu o disco da dupla Pelé-Elis, aceite meu parabéns.

COMPROMISSO RENOVADO COM A (BOA) MPB

7CanindéCanindé, ou Francisco Canindé Soares, nasceu em Currais Novos/RN, em 1965, e, cerca de 20 anos depois, mudou-se para Jacobina/BA. Cantor da noite, só ficou conhecido do grande público a partir de 2000, quando gravou seu primeiro CD. Vieram outros seis, até o DVD História de amor, em 2010. Já com um quarto de século na estrada (o tempo voa!) ele se mantém compromissado com a boa música brasileira, do forró à balada romântica. Nos últimos tempos, revisitou temas muito conhecidos, a exemplo de Canteiros (Fagner-Cecília Meireles), Tocando em frente (Almir Sáter) e Cidadão (Lúcio Barbosa). Meiga senhorita (Zé Geraldo?) é sua gravação mais ouvida, no momento.
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Sem medo de Belchior nem Elis Regina

Cultor das baladas românticas, o artista norte-rio-grandense-quase-baiano conserva a influência daqueles que se dizem menos cantores do que “cantadores”. Vem da linhagem de Geraldo Azevedo, Xangai, Almir Sater e Elomar, mas com sintaxe própria. De Xangai ele gravou o engraçadíssimo ABC do preguiçoso (que me parece velho tema do folclore, adaptado). De Belchior, no vídeo, uma composição cheia de brasilidade, misturando passado e futuro, clima interiorano, incertezas da juventude e velhas canções da riquíssima pauta nacional. Poucos cantores gravam Belchior – talvez intimidados pelas interpretações de Elis Regina. Canindé tocou em frente, com Tudo outra vez.

O.C.

O HOMEM QUE CONTRATOU PELÉ PARA O BAHIA

Alexandre Lyrio | Correio

A Bahia esportiva engasgou com o almoço naquele dia. O radialista França Teixeira, que morreu ontem aos 69 anos, abriu o programa com uma bomba. O ano era 1971 e o Bahia estava contratando Pelé. O próprio “Negão”, assim o Brasil chamava o Rei, confirmava no ar. Como bem assinalou o colega Hailton Andrade, era como se hoje o principal programa de esportes na TV anunciasse a chegada de Messi para fazer dupla com Fernandão no tricolor. Tudo armação.

“E o negão disse que tava já mantendo as negociações com Osório (Vilas Boas, ex-presidente do Bahia). A gente armou tudo com ele”, confessou Teixeira. “Foi uma brincadeira que fizemos, porque eu estava sempre na Bahia nessa época”, lembrou o próprio Pelé. Mais difícil que o Bahia contratar Pelé, dizem os mais antigos, era encontrar um aparelho de rádio na cidade que, na Resenha do Meio-Dia, não estivesse sintonizada nos quilohertz da Rádio Cultura da Bahia.

Da rua, a partir das janelas dos casarões e prédios sem garagem, na Salvador do final dos anos 60 e início de 70, era possível ouvir quase em eco o vozeirão com o seu mais célebre bordão: “É ferro na boneca, minha cara e nobre família baiana”, largava França, cheio de gosto, antes de falar de esporte e depois de colocar o Hino ao Senhor do Bonfim. Nos casos que marcaram sua carreira, muita polêmica e, principalmente, irreverência.

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UNIVERSO PARALELO

NAÇÃO DE BEBEDORES FERIDOS E CHOROSOS

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

1AlencarAtônito, Caboco Alencar, com sua “farmácia” assaltada na calada da noite, teria se perguntado: “Mas, por que eu?”. É duro de aceitar um mundo em que nem o boteco (refúgio de vagabundos e cavalheiros, espaço da solidariedade, do sonho e da poesia) é respeitado. Quando grandes empresas comerciais ou industriais predadoras, molas mestras do enriquecimento nem sempre lícito (muitas vezes movido a sangue dos trabalhadores) são assaltadas é maior nosso nível de compreensão. Assaltar o ABC da Noite é mais do que atentar contra o diminuto patrimônio pessoal do Caboco; é ferir de morte uma imensa nação de bebedores – ato próprio de bandidos sem coração, lirismo ou paladar.

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O mundo fica cada vez mais inabitável

O ABC (justo, D. Ceslau não há de me recomendar à excomunhão por essa verdade nua) é espaço sagrado. Bem que ali, não se pode negar, possam  ter surgido algumas manifestações anticlericais, motivadas por uma dose a mais de batida.  Mas foram apenas engrolados discursos tentativos de consertar o vasto Brasil sem porteira, insuficientes para abalar o teto da Capela Sistina. Constato, com imensa tristeza, que o mundo se faz um lugar cada vez mais inabitável, pois nem líricos e inocentes botecos são dignos do respeito dos assaltantes, que invadiram o templo do ABC como se adentrassem um depósito de rinchona. Bem fez Eduardo Anunciação, que, em protesto antecipado, recusou-se a testemunhar tamanha heresia.

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NÃO QUEREMOS A MENTIRA COMO APANÁGIO

Decidi-me a “responder” (na verdade, ninguém me perguntou nada!) a alguns comentários, o que não fiz. Poderia dizer que foi devido à “roda viva” que tritura os que escrevem com data marcada. Mas não digo, pois tenho sido invadido por completo desapreço à mentira. Expulsemo-la, portanto, do capital dos jornalistas, para integrá-la ao apanágio dos políticos, que de tal valor não podem prescindir. Se não fiz o que me prometi foi por falta de planejamento – e não se pode debitar a culpa ao lixo nas ruas e a outras mazelas pequenas e provincianas. Então, mãos à obra, como disse o prefeito, diante do indefeso cofre municipal.
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4BebadosambaDebatedor culto, coerente e corajoso

Devo informar a Yan Santos, que me propõe discutir a questão “Camilo de Jesus Lima” com o professor Adylson Machado, ser impossível a tarefa. Quando Adylson (ex-roqueiro, professor de Direito e autor de, pelo menos, dois livros) fala, eu silencio. Culto, coerente e corajoso (eis uma inesperada aliteração!), ele está mais para ser ouvido do que contestado. Mas só a sugestão já me eleva, honra e consola. Comunista da Sibéria me emocionou com a citação de Paulinho da Viola (“Se lágrima fosse de pedra eu choraria”). Bebadosamba é um dos meus discos preferidos, que ganhei de uma “amiga secreta” de bom gosto, no Natal de 1996, ainda quentinho.

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Jornalismo genial e ditadura estúpida

5Tarso de CastroPor fim, não gostaria que passasse em branco a dica de leitura de Ricardo Seixas, o livro Memórias do esquecimento, de Flávio Tavares. Também acho pertinente o emprego de protetor auricular durante o Carnaval, mas esta é outra história… A referência me conduziu a dois outros livros de jornalistas: 75 Kg de músculos e fúria (Tarso de Castro – a vida de um dos mais polêmicos jornalistas brasileiros) e O sequestro dos uruguaios (Operação Condor – Uma reportagem dos tempos da ditadura), de Luiz Cláudio Cunha. São dois grandes momentos da vida brasileira: no primeiro, o jornalismo em tempos emoldurados pelo golpe militar; no segundo, a específica estupidez das ditaduras em nuestra America.

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(ENTRE PARÊNTESES)

Nas arquibancadas, assistindo a fumacinhas negras e brancas, torcedores verde-amarelos de eventos vaticanos lamentam o resultado do Habemus papam, como se fosse um jogo em La Bombonera: Argentina 1 x 0 Brasil. “Só nos faltava mesmo um papa argentino!”, lamentou-se um dos meus amigos mais pessimistas. Mas pior seria se pior fosse: dizem que o novo sumo não se chamou Maradona II porque Pelé, ao perceber a tendência, ameaçou fazer haraquiri na Praça de Maio. Entende?

BIBI FERREIRA E SUAS MALAS DE LIVROS

7Jane F.Levando duas malas de livros, Bibi Ferreira embarca para Nova Iorque, quando abril chegar. A artista vai comemorar o aniversário de 90 anos com uma apresentação no Lincoln Center, com ingressos disputadíssimos: a espevitada Jane Fonda (foto), que não é boba, reservou camarote no ano passado. A mala é de obras literárias, filosóficas e algumas partituras, publicações de que Bibi não se separa, textos que ela quer ter ao alcance da mão em qualquer tempo, em qualquer lugar. Uma curiosidade sobre a filha de Procópio Ferreira: estreou no palco com apenas 20 dias de nascida, em 1922, na peça Manhã de sol, no colo da madrinha Abigail Maia, mulher Oduvaldo Viana, padrinho do bebê.
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Matrícula negada em colégio paulista

Com cerca de oito anos, Bibi começa a trabalhar na companhia do pai famoso e aos nove, por ser filha de artistas, tem sua matrícula negada no tradicional Colégio Sion, de São Paulo. Mas Procópio responde à altura: manda a filha para a escola em Londres, onde ela também estuda teatro. Em 1936, outra vez no Brasil, participa de filmes, como atriz e cantora, monta sua própria companhia (por onde passam Cacilda Becker, Maria Della Costa, Sérgio Cardoso e Henriette Morineau) e não para mais: canta, representa, produz. Uma das primeiras mulheres a dirigir teatro no Brasil, fez tevê, mas não  novela. Aqui, um corte de show da Globo, em 1992, comemorativo dos 50 anos da artista.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

EUFEMISMOS, PRECONCEITO E SUPERSTIÇÃO

Ousarme Citoaian
Expressões populares, frases feitas e eufemismos constituem o apanágio de cada língua. Às vezes, tais construções mal conseguem disfarçar a carga de superstição e preconceito que carregam, levando o povo a dar voltas à imaginação e nós na língua, para evitar o nome verdadeiro das coisas. Há comunidades que nunca pronunciam a palavra diabo, tenho uma amiga que não fala em azar (ela prefere “má sorte”), em outros tempos não se dizia que uma pessoa estava com tuberculose, câncer é palavra que muitos não usam – e na grande fase do Santos a torcida adversária não pronunciava, durante o jogo, o nome de Pelé: era somente… Ele.

AS DIVERSAS FÓRMULAS PARA NÃO “MORRER”

Para a palavra morrer, há dois grupos de eufemismo, ambos dando cores e odores próprios à língua. O respeitoso: falecer, descansar, fechar os olhos, desencarnar (entre espíritas) e dar o último suspiro – além do detestável “passar para o andar de cima”, ao gosto de quem aprende português com a Globo. Do lado gaiato: bater as botas, esticar as canelas, ir comer capim pela raiz, bater a caçoleta, botar o bloco na rua (por certo, lembranças serão despertadas). Tenho minhas preferidas nos dois conjuntos: no primeiro, formal, gosto de “faltar”; no jocoso, destaco “subir no telhado” (resquício de uma das melhores piadas de português de todos os tempos).

“MINHA MÃE FALTOU-ME ERA EU PEQUENINO”

E por falar em português, sem gracinhas, reporto-me a Guerra Junqueiro (1850-1923), com cuja poesia abono o eufemismo para morrer, a que me referi.  No poema “Os simples”, ele canta (chora!): A minha mãe faltou-me era eu pequenino,/mas da sua piedade o fulgor diamantino/ficou sempre abençoando a minha vida inteira,/como junto dum leão um sorriso divino,/como sobre uma forca um ramo d´oliveira! Penso que “minha mãe morreu” não teria jamais a pungência de “minha mãe faltou-me”. E imagino tempestivo lembrar que esse Abílio Manuel Guerra Junqueiro nasceu num lugar de nome lindo, ao norte de Portugal: Freixo de Espada-à-Cinta, pois, pois.

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A LINGUA É NOSSA HERANÇA E PATRIMÔNIO

Nossa língua é mais do que caminho de expressão de ideias e sentimentos. Ultrapassa a utilidade imediata da comunicação entre as pessoas para ser ferramenta da história, da cultura, dos valores do passado, da construção do presente, da projeção do futuro. Bem lembra Bilac que, em português, ”Camões chorou, no exílio amargo, o gênio sem ventura e o amor sem brilho”. A linguagem é herança, patrimônio que nos legaram – e do qual nos cabe cuidar, conservar o que precisa ser conservado, transformar o necessário e passar esse conjunto às gerações próximas, com orgulho e responsabilidade.

CONFUSÃO ENTRE HIPOCRISIA E LIBERDADE

O jornal, por ser mais perene do que o rádio e a tevê (apesar de mais transitório do que o blog), é grande repositório desse cabedal, por isso precisa ser menos permissivo na abertura de seus espaços, numa hipocrisia travestida de vaga liberdade de expressão. Nossas páginas estão cheias de artigos e comentários de autolouvação, que em nada ajudam a melhorar a sociedade, mesmo que sirvam ao ego de quem os assina. Texto tatibitate, bajulação aos poderosos do momento, redação descuidada, solecismos à mancheia e lugares-comuns a dar no meio da canela – são um desserviço imposto à língua.

PRINCÍPIO DE JORNALISTAS E COSTUREIRAS

Os (maus) exemplos são legião. Antes, parodiemos Cláudio Abramo, que disse (em A regra do jogo) ser a ética do jornalista a mesma ética do marceneiro (e creio nisso, pois a ética é mesmo um valor comum a qualquer atividade): jornalistas, do ponto de vista operacional, não são diferentes de costureiras, por exemplo. Àquelas, se não conhecem linha e agulha, ninguém daria emprego; destes, há de se exigir conhecimentos básicos de língua portuguesa. São princípios, mutatis mutandis, indispensáveis para quem quer costurar ou escrever (que talvez seja, no final das contas, um gênero de costura).

VERBO TRANSITIVO DIRETO E MÁ COMPANHIA

O exemplo foi colhido em coluna de jornal de Ilhéus. Ao prantear a morte da professora Nélia de Saboia Orrico, o colunista descreve o ambiente do cemitério em linguagem romântica, talvez para atenuar o trágico. “O farfalhar do vento entre as alamedas com árvores frondosas nos convida a fazer sempre uma reflexão sobre o sentido da vida”, filosofa. Em merecida adjetivação à mestra, ele destaca a “perda irreparável” e saca este fecho infeliz: “Nunca vamos lhe esquecer”. Verbo transitivo direto, como este, acha que o “lhe” é má companhia: “Nunca vamos esquecê-la” é a forma requerida.

UM HOMEM DE RELAÇÕES (MUITO) PERIGOSAS

David Nasser  (1917-1980) foi um dos brasileiros mais influentes do seu tempo. Homem de muitas faces, publicou vários livros e reportagens de altíssima octanagem, que lhe renderam fama e dinheiro. Principal pena alugada de Chateaubriand, perseguiu desafetos e defendeu monstruosidades como o Esquadrão da Morte. Certa vez, com o fotógrafo Jean Manzon, fez uma reportagem para “ensinar” aos brasileiros como distinguir um japonês de um chinês. E dentre outras coisas, disse que o japonês podia ser identificado pelo aspecto “repulsivo, míope, insignificante”. Ao morrer, riquíssimo, teve o caixão coberto pela bandeira da organização criminosa que apoiou.

 

DE DENTRO DO MONSTRO EMERGIA UM POETA

Dentro do monstro habitava, além do panfletário temido, um poeta de belos versos. É, esse David Nasser de tão degradada biografia, um dos letristas mais festejados da MPB, parceiro de grandes músicos, sobretudo de Herivelto Martins. É autor de pérolas como Canta Brasil (com Alcir Pires Vermelho), Confete (Jota Júnior) e Normalista (Benedito Lacerda). Com Herivelto, fez Atiraste uma pedra, Pensando em ti e Camisola do dia, (as de que me lembro), uma memorável série de tangos (Estação da luz, Carlos Gardel e Hoje quem paga sou), além da vinheta de fim de ano usada pela Globo ( “Adeus ano velho, feliz ano-novo…”), em parceria com Francisco Alves.

RELEMBRADO POR BETÂNIA, CAETANO E GAL

Na minha memória, quem mais gravou David Nasser foi Nelson Gonçalves. Maria Betânia – que pode não ser a cantora que dizem, mas é dona de indiscutível bom gosto e cultura musical – regravou Atiraste uma pedra e A camisola do dia (Gal Costa também cantou Atiraste uma pedra) e Caetano recuperou Pensando em ti. Percebam como o jornalista, ao contrário de muitos coleguinhas por aí, não se permite cair na armadilha dos pronomes da segunda pessoa: eu amanheço (e anoiteço) pensando em “ti”, eu não “te” esqueço, vejo a vida pela luz dos olhos “teus”, “te” vejo nas espirais de fumaça, se leio um livro, em cada frase “tu” estás – e por aí vai. Uma aula.

(O.C.)

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UNIVERSO PARALELO

O CACOETE, ANTIGO INIMIGO DA LINGUAGEM”

Ousarme Citoaian

Dentre os vícios que nossa linguagem oral adquire, um dos mais incomodativos é o cacoete – o uso repetitivo de palavra ou expressão. Conheci um prefeito de Itabuna que era incapaz de fazer uma frase sem antecedê-la de um “realmente”. Criava-se uma situação esdrúxula nas entrevistas. Por exemplo, se algum puxa-saco lhe perguntava  como estava passando de saúde, a resposta vinha mais ou menos neste formato: Realmente, eu estou… E este nem é dos piores. Ruim mesmo é quando o cacoeteiro usa perguntas (sabe, entendeu, percebe?). O ex-jogador Pelé termina 99,99% das frases com uma amolante interrogação: entende?

UMA EXECUÇÃO “TREMENDAMENTE DOLOROSA”

Em Ilhéus, famoso professor de História do lendário I. M. E. (na foto de Mendonça) tinha, apesar de sua riqueza vocabular, predileção pelos termos “tremendo” e “doloroso”. Toda ocorrência incomum, chocante, era para ele “uma coisa tremenda” (ou “dolorosa”). “Certos” alunos anotavam as vezes em que ele dizia tais palavras e, ao fim da aula, não raro discutiam: “quatro tremendos e dois dolorosos”, dizia um; “foram quatro tremendos e três dolorosos”,  contestava o outro. Certo dia, o mestre, emocionado ao descrever, em cores vivas, a execução de Tiradentes, disse ter sido aquilo um ato… “tremendamente doloroso”. Foi difícil conter nosso entusiasmo.

ILUSTRE, ELEGANTE, PREPARADO E ÍNTEGRO

A referência, se parece jocosa, não teve essa intenção. Ao contrário, registra, com respeito e saudade, a ausência “dolorosa” (se me permitem) de um ilustre, preparado e dedicado educador, homem público reto, decente, elegante no trato, íntegro como poucos (foi secretário da Educação de Ilhéus), morto em 2008, em Brasília: Leopoldo Campos Monteiro, sergipano de nascimento e ilheense por escolha – e que nos faz hoje uma falta “tremenda”. Autoridade em História (o Palácio Paranaguá é nome sugerido por ele), também sabia muito de economia municipal, heráldica e numismática. O brasão de Ilhéus, criado em 1954, é de sua autoria.

PINTURA COM SOBRAS DE TINTA ROXO-TERRA

Por falar em Instituto Municipal de Educação (I. M. E.), ele acaba de receber mais um desserviço do poder público: uma pintura ao belo estilo “mistura de tintas”, indigna do prédio que foi modelo de cartão postal de Ilhéus. Essa intervenção – ao que parece, feita com sobras de material – agride o olhar e traumatiza a história, sugerindo obra de quem não tem sequer noção do que o I.M. E. significa para a cultura local. O tempora, o mores! (“Oh tempos, oh costumes!”), diria o cônego Mário, latinista da casa, que deve estar – tanto quanto Leopoldo, Mário Pessoa, Eusínio Lavigne, Heitor Dias e outros – dando pulos no túmulo.

ABRIL DESPEDAÇADO QUE NUNCA TERMINOU

Não pretendo perder de vista que há 47 anos, naquele abril despedaçado de 1964, ocorreu no Brasil um golpe militar de consequências desastrosas.  E no conjunto da burrice que se institucionalizou no país – quando algumas das maiores inteligências nacionais foram engessadas – aparece com destaque a tentativa de prisão de famoso teatrólogo, que, felizmente para as nossas relações diplomáticas com a Grécia, não aconteceu. Aliás, tal prisão seria uma absoluta impossibilidade histórica, só admissível por um governo que não tinha cabeça. Aconteceu no Teatro Jovem, no Rio de Janeiro, no fim dos anos 60.

MULHER MORRE POR CONTESTAR LEI INJUSTA

Levava-se a tragédia Antígona, de Sófocles, peça escrita há mais de quatro séculos a.C. Recorde-se que Antígona é irmã de Etéocles e Polinice, e os três são filhos de Édipo (aquele mesmo!), que morrera tragicamente. Os dois irmãos morrem em luta (um contra, outro a favor de Tebas). Creonte, o governador, determina que um dos mortos, o que era “amigo” da cidade, tivesse honras fúnebres e ao outro, “traidor”, tudo fosse negado – e seria também traidor quem não cumprisse esse édito. Antígona se insurge contra a decisão e o governador, seu cunhado, a condena à morte.  Creonte acha que todos são iguais perante a lei.

“AI DE MIM!”, O GRITO DOS TORTURADOS

Um bando de agentes do governo invadiu o Teatro Jovem, de pergunta em punho: “Onde está o Sr. Sófocles? Temos ordens de levá-lo para interrogar”. Como fazer aquela gente perversa entender que o autor morrera há 406 anos antes de Jesus? Mas milagres acontecem. Eles entenderam,desistiram da “prisão” e se contentaram em tirar a peça de cartaz, alegando que a mesma era subversiva. O grito secular de Antígona, feito por Anecy Rocha, irmã mais nova de Glauber (Ai de mim, zombam da minha desgraça!) prenunciava a noite sem luz que viria. Este registro é em homenagem aos que tiveram as unhas arrancadas a alicate. Sófocles escapou.

CARNE FRITA, A LENDA, PASSOU POR AQUI

A citação do livro Malagueta, Perus e Bacanaço, há dias, trouxe à baila o nome de Carne Frita (Walfrido Rodrigues dos Santos), a maior lenda da sinuca no Brasil. Sua fama foi feita no boca a boca, num tempo em que a mídia não divulgava o joguinho, considerado coisa de vagabundo. Mesmo assim, terminou na televisão e no cinema. Alagoano de Penedo (há quem diga que ele nasceu em Propriá/SE), viajou muito pelo Brasil. Em Itabuna, teria perdido para Rui Falcão (provavelmente o maior jogador que o Sul da Bahia já teve), num match memorável travado no Elite Bar. Ganhou poucos títulos: quando a sinuca foi organizada como esporte ele teve a visão prejudicada por um acidente. Mora em São Paulo, e joga raramente.

ITABUNA JÁ PRODUZIU UM GRANDE CAMPEÃO

O itabunense Rui Matos de Amorim, o Rui Chapéu (foto), foi motorista de caminhão até os anos 70, quando largou a atividade para viver do seu talento, a sinuca. Conta que não fez isso antes devido ao preconceito que tinha de enfrentar (o jogo era tido como coisa de malandro). Embora tenha uma penca de títulos, Rui não gostava de competir no Brasil, pois os prêmios são pagos em troféus. “Os campeonatos não rendem prêmio em dinheiro, e eu precisava levar dinheiro para casa. Nós não íamos comer as taças”, brinca. Da segunda metade dos 80 até 1992, deu aulas de sinuca na Rede Bandeirantes, transmitidas aos domingos. Seu maior feito foi, em1981, vencer o inglês Steve Davis, campeão mundial.

NOEL “FECHA”, NA MAIOR TACADA POSSÍVEL

Noel Rodrigues Moreira, o Noel, 39 anos, é de Roncador (área rural do Paraná), e um dos mais temidos tacos da nova geração. Desde os sete anos se interessava pelo joguinho (próximo à casa dele havia um boteco, com uma velha mesa, sua primeira experiência). Aos 18, já em Curitiba, deslumbrou-se com o estilo do goiano Roberto Carlos, intensificou os treinamentos e se profissionalizou. Dentre os títulos conquistados, estão os de campeão estadual (várias vezes), campeão brasileiro (duas vezes) e campeão sul-americano. Aqui, ele dá uma demonstração de como “fechar” o jogo, com a maior tacada possível: 112 pontos (observe que ele faz a proeza de encestar a bola sete treze vezes).

(O.C. )

UNIVERSO PARALELO

A ORELHA CORTADA E O GOL QUE NÃO HOUVE

Ousarme Citoaian

Certos artistas são lembrados por um momento, uma curiosidade, uma circunstância: Van Gogh, por ter cortado a própria orelha e por vender, em vida, um único quadro –  A vinha encarnada (foto); mesmo quem não é dado a jazz & blues sabe que Ray Charles era cego, e isso basta; também de Jorge Luís Borges não se precisa ler nada, mas é imperdoável desconhecer-lhe a cegueira; e Pelé (embora não seja, rigorosamente, um artista)  foi muitas vezes celebrado pelo gol que não fez. Penso que essas situações poderiam integrar a lista daquilo que o gênio de Millôr Fernandes chama de “Ah, essa falsa cultura!” Entende.

FIRMINO ROCHA E O MENINO DO FUZIL

Autores são, volta e meia, vítimas da simplificação, passando a ser identificados por um só trabalho, não raro um detalhe, um ângulo desse trabalho. Essas referências, que contribuem para eclipsar o conjunto da obra, têm sido causa de irritação para muitas “vítimas”, que veem sua produção reduzida à expressão mais simples. São várias as situações em que o artista tem sua obra expressada por um item – um quadro, um disco, às vezes um verso, uma frase. Há poucos dias, citamos aqui o poeta itabunense Firmino Rocha, também ele atingido por essa “maldição”: sempre que se o cita, ouve-se uma referência ao poema “Deram um fuzil ao menino”. E só.

MÃOS QUE AFAGAM TAMBÉM APEDREJAM

Conta-se que Raimundo Correa ficava de mau humor quando alguém o tratava como o autor de As pombas (“Vai-se a primeira pomba despertada…”) e João Cabral de Melo Neto (foto), já de si zangado, não costumava ser simpático com quem demonstrava conhecê-lo apenas pela leitura do poema Morte e vida severina. Há pessoas que jamais abriram um livro e, mesmo assim, citam, sem saber a origem: “Depois de um longo e tenebroso inverno” (Luiz Guimarães), “Última flor do Lácio inculta e bela” (Olavo Bilac), “A mão que afaga é a mesma que apedreja” (Augusto dos Anjos) e “Que seja infinito enquanto dure” (Vinícius de Moraes). Também sei de gente que reduz Valdelice Pinheiro a “Rio Cachoeira” (“Rio torto, rio magro, rio triste…”).

A ELIPSE E A SEM-GRACICE DE MILÔR

Uma questão recorrente nesta coluna – a figura chamada elipse, que leva as pessoas a misturar os artigos definidos – teve um abono interessante, mesmo que nunca mais repetido, devido aos protestos que provocou. O nome do abonador, pasmem, é Luís Fernando Veríssimo. Com surpresa, leio no jornalista e filólogo Marcos de Castro (última edição de A imprensa e o caos na ortografia, uma de minhas leituras de cabeceira) que em 1997 o filho de Érico Veríssimo afirmou, em crônica no Jornal do Brasil, que Millôr Fernandes trabalhara “na Cruzeiro”. Millôr, que trabalhou na revista O Cruzeiro (e tem intolerância a bobagens) ficou sem graça.

SIMÕES FILHO EM ESTADO APOPLÉTICO

Essa epidemia de elipse fere uma regra simples, que toda redação conhece (ao que vejo, conhecia): o artigo que está no nome do veículo dita-lhe o gênero. Assim, O Cruzeiro é usado no masculino, tanto quanto O Malho e O Tico-Tico (embora sejam revistas, o que lhes dá “aparência” de feminino). Já A Tarde, A Gazeta, A Região e A Crítica são femininos (esse nó na língua que se dá para chamar A Tarde de “o A Tarde” deixaria apoplético o eminente Ernesto Simões Filho). Procurei de lanterna mão e não encontrei um só texto em que se chame a Folha de S. Paulo de “o Folha…” ou A Gazeta de “o Gazeta”. Ainda bem que o ataque não é generalizado.

PORTUGUÊS SEM “CONTORCIONISMOS”

Sobre a batatada de Luís Fernando Veríssimo (primeiro à esquerda, sentado), depois de dizer que “seu pai não faria o mesmo”, Marcos de Castro dá um exemplo, colhido “no admirável Solo de clarineta, de Érico Veríssimo”: “Quarta-feira era o meu dia mais esperado e feliz da semana, pois era às quartas que geralmente chegava a Cruz Alta o último número de O Tico-Tico”. O crítico nos chama a atenção para o fato de que por mais cinco vezes Érico se refere à revista na forma masculina, “sem fazer contorcionismos com o idioma”, mudando o gênero para o feminino. E conclui, com uma ponta de maldade: “O filho pode ser bom em saxofone, mas em clarineta o pai era melhor”.

NO BALCÃO, QUEM DIRIA, A FRASE GENIAL

Quando inventaram o comércio, inventaram os caloteiros e, por consequencia, as frases que procuram afastá-los. “Fiado só amanhã” é uma das mais antigas e, por isso, o tempo já lhe subtraiu a graça que, por ventura, teve na juventude. Desconfio de que, menino (aconteceu há uns 300 anos, ai meu Deus!) eu já desgostava da mesmice na linguagem, tanto que me encantei com uma frase de genial economia de palavras (sobre vender fiado), que vi sobre um balcão de loja – e nunca mais a encontrei, por mais que a buscasse, nem mesmo nos arquivos da internet. Jamais esqueci a frase e, claro, o nome do seu autor, o italiano Paolo Mantegazza (foto).

OS ARTISTAS NÃO SÃO FEITOS NA ESCOLA

Esse Mantegazza (1831-1910) não era um qualquer: foi neurologista, fisiologista e antropólogo, notável por ter isolado a cocaína da coca, que utilizou em experimentos, investigando seus efeitos psicológicos em humanos (“pesco” isto no Google). O velho italiano foi escritor de ficção e ainda encontrava tempo para produzir frases de efeito. “A escola pode aperfeiçoar o artista, criá-lo, nunca; não se melhora senão o que já existe”, é uma de suas pérolas. Outra: “A honra nunca existe por metade; inteira é forte, ferida está morta”. Faltou citar a minha preferida, primor de síntese para desestimular os velhacos: “Vendo, vendo; não vendo, não vendo”.

VOZES OBLÍQUAS NA HORA DO SOL SE PÔR

Há murmúrios neste rio,
vozes oblíquas me chamam;
Cantigas de bem-me-quer
entre rosas imaginárias.
Gemidos de superfície,
do coração de Jandira;
acenos de mãos franzinas
entre brisas de luar.
Senda do meu destino
nesta hora tão antiga;
uma saudade-ternura
na hora do sol se pôr.
Cachoeira, Itabuna, Jandira.
Amor cravado em cruz.

SINAL DE DESENCANTO COM A LITERATURA

Autor de “Água corrente”, acima, Ariston Caldas (1923-2007) passou sua vida, principalmente, em Uruçuca, Itabuna e Salvador. Na região e na capital exerceu o ofício de jornalista, poeta e prosador. Trabalhou nos grandes jornais de Salvador e aqui do Sul, tendo participado de várias antologias de contos e poemas. Publicou cinco livros de poesia: Mar distante, A hora sem astros, Balada que vai e vem, Olho dágua e Dissipação, todos em edições mais ou menos artesanais, hoje difíceis de ser encontrados.  Ariston (à direita da foto, ao lado de Jorge Amado – acervo de A Região) pareceu, em certo momento da vida, desencantado com a literatura, ficando mais de três décadas sem publicar. Curiosamente, um ano antes da morte voltou às livrarias, mas com um trabalho em prosa: Linhas intercaladas (Via Litterarum/2006).

SARAH VAUGHAN, A DIVINA, TERÁ EXISTIDO?

A primeira vez que o som inusitado da voz de Sarah Vaughan entrou pelos meus ouvidos eu senti um impacto próximo ao delírio. E cheguei de imediato à conclusão de que aquela cantora não existia – seria uma invenção de técnicos desocupados, um desses “milagres tecnológicos” que sempre estiveram em moda. Na época, minha sensação era da impossibilidade de um canto tão perfeito; e hoje (tantos anos já passados) ainda às vezes penso que Sarah (chamada, com justiça, a Divina) nunca existiu de se ver e pegar, não é gente de carne e osso. O exemplo é sua interpretação de Someone to watch over me, de George (foto) e Ira Gershwin – os irmãos da ópera Porgy and Bess (1935), já citada nesta coluna.

LETRAS COM BOBAGENS ARREPIANTES

Someone… tem letra feminina e bobinha (como em geral as letras dos americanos). Fala de “procurar um certo rapaz que eu tenho em mente” (I’m going to seek a certain lad I’ve had in mind), com bobagens arrepiantes, como “Onde está o pastor para esta ovelha perdida (Where is the shepherd for this lost lamb)? Na versão “masculina” com Emílio Santiago (foto) ficou:  “Eu sou um carneirinho perdido, arrependido e oferecido a alguém que olhe por mim” (Céus!). E antes que perguntem se Ira e George, com esse papo estranho, eram do reduto, respondo que não, ao menos que eu saiba – Cole Porter, contemporâneo deles, era quem jogava nessa posição. O que se notabiliza em Someone… é a melodia (de George), mais ainda com Sarah Vaughan, capaz de transformar em música até a lista telefônica de Constantinopla.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

O COMPOSITOR MAIS RICO DO MUNDO

George Gershwin está na calçada da fama de Long Island desde 2006 e é nome de teatro em Manhatan, em resposta à contribuição que deu a esse meio cultural.  Aproveito e digo, só para quem ainda não sabe, que esse Gershwin (1898-1973), cuja fama encobriu   o irmão e colaborador Ira, formou ao lado dos maiores compositores americanos – como Cole Porter (foto), Richard Rodgers, Irvin Berlin e outros. E também das maiores fortunas. Artista talentoso e com uma vocação atávica para ganhar dinheiro (era judeu-russo), se deu muito bem na vida: em 2005, o jornal The Guardian concluiu que, “estimando os lucros acumulados na vida de um compositor, Gershwin foi o compositor mais rico de todos os tempos”.

COM VOCÊS, A DIVINA SARAH VAUGHAN!

Agora clique, se ajoelhe e esqueça, por escassos três minutos e meio, tudo o que ficou está lá fora. No fim, bata palmas – e se alguém estranhar, não ligue: o mundo está cheio de gente sem poesia.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

ENTRE A CONDENAÇÃO E A CURIOSIDADE

Ousarme Citoaian

Que meu olhar não seja de condenação, para evitar receber pedradas da CLMH (Comunidade dos Linguistas Mal Humorados), mas que possa ser de curiosidade. É que (assim como o “risco de vida”, aqui abordado recentemente), alguns neo-puristas decidiram que a expressão “entrega a domicílio” é ilegítima, de sorte que se algum infeliz a utilizar vai arder no fogo do inferno. O “certo” é “em domicílio”, proclamam os descobridores de novidades. Vamos acertar uma coisa: a língua portuguesa se alimenta do novo, mas mantém um pé na tradição, nas formas ditas consagradas, aquelas que os bons autores abonam.

EXPRESSÕES LEGITIMADAS PELO USO

“A domicílio” (condenada pelos puristas desvairados como abominável galicismo) é uma expressão enraizada na linguagem popular, que nossos avós já empregavam, e que, por ser consagrada, dispensa esses cuidados urgentes que lhe querem prestar. Os neologismos inúteis precisam ser evitados, e não aqueles se insinuam de forma natural e terminam integrantes “legítimos” da nossa fala. É o caso dos legitimados abajur (que já foi abat-jour) e piquenique (outrora, picnic). Atualmente, insiste-se em delivery de pizza (este, sim, um estrangeirismo dispensável). Contra ele temos o boa e velha “entrega a domicílio”.

INÚTIL ARTIFICIALISMO DE LINGUAGEM

A professora Maria Tereza Piacentini afirma que a regra purista manda usar “a domicílio” com palavras que indicam movimento (levar a roupa, a pizza etc.), e “em domicílio” quando sem movimento (dar aulas, cortar cabelo, fazer unhas e outros). Mas ela reconhece que “essa diferenciação está ultrapassada”, e que o uso prático recuperou (se alguma vez perdeu) a forma “a domicílio”, para ambos os casos. Portanto, vamos deixar de lado mais esse inútil e bobo artificialismo de linguagem que alguns redatores mal informados ajudam a difundir, e retomar a já brasileiríssima “a domicílio”, sem receios.

COPA DO MUNDO DE LUDOPÉDIO

Há estrangeirismos contra os quais a luta dos puristas é vã. Em certa época, tentou-se um termo “brasileiro” para piquenique, encontrando-se “convescote”. Não pegou, de sorte que os mais jovens (se não forem estudiosos de Gramática Histórica) desconhecem o termo. Só um sujeito irremediavelmente imbecil chamaria a colega de trabalho para “fazer um convescote” – e se arriscaria a um processo por assédio sexual: antigamente, moça de família só “convescoteava” depois do casamento. E tem ludopédio, do latim ludus (jogo) e pedis (pé) que quiseram pôr no lugar do anglicismo futebol. Não deu. Receio até que o Brasil, diante das patriotadas do “sargento” Dunga, jogue ludopédio, em vez de bola.

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“ARTIGO NOVIDADEIRO E INÚTIL”

Com o futebol no topo do noticiário, fortifica-se o festival de bobagens que habita o meio. Um dos itens mais notáveis é a inflação de artigos definidos que toma conta do noticiário. Em outros tempos, dizia-se que Zico ia vestir a camisa 10; atualmente, diz-se que quem vai vesti-la é o Kaká; no gol, informava-se que estaria, por exemplo, Tafarel; agora quem está é o Júlio César; a lateral direita, que em 1970 tinha Carlos Alberto Torres, agora tem como titular o Maicon – e por aí vai. “É de lamentar-se, mas todos os veículos de comunicação têm atrelado esse artigo novidadeiro e inútil em seus textos”, constata Marcos de Castro, em A imprensa e o caos na ortografia (Record – 5ª edição).

SEM CONCESSÕES AO MAU GOSTO

No começo, falar o Pelé ou o Luís Pereira (foto) era costume de algumas camadas das populações paulista e carioca, sempre em termos informais, quando ainda se mantinha maior respeito pela norma culta. Mais tarde, a televisão (a Globo, sobretudo, grande criadora de modismos) adotou algo semelhante como forma de comunicação: buscava-se uma linguagem capaz de ser entendida por todo o conjunto dos telespectadores, tendo como padrão de baixa escolaridade as pessoas de mais baixa escolaridade (se elas entendessem, todos entenderiam). Era o “coloquial bem escrito”: simples, claro e correto, sem preciosismos, mas igualmente sem concessões ao popularesco. Só que o controle se perdeu.

O BALTAZAR, O GASPAR E O BELCHIOR

“Qualquer palmeirense lembra, com saudades, de Leão, Luís Pereira, Dudu, Ademir da Guia e Leivinha. Já o bom marcador Zeca não foi tão marcante. E o Internacional de Rubens Minelli, bicampeão brasileiro? Ali fizeram história Manga, Figueroa, Falcão, Valdomiro e o lendário Dadá Maravilha. Mas ali também jogou o discreto Vacaria”, anota José Roberto Torero (Os cabeças-de-bagre também merecem o paraíso/Editora Objetiva). Em texto contemporâneo, o cronista manda sua mensagem sem gastar o estoque de artigos definidos – mostrando que não se trata de época, mas da competência de quem escreve. Há redatores por aí querendo “modernizar” o texto bíblico, dizendo que o Jesus, ao nascer, foi anunciado pelo Baltazar, o Gaspar e o Belchior.

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CHUMBO QUENTE E TEXTO REFINADO

E cá estamos, outra vez, a de western, como gênero de cinema uma paixão. John Ford, em Paixão de fortes nos faz bela surpresa, ao introduzir, quem diria, uma citação de Shakespeare, nada menos do que a cena 5 do ato III de (a tragédia de) Hamlet. Num saloon esfumaçado, um artista meio bêbado declama o To be, or not to be. Os vapores etílicos lhe atacam a memória e ele se vale de um pistoleiro “erudito” (o lendário Doc Holiday, aqui vivido por Victor Mature) para recitar o resto do texto, sob o olhar perplexo de Wyatt Earp/Henri Fonda. Improvável? Sim, mas criativo e de bom gosto.

EDGAR ALLAN POE EM PLENA PRADARIA

Howard Hawkins gostou tanto de Onde começa o inferno/1958 que fez uma refilmagem (esse hábito não estava em moda, como hoje, quando os filmes terminam dando a deixa para o próximo): é Eldorado, outra vez com John Wayne, agora liderando novo elenco (com destaque para Robert Mitchum, o xerife bêbado). Pois é nesse incrível ambiente que Hawkins introduz o poema “Eldorado” de Poe – no qual o autor ironiza a irracional corrida do ouro e dá aos versos, em Inglês, uma forma tal que o ritmo simula cavalos correndo. No filme de Hawkins, quem declama “Eldorado” é James Caan (à esquerda, na foto), um jovem e desajeitado pistoleiro de nome impronunciável.

O HOMEM EM SUA BUSCA SEM FIM

“Sozinho e errante/ um cavaleiro galante/ no sol e na sombra/ longamente viajara/ cantando, em busca do Eldorado”, recita Caan. O poema fala da eterna andança que o cavaleiro galante (noutra tradução é “elegante”) empreende em direção, talvez, à felicidade. Ele cavalga até ficar velho, sem encontrar “nenhum pedaço de chão parecido com Eldorado”. Quando está à beira da desistência, “caiu-lhe no peito uma sombra”, a quem ele, quase vencido pelo desânimo, interroga: “Onde estará essa terra/ chamada Eldorado?” – e a sombra responde: “Cavalgue, cavalgue corajosamente/ se você quer encontrar Eldorado” (combinei a tradução do filme com a de Rodrigo Garcia Lopes).

EM LETRAS, SOMOS OS BAMBAMBÃS

Do pouquíssimo que sei, acho que nossa música é a melhor do mundo, ao menos em termos de letra. O europeu é bom letrista, mas o brasileiro é melhor. Os americanos não são grande coisa. Mesmo o jazz, se cantado, não diz muito. Os europeus (sobretudo franceses, italianos e portugueses) ganham dos ianques, mas o Brasil ganha fácil deles todos. Yes, nós temos Braguinha (foto), Noel, Tom, Vinícius, Edu, Caetano, Gil, Chico Buarque, Paulo César Pinheiro, Cartola, Dolores Duran, Orestes Barbosa – citemos poucos, para não humilhar os gringos e criar problemas diplomáticos. Orestes escreveu “Tu pisavas nos astros, distraída”, o mais belo verso da língua portuguesa, segundo Manuel Bandeira.

LANCEADO, PREGADO, CRUCIFICADO

Há uma letra que me impressiona sobre as outras: Rosa, de Otávio de Sousa, que tem coisas assim: “Se Deus/ me fora tão clemente/ aqui neste ambiente/ de luz, formada numa tela/ deslumbrante e bela…/Teu coração/ junto ao meu lanceado/ pregado e crucificado/ sobre a rósea cruz/ do arfante peito teu”. Romantismo derramado, tangenciando o barroco, de autor praticamente anônimo. O público, injustamente, identifica a canção como “Rosa de Pixinguinha”. E o grande Pixinguinha (foto), autor da melodia, não ajudou a esclarecer o mistério. Interrogado, disse que Otávio de Sousa “era um mecânico que morava no Engenho de dentro, muito inteligente e que morreu novo”.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

O MECÂNICO QUE NÃO DEIXOU RASTRO

Fazer esta letra e sumir sem deixar outro rastro na MPB é impossível. Minha versão preferida é outra: Otávio de Sousa nunca existiu, e Rosa seria de Cândido das Neves, o Índio (na verdade, negro!). O autor de Última estrofe (que todo seresteiro de respeito conhece) teria vendido os versos de Rosa a Pixinguinha e este “inventou” o mecânico. É coisa para pesquisador com P caixa alta. Os vídeos na internet estão cheios de erros na letra. Há até uma anta que canta (anta canta?) “vozes tão dormentes como um sonho em flor”, quando o poeta (seja quem for) escreveu dolentes.

ARROCHA PARA OS CAÇADORES DE ERROS

Luciana Mello comete “só” três erros. Se você descobrir algum deles, reclame no Pimenta o CD O melhor do arrocha, com a faixa-bônus “Rebolation”, na voz do Mano Cae. Mas, melhor do que caçar erros é relaxar e apreciar esse banho de romantismo, típico da MPB que se fazia no meado do século XX  – Orlando Silva (foto) lançou Rosa em 1937.


(O.C.)









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