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:: ‘Pixinguinha’

UNIVERSO PARALELO

DÂMOCLES, UM PUXA-SACO “DAS ANTIGAS”

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

1Dâmocles

Importante jornal de Itabuna, analisando as complicações no governo de Ilhéus, afirma que a Lei de Responsabilidade Fiscal “aponta, como espada de Dâmocles, para o pescoço do prefeito”. Se aponta, é problema do alcaide, não desta coluna, mas a expressão é notável como presença dos mitos greco-romanos  na língua portuguesa.  O caso teria ocorrido lá pelo séc. IV a. C. e é contado por Cícero (de quem falamos mal um dia desses): em Siracusa, onde reinava o tirano Dionísio II, Dâmocles, um puxa-saco (eles são tão velhos quanto o mundo!), costumava acariciar o ego do velho Dió, insistindo em que este  era sortudo, pois vivia em palácio, cercado de luxo e riqueza. O rei resolveu dar uma lição ao bajulador.

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À falta de espada, pedra grande serve

Dâmocles foi desafiado a reinar por uma noite, para ver como as coisas funcionavam em Siracusa. E ficou lá, de boa, sentado em trono aveludado, cercado de criados que lhe serviam a melhor comida e o vinho mais fino, se achando (segundo Cícero, nem Renan Calheiros tinha igual mordomia). Porém, ao olhar para cima, viu que, apontando para sua cabeça, havia uma espada pendurada, segura apenas por um fio de cabelo, e que ele poderia a qualquer instante ter o crânio rachado ao meio. Dionísio II queria dizer que com o poder e o luxo vem o perigo constante. Pena é que sobre nossas cadeiras do judiciário, executivo e legislativo não pendam espadas afiadas. Ou robustos blocos de pedra.

ENTRE PARÊNTESES, OU

3Sandro MoreyraO Maracanã para a utilização adequada

“Nos tempos em que administrava o Maracanã, Abelard França recebeu carta de um torcedor, reclamando que todos os domingos ia ao estádio e nunca encontrava papel higiênico nos sanitários. Abelard França, que nunca deixava carta de torcedor sem resposta, escreveu ao reclamante: ´Mandei providenciar. Mas gostaria que o amigo compreendesse que o Maracanã não foi necessariamente feito para o uso que o senhor vem fazendo dele´” (Sandro Moreyra, Histórias de futebol – Coleção O Dia Livros).

 

O MAIOR SATÍRICO DA LÍNGUA PORTUGUESA

Alguém se lembra de Gregório de Matos, o Boca do Inferno? Espécie de pai dos satíricos brasileiros, ele deixou marcas, apesar de viver pouco: nascido em 1636 (Salvador), morreu em 1695 (no Recife), com menos de 60 anos. Também advogado, o Boca é tido como o maior poeta barroco do Brasil, e o mais importante satírico da língua portuguesa, nos tempos coloniais. Uma curiosidade é que Gregório de Matos, mesmo nascendo em terra baiana, não era brasileiro, pois o Brasil só se tornaria independente em 1822 (186 anos depois do nascimento do poeta). Ele não tinha, portanto, nacionalidade brasileira, mas luso-brasileira, de acordo com as leis vigentes.
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5Gregório (1)Cidade sem verdade, honra e vergonha

Pena molhada em veneno, Gregório de Matos foi severo crítico dos costumes na cidade do Salvador, e fez da Igreja Católica seu principal alvo (do que se disse, no fim da vida, arrependido). Um exemplo do primeiro caso é este epigrama: “Que falta nesta cidade? – Verdade/ Que mais por sua desonra? – Honra/ Falta mais que se lhe ponha – Vergonha./ O demo a viver se exponha,/ Por mais que a fama a exalta,/ numa cidade, onde falta/ Verdade, Honra e Vergonha”. Outra tirada do mestre, que conheço dos velhos tempos de escola, bate vigorosamente na religião: “A nossa Sé da Bahia,/ com ser um mapa de festas,/ é um presepe de bestas,/ se não for estrebaria”.

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Justiça de olhos vendados ou vendidos

Na região, Gregório de Matos teve alguns “herdeiros”, sendo Alberto Hoisel o mais notório deles. O satírico perdeu uma questão no fórum de Ilhéus, passando de vítima a réu: foi condenado a pagar custas processuais e honorários advocatícios. Irritado, respondeu ao sistema com duas quadrinhas, a primeira, contra o advogado Francolino Neto, é profundamente racista, impublicável, portanto; a segunda atingia diretamente o Judiciário: “A Justiça em seus julgados/ Anda sempre em dois sentidos:/ Ora de olhos vendados,/ Ora de olhos vendidos” (Antônio Lopes, Solo de Trombone: ditos & feitos de Alberto Hoisel – Editus/Uesc, 2001).

CRISTINA BRAGA, MÃOS TOCANDO O BRASIL

“A harpa tem a forma do mapa brasileiro, é como ter o Brasil nas mãos, tocar o Brasil”, palavra de Cristina Braga, 1ª harpista da Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Em sua persistência na divulgação desse instrumento, ela mostra que a harpa, quem diria, tem alma brasileira, fazendo bonito não só nos concertos de música clássica, mas também quando se trata de choro, samba, valsa e bossa-nova. Professora de harpa na Universidade Federal do Rio de Janeiro, ela não carrega aquele ranço “erudito” que habitualmente contamina os que militam no meio acadêmico: nada de nariz arrebitado para a vertente musical brasileira chamada “popular”. Se pedir com jeito, ela toca até maracatu e baião.

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7Orquestra

Noel, Cartola, Gal Costa, Pixinguinha

Harpista e cantora, Cristina tem perto de 20 discos gravados, com lançamento e consumo também na Europa, Estados Unidos e Japão. Sem os comuns preconceitos “culturais”, ela passeia com igual desenvoltura entre a sala de aula, o ambiente de concerto “clássico” e as apresentações “populares”. Tanto assim que sua estreia neste último campo se deu com um show de MPB em que ela tocava na harpa temas de Noel Rosa e Cartola. No currículo, trabalhos com estrelas da grandeza de Peri Ribeiro, Nara Leão, Gal Costa, Chico Buarque, Zeca Baleiro, Titãs, Lenine, Marisa Monte e outras. Aqui, com ajuda de Ricardo Medeiros (baixo), ela sola Rosa, de Pixinguinha (que teve letra do misterioso Otávio de Sousa).

UNIVERSO PARALELO

TÁBUA DE GRAXA GERA PESADELO EM ILHÉUS

Ousarme Citoaian

O afastamento do prefeito de Ilhéus nos rendeu um comentário sobre expressões idiomáticas: alguém escreveu que o substituto do prefeito estava “com o prato e o queijo nas mãos”, quando a fórmula secular é “com a faca e o queijo nas mãos (ou na mão)”. Pois o assunto rende. Em texto do Pimenta (“Ilhéus: governo por mais dez dias com Marão”), o redator usa falares de outras áreas, sobretudo do  futebol (houve um presidente da República que adorava fazer isto!) com inteira propriedade. A nota diz que os secretários tiveram pesadelo, com a possibilidade de descer na tábua de graxa. Em seguida, o futebol.

CHUTEIRAS PENDURADAS, POR POUCO TEMPO

O prefeito anunciou que ficará com as chuteiras penduradas por mais dez dias, mas deixa claro que o vice não deve eliminar o Bahia (referência ao secretário deste nome) nem dar cartão vermelho ao atacante Carlinhos Freitas (então, polêmico auxiliar do prefeito titular). A notícia ainda diz que o prefeito afastado espera que seja mantido o mesmo esquema de jogo e que o comando do time seja devolvido ao seu capitão da forma como foi recebido pelo vice. Perfeito (sem intenção de trocadilho). O folclórico Jânio Quadros (que, dentre outras esquisitices, era gramático!) se permitiu algumas formulações desse tipo.

JÂNIO QUADROS E A “METAMETALINGUAGEM”

No seu último mandato (prefeito de São Paulo, pela segunda vez), JQ pendurou uma chuteira na porta do gabinete (um recado aos que especulavam seu futuro  político (eu chamaria isto de “metametalinguagem”). Também proibiu o uso de sunga e biquínis fio-dental no Parque do Ibirapuera, obrigou o Teatro Municipal a expulsar os alunos tidos como homossexuais, multou pessoalmente motorista infratores, fechou os oito cinemas que iriam exibir o filme A última tentação de Cristo e recusou-se a dar posse à substituta, Luiza Erundina (dez dias antes, viajou para Londres, sua grande paixão). JQ era mais perigoso do que engraçado.

O GÊNERO NEUTRO QUE TANTA FALTA FAZ

Identificar a diferença entre masculino e feminino parece ser uma informação elementar para nos exprimirmos corretamente. Mas algumas palavras teimam em ficar na coluna do meio, como se indecisas, em cima do muro do gênero.  A língua portuguesa não possui o gênero neutro (embora este exista no latim, de onde viemos). As línguas neolatinas (português, francês, espanhol) não admitem meio termo: ou é uma coisa ou outra, ou está de um lado ou de outro.  Nada de terceira via. Entre parêntesis, uma observação de Stanislaw Ponte Preta, de muitos anos: “Do jeito que está crescendo, o terceiro sexo vai terminar sendo o primeiro”. Uma amiga desta coluna afirma que, de acordo com sua estatística, o terceiro sexo já é o segundo. Viu só?

A TERMINAÇÃO “FEMININA” É UMA ARAPUCA

Voltemos, enquanto é tempo, à gramática. Se tivéssemos herdado o neutro latino, muitas dúvidas estariam resolvidas. Por exemplo, telefonema, que gerou boas confusões: vi muita gente boa referir-se à telefonema (no feminino), quando o termo é masculino, macho – e disso não abre mão. Convenhamos que a palavra, com essa terminação sugestiva de feminino, é uma armadilha. Mas a dúvida foi sanada pelo tempo, de sorte que já não se ouve ninguém dizer “vou dar uma telefonema”. Que bom. Baianos ensaiaram, por motivos etimológicos que desconheço, “uma acarajé”. É raro, mas ainda possível ouvir-se em Salvador essa estranha formulação. Porém, a dúvida mais notória que me ocorre é com a palavra alface, volta e meia apelidada o alface.

COMPLICAÇÕES CRIADAS PELA HIDROPONIA


Alface é feminino, mas as coisas ficaram um tanto complexas, após a popularização de um processo chamado hidroponia – alguma coisa do grego hidro (água) e ponos (trabalho). No caso da alface é mais ou menos isto: o cultivo na água (não na terra). Por isso, é comum encontrarmos nas feiras alguém oferecendo “alface hidropônico”, aparentemente uma agressão ao gênero dessa folha, que deveria ser chamada, no caso, de “alface hidropônica”, o que não ocorre. Está errado? Assim é, se lhe parece (isto é Pirandello, creio): alface hidropônica está certo, porque alface é feminina; mas alface.hidropônico também, por conter, oculta por elipse, a ideia de processo, método, jeito (como foi cultivada a folha), palavras masculinas. É só escolher.

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“CARINHOSO”: CANÇÃO ROMÂNTICA PERFEITA

Há tempos (a rigor, faz muitos anos!), a Rede Globo, num desses concursos de regras pouco claras, levou o público a escolher “a música do milênio”, ou título semelhante. Torci por Carinhoso (Pixinguinha-João de Barro/1937), deu Aquarela do Brasil (Ari Barroso/1939). Acho que Carinhoso, com aquele “meu coração,/não sei por que,/bate feliz/quando te vê”, é perfeito como canção romântica . Os demais versos também são de uma simplicidade que muitos procuram e raros alcançam: “Vem matar esta paixão/que me devora o coração/e só assim, então, serei feliz,/bem feliz”. Braguinha, clássico, é simples, sem ser rasteiro.

MORENA SESTROSA E COQUEIRO QUE DÁ COCO

Aquarela do Brasil (por favor, ninguém precisa me lembrar da enorme importância do autor) não me atinge muito. Dirão que “o mundo inteiro” aprovou a canção – o próprio Ari, numa caricatura famosa do comediante José Vasconcelos, disse que “na Inglaterra, qualquer criança sabe quem é o autor de Aquarela do Brasil”. Eu respondo feito o cara da piada: “Não falo inglês…” Gracinhas à parte, a composição tem coisas demais de que não gosto: “coqueiro que dá coco”, “Brasil brasileiro”, “mulato inzoneiro”, “terra boa e gostosa”, “morena sestrosa” – são expressões vazias, em rimas forçadas.

“SAMBA-BAJULAÇÃO” À DITADURA GETULISTA

Sem contar que essa modalidade, conhecida como samba-exaltação, serviu como trilha sonora do Estado Novo (1937-1945). Era o ovo da serpente para coisas do tipo “Eu te amo, meu Brasil”, da última ditadura militar (aliás, Abreu Sodré, então governador de São Paulo – nomeado, obviamente – quis transformar essa excrescência de Dom e Ravel em Hino Nacional!). Voltando ao gênero “samba-bajulação” (ou “por-que-me-ufano-do –meu-País”), lembrar que, além de Aquarela do Brasil, o mais famoso é Canta Brasil (Alcyr Pires Vermelho-David Nasser/1941) e que a mim me parece de qualidade muito superior: os versos de David Nasser, quase sempre, impecáveis. Aqui, na interpretação do sempre impecável (sem quase) João Gilberto.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

ENTRE A CONDENAÇÃO E A CURIOSIDADE

Ousarme Citoaian

Que meu olhar não seja de condenação, para evitar receber pedradas da CLMH (Comunidade dos Linguistas Mal Humorados), mas que possa ser de curiosidade. É que (assim como o “risco de vida”, aqui abordado recentemente), alguns neo-puristas decidiram que a expressão “entrega a domicílio” é ilegítima, de sorte que se algum infeliz a utilizar vai arder no fogo do inferno. O “certo” é “em domicílio”, proclamam os descobridores de novidades. Vamos acertar uma coisa: a língua portuguesa se alimenta do novo, mas mantém um pé na tradição, nas formas ditas consagradas, aquelas que os bons autores abonam.

EXPRESSÕES LEGITIMADAS PELO USO

“A domicílio” (condenada pelos puristas desvairados como abominável galicismo) é uma expressão enraizada na linguagem popular, que nossos avós já empregavam, e que, por ser consagrada, dispensa esses cuidados urgentes que lhe querem prestar. Os neologismos inúteis precisam ser evitados, e não aqueles se insinuam de forma natural e terminam integrantes “legítimos” da nossa fala. É o caso dos legitimados abajur (que já foi abat-jour) e piquenique (outrora, picnic). Atualmente, insiste-se em delivery de pizza (este, sim, um estrangeirismo dispensável). Contra ele temos o boa e velha “entrega a domicílio”.

INÚTIL ARTIFICIALISMO DE LINGUAGEM

A professora Maria Tereza Piacentini afirma que a regra purista manda usar “a domicílio” com palavras que indicam movimento (levar a roupa, a pizza etc.), e “em domicílio” quando sem movimento (dar aulas, cortar cabelo, fazer unhas e outros). Mas ela reconhece que “essa diferenciação está ultrapassada”, e que o uso prático recuperou (se alguma vez perdeu) a forma “a domicílio”, para ambos os casos. Portanto, vamos deixar de lado mais esse inútil e bobo artificialismo de linguagem que alguns redatores mal informados ajudam a difundir, e retomar a já brasileiríssima “a domicílio”, sem receios.

COPA DO MUNDO DE LUDOPÉDIO

Há estrangeirismos contra os quais a luta dos puristas é vã. Em certa época, tentou-se um termo “brasileiro” para piquenique, encontrando-se “convescote”. Não pegou, de sorte que os mais jovens (se não forem estudiosos de Gramática Histórica) desconhecem o termo. Só um sujeito irremediavelmente imbecil chamaria a colega de trabalho para “fazer um convescote” – e se arriscaria a um processo por assédio sexual: antigamente, moça de família só “convescoteava” depois do casamento. E tem ludopédio, do latim ludus (jogo) e pedis (pé) que quiseram pôr no lugar do anglicismo futebol. Não deu. Receio até que o Brasil, diante das patriotadas do “sargento” Dunga, jogue ludopédio, em vez de bola.

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“ARTIGO NOVIDADEIRO E INÚTIL”

Com o futebol no topo do noticiário, fortifica-se o festival de bobagens que habita o meio. Um dos itens mais notáveis é a inflação de artigos definidos que toma conta do noticiário. Em outros tempos, dizia-se que Zico ia vestir a camisa 10; atualmente, diz-se que quem vai vesti-la é o Kaká; no gol, informava-se que estaria, por exemplo, Tafarel; agora quem está é o Júlio César; a lateral direita, que em 1970 tinha Carlos Alberto Torres, agora tem como titular o Maicon – e por aí vai. “É de lamentar-se, mas todos os veículos de comunicação têm atrelado esse artigo novidadeiro e inútil em seus textos”, constata Marcos de Castro, em A imprensa e o caos na ortografia (Record – 5ª edição).

SEM CONCESSÕES AO MAU GOSTO

No começo, falar o Pelé ou o Luís Pereira (foto) era costume de algumas camadas das populações paulista e carioca, sempre em termos informais, quando ainda se mantinha maior respeito pela norma culta. Mais tarde, a televisão (a Globo, sobretudo, grande criadora de modismos) adotou algo semelhante como forma de comunicação: buscava-se uma linguagem capaz de ser entendida por todo o conjunto dos telespectadores, tendo como padrão de baixa escolaridade as pessoas de mais baixa escolaridade (se elas entendessem, todos entenderiam). Era o “coloquial bem escrito”: simples, claro e correto, sem preciosismos, mas igualmente sem concessões ao popularesco. Só que o controle se perdeu.

O BALTAZAR, O GASPAR E O BELCHIOR

“Qualquer palmeirense lembra, com saudades, de Leão, Luís Pereira, Dudu, Ademir da Guia e Leivinha. Já o bom marcador Zeca não foi tão marcante. E o Internacional de Rubens Minelli, bicampeão brasileiro? Ali fizeram história Manga, Figueroa, Falcão, Valdomiro e o lendário Dadá Maravilha. Mas ali também jogou o discreto Vacaria”, anota José Roberto Torero (Os cabeças-de-bagre também merecem o paraíso/Editora Objetiva). Em texto contemporâneo, o cronista manda sua mensagem sem gastar o estoque de artigos definidos – mostrando que não se trata de época, mas da competência de quem escreve. Há redatores por aí querendo “modernizar” o texto bíblico, dizendo que o Jesus, ao nascer, foi anunciado pelo Baltazar, o Gaspar e o Belchior.

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CHUMBO QUENTE E TEXTO REFINADO

E cá estamos, outra vez, a de western, como gênero de cinema uma paixão. John Ford, em Paixão de fortes nos faz bela surpresa, ao introduzir, quem diria, uma citação de Shakespeare, nada menos do que a cena 5 do ato III de (a tragédia de) Hamlet. Num saloon esfumaçado, um artista meio bêbado declama o To be, or not to be. Os vapores etílicos lhe atacam a memória e ele se vale de um pistoleiro “erudito” (o lendário Doc Holiday, aqui vivido por Victor Mature) para recitar o resto do texto, sob o olhar perplexo de Wyatt Earp/Henri Fonda. Improvável? Sim, mas criativo e de bom gosto.

EDGAR ALLAN POE EM PLENA PRADARIA

Howard Hawkins gostou tanto de Onde começa o inferno/1958 que fez uma refilmagem (esse hábito não estava em moda, como hoje, quando os filmes terminam dando a deixa para o próximo): é Eldorado, outra vez com John Wayne, agora liderando novo elenco (com destaque para Robert Mitchum, o xerife bêbado). Pois é nesse incrível ambiente que Hawkins introduz o poema “Eldorado” de Poe – no qual o autor ironiza a irracional corrida do ouro e dá aos versos, em Inglês, uma forma tal que o ritmo simula cavalos correndo. No filme de Hawkins, quem declama “Eldorado” é James Caan (à esquerda, na foto), um jovem e desajeitado pistoleiro de nome impronunciável.

O HOMEM EM SUA BUSCA SEM FIM

“Sozinho e errante/ um cavaleiro galante/ no sol e na sombra/ longamente viajara/ cantando, em busca do Eldorado”, recita Caan. O poema fala da eterna andança que o cavaleiro galante (noutra tradução é “elegante”) empreende em direção, talvez, à felicidade. Ele cavalga até ficar velho, sem encontrar “nenhum pedaço de chão parecido com Eldorado”. Quando está à beira da desistência, “caiu-lhe no peito uma sombra”, a quem ele, quase vencido pelo desânimo, interroga: “Onde estará essa terra/ chamada Eldorado?” – e a sombra responde: “Cavalgue, cavalgue corajosamente/ se você quer encontrar Eldorado” (combinei a tradução do filme com a de Rodrigo Garcia Lopes).

EM LETRAS, SOMOS OS BAMBAMBÃS

Do pouquíssimo que sei, acho que nossa música é a melhor do mundo, ao menos em termos de letra. O europeu é bom letrista, mas o brasileiro é melhor. Os americanos não são grande coisa. Mesmo o jazz, se cantado, não diz muito. Os europeus (sobretudo franceses, italianos e portugueses) ganham dos ianques, mas o Brasil ganha fácil deles todos. Yes, nós temos Braguinha (foto), Noel, Tom, Vinícius, Edu, Caetano, Gil, Chico Buarque, Paulo César Pinheiro, Cartola, Dolores Duran, Orestes Barbosa – citemos poucos, para não humilhar os gringos e criar problemas diplomáticos. Orestes escreveu “Tu pisavas nos astros, distraída”, o mais belo verso da língua portuguesa, segundo Manuel Bandeira.

LANCEADO, PREGADO, CRUCIFICADO

Há uma letra que me impressiona sobre as outras: Rosa, de Otávio de Sousa, que tem coisas assim: “Se Deus/ me fora tão clemente/ aqui neste ambiente/ de luz, formada numa tela/ deslumbrante e bela…/Teu coração/ junto ao meu lanceado/ pregado e crucificado/ sobre a rósea cruz/ do arfante peito teu”. Romantismo derramado, tangenciando o barroco, de autor praticamente anônimo. O público, injustamente, identifica a canção como “Rosa de Pixinguinha”. E o grande Pixinguinha (foto), autor da melodia, não ajudou a esclarecer o mistério. Interrogado, disse que Otávio de Sousa “era um mecânico que morava no Engenho de dentro, muito inteligente e que morreu novo”.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

O MECÂNICO QUE NÃO DEIXOU RASTRO

Fazer esta letra e sumir sem deixar outro rastro na MPB é impossível. Minha versão preferida é outra: Otávio de Sousa nunca existiu, e Rosa seria de Cândido das Neves, o Índio (na verdade, negro!). O autor de Última estrofe (que todo seresteiro de respeito conhece) teria vendido os versos de Rosa a Pixinguinha e este “inventou” o mecânico. É coisa para pesquisador com P caixa alta. Os vídeos na internet estão cheios de erros na letra. Há até uma anta que canta (anta canta?) “vozes tão dormentes como um sonho em flor”, quando o poeta (seja quem for) escreveu dolentes.

ARROCHA PARA OS CAÇADORES DE ERROS

Luciana Mello comete “só” três erros. Se você descobrir algum deles, reclame no Pimenta o CD O melhor do arrocha, com a faixa-bônus “Rebolation”, na voz do Mano Cae. Mas, melhor do que caçar erros é relaxar e apreciar esse banho de romantismo, típico da MPB que se fazia no meado do século XX  – Orlando Silva (foto) lançou Rosa em 1937.


(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

UM CRIME CHAMADO CACÓFATO

Ousarme Citoaian
Na escola do professor Chalub, em Itabuna, a caneta-tinteiro (ainda não havia a esferográfica) que produzisse um cacófato tinha seu dono levado “aos costumes”: reguada, puxão de orelha, palmatória e perdão a Deus, ajoelhado sobre caroços de milho. “O sofrimento é didático”, pensavam pais e mestres. Na rua, qualquer intelectual corria o risco de ser desmoralizado num piscar d´olhos: “Aquele sujeito escreveu um cacófato!”, apontava o caçador de criminosos. E o cara estava publicamente execrado até o fim dos tempos. Para o bem ou para o mal, os linguistas decretaram que o erro de português não existe – e se por acaso teimar em surgir, intrometido e temporão, há de ser perdoado, com urgência. O cacófato foi descriminalizado. Perdoar é divino.

“MÁQUINA DE DESCASCAR ALHO”

Cacófato é a junção das sílabas finais de uma palavra com as iniciais de outra, formando uma terceira – com sentido ridículo ou inconveniente. Se hoje ele não é mais caçado a pauladas, em feitio de cachorro azedo, ainda é de bom alvitre tomar cuidado para evitá-lo: nas estradas há avisos do tipo “Controlada por radar”; um jornal se permitiu escrever “azeite da marca Galo”; A Tarde (não digo o A Tarde nem sob tortura no pau-de-arara!) publicou “Lavrador morre atingido por raio”; o presidente do PT, zangado com César Borges, vingou-se, dizendo que “por razões próprias, o PR encerrou as negociações”; na Amélia Amado, uma loja anunciava em letras sanguíneas e garrafais que tinha à venda, em suaves prestações, “máquinas para descascar alho”. A empresa fechou – e eu não sofri saudades.

CAFU DEU A BOLA E NENECA… GOL!

O professor Cláudio Moreno (foto), mestre em língua portuguesa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), recolheu um cacófato pavoroso, anotado pelo seu colega Sérgio Nogueira (mestre em língua portuguesa pela mesma UFRGS). Na transmissão de um jogo Brasil e Coreia, ele ouviu do narrador da tevê: “Fábio Conceição pediu a bola e Cafu deu”. Em seguida, como se fosse pequena essa pedrada, o cara nos mandou outro carrinho por trás: “Chuta Neneca, gol!”. O povo define isto com uma expressão saborosa: “além de queda, coice”. Todos nós, ao falar ou escrever, estamos sujeitos a tais acidentes. Ou seja, o cacófato está vivinho dos santos, e se finge de morto para ser visitado.  

O ERRO A SERVIÇO DO HUMOR 

Camões (foto), quem diria, também foi vítima, ao cometer o verso “Alma minha gentil que te partiste”. Devido a essa “maminha”, os gramáticos quase arrancam ao vate lusitano o olho bom que lhe restava. Mas o cacófato, no lugar certo, gera interessante clima de humor. Veja-se o folclórico A flor do cume, recheada deles: “No alto daquele cume/eu plantei uma roseira,/o vento no cume bate,/a rosa no cume cheira;/ Quando vem a chuva fina,/salpicos do cume caem,/formigas no cume entram,/abelhas do cume saem;/ Mas se vem a chuva grossa,/a água do cume desce,/a lama do cume escorre,/o mato no cume cresce;/ E logo que cessa a chuva,/no cume volta a alegria,/pois torna a brilhar de novo/o sol que no cume ardia”.

“SOU DAQUELES QUE SOU A FAVOR”

Em sessão na Câmara Federal, na semana passada, o deputado baiano Colbert Martins (foto) deu importante contribuição ao besteirol que fustiga a língua portuguesa. “Sou daqueles, primeiro, que sou a favor” (!) – e por essa cacetada inicial e eu percebi que uma chuva de granizo estava a caminho. Não deu outra: “segundo, sou daqueles que votou; terceiro, sou daqueles que vai votar; quarto, sou daqueles que quer negociar a aprovação dessa PEC”. Fosse eu autoridade, proibiria a Câmara de cometer erros de concordância durante três meses, pois nosso representante já gastou toda a quota disponível. Tentarão creditar os erros ao improviso. Bobagem: eles foram repetidos no blog, havendo muito tempo para a correção, que não foi feita.

FERNANDO SABINO E O DEPUTADO

O verbo vai para o plural. O sentido: “Estou entre aqueles que votaram, que vão votar, que querem negociar etc. Há uma crônica de Fernando Sabino (foto) – “Eloquência singular”, no livro A companheira de viagem/Editora do Autor – que nos sugere uma relação muito próxima desse episódio. É a história de um parlamentar que começa o discurso dizendo “Senhor Presidente, não sou daqueles que…” – e é assaltado pela dúvida: o verbo vai para o singular ou o plural? O nobre deputado começa a fazer perigosas digressões (enquanto a cabeça anda à roda das regras gramaticais) e nenhum aparte salvador o vem interromper. Mais feliz foi Colbert, que, inconsciente, disse suas bobagens com ar doutoral, sem o assalto da dúvida.

DA ARTE DE ESCREVER BEM

No rádio e na tevê os textos sobre futebol contribuem para aviltar a língua portuguesa. No jornal, são um monumento à mesmice. Termos repetidos, lugares-comuns, nem sempre controladas as paixões do autor. Melhor ir pelas exceções: Armando Nogueira e Nelson Rodrigues (foto) renovaram o gênero, dando-lhe qualidade literária. Armando, muito respeitado no meio lítero-esportivo (!), morreu recentemente, recuperando seus muitos minutos de fama. De Nelson Rodrigues, para mim o suprassumo (em jornal e tevê), do fim dos anos cinquenta aos setenta, poucos se lembram. São dois criadores desse gênero, que teve pioneiros, como Mário Filho, não por acaso irmão de Nelson.

TOSTÃO CONHECE AS TÉCNICAS

Modernamente, há esforços para oxigenar a crônica esportiva. José Roberto Torero (foto), com seu Os cabeças-de-bagre também merecem o paraíso (Objetiva), é um deles. Texto inventivo, inteligente e bem-humorado, tendo por motivo o futebol. Torero escreve na Folha de S. Paulo, além de ter vários livros publicados. Mas confesso minha preferência por Tostão e sua crônica semanal divulgada em cadeia de jornais, incluindo A Tarde (nunca o A Tarde!). Não precisa ser “especialista” em futebol para ler e entender Tostão – basta ter bom gosto. Ele, além de didático, domina as técnicas do “esporte bretão” e da escrita.

ARMANDO E NELSON ASSINARIAM

A crônica esportiva atinge o status de crônica literária. José Roberto Torero, obra citada: “Pavão foi o mais refinado avante que já surgiu nas terras entre Piancó e Itaporanga. Ele dava dribles humilhantes e ria com prazer de cada adversário que deixava no chão. Mais que ria, gargalhava. Até que um dia seu corpo foi achado na linha do trem. E sem as pernas. Suspeita-se seriamente de uma quadrilha de zagueiros vingativos”. Tostão, falando de Garrincha (foto): “Quando um menino constrói um castelo ele não sonha em ser rei. Ele é rei. Quando Garrincha brincava [de driblar], ele não sonhava em ser um menino, um passarinho, ele era um menino, um passarinho, um garrincha”. Jóias que Armando e Nelson assinariam.

VERSOS, VERSOS À MANCHEIA

Em edição da Editus/Via Litterarum, está na praça o pequeno e importante livro Diálogos – Panorama da nova poesia grapiúna, uma antologia preparada por Gustavo Felicíssimo (foto). O organizador é bem-sucedido no esforço de aprisionar em apenas 104 páginas uma mostra representativa da poética regional. A nomes conhecidos, como Piligra, Daniela Galdino, Heitor Brasileiro, Rita Santana e George Pellegrini, juntam-se outros de menor divulgação – mas todos unidos no mister de produzir na aldeia uma poesia que, no dizer de Ildásio Tavares (que assina o prefácio) “aspira a universalidade”. De Heitor Brasileiro, que também (e bem) transita na prosa, este belo haicai atípico, Crack, que remete a Drummond:

Não havia mais

caminho

uma pedra.

HERANÇA DO MODERNISMO

Ao todo, em ordem alfabética, os poetas antologiados são: Daniela Galdino (foto), Edson Cruz, Fabrício Brandão, George Pellegrini, Geraldo Lavigne, Heitor Brasileiro, Mither Amorim, Noélia Estrela, Piligra e Rita Santana. Segundo Gustavo, a coletânea traz “frescor no vocabulário e na sintaxe” dos dez poetas. É um “diálogo” diversificado, “partindo do verso livre, passando pelo minimalismo do haicai, chegando ao octossílabo e ao verso alexandrino com uma coloquialidade certamente herdada do modernismo e tão bem assimilada, não deixando a poesia cair na banalidade, como fizeram poetas demasiadamente influenciados pelas vanguardas”. Enfim, é urgente poetar, nesse mundo maluco.

NUMA PALAVRA, TUDO: ARMSTRONG

O crítico Ari Vasconcelos, no livro Panorama da Música Popular Brasileira (coisa antiga, só encontrável em sebos) diz mais ou menos isto (cito de memória, pois meu livro foi comido pelas traças e as mudanças): “Se você for falar de MPB e tiver espaço para apenas uma palavra, escreva Pixinguinha (foto)”. Imagino que, nessa linha de raciocínio, se o assunto é jazz, a palavra é… Armstrong. Mesmo quem alega de nada saber sobre a grande música negra, já ouviu falar do velho Satchmo, certamente um símbolo do jazz de todos os tempos. É claro que a mídia não fala mais em Louis Armstrong, mas aí já não é comigo.

CAETANO E A SUBMÚSICA

O mundo não está de cabeça para baixo (se estivesse, a gente saberia de que lado está a cabeça). Está confuso, misturado, e ficam os valores todos. A arte, é óbvio, foi junto. Quando alguém do nível de Caetano Veloso sai em defesa do pagode e outras manifestações submusicais baianas percebe-se que alguma coisa anda fora dos trilhos, e não é o trem. Voltemos, pois, à seriedade: não vou falar de Armstrong – se você precisa que alguém faça isso é porque está lendo a coluna errada. Em meio a 30 discos (cerca de 450 músicas), como escolher? Vá a esperançosa e otimista What a wonderful world (feita por Bob Thiele e George Weiss, especialmente para Armstrong.
 
(O.C.)
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as







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