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:: ‘Rubem Braga’

UNIVERSO PARALELO

O RECORRENTE MACHISMO DA LINGUAGEM

1Posso ajudá-loOusarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

Num grande supermercado de Itabuna, encontro a mocinha em cuja blusa se estampa, em letras garrafais, a pergunta: “Posso ajudá-lo?” Não creio que possa, enquanto eu não souber qual é, de verdade, meu problema – mas tal questão de ordem metafísica pode ficar para mais tarde. Por enquanto, o que me desperta o interesse é a recorrente tendência machista da linguagem brasileira, lamentavelmente incentivada até por quem deveria combatê-la a ferro e fogo. “Ajudá-lo” supõe que a clientela seja masculina, quando esta, nos locais de compras em geral, constitui (segundo observo), minoria. “Posso ajudar?” é a fórmula correta que um banco utiliza há muitos anos, sem discriminar ou prestigiar gêneros.

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Discriminação apoiada pelas mulheres

O modelo de que se valeu o supermercado foi bolado por alguém sem sensibilidade ou conhecimento da língua portuguesa. Ou os dois. Não deve ser cômodo a nenhuma mulher dirigir-se a pessoa que pretende “ajudá-lo”, como se macho ela fosse. Mas parece que é moda a que as mulheres não reagem (mesmo que a presidenta Dilma tenha trabalhado em sentido contrário, feminizando os cargos femininos). Até no meio universitário, mais conservador do que se imagina, é comum dizer-se que a professora Fulana é “mestre” em tal disciplina. Um horror: mulher é mestra, reitora, vereadora, presidenta, generala, bacharela, coronela – o diabo (aliás, a diaba!). O resto é discriminação, ainda que apoiada pela ala feminina.

O BANCO RASO NUNCA FOI SÃO CAETANO

3Princesa Isabel

Dizem, mesmo sem pesquisa científica, tese ou dissertação acadêmica a tal respeito, que o Banco Raso possui o maior número de botequins por metro quadrado do território itabunense. Adiante-se que às vezes ele é confundido com o São Caetano, mas São Caetano não é, pois o Banco Raso nunca foi santo. E voltemos, rapidamente, ao que interessa, os botequins, na intimidade ditos “botecos”. Minha surpresa é ver num almanaque (o que seria desta coluna, se não fossem os almanaques?) que o termo vem do italiano botteghino, uma espécie de mercearia e que entre nós ganhou outro significado, bem distante daquele original. 

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Filosofia, futebol e sexo dos anjos

Aqui, botequim vende, especialmente, álcool, nos seus diversos perfis. É lugar de encontrar pessoas, trocar ideias, jogar conversa fora, consertar o Brasil. Com mesas às vezes mal-ajambradas, costuma ser o ambiente ideal para curtir dores de cotovelo, começar novas amizades, avaliar a cultura nacional, discutir filosofia, futebol e o sexo dos anjos.  “Refúgio barato dos fracassados do amor” (conforme a canção de gosto, este sim, barato), o boteco tem atraído as atenções da literatura: Jaguar fez Confesso que bebi , 2001, e Moacyr Luz, em 2005, publicou Manual de sobrevivência nos botequins mais vagabundos.

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5Rubem BragaVinícius: tempos ruins, uísque barato

No Villarino, Rio, 1956, copo de cerveja à mão, Tom Jobim foi apresentado a Vinícius de Morais, pelo jornalista Lúcio Rangel;  o Anjo azul, em Salvador, abrigou a primeira exposição do argentino Carybé no Brasil (gostou tanto que ficou baiano!); em São Paulo, o Nick Bar, espécie de extensão do TBC (Teatro Brasileiro de Comédia) virou samba-canção, cantado por Dick Farney; Rubem Braga (foto), Heitor dos Prazeres, João Cabral de Melo Neto e Vinícius, em tempos difíceis, consumiam uísque barato no Vermelhinho, Rio; Paulo Leminski chegava ao Stuart, em Curitiba, às 10 horas, e começava a beber vodca e escrever, tendo ali criado famosa frase: “O Rio é o mar; Curitiba, o bar”. Histórias de botecos.

ORESTES E SEU QUASE MARTELO AGALOPADO

A questão é tão antiga quanto o poema e o canto: letra de música é poesia? Para mim, é; para os que, de fato, entendem do assunto, não é. Manuel Bandeira (poeta que, desencantado com este mundo vasto e real, decidiu mudar-se para a imaginária Pasárgada) tinha “Tu pisavas nos astros, distraída” como o mais belo verso da língua portuguesa. E agora? O texto de Chão de estrelas, de Orestes Barbosa, poderia ser inscrito em qualquer seleção de poesia – desde que Sílvio Caldas não fizesse a “bobagem” de lhe pôr melodia. É um poema romântico, todo versado em decassílabos, acentuação quase sempre na 3ª, 6ª e 10ª – algo parecido com um martelo agalopado.
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7OrestesBarbosaLetras de MPB: do simples ao barroco

Muitos outros autores da MPB atingem o mesmo grau de excelência de Orestes Barbosa: Noel, Tom, Vinícius, Belchior, Caetano, Antônio Maria, Gil, Paulo César Pinheiro, Dolores Duran, Cândido das Neves, Aldir Blanc, Chico Buarque – não há como esgotar a relação, pois riquíssima é a letra de nossa canção. Da simplicidade de Caymmi (“Marina, você já é bonita com o que Deus lhe deu”) ao barroco do misterioso Otávio de Sousa (com aquele coração “pregado e crucificado sobre a rosa e a cruz do arfante peito teu”), cada um pode fazer sua escolha, em meio a diferentes estilos e idades. Para mim, isso é poesia, pois tem o impacto estético da poesia.

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Versos que assustaram Sílvio Caldas

A letra de Chão de estrelas, apresentada a Sílvio Caldas em 1941, assustou o músico. Ele achou que era impossível o público aprovar versos tão sofisticados, decassilábicos, acadêmicos, coisa mais pra ser lida em livro do que ser cantada em serenata de balcão, janela e sacada. Mas foi convencido por Orestes a musicar tais versos e gravá-los. Fê-lo com tal competência que Chão de estrelas entrou para a história da MPB como o “Hino nacional dos seresteiros”, com mais de 40 regravações de artistas de variada estirpe, de Elizeth Cardoso a Roberto Carlos, de Nelson Gonçalves a Baden Powell, Carlos Alberto, Maurici Moura (acabou o espaço, voltaremos ao tema)… No vídeo, Maysa, pondo a alma em cada sílaba, como sempre.

 

O.C.

UNIVERSO PARALELO

DULCINEIA NA CANÇÃO, PILATOS NO CREDO

1Dom QuixoteOusarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

Em Escultura, composição gravada por Nelson Gonçalves, Adelino Moreira (1918-2009), que não se notabilizava pelos bons versos (apesar da aprovação popular) fala da mulher idealizada, “esculturada”, assim: “Dei-lhe a voz de Dulcineia/ a malícia de Frineia/ e a pureza de Maria”. Tiremos Maria desse rolo, para não pormos a mão em casa de maribondo, e fiquemos com Dulcineia e Frineia, especulando a respeito de quem sejam essas personagens. Dulcineia, com origem no D. Quixote de la Mancha (Miguel de Cervantes), está deslocada, tendo entrado na canção como Pilatos no credo, pois sua voz não era grande coisa.

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Voz que “se assemelha ao som um sino”

A única referência de que conheço sobre a voz de Dulcineia del Toboso (este é seu nome no livro) vem da pesquisadora Célia Navarro Flores, da Universidade Federal de Sergipe, colhida numa “fala” de Sancho Pança, o escudeiro de D. Quixote. Ele diz que a voz da moça “se assemelha ao som de um sino”. Talvez voz boa pra protestos de rua, em moda, mas nada muito acariciante para intimidade de lençóis e travesseiros. Parece apelação, o que, aliás, é frequente em Adelino Moreira, mau poeta, mas grande vendedor de discos. Porém, no que tange a Frineia e sua “malícia”, aí sim, ele acertou a mão.

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3FrineiaAdvogado pede “piedade para a beleza”

Frineia é descrita como prostituta de enorme beleza, a mais deslumbrante que a Grécia já vira. Diz Mariano Tudela (Biografia da prostituição) que, em Atenas, ela levava vida discreta “quase como uma mulher honesta”. Mas nas festividades de Netuno mandava ver: tirava as roupas, para delírio do público, até a última peça. É a primeira stripper da história, creio. Condenada, teve a defendê-la “o mago da oratória”, Hiperides. Este, ao sentir a causa perdida, rasgou o manto de Frineia, deixando-a como veio ao mundo, e pediu aos julgadores que esquecessem seus argumentos e tivessem “piedade para com a beleza”. De queixo caído, eles a absolveram (na foto, Frineia no Areópago, quadro de Jean-Léon Gérôme, de1861).

UMA ENTREVISTA? MAS POR QUE LOGO EU?

Estudantes me procuram, pelo telefone, com a proposta de que eu lhes dê uma entrevista. “Por que logo eu?” – me ocorre perguntar. “O senhor não é o escritor?” – ouço como resposta, e a construção da frase me deixa ainda mais encabulado. Se não me julgo “escritor”, o que dizer se me chamam “o escritor”? Senti eu algum ventinho de sarcasmo a embalar a pergunta? Não sou escritor, sou, no máximo, mediano fazedor de crônicas, a anos-luz de distância dos mestres desse gênero essencialmente brasileiro (Rubem Braga, Fernando Sabino, Drummond, para não falar em precursores, como Machado de Assis e João do Rio). Voltemos aos alunos.
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5EscritorPessoas ocupadas com o próprio umbigo

A escola, em sua confusa maneira de agir, encaminha alunos a essa fauna de cronistas, ensaístas, poetas e romancistas (vagamente chamados de escritores), suspeitando que isto facilite o aprendizado. Não sabem que estranhos animais são esses, na maioria incapacitados para tratar com jovens, cheios de má vontade com tudo que não alimente sua vaidade. Mandar estudantes à cata de escritores é imaginar que estes se interessam por aqueles, o que é ilusório. Sem compromisso social, a maioria da fauna é incapaz de ceder seu precioso tempo de “criação” para responder a perguntas. Muito ocupados com o próprio ego, deveriam pregar à porta um cartaz: “Silêncio! Gênio trabalhando!”

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Machado de Assis admitiu amar elogios

Fernando Sabino popularizou a história do escritor que vivia à cata de “um elogiozinho, pelo amor de Deus…”. Na matriz dessa maldade (?) está Nelson Rodrigues, que assistira a um encontro de Clarice Lispector com Jorge de Lima, quando este se identificou como poeta, esperou o elogio… e o elogio não veio! Teria o vate alagoano ficado muito magoado com a autora de A hora da estrela. Se isto é verdade (Nelson Rodrigues era grande criador de situações), não tenho como provar. Mas tende a ser, pois é assim grande parte da fauna. Escritores quase nunca têm a franqueza de Machado de Assis, mestre, que reconheceu: “Amo elogios. Eles fazem bem à alma e ao corpo”.

PROTESTEMOS, MAS EM LÍNGUA PORTUGUESA

7ReclameNossa mídia continua a fazer uma inquietante confusão entre reclame e reclamo, os substantivos, não os tempos verbais. A expressão campeã é “reclames da população”, mas é possível encontrar nos arquivos da internet abusos como “reclames dos trabalhadores”, “reclames do povo”, “reclames dos moradores” – e por aí vai o andor, pois o que mais se faz neste momento do Brasil brasileiro é protestar. Protestar? Pois é aí que a porca torce o rabo, como diz o outro, pois quem protesta em língua portuguesa (seja contra o tribunal lento, o vizinho chato, os maus políticos ou o alto preço do feijão) não usa reclame, mas reclamo.
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Bela interpretação, apesar dos erros

Em Três apitos (supõe-se que dedicada a Josefina, uma de suas namoradas), Noel Rosa usa bem o termo: “Quando o apito/ da fábrica de tecidos/ vem ferir os meus ouvidos/ eu me lembro de você…” – é o apito que chama os operários ao trabalho. Mais adiante, ele reitera: “Mas você é mesmo/ artigo que não se imita/ quando a fábrica apita/ faz reclame de você”. Orestes Barbosa usou tal palavra em Arranha-Céu: “Cansei de olhar os reclames e disse ao peito: ´não ames/ que teu amor não te quer´”. No vídeo, Três apitos, em bela leitura de Elizeth Cardoso e Jacob, apesar dos erros (a que, por descuido, acrescentei mais um, que cabe ao leitor descobrir). A canção está com 100 anos.

O.C.

UNIVERSO PARALELO

PASSE LIVRE E A CONTRADIÇÃO ABERTA

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

1SimancaOs tipos mais conservadores, que querem tratar os movimentos sociais na pancada, uniram-se aos progressistas, em apoio ao Movimento Passe Livre (MPL), escancarando uma contradição. Coerente mesmo foram as PMs da Bahia e de São Paulo, fazendo o que é da sua tradição fazer: baixar o pau (v. charge de Simanca). Cientistas sociais e palpiteiros em geral estão incertos quanto ao que pretende a massa: vagamente, menos corrupção, mais educação (quase criei uma “palavra de ordem”), mais saúde pública, menos futebol, mais seriedade com o dinheiro público, menos safadeza…  No atacado, todos aprovamos esta pauta, mas falta a ela o varejo, o foco concreto e claro.

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Movimento (ainda) simpático à direita

Tem sido uma festa protestar contra tais coisas (e ainda a sogra chata, o vizinho ranzinza e o preço do tomate), mas não me divirto tanto. Entendo ser este um movimento de esquerda (se me permitem usar a velha classificação francesa, para mim ainda válida). E a direita não tarda a tratar essa turma como trata índios, sem-terra e semelhantes, todos incluídos na vasta lista de “baderneiros”. Por menos disso ela já derrubou um presidente e pôs o Brasil em “ordem unida” durante 21 anos, enquanto arrancava as unhas dos descontentes. Freado o aumento das tarifas, o MPL, ao voltar às ruas (espero que volte), deverá focar-se em um dos muitos problemas nacionais.

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“DOR DE AMOR DÓI MAIS DO QUE BURSITE”

3Dor de amorO verbo amar transitivo indireto (com a preposição “a”) foi, em tempo que longe vai, exclusivo jargão religioso. “Amar a Deus sobre todas as coisas”, está grafado na tábua. A gramática quer, em relação a coisas e pessoas, o verbo não preposicionado. Amar era também de uso menos extenso: homens amavam mulheres, mulheres amavam homens, homens e mulheres amavam suas mães, estas os amavam sem medidas… Os para-choques repetiam uma frase produzida por alguém de coração dilacerado (ou vítima de crônica subliteratura): “Amor só de mãe!” – ai que me embriago de tanta poesia! Compreende-se. Quem leu Rubem Braga sabe que “dor de amor dói mais do que bursite”.
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Velha calça desbotada ou coisa assim
Voltando ao amar transitivo direto, diga-se que ele foi “democratizado”. Amavam-se pessoas, hoje se ama praia, macarrão com queijo, sorvete de coco, carro novo, a velha calça desbotada e, de moto, ama-se o vento na cara. São modismos que o tempo nos traz: conheço uma jovem senhora que ama seu iPhone de recentíssima geração (será isto o chamado sexo virtual que nunca entendi?). A boa linguagem, pela qual poucos na mídia ainda se interessam, recomenda que se goste das coisas citadas acima, sendo vedado amá-las. Se, por acaso, alguém não sabe a diferença entre gostar e amar, que tente beijar uma máquina. Adianto-lhes que não funciona, a não ser que seja uma… “máquina”.
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5Batata fritaAdoração ao arroxa e à batata frita
Cartola, em licença poética escreveu: “Não quero mais amar a ninguém…”, e caiu em “erro”, por usar a forma “religiosa” (“Não quero mais amar ninguém”, diz a norma). E quase tudo que foi dito vale para o verbo adorar, que igualmente nos remete à igreja. Adorar só a Deus e signos sagrados, era assim que era. Depois, o povo, que não está nem aí para gramáticas e gramáticos, mudou a regra. Hoje, com todo respeito, adora-se batata frita, novela de tevê, show de arrocha e de dupla “caipira”. Pelo sentido “clássico” do termo, tem-se a ideia de que o maluco se ajoelha diante do pacote de fritas e também genuflectido assiste à novela das nove. Medonhos tempos, estes.

QUEM DERA QUE ESSA RUA FOSSE MINHA!…

As ruas nos falam de dados momentos, lembranças que ficaram. “Se essa rua fosse minha/ eu mandava ladrilhar/ com pedrinhas de brilhante/ só pra ver meu bem passar”, diz o antigo frevo Vassourinhas. Antônio Maria (“o bom Maria”, como o chamava Vinícius, seu colega de quarto), morando no Rio e, ferido de saudades da terrinha, abre seu Frevo nº 3 dizendo: “Sou do Recife, com orgulho e com saudade”, para depois introduzir “Rua antiga da Harmonia,/ da Saudade, da Amizade e da União…/ São lembranças noite e dia”. Em poucos versos, quatro ruas de nomes sonoros, que mexem com os sentimentos da gente: harmonia, saudade, amizade, união.
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7AlceuMachado de Assis fala das ruas do Rio

Meu endereço em Buerarema era Manuel Vitorino, 6 (esquina com Siqueira Campos) – mania que as pessoas têm por vultos estranhos à cidade. Isso mudou um pouco. Já temos na antiga Macuco as ruas Paulo Portela, Manuel Lins, Pastor Freitas – personagens locais e já mortos, comme il faut. Mas eu queria falar era do fascínio que os nomes de ruas exercem sobre mim e, pelo que vejo, em vários autores. Lembro aqui de três deles, tocando o tema: Machado de Assis, Antônio Maria e Alceu Valença. Nos contos de Machado é possível saber muito do velho Rio, pelas ruas que o mestre cita: Larga de S. Joaquim, da Alfândega, do Lavradio, da Quitanda e, naturalmente, do Ouvidor.

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Um amor que sumiu nas ruas do Recife

“Sob uma chuvinha miúda, triste e cortante, como no enterro de Brás Cubas, o menino passeia sua melancolia por estas ruas que, transeuntes apressados sequer suspeitam, lhe pertenceram um dia. E chora as mudanças: mudou a cidade, mudaram os tempos, mudou ele, que ficou depressivo e meio adulto, morreu de velha a caramboleira, silenciaram os sabiás e bem-te-vis da infância que se foi” (Antônio Lopes: Luz sobre a memória – Agora Editoria Gráfica/1999). Perdidão da Silva, Alceu Valença parece procurar seu amor sumido nas ruas do Sol, da Aurora, da Matriz, das Ninfas, da Boa Viagem, da Soledade – mas como sempre acontece em casos semelhantes, o esforço é vão.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

A CRÔNICA LITERÁRIA ESTÁ (MUITO) VIVA

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

1.JânioO jornal A Tarde, que abriga de Hélio Pólvora uma saborosa crônica todos os sábados (aos domingos, um artigo), revelou à distinta torcida baiana outro cronista de indiscutível qualidade, também aos sábados, que não perdoo, leio. Chama-se Jânio Ferreira Soares (foto) este artista da palavra, capaz de dar leveza e lirismo aos assuntos mais áridos. O gênero tipicamente brasileiro – que tem em Machado de Assis um mestre consumado – viveu dias gloriosos na segunda metade do século passado, com Fernando Sabino (1923-2004), Rubem Braga (1913-1990) e Paulo Mendes Campos (1922-1991), dentre outros. Em Hélio e Jânio a crônica literária se renova.

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Bom humor e longevidade

“Não sei até que ponto o bom humor das pessoas tem a ver com a sua longevidade, mas tenho pra mim que aqueles que não se levam muito a sério e conseguem rir de si mesmos têm mais chances de receber alguns anos de acréscimo, mesmo depois de esgotado o tempo regulamentar. Agora, aqueles que levam a vida como se ela fosse uma espécie de pós-graduação para algum NBA celestial e agem como se os problemas do mundo dependessem de suas performances de vendedores de Delta Larousse, aí já não sei. Se o juiz for dos meus, é cartão vermelho antes mesmo que a primeira frase de Paulo Coelho saia de suas bocas” (Jânio).

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3.HélioAmigos mudos, fiéis e silenciosos

“Livros esperavam, mudos, na escrivaninha de tampos de prata. Estavam sempre lá, sabiam que cedo ou tarde seriam tomados, abertos, lidos. Os amigos permanentes. Os amigos mudos e fiéis. Sobretudo, os amigos silenciosos. Sempre a mesma mensagem: não mudavam de ideias, com eles não havia jogo duplo. Uns traziam estampas. Outros, sem ilustrações, convocavam mais o imaginário. As palavras do texto formavam desenhos perfeitos na imaginação, a donzela aparecia em retrato luminoso, as descrições da natureza é que mudavam um pouco para receber bosques de cacaueiros, ingazeiras e jindibas” (Hélio, no traço de Ramon Muniz).

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AS LOURAS E A LEI DA OFERTA E PROCURA

“Os homens preferem as louras”, alardeava o filme de Howard Hawkins/1953, com as incendiárias Marilyn Monroe e Jane Russell. Dizem os estudiosos de temas difusos que se trata de fenômeno típico da economia, a lei da oferta e procura: como há poucas louras (cerca de 2% das mulheres do mundo), elas ficaram “valorizadas”. Se acham. E estão aí as morenas comprovando a tese: o número destas que se enlourecem é muito superior ao das louras que escurecem os cabelos (e aqui o maldoso leitor vai querer que eu explique como atestar a “autenticidade” de uma loura – mas eu me recuso, pois esta coluna é mais familiar do que pensão do interior). A julgar pela MPB, que reflete bem a nossa cultura, o brasileiro prefere as morenas.
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Fahel canta a morena do Rio Vermelho
5.Oswaldo FahelDe cara, lembro-me da morena boca de ouro (de Ary Barroso), da morena “desse amigo meu” me dando bola (Luiz Ayrão) e do apelo de Alceu Valença: “Morena tropicana eu quero teu sabor” (e quem não quer!). Paulinho da Viola fala de uma morena faceira (que) mexeu as cadeiras (e) “foi um desacato”, Tom Jobim diz que “a morena vai sambar, seu corpo todo balançar…”, o ilheense Oswaldo Fahel canta a morena bela do Rio vermelho, Caymmi fala de uma Rosa, morena, com andar de moça prosa, Ary encontrou a morena “mais frajola da Bahia” – e Jota Sandoval apela: “Ai, morena, deixa eu gostar de você!…” Falta Noel Rosa, mas, antes, abramos espaço para as louras, que elas merecem.
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Loura é perfume, sonho, poema e flor
Para Hervê Cordovil (cantado pelo inesquecível Dick Farney), uma loura não é pouca coisa: “frasco de perfume, aroma de flor, espuma fervilhante de champanhe, sonho e poema”. Braguinha, animando a festa: “Lourinha, lourinha/ dos olhos claros de cristal/ desta vez em vez da moreninha/ serás a rainha do meu carnaval”. Noel, grande morenófilo, fez Morena sereia (que se senta na areia e “deixa a praia cheia”) e pediu ao sol que não saísse, “pois as morenas vão logo embora”. Depois, comparou: “Esta morena/ cheia de beleza e graça/ é o símbolo da raça/ cor de leite com café./ E esta loura/ nunca foi nem é meu tipo/ perto dela eu me arrepio/ de tão fria que ela é”. Exagerou.

O CHAPÉU DE INFINITO NÚMERO DE PONTAS

7.Chapéu de três pontasÉ provável que a gentil leitora e o amável leitor já tenham cantado, por divertimento ou castigo, “O meu chapéu tem três pontas/ tem três pontas o meu chapéu/ se não tivesse três pontas/ não seria o meu chapéu…”, canção com que eu costumava “ameaçar” minhas filhas: ou se comportar direito ou cantar “o meu chapéu tem n pontas…” A musiquinha recomeça a cada fim da quadra: depois de 475 pontas, meu chapéu passa a 476 pontas e por aí vai, num conjunto infinito. O “castigo” funciona até o dia em que a criança descobre que nossa paciência vai se esgotar antes da dela – e então somos nós a lhe implorar que pare com essa tortura em tom maior. É o feitiço contra o feiticeiro.
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Música é mistério, magia inexplicável

Mas é possível que nem todos saibam que a detestável canção popular origina-se em “Carnaval de Veneza”, mui celebrada peça do genovês Niccolo Paganini (1782-1840). Carnevale di Venezia, Opus 10 (no original, em italiano) é amada principalmente pelos violinistas, que costumam tê-la em seus catálogos de apresentação. Até aí, nada de novo. Novidade para mim foi ver a vetusta Boston Pops Orquestra, com seus solistas a rigor, tendo à frente um dos maiores trompetistas do mundo, a executar, todos cheios de responsabilidade, “O meu chapéu tem três pontas”. Por essas e outras, vejo na música, eu que não sou músico, um quê de milagre, de mistério, de inexplicável magia…

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

SE POSSÍVEL, TRADUZA OS NOMES PRÓPRIOS

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

Acabo de revisar as memórias de competente professor (aposentado), em que troquei o nome Michelangelo por Miguel Ângelo. É provável que o autor não concorde (revisores têm poder de sugerir, não de mudar o texto) e mantenha a forma italiana, um erro evidente, pois nomes próprios, quando isto é possível, devem ser traduzidos. Se perguntarmos a qualquer pessoa, mesmo pouquíssimo letrada, o nome de um rei da França ela dirá um Luís qualquer (eles foram tantos!), talvez aquele que inventou o salto de sapato Luís XV; se inquirirmos sobre a rainha que teve o lindo pescoço cortado, ouviremos: Maria Antonieta. “Qualquer pessoa” está certo.

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A dama das camélias e os mosqueteiros

Seria muito pernosticismo alguém no Brasil chamar a dupla de reis decapitados de Louis XVI (algo como luí dissiziême) e Marie-Antoinette (marri antoanéte, para os menos avisados) – um “francesismo” evidentemente dispensável. Ainda nesta linha, Alexandre Dumas (fils) passou a Alexandre Dumas Filho, enquanto son père é apenas Alexandre Dumas. O pai escreveu Os três mosqueteiros e o filho criou A dama das camélias, título que (nunca em público) dou a famoso colunista social de Itabuna. Por fim, uma gracinha com mais de um século de idade: os três mosqueteiros eram quatro! E dizer que Luís XV inventou o salto alto foi só uma boutade…

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Os dicionários não registram “boutade”

A gentil leitora e o paciente leitor, se, por acaso, não sabem o que é boutade, não percam tempo com dicionários, pois eles (os dois que possuo, pelo menos) não registram o termo, embora seja o mesmo de uso corrente em língua portuguesa há muitos anos. Mas eu explico, à maneira de Freud: trata-se de dito espirituoso, brincadeira verbal, gracejo – e, de acordo com o professor (também romancista, cronista, contista, da Academia Brasileira de Filologia, autor de Orelhas de aluguel e vários outros títulos) Deonísio da Silva, vem do verbo francês bouter, empurrar, ora veja.  Sobre o sapato Luís XV e os Dumas, depois eu conto.

ALÉM DE DESATENTO, ANALFABETO EM POESIA

Já disseram que eu sofro de uma tal “síndrome da falta de atenção” (SFA). Maldade, só porque às vezes esqueço onde deixo o carro, noutras tento abrir o carro alheio (até abri alguns, mas, felizmente, ninguém viu), chego a entrar, por engano, no apartamento do vizinho – essas bobagens. Mas cometi um exagero de SFA, aqui, há dias: atribuí a Geir Campos um verso de Vinícius de Morais, propiciando a oportunidade de ser visto como, além de desatento, analfabeto em poesia (aliás, um leitor teve a bondade de lembrar que, num livro, citei Lolita como de Pasternak, quando é de Nabokov – e isto foi em 2006, o que mostra ser antiga essa “doença”).  Se fumasse, seria capaz de jogar o cigarro na cama e me deitar no cinzeiro.

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A vagareza dos minutos adoça o outono

Li muito Geir Campos na juventude. Participante da luta política, comunista, ele integrou a Geração de 45, então dizer que era engajado é beirar o pleonasmo. No lendário I. M. E. de Ilhéus, pus no mural do grêmio um poema dele que começava assim: “Aos que acreditam em metempsicose e outras formas de imortalidade da alma…” – por pouco não fui expulso, devido à “ofensa”. Em Alba, outro exemplo da força revolucionária que Geir imprimiu à sua poética: “Não faz mal que amanheça devagar,/ as flores não têm pressa, nem os frutos:/ sabem que a vagareza dos minutos/ adoça mais o outono por chegar./ Portanto não faz mal que devagar/ o dia vença a noite em seus redutos/ de leste – o que nos cabe é ter enxutos/ os olhos e a intenção de madrugar”.

JORGE AMADO E OS NÃO LEMBRADOS EM 2012

O centenário de Jorge Amado foi festejado na Bahia inteira (até nesta modesta coluna), o que contribuiu para o esquecimento de outros nomes. Fernando Leite Mendes (nascido em 1932) teria agora 80 anos, idade “redonda”, boa para ser comemorada; Os sertões, livro fundador do Brasil do lado de cá, parece esquecido (junto com Euclides da Cunha), nos seus 110 anos – foi lançado em 1902. Já o professor, jornalista, cronista e sonetista parnasiano, Plínio de Almeida, educador de gerações (que completaria 108 anos em setembro), ganhou da Academia de Letras de Itabuna – Alita um concorrido recital de poesia em praça pública. Ainda bem.

FERNANDO LEITE MENDES, 80 ANOS

Fernando Leite Mendes era advogado, mas sua maior atuação se deu na imprensa. Trabalhou em grandes veículos do Rio, a exemplo de Última Hora, Correio da Manhã e Diário de Notícias, e produziu crônicas de intenso lirismo. Livro, apenas um, publicado post mortem: Os olhos azuis de dona Alina e algumas crônicas. Com dona Alina, que dirigiu a Escola Afonso de Carvalho (ao lado do Palácio Paranaguá), FLM aprendeu a ler. Generoso, deixou imortalizados em Os olhos azuis… personagens ilustres de Ilhéus, como Otávio Moura, Carlos Pereira Filho, Demosthenes Berbert de Castro, Emo Duarte e, claro, dona Alina. O espaço acabou; FLM, não.

UM PARCO SABER “DE EXPERIÊNCIAS FEITO”

Dia desses, sem querer, entrei numa discussão, ao cunhar a frase “se ela [a memória] fosse boa não perdia palavras” – e alguém, com carradas de razões, informou ser perderia. O meu parco saber é “de experiências feito”, na expressão de Camões (valho-me de leituras e exemplos vividos, não da gramática, que desconheço). Mas deixemos claro que isto aqui não é defesa (nem acusado fui), mas somente combustível para nossas conversas semanais. Tanto que, de imediato, me pareceu, e ainda parece, que o “não perderia palavras” do leitor é a melhor escolha – embora ache defensável, para o caso, a forma coloquial que usei.

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Sem beliscões e sem “vossa excelência”

Tenho o hábito (vício, diriam) de misturar tempos de verbos, como forma “direta” de comunicação com o leitor. Se alguém tiver a bondade de me incluir em algum tipo de literatura, será na crônica – algo que fica a igual distância da prosa, da poesia e da conversa de bar. A crônica literária – se duvidam de mim, creiam em Fernando Sabino, Rubem Braga e Hélio Pólvora, para citar poucos entre os grandes – não é o locus das formas “pesadas” do estilo. Cronista não dá beliscões no bumbum da gramática, mas também não a trata por “vossa excelência”. Na semana passada, escrevi aqui “nunca ia saber…” e, felizmente, passei despercebido. Não acho grave, mas a discussão está aberta.

De Garcia Márquez a Monsueto Menezes

“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”. É a abertura de Cem anos de solidão, que todos conhecem. Eric Nepomuceno, o tradutor brasileiro, quis trocar havia por haveria, mas Garcia Márquez insistiu no “erro”. Sílvio Alexandre e Ednei Procópio, especialistas em literatura fantástica (em comentário à abertura de Cem anos…), grafam “haveria de recordar”, à revelia do autor, já se vê. Mais perto de minha “cultura” ficou o gramático Monsueto, em Me deixa em paz (acho que armei esse fuzuê todo para justificar a presença na coluna da excelente e esquecida Alaíde Costa).

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

SHERLOCK HOLMES, BEATLES E JESUS CRISTO

Ousarme Citoaian

Não entro nessa especulação sobre se Os Beatles eram mais populares do que Jesus Cristo. Mas estou certo de que Sherlock Holmes rivaliza com todos eles. É difícil, em qualquer literatura, encontrar alguém tão conhecido quanto o personagem criado pelo oftalmologista desempregado Arthur Conan Doyle. “Nascido” na novela Um estudo em vermelho/1887, cujo título é um achado, seu endereço (221B, Baker Street) – que agora abriga o museu Sherlock Holmes – até hoje recebe cartas de pessoas buscando a ajuda do detetive famoso para solucionar crimes verdadeiros. Mas eu queria falar de frases, não de literatura de mistério.

A FAMOSA FRASE QUE DOYLE NUNCA ESCREVEU

Todos conhecem a frase que o investigador de Doyle repetia, dirigindo-se de forma irônica ao médico John Hamish Watson, companheiro de pensão e narrador das aventuras de Holmes. Elementar, minha cara leitora: a frase é um embuste que o mundo assimilou. Tanto quanto o cachimbo de cabo curvo, a expressão “Elementar, meu caro Watson” foi criada no teatro, não no consultório ocioso do médico. Há críticos a sustentar que ela foi pronunciada uma vez, em Um estudo… – o que é desmentido pela tradução brasileira, ao menos nas duas edições que conheço. Mas mitos do nível de Holmes não ficam isentos dessas atribuições.

DE GAULLE, MAU HUMOR, QUEIJOS E VINHOS

Ao presidente Charles André Joseph Pierre-Marie De Gaulle (1890/1970) é atribuída a frase “O Brasil não é um país sério” (Le Brésil n’est pas un pays sérieux). De Gaulle morreu negando o dito, e o diplomata brasileiro Carlos Alves de Souza afirma no livro Um embaixador em tempos de crise/1979 que o presidente francês nunca falou isso. A cientista política francesa Annick T. Melsan vasculhou os escaninhos da diplomacia de Paris e nada viu que confirmasse essa grosseria do velho militar. A boutade de mau gosto foi divulgada pelo correspondente Luís Edgar de Andrade, do Jornal do Brasil, e nunca mais nos abandonou.

A FRASE SERVIU PARA CRITICAR A DITADURA

O Brasil adotou o lema na ditadura militar, e ainda o conserva. De acordo com Mme. Melsan, isto “foi importante por ajudar na crítica ao sistema”, e a expressão “poderia ser de De Gaulle ou de outro europeu qualquer, devido à visão que se tinha do Brasil, como país do carnaval e do samba”. Certa vez, o presidente Chirac abriu uma coletiva com jornalistas brasileiros, brincando: “O Brasil é um país sério”. E é, diz La Melsan, mas “o problema é fazer os brasileiros acreditarem nisso”. De De Gaulle, prefiro outra frase: “Como se pode governar um país que tem 246 espécies de queijo?” Ele se esqueceu das centenas de tipos de vinho.

ESTRANHAS OPINIÕES A QUE TEMOS DIREITO

Uma espécie de enquete na tevê, quando um casal quase troca tapas, na dúvida sobre quem deveria sair do BBB, me desperta para os estranhos critérios que as pessoas usam para julgar o mundo. Perguntaram a Rubem Braga se ele acreditava em disco voador: “Não”, disse prontamente o cronista. “Por que não?” – insistiu a repórter. “Porque até hoje só vi dois”. Tenho um amigo que questiona as pesquisas em geral e as do Ibope em particular, dizendo que elas são “armadas”, sem exceção.  E tem o que considera uma justificativa irretocável: “Eu nunca fui entrevistado”.

DO BBB AO ASSASSINATO DE ODETE ROITMAN

Eu também não, mas em vez de lamentar, comemoro.  Tenho verdadeira paranoia de pagar mico diante da pergunta do entrevistador. Por exemplo, responder a esta profunda indagação filosófica que a Globo propõe semanalmente aos brasileiros nas ruas: “Quem deve ser eliminado do BBB?” Como diabos hei de saber a resposta disto, se nunca me foi dado assistir a um BBB que fosse? É mico, na certa.  Uma vez topei com uma equipe de tevê e uma repórter que andava em minha direção, com jeito de quem vira uma vítima, perdão, um potencial entrevistado. Desguiei, escafedi-me. À francesa.

CANDIDATO AO APEDREJAMENTO “CULTURAL”

Nada contra a bonita repórter regional, mas é que temi, devido à moda em vigor, que ela me perguntasse quem matou Odete Roitman.  Se milhões de pessoas assistiram à novela (é o que dizia o Ibope!), se o País inteiro parou para descobrir quem matara dona Odete, minha ignorância do tema era totalmente inadmissível, ofensiva à cultura nacional, talvez uma forma de esnobismo. Dar minha (falta de) opinião seria me oferecer ao apedrejamento “cultural” ou à exibição em feira, como um ET senil. Acho que fiz bem em fugir. E, pasmem, até hoje não sei (nem quero saber!) quem matou Odete Roitman.

EMBELEZAR O TEXTO NÃO É FAVOR, É DEVER

Por certo, revelar algum deslumbramento com o ”falar bonito” (referimo-nos, especificamente, a Gilberto Gil) não será do agrado de ponderável corrente de linguistas. Esta, em defesa de uma suposta clareza da comunicação, defende como fundamental apenas que a mensagem saída do emissor seja entendida pelo receptor. É a valorização única do conteúdo, em detrimento da forma – ou, num jeito muito surrado de simplificar, “se você entendeu, está certo”. No meu modesto modo de ver, embelezar o texto não é favor, mas dever de quem utiliza a chamada linguagem culta, pois beleza é qualidade de estilo, definida nos manuais: conteúdo é preciso, beleza também é preciso.

A IMAGEM QUE VALE MIL PALAVRAS: BOBAGEM

Atribuída ao poeta chinês Lin Yu-Tang, a frase “uma imagem vale mais do que mil palavras” entrou para o domínio público, de tão repetida. É uma bobagem que Millôr Fernandes (foto) já desmontou, ao questionar: “Se uma imagem vale mais do que mil palavras, diga isto com uma imagem”. Palavras são palavras, valores insubstituíveis. No jornalismo, imagens têm grande peso, mas são coadjuvantes. O texto, sim – com ritmo e som adequados, novo sem ser pedante – é protagonista. Creio na busca por le mot juste,  não apenas para melhor definir uma coisa, ação, sentimento ou conceito, mas como o termo que melhor soa, o mais bonito, o mais colorido, o que emoldura nosso pensamento.

TEXTO AGONIZANTE, SUFOCADO EM PURPURINA

Perdoem-me se, amparado em Lacan-Barthes, já disse isto: para algumas pessoas, a língua materna é objeto de prazer, ainda que elas tenham, como eu, musa calada e talento estreito. O indivíduo que escreve brinca com o corpo da mãe: ele o glorifica, embeleza, endeusa, avilta ou despedaça – mas não me intimem a aprofundar a discussão, pois me falecem condições para tanto. Sugiro que se queixem a Lacan (foto), Freud e seguidores, pois o papel a mim reservado é tão só o de agente provocador. Entre nós, o texto agoniza entre fotos de purpurina em colunas sociais, clamando por justiça, enodoada a memória dos clássicos. Balbucio virou fala; texto tatibitate, jornalismo.

Clique e veja/ouça Gil “falando bonito” de Vinícius de Morais.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

CRONISTA CHORA PELA MULHER QUE “PARTIU”

Ousarme Citoaian

Cada língua tem expressões que a enriquecem, figuras que a embelezam. Rubem Braga, em A borboleta amarela/1950), conta a aflição que passou num hotel de Paris, ao telefonar para uma amiga. Elle est partie (“Ela partiu”), disseram, do outro lado da linha. O cronista foi tomado de funda tristeza: imaginou a amiga morta, ou, no mínimo, vagando por cidades distantes, perdida no nevoeiro de um inverno rigoroso, talvez numa estação da Irlanda ou da Espanha… Meia hora depois o telefone da cabeceira tocou – e era a voz brasileira já dada como perdida. A moça explicou que “partira” para fazer umas compras, já estava de volta. Ressuscitara.

A VOZ MAIS AMADA DE TODAS AS AMADAS

Depõe o sabiá da crônica, como o apelidou Stanislaw Ponte Preta-Sérgio Porto (foto): “Não sei se ela estranhou o calor de minha alegria; talvez nem tenha notado a emoção de minha voz ao responder à sua. Era como se eu ouvisse a voz mais amada de todas as amadas, salva de um naufrágio que parecia sem remédio, em noite escura. Quando no dia seguinte nos encontramos para um almoço banal num bistrô, eu já estava refeito; era o mesmo conhecido de sempre, apenas cordial e de ar meio neutro, e ela era outra vez ela mesma, devolvida à sua realidade banal de pessoa presente, sem o prestígio misterioso da mulher que partira”.

POBRE MORA ONDE JUDAS PERDEU AS BOTAS

Os cursos de inglês (e há um deles em cada esquina) recomendam cuidado ao traduzir a expressão It’s raining cats and dogs, que, nessa língua de barbares, não quer dizer que as nuvens nos estão bombardeando com cães e bichanos, mas que está chovendo muito.  Em português, dir-se-ia que chove a cântaros; em “brasileiro”, que está caindo um toró. Temos, sim, grande cabedal nessa área. Aqui, procuram-se chifres em cabeça de cavalo, a corrupção dá no meio da canela, a mídia bota a boca no trombone, os pobres moram onde Judas perdeu as botas (mesmo lugar onde o vento faz a curva), pagam o pato e ficam a ver navios.

COM A GLOBALIZAÇÃO, A BOBAGEM CRESCE

A repórter da Rede Record, descrevendo as consequências de um acidente ecológico num rio, afirma: “O cheiro de óleo aqui é bastante forte”. Mas sua coleguinha da Globo, no Telecurso, conseguiu sair-se pior: “O Japão foi bastante arrasado na Segunda Guerra”. No começo, empregar bastante em lugar de muito era só um regionalismo. Hoje, com essa tal de globalização, a bobagem rompeu a fronteira paulista, espalhou-se feito chuchuzeiro de beira de cerca e atravessou mares nunca dantes navegados: os exemplos citados ocorreram em Cascavel/PR e Rio de Janeiro. E o segundo foi numa teleaula, o que lhe dá risco de crescer e multiplicar-se.

A PALMATÓRIA (AINDA BEM) FOI PROIBIDA

Muito e bastante não são sinônimos, salvo na linguagem das ruas (em São Paulo e adjacências). Seus significados principais são bem conhecidos: muito é em grande quantidade, em abundância, excessivo, demasiado; bastante (de sentido mais restrito) é o que basta, suficiente, necessário, na medida certa. A repórter, se não estivesse em moda o horror à simplicidade de estilo, diria: “O cheiro de óleo aqui é muito forte” – e guardaria o bastante para momento oportuno. Quanto a dizer (numa aula!) que o Japão foi bastante arrasado, não há perdão possível: é erro grosseiro que, aplicada a lei do professor Chalupp, seria punível com bolos de palmatória.

A REGRA: “COMPLICAR SE FOR POSSÍVEL”

O verbo arrasar é parecido com o verbo engravidar, se me entendem. Assim como as mulheres não ficam “bastante grávidas”, um país (o Japão, no caso) não tem como ficar “bastante arrasado”, a não ser na cabeça oca de certos profissionais. Nos dois casos, curiosamente, deve-se dar folga, igualmente, a muito e bastante: mulher “muito grávida” seria uma estupidez semelhante à mencionada. Resumindo, o Japão foi arrasado (assim, sem qualquer penduricalho), enquanto a mulher da nossa hipótese ficou grávida (embora possa também ficar arrasada com tal ocorrência). A regra nas redações parece ser “complicar, sempre que possível”.

UM PROFESSOR QUE DISPENSAVA PICILONES

Se o folclórico professor de Direito alguma vez maltratou seus alunos (sempre com um dichote na ponta da língua), a mídia regional o maltratou muito mais: chamou-o de Acioly, Aciolly, Accioly, Acciolly e, em menor grau, Acioli. Repórteres precisam, diante de nomes fora do comun, ter comportamento diferente dos maus policiais: antes de bater, perguntar. Certa vez, por imposição profissional, inquiri o citado professor sobre como grafar seu nome.  A resposta veio em jeito irritado-gozador-didático, marca Acioli da Cruz Moreira: “Meu nome não tem consoante dobrada nem picilone”. Picilone? Sim, picilone.

O PICILONE É ESNOBADO PELOS DICIONÁRIOS

O picilone é uma espécie de filho bastardo da língua portuguesa: existe, mas os filólogos lhe fecham os olhos, viram a cara e arrebitam o nariz. Está na rua e em registros de obras artísticas, mas os dicionários não o aceitam. É palavra de indisfarçável sabor brasileiro, contra o ípsilon, que tem gosto de coisa importada. O picilone não está no Aurélio, nem no Michaelis, não tem assento no Priberam (português), nem, suponho, no Houaiss. Zé Dantas, em ABC do Sertão/1953 (com Luiz Gonzaga), diz que “até o ípsilon,/lá é picilone” e, ao “ensinar” o alfabeto lista: “… tê, u,vê, xis, picilone e zê”.

NOEL EMPREGOU A LETRA COM DOIS SENTIDOS

Houve em 1931 um Acordo Ortográfico que “cassou” as letras K, W e Y (agora reintegradas). Noel Rosa se valeu da oportunidade e fez Picilone (para a menina Yvone, irmã de um amigo), quando empregou dois sentidos da palavra: como gíria e como letra do alfabeto. “Yvone, Yvone/eu ando roxo/pra te dizer um picilone”, canta o Poeta da Vila, e, em seguida, diz o picilone: “Já reparei outro dia/que o teu nome, ó Yvone,/na nova ortografia,/já perdeu o picilone”. O coco Sebastiana, de Rosil Cavalcanti/1953, fala de uma comadre Sebastiana que foi convidada para dançar e xaxar lá na Paraíba, e deu o que falar.

DESVAIRADA, SEBASTIANA GRITA: PICILONE!

Essa respeitável senhora “veio com uma dança diferente e pulava que só uma guariba” (espécie de macaco bugio, barbado e barulhento).  Pois saibam todos que essa surpreendente comadre Sebastiana, desvairada no meio do salão, gritava (por motivações incertas e não sabidas, mas com o testemunho insuspeito do grande Jackson do Pandeiro) “a, e, i, o, u… picilone!”. A comadre Sebastiana era, já se vê, atrevida, pois meteu um picilone entre as vogais, sem pedir licença aos linguistas. Rastreado em Ilhéus (1996), Pernambuco (1953), Rio (1931) e Paraíba (1953), por que o picilone não está nos dicionários?

A “ARITMÉTICA” DE JACKSON DO PANDEIRO

É clicar e ver o Rei do Ritmo, um cantor que divide as frases com maestria, uma espécie de professor da matéria: o paraibano Jackson do Pandeiro (1919-1982), mostrando o picilone da comadre Sebastiana (o picilone de Zé Dantas está num clipe especial desta coluna – reveja aqui).



(O.C)

UNIVERSO PARALELO

DEPUTADO CHUTANDO CANELAS

Ousarme Citoaian

“Ela não caiu no gosto dos baianos”, vocifera um deputado federal da Boa Terra, ao referir-se a uma candidata à presidência da República. Convenhamos que atacar a língua portuguesa não é o defeito mais grave dos nossos parlamentares. Mas é certo que “cair no gosto”, solecismo também utilizado exaustivamente na mídia ignara, é chute na canela, sem bola. Lance pra cartão vermelho. A antiga e legítima expressão cair no goto é conhecida de todos os que já leram algum livro – nem que tenha sido na escola, sob o ferrão daquela injustiçada professora de literatura. Desconhecer tal expressão é injustificável para os cultores da dita última flor do Lácio.

“TRADUÇÃO NASCIDA NA IGNORÂNCIA”

Cair no goto é frase feita. Mas daquelas que, ao contrário de provérbios e lugares-comuns que incomodam nossos ouvidos, valorizam o texto. Escritores as empregam com freqüência, pois elas revigoram a tradição da boa linguagem, dando elegância e sabor originais à escrita. Quem diz “caiu no gosto” atesta ignorância da língua literária, valendo-se de uma “tradução” modernosa, nascida no desleixo, amamentada pelos redatores desinformados e, pelo que ouvi, agora encampada também pelo parlamento. Leio num blog que “Invictus não caiu no goto dos críticos de cinema, que o classificam como uma obra menor de Eastwood”, e festejo. Nem tudo está perdido.

NINGUÉM ABONA “CAIR NO GOSTO”

Trocar cair no goto por cair no gosto é rematada ignorância. A expressão (com o significado de algo que agradou às pessoas) é recorrente na linguagem culta. “O romance caiu no goto do público”, diz o Aurélio. Hélio Pólvora, Machado de Assis e muitos outros usaram cair no goto (nunca, jamais, cair no gosto!), de sorte que seria enfadonho apontar abonações de grandes autores (quando “cair no gosto” não encontra nenhuma). Mas vá lá Mário Palmério, no clássico Vila dos confins (com reedição em 2003): “Prova provada é o Domingos, o tal rapaz novo e disposto que caiu logo no goto do Pe. Sommer”.

O GOTO, O TINHOSO E A CACHAÇA

Não resisto a outra abonação: o folclorista alagoano Altimar Pimentel (1936-2007), conta que o Diabo vinha pela estrada, sedento, cansado e mau humorado, quando viu um canavial. Entra como se ali fosse sua casa, “quebra uma cana e começa a chupá-la com tal sofreguidão que o caldo, azedo, caiu-lhe no goto e abrasou-lhe as goelas”. Era “o cão chupando cana”. Vingancista contumaz, o Tinhoso atirou sobre aquelas plantas inocentes (e pelas suas gerações ad aeternum) uma maldição: “De vocês o homem há de tirar uma bebida tão ardente como as caldeiras do inferno”. Tal bebida é a cachaça, outrora chamada, não sem motivo, água ardente (e que virou, creio, por aglutinação, aguardente).

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SONHANDO O SONHO DAS ÁRVORES

Eu queria dormir
dentro
das árvores
e sonhar os seus sonhos,
viver os seus amores.

Eu queria morar
dentro
das árvores e viver a justiça
de suas raízes.
Eu queria morrer
dentro
das árvores
e participar da glória
de renascer no chão,
como semente.

POETA DE LINGUAGEM MEDIDA E DESPOJADA

A autora do texto acima, Ecologia, é Valdelice Soares Pinheiro (1929-1993), que publicou dois livros de poesia (De dentro de mim e Pacto). Cyro de Mattos (em Itabuna, chão de minhas raízes) a descreve como “poeta que elabora sua poesia com linguagem medida e despojada”. Para o autor de Berro de fogo, a poética de Valdelice (foto) também “é de grande conteúdo humano, de equilíbrio entre concepção e execução, harmonia entre poema e ato, verso e matéria”. Ecologia foi retirado de Expressão poética de Valdelice Pinheiro, livro coordenado por Maria de Lourdes Neto Simões, lançada pela Editus/Uesc em 2002.

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DA IRRELEVÂNCIA E OUTROS DEMÔNIOS

Mas saibam quantos lerem esta coluna em feitio de bazar de turco, que nela assuntos abundam, pois tudo aqui é relevante. Até a irrelevância se faz relevante. Então, falemos de identificação das pessoas que escrevem nos jornais – não por falta de tema, mas por ser… relevante. Antes, um passeio pelos veículos nacionais, em que uma senhora chamada Danuza Leão se identifica nos seus escritos como “escritora e cronista”. Ora, muito bem. Quererão me dizer que essas categorias são diferentes? Cronista não é escritor? Será que alguém teria a petulância de dizer que Rubem Braga (foto), talvez o único cronista-apenas-cronista de quem já se ouviu falar, não era escritor?

OS “FILÓSOFOS” QUE SOBRAM NA CURVA

É comum que articulistas bissextos sejam identificados por uma lenga-lenga que sabe a curriculum vitae. A identificação quase compete, em tamanho, com o texto pífio que a antecede, e por pouco não ganha dele em qualidade. O palavrório varia entre 20 e 40 termos, que falam das excelências do autor, indo de cursos que fez a prêmios que ganhou, havendo até um que se diz “nacionalmente conhecido” (!). Há também o tipo que, além de sete ou oito “especialidades”, também se diz “escritor, poeta e redator” (o que, ao fim e ao cabo, vem dar no mesmo Mané Luiz). Mas a joia da coroa vai para uns dois desses comunicadores que empregam em suas identificações a palavra “filósofo”. Aí, sobram na curva.

TATIBITATE, SENSO COMUM E FILOSOFIA

Ser filósofo é algo além de concluir uma licenciatura em Filosofia. Mesmo quem se doutorou na matéria não usa o título de filósofo, salvo se for um rematado presunçoso. Filósofo é quem investiga, argumenta, discute, analisa, “pensa” criticamente o mundo e formula teorias que expliquem nosso cotidiano. Não é qualquer artigo vazado em linguagem gaguejada, defendendo teses bebidas no senso comum da tevê que vai justificar a alguém se auto-intitular filósofo. Lembremos de que a professora Helena dos Anjos, que sabe do assunto mais do que uma dúzia desses “articulistas-filósofos”, é chamada de professora de Filosofia, não de filósofa.

NA HUMILDADE DO PASTOR, O EXEMPLO

É preciso dizer que essa explosão de incontidas vaidades é estimulada pelos jornais, pois seus editores, a quem caberia fazê-lo, não podam os excessos, reduzindo a identificação àquilo que a sensatez recomenda, e que é seguido pelos grandes veículos. Por exemplo, Clóvis Rossi se identifica  nos seus artigos como “jornalista”, sem os penduricalhos da presunção. Mas preferimos utilizar um modelo mais próximo a todos nós: Dom Ceslau Stanula (foto), de vastíssimo currículo (incluindo Filosofia!), se identifica no texto que publica num jornal da cidade como “Bispo de Itabuna”. Um exemplo acabado de humildade e (“de onde não se espera é que sai”) de bom jornalismo, a ser seguido pelas editorias.

ALGUÉM CHORA EM ALGUM LUGAR

Às 20h10min do dia 18 de junho, alguém que se apresenta apenas como “Larissa”, e que diz morar em vasto espaço chamado “República Portuguesa”, entre lágrimas, postou no seu blog:

Vou sentir a tua falta Saramago, porque, tal
como pertenciais ao mundo, um pouco de ti
também era meu…

Ainda sobre a morte de Saramago, escreveu o poeta argentino Juan Gelman:

Com as lágrimas que se vertem agora se
poderia acabar com as secas do mundo
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ATITUDE DE DUNGA É COMUM NO FUTEBOL

O cronista esportivo Alberto Helena Jr. (Última Hora/SP) queria na seleção brasileira de 1970 o zagueiro Joel Camargo, para compor a defesa com Carlos Alberto, Djalma Dias e Rildo, todos quatro do Santos, e sugeriu isso a seu amigo João Saldanha, que convocara Brito. “Brito é mais versátil”, disse o técnico. Helena Jr. (foto)  insistiu, tentando justificar a troca de Brito por Joel Camargo. Saldanha, como sempre, foi direto: “Você arruma uma seleção e faz o seu time; a minha seleção escalo eu”. A passagem, do livro João Saldanha, uma vida em jogo (André Iki Siqueira), marca apenas uma das vezes em que João quis sair no tapa com os críticos. Resposta semelhante ele daria ao ditador do momento, o famigerado Garrastazu Médici.
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

POÇO DE TEIMOSIA, ARROGÂNCIA E GROSSURA

Ninguém seria insano a ponto de colocar no mesmo saco João Saldanha e o atual técnico brasileiro, pois todos sabem que, como pessoa ou treinador de futebol, seria necessário dissolver dez ou doze Dungas para obter meio Saldanha. O que se deseja lembrar é que treinador de futebol costuma ser poço de arrogância, teimosia e grossura. Alguns deles: Leão e Felipão (de cuja genética saiu Dunga), Paulo Amaral (brigão emérito), Telê (teimoso até a medula), Evaristo, Luxemburgo (a pose em pessoa) e Muricy (imbatível em presunção). Carlos Alberto Parreira, parece-me, só confirma a regra: é um homem educado, a quem o técnico da França deixou de mão estendida. Prova de que o futebol merece Dunga, não Parreira (foto).

UM RISCO PARA NOSSAS CRIANÇAS

O viés autoritário era visível em Saldanha (foto) – para mim o homem que revolucionou o futebol (embora a mesmice voltasse, quando ele se afastou). Creio, sem querer passear pelo espaço da psicologia, ser isto normal. Tanto assim que (até que as mulheres ousassem entrar em campo) se repetia a frase calhorda “futebol é pra homem”, numa alusão à grossura que impera nesse esporte. Se futebol é mesmo assim, Dunga é seu símbolo, pois a terra dele é famosa pela exaltação dos machos, ao menos é o que diz o folclore gaúcho. E o técnico aplicou tapas na própria cara, para provar que é macho de verdade, bradando, raivoso, entre tabefes, ter “cara de homem”. Homem ridículo, sim, com risco de ser exemplo para nossas crianças.


(O.C.)






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