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:: ‘Saramago’

UNIVERSO PARALELO

A VANTAGEM EM COMPRAR DISTANTE DA LOJA

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

1VendedorNão sou bom com vendedores de livrarias e casas de discos. Muitos deles lá estão sem nenhum treinamento prévio, nada entendem de técnicas de vendas, não conhecem o produto com que trabalham. Em tempos imemoriais, eu resolvia este problema comprando pelo reembolso postal (os avós do amável leitor sabem do que estou falando). Depois veio a internet e me transformei num habitual comprador em lojas online.  Nunca tive problemas sérios (recentemente adquiri uma coleção de 25 CDs da Folha de S. Paulo e faltaram duas unidades: reclamei e foram repostas rapidamente). Pela internet não tenho de lidar com vendedores ignorantes e mal-humorados.

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O  jazz tratado como caso de polícia

“O livro de Billie Holiday (Lady sings the blues, da Brasiliense), lançado nos EUA em 1956, teve sua versão brasileira entre os mais vendidos de 1985, provando que o jazz é viável como negócio de livraria. Para os jazzófilos de qualquer idade, esta leitura é apaixonante e única. Afinal, a bibliografia por aqui é raríssima, discografia não existe e a ignorância dos que se dedicam ao negócio é, simplesmente, assombrosa: dia desses, mencionei a palavra jazz numa casa de discos de Itabuna, a mocinha ficou corada do dedão do pé à raiz dos cabelos e ameaçou chamar a polícia…” (Antônio Lopes – Buerarema falando para o mundo/1999).

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ENTRE PARÊNTESES

3Abel PereiraChova ou faça sol, haja frio enregelante ou calor de derreter o asfalto, qualquer tempo é tempo para se falar (bem) de Abel Pereira. Nesta lembrança, eu, que não sou poeta (“O que sou eu, afinal?” – a interrogação aflitiva ecoa dentro de mim), brinquei de fazer haicai. Nada sério, só saudade daquele bom e simples Abel Pereira que, já com mais de 90 anos quando o conheci, não me permitiu chamá-lo de “seu” Abel. Pedindo clemência à gentil leitora pela pieguice explícita, aqui vai o que parece ser uma eterna lida do homem:

 

Este amor tão puro

 

Tenta noite e dia abrir

Teu coração duro.

EM LITERATURA, É O LEITOR QUEM DECIDE

Em era que longe vai publicava o extinto Jornal do Brasil (bons tempos, aqueles!), semanalmente, uma seção chamada “O que você está lendo?”, com esta pergunta sempre dirigida a pessoas famosas, é claro. Por ali pesquei várias dicas de leitura, às vezes me dei bem, às vezes, não. É que opiniões sobre literatura (e acho que arte, em geral), por mais “técnico” ou “inteligente” seja quem opine, é sempre avaliação pessoal. O que um crítico conceituadíssimo como Wilson Martins, por exemplo, recomenda não vai, necessariamente, me agradar. Só acredito lendo. Voltando ao JB, foi naquela seção que “descobri” José Saramago. O ator José Lewgoy estava lendo A jangada de pedra – e eu fui na onda (ops!).

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5Harold BloomJosé Saramago, antes de ganhar o Nobel

Li A jangada… tão logo me foi possível, e fiquei zonzo: aqueles parágrafos imensos, às vezes tomando toda a página, me dificultaram o entendimento do que o autor queria dizer. Saliente-se que Saramago, naquele fim de 1986, não era o quase best-seller de hoje, Prêmio Nobel lido e aprovado até pelo festejado Harold Bloom: era pouco conhecido por aqui e digo que “estive a consultar” dois intelectuais itabunenses (de quem, compreensivelmente, omito os nomes) que de nada sabiam. No terceiro (aconteceu na fila do Banco Itaú), soube que José Saramago era “grande escritor português, um escritor verdadeiro”. Assim me falou, de passagem, Hélio Pólvora, mas este não conta, porque leu tudo (não de tudo!).

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Atenção ao som e ritmo das palavras

Mais tarde, já consagrado, Saramago ouviu de um escritor um problema idêntico ao meu, a crítica à narrativa de difícil compreensão. O autor de Caim não passou recibo, não se mostrou disposto a alterar o modelo de escritura, dizendo que seu texto devia ser lido uma segunda vez, com atenção ao som e ritmo das palavras, sugerindo até que se leia em voz alta (ou se imagine uma leitura em voz alta). Parece-me que, por aí, ele se equipara a Guimarães Rosa, cuja beleza da escrita costuma “esconder-se” ao primeiro contato, para desabrochar numa segunda (ou terceira!) visão. Fico “a imaginar” (estou hoje, reconheço, um tanto lusitano) se todo autor não merece esta homenagem da segunda leitura.

 

UM NAMORADO DE ROSTO “INFOTOGRAFÁVEL”

7BroadwayJá virou lugar-comum neste espaço coluna: as canções mostradas aqui tiveram gravação de “todo mundo”. Por não ser especialista, nem a coluna ser lugar de experimentações, trato apenas de temas consagrados do jazz (os ditos standards), que os leitores já conhecem. É o caso de My funny valentine, da dupla de midas Rodgers-Hart (o que eles tocam vira sucesso), que já teve mais de 1.200 gravações. No original (uma peça da Broadway, de 1937), Valentine é o rapaz – ridicularizado pela namorada. Ela fala da cara risível (laughable) dele, que é “infotografável” (unphotographable) etc. Mas ele a faz rir e, portanto, não precisa mudar nem um fio de cabelo (don’t change a hair for me). Letrinha boba.
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Chet Baker, aos 58 anos, parecia ter 80

Tóquio, 1987. No palco, um Chet Baker devastado pela heroína. Ao seu lado, músicos de alta qualidade, embora os críticos não lhes reconheçam a excelência que o trompetista merecera outrora: Harold Danko (piano), Hein van de Gein (baixo) e John Engels (bateria), no show que resultou num CD duplo, com 11 faixas. Destacamos a quinta do CD 1, My funny valentine. A voz pequena e frágil de Baker teria inspirado um certo João Gilberto a fazer uma revolução no Brasil. Para mim, simples ouvinte, este solo de Chet é um emocionante momento do jazz: definhando a olhos vistos, o trompetista encontra pulmões para uma surpreendente cascata de notas. Morreu no ano seguinte, aos 58 anos. Parecia ter 80.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

VINÍCIUS E O MONOSSÍLABO IMPUBLICÁVEL

Ousarme Citoaian
Imaginei não levantar o assunto, por ser tão, mas não resisti – talvez por isso mesmo.  Falo de Tonga da mironga do cabuletê, de Vinícius-Toquinho, que tem uma “tradução” impublicável circulando na internet (e até integra um livro!): diz tratar-se de expressão em nagô, falando dos pelos que florescem no centro da região que Deus escolheu para ser a mais carnuda do corpo da mãe. Não entendeu? É um monossílabo que começa com c e termina com u (embora já haja até música gravada, usando tal palavra, recuso-me a grafá-la em blog de família. Pois dizem que Gessy Gesse (foto), paixão baiana do poetinha, lhe ensinara essa coisa em nagô, com que ele xingou os militares, sem que estes percebessem.

UMA “TRADUÇÃO” SEM NADA DE CIENTÍFICO

Vinícius dizia que o título não tinha sentido, mas apoiou a versão aqui referida, e até parece ter se divertido com isso: certa vez, afirmou sentir-se seguro, pois  “na Escola Superior de Guerra não tem um milico que saiba falar nagô”. Pior é que Toquinho, o parceiro, também defende essa “tradução”, que nada tem de científico. O professor Cláudio Moreno, do site Sua língua (também na tevê), diz que “não significa nada” a tal expressão: “Era a época da ditadura, no entanto, e muitos preferiram acreditar que o poeta tinha escondido atrás dessas palavras africanas uma ofensa ao governo militar” – explica o mestre. Quis consultar o Novo dicionário banto do Brasil, de Nei Lopes, mas foi impossível.

EXPRESSÃO MISTURA QUICONGO E QUIMBUNDO

A obra está esgotada em todas as livrarias (e também na editora). Então, vali-me, outra vez, do professor Cláudio Moreno, que – mais precavido do que eu – reservou seu exemplar e hoje é um feliz possuidor do Novo dicionário…, obra recomendada por Antônio Houaiss. No maior repositório de africanismos da língua portuguesa, o professor gaúcho encontrou:  (1) tonga (do Quicongo) – “força, poder”; (2) mironga (do Quimbundo) –  “mistério, segredo” (Houaiss acrescenta “feitiço”) e (3) cabuletê (de origem incerta) –  “indivíduo desprezível, vagabundo” . Portanto, palavras de línguas diferentes, isoladas – que não xingam os milicos, são apenas um barulhinho simpático ao ouvido.

EM SARAMAGO, A RELAÇÃO PEIXE E LEITOR

“Abordamos aqui, há tempos (com referência a um personagem de Flávio Moreira da Costa, no romance “noir brasileiro” Modelo para morrer), a necessidade de “fisgar” o leitor. Alguns de vocês se lembram: é pegar o sujeito pelo colarinho, logo nas primeiras frases, e, assim manietado, levá-lo até o ponto final. Pois encontro, em análise primorosa da jornalista Débora Alcântara (Caderno 2 – A Tarde), a retomada desse tema, em torno do livro póstumo de José Saramago O silêncio da água, um exercício de literatura infantil. Registre-se que Saramago, único prêmio Nobel conquistado em língua portuguesa, morreu há um ano (18 de junho de 2010). E que a visão apresentada na matéria é, obviamente, muito melhor do que a minha.

ÀS MARGENS DO TEJO, UM MENINO PESCANDO

“A palavra não morre quando se impregna na memória, feito um anzol na guelra de um peixe”, sentencia a articulista. E emenda: “O leitor, como o peixe, ao abocanhar a isca, mesmo não sendo resgatado do silêncio profundo da água onde habita, é remetido ao choque de singularidades, de modos de ver e de sentir. É transformado para sempre, levando o gosto do anzol desferido”. Quisera eu, ao crescer, escrever assim… A autora explica a analogia entre anzol e linguagem, peixe e leitor, a partir de O silêncio da água. A história se passa nas margens de um rio (o Tejo, é óbvio!), onde um menino tenta pescar um grande peixe. Quase fisgado, o bichão escapa, como nas estórias de pescadores, e é neste momento que a lucidez toma o personagem.

“ESCREVER É JOGAR UMA GARRAFA NO MAR”

É curioso que tal clareza lhe venha de um encontro em que o bicho saiu vencedor. Mas ao menino restou uma certeza: “De uma maneira ou de outra, porém, com o meu anzol enganchado nas guelras, tinha [o peixe] a minha marca, era meu”. Aqui, a analogia, bem explicada pela poeta Myriam Fraga: “É essa marca transformadora que pode sanar em parte a frustração de não se conseguir fisgar o leitor por inteiro”. É ainda a autora de O risco na pele quem esclarece a relação autor-leitor: “O autor mostra o sentimento de quem escreve, que é como jogar uma garrafa no mar, sem saber quem vai achá-la e como vai concebê-la”. Penso que é isto que procuro transmitir a quem, menos experiente do que eu, escreve: cuidado, atenção e respeito a leitor. É o meu anzol.

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ENTRE O BOLERO DERRAMADO E A ANTOLOGIA

Os Tincoãs – nome de uma ave do cerrado – surgiu em 1960 (formado por Erivaldo, Heraldo e Dadinho, todos de Cachoeira), cantando boleros  ao estilo Trio Irakitan. O grupo era afinado, arrumadinho, mas não deu certo, e o disco Meu último bolero encalhou.  Após três anos de luta, com Erivaldo substituído por Mateus, os rapazes deixaram os boleros derramados e foram beber em fontes puras – sambas de roda do Recôncavo, temas de candomblé e cantos católicos. Os terreiros constituem a principal inspiração do trio. Em 1973 gravam um disco antológico (Os Tincoãs), produzido por Adelzon Alves (foto), com marcante presença da legítima música afro-baiana.

INCORPORAÇÃO DE NOSSA HERANÇA AFRICANA

Os arranjos de Os Tincoãs valorizam o canto coral do trio afinado, com destaque para o acompanhamento só  com violão, atabaque, agogô e cabaça. O disco foi recordista de vendas, não pelo ineditismo do repertório, pois a temática negra já tinha sido muitas vezes gravada, mas pela beleza das canções e a excelência dos vocalistas, incorporando, como nunca antes, o sentimento de nossa herança africana. Para o critico Luiz Américo Lisboa Jr., especialista em música baiana (com pelo menos dois livros publicados sobre o assunto) o LP Os Tincoãs “é a afirmação da identidade de uma cultura que nos engrandece e nos faz ver o quanto devemos aprender com ela”.

DISCO CHEGA AO MERCADO 20 ANOS DEPOIS

Em 1975, com Badu em lugar de Heraldo (que morrera naquele ano) sai mais um LP, em que se destaca a música “Cordeiro de Nanã”. A partir de 1983, Os Tincoãs, em Luanda, participa de  projetos da Secretaria da Cultura de Angola,  e grava o disco Afro Canto Coral Barroco, só lançado 20 anos depois, quando o grupo não mais existia. Resta dizer que este registro foi “pautado” pela leitora leidikeiti e baseou-se na única fonte escrita de que tenho conhecimento: um artigo do pesquisador Luiz Américo Lisboa Jr. O grupo se desfez em 2000 e, segundo Luiz Américo (foto), “deixou um legado dos mais primorosos para a música popular brasileira”. Clique e ouça Deixa a gira girar.

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O.C.






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