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:: ‘Sérgio Reis’

UNIVERSO PARALELO

“SE A MONTANHA NÃO VAI A MAOMÉ…”

Ousarme Citoaian | ousarmecitoaian@yahoo.com.br

001BilacPor e-mail, questionam-me sobre a diferença entre plágio e citação, dúvida que para mim tem quase a idade do ovo e da galinha. Fazendo árbitro o dicionário, fica fácil: plágio é cópia ilegal, apropriação indébita da produção de outra pessoa, coisa sorrateira, sub-reptícia; já a citação exige remessa à fonte, creditando-se a autoria, tudo dito e feito às claras. Mas essa abordagem lexicográfica não satisfaz à consulente (ops!), e a mim muito menos: no escrever, é frequente a referência a outros autores, sem citação de fonte, e que não é plágio, mas homenagem. Certas expressões se tornam de domínio público, a exemplo de “ajuda luxuosa”, “se a montanha não vai a Maomé…”, “última flor do Lácio”…

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“Sou apenas um pobre homem de Itabuna”

No belo poema “Cacau, canto, clamor”, do livro Poesia reunida e inéditos, Florisvaldo Mattos escreve sobre a ascensão e queda da agricultura regional: “…livres de turbantes, burkas e sandálias,/ outros mais, mais outros, enfim dezenas,/ vieram, por desejo de erguer e construir/ o que a alma na carne gravara como dívida”.  É evidente a citação de “As pombas”, de Raimundo Correia (em itálico) – e eu, de propósito, citei Ascensão e queda do terceiro reich, de William Shirer. Hélio Pólvora, um dos poucos para quem vale o lugar-comum “dispensa apresentação”, costuma autointitular-se “apenas um pobre homem de Itabuna” – Eça de Queirós (1845-1900) se disse “apenas um pobre homem de Póvoa de Varzim”.

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Voltaire é citado em diário de Itabuna

003CândidoEm artigo recente em importante jornal diário, o autor diz que o povo de Itabuna não vive “no melhor dos mundos” – empregando, bem, uma expressão tirada de Voltaire (1694-1778), em Cândido ou O otimismo. Machado de Assis, com sua vasta cultura, usou muito a citação, às vezes em língua estrangeira: Et nunc et semper (do latim, “nunca e sempre”), no conto O anel de Polícrates, é de São Mateus, 5:9; “… como a esposa que desce do Líbano”, no conto Último capítulo, vem do Cântico dos Cânticos. E é impossível não lembrar que Hemingway tirou do livro de Salomão um dos títulos mais importantes da literatura mundial: O sol também se levanta. A citação, sobre ser prova de conhecimento e bom gosto, é homenagem ao citado e ao leitor perspicaz.

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(ENTRE PARÊNTESES)

É impenetrável o raciocínio da chamada nova direita brasileira: enquanto cerca de 96% dos crimes são cometidos por bandidos adultos, ela se preocupa com o potencial de 3-4% representado pelos menores. Daí, prega que, ao reduzir a maioridade penal (e fechar os olhos aos criminosos engravatados, fardados, togados, nomeados ou concursados), reduz a criminalidade. Combater o crime tornando adultos os marginais infanto-juvenis me lembra a anedota sobre o cara que encontrou a mulher (lá dele!) no sofá, em intimidades com Ricardão. A gentil leitora e o atento leitor sabem como ele resolveu o problema: vendeu o sofá.

ALIENAÇÃO E CONCEITOS POR EMPRÉSTIMO

005VenezuelaNo ano passado, um deputado inglês, em palestra na Universidade de Oxford, chamou a atenção sobre “como ter pouco conhecimento é perigoso”. Isto não quer dizer que nos devemos transformar todos em sábios, como num passe de mágica, o que seria impossível; mas que precisamos aprofundar um pouco mais nossas informações, se queremos sair por aí dando opinião. Sobre Hugo Chávez, por exemplo (o tema da palestra do parlamentar), se um indivíduo disser  “não sei quem foi”, será um alienado; se disser “foi um ditador da Venezuela”, entrará para a lista dos que alardeiam conceitos tomados de empréstimo, talvez ouvidos em algum telejornal.
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Como o “inocente útil” se faz perigoso

O alienado não influi nem contribui, é um inocente inútil; o outro, também inocente (mas útil), é perigoso, pois anda a espalhar “verdades” sob encomenda. É por esse caminho do “pouco conhecimento” que elegemos candidatos inadequados (para empregar um eufemismo) ou transformamos em herói qualquer pessoa que, a exemplo do jurista Joaquim Barbosa, desempenhe razoavelmente bem suas funções. Tentei evitar Brecht, mas não pude: “Triste do povo que precisa de heróis”. A ideia de fazer de JB presidente da República seria hilariante, se não fosse infeliz. Mas eu confesso que gostei quando ele disse que os três maiores jornais brasileiros são “mais ou menos” de direita. É óbvio, mas me fez bem ouvir.

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A MELHOR “CAIPIRA” DE TODOS OS TEMPOS

007Jeca TatuNenhuma lista (relação, antologia ou coisa que o valha) é inquestionável, pois sempre reflete a opinião de quem a fez. Mas isto nunca foi obstáculo para quem gosta de listar os “melhores” (ou “maiores”) de qualquer coisa. Veículos de imprensa do mundo inteiro andam, às vezes, por esse caminho, e eu, confesso, gosto de ler tais seleções – que me dão o pensamento médio dos outros. Em 2009, a Folha de S. Paulo reuniu dezesseis críticos, pesquisadores e compositores, para escolher as melhores músicas caipiras de todos os tempos. No topo da lista, como melhor de todas, ficou Tristeza do Jeca, de Angelino de Oliveira (1888-1964) – compositor paulista nascido em Itaporanga.
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Com 95 anos, parece novinha em folha

Tristeza no Jeca nasceu a 24 de maio de 1918, cantada em público pela primeira vez, pelo autor. Conta, portanto, 95 anos, e parece novinha em folha. Teve gravações de diversos artistas, antigos e novos, caipiras e “caipiras”, mas o registro fundamental é da dupla Tonico e Tinoco. A canção se baseia no livro de Monteiro Lobato, Urupês, que deu vida longa a Jeca Tatu, o tipo rural infeliz e doente, típico brasileiro excluído, morador dos grotões da Pátria. Aqui, a interpretação de Paula Fernandes, ao lado de Sérgio Reis e Renato Teixeira. A gentil leitora, exigente, questionará se a bela Paula já cursou ao menos um semestre de violão; o leitor, de olho rútilo, não questionará nada.

(O.C.)

UNIVERSO PARALELO

“OBJETOFILIA”, O SURTO QUE NOS AMEAÇA

Ousarme Citoaian

Quem duvidou não duvide mais. O vasto mundo está fora de controle, rodando a poder de chips, blogs, i-pods, bugs, edges, hosts, hyperlinks, firewalls e outros mistérios. Tão desembestada anda a terra que se faz difícil dizer se alguma notícia é, de fato, nova.  Enquanto a gente se arrisca a tal afirmação, um panacum de maluquices atualizadas está a caminho de sepultar, como superada, aquela que havíamos destacado. Mas, vá lá, corro o risco. A última desse universo é a objetofilia, nome de uma paixão desenfreada que pessoas de juízo duvidoso desenvolvem pelas coisas. Sim, senhor e senhora, leitor e leitora, atônitos ambos, a mais recente e bizarra obsessão está no ar: gente se apaixonando por objetos.

EU E MEU PC SOMOS APENAS “BONS AMIGOS”

Se antes a palavra era emprestada da expressão “objeto de desejo”, por exemplo, agora é usada em sentido lato. E os psiquiatras, enquanto se esforçam para explicar essa sandice, já lhe encontraram um nome – objetofilia.  Suponho que o gajo que cai de amores, digamos, por uma máquina de lavar roupa, seja um objetófilo (em sentido genérico) ou maquinófilo (mais especificamente). Eu, na tentativa de ser um rapaz da moda, tentei “ficar” com meu PC, mas foi só decepção, pois o desalmado me traiu, danificou (de propósito) um arquivo, quase fazendo comigo aquilo que o prefeito faz com a cidade. Condenei-o ao ferro velho e adquiri um notebook potente, a quem já deixei claro: seremos apenas bons amigos.

ARDENTE AMOR PELO APARELHO ORTODÔNTICO

A separação às vezes é litigiosa. Conheço uma jovem que se perdeu de amores pelo seu aparelho ortodôntico. No início, ele a incomodava muito (mesmo que não fizesse xixi na tampa da privada nem largasse toalhas molhadas por aí). Desapareceu o incômodo, e a mocinha, mais do que adaptada àqueles ferrinhos, passou a considerá-los repousantes, confortáveis e incrivelmente charmosos. O dentista desconfiou, pois terminado o tempo de uso da parafernália, a cliente não compareceu. Ele telefonou, ela desconversou; preocupado, voltou a ligar, ela veio, mas decidida a manter aparelho na boca – até que a morte (ou a ferrugem) os separe. O dentista não aceita essa união eterna – e o caso, tudo indica, vai aos tribunais.

HISTÓRIA DO VERBO QUE  AMA A PREPOSIÇÃO

Para argumentar, colho em mídias recentes cinco manchetes sobre um crime tão chocante quanto repetido, a pedofilia: 1)Pedófilo abusou de quatro crianças”, 2)Inquérito conclui que acusado de pedofilia abusou de nove meninas”, 3) “Rede de pedofilia abusou de 36 menores”; 4) “Padre americano abusou de crianças surdas” e 5)Polícia prende pedófilo que abusou de várias crianças”. Em todas, o comportamento moral execrável dos acusados, mas, por parte dos redatores, a obediência à correção do estilo: a gramática chama o verbo “abusar” de transitivo indireto, em regra geral. Ele ama a preposição “de” e fica triste quando o separam dela.

LEMBRANÇA DE VIEIRA, HÁ QUATRO SÉCULOS

A imprensa, volta e meia, transforma, por sua conta e risco, esse verbo em transitivo direto: “Abusou o filho durante sessão de filme pornô”, diz influente jornal diário de Itabuna. Não pode. Incursões de abusar como transitivo direto são, no máximo, matéria de estudo da gramática histórica. A forma é, depois de Vieira (foto) tê-la usado uma vez ou outra, arcaica de quase quatro séculos. E ainda piores são as frases com o particípio passado de tal verbo. Selecionei, em mídias de Itabuna, três casos: 1) “Criança abusada em cárcere é ouvida pelo MP”, 2) “Criança é abusada em escola de Itabuna” e 3) “Menina deficiente de 14 anos é abusada sexualmente e filmada”.

PALAVRA QUE CORROMPEU A ORIGEM “NOBRE”

Verbos dessa “família” (os que “gostam” de preposição), a exemplo de abusar,confiar , optar, gostar, pertencer e muitos outros, não admitem a voz passiva.Daí, quem sabe o básico da língua não diz que “alguém é gostado”, porexemplo. Ou “optado”, “pertencido” etc. Mas abusadoe confiado podem ser empregados comoadjetivos, numa boa: abusado quer dizer atrevido, ousado,marrento e… confiado. Umacuriosidade quanto ao termo filo (dogrego, com fortes marcas no vernáculo): remete a apreço, afeição, admiração (bibliofilia), simpatia, amor, amizade (filosofia) – mas também a folha (filófago), raça (filogenia). Em pedofilia,nada de bom e nobre: não é “amor a crianças”, mas corrupção. Moral e etimológica.

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A CIGARRA “TONTA DO SOL DA PRIMAVERA”

O pernambucano Olegário Mariano (1889-1958), da Academia Brasileira de Letras, também diplomata e deputado, é um desses poetas que ninguém mais lê. Lírico, romântico, atuou naquela fase parnasiano-simbolista que abriu as portas para o Modernismo. Sonetista emérito, ficou conhecido como “o poeta das cigarras”, de tantas vezes em que abordou o tema. “Cigarra cor de mel. Extraordinária!/Cigarra! Quem me dera/Que eu fosse um velho cedro adusto e bronco,/E tu, nessa alegria tumultuária,/Viesses pousar sobre o meu tronco/Ainda tonta do sol da primavera” – chorou ele, em Evangelho da Sombra e do Silêncio (o título do livro é um achado).

UM ERRO HISTÓRICO EM “DE PAPO PRO AR”

O poeta, que chegou às ruas via MPB (a exemplo de Vinícius de Morais, embora em grau muitíssimo menor), terminaria vítima de um erro histórico em sua composição De papo pro ar, musicada pelo mineiro Joubert de Carvalho (1900-1972) e gravada inicialmente pelo paulista Gastão Formenti (1894-1974). “Se compro na feira feijão, rapadura/Pra que trabalhar?” é passagem que me intrigava, pela falta de sentido lógico. Muitos anos depois li (creio que em Hermínio Belo de Carvalho) que alguém levou a questão a Olegário Mariano (já no fim da vida) e ouviu que ele nunca escrevera aquilo: o original era “Se ganho na feira…”.

DE POUCO SERVIU A EXPLICAÇÃO DO AUTOR

Ocorre que Gastão Formenti (talvez lançador da “moda” de errar a letra das músicas) gravou “Se compro na feira…”, em 1931, e todos passaram a repetir o erro (a começar por Inezita Barroso (foto), primeira a regravar a música, em 1959). Curioso é que mesmo depois da explicação de Olegário Mariano, persistiu-se no equívoco: gravações modernas deste hino à preguiça (Betânia, Sérgio Reis, Renato Teixeira e da excelente dupla Pena Branca e Xavantinho) não fizeram a correção, enquanto Renato Teixeira acrescentou várias bobagens à já existente. Conheço somente um cantor, Ney Matogrosso, que fez a leitura correta do texto. Aleluia!

(O.C.)







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