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:: ‘surreal’

UNIVERSO PARALELO

A ARTE E SUA INFLUÊNCIA NO NOSSO FALAR

Ousarme Citoaian

A arte, mormente a literatura, nos invade e transforma. Já falamos de expressões citadas à mancheia, por indivíduos que, talvez em maioria, jamais leram o texto de onde elas provêm: Machado de Assis (“Círculo vicioso”), Bilac (“Última flor do Lácio…”), Vinícius (“Que seja eterno enquanto dure”), Noel Rosa (“O x do problema”), Augusto dos Anjos (“A mão que afaga é a mesma que apedreja”), o indefectível Luiz Guimarães (“Depois de um longo e tenebroso inverno”) e o pegajoso Conde de Afonso Celso (“Por que me ufano do meu país”). Ultimamente está em moda surreal, mesmo para pessoas sem noção do que seja o Surrealismo, de onde vem a palavra.

SURREAL E KAFKIANO: PARA ALÉM DO REAL

Trata-se de algo absurdo, bizarro, estranho, que está numa dimensão “para além do real” (as aspas são do dicionário Priberam da Língua Portuguesa). Onde está surreal, pode-se dizer, sem prejuízo, kafkiano – e agora a influência não é mais francesa, do Surrealismo, mas alemã, da literatura do pouco lido e muito citado Franz Kafka (1883-1924). Kafka, aliás, não era alemão, mas tcheco.  E era “kafkiano”, com certeza: O Processo (meu primeiro contato foi com o filme, não com o livro), A Metamorfose e O Castelo são prova disso. Gostei de A Metamorfose, adorei O Processo (depois que li o crítico de cinema Maurice Capovilla) e fui ao fim de O Castelo só por implicância.

DITADURAS VÃO DO ESTÚPIDO AO KAFKIANO

Não se pode esquecer de dantesco, adjetivo que identifica cenas de horror semelhantes àquelas que Dante (1265-1321) descreve em A Divina Comédia (ao lado, “O Inferno”).  Mas fiquemos com kafkiano/a e este belo exemplo contado por Álvaro Almeida, do Instituto Cultural Brasil-Alemanha, em Salvador: “Na ditadura de Getúlio Vargas (1930-1945) só se podia entrar na Secretaria da Segurança apresentando a carteira de identidade. O problema é que só se tirava esse documento na Secretaria da Segurança – na qual não se poderia entrar, por falta da carteira de identidade”. Evidência de que as ditaduras costumam chafurdar entre o kafkiano e o meramente estúpido.

ENTRE A SIMPLICIDADE E AS “INVENÇÕES”

Lembram do verbo que ama a preposição? Pois é. Dizem os que entendem do assunto que tais verbos, ditos transitivos indiretos, não admitem a voz passiva. Demos o exemplo de abusar, que “geraria” abusado/abusada: “Criança era abusada sexualmente pelos dois irmãos” – diz blog de Itabuna. E nem precisa dizer qual, pois a imensa maioria dos veículos de comunicação se vale dessa forma equivocada. No caso, era muito simples trocar abusada por molestada e estaríamos em segurança. Mas a simplicidade já foi trocada, faz tempo, por “invenções” agressivas à linguagem, como esta. E há outra que está crescendo – portanto, precisa que se lhe corte a cabeça.

LÍNGUA VILIPENDIADA EM SUA ESSÊNCIA

O verbo perguntar também é chegado a uma preposição. E é verbo de muita utilidade: o repórter pergunta, o padre pergunta, perguntamo-nos (“Às vezes me pergunto…”, cantava-se no bolero antigo) e o poeta, atônito, pergunta “E agora, José?”. Nos últimos dias, mídias regionais (incluindo, ai de mim!, o Pimenta) escreveram que “o prefeito foi perguntado…”, “o deputado foi perguntado…”, o bispo foi perguntado…” – enfim, Deus, os botões e o mundo foram perguntados sobre os assuntos mais estapafúrdios. E a língua de Camões, pobrezinha, tratada a socos e pontapés, vilipendiada em sua essência, molestada em suas partes íntimas (eu quase disse abusada!).

TODOS PERGUNTAM, NINGUÉM É PERGUNTADO

Bob Dylan (foto), em canção muito cultuada, pergunta a esmo e repete que “a resposta está soprando no vento”, seja lá o que isto signifique (The answer is blowin’ in the wind). Eu gostaria de entender a frase  como “o vento está soprando a resposta”, mas quem sou eu para me aventurar nessa língua de bárbaros? Vasculho o Google e só encontro as formas “soprada” ou “soprando” (no vento), donde concluo que minha tradução não se sustenta. Voltando ao que interessa, perguntar só admite a voz ativa: qualquer um pergunta, mas ninguém é perguntado. É interrogado, inquirido, indagado, interpelado – e por aí vai. Abusado é adjetivo; perguntado não é coisa alguma.

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OS VERSOS ATINGIAM O CORAÇÃO DAS MOÇAS

Num tempo que acabou há meio século, a poesia dita rimada era muito popular. Castro Alves, Olavo Bilac, Fagundes Varela, Casimiro de Abreu e Raimundo Correia eram recitados na escola, nas festas, em casa e nos bares (então chamados botequins). Nenhum rapaz alfabetizado deixava de ter ao alcance da mão um ou outro texto de emergência, capaz de atingir corações femininos aparentemente inexpugnáveis. Hoje não mais se recita nada em canto nenhum – e o que antes arrancava suspiros de amor agora provocaria risadas de escárnio ou sorrisos anêmicos. Há muitas mulheres mais sensíveis ao batidão do arrocha e ao chamamento de vadias e cachorras do que a versos parnasianos.

A POESIA COMO “DESCANSO” DA REALIDADE

Sinais dos tempos. Posso dizer, com a frase célebre de Cícero, O tempora, o mores (ó tempos, ó costumes), ou, parodiando Shakespeare em Ricardo III, “Um soneto! Meu reino por um soneto!” Mesmo que não me considere grande leitor de poesia, volta e meia revisito uma antiga coletânea do crítico José Lino Grünewald (Grandes sonetos da nossa língua/1987), como forma de não perder o rumo da estética. Do século XVI (Sá de Miranda e Camões) até os nossos dias (Ferreira Gullar, Jorge de Sena, Vinícius, Drummond) são séculos de canto amoroso, aprisionados em 220 páginas. Ler poesia é refúgio sentimental para a dura realidade da vida. Romantismo tem tudo a ver com escapismo.

NELSON: DITADURA, SOFRIMENTO E POESIA

Nelson Schaun (1901-1968) era comunista forjado na luta contra a ditadura Vargas. Professor de português e latim, seus recursos de autodidata abrangiam ainda a sociologia e a filologia. Perseguido, refugiado, muitos dias no mato, foi preso e exibido nas ruas de Ilhéus, amarrado feito bicho feroz, espancado na via pública,como “exemplo”. Sobrevivente da iniqüidade, sepultou os ressentimentos,sendo apenas um homem que cumpriu o dever cívico. Em aulas e conversas, mostrava Meus Oito Anos (Casimiro de Abreu) como típico exemplo de poesia romântica: simples, saudosa, fugindo da realidade. Com um dos maiores do teatro brasileiro, Paulo Autran, um trecho de Meus Oito Anos – homenagem a Nelson, presente a nós todos!

(O.C.)







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