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28 de março de 2020 | 10:43 am

UNIVERSO PARALELO

Tempo de leitura: 7 minutos

NUM SÓ DIA, DUAS PEDRADAS NOS JORNAIS

Ousarme Citoaian

No mesmo fim de semana, recebo duas pedradas, vindas de veículos diferentes, mas igualados no mesmo desleixo com a linguagem. Um dos principais diários de Itabuna estampa no alto da página: “Gisnática Laboral em alta no setor empresarial”; e o dito mais importante jornal do Nordeste, de Salvador, saiu-se com esta pérola, também num título: “O medo não é só da mulher. Não tem haver com gênero”. Um caso, além dessa incômoda gisnática, tem o agravante da rima (“laboral-empresarial”), o que já condenaria o título. O outro (pela relevância do jornal) é ainda mais grave.

OS ERROS NOS ESPREITAM TODO O TEMPO

Quem conhece, mesmo sem aprofundar-se, a rotina de uma redação sabe que os erros nos espreitam todo o tempo. Mas há erros e erros (até já abordamos aqui os famosos erros de digitação, outrora chamados erros de imprensa). Escrever gisnática (em vez de ginástica) é erro de digitação, ao levar o “s” para um lugar estranho. É acidente de trabalho que precisa ser atendido pelo próprio redator, o editor ou por um profissional em extinção, chamado revisor). Nada justifica (principalmente em letras grandes) que chutes na canela cheguem às bancas e atinjam leitores incautos.

DIFERENÇA ENTRE ACIDENTE E IGNORÂNCIA

Mais difícil ainda é aceitar como “normal” que um redator (muito provavelmente com formação universitária) grafe tem haver em lugar de tem a ver, pois aqui não se trata de simples derrapagem a que todos temos direito, mas de ignorância crassa de princípios elementares de língua portuguesa. Como disse um cínico, “herrar é umano”, mas se a gente usa mais a borracha do que o lápis, é preciso desconfiar. Não entendo que um grande jornal tenha o direito de cometer erros desse nível. Em qualquer boa escola de segundo grau essa construção receberia um zero bem grande e redondo.

A LEI DE LAVOISIER NO TEXTO LITERÁRIO

O crítico Hélio Pólvora compara a literatura a uma olimpíada, afirmando que “na boa literatura a lanterna de Diógenes passa de mão em mão, como tocha olímpica”. O autor de Itinerários do conto acrescenta que as consequências desse caminhar da tocha “são as aparentes imitações, que, na verdade, aproximam temperamentos, sensibilidades, experiências comuns”. Passando de uns para outros, a arte recebe acréscimos que a engrandecem, de sorte que nada é propriamente novo, mas transformado, uma espécie de Lei de Lavoisier. Por mais criativo que pareça o autor (foi assim que entendi), sempre há alguém que o inspirou e motivou.

O TEXTO RESULTA DE TRABALHO COLETIVO

Para Hélio, nada acontece por acaso em literatura, sendo esta uma obra de arte coletiva. “Para cada grande escritor que surge (…) em língua portuguesa, haverá sempre uma geração ou mais de escritores diversos que prepararam alicerces às suas descobertas”, afirmou o crítico em 1985, em palestra na Universidade Federal da Bahia. Por ser a literatura um trabalho “de equipe”, matéria que se transforma ao longo da existência, ao agregar autores diversos, ela cria dificuldades extras para os não iniciados, como eu. É muitas vezes torna-se difícil separar a homenagem e a deslealdade: citação e pastiche, referência e plágio .

A OLAVO BILAC O QUE É DE OLAVO BILAC

Tenho consciência de que a citação possa, diante de leitores menos atentos, soar como apropriação indébita, mesmo assim a uso. Há pouco, empreguei aqui, sem aspas nem nada, a expressão “nasceu pequeninho, como todo mundo nasceu”, uma referência (tomara que) óbvia a Caymmi; também reproduzi, aspeado, o verso “[Em que Camões] chorou no exílio amargo, o gênio sem ventura e o amor sem brilho”, citação intencional clara do soneto “Língua portuguesa”, de Olavo Bilac. Não me apropriei de produção alheia, apenas considerei que os leitores não exigem bula, e precisam ter sua inteligência respeitada. Mas vou tomar mais cuidado.

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE ANTÔNIO OLINTO

O jornalista João Lins de Albuquerque (foto), ex-chefe da Divisão de Língua Portuguesa da Rádio das Nações Unidas (ONU) em Nova York, tem na praça o livro Antônio Olinto – memórias póstumas de um imortal. É uma entrevista com o mineiro Antônio Olyntho Marques da Rocha (Ubá/MG 1919-Rio/RJ 2009), de quem extraiu histórias magníficas. Intelectual dos mais aparelhados que o Brasil produziu, Olinto (vejam que ele “consertou” o pernóstico Olyntho) brilhou em várias atividades, sobretudo a de professor: latim, português, história da literatura, francês, inglês e história da civilização. Seu livro Jornalismo e Literatura foi adotado em diversos cursos de jornalismo..

NOME QUE DISPENSA APRESENTAÇÕES

Antônio Olinto (foto) é uma das melhores justificativas para o lugar-comum “dispensa apresentações”. Como “apresentar” alguém que foi, com invulgar entusiasmo, professor, jornalista, crítico literário, autor de dicionários e de gramática, ensaísta, autor de literatura infantil, acadêmico (ocupou a Cadeira nº 8 da Academia Brasileira de Letras), contista, romancista, poeta – e ainda encontrou horas vagas para se dedicar às artes plásticas? É melhor não identificá-lo por nenhuma dessas habilidades, pois qualquer delas nos levaria ao pecado da omissão. Chamemo-lo, simplesmente, de Antônio Olinto. Para quem o conhece deve ser suficiente.

MURUCUTUTU, SAFADO, LUPANAR E SAUDADE

Em matéria para O Globo, Olinto perguntou a dez escritores, por telefone, qual era a palavra mais bela da língua portuguesa. Guimarães Rosa escolheu murucututu, segundo ele, uma corujinha amazônica, afirmando que “nenhum país tem uma palavra tão bonita quanto esta, cinco ´us´ numa palavra só”. Jorge Amado (foto), provocador, preferiu safado (de Safo, a poeta grega), mas Roberto Marinho vetou a publicação, o que levou o escritor a escolher outra: lupanar. “Pior ainda!”, lamentou Olinto, pois esta é que não seria publicada mesmo. Ele disse que lupanar é uma palavra bonita, mas que safado era de “um mau gosto atroz”. A vitoriosa no concurso de Globo foi… saudade.

PALAVRAS COM SEDUÇÃO E ENCANTO

Para Antônio Olinto, alegria era a palavra mais bonita da língua portuguesa. Ele conta que, em Londres, viu uma casa em cuja fachada estava escrito: “Alegria”. Sem pensar duas vezes, tocou a campainha, ouvindo de um inglês meio atônito a explicação: “Eu morei no Brasil um bom tempo e achava a palavra alegria tão bonita que, quando voltei, resolvi decorar a entrada da minha casa com ela!”. Eu tenho cá comigo algumas palavras que acho muito bonitas: encanto e sedução, por exemplo. E você, quer entrar no jogo e dizer quais as duas palavras que mais o seduzem ou encantam na língua portuguesa? Parece que cometi um trocadilho…

“FASCINANTE” CANÇÃO QUE VIROU MANIA

Fascinação enraizou-se na MPB a ponto de a gente nem lembrar que ela é francesa. De 1905, a canção só chegou à língua portuguesa em 1943, na versão de Armando Louzada, gravada por Carlos Galhardo. Foi mania nacional, aliás, mundial: teve registros de Dinah Shore, Nat King Cole, Jane Morgan (para o filme Amor na tarde, de 1957), Connie Francis, Dean Martin, Edith Piaf, Pat Boone, Demis Roussous. Entre nós, foi entoada, além de Galhardo, por Nana Caymmi, Agnaldo Rayol, Francisco Petrônio, José Augusto, Agnaldo Timóteo, Jorge Vercillo e até por uma dupla chamada Sandy e Júnior .
</span><strong><span style=”color: #ffffff;”> </span></strong></div> <h3 style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>E FRED JORGE CRIOU CELLY CAMPELLO!</span></h3> <div style=”padding: 6px; background-color: #0099ff;”><span style=”color: #ffffff;”>No auge do sucesso, em 1965, a música teve uma versão no Brasil, gravada por Agnaldo Timóteo. Como costuma ocorrer com as

A GRANDE VOZ DA NOVELA “O CASARÃO”

Em 1976, quando ninguém mais queria saber de Fascinação, a música foi incluída no álbum Falso Brilhante, de Elis Regina, e daquele momento em diante tornou-se um dos temas românticos mais presentes no repertório da cantora – com a luxuosa ajuda das novelas O Casarão/1976 e O profeta/2006, ambas da Globo, de que fazia parte da trilha sonora. Mais tarde, com sua reconhecida criatividade, o SBT também teve Fascinação como tema (e título) de novela, só que na voz de Nana Caymmi. Tem mais: em 2007, com a letra em francês, o tema foi usado em Piaf – um hino ao amor, filme baseado na vida de Edith Piaf.

VERSÃO CORRIGIU FRAQUEZAS LITERÁRIAS

Canção de amor desesperado, bem ao feitio das escolhas de Piaf, a versão brasileira é “leve”, e poeticamente mais consistente, no estilo dos nossos letristas românticos. (curiosidade: nos mais de 30 versos de  Fascination não há esta palavra nem uma vez). As fraquezas literárias saltam logo nos primeiros versos: Je t’ai rencontrée simplement/ Et tu n’as rien fait pour chercher à me plaire (algo como “Eu lhe encontrei simplesmente/ E você nada fez para tentar me agradar”). Louzada corrigiu isto, com o lirismo de “Os sonhos mais lindos sonhei/ De quimeras mil um castelo ergui”. Com (letrista) brasileiro não há quem possa. Clique e veja/ouça.

(O.C.)
Esta publicação possui 4 comentários
  1. Por conta do horário de verão e da diferença de fuso horário em quatro estados (Acre, Amazonas, Rondônia e Roraima), as pesquisas de boca de urna somente poderão ser divulgadas a partir das 19 horas.
    O horário de verão pagará para que as pesquisas sejam divulgadas a partir das 19 horas????
    Por causa da matéria publicada na semana passada, eu fico “por conta” com os erros cometidos no mesmo blog. Seu Pimenta poderia ler e aprender no seu próprio sítio. Assim ARDE.

  2. Meu caro Ousarme, é realmente lastimável o que esses “formadores de opinião” fazem com a última flor do lácio. É um espancamento diário, em que a pobre fica toda despetalada. Acho que não tem outra origem senão a aversão que esses jornalistas têm pela leitura. Não gostam de ler. No máximo leem o que a faculdade recomenda, depois de formados… já estão com o diploma, ora….
    Assim como confundem o haver com a ver, é um tal de agente onde deveriam escrever a gente, entre outros absurdos maiores.

  3. “ERRO DE DEDOS”
    No tocante aos erros – que não são “de dedos” -, é muito comum encontrá-los nos tempos atuais das mídias “webianas”. Antes, devo dizer que chamo “erro de dedos” aquele que ocorre quando se digita involuntariamente uma letra em lugar de outra.
    Os erros apontados no artigo… ops! Nesse exato momento cometi um “erro de dedos”. Digitei “artifo” ao invés de “artigo”. Como estava no Word, o corretor ortográfico me “avisou”. Mas, continuando… Os erros apontados no artigo são de falta de conhecimento do idioma. Eles são encontrados até nos sites e blogs mais conhecidos e visitados. Um exemplo é o Bahia Notícias. Os redatores daquele jornal online precisam ter um pouco mais de cuidado com o idioma.
    A GINÁSTICA LABORAL COMPENSATÓRIA (GLC)
    Ah, devo dizer algo sobre “gisnática laboral”, claro. Como profissional da área, não poderia deixar “em branco”. Na década de 20 do século passado, era utilizada pelos poloneses com o nome de “Ginástica de Pausa”. A partir de meados do mesmo século, desenvolveu-se e passou a ser largamente empregada por países europeus e orientais. O Japão é citado como o país que mais se utiliza da Ginástica Laboral. Passou a ser obrigatória por legislação específica e recebeu a nova denominação: Ginástica Laboral Compensatória (GLC).
    Hoje, constitui-se em uma ferramenta econômica, na medida em que representa garantia da saúde da mão-de-obra e da produtividade.
    Está comprovado que um trabalhador que “gaste” alguns minutos de seu horário de trabalho fazendo exercícios reparadores (compensatórios) produz mais e adoece menos.
    “NADA SE CRIA, TUDO SE COPIA”
    Quanto ao plágio e às constatações de Lavoisier, aproveito para citar coisas da nossa Marinha. Na Marinha, costumamos dizer que “Nada se cria, tudo se copia”. Essa máxima marinheira deve-se ao fato de que a documentação produzida é predominantemente técnica e recorrente. Com isso, há um riquíssimo, digamos, “patrimônio” nos arquivos sobre os mais variados temas. O que se faz necessário, em determinados momentos, é adaptar e/ou atualizar o que já foi escrito para atender a uma nova situação.
    SAFO E SAFADO & A PALAVRA MAIS BONITA
    Não começo comentando a respeito da palavra mais bonita, mas, sobre o significado de “safado”. Pairam dúvidas sobre se é derivada do verbo SAFAR (originário do espanhol “zafar”) ou da poetisa grega citada. Na Marinha (volto mais uma vez a falar da Briosa), “safo” é empregado no sentido de “esperteza”, mas não com o significado de safado, malandro. Carrega o sentido de “sair-se bem de uma dificuldade, de uma faina ou tarefa recebida; de saber esquivar-se e livrar-se de situações que exigem competência, jogo de cintura”. No dia-a-dia, marinheiros e fuzileiros costumam perguntar-se durante um cumprimento: “Tudo safo?” Tem, portanto, o mesmo significado de “tudo bem?” “tudo OK?”. O outro levanta o polegar e responde: “Safo!”. Quer dizer, tudo vai bem, está em conformidade com as normas e as ordens do dia. Por outro lado, não consigo enxergar uma relação entre o termo “safado” e a poetisa Safo. Safo, e sua ilha de Lesbos, está mais para os temas ligados sexualidade de mulheres que preferem relacionar-se com o mesmo sexo. Daí, decorrem as palavras “lésbica” e lesbianismo”.
    Por fim, penso que a palavra mais bonita é “AMOR”! Além da beleza gráfica, ela resume um sem-número de expressões que denotam virtudes do ser humano.
    ADSUMUS!

  4. Ah, ainda sobre o emprego de “safo” na Marinha…
    Quando um militar cumpre uma tarefa, uma faina determinada por um superior hierárquico, ele é obrigado a dar o “pronto” de sua execução.
    Apresenta-se ao superior que lhe “pagou” a faina e diz: “Tá safo Comandante… Tenente… Sargento!”
    ADSUMUS!

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